segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Sobre ler a morte em O Caminho de Guermantes de Marcel Proust

Há pessoas que queremos imortais; personagens também. É claro que, no caso dos personagens, sempre podemos voltar as páginas e experimentar ser Domhnall Gleeson de Questão de tempo (About Time, 2013). Mas quando o personagem amado morre bem no meio da diegese, a gente vive um luto de leitor: sabe que ele ou ela se foi, que vamos terminar o livro sem a sua presença e que sua vida ficou para trás.  Nós prosseguimos com a memória das palavras que disse, das coisas que fez, de quem amou... Um dia, voltamos à estante de casa para lê-lo como quem recorre ao álbum de família, matamos saudades. Mas no momento em que o personagem é assassinato pelo autor, nós nos perguntamos: o que fazer?
Em O caminho de Guermantes, o narrador perdeu a sua avó e nós, a nossa. Foi com essa avó que Marcel saiu de casa pela primeira vez. No segundo volume (À Sombra das raparigas em flor), foi para o balneário de Balbec sem os pais. Alguém pode me dizer que ir à praia com a avó não é bem uma independência... Mas eu vou precisar recomendar (com muito gosto!) a leitura do volume; vou precisar evocar o incrível sofrimento da criança que esperava com furor o beijo da mãe para adormecer, no primeiro volume (No Caminho de Swann); os problemas de saúde, que certamente provocaram uma proteção e vigilância maiores e a cumplicidade com a avó. Só em sua companhia o narrador protagonista pode suportar a certeza: “Pela vez primeira tive a sensação de que minha mãe podia viver sem mim, dedicada a outra coisa, com outra vida diferente” (ASRF, p.200). A avó percebe o dolorido dessa descoberta e, graças à sua sensibilidade, eu – Marcella, xará desse narrador – descobri minha própria afeição por Madame de Sévigné[1]! Em Balbec, o quarto contíguo e a possibilidade das batidinhas nas finas paredes antes de dormir garantem o sono de Marcel.
Se em À Sombra das raparigas em flor, o protagonista experimenta a liberdade, ainda que tutelado pela avó; em O Caminho de Guermantes dá passos mais ousados para a sua construção como homem. Alguns desses passos são cheios de equívocos, hesitações, cenas ridículas..., mas quem nunca? Um sinal de ruptura com a tutela se dá na viagem que Marcel faz para visitar o amigo Saint-Loup, que está em manobra. É um mundo de militares, de charutos, de bebidas, de conversas que fascinam o narrador! Em uma manhã, Saint-Loup conta a Marcel que escrevera à avó do narrador para dar notícias do neto; uma ligação telefônica é feita; a consciência da passagem do tempo o atravessa na volta: “’como envelheceu!’, eis que pela primeira vez e tão só por um instante, pois ela desapareceu logo, avistei no canapé, congestionada, pesada e vulgar, doente, cismando, a passear acima de um livro uns olhos, um olhar um pouco extraviado, a uma velha consumida que eu não conhecia” (p. 127). Começava ali a nossa despedida.
A avó do narrador não morre subitamente, nós a lemos morrer. Lemos seu abatimento, acompanhamos seu desconforto, o susto do seu ataque e o que me comoveu foi a maneira como é narrada a sua debilitação progressiva. Matar uma personagem tão importante, pela qual o narrador tem tanto apreço e sou capaz de assegurar que o autor poderia imaginar que os leitores também teriam, não é uma coisa fácil. É preciso ser genial.
Semana passada, publiquei uma coleção de fragmentos impressionantes em que sobressai uma sinceridade sem desejo de agradar (para empregar eufemismo). Nas sessões do clube do livro, muitas vezes, paramos para ler uns para os outros trechos que nos encantaram. Está claro para nós que estamos diante um grande texto, extraordinário, e eu fico feliz que sejam 7 volumes! Acho até que foi/é pouco, pois um dia vou ter de lidar com a verdade de que vamos terminar. O que me consola nessa noite de novembro é que ainda temos 4 volumes pela frente!
A promoção do protagonista como homem vai de encontro com a degeneração da avó, daí vermos Marcel um pouco exasperado com o ritmo da doente. Essa realidade não se opõe ao essencial no caso: a dignidade da personagem que morre. Ela se manifesta na narração (quem narra não é o mesmo que vive os acontecimentos...; o narrador protagonista os revoca) e na extraordinária coerência na constituição dos personagens. A última cena antes da segunda parte de O Caminho de Guermantes deixa a gente sem oxigênio: “Sorriu-me [a avó] tristemente e apertou-me a mão. Compreendera que era inútil ocultar-me o que eu logo havia adivinhado: que ela acabava de ter um ataque“ (p. 280).
O protagonista a leva rapidamente ao médico, que vaticina: “Sua avó está perdida” (p. 287). Em seguida, conduz a avó à casa da família. Sou levada a completar Barthes, para tantos fragmentos de discurso amoroso(!). A mesma mãe que “soubera viver” sem o filho para que este afinal crescesse devolve àquela a quem entregou a tutela de uma primeira liberdade a combinação rara de reverência, respeito e amor:

·        “Não queria que minha mãe notasse muito a alteração da fisionomia, o desvio da boca; minha preocupação era inútil: minha mãe aproximou-se de vovó, beijou-lhe a mão como a do seu Deus, susteve-a, carregou-a até o ascensor, com precauções infinitas em que havia, a par do medo de mostrar-se inábil e de magoá-la, a humildade de quem se sente indigno de tocar aquilo que conhece de mais precioso; mas não ergueu os olhos uma única vez e não olhou para o rosto da enferma” (p. 288);
·        “- Mamãe, em breve estarás curada, é a tua filha quem o garante.
E encerrando o seu amor mais forte, toda a sua vontade de que sua mãe sarasse, em um beijo a quem os confiou e que acompanhou com o seu pensamento, com todo o seu ser, até a borda dos lábios, foi depô-lo humildemente, piedosamente, sobre a fronte adorada.” (p. 289)

Choro novamente trazendo esses trechos para cá.
Esse Marcel Proust um dia levantou de manhã (ou não levantou, afinal escreveu deitado boa parte do texto!) com a necessidade de matar a avó do seu protagonista e deu-lhe uma morte de arrasar a gente, pelo que há de tão amoroso em quase todos aqueles que cuidam da personagem, mas, sobretudo, e quero destacar (acho a hipérbole importante no caso), pelo que conseguiu dar de dignidade a quem morre. A doença pode nos tirar muito, tudo, mas esse grande romancista não permitiu que sua personagem perdesse um milímetro de sua grandeza no caminho doloroso que teve de percorrer para morrer:

“Quando minha avó sofria assim, escorria-lhe o suor pela vasta fronte amarela, grudando-lhe as mechas brancas e, quando supunha que não estávamos no quarto, soltava gritos: ‘Ah! É horrível!’, mas se avistava minha mãe, logo empregava toda a sua energia em apagar do rosto as marcas de sofrimento, ou, pelo contrário, repetia os mesmos queixumes, acompanhando-os de explicações que davam retrospectivamente outro sentido aos que minha mãe pudesse ter escutado:
- Ah! Minha filha, é horrível ficar na cama com esse belo sol, quando se desejaria tanto sair a passeio. Choro de raiva com essas prescrições de vocês.” (p. 292)

Imaginamos a sua dor e só mesmo um personagem por quem se tem tanto respeito pode bradar por esse “belo sol” em um momento assim!
Entre a narração da degeneração progressiva da avó, imiscuem-se vários acontecimentos e considerações. É com horror que lemos o misto de insensibilidade e (/ou apenas) de despreparo com que Françoise penteia os cabelos da avó; que recebemos a visita do (este sim!) insensível Duque de Guermantes que esperava que a mãe do protagonista lhe fizesse sala enquanto a doente avançava sem desvios para o fim; que lemos considerações sobre a fama dos escritores: “Por certo acontece que unicamente depois de morto é que um escritor se torna célebre. Mas era ainda em vida, e durante o seu lento caminho para a morte, que ele assistia ao das suas obras para a Fama. Um autor morto é pelo menos ilustre sem fadiga.”(p. 294). Seria esse trecho uma interferência do autor-modelo[2]? Vejo uma ambiguidade no segundo período do trecho: a avó e Marcel Proust.
Queria voltar àquela dignidade de morrer. A avó ficou cega no seu lento percurso para a Fama, mas se esforçava para dar a quem entrava em seu quarto a ilusão da plenitude do sentido da visão. Ao ouvir qualquer pequeno barulho na porta do seu quarto, olhava sorridente na direção de quem adentrava, um olhar parado. O narrador utiliza a expressão “calma bravura de um estoico” (p. 302) e não economiza em quanto essa atitude foi testada na doença... Nenhum milagre, porém, vai beneficiar a nossa avó e é com a explosão dos soluços de Françoise que lemos afinal: “Súbito, minha avó ergueu-se a meio, fez um esforço violento, como alguém que defende a própria vida” (p. 311). Por favor, deixem-me reescrever isso: “como alguém que defende a própria vida”...
Os historiadores não têm inveja dos romancistas desde que Georges Duby escreveu Guilherme Marechal[3]! Sabemos que Duby vai até depois da evidência física na narração da morte exemplar do cavaleiro. Sabemos que a historiografia muito se beneficiou da Literatura no século XX para a construção da narrativa. Não sei se Duby leu Proust, arrisco que provavelmente, mas posso estar apenas a construir novos mitos. Todos os historiadores brasileiros leram a integralidade dos romances de Machado de Assis? Eu li, mas tive o benefício de ter sido aluna de uma grande especialista[4]! Essas coisas mudam a gente. Ora, a digressão desse parágrafo que, fora do blog, talvez fosse cortado por um bom editor, expressa a associação que fiz enquanto lia o respeito do autor por sua personagem depois do fim:

Algumas horas depois que Françoise pôde pela última vez, e sem maltratá-los, pentear aqueles formosos cabelos que apenas começavam a branquear e que até então haviam parecido de menos idade que ela. Mas agora, pelo contrário, só eles é que impunham a coroa da velhice sobre o rosto outra vez moço de onde haviam desaparecido as rugas, as contrações, os empastamentos, as tensões, as relaxações que, desde tantos anos, lhe vinham acrescentando o sofrimento. Como nos longes tempos em que seus pais lhe haviam escolhido um esposo, tinha ela as feições delicadamente traçadas pela pureza e a submissão, as faces brilhantes de uma casta esperança, de um sonho de felicidade, mesmo de uma inocente alegria, que os anos tinham pouco a pouco destruído. A vida, retirando-se, acabava de carregar as desilusões da vida. Um sorriso parecia pousado nos lábios de minha avó. Sobre aquele leito fúnebre, a morte, como escultor da Idade Média, tinha-a deitado sob a aparência de menina e moça.” (p. 311)

Cabelos jovens em um rosto sofrido; brancos, no rosto morto que remoçou; expectativa e desilusão... E vejam que esse bruxo francês, foi ele mesmo o responsável por me levar à Idade Média! Entre os túmulos de uma Saint-Denis literária, o autor esculpiu um rosto de menina no esquife dessa personagem extraordinária.   
Todo mundo conhece gente que se comportou muito mal na doença ou no fim mesmo; que magoou pessoas que amava; que se sentiu ofendido por memórias arqueologicamente recuperadas dos seus aterros sanitários interiores ou transformadas pela desrazão; gente que jamais pediu perdão. Algumas dessas pessoas foram atravessadas pela perda delas mesmas, que espaço haveria para a dignidade?... Um luxo impossível. Mas se é verdade que para Proust: “a vida verdadeira, a vida descoberta e esclarecida, a única vida, portanto, plenamente vivida, é a literatura”[5], a morte dessa personagem com quem fui a Balbec pela primeira vez e li Madame de Sévigné é um luto sentido e uma confluência inventiva para as duas avós que não conheci.












[1] Há 2 textos no blog sobre Madame de Sévigné: “Ah, sim, a senhora lê Madame de Sévigné” (parte 1) e “Ah, sim, a senhora lê Madame de Sévigné” (parte 2). Procure em “Sévigné”.
[2] Categoria de presente em: ECO, Umberto. Seis passeios pelo bosque da ficção. Tradução de Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
[3] Obra: Guilherme Marechal ou o melhor cavaleiro do mundo.  
[4] Profa. Dra. Marta de Senna, grande amiga e grande mestra.
[5] BORREL, Anne, NAUDIN, Jean-Bernard, SENDERENS, Alain. À mesa com Proust. Tradução de Ana Luiza Borges; Fernando Py; Maria Cecília d’Egmont. Rio de Janeiro: Sextante, 2013. p. 11.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O SUPER SINCERO MARCEL PROUST

Em O Caminho de Guermantes, 3º de Em busca do tempo perdido, sobretudo na segunda metade do volume, frequentamos o meio mofado que estraga os mais promissores talentos antes mesmo que floresçam. Ocupamos os cantos dos salões, em jantares povoados por conversas vazias em que até os mais interessantes escritores são citados em suas páginas menores... Mas em meio a tudo sobressai uma sinceridade que merece atenção:

·  Sobre quando as comparações arrasam o que é “excepcional”: “O espírito dos Guermantes (...) era uma reputação como as salsichas de Tours ou os biscoitos de Reims” (p. 411).

·        Sobre nada que preste: “Se naquele salão haviam ficado enterradas para sempre tantas ambições intelectuais, e tantos nobres esforços, das suas cinzas, pelo menos, havia nascido a mais rara floração do mundanismo”( p. 413).

·        Sobre ser sincero com surpresa: “Pouco interesse tinha essa frase de Bloch, mas eu a recordava como prova de que às vezes na vida, ante o choque de uma emoção excepcional, nós dizemos o que pensamos” (p. 453).

·        Sobre ser extemporâneo ou culpado mesmo: “É verdade que se fazem às vezes para os mortos coisas que não se fariam para os vivos” (p. 454).

·        Sobre arrebentar um elogio...: “- Que deliciosa criatura era ela...
- Sim, meio louca, um pouco insensata, mas era uma boa mulher, uma louca muito amável; só não compreendi jamais por que nunca havia ela comprado uma dentadura que se mantivesse firme....” (p. 456).

·        Sobre não saber do que o outro está falando e se entregar: “A princesa de Parma, que ignorava até o nome do pintor, fez violentos gestos de cabeça e sorriu com ardor, a fim de manifestar a sua admiração por esse quadro. Mas a intensidade de sua mímica não conseguiu substituir essa luz que permanece ausente de nossos olhos enquanto não sabemos de que nos querem falar” (p. 466).

·        Sobre prometer e não cumprir: “Eu tinha imaginado para o senhor coisas infinitamente sedutoras, que me guardara de revelar-lhe” (p. 498).

·        Sobre motivação: “É inaudita a fúria das pessoas de uma religião em estudar a dos outros” (p. 514).

·        Sobre os Guermantes e muitos mais... por Swann: “Primeiro porque no fundo toda essa gente é anti-semita” (p. 519).

·        Sobre não ter nada na cabeça: “Sempre é preciso que tenham uma opinião sobre tudo. Então, como não têm nenhuma, passam a primeira parte da vida a perguntar as nossas, e a segunda a no-las resservir” (p. 524).

·        Sobre ser cínico ou sem noção: “Há noites em que a gente preferia morrer! É verdade que morrer talvez seja igualmente aborrecido, pois não se sabe o que é” (p. 525).

·        Sobre o desencontro conjugal: “ – Mas onde vão meter uma tetéia [fotografia] desse tamanho?
- No meu quarto; quero tê-la diante de meus olhos.
- Ah, como queira; se fica no seu quarto, tenho a chance de não vê-la nunca” (p.531).

·        Sobre ser humano na aparência: “Colocada pela primeira vez na vida entre dois deveres tão diferentes como subir ao carro para ir jantar fora e testemunhar piedade a um homem que vai morrer, não encontrava nada no código das conveniências que lhe indicasse a jurisprudência a seguir e, não sabendo a qual dar preferência, julgou que deveria fingir que não acreditava na segunda alternativa, obedecendo assim à primeira, que demandava naquele momento menos esforço” (p. 532).

Se alguém me perguntar qual dessas sinceridades obtusas é a minha favorita, eu devo confessar que espero que, em Sodoma e Gomorra, o Barão de Charlus cumpra as suas promessas...rsrsrs Mas O Caminho de Guermantes é muito mais que essa coleção chocante de franquezas. É o volume que narra uma perda muito sentida pelos leitores. Fica para a semana que vem. 


segunda-feira, 7 de novembro de 2016

O Bar do Feio

Perto da casa de minha mãe, havia um bar, chamado Bar do Feio. Pouco depois que ela se mudou, um dia em que fui levá-la à sua casa, já tarde da noite, ela me disse: - Vira aqui à direita. Lá na frente, no Bar do Feio, você dobra à esquerda. - Bar do feio? Ri. – É. Riu.
Pertenço a uma família de excelentes motoristas, desbravadores de novos caminhos para onde quer que se deseje ir. Até os parentes que não dirigem são Ótimos motoristas, sempre com uma sugestão na ponta da língua. Minha mãe já abandonou o caminho do Bar do Feio, mas eu continuei muito apegada a ele. Mesmo quando eu já não precisava mais prestar atenção na referência, eu o saudava antes da dobrada. Dia desses, perdi o Bar e culpei a minha distração. Outro dia, mais aplicada, descobri que o Bar não existe mais e que o imóvel fora pintado com um amarelinho imperdoável.
Nunca entrei no Bar do Feio. Mesmo em minhas andanças pelo bairro – eu e minha mãe moramos a umas dez quadras de distância, no mesmo bairro – sempre encontrei o Bar fechado. Nenhum problema, afinal essas minhas andanças costumam acontecer pela manhã e, pelo que já percebi em saudações diversas, o Bar do Feio tinha outro relógio. Nunca soube o que era vendido ali. Sorte minha que tenho razoável imaginação para preencher suas estantes com coloridas bebidas de múltiplas preferências (minhas e de outras pessoas, em etapas diferentes da vida...); povoar o seu interior com mesas de quatro cadeiras; colocar um balcão espelhado ao fundo meio escuro, em que sobressaíam os clássicos: lindos ovos cor de rosa, azuis, verdes..., coxinhas gordas, quibes tão robustos quanto suas irmãs de exposição. Imagino que alguém secaria os copos em aparente distração, mas atentíssimo à contabilidade das doses. Vejo o quadro de preços com letras móveis, para facilitar a atualização. Não, não imagino sonhos, afinal há o carro que passa à tarde, anuncia-os e tira o meu sossego quando estou concentrada no escritório de casa. Acho que no Bar do Feio não eram vendidos sonhos, só imagino.
Desde aquela primeira vez em que fui levar a minha mãe e o Bar virou ponto de referência, eu me encantei com o misto de singeleza e sinceridade daquela esquina. Ninguém pichou a acusação. O nome do bar fora pintado diretamente acima da sua entrada, sem a necessidade de placas, em letras pretas. Alguém fez um plano, mediu, subiu em uma escada e pintou. Refleti algum tempo sobre o Feio: o dono? O seu pai? O seu melhor amigo? O seu sócio? O seu amor? Uma brincadeira? Estava bem escrito o nome do bar.
O Bar do Feio fechou. Acho que todo mundo pode imaginar o quanto a minha própria imaginação construiu explicações para o encerramento das atividades. 2016 vai ficar na minha biografia como um ano em que enxuguei lágrimas abundantes (minhas e dos outros) de sonhos abandonados e não posso deixar de pensar que entre imaginar o Feio resolvido a ser o Admirável ou o Gato no consultório de um cirurgião plástico e imaginar que ele faliu, eu tendo a achar que o Feio pode ser hoje o Devedor ou o Triste.
Há singeleza no amarelinho da nova fachada. Mas a nova cor cobrindo a sinceridade não instituiu para mim uma realidade muito significativa... Sou capaz de abandonar até aquela rua e me deixar levar por novos roteiros familiares. Agora me ocorre uma esperança: o Feio teria encontrado um ponto mais atraente? Calculará nesse momento o tamanho das letras em relação à nova fachada? Espero que diminua a distância entre o substantivo e a preposição com artigo e vire poeta de vez. Está aí um novo esforço para essa semana: encontrar o Feio e comemorar (com uma dose ou duas) a sua obstinação.





segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Hum... Nasce uma estrela!

Nesse outubro que finda hoje, nos dias 18, no Rio de Janeiro, e 25, em Curitiba, o Diretor da Hum Publicações FRANCISCO SOUSA nos deu a conhecer a sua coleção Mediações. Trata-se de sete livros entre 50 e 80 páginas em que a leitura é a estrela principal. Assinam as sete obras especialistas nessa astronomia: Eliana Yunes (Professor leitor: uma aprendizagem e seus prazeres); Alessandro Rocha (Formação de mediadores de leitura: o sentido entre o texto e seu leitor); Maria Clara Cavalcanti (Formação do leitor: uma questão de jardinagem); Gilda Maria Richa de Carvalho e Thatty Castello Branco (Leitura no trabalho: destravando línguas, olhares, pensamentos); Rosana Kohl Bines (Que histórias contar para os filhos); Rubén Pérez-Buendía (Roteiros de leitura na escola: da biblioteca escolar à sala de aula) e Marta Morais da Costa (Hoje se lê o espetáculo? Lê, sim, senhor!). Dia 25 de outubro, estive no charmoso Marbô Bakery para abraçar bem apertado o meu querido Francisco, ex-aluno e página de um dos meus livros[1], e minha amiga, Profa. Marta Morais da Costa, que há muitos anos atrás me deu um emprego que larguei depois. Deixei o emprego, mas ela... Comprei minha coleção, ganhei autógrafo e comprei um volume em separado para dar de presente à Professora da Clarinha. De quebra, abracei meus queridos Jeferson Freitas, Juliana Sanson, Júlio Röcker, Jurema Ortiz, em ordem alfabética para não despertar ciúmes – minha biografia é cheia de Js! – e Luiz Lucena.
Passei a semana envolvida com muitas leituras, mas não resisti ao convite de dois volumes em especial: o de Rosana Bines, pelo título atraente, e o da amiga Profa. Marta, pelas razões do coração.
Que histórias contar para os filhos? se abre com um aparente paradoxo: “não importa tanto o livro que se tem em mãos” (p. 10), mas quer falar mesmo das histórias que enfeitiçam pelo seu potencial sonoro. A experiência da autora no Instituto Benjamin Constant é evocada desde a dedicatória, parece ter sido a sua inspiração. O livro está organizado em faixas (como em um disco) e para uma historiadora que reflete sempre a respeito da apresentação da pesquisa histórica, achei genial a sintonia! Sobre o aparente paradoxo, ele é desmontado na alusão à cena de leitura e quem lê para as crianças em casa sabe o quanto a cena é importante: o aconchego, o tom da voz, o ritmo, o encadeamento entre uma história e outra... Eu confesso, porém, que quando li esse “não importa tanto”, lembrei de imediato (e com graça) de quando a Clarinha era bem pequena e eu às vezes lia os textos historiográficos e filosóficos de minha necessidade para ela, como quem conta Fada Cisco quase nada[2]... Estou imaginando o “horror” dos que me leem agora: eu, a mãe absurda, a impor à minha pobre criança os densos conteúdos da falsafa, das cruzadas, da peste negra, na hora de ninar!!!!! A verdade é que eu tenho sempre muito a ler e tenho sempre muito de estar com ela, portanto: “Com nossos filhos por perto, como não fazer deles o alvo de nossos afagos e afetos?” (p. 30). Mas um dia, ela começou a entender que, em algumas noites em que eu parecia ainda mais atarefada, o enredo lido não tinha nada a ver com as aventuras de Babel e Pepe[3], aí eu tirei o Averróis de seu quarto.
Rosana Kohl Bines compartilha com os leitores a seleção que mora em sua bolsa amarela[4], fundada do potencial sonoro das histórias e isso faz com que a obra seja muito generosa para professores que acreditam nesse potencial e gostariam de ampliar o próprio repertório. Algumas dessas histórias eu conhecia e outras eu experimentei com a Maria Clara na semana que passou, nós duas pela primeira vez. Hum..., uma delícia!
Há um momento muito especial do texto em que a autora afirma: “E nunca é demais lembrar que quem lê em voz alta é também ouvinte das histórias que conta e habitante das paisagens sonoras que delas emanam” (p. 61). O que Rosana quer dizer com isso? Que o prazer visado (o desejo de afetar as crianças) se engrandece no inesperado contentamento de ouvir a própria voz contadora. O movimento de dar e receber é sempre a essência da felicidade no amor.
Em Hoje se lê o espetáculo? Lê, sim, senhor!, Marta Morais da Costa não dá bola para a dificuldade (que, entretanto, reconhece existir)de se propor a leitura do texto dramático aos leitores aprendizes, isto porque no exercício do magistério constatou que, superada a falta de familiaridade inicial, a sensação de vitória – “Ah, agora entendi!” (p. 10) compensava todo o resto. Mas qual é o sentido dessa vitória? A conquista de um prêmio pontual?
A tarefa da leitura decodificadora do texto dramático é, portanto, mais atribulada e de maior exigência das capacidades do leitor: para que a interpretação possa se formar com qualidade, ele deverá construir e acionar imagens mentais complexas. Ele precisa criar um espetáculo mental, uma representação teatral ao mesmo tempo em que procede, como na leitura dos demais gêneros textuais, às ações de previsão, de relação, de confrontação, de ajuste, de confirmação ou de alteração de seu horizonte de expectativas (p. 22). 

A leitura do texto dramático, portanto, colabora de forma muito particular para o amadurecimento do leitor e um ótimo exemplo vem quatro páginas depois do trecho acima citado, quando a autora pede aos seus leitores que “embarquem” na proposta de colocar-se na posição de testemunha de uma cena de amor, de um acidente ou de uma aula: “cada um dos participantes tem sua fala, sua dose de emoção, seu ponto de vista” (p. 26). Há um saber muito importante, profundo e necessário que mora entre a consciência dos múltiplos pontos de vista e tudo o que o texto dramático proporciona: a possibilidade de experimentar ver a vida de vários ângulos diferentes ou de colocar-se “simplesmente” no lugar dos outros, como preferirem!
Os planos simultâneos que o texto dramático descortina, ou seja, “ao mesmo tempo[5] alguns personagens jogam cartas, outros duelam e outros, ainda, namoram” (p. 32), fortalecem de forma lúdica a empatia. Enquanto eu lia esse trecho, evocava outra Martha(minha vida é cheia delas!), a Nussbaum, de Sem fins lucrativos[6]:
As escolas são apenas uma das influências sobre a mente e o coração em formação da criança. Grande parte da tarefa de superar o narcisismo e desenvolver a preocupação com os outros tem de ser feita dentro da família; além disso, os relacionamentos no interior da cultura de iguais também desempenham um papel influente. (NUSSBAUM, p. 45).

Precisamos ler mais textos dramáticos em casa. Envolver as crianças nessa multiplicidade de planos simultâneos para a fruição decerto e sobretudo, mas também para ver mais e melhor os outros. Cada um pode ser um personagem, depois trocamos e experimentamos ser outros, em casa com os nossos!
Marta Morais da Costa afirma que no texto dramático, “o personagem é garantia da unidade do relato” (p. 56). Isso significa que para não se perder, é preciso seguir as pegadas dessa pessoa que mora no texto e anima o palco, ter atenção a todos os seus gestos! E sem que eu tivesse temido “forçar a barra”, ela mesma resolveu a minha timidez:
o que sabemos sobre as pessoas? Para conhecê-las é preciso, aos poucos e a partir de atos, conversas e relatos de outras pessoas, construir uma ideia sobre esse ser humano. Mesmo assim, continuará a haver lacunas, falhas e imperfeição no retrato que faremos de alguém (p. 58)

Há muita sintonia entre a obra de Rosana Kohl Bines e Marta Morais da Costa. Nussbaum parece pensar como nós: “As histórias aprendidas na infância tornam-se elementos poderosos do mundo que habitamos como adultos” (NUSSBAUM, p. 36). Levando-se em conta as histórias propriamente ditas, a surpresa da própria voz, a importância das cenas e a vivência da multiplicidade de personagens, essas primeiras meditações que escolhi ler pelo título e pelo coração me fizeram pensar no estranho fenômeno de ter confundido o título da coleção Mediações com Meditações... 

Para quem quiser conhecer a coleção:
·        http://colecaomediacoes.com.br/
·        https://www.facebook.com/hum.publicacoes/


Epílogo: quem leu esse texto na 2a, dia 31/10, percebeu que eu confundi os títulos e que chamei o tempo todo a coleção pelo gênero de "caderno de notas" de Marco Aurélio... Estranhos fenômenos de leitura!



[1] O rosto bonito e franco de Francisco é a página 17 do volume 4 (1º semestre) do Livro das coisas para guardar: Histórias para conhecer, da solução educacional Tempo, assinado por mim e publicado pela Ed. Positivo, em 2013.
[2] De Sylvia Orthof, ilustrado por Eva Furnari.
[3] De Um Gato marinheiro de Roseana Murray, ilustrado por Elisabeth Teixeira.
[4] Referência ao clássico de Lígia Bojunga.
[5] O destaque é do texto de Marta.
[6] Em 5 de outubro de 2016, publiquei aqui no blog um texto sobre a MP do Ensino Médio: http://literistorias.blogspot.com.br/2016/10/tenho-uma-ou-duas-palavras-dizer-sobre.html em que me referi sobejamente à obra de Martha Nussbaum. É um livro que vale muito a pena ler! 

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Compartilhar o pão com os colegas de outros departamentos - crônica da vida acadêmica

Semana passada todos os colegiados de que faço parte na Universidade convocaram reuniões. Em dez anos como docente na UFPR, isso ainda não tinha me acontecido. Fui a todas, até coordenei uma das reuniões. Na 6ª feira, eu estava exausta e, quando cheguei à última reunião convocada pela coordenação da Nutrição, às 8:30 no Campus Botânico, entrei em uma sala tão surpreendente que pedi para tirar uma foto. Minha timidez me levou a provar exclusivamente o chá, servido em garrafas de vidro que deixavam visíveis flores e outras folhas com as quais o chá fora preparado. Flores e folhas comestíveis. Olhei ao meu redor: em um tapete colorido, mudas de ervas e temperos... Se eu cheguei às 8:30, quem preparou tudo aquilo chegou a que horas? Foi dormir às...?
Eu sou representante do Departamento de História nos cursos de Nutrição e Turismo. Neste, sou representante há muitos anos e já não atuo no curso há outros muitos! No caso de Nutrição, desde que assumi a disciplina de História e Cultura da Alimentação, achei que devia participar das discussões, conhecer meus pares e dar-me a conhecer. Ano passado, requisitei uma reunião para mostrar o programa, para contar o que afinal estava fazendo com os alunos. Em ambos os cursos, participei e participo de debates estratégicos, como a reforma dos cursos.
Eu aprendi/ aprendo muito com meus colegas de outras áreas. Aprendo sobre o que consideram essencial para a formação dos alunos; eu conheço seus projetos; eu rio de suas brincadeiras; apoio suas lutas, nossas...; eu falo e sou ouvida. Aprendo com meus colegas sobre a universidade que estamos construindo no dia-a-dia: para os alunos, para nós mesmos, para os funcionários e para a comunidade que nos cerca, onde estamos, onde atuamos, que confia em nós os seus filhos. Sou-lhes grata.
Aprendo e tenho empatia. Em maio, eu me lembro do choque no rosto de meus colegas de um dos colegiados por causa da perda de uma de suas alunas. Eu sofri com eles, já perdi alunos... É uma desesperança. Vi como se debatiam para compreender, vi como procuravam se apoiar e acompanhei com grande interesse seus esforços por pesquisar serviços oferecidos pela universidade que pudessem auxiliar os estudantes em suas dificuldades acadêmicas e psicológicas. Graças à sua pesquisa, eu conheci serviços importantes da PRAE, cujos psicólogos foram até conversar conosco em uma reunião, a pedido do coordenador. Não demorei a compartilhar com uma das coordenações de História minhas descobertas. Sei que essas informações já foram divulgadas junto a alguns estudantes de meu próprio departamento.
Na 6ª feira passada, a coordenação de Nutrição tinha planejado uma dinâmica que iria das 8:30 às 12:30. Eu saí antes, tinha de dar aula às 13:30 em outro campus! Mas enquanto permaneci, trabalhei à beça. Lá pelas 10:00, uma paradinha para varrer a timidez em grupo. Fui direto para a mesa do bolo, e tinha bolo de limão! Peguei um pedaço. Inebriada, disse a uma colega que o bolo estava uma delícia e ela me contou que o fizera, na noite anterior. Eu fiquei meio idiota, repetindo o quanto o bolo estava ótimo. Peguei outro pedaço. Hora de voltar ao trabalho. Encerramos os registros e eu saí. Não acompanhei a apresentação do meu grupo.
Enquanto voltava para casa, pensando no tempo que teria para dar almoço à Maria Clara, pentear seus cabelos, comer qualquer coisa (pouco, afinal...), fiquei a pensar na minha colega que tinha feito o bolo. Imaginei-a chegando exausta à sua casa, na noite anterior, largando a bolsa no sofá, mandando filho para o banho, papeando com o marido sobre o jantar, sobre o dia... Imaginei-a untando o tabuleiro, ralando o limão para garantir as casquinhas que eu adoro nos pedaços açucarados; imaginei-a pegando a batedeira, misturando os ingredientes; forno; banho rápido para não botar tudo a perder; imaginei-a já de pijama, desinformando, cortando e acomodando na travessa para o dia seguinte; imaginei-a voltando ao escritório para corrigir umas provas, passar a aula de 6ª feira. Eu esqueci de agradecer à minha colega esse esforço, esse tempo consagrado aos colegas da labuta diária, o tempo consagrado a preparar o meu bolo favorito na vida!
No colegiado de Turismo, nós nos sentamos lado a lado, em torno de uma grande mesa. Vemos a todos, todos nos veem. Já cantei parabéns; nunca deixei de comer bolachinhas deliciosas também e chamo meus colegas pelos apelidos que têm: Lu, Marga... Será que fico nos colegiados por causa do lanche? Bem, todo mundo sabe que sou gulosa... Na última 4ª, eu me encontrei com o coordenador do curso na Casa das Bolachas, ele comprava canelinhas[1] para a reunião. Eu pedi bolachas de queijo. Ele tirou a carteira do bolso e pagou tudo. Dinheiro dele, que eu sei bem o que custa a ganhar, porque sei bem o quanto se trabalha... Como chegamos juntos e mais cedo, sentei-me em seu gabinete à vontade, usei seu computador. Na sala de reuniões, ostentação: “nossas” bolachinhas não eram as únicas e ainda chegou bolo! Há algo muito belo (muito forte), quando em torno de uma mesa compartilhamos o petit four!
O verso da inesquecível Kátia do nosso cancioneiro popular - não está sendo fácil... – tem feito muito sentido no Brasil em que vivemos e trabalhamos. Estar na companhia dessas pessoas, entretanto, me revigora. Seus saberes tão diversos dos meus me desafiam e a sua gentileza me comove. Eu nunca tomei um chá tão lindo (e que delícia!) quanto o que tomei na última 6ª feira, preparado por alguém que tem como nome um país! Sei que meus colegas de Departamento não têm ciúmes, porque devem experimentar (nas suas próprias representações) sensações semelhantes. Nessa segunda-feira, a labuta recomeça e minha gratidão vai toda aos colegas de outros departamentos que me dão a honra de partilhar de suas discussões e de seu pão.

Epílogo: “não pode haver uma mesa comum para os que não partilham do modo de vida” (lição de Isidoro de Sevilha, aprendida com meu amigo Renan Frighetto.


Linda imagem retirada de : http://www.imagens.usp.br/?p=15214



[1] Bolachas envolvidas com canela, com recheio de goiabada... 

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Preguiça ou acídia? Ponderações com o rei de Portugal D. Duarte (1433-1438) – Café Filosófico 2016

Prólogo:
Em fevereiro deste ano, o colega Prof. Wilton Borges dos Santos me convidou para participar de uma sessão do Café Filosófico, uma parceria entre PUCPR, Aliança Francesa e Café Babette. O Café Filosófico de 2016 seria consagrado aos pecados capitais e para mim ficaria o pecado da PREGUIÇA. Assim, na última 6ª feira, dia 7 de outubro de 2016, diante do lotado e charmoso salão do Babette, eu e o colega Prof. Dr. Cauê Krüger, conversamos sobre esse pecado “invejado”... Será?
Abaixo, divido com os leitores do blog os apontamentos que me guiaram. Não publico uma conferência (pois não era essa a proposta), mas notas sobre o que pude pensar do ponto de vista da História Medieval.


Café Babette, 7 de outubro de 2016

Agradecimento ao convite feito pelos organizadores, na pessoa do Professor Wilton Borges, a oportunidade de participar da parceria entre PUCPR, Aliança Francesa e Café Babette.
Agradecimento ao público, que não teve preguiça e teve generosidade.
Minha experiência com o tema dos pecados capitais não é exaustiva, mas é alguma, como medievalista, leitora ocasional de Tomás de Aquino, mas, sobretudo, como alguém que pesquisou uma obra singular, onde encontramos uma discussão importante sobre o tema, na Idade Média. Falo do Leal Conselheiro, escrito pelo rei de Portugal D. Duarte (rei de 1433 a 1438). Em 2004, eu participei do Seminário Internacional Os Pecados Capitais na Idade Média, promovido pela PPG de História da UFRGGS, pelo Departamento de História da mesma instituição e pela Secretaria de Cultura de Porto Alegre. Em 2005, escrevi sobre a soberba e sobre a acídia, justamente[1]. Guardem essa palavra.

Preguiça boa? Pecado leve e pecado duplo.
Ai, ai, que preguiça,
Que preguiça boa!
Passo o dia à toa
Sem me dar notícia.

Só, numa canoa,
Contemplando alturas,
Pensando em branduras,
Nada que me doa...

Páginas futuras,
Ecos do passado,
Nada turve o estado
De calmas doçuras!

‘Stando assim parado
Neste eterno instante
Algo que é intrigante
É-me revelado:

Todo ser pensante,
Tendo assim pensado,
Sofre tanto o fado
De não ser constante,

Que no desagrado
Da verdade dura
Perde a belezura
De ser limitado.

Eis que não me apura
Se tu me caçoas
Porque teço loas
A essa loucura:

Passo o dia à toa
Sem me dar notícia.
Ai, ai, que preguiça,
Que preguiça boa![2]

Aqui, parece que a preguiça é uma coisa positiva que proporciona ao eu poético contemplar alturas, refletir “em branduras” e ter revelação sobre a perda “da belezura”. É uma preguiça muito ativa, afinal!
No livro Pecados, organizado por Eliana Yunes e Maria Clara Lucchetti Bingemer, Bartolomeu Campos Queirós, autor de uma fantástica obra consagrada às crianças, perguntou-se na introdução da resposta ao convite para falar do tema: “Como descobriram que sou preguiçoso?”[3]. Mas, logo depois, esclareceu que não reconhecia a preguiça como um pecado: “Acho que preguiça é uma graça que Deus dá a determinados filhos. É que quando se vive profundamente em preguiça estamos interditados para praticar qualquer outros pecados”[4]. Bartolomeu, entretanto, reconhece qualquer relação entre a preguiça e a depressão: “Muitas vezes, o que nos imobiliza é a dificuldade de justificar o sentido de estar no mundo”[5].
Oswaldo Giacóia Jr que esteve em Ctba ano passado, em junho para falar sobre as políticas do perdão, em iniciativa da PUCPR (estive lá para vê-lo), também falou sobre a preguiça um em café filosófico acontecido em 2014[6]. Começou mencionando a mesma palavra que pedi a vocês para guardarem: a acídia, e abordou o perigo dessa falta nos religiosos, quando liam... Como ele compreende a relação afinal entre acídia e preguiça? A acídia tem como filhas a melancolia (que gera a insatisfação, pela falta de sentido) e a preguiça (que gera a improdutividade). Giacóia vê na Modernidade que a associação da nobreza ao trabalho empurrou a preguiça à marginalidade; eu acrescentaria que, na Modernidade, o que era uma consequência sobrepujou o princípio. Sorrindo, Giacóia compreende o ócio e a preguiça como reações à alienação do utilitarismo (nisso, junta Georges Bataille à discussão), ou à barbárie civilizacional. Menciona a arte e afirma que sua fruição exige sossego.  Contra essa necessidade, há a consciência dos laboriosos e o consumo ininterrupto.
Mas a argumentação de Giacóia, certamente sofisticada e brilhante, revela para o historiador um fenômeno interessante da Modernidade, como certos pecados viraram virtudes. O poupador não é avarento, mas precavido; os gulosos foram redimidos pela  gourmetização da vida; pessoas ostentam em redes sociais sua adesão a políticos que propalam a violência e estão sempre com a expressão de que vão cometer um crime; somos fãs de Cinquenta tons de cinza; perdoamos o colega com autoestima exacerbada; invejamos a preguiça (ora, dois pecados em 1!!!). Fora a maneira como algumas virtudes viraram pecados... Pode ser tema para outro café filosófico... 
Como medievalista, convido vocês à enumeração de Tomás de Aquino dos pecados capitais. São eles, então, vaidade, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e acídia. Cadê a preguiça???? O professor Jean Lauand lembra: “O atual Catecismo da Igreja Católica apresenta como pecados ou vícios capitais: soberba, a avareza, inveja, ira, impureza, gula e preguiça ou acídia”[7]. Opa, ou!  A Modernidade substituiu a acídia pela preguiça. Segundo Lauand, “não há conceito ético mais desvirtuado, mais notoriamente aburguesado na consciência cristã, do que o de acídia.” Mas alguém poderia ver na substituição não um desvirtuamento, mas a reabilitação da pobre tristeza...
Eu deixo por um momento essa reflexão com vocês, para levá-los à Idade Média e a um contexto em que acídia e preguiça comparecem em um comovente relato, sobre a doença de um rei. Esse rei não é personagem de romance, embora pudesse ter sido, ou seja, é um rei cuja existência é fundada na verdade. Acídia e preguiça compararem no trecho mais autobiográfico de uma obra chamada Leal Conselheiro. Seu autor é D. Duarte.

O rei D. Duarte (1433-1438) não é uma individualidade esquecida pelos estudos históricos; os estudos literários e os filosóficos também não o ignoram. Todos esses campos parecem concordar que o período exíguo de seu reinado não ensombrou a sua obra, quer seja doutrinal, quer seja a do exercício efetivo do poder, ainda no reinado de seu pai, D. João I. Primeiro rei da nova dinastia que não precisou mais lutar pela sua legitimidade, beneficiado pelas lutas e longevidade do pai, D. Duarte pode dar-lhe continuidade e se entregar a outras realizações que não apenas o monte, a caça e o poder. Desde muito cedo, associado pelo pai à governação, quando foi alçado à condição de rei, sabia tudo do “emprego”. Foi o rei que nomeou Fernão Lopes (1385-1460) para um ofício novo no reino, o de cronista régio, e é possível que a escrita da história de forma direta, ou seja, a cargo de seu próprio ditar, não estivesse excluída de seus projetos pessoais. A nomeação de Fernão Lopes pode significar a impossibilidade de se dedicar ao ofício em meio às obrigações principescas e régias. D. Duarte foi um rei legislador, ainda que a energia tenha sido maior enquanto infante. Teve seu curto reinado atravessado pelo desastre de Tânger (1437), que haveria de ser fatal para o infante D. Fernando, seu irmão mais novo, e também para a própria construção da memória do monarca, negativa e ironicamente tecida a partir de um labor que criou em Portugal, o de cronista. Refiro-me à sua detração narrativa realizada pelo cronista Rui de Pina[8]. Entre as muitas coisas que Pina não poderia negar, porém, destaco a formação “de alto nível”[9] do rei, bem a como de seus irmãos.[10]

O rei é autor do Leal Conselheiro, obra que me interessa hoje aqui, mas também do Livro da Ensinança de bem cavalgar toda sela e do Livro dos Conselhos. O que é essa obra, Leal Conselheiro? Um tratado para o bom regimento das consciências e vontades. Escrito por requerimento da esposa do rei, a rainha D. Leonor, a partir da observação da vida, para elevação das virtudes, daí ser necessário abordar os pecados... O que é mais espetacular nesse livro, e eu me junto a muitos autores que ressaltam isso, é a maneira como a experiência pessoal do rei comparece. Portanto, depois de conceituar a tristeza a partir dos sábios autorizados, o rei revela como foi doente do humor menencórico.
No capítulo 18 da obra, há um aspecto que eu também desejaria que guardassem: D. Duarte reconhece que a tristeza pode advir do desejo de perfeição e por isso esse tipo de tristeza seria “bom”... Por outro lado, como falta, ela nasce do medo da morte; da sanha não vingada; do desejo não realizado; do nojo da perda; da saudade; da doença (caso do humor menencórico); da insistência em uma conversação triste; no cuidado exagerado e na desesperança. Destaco que D. Duarte reconhece que a depressão é uma doença.
D. Duarte afirma ter ficado três anos doente; desejou escrever para que sua experiência (o que inclui a experiência da cura) pudesse ser exemplo e dar esperança. Lembremo-nos que a desesperança é uma das causa da tristeza e agravamento a doença.
Por que D. Duarte ficou doente? Porque fez coisas demais; assumiu muitas tarefas; era muito jovem; não estava preparado... Quando o pai lhe passou os encargos, não soube equilibrar o que tinha a fazer ao necessário desenfado. A situação foi agravada por outros fatores externos, como a ciência de que a peste atingia pessoas próximas (sua própria mãe). Um primeiro sinal da doença foi uma dor na perna; depois, um medo agudo de morrer (possivelmente, ataques de pânico).
No minucioso relato do rei, há, porém, confiança. D. Duarte afirma ter se curado. Como o fez? Não se afastou das formas de seu viver; cuidou pessoalmente da mãe e achou que se Deus dava tanta pena a seu coração era para corrigi-lo dos seus pecados. Para a cura, é preciso esforço, paciência e virtude. D. Duarte tem confiança. O Leal Conselheiro é uma obra comovente pelo desvelamento detalhado da doença, a partir do próprio doente, e pela esperança consumada na cura. O rei menciona também o conselho dos médicos. Preocupa-se com o corpo, sua coleção de mezinhas no Livro dos Conselhos é prova disso.
D. Duarte é um especialista da tristeza e, sobretudo, do sentido de enfermidade... Como traz a preguiça ao debate? Um dos elementos de cura do humor menencórico é o desenfado, ou seja, a distração necessária ao corpo e à alma. Ora, alguém poderia confundir isso com preguiça. Mas o rei afirma que só há pecado se deixamos de fazer o que é preciso, ou seja, desenfadar-se, distrair-se é necessário, mas é preciso cumprir as tarefas que nos cabem. Afirma que da preguiça vem começar, continuar e acabar as coisas mal, tarde ou fracamente, quando bem e cedo elas deveriam ser feitas. São seis as suas causas: fraqueza; querer uma vida sem trabalhos; postergar as coisas; ser distraído e se entregar a obras sem proveito ou a fantasias; esquecer o que há para fazer e ser desleixado (Capítulo 26). A preguiça ainda facilitaria outros pecados, como a cobiça, ou seja, se alguém tem preguiça de fazer seu trabalho – o rei exemplifica com o trabalho nos campos – pode roubar e mentir para se satisfazer e para se satisfazer de forma desordenada.
D. Duarte tem muito cuidado em definir desenfados... e cita a leitura como uma atividade de saudável proveito. Mas se refere a uma leitura especial, como a dos “livros de ensinamentos” e sutilmente levanta a questão de alguém achar que ele se dedicava demais a isso... Menciona a atividade de escrita como outro bom emprego do tempo – quase um metatexto, na medida em que O Leal Conselheiro é um livro de ensinamentos... O rei se põe em uma linhagem de reis autores (alça seu irmão Pedro, o Duque de Coimbra, ao patamar de comparação com Salomão...) que se preocuparam com o conhecimento e com o conselho.
Se o desenfado é necessário, estar assoberbado, portanto, não é virtude. O rei cita o exemplo de Marta (sobre quem já escrevi no blog, um texto chamado “Papo entre amigos – sobre um fragmento de Lucas”), que estava ocupada com diversas tarefas, quando uma só era necessária.
D. Duarte nos cobra, portanto, equilíbrio e foco. Entende a tristeza como um pecado que até pode nascer da virtude, mas sempre tira a força do coração; a depressão como doença e a preguiça como desvio das obrigações. Não constrange ninguém com a sugestão de que só devemos trabalhar; demonstrou com a sua experiência que esse desequilíbrio pode virar doença e recomenda o desenfado, a diversão (não a preguiça) como dieta saudável. Em tudo isso, seu Leal Conselheiro continua a ser fiel ao futuro, ou seja, a nosso presente de leitura.
Compreendo a fidelidade dessa obra em relação tanto ao que leio no poema de André Ricardo de Sousa quanto ao que Giacóia faz menção. No poema, estar à toa faz pensar e, de quebra, favorece a escrita, afinal o poema é feito! Na mesma direção, quando o filósofo afirma a necessidade do sossego para fruir a arte, estaria eu incorrendo em indelicadeza estendendo perigosamente sua orientação à leitura? Os livros de ensinamentos da época de D. Duarte corresponderiam à filosofia em nossos dias? A escrita também precisa de sossego. Mais extensão... Creio que na contemporaneidade, há uma imprecisão favorecida pela duplicidade do pecado a partir da própria lista do Vaticano. Tristeza e preguiça são coisas diferentes e, quando as abordamos em relação, sobram equívocos, que nos fazem ter espanto em pensar que a tristeza possa ter sido algum dia um pecado e revolta contra a preguiça boa...

Epílogo:
Quando eu já havia terminado meus apontamentos, eis que recebo meu jornal Rascunho em casa, com um texto de José Castello intitulado “A Potência da preguiça”. Castello afirma que a poesia precisa de intervalo, de preguiça..., de uma vivência não utilitária. Não foi Jean Cocteau que afirmou “A poesia é indispensável. Se eu ao menos soubesse para quê...”? Então, o útil/ o indispensável precisa de tempo, que ele chamou de intervalo ou preguiça. Eu continuo a achar que nos perdemos em equívocos conceituais, travestidos de reação (necessária!) aos utilitarismos...
Com tristeza, acho que vivemos também um presente pouco poético, sobretudo em nosso país, que tem nos apresentado tantas demandas. D. Duarte me “contou” que quando temos um trabalho importante é preciso encará-lo. Talvez haja momentos em que podemos ser mais preguiçosos, não vivemos em um desses, mas saibamos incluir o desenfado como ousadia e cura para prosseguir!

Eu e Cauê Krüger

Público excelente





[1] GUIMARÃES, Marcella Lopes. “A ensinança de evitar o pecado na prosa de D. João I e D. Duarte” in Revista de História da UPIS. Brasília. Vol. 1. 2005.
[2] O poema é da autoria do Prof. Dr. André Ricardo de Souza (UNESPAR – Bacharelado e Licenciatura em Música e Teatro), a quem agradeço por ter concordado com a leitura pública e com a publicação no blog.
[3] YUNES, BINGEMER (orgs). Pecados. Rio de Janeiro: São Paulo, Ed. da PUC-Rio, Edições Loyola, 2001. p. 148.
[4] Ibidem, p. 148.
[5] Ibidem, p. 149.
[7]“O pecado capital da acídia na análise de Tomás de Aquino” disponível em:  http://www.hottopos.com/videtur28/ljacidia.htm (acesso em 26 de setembro de 2016).
[8] Como observa Luís Miguel Duarte, ao longo de toda a sua biografia consagrada a D. Duarte: DUARTE, Luís Miguel. D. Duarte. Lisboa, Círculo de Leitores, 2007.
[9] Ibidem, p. 47.
[10] Todo o trecho em destaque é aproveitado do meu artigo “O corpo do rei: capítulos sobre saúde e doença em D. Duarte (1433-1438)”, que será proximamente publicado na Revista Locus.