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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Sobre o leitor libertado, divagações sobre o volume A prisioneira, 5º de Em busca do tempo perdido de Marcel Proust

O clube do livro começou a leitura de A Fugitiva, 6º volume de Em busca do tempo perdido de Marcel Proust. No final deste mês temos debate! Depois do 5º volume, resolvemos fazer um intervalo de valorização da compreensão da catedral proustiana, que também revelou alguns impasses e desconfortos da leitura de A prisioneira. Esse 5º volume não foi fácil. Nenhum de nós (do clube)curte relações abusivas, sequer no domínio do texto, e o volume encena esse tipo de vínculo com os mesmos requintes textuais que nos encantaram desde 2015..., o que piorou as coisas. Antes de prosseguir, preciso apontar que a sensação de desconforto proveniente da leitura do 5º volume não foi uma “fraqueza” de nossos espíritos sensíveis. Muita gente não gosta desse volume em participar. Anne Carson escreveu um breve livro, The Albertine Workout, sobre seu desconforto e esse opúsculo recebeu uma resenha muito atenta de Adalberto Costa, em que ele revela os engodos que vitimaram a própria Carson[1]. Vale muito a leitura dos dois textos.
O 6º volume, A Fugitiva, começou para mim com a sensação de que a libertação foi do leitor, ao mesmo tempo em que reconheci meu “velho” Proust, mais maduro nas relações, ou seja, mais definitivamente lançado à evidência do fracasso do protagonista. Mas será que de fato se pode pular o 5º volume[2]? Nada presta em A Prisioneira?
Para esse exercício de validação, voltei meus olhos aos grifos e comentários às margens da minha elegante (e algo decadente, do ponto de vista físico) edição de 1954, cuja imagem vai logo abaixo.
O narrador evoca o tempo em que coabitou com Albertine e a narrativa encena a complexificação disso, na apresentação de uma Albertine em camadas: de Balbec (em franca liberdade) a Paris (cativa do protagonista). O cativeiro dessa personagem é um aspecto muito curioso no volume, na medida em que Albertine vai aonde quer, enquanto o protagonista-algoz-guardião da cela, trancado em seu próprio quarto, está sempre a ponto de rebentar ante as suspeitas dos passeios da personagem feminina. Bizarre.
Superada (quase nunca...) a má vontade ou a revolta franca contra as relações abusivas que imperam no 5º volume, a questão do tempo merece toda a atenção do leitor. Esse é um volume visitado por fantasmas. A memória da avó volta em várias páginas. A mãe viva comparece como ectoplasma, entretanto, nas cartas, cheias de citações de Madame de Sevigné (p. 117)... É um volume carregado de lutos difíceis para os leitores da catedral: Bergote e Swann morrem! Como assim??? “A morte de Swann impressionara-me na ocasião profundamente. A morte de Swann! Swann não tem nesta frase o simples papel de um genitivo” (p. 168).
Meu segmento favorito do volume foi a apresentação de Morel em casa da Sra. Verdurin. Essa festa acaba mal..., mas seu “durante” é espetacular. Por quê? Porque a narrativa mergulha em uma simbiose estranha de música e palavra que fascina. Há a relação física, o amplexo do músico com seu instrumento musical; há o exercício materializado na mecha que cai no rosto de Morel, enquanto executa as notas..., coisas mal contadas por mim. A festa gira em torno da apresentação do Septeto de Vinteuil, personagem que conhecemos pelo talento musical e pelas preferências amorosas e eróticas da filha. Para não contar mal outra vez, transcrevo o texto, mas não resisto à tentação de entabular um diálogo entre colchetes:
“Mas no momento em que eu a imaginava assim a esperar-me em casa [o narrador imagina Albertine, à sua espera].... fui afagado de passagem por uma cariciosa frase familiar e doméstica do septeto [agora, a frase musical vai transportar o narrador a lugares imaginados]. É possível, de tal modo tudo se entrelaça e se superpõe em nossa vida interior – que ela tivesse sido inspirada pelo sono de sua filha – da filha, causa hoje de todas as minhas inquietações – quando esse sono envolvia em doçura, nos tranquilos serões, o trabalho do músico [aqui, eu me encontro também, na frase musical muda e na cena tão cotidiana, de alguém que escreve, estuda, trabalha..., velada pelo sono tranquilo de uma filha que repousa logo ao lado. Esse trecho me emociona], essa frase que me acalmou tanto, pelo mesmo macio fundo de silêncio que enche de paz certas rêveries de Schumann, durante as quais, mesmo quando ‘o Poeta fala’, adivinhamos que a ‘criança dorme’” (p. 214)
“A alegria de certas sonoridades” (p. 215)... A palavra persegue o som, tenta traduções impossíveis. Eu não escuto o Septeto, mas compreendo a língua dos sinais que Proust me apresenta.
Há certas ironias nesse volume como quando o narrador recebe uma carta da mãe, “esta carta de minha mãe fez-me cair na realidade” (p. 311), e não posso deixar de sorrir do fato de a realidade ser apresentada por meio da ficção do texto! Mas a ironia mais fina do volume para mim é a autorreferência ao 2º volume da Busca, refiro-me ao “lado Dostoievski de Madame de Sevigné” (citado em À sombra das raparigas em flor, p. 205) sobre o qual já escrevi[3]. Como o narrador retoma o tema? “Confesso que o que eu disse naquela ocasião era uma sandice” (p. 324). Mas ele continua a brincadeira, contradizendo a “sandice” afirmada, com diálogo entre colchetes:
 “Acontece que a Sra. de Sévigné, como Elstir, como Dostoievski [vejam a mistura entre fictícios e reais!], em vez de apresentar as coisas na ordem lógica, isto é, começando pela causa, nos mostra primeiro o efeito, a ilusão que nos impressiona. [depois de falar da “obsessão” de Dostoievski por assassinatos, o narrador prossegue na ironia] Eu não sou romancista; é possível que os criadores sejam tentados por certas formas de vida que não experimentaram pessoalmente.” (p. 325)
É espetacular! Ironia em camadas também: ridiculariza a associação que construíra, mas prova logo em seguida que ela é pertinente e se identifica como um não romancista, enquanto o romance se escreve. Onde essa análise tão sofisticada é realizada? No quarto, com Albertine nos joelhos do narrador.
Sobre as interdisciplinaridades, o historiador que lê a Busca encontra motivos sobejos de animação. Além do caso Dreyfus que atravessa a obra nas considerações do narrador e dos mais diversos personagens, é possível ver em detalhes as mudanças da sociedade parisiense na época, e mesmo o avião vemos sobrevoar a cidade luz, pelo olhar admirado do casal Marcel e Albertine, justamente no 5º volume! Esse volume também vai agradar aos amantes da boa gastronomia, leitores de À mesa com Proust (como eu[4]), pela sinestesia que propõe: “O que eu gosto nesses alimentos apregoados, é que uma coisa ouvida como uma rapsódia muda de natureza às refeições e se dirige ao paladar” (p. 107). Mas atenção, são superficialidades de enredo, menos no caso da sinestesia.
Para terminar, tem mais abuso nesse volume..., o que são as relações entre Morel, a sobrinha de Jupien e o Barão de Charlus?!? A verdade é que não sou imediatista e com esse texto confirmo mais uma vez que, se o leitor tem o direito de abandonar o livro que está a ler (tem sim!!!)a qualquer momento que desejar, uma história da leitura também deve incluir perseverança. Eu já espalhei aos quatro ventos minhas obtusas preferências de ler os finais dos livros. A ansiedade pelo fim não constitui a minha biografia (eu tenho outras...). Saber tranquiliza e garante uma entrega maior ao texto. Opinião pessoal. Eu sabia que depois d’A Prisioneira viria um’A Fugitiva e isso me animou, deu-me esperança.

A minha elegante edição de 1954!



[1] http://rascunho.com.br/tese-banal/ (acesso em 14 de outubro de 2017)
[2] Sugestão que aparece apontada no livro de Anne Carson.
[4] Procure aqui no blog minhas considerações sobre esse livro de fazer a gente comer com os olhos. 

segunda-feira, 22 de maio de 2017

A intimidade de Marcel Proust por Céleste Albaret

Monsieur Proust foi recebido com uma profusão de sentimentos (contraditórios) quando foi lançado em 1973[1]. Em minhas mãos tenho exatamente essa edição, embora saiba que a obra foi reeditada em 2014. Hesitei bastante na compreensão desse texto complexo: trata-se de um testemunho dado a Georges Belmont por Céleste Albaret. É a reunião feita por ele de cerca de 70 horas (5 meses) de entrevistas realizadas com a mulher que trabalhou para o escritor Marcel Proust ao longo dos  últimos 8 anos da vida dele; que viveu ao pé do autor; para ele; sacrificando a sua juventude, sua vida particular, sua vida conjugal, na consciência absoluta de que serviu (o verbo é esse mesmo) a um gênio.
Georges Belmont sabe da importância e da complexidade da obra que realizou. Escreve uma introdução, em que contextualiza o testemunho de Céleste. Ela tem já 82 anos e, depois de cerca de 50 em silêncio, resolveu falar. Belmont teme essa voz tardia, afirma que submeteu as declarações de Céleste a repetições e também pôde aferir essa impressão tão certa quanto difícil de explicar: a franqueza. Mas por que afinal Céleste rompeu o silêncio? Não é uma coisa estranha pensar que, algumas pessoas quando alcançam certa idade julgam-se capazes de falar tudo... Nesse tudo, incluem as mágoas e impropérios que a decrepitude desculpa (será?)... O livro Monsieur Proust. Souvenirs recueillis par Georges Belmont é feito de respostas.
Alguém pode redarguir: mas as obras não são sempre respostas, nosso desafio é saber fazer as perguntas?! Essa réplica é certa. Mas, quando afirmo que o livro é uma coleção de respostas, quero dizer que Céleste responde a outra coleção de equívocos que a fama de Proust, sua obra, sua larga epistolografia, sua reclusão e o próprio silêncio de Céleste... só fizeram crescer, após a morte do autor. Meu exemplar de Monsieur Proust está repleto da palavra “resposta” nas margens. Já no final da narrativa, essa síntese:
“Mas hoje, antes de deixar o mundo na minha hora, a ideia de que possa subsistir uma dúvida ou uma mentira sobre tudo o que eu vi e que é a verdade tornou-se me tão intolerável que eu quis que fosse dito, de uma vez por todas, que as páginas que se seguem são a minha memória exata e que eu reexaminei suficientemente, controlei e verifiquei os fatos de minhas lembranças para ter a certeza da minha fidelidade absoluta à realidade do que foi. É um testamento o que eu escrevo aqui, não um testemunho.” (pág. 412).
O livro é dividido em 30 capítulos, tem excelentes documentos fotográficos e, ao final, consigna transcrições de alguns poucos (mas relevantes) telegramas enviados pelo autor a pessoas do círculo de Céleste Albaret, conjunto em que fica evidente a atenção de Proust para com as pessoas a quem se dirigia e a sua tocante gentileza. O livro é linear, foi organizado dessa forma por Georges Belmont, ainda que aqui e ali haja antecipações ou retomadas de algumas ideias. Belmont resolveu realizar uma narrativa em primeira pessoa, é Céleste quem fala. Aqui está a essência da hesitação que referia acima: não seria esta uma biografia dupla? Biografia e autobiografia misturadas? Depois de muito refletir, cheguei a uma compreensão que compartilho, não sem antes ressaltar que a obra está inscrita na coleção “Vécu”. Trata-se, portanto, da memória do vivido; a memória de alguém sobre outro alguém com quem a voz que narra e revoca conviveu. Biografia escrita em primeira pessoa. Não seria mais fácil compreender o texto realizado por Belmont como uma autobiografia em que Marcel Proust é o personagem mais brilhante? Não..., porque toda a vida de Céleste só aparece no texto para fazer viver Marcel Proust e às vezes literalmente, levando-se em conta a narração de seus cuidados para com o autor de Em busca do tempo perdido.
Céleste “nasce” no texto praticamente casada com Odilon Albaret. É Odilon que coloca a esposa em contato com o autor. Importa destacar que, assim como Céleste foi devotada a Proust ao longo de 8 anos, seu marido o foi desde antes, pois servira como chauffer ao autor, na sua época mais mundana. O começo do texto está cheio da conversa de cozinha, entre os empregados de Proust e, talvez tenha sido esse disse-me-disse um dos elementos da má vontade com que a obra foi recebida em alguns meios. Parece que os primeiros leitores da memória de Céleste tiveram dificuldade em compreender seu deus em uma casa em que os criados tinham ciúmes uns dos outros e disputavam a primazia do serviço ao autor... Ora, eu fiquei a pensar nas pessoas que disputavam para serem recebidas por Proust! Vejo uma grande diferença entre os grupos: os palacetes e contas bancárias.
Céleste começa a trabalhar para Marcel Proust logo depois de seu casamento. Ela tem 22 anos, veio do campo, está só em Paris e se entristece. É Proust quem analisa esse abatimento em uma conversa com seu chauffer (sim, o autor da Recherche era atento a tudo e a todos) e sugere a Odilon ocupá-la em seus correios. A princípio, não há compromisso, é um passatempo. Mas o tempo de fato corre e Odilon é rapidamente mobilizado para a guerra. Trata-se da Primeira Guerra Mundial. A experiência da guerra muda a vida de todos no livro e, sobretudo, a do autor, de quem ela fala. Quando o valet Nicolas Cottin deixa o serviço da casa, Céleste assume tudo. Ela já aprendera a estrita rotina do autor, desde o preparo do café (super detalhado na obra, o que a princípio parece um exagero de texto) até o arejamento do quarto, passando pela troca da roupa, pela espera do chamado para levar o café e os horários, de quem levantava depois do meio dia e costumada tomar o café da manhã às 16:00!
O preparo do café e outros mil detalhes na verdade são muito importantes na obra. Eles conferem grande credibilidade à narrativa de Céleste, porque ela deixa muito claro o que de fato viu. Essas miudezas que desagradaram a alguns são a riqueza da obra! A experiência de Céleste compreende o que ninguém a não ser ela poderia contar sobre Proust. Não são, portanto, pormenores desimportantes, mas a vida “real”, com seu café, croissant e leite... Durante esses 8 anos, e apenas interrompido por algumas encomendas, foi tudo o que constituiu a dieta do autor. Céleste não conjectura sobre o que e se ele comia fora, ela se limita (e insiste nisso) em recontar o que viu.
A minha leitura de uma rotina tão rigorosa como a de Marcel Proust me fez pensar em uma coreografia muito bem ensaiada. Não acho que Céleste ou Belmont desaprovariam a metáfora, porque ela me foi sugerida pela observação da própria Céleste dos gestos do autor: delicados e precisos. A linguagem do corpo tão bem observada pela governanta, a imitação de alguns no início das madrugadas depois de animados saraus, os dedos a enquadrar bochecha e queixo, em uma das imagens mais conhecidas..., tudo isso constituía um verdadeiro ballet! Mas para que a primeira bailarina dançasse, um corpo de baile se matava para garantir seu sucesso... Ora, o capítulo 18 se chama justamente “Tyrannique et méfiant” e nos faz pensar que por muito menos que o que está lá, uma décima parte talvez, umas vinte Célestes teriam abandonado aquela casa do Boulevard Haussmann.
Quando Céleste passou ao serviço de Proust, o “temps du camélia à la boutonnière” terminara... Mesmo assim, ela teve acesso à memória que o autor conservou do período. Nessa rememoração da rememoração, um aspecto se revela em conformidade com a franqueza que comoveu Georges Belmont. Céleste não tem o menor problema de revelar nomes e opiniões que alguns poderiam/puderam considerar chocantes sobre pessoas “admiráveis”, mesmo dos amigos mais próximos e devotados do autor. Trata-se em grande parte de ciúmes, invejas e incompreensão...
Ligado à identificação de pessoas muito reais, que visitam manuais de Literatura, Pintura, Música, bem como têm seu nome na capa de várias publicações de prestígio (o que ela nos entrega de André Gide não é pouca coisa[2]...), vemos os “modelos” do autor: uma coleção de pessoas que emprestaram traços a seus personagens mais conhecidos e fascinantes. Devorei as páginas escritas sobre o conde Robert de Montesquiou, modelo do fantástico Barão de Charlus!!!! A princípio, não sabemos quem é mais estranho: se o modelo ou o personagem. Proust chega a prevenir Céleste para o caso de Montesquiou mandar entregar qualquer caixa de chocolates... O autor não esconde o receio de que estivessem envenenados (pág. 315). Depois de ser informado da morte do conde, Proust revela a Céleste que havia momentos em que achava que Montesquiou ainda vivia: “ele é perfeitamente capaz de se fazer passar por morto e de tomar um outro nome, por curiosidade de seu ‘pós’” (p. 315). O final do capítulo é muito bonito. Céleste afirma que, depois de algum tempo, ela achava que o conde Montesquiou deixou de existir no espírito de Proust: “A verdadeira realidade, era Charlus” (p. 315). O personagem lhes sobreviveu a todos.
Ainda que a sinceridade de Céleste possa ter sido algo indigesta para uns e outros, o desconforto veio primeiro da leitura da obra enquanto o autor ainda vivia! Isso é muito interessante. Alguns “modelos” se insurgiram contra Proust! O conde Robert de Montesquiou foi um deles... Isso exigia que Marcel Proust empregasse muitos recursos retóricos para defender a sua obra aos olhos de pessoas que se reconheciam nela. A verdade é que mesmo tendo modelos bem nítidos e saindo à noite para fazer prospecções, o autor reuniu traços de diversas pessoas. O fato de algumas delas se reconhecerem talvez advenha da convivência que experimentaram com Proust ou... do fato de termos sim a certeza de que ele escreveu para nós.
Muito já se escreveu sobre a homossexualidade de Marcel Proust. O fato é que Céleste nada afirma sobre isso e não devemos pensar que se tratou de “proteção” ao autor em um contexto em que as paixões de um homem como Montesquiou ou como o personagem Charlus eram tabu. Céleste nada pode revelar porque só tem duas fontes: o que viu e o que Proust lhe relatou. Segundo ela mesma declara, o autor era de um pudor imenso. No fim da vida, extremamente debilitado, para se levantar da cama, onde estava todo vestido, pediu à Céleste que se virasse e, quase inconsciente, deve ter sofrido mais por ter percebido sua coberta ser levantada para uma injeção que pela injeção em si (mesmo levando em conta que ele tinha horror a picadas). Ainda que ela tenha afirmado que ele lhe confiava tudo, havia limites decerto.
Há dois capítulos sobre os amores de Marcel Proust. No capítulo 15, as mulheres que ele admirou, cujo charme lhe marcou (elemento muito valorizado por ele!), pelas quais se interessou ou se apaixonou. Entre os documentos fotográficos, encontramos algumas delas: a atriz Louisa de Mornand, o amor adolescente Marie de Benardaky... Lemos a sua desistência de casar-se. No início do capítulo 16, “’d’autres’ amours” (pág. 227), Céleste afirma que embora achasse que Proust tivesse capacidade para amar, não acredita que jamais tenha realmente se apaixonado. Ela cita diversos nomes de homens, para desfazer equívocos de encontros no Boulevard Haussmann. Novamente ressalto que ela só pode se reportar ao que viu ou dele ouviu. Nos seus limites, não se escusa de mencionar, por exemplo, um nome que segundo ela mesma fez correr tinta: Alfred Agostinelli, que serviu Proust como chauffer. Mas Agostinelli haveria de morrer em 1914, quando Céleste havia recém entrado a serviço do autor! Outro nome citado foi o do “modelo” de Jupien: Le Cuziat, que era proprietário de um bordel. Nada sobre Reynaldo Hahn nesse enquadramento... Embora esse amigo fiel apareça muito ao longo da obra e tenha mesmo velado o corpo de Proust junto a Céleste e ao irmão do autor. Apenas os três na companhia de 2 religiosas (pág. 432). Hahn tem mais desenvolvimento no capítulo das amizades (capítulo 19), junto a Mme Strauss, Robert de Billy, os irmãos Bibesco e Frédéric de Madrazo.
Na memória de Céleste, Marcel Proust fez todas as concessões (im)possíveis para a sua obra e só as fez por ela. Ao colocar um fim no livro, mesmo que ainda houvesse muito a corrigir (entre os documentos fotográficos, vemos como os originais voltavam de suas correções...), seu corpo entrou em colapso. As concessões ignoravam os cuidados para preservar a frágil saúde. Mas há uma cena interessante em que se misturam pesquisa e frequentação ao bordel de Cuziat, poderíamos compreendê-la no quadro das concessões? Na volta, Marcel Proust relata uma cena masoquista à Céleste. O diálogo seguinte à narração é extraordinário:
- Senhor, isso não é possível, não pode existir!
- Mas existe, eu não inventei.
- Mas, Senhor, como pôde olhar para isso?
- Justamente, Céleste, porque eu não posso inventá-lo. (pág. 240)
Trata-se de um pequeno capítulo das relações entre ficção e realidade...
Apenas uma visão muito parcial da catedral[3] proustiana, ou mesmo a ignorância completa do texto, travestida de escolha por textos mais “engajados”, explicariam a falta de reconhecimento do extraordinário desvelamento literário de um mundo prestes a sucumbir. Proust foi um leitor voraz e, durante a construção de sua catedral, lia variados jornais e se interessava pela política, pela bolsa de valores, pelas artes, pela literatura e pela crítica. Tinha suas preferências políticas e manifesta na sua obra um evento que lhe tocou particularmente: o caso Dreyfus[4]. Céleste não busca explicar a crença de Proust na inocência de Alfred Dreyfus a partir da sua ascendência materna (a mãe de Proust era judia), mas pelo seu amor à verdade e à justiça.
Céleste nos conta algumas coisas muito difíceis, como a queima dos cadernos pretos de notas; a verdade (com provas materiais rsrsrs) de que André Gide, o “falso monge” (pág. 353), sequer teria lido o célebre manuscrito recusado; a mudança do Boulevard Haussmann, não sem desfazer os equívocos dessa mudança de endereço, para a rua Hamelin, onde o autor haveria de morrer, e a sua agonia. Proust recursou todos os tratamentos médicos que estavam à sua disposição, e estavam à sua disposição o que de melhor havia em seu contexto! É nesse momento que nem Céleste lhe pôde obedecer..., mesmo tendo se remoído de remorsos. Mas quem não lutaria mesmo contra quem ama para salvar-lhe a vida?
Marcel Proust morreu no dia 18 de novembro de 1922. Era um sábado. Logo, um cortejo de amigos viria até a rua Hamelin para despedir-se dele. Ele só seria enterrado na quarta feita, dia 22 de novembro. Depois disso, a vida de Céleste passa depressa no texto e em poucas páginas a vemos ter uma filha, sua única filha; vemos Odilon morrer; ela vender lembranças de Proust em razão da doença de Odile; vemo-la no Museu Ravel. Sua última lembrança na narrativa é ainda Marcel Proust, em uma pequena joia que ele lhe deixara.

Referência: ALBARET, Céleste. Monsieur Proust. Souvenirs recueillis par Georges Belmont. Paris: Éditions Robert Laffond, 1973.

Epílogo:
Quando terminei de ler a obra, dia 15 de maio de 2017, tinha o rosto lavado em lágrimas. Precisei ser consolada. 95 anos depois de Marcel Proust ter morrido, eu chorava a sua morte! Desde setembro de 2015, ele tem sido uma companhia constante: o intervalo de minha vida, cheia de linhas preenchidas em agendas cujo tamanho das páginas fica maior a cada ano... É difícil achar tempo para um intervalo tão exigente: 7 volumes! Até para ser lido, ele é o tirano que Céleste e seus grandes amigos deixaram que reinasse em suas vidas. Em nossas vidas.

Amigos, as traduções realizadas no texto são de minha inteira responsabilidade.




[2] “Entre os que gravitaram em torno de [M. Proust] (...) é preciso que eu me detenha sobre André Gide, a princípio porque, ainda uma vez, ele foi o único e grande responsável pela recusa do manuscrito de Swann na [editora] Gallimard, e [porque] depois da morte de M. Proust, nasceu um equívoco sobre uma pretendida intimidade e relacionamento entre eles – equívoco que foi expressamente criado e alimentado por André Gide” (pág. 355)
[3] Céleste emprega essa mesma metáfora no seu relato.
[4] Sobre esse tema, mas não só, recomendo a tese de doutorado do Prof. Alex Neundorf (PUCPR), disponível em: http://www.humanas.ufpr.br/portal/historiapos/files/2013/05/Alex.pdf (acesso em 15 de maio de 2017).

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

À Mesa com Proust é um presente para os olhos!

Pense em um livro que eu adorei ano passado? Esquece. Não sou confiável, a lista é enorme. Mudo a questão. Pense em um livro que eu adorei folhear? Agora sim: À mesa com Proust, de Anne Borrel, Jean-Bernard Naudin e Alain Senderens (Tradução de Ana Luiza Borges, Fernnado Py e Maria Cecpilia d’Egmont. Rio de Janeiro: Sextante, 2013). Fiz questão de nomear os tradutores, pois deve ter sido um desafio..., eufemismo para coisa difícil à beça!
Conheci esse livro pelo de Alain de Botton, Como Proust pode mudar sua vida, lido ano passado[1]. Botton desqualifica o livro de Borrel/Naudin/Senderens e, como escrevi em 2016, só isso seria motivo para eu me interessar! O fato é que quando mais avançávamos na leitura dos volumes de Em busca do tempo perdido no clube do livro, mais meu interesse crescia, entre um banquete e outro, um papo entre amigos militares em um hotel, uma merenda romântica etc. Claro, há ainda minha queda pela cozinha, por receitas e sabores novos.
O livro de Borrel/Naudin/Senderens é um livro presente, no melhor sentido da expressão. Mas é um presente para poucos. Livro caro decerto e totalmente voltado aos leitores de Proust. Anne Borrel, consultora da sociedade dos Amigos de Marcel Proust, não está nem um pouco interessada em demarcar verdades e ficções e, como o protagonista de Em busca do tempo perdido e seu autor têm o mesmo prenome, os leitores que não conhecem o texto, podem achar que quem experimentou a madeleine de revocação foi o recluso escritor... Trechos do romance, sobretudo até o quarto volume, comparecem robustamente entre um comentário minúsculo ou outro dessa “amiga de Proust”. Por causa dela, fui olhar o site desses amigos[2] e descobri que para ser amigo de carteirinha é preciso pagar. Então, serei amiga secreta mesmo.
Anne Borrel faz uma boa seleção de fragmentos do romance. Conhece o texto! Poderia, entretanto, ter se aventurado mais na mediação. Outro dia, copiei em meu perfil do FB um fragmento que adorei, um dos raros momentos em que a mediação de Borrel não se intimida com o monumento. Vale repetir aqui:
"A cozinheira levanta o véu que ocultava mistérios aterradores e implacáveis. O menino os pressente: como a literatura, a cozinha é uma arte violenta, e, para conter essa onda de selvageria, a civilização instituiu um certo número de leis e rituais. Os ornamentos litúrgicos, que cercam metaforicamente o animal cozinhado ao ponto, testemunham a passagem da selvageria primitiva ao 'estado de cultura'. O ritmo inalterável das refeições ordena o desenrolar dos dias e dissimula a crueldade da cozinheira." (p. 30).
Borrel havia acabado de referir a lida de Fraçoise na cozinha, entre aspargos e o sacrifício de um frango. Mas o trecho extrapola aludindo a um processo civilizador cujo palco se estende da cozinha à sala de jantar.
Compreendo Borrel e a reverência a Proust, e talvez esta seja a essência da má vontade de Alain de Botton (reverência a que ele também não está imune. Minha bronca foi essa: para que resistir, assume e vai!). Mas o livro é o que é de verdade porque colaboram nele Jean-Bernard Naudin e Alain Senderens. O primeiro ilustrou À mesa com Monet (quero também!!!) e colabora em revistas de decoração; o segundo é chef prestigiado e responsável pela adaptação das receitas
As fotografias do livro são extraordinárias! Tanto as fotos de cenários recompostos, com mobiliário da época ou inspirado na época em que viveu o autor; quanto de alimentos; paisagens; quadros famosos; até as fotografias da família de Proust, dele mesmo e dos seus amigos, ou melhor, dos amigos que fez enquanto viveu a vida real. Esses documentos são a metade do esplendor de uma obra que faz sonhar. A segunda metade vem do trabalho de Alain Senderens!
As receitas coligidas constituem mais de 25 por cento de À mesa com Proust. Fiquei super curiosa para saber como essa pesquisa foi realizada, conhecer a metodologia mesmo! Imagino Senderens com cadernos de receita da época no seu balcão de chef chique; vejo cardápios das grandes casas espalhados; livros de cozinha pelo chão; listas de compras de hotéis; preços... Mas nada disso está explícito. Há uma bibliografia com letra minúscula e desinteressante no final do livro. Você vai dizer: Marcella, curte o livro e para com essa de metodologia... Mas, veja bem, meu bem, sinto lhe informar[3]... rsrsrs, que eu curto mais quando ganho corda. Faltou.
Folheando a obra, em uma foto, descobri ainda a pintora Madeleine Lemaire da qual nunca tinha ouvido falar. Era amiga de Proust! Das íntimas, com todo respeito. Ela viveu no mesmo contexto em que os badalados impressionistas de nossos livros de história da arte escolares produziram. São Google me mostrou que Lemaire merecia páginas e páginas dos meus manuais. Fiquei hipnotizada pelas suas flores, pelos seus nus e pelas suas mulheres que descansam depois dos bailes da vida... À mesa com Proust, sentam-se convidados talentosos de quem conhecemos pouco por razões dificilmente sustentáveis hoje. À mesa, um presente.
Fui com meu livro às compras para a ceia de Natal. Fui com meu livro para a cozinha e fiz o Daube de Boeuf, reconstituído por Alain Senderens. Escrevi no meu perfil do FB, no alto da minha animação ainda não etílica, que comida que se finaliza com bouquet (no caso bouquet garni) é coisa especial... Há mais, porém. Comida que precisa de mais de 24 horas para ficar pronta desafia o tempo e só Proust para nos fazer reencontrar as prioridades!
À mesa com Proust é um extraordinário livro presente e me foi dado como presente, pela minha aluna Morgana Kwaczynski (espero ter escrito certo seu sobrenome, conferi 3 vezes...). Não sei em que momento em sala de aula eu descaradamente mencionei o quanto sonhava ter esse livro, só sei que ela fisgou minha falta de vergonha e a transformou em um gesto amoroso, no último dia de nossa disciplina, sem nenhuma pretensão de ajudinha na nota, afinal aluna excelente e não precisada dessas desconfianças. Morgana, esse texto é para você, não um presente, uma lembrancinha.
Sobre a minha mesa...: o livro e a caixa de madeleines que ganhei dos meus alunos

Bouquet garni!

Eu e Maria Clara compartilhando mais uma paixão...




[1] Remeto o leitor à minha resenha: “Um livro legal, mas que terminou esnobe, seguido de CONVITE!”, em http://literistorias.blogspot.com.br/2016/02/um-livro-legal-mas-que-terminou-esnobe.html
[3] Versos de “Veja bem, meu bem” de Ney Matogrosso. 

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Sobre ler a morte em O Caminho de Guermantes de Marcel Proust

Há pessoas que queremos imortais; personagens também. É claro que, no caso dos personagens, sempre podemos voltar as páginas e experimentar ser Domhnall Gleeson de Questão de tempo (About Time, 2013). Mas quando o personagem amado morre bem no meio da diegese, a gente vive um luto de leitor: sabe que ele ou ela se foi, que vamos terminar o livro sem a sua presença e que sua vida ficou para trás.  Nós prosseguimos com a memória das palavras que disse, das coisas que fez, de quem amou... Um dia, voltamos à estante de casa para lê-lo como quem recorre ao álbum de família, matamos saudades. Mas no momento em que o personagem é assassinato pelo autor, nós nos perguntamos: o que fazer?
Em O caminho de Guermantes, o narrador perdeu a sua avó e nós, a nossa. Foi com essa avó que Marcel saiu de casa pela primeira vez. No segundo volume (À Sombra das raparigas em flor), foi para o balneário de Balbec sem os pais. Alguém pode me dizer que ir à praia com a avó não é bem uma independência... Mas eu vou precisar recomendar (com muito gosto!) a leitura do volume; vou precisar evocar o incrível sofrimento da criança que esperava com furor o beijo da mãe para adormecer, no primeiro volume (No Caminho de Swann); os problemas de saúde, que certamente provocaram uma proteção e vigilância maiores e a cumplicidade com a avó. Só em sua companhia o narrador protagonista pode suportar a certeza: “Pela vez primeira tive a sensação de que minha mãe podia viver sem mim, dedicada a outra coisa, com outra vida diferente” (ASRF, p.200). A avó percebe o dolorido dessa descoberta e, graças à sua sensibilidade, eu – Marcella, xará desse narrador – descobri minha própria afeição por Madame de Sévigné[1]! Em Balbec, o quarto contíguo e a possibilidade das batidinhas nas finas paredes antes de dormir garantem o sono de Marcel.
Se em À Sombra das raparigas em flor, o protagonista experimenta a liberdade, ainda que tutelado pela avó; em O Caminho de Guermantes dá passos mais ousados para a sua construção como homem. Alguns desses passos são cheios de equívocos, hesitações, cenas ridículas..., mas quem nunca? Um sinal de ruptura com a tutela se dá na viagem que Marcel faz para visitar o amigo Saint-Loup, que está em manobra. É um mundo de militares, de charutos, de bebidas, de conversas que fascinam o narrador! Em uma manhã, Saint-Loup conta a Marcel que escrevera à avó do narrador para dar notícias do neto; uma ligação telefônica é feita; a consciência da passagem do tempo o atravessa na volta: “’como envelheceu!’, eis que pela primeira vez e tão só por um instante, pois ela desapareceu logo, avistei no canapé, congestionada, pesada e vulgar, doente, cismando, a passear acima de um livro uns olhos, um olhar um pouco extraviado, a uma velha consumida que eu não conhecia” (p. 127). Começava ali a nossa despedida.
A avó do narrador não morre subitamente, nós a lemos morrer. Lemos seu abatimento, acompanhamos seu desconforto, o susto do seu ataque e o que me comoveu foi a maneira como é narrada a sua debilitação progressiva. Matar uma personagem tão importante, pela qual o narrador tem tanto apreço e sou capaz de assegurar que o autor poderia imaginar que os leitores também teriam, não é uma coisa fácil. É preciso ser genial.
Semana passada, publiquei uma coleção de fragmentos impressionantes em que sobressai uma sinceridade sem desejo de agradar (para empregar eufemismo). Nas sessões do clube do livro, muitas vezes, paramos para ler uns para os outros trechos que nos encantaram. Está claro para nós que estamos diante um grande texto, extraordinário, e eu fico feliz que sejam 7 volumes! Acho até que foi/é pouco, pois um dia vou ter de lidar com a verdade de que vamos terminar. O que me consola nessa noite de novembro é que ainda temos 4 volumes pela frente!
A promoção do protagonista como homem vai de encontro com a degeneração da avó, daí vermos Marcel um pouco exasperado com o ritmo da doente. Essa realidade não se opõe ao essencial no caso: a dignidade da personagem que morre. Ela se manifesta na narração (quem narra não é o mesmo que vive os acontecimentos...; o narrador protagonista os revoca) e na extraordinária coerência na constituição dos personagens. A última cena antes da segunda parte de O Caminho de Guermantes deixa a gente sem oxigênio: “Sorriu-me [a avó] tristemente e apertou-me a mão. Compreendera que era inútil ocultar-me o que eu logo havia adivinhado: que ela acabava de ter um ataque“ (p. 280).
O protagonista a leva rapidamente ao médico, que vaticina: “Sua avó está perdida” (p. 287). Em seguida, conduz a avó à casa da família. Sou levada a completar Barthes, para tantos fragmentos de discurso amoroso(!). A mesma mãe que “soubera viver” sem o filho para que este afinal crescesse devolve àquela a quem entregou a tutela de uma primeira liberdade a combinação rara de reverência, respeito e amor:

·        “Não queria que minha mãe notasse muito a alteração da fisionomia, o desvio da boca; minha preocupação era inútil: minha mãe aproximou-se de vovó, beijou-lhe a mão como a do seu Deus, susteve-a, carregou-a até o ascensor, com precauções infinitas em que havia, a par do medo de mostrar-se inábil e de magoá-la, a humildade de quem se sente indigno de tocar aquilo que conhece de mais precioso; mas não ergueu os olhos uma única vez e não olhou para o rosto da enferma” (p. 288);
·        “- Mamãe, em breve estarás curada, é a tua filha quem o garante.
E encerrando o seu amor mais forte, toda a sua vontade de que sua mãe sarasse, em um beijo a quem os confiou e que acompanhou com o seu pensamento, com todo o seu ser, até a borda dos lábios, foi depô-lo humildemente, piedosamente, sobre a fronte adorada.” (p. 289)

Choro novamente trazendo esses trechos para cá.
Esse Marcel Proust um dia levantou de manhã (ou não levantou, afinal escreveu deitado boa parte do texto!) com a necessidade de matar a avó do seu protagonista e deu-lhe uma morte de arrasar a gente, pelo que há de tão amoroso em quase todos aqueles que cuidam da personagem, mas, sobretudo, e quero destacar (acho a hipérbole importante no caso), pelo que conseguiu dar de dignidade a quem morre. A doença pode nos tirar muito, tudo, mas esse grande romancista não permitiu que sua personagem perdesse um milímetro de sua grandeza no caminho doloroso que teve de percorrer para morrer:

“Quando minha avó sofria assim, escorria-lhe o suor pela vasta fronte amarela, grudando-lhe as mechas brancas e, quando supunha que não estávamos no quarto, soltava gritos: ‘Ah! É horrível!’, mas se avistava minha mãe, logo empregava toda a sua energia em apagar do rosto as marcas de sofrimento, ou, pelo contrário, repetia os mesmos queixumes, acompanhando-os de explicações que davam retrospectivamente outro sentido aos que minha mãe pudesse ter escutado:
- Ah! Minha filha, é horrível ficar na cama com esse belo sol, quando se desejaria tanto sair a passeio. Choro de raiva com essas prescrições de vocês.” (p. 292)

Imaginamos a sua dor e só mesmo um personagem por quem se tem tanto respeito pode bradar por esse “belo sol” em um momento assim!
Entre a narração da degeneração progressiva da avó, imiscuem-se vários acontecimentos e considerações. É com horror que lemos o misto de insensibilidade e (/ou apenas) de despreparo com que Françoise penteia os cabelos da avó; que recebemos a visita do (este sim!) insensível Duque de Guermantes que esperava que a mãe do protagonista lhe fizesse sala enquanto a doente avançava sem desvios para o fim; que lemos considerações sobre a fama dos escritores: “Por certo acontece que unicamente depois de morto é que um escritor se torna célebre. Mas era ainda em vida, e durante o seu lento caminho para a morte, que ele assistia ao das suas obras para a Fama. Um autor morto é pelo menos ilustre sem fadiga.”(p. 294). Seria esse trecho uma interferência do autor-modelo[2]? Vejo uma ambiguidade no segundo período do trecho: a avó e Marcel Proust.
Queria voltar àquela dignidade de morrer. A avó ficou cega no seu lento percurso para a Fama, mas se esforçava para dar a quem entrava em seu quarto a ilusão da plenitude do sentido da visão. Ao ouvir qualquer pequeno barulho na porta do seu quarto, olhava sorridente na direção de quem adentrava, um olhar parado. O narrador utiliza a expressão “calma bravura de um estoico” (p. 302) e não economiza em quanto essa atitude foi testada na doença... Nenhum milagre, porém, vai beneficiar a nossa avó e é com a explosão dos soluços de Françoise que lemos afinal: “Súbito, minha avó ergueu-se a meio, fez um esforço violento, como alguém que defende a própria vida” (p. 311). Por favor, deixem-me reescrever isso: “como alguém que defende a própria vida”...
Os historiadores não têm inveja dos romancistas desde que Georges Duby escreveu Guilherme Marechal[3]! Sabemos que Duby vai até depois da evidência física na narração da morte exemplar do cavaleiro. Sabemos que a historiografia muito se beneficiou da Literatura no século XX para a construção da narrativa. Não sei se Duby leu Proust, arrisco que provavelmente, mas posso estar apenas a construir novos mitos. Todos os historiadores brasileiros leram a integralidade dos romances de Machado de Assis? Eu li, mas tive o benefício de ter sido aluna de uma grande especialista[4]! Essas coisas mudam a gente. Ora, a digressão desse parágrafo que, fora do blog, talvez fosse cortado por um bom editor, expressa a associação que fiz enquanto lia o respeito do autor por sua personagem depois do fim:

Algumas horas depois que Françoise pôde pela última vez, e sem maltratá-los, pentear aqueles formosos cabelos que apenas começavam a branquear e que até então haviam parecido de menos idade que ela. Mas agora, pelo contrário, só eles é que impunham a coroa da velhice sobre o rosto outra vez moço de onde haviam desaparecido as rugas, as contrações, os empastamentos, as tensões, as relaxações que, desde tantos anos, lhe vinham acrescentando o sofrimento. Como nos longes tempos em que seus pais lhe haviam escolhido um esposo, tinha ela as feições delicadamente traçadas pela pureza e a submissão, as faces brilhantes de uma casta esperança, de um sonho de felicidade, mesmo de uma inocente alegria, que os anos tinham pouco a pouco destruído. A vida, retirando-se, acabava de carregar as desilusões da vida. Um sorriso parecia pousado nos lábios de minha avó. Sobre aquele leito fúnebre, a morte, como escultor da Idade Média, tinha-a deitado sob a aparência de menina e moça.” (p. 311)

Cabelos jovens em um rosto sofrido; brancos, no rosto morto que remoçou; expectativa e desilusão... E vejam que esse bruxo francês, foi ele mesmo o responsável por me levar à Idade Média! Entre os túmulos de uma Saint-Denis literária, o autor esculpiu um rosto de menina no esquife dessa personagem extraordinária.   
Todo mundo conhece gente que se comportou muito mal na doença ou no fim mesmo; que magoou pessoas que amava; que se sentiu ofendido por memórias arqueologicamente recuperadas dos seus aterros sanitários interiores ou transformadas pela desrazão; gente que jamais pediu perdão. Algumas dessas pessoas foram atravessadas pela perda delas mesmas, que espaço haveria para a dignidade?... Um luxo impossível. Mas se é verdade que para Proust: “a vida verdadeira, a vida descoberta e esclarecida, a única vida, portanto, plenamente vivida, é a literatura”[5], a morte dessa personagem com quem fui a Balbec pela primeira vez e li Madame de Sévigné é um luto sentido e uma confluência inventiva para as duas avós que não conheci.












[1] Há 2 textos no blog sobre Madame de Sévigné: “Ah, sim, a senhora lê Madame de Sévigné” (parte 1) e “Ah, sim, a senhora lê Madame de Sévigné” (parte 2). Procure em “Sévigné”.
[2] Categoria de presente em: ECO, Umberto. Seis passeios pelo bosque da ficção. Tradução de Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
[3] Obra: Guilherme Marechal ou o melhor cavaleiro do mundo.  
[4] Profa. Dra. Marta de Senna, grande amiga e grande mestra.
[5] BORREL, Anne, NAUDIN, Jean-Bernard, SENDERENS, Alain. À mesa com Proust. Tradução de Ana Luiza Borges; Fernando Py; Maria Cecília d’Egmont. Rio de Janeiro: Sextante, 2013. p. 11.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O SUPER SINCERO MARCEL PROUST

Em O Caminho de Guermantes, 3º de Em busca do tempo perdido, sobretudo na segunda metade do volume, frequentamos o meio mofado que estraga os mais promissores talentos antes mesmo que floresçam. Ocupamos os cantos dos salões, em jantares povoados por conversas vazias em que até os mais interessantes escritores são citados em suas páginas menores... Mas em meio a tudo sobressai uma sinceridade que merece atenção:

·  Sobre quando as comparações arrasam o que é “excepcional”: “O espírito dos Guermantes (...) era uma reputação como as salsichas de Tours ou os biscoitos de Reims” (p. 411).

·        Sobre nada que preste: “Se naquele salão haviam ficado enterradas para sempre tantas ambições intelectuais, e tantos nobres esforços, das suas cinzas, pelo menos, havia nascido a mais rara floração do mundanismo”( p. 413).

·        Sobre ser sincero com surpresa: “Pouco interesse tinha essa frase de Bloch, mas eu a recordava como prova de que às vezes na vida, ante o choque de uma emoção excepcional, nós dizemos o que pensamos” (p. 453).

·        Sobre ser extemporâneo ou culpado mesmo: “É verdade que se fazem às vezes para os mortos coisas que não se fariam para os vivos” (p. 454).

·        Sobre arrebentar um elogio...: “- Que deliciosa criatura era ela...
- Sim, meio louca, um pouco insensata, mas era uma boa mulher, uma louca muito amável; só não compreendi jamais por que nunca havia ela comprado uma dentadura que se mantivesse firme....” (p. 456).

·        Sobre não saber do que o outro está falando e se entregar: “A princesa de Parma, que ignorava até o nome do pintor, fez violentos gestos de cabeça e sorriu com ardor, a fim de manifestar a sua admiração por esse quadro. Mas a intensidade de sua mímica não conseguiu substituir essa luz que permanece ausente de nossos olhos enquanto não sabemos de que nos querem falar” (p. 466).

·        Sobre prometer e não cumprir: “Eu tinha imaginado para o senhor coisas infinitamente sedutoras, que me guardara de revelar-lhe” (p. 498).

·        Sobre motivação: “É inaudita a fúria das pessoas de uma religião em estudar a dos outros” (p. 514).

·        Sobre os Guermantes e muitos mais... por Swann: “Primeiro porque no fundo toda essa gente é anti-semita” (p. 519).

·        Sobre não ter nada na cabeça: “Sempre é preciso que tenham uma opinião sobre tudo. Então, como não têm nenhuma, passam a primeira parte da vida a perguntar as nossas, e a segunda a no-las resservir” (p. 524).

·        Sobre ser cínico ou sem noção: “Há noites em que a gente preferia morrer! É verdade que morrer talvez seja igualmente aborrecido, pois não se sabe o que é” (p. 525).

·        Sobre o desencontro conjugal: “ – Mas onde vão meter uma tetéia [fotografia] desse tamanho?
- No meu quarto; quero tê-la diante de meus olhos.
- Ah, como queira; se fica no seu quarto, tenho a chance de não vê-la nunca” (p.531).

·        Sobre ser humano na aparência: “Colocada pela primeira vez na vida entre dois deveres tão diferentes como subir ao carro para ir jantar fora e testemunhar piedade a um homem que vai morrer, não encontrava nada no código das conveniências que lhe indicasse a jurisprudência a seguir e, não sabendo a qual dar preferência, julgou que deveria fingir que não acreditava na segunda alternativa, obedecendo assim à primeira, que demandava naquele momento menos esforço” (p. 532).

Se alguém me perguntar qual dessas sinceridades obtusas é a minha favorita, eu devo confessar que espero que, em Sodoma e Gomorra, o Barão de Charlus cumpra as suas promessas...rsrsrs Mas O Caminho de Guermantes é muito mais que essa coleção chocante de franquezas. É o volume que narra uma perda muito sentida pelos leitores. Fica para a semana que vem.