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terça-feira, 6 de agosto de 2024

Eu, Júlia e nossos óculos

 

Em 2015, escrevi um conto que foi publicado em uma revista e será republicado este ano, em livro. Há 9 anos, eu não poderia imaginar o caminho que esse texto/eu percorreria. No dia 23/7/24, li um fragmento de Correio da roça (1913), de Júlia Lopes de Almeida, com minha orientanda Milena Chagas, fragmento que tem tudo a ver com o conto! Essas sintonias que encontro com Júlia me surpreendem e encantam desde que a sua obra entrou em minha vida, em 2020.

Correio da roça é um romance epistolar. Um grupo de mulheres troca cartas, de uma fazenda, chamada Remanso, para a cidade do Rio de Janeiro; da cidade para a fazenda. Uma grande amizade mantém essa troca, de aprendizagem mútua, de crescente cumplicidade.

 

Eis o fragmento da carta 13.

(...)

Como esta carta é toda em resposta à tua última, aí te mando os óculos, os óculos dos fatídicos 40 anos, óculos de vista cansada, que bem se aplicou durante a mocidade!

Não forces a vista, que mais depressa estragarás os teus ainda belos olhos castanhos. Não os desprezes nas tuas leituras à noite, nem quando durante o dia cerzires na tua sala de costura as meias da família e a tua roupa branca. É uma coisa a que nos dedicamos pouco, essa de consertar roupa branca, e de interesse capital, entretanto! Cordelia não deve esquecer essa ciência, na sua aula para as meninas da colônia. Mas, voltando aos óculos, não sei se eles te servirão: têm sido meus companheiros íntimos, digo íntimos porque também, como tu, ainda tenho um resto de faceirice que me obriga a ocultar de olhos estranhos o aparelho que ponho às vezes nos meus... e já que chegamos a esta parte sentimental, deixa-me dizer-te tudo! Também, como tu, tenho as minhas melancolias sem causa determinada, melancolias infantis, que me alvoroçam e me fazem cismar! Como o teu, o meu coração é uma urna de saudades indefiníveis e de ansiedades irrealizáveis.

Ainda tu podes abrir a tua janela e mostrar o teu rosto sem máscara às estrelas piedosas. Eu não. Os astros do nosso céu rir-se-iam dos meus devaneios dolorosos e das minhas interrogações; e cada vez, a qualquer hora que numa expansão silenciosa eu volvesse o meu olhar para o céu, não faltaria quem do fundo da treva, dentre as pedras das calçadas ou da caliça das paredes vizinhas, escarnecesse do meu idílio... Na cidade é preciso fingir, fingir a todos os momentos, dentro de casa como na rua, de dia como de noite. E a exigência que faz de nós a sociedade, que incorre em todas as faltas, mas não perdoa nenhuma... Tu ainda tens a consolação das tuas filhas, que te engrinaldam de risos e carinhos a existência. E eu? O meu único filho anda agora pelo Egito, consultando esfinges, e o meu marido vive, como sabes, completamente desinteressado da minha pessoa. E é por tudo isso que eu suspiro pela velhice, a velhice absoluta, a doce velhice consoladora e profícua, porque para mim, como para ti, que tens mais espíritodo que eu e maior coração, velhice não quer dizer esterilidade nem abandono. A mulher sã de corpo e alma, chegada essa hora que intimida os fracos, encontra na experiência adquirida nos seus anos de mocidade e de idade madura, poder para executar grandes obras de piedade e de regeneração. Há sempre muito que fazer na vida e a nossa última quadra não é com certeza a menos produtora. Para isso, minha Maria, é preciso ter coragem e não dissipar inutilmente as forças afetivas da nossa alma... Guardemos sempre um pouco das nossas energias para o que há de vir. Confesso-te as minhas esperanças, para dar-te ânimo, como te confessei as minhas desilusões, para te demonstrar que me tens sempre por companheira fiel na jornada da vida. Resta-nos a nós duas uma grande felicidade: temos sabido ser amigas uma da outra através de toda a existência, sem a menor sombra de traição, e isto entre mulheres é tanto mais raro, quanto mais lindo.

Prometo-te ser mais prática na minha primeira carta. Teu afilhado Eduardo Jorge trouxe-me, de um passeio qualquer que fez ao campo, sementes de cássia e de flamboyant, que aí te remeto para o viveiro do Remanso. Nem só de pão vive o homem. Planta árvores de flores e abraça Cecilia, que tão bem me compreendeu e a quem tanto quero.

Fernanda

ALMEIDA, Júlia Lopes. Correio da roça. Rio de Janeiro: Janela Amarela Editora (Edição do Kindle), 2022. pp. 54 a 56.

 

Há um conjunto de delicadezas que se espalham pela página. E eu fiquei profundamente tocada pela forma como a Fernanda de Júlia enfrenta o tempo e ajuda sua amiga Maria a enfrentá-lo.

Antes, algumas confissões. Foi uma glória quando precisei de óculos de leitura! Três anos antes, meu oftalmologista me disse que já eram necessários, mas que ele queria “segurar”, para não me deixar dependente. Respeitei sem saber bem por quê. Mas quando eu não conseguia mais enxergar direito a comida no meu prato à mesa – vejam, nem foi a leitura! –, eu pedi. Na verdade, eu acho que os braços já obedeciam aos olhos no quesito distanciamento da página, mas o prato sobre a mesa ficava imóvel... Fiz óculos de aros pretos, nada discretos, tirei um número infinito de fotos, fiz palestras online ostentando, combinei esses óculos com batons de todas as cores da minha pobre coleção. Um dia, achei que um par era pouco, fiz um segundo e comprei na França um terceiro, que uso enquanto escrevo, amarelos, redondos, lindos!

Eu e as personagens de Júlia precisamos de óculos de leitura no mesmo momento, pelos 40. Quando fiz sorridente meus óculos, eu ouvi amigas alegando algo como uma ribanceira abaixo... Rebati: – Que bom estar de óculos para enfrentar a ribanceira!

Voltando à Júlia e às suas personagens, o trecho que copiei é todo sobre o envelhecimento e os óculos são um sinal claro disso. No meu conto de 2015, a ideia também é essa, muito embora eu tenha querido sobrepor temporalidades e fazer, não a portadora dos óculos, mas a sua própria mãe experimentar vê-los no rosto da filha que passou a precisar deles. A personagem Fernanda de Júlia devolve apoio e uma percepção positiva do passar do tempo à Maria. Sem positividade tóxica, felizmente! Afinal, ela faz confissões muito tristes. É uma mulher solitária: tem um filho distante, um marido indiferente. Mas há uma grande ousadia aqui:

A mulher sã de corpo e alma, chegada essa hora que intimida os fracos, encontra na experiência adquirida nos seus anos de mocidade e de idade madura, poder para executar grandes obras de piedade e de regeneração. Há sempre muito que fazer na vida e a nossa última quadra não é com certeza a menos produtora.

 

Atenção à abertura do trecho: Fernanda fala sobre mulheres que envelhecem com saúde. Em contexto em que nossos velhos e velhas sopram mais velas sobre o bolo diet, mas nem sempre estão “sãos de corpo e alma”, o trecho de Júlia pode parecer de mal gosto, mas volto a atenção à sua abertura. A personagem não massacra ninguém. Hoje, é como se falasse para quem tem boa genética, fez boas escolhas e escapou do imponderável (refiro-me a acidentes de várias ordens que atravessam cuidados e genética impecável)... Ah, Júlia, saúde para executar obras (nem falei em “grandes”), para continuar produtiva/produtivo..., e em boa companhia!

Há uma proposta linda na sequência: a amizade entre as mulheres. Na verdade, o livro é costurado pela amizade. Em 1913, Júlia escreveu o que tem sido repetido pelos “influenciadores da menopausa”: é preciso cultivar amizades nessa época da vida. Imagino Júlia sorrindo por cima dos óculos, desde antes de 1913! Quando não precisamos dos amigos e das amigas?

Como afirmei acima, o livro é sobre amizade e sobre como as mulheres podem apoiar umas as outras: “temos sabido ser amigas uma da outra através de toda a existência, sem a menor sombra de traição, e isto entre mulheres é tanto mais raro, quanto mais lindo”. Um trecho que faz pensar. Nas primeiras cartas trocadas entre Maria e Fernanda, há um pouco de ressentimento e desafio... A gente desconfia que essa amizade não vai sobreviver. Maria ficara viúva e desprovida de mais recursos além de uma fazenda decadente, vai com as filhas finamente educadas no Rio de Janeiro, para um cenário inóspito. Está deprimida, desabafa a sua desesperança com Fernanda. Esta vive no Rio, não foi forçada a abrir mão de nada, continua em dia com as modistas e dá conselhos sobre como o campo é salutar! Sugere à Maria que as filhas desta criem galinhas! Fernanda, tá de brincadeira?! Imaginem a reação de Maria! Mas, aos poucos, Fernanda vai convencendo Maria de que ela na verdade tem mesmo é uma crença inabalável na força das mulheres. Fernanda não recua diante das ironias iniciais de Maria e também faz a sua parte: em vários momentos das trocas, existem colaborações absolutamente práticas e materiais para o sucesso de projetos que, aos poucos, nascem entre as meninas de Maria e florescem entre elas para a transformação do Remanso. Fernanda envia mudas numerosas para serem plantadas na fazenda, reúne material sobre agricultura, conversa com pessoas, alonga-se em sugestões muito técnicas – que me fazem ter certeza de que Júlia fez muita pesquisa para alimentar a troca entre as amigas[1] – e mobiliza pessoas para ajudarem Maria e as filhas.

Tudo isso dá frutos e Maria rejuvenesce, alegra-se. As suas filhas também trocam cartas com Fernanda, tiram dúvidas, contam novidades, fazem encomendas. Júlia “planta” uma escola ao ar livre no Remanso e eu fico pensando que essa ideia deve tê-la fascinado tanto que ela voltaria ao tema três anos depois no seu livro A Árvore[2]. Imagino que Júlia leu sobre a árvore-escola em uma aldeia na Ásia: primeiro incluiu a possibilidade no Remanso, depois informou no seu livro miscelânea, escrito com o filho.

Tudo dá certo ao final nesse livro e... qual é o problema? Outro dia, ouvindo um programa de entrevistas de que gosto, em uma rádio local, ouvi um homem falando assim: é fácil ser feliz, por isso não haveria mérito em escrever a respeito, em escrever sobre a felicidade. Fiquei pensando que esse ser deve ter aterrissado de sua nave espacial para surpreender os terráqueos pós-pandêmicos, que lotam os consultórios de psiquiatras e terapeutas, com sua revelação bombástica... Que feliz! Na verdade, as mulheres que moram no Remanso edificam a sua felicidade com trabalho duro, depois do desespero inicial. É impressionante como mobilizam/adaptam a sua formação para o ambiente em que foram obrigadas a habitar. Destaco a forma como Júlia entrosa o útil e o utilitário dessa formação.

Nas suas cartas e encomendas, Fernanda oferece orientação, seu ombro amigo, ajuda material, logística e os seus óculos! Fernanda acredita em Maria e em suas meninas. Maria poderia ter se revoltado nas respostas, entretanto; poderia ter achado um absurdo as sugestões da amiga rica que nunca sujou as mãos de terra, mas sabe palpitar. Poderia ter achado de mau gosto sugestões e comentários. Mas soube aceitar a ajuda e os óculos! Com eles, realizou uma revolução completa em seu modo de viver. Mas nada foi fácil no caminho. Júlia não é boba. Aposta tudo na cumplicidade entre as mulheres. Com um olho acompanha a palavra que escorre do papel, com o outro e por cima dos óculos, parece sonhar um devir de aros e cores surpreendentes.   



[1] Essa faceta de pesquisadora se revela em outras obras de Júlia.

[2] Conferir: http://literistorias.blogspot.com/2020/09/158-anos-de-julia-lopes-de-almeida.html


Eu, Júlia, nossos óculos e o velho computador - funciona muito bem, obrigada!
O blog completou 9 anos.


segunda-feira, 6 de março de 2017

Memória e demolição

Essa história começou há alguns anos, desde que mudei de trajeto para conduzir a filha à escola. Nenhuma inclinação por novidades me motivou a alterar o trajeto que seguíamos; foi a proibição de conversão em uma das ruas que me fez pensar em alternativas. A alternativa que afinal considerei mais adequada incluía passar diariamente em frente à casa de uma grande amiga, o que seria ótimo, pois, mesmo que eu nunca a visse naquele horário em frente à própria casa, olhar para sua fachada era uma forma de dizer olá. Logo depois de passar por essa casa querida, eu teria de dobrar à esquerda, seguir mais alguns metros, até dobrar novamente, desta vez à direita, contornar uma rotunda e voilà: tchau, filha, boa aula!
Entre a dobrada à esquerda depois da minha amiga e a dobrada à direita, antes da rotunda, descobri uma casa azul. Uma casa toda de madeira, na esquina, pintada de um azulão, entre o meia noite e o safira..., ou seja, um azul corajoso para se ostentar pelo meio da rua. Foi amor à primeira vista.
Todo dia, encontrava novos encantos na casa: quintal com varais repletos de roupas dançantes, o que me fazia pensar na quantidade de gente que devia morar na casa, mas que eu nunca via naquela profusão; mandalas coloridas nas janelas, que me faziam imaginar que a casa era vaidosa por usar aqueles brincos bonitos; árvores, arbustos e flores em adorável liberdade, sem a coerção dos jardineiros contratados; uns tufos de gramíneas no telhado, que davam um aspecto de cabelos curtinhos e cheios de estilo... Uma casa que convidou o tempo de forma muito clara para habitá-la, o que incluía a necessidade de reparos..., mas tão bonita na sua maturidade que me parecida orgulhosa da sua decadência! Eu gostava mais dela por isso, por ser meio decadente e feliz, vestida de azul.
Todo dia, dávamos olá para a casa azul, eu e a filha. Com o passar do tempo, só eu passei a saudá-la, sob o silêncio de uma filha meio envergonhada da brincadeira; uma filha em pré-adolescimento. Mas eu sou determinada, passei até a diminuir a velocidade do carro, ooooláááááááááá, caaaasaa azuuuuuulll! E foi tanto o meu amor pela casa que inventei uma história sobre ela – a história de amigos que se encontram no portão depois de muitos anos... Não, nunca publiquei essa história.
Um dia, a amiga querida a quem eu ainda digo olá quando passo em frente à sua casa me contou que a minha casa azul estava à venda. Enviou mesmo o anúncio para mim. Não demorei a perceber que, embora precisada de cremes anti-idade de última geração ou até de enfrentar uma intervenção mais radical, a casa azul era muita areia para o meu carro popular. Encarei os fatos: a casa estava no meio de um quintal muito grande para aquele bairro, bom para construir...; estava situada em uma esquina pra lá de bem localizada... Era atraente para quem não teria o menor interesse pela sua beleza de tufos no telhado.
Mantive uma esperança de condenado: talvez a casa tivesse outros apaixonados, alguém mais abonado haveria de desposá-la para uma vida de mútuo respeito!!! Minha esperança durou alguns dias, menos do que pensei, levando-se em conta o preço anunciado... Logo, as mandalas sumiram e as janelas se fecharam.
Não descobri sozinha o destino da casa. Em um dia em que não fui levar a filha por qualquer impedimento, recebi a notícia de que pessoas se agitavam no terreno para desmanchá-la. Aquilo me fez tão triste que pedi ao mensageiro que naquele dia fatídico também buscasse a filha. Mas não consegui fugir ao enfrentamento da realidade. Um dia, eu me deparei com a casa sem teto.
Parei o carro. A filha se assustou. Mãe?... Só uma foto; só uma lembrança. Tirei duas fotos. Nos outros dias, acompanhei a demolição. Parei o carro novamente. A casa azul reduzida a uma imensa pilha de tábuas. Falei aqui em casa que queria uma das janelas de recordação, se viessem com os brincos ainda ia gostar mais! Onde você colocaria essa janela, mãe? Eu a colocaria deitada no lugar do corrimão que arranquei, só para poder acariciá-la...
Uma janela que vira corrimão é mesmo coisa da sua imaginação!...
Vi quando o caminhão começou a carregar as tábuas. Nos outros dias, a terra foi aplainada; sumiram até as flores e arbustos livres que faziam companhia aos varais. Um dia, porém, reparei que em um canto, havia uma coisa amarela no terreno sem graça. Mas a pressa me abrigou a seguir em frente. Mãe, estamos atrasadas? Só em cima da hora.
Fiquei intrigada com aquela coisa amarela, ao longo do fim de semana, e na segunda descobri que se tratava de um sofá. Um sofá amarelo-gema-caipira havia sido esquecido ali. Esquecido ou deixado de propósito? Um dos antigos moradores da casa teria deixado o sofá para algum amigo, que, naquele dia, ou no dia seguinte, passaria para pegar o presente? O fato é que se fosse o caso a pessoa demorava e, pela primeira vez, tive vontade de ter um carro maior e me converter ao crime...
 A vontade passou. Fotografei o terreno com o sofá, imaginando se descansariam ali espíritos de antigos moradores depois de um alegre sabá! Ri até da inovação do diabinho anfitrião, que escolheu um sofá amarelo para repousar os foliões dos festejos. Que animação!
Eu já me mudei muitas vezes. A casa em que morei há mais tempo é a casa em moro hoje, uma casa de que gosto muito. Esta casa é a casa da filha, entretanto, que nasceu aqui... Toda vez que pensamos deixá-la, a filha protesta e a gente se cala, em respeito. Ainda que esteja tão bem onde estou, não conheço o sentimento da filha. Meu sentimento pela casa azul defunta também não me parece semelhante ao sentimento da filha. A filha habita essa casa com suas travessuras, malcriações, sonhos e memórias; eu habitei por anos a casa azul com minha imaginação.
Ao longo desta semana, vou esperar que o sofá tenha sobrevivido à chuva do fim de semana e que seja logo resgatado pelo amigo que imaginei acima. Não estive entre os herdeiros nem da janela, nem desse sofá... Só tenho memória inventada e três fotografias: duas da minha casa azul sem o teto, o que me faz cantar a “casa muito engraçada”, e uma do sofá amarelo, que compartilho afinal aqui.

Se vou mudar de trajeto, para não confrontar meu luto com o espírito de seguir adiante, concretizado por uma nova edificação? Vou continuar meu caminho, levando a casa comigo, afinal quem é que me garante que aqui, onde estou, na casa da filha, não se organiza uma rave de espíritos inquietos das antigas edificações sufocadas, quando a gente tira férias e vai viajar, ou quando vai dormir?

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

O Bar do Feio

Perto da casa de minha mãe, havia um bar, chamado Bar do Feio. Pouco depois que ela se mudou, um dia em que fui levá-la à sua casa, já tarde da noite, ela me disse: - Vira aqui à direita. Lá na frente, no Bar do Feio, você dobra à esquerda. - Bar do feio? Ri. – É. Riu.
Pertenço a uma família de excelentes motoristas, desbravadores de novos caminhos para onde quer que se deseje ir. Até os parentes que não dirigem são Ótimos motoristas, sempre com uma sugestão na ponta da língua. Minha mãe já abandonou o caminho do Bar do Feio, mas eu continuei muito apegada a ele. Mesmo quando eu já não precisava mais prestar atenção na referência, eu o saudava antes da dobrada. Dia desses, perdi o Bar e culpei a minha distração. Outro dia, mais aplicada, descobri que o Bar não existe mais e que o imóvel fora pintado com um amarelinho imperdoável.
Nunca entrei no Bar do Feio. Mesmo em minhas andanças pelo bairro – eu e minha mãe moramos a umas dez quadras de distância, no mesmo bairro – sempre encontrei o Bar fechado. Nenhum problema, afinal essas minhas andanças costumam acontecer pela manhã e, pelo que já percebi em saudações diversas, o Bar do Feio tinha outro relógio. Nunca soube o que era vendido ali. Sorte minha que tenho razoável imaginação para preencher suas estantes com coloridas bebidas de múltiplas preferências (minhas e de outras pessoas, em etapas diferentes da vida...); povoar o seu interior com mesas de quatro cadeiras; colocar um balcão espelhado ao fundo meio escuro, em que sobressaíam os clássicos: lindos ovos cor de rosa, azuis, verdes..., coxinhas gordas, quibes tão robustos quanto suas irmãs de exposição. Imagino que alguém secaria os copos em aparente distração, mas atentíssimo à contabilidade das doses. Vejo o quadro de preços com letras móveis, para facilitar a atualização. Não, não imagino sonhos, afinal há o carro que passa à tarde, anuncia-os e tira o meu sossego quando estou concentrada no escritório de casa. Acho que no Bar do Feio não eram vendidos sonhos, só imagino.
Desde aquela primeira vez em que fui levar a minha mãe e o Bar virou ponto de referência, eu me encantei com o misto de singeleza e sinceridade daquela esquina. Ninguém pichou a acusação. O nome do bar fora pintado diretamente acima da sua entrada, sem a necessidade de placas, em letras pretas. Alguém fez um plano, mediu, subiu em uma escada e pintou. Refleti algum tempo sobre o Feio: o dono? O seu pai? O seu melhor amigo? O seu sócio? O seu amor? Uma brincadeira? Estava bem escrito o nome do bar.
O Bar do Feio fechou. Acho que todo mundo pode imaginar o quanto a minha própria imaginação construiu explicações para o encerramento das atividades. 2016 vai ficar na minha biografia como um ano em que enxuguei lágrimas abundantes (minhas e dos outros) de sonhos abandonados e não posso deixar de pensar que entre imaginar o Feio resolvido a ser o Admirável ou o Gato no consultório de um cirurgião plástico e imaginar que ele faliu, eu tendo a achar que o Feio pode ser hoje o Devedor ou o Triste.
Há singeleza no amarelinho da nova fachada. Mas a nova cor cobrindo a sinceridade não instituiu para mim uma realidade muito significativa... Sou capaz de abandonar até aquela rua e me deixar levar por novos roteiros familiares. Agora me ocorre uma esperança: o Feio teria encontrado um ponto mais atraente? Calculará nesse momento o tamanho das letras em relação à nova fachada? Espero que diminua a distância entre o substantivo e a preposição com artigo e vire poeta de vez. Está aí um novo esforço para essa semana: encontrar o Feio e comemorar (com uma dose ou duas) a sua obstinação.





segunda-feira, 25 de julho de 2016

O “Guarda-Redes”

Prólogo:
Não sei se António Rei se sentiu particularmente inspirado pela vitória da seleção nacional contra a França na final da EUROCOPA – 2016, o certo é que esta semana o blog LITERISTÓRIAS tem a alegria de publicar mais uma crônica literária sua, desta vez sobre futebol, sobre férias em Odeceixe e sobre um outro 7 X 1...

O Guarda-redes

Andava eu deambulando pelos Algarves, em pleno verão de 79, e já algo saturado da agitação estival das cidades do extremo sul, em especial Portimão e Lagos (os meus poisos prediletos, confesso) resolvi começar a subir a chamada “Costa Vicentina”, na companhia de um outro compincha, o Miguel.
Acabámos por parar em Odeceixe, onde o Miguel já estivera noutro momento, mas que para mim foi uma estreia.
Fomos acampar, como muitos outros, para a praia de Odeceixe, que ficando a norte da foz da ribeira do mesmo nome, ainda fica no Alentejo, enquanto a povoação está na outra margem, no extremo noroeste do Algarve. A maré vasa permitia ir-se ao povoado, sem se ter que fazer uma volta de alguns quilómetros por caminhos poeirentos e por estrada. A fauna campista era da mais “desvairada” gente, portugueses e estrangeiros, mais assim e mais assado, que coexistiam, compartilhavam um pouco de tudo.
Há noite, a fogueira da praia era um dos pontos de encontro e reunião de toda esta gente, que, como alternativa tinham uma barraca de madeira coberta de caniços, pomposamente “o restaurante” da praia.
Ali havia um rádio, sempre ligado, numa estação, indefinida, não se percebendo muito bem se eram notícias, música, publicidade ou relatos desportivos. Mas ninguém a tentava afinar, nem ninguém se preocupava com isso. O suprassumo era uma televisão, que era ligada à noite, e onde a imagem, quando estava fixa e não corria vertiginosamente na vertical, quase não tinha contraste, era tudo cinzento, mais ou menos, pois ainda a televisão era a preto e branco. Mas sempre era uma marca de cosmopolitismo.
Lá se podia comer alguma coisa, mas onde a ementa era sempre apresentada num pedaço de toalha de papel, que seria reciclado de alguma toalha do dia anterior.
E onde o mais barato, era pedir uma sopa, pão e azeitonas ou queijo. E mesmo pedir um queijinho de ovelha não era coisa para todos os dias. Era carote. O orçamento das idas veraneias ao sul tinha que ser esticado, muito esticado !
A comunidade de campistas da praia era um motivo de interesse sociológico, atração erótica e inveja, muitas vezes disfarçada de desdém, por parte dos odeceixenses (se é que se chamam assim). A malta da praia “é que a levava direita”, pensavam eles, mas não diziam.
Os rapazes mais ou menos guedelhudos e as raparigas mais ou menos descobertas, todos com mais ou menos missangas, e transportando um mais intenso ou longínquo aroma a “patchouli”, causavam ou ressuscitavam todas aquelas interrogações aos moradores, quando aqueles iam ao povoado fazer compras de artigos de primeira necessidade, nas pequenas vendas, meio mercearias, meio tascas.
Na mercearia, onde dominava o elemento feminino autóctone, os cenhos franziam-se de desdém ante as “raparigas da praia”, e as odeceixenses mais novas, mas não só, amiudavam de soslaio os “rapazes da praia”.
Na tasca, que era geralmente contígua apenas separada da mercearia, por uma porta, sempre aberta, acontecia o mesmo, mas no inverso.
Os que “não valiam nada” segundo eles, eram os “rapazes”, mas as “raparigas”, calma … eram motivo de olhares, de graçolas e de simpatias melosas por parte dos homens da terra. Aquela tensão social latente, que era causada pelos veraneantes, levou a que alguns de Odeceixe tivessem proposto aos campistas da praia um jogo de futebol, entre uma equipa de naturais contra outra “arrebanhada” entre os “rapazes da praia”.
Os elementos campistas que receberam o desafio, disseram logo que sim, sem mais aquelas.
Assim, sublimou-se, ritualizou-se, pelo evento desportivo, o confronto de valores e vivências, de ambos os grupos.
E o jogo seria logo no dia seguinte, fim-de-semana, porque os de Odeceixe podiam contar com a “arma secreta” para aquele recontro. Um rapaz da terra, com jeito para os pontapés na bola, e que “até jogava num clube da III divisão”. Só este facto já lhes garantia que aquele eleito, a quem os deuses tinham posto asas nos pés, qual Hermes ou Mercúrio, iria dar a vitória, aos da terra, e repor a “ordem do mundo”, seriamente ameaçada por aqueles “outros”, tão diferentes, tão interessantes, tão apelativos, tão filhos do demo …! que iriam ser arrasados naquele jogo.
Nessa noite, os recetores do desafio e organizadores da equipa da praia andavam fazendo convites para reunir o número de sete jogadores para o tal embate, quase civilizacional. Estavam tão ocupados e preocupados que nessa noite nem apareceram na fogueira da praia.
No dia seguinte, à hora do almoço no “restaurante da praia”, os mesmos organizadores, já à beira do desespero, acercaram-se de mim e perguntaram-me se eu quereria jogar como guarda-redes, pois aquele que primeiro dissera que sim teve um contratempo que lhe impediria estar presente no “derby”.
Entre duas colheradas de sopa, e eventualmente ainda de colher no ar, apanhado de surpresa pela proposta, num primeiro momento, declinei o convite. Mas o ar desesperado dos ditos tocou as raias do pânico, e um deles pediu-me, de joelhos que fosse, porque já não podiam pedir a mais ninguém. Ou seja, eu era o eleito por exclusão de partes. Acabei por lhes dizer que sim, e lá me deixaram acabar a sopa, o pão e as azeitonas.
Pouco depois juntou-se um grupo, entre os jogadores, as “estrelas da companhia”, e a companhia propriamente dita que ia apoiar e em dois ou três carros, toda a malta mais ou menos amontoada, e em que o veículo mais espaçoso era uma van VW pão-de-forma.
O grupo campista ia todo mais ou menos entusiasmado com o jogo. No fundo sentiam, também eles, que aquela diferença de formas de vida deveria conduzir a um desfecho que levasse a algum género de confronto físico. E que o jogo de futebol é a forma ritualizada da batalha. Eu, confesso, estava um pouco alheado daquela euforia. Mas a achar piada pela coisa em si.
O grupo, que na praia parecia grande, quando se chegou ao recinto, foi aniquilado pela quantidade de naturais que estavam lá para ser testemunhas daquela “morte anunciada”.
Foi então que os “campistas” perceberam que de alguma forma, eles seriam a mosca convidada para almoço pela aranha. E mais evidente se tornou, quando o “crack” da III divisão apareceu e foi quase levado em ombros, pela população local. Pela forma desdenhosa como olhava os “da praia”, enquanto dava uns toques cheios de estilo, atiçava o desejo dos seus conterrâneos pela retumbância da vitória. Queriam sangue !
A imparcialidade do critério de justiça relativamente ao jogo, foi alegremente posta para trás quando o que fez de árbitro também foi escolhido entre um dos filhos da terra.
Os campistas estavam a perceber perfeitamente que se tornava impossível dar um passo atrás e dizer que já não queriam jogar. Tornar-se-iam no alvo da chacota contrária, que se eternizaria, pelo menos até quando acabassem por se ir embora.
Tinham que morrer de pé! Com dignidade! Para ao menos merecerem o mínimo do respeito por parte do antecipado e programado vencedor.
Equipas no recinto, daqueles de cimento, para andebol, futebol de salão (ali ao ar livre), e ainda com marcas, nunca usadas, para basquetebol e para hóquei.
Os cumprimentos da praxe, com o crack da III divisão a capitão do Odeceixe. O árbitro apita e a populaça grita com os olhos injectados de uma enorme confusão de sentimentos, potenciados pelo vinho de almoço de sábado. Todos a quererem ver brilhar o “menino de ouro” da III divisão.
Os campistas, alguns que pareciam estar a tocar numa bola quase pela primeira vez, ao menos num jogo “a sério” (que aquele era sério mesmo), estavam a aguentar a fúria dos outros, e os dribles do crack. A nossa defesa estava a aguentar tudo aquilo, embora o sentido do jogo fosse de lá para cá. A nossa defesa não me estava a deixar brilhar. O meu momento, ou momentos ainda estavam para chegar ! ...
Como não estavam a conseguir a avalanche de golos que pretendiam, o público começava a ficar inquieto e a resmungar e a mandar “bocas”, algumas claramente à procura do efeito que acabou por surgir daí a poucos minutos.
O árbitro, a sentir a pressão, acaba por marcar contra os campistas um penalty, por falta que não fora feita na área, nem lá perto. A populaça aplaude, achando que finalmente seria reposta a justiça do resultado, ainda que à base de “esquema”.
Os campistas a protestar que não era penlaty, e os outros a dizer o contrário, a impor o contrário pela força do número e da gritaria ameaçadora.
O jogo não me interessara em especial; tinha ido para variar naquele dia, e também ainda não tinha tido nenhum papel de importância no jogo. Também era verdade que o crack da III divisão não se notara por cima dos outros companheiros.
Voltemos à cobrança do penalty. Foi aí que eu fiquei, pela primeira vez, frente a frente com aquele astro futebolístico, que tinha toda a malta de Odeceixe a gritar por ele. Os meus companheiros a pedir-me o melhor ! o milagre ante aquele expert do futebol nacional, e quiçá internacional, senão em termos absolutos, ao menos relativos.
Mas foi aí que eu entrei no jogo. Só que à minha maneira. Não suporto injustiças, e ali estávamos a ser claramente vítimas de uma. Coloquei-me mesmo no meio da baliza, em pé, e de braços cruzados, e disse para o crack: “Essa bola não vai entrar !”
Os meus companheiro pedindo-me uma atitude mais ortodoxa, mais normal em campo, mas eu não cedi, não mudei de posição, nem descerrei os braços. E perante todo aquele impasse nem o árbitro apitava para o remate. Ao ficar claro que eu não iria mudar, os campistas conformam-se com a sua sorte. O árbitro apita, o crack avança, remata, e a bola sai ao lado da baliza. Eu nem me mexi.
Os campistas aos saltos de alegria, entre a gritaria dos odeceixenses, uns festejando já o golo que não chegou a existir e outros que berravam mais alto a pedir a repetição do penálti. Razão: porque o guarda-redes não se mexeu, e devia ter mexido.
O que eles não suportavam era que o menino de ouro, o orgulho futebolístico da terra desse tamanha fífia. Depois de muita discussão com o jogo interrompido, acabaram por avançar para a repetição do penalty, a contragosto dos campistas, como é natural. Mas o peso da casa era muito grande …
E era chegado o meu momento de glória futebolístico. Quando o crack avança novamente com a bola para a marcação, eu fui falar com ele e com o árbitro e disse: “Eu vou ficar do lado de fora da baliza. A baliza vai ficar toda aberta. Mas a bola não vai entrar”.
Novamente os meus companheiros a convencer-me para eu ser um guarda-redes igual aos outros, mas eu não cedi.
Depois de mais outro impasse, eu fiquei encostado à baliza, pelo lado de fora, e após o árbitro apitar o crack mandou a bola por cima, para as nuvens.
A população de Odeceixe gritou: “Tirem esse gajo daí ! Tirem-no da baliza !”, o que acabou por acontecer, tendo eu saído perante a estupefação de companheiros e adversários.
Acabara de ganhar fama e respeito ! Fama entre os “rapazes da praia” e respeito ante os odeceixences ! O que não se percebe é melhor não desafiar. Ou seja fora imbatível, mesmo em penalty, por duas vezes, pelo crack da III divisão !
Saí e fiquei entre o público a conversar com outra malta e a regar a minha fama a despontar. Não mais liguei ao jogo ali ao lado. O meu jogo já acabara, e eu ganhara-o. Fiquei conhecido, a partir de então, na praia de Odeceixe, por o “Guarda-Redes”.
Ah, o jogo ? Repetiram o penalty (pela terceira vez) com outro guarda-redes, e a bola entrou e o crack da III divisão brilhou. Os campistas acabaram por perder 7 – 1. Ainda marcaram golo de honra. A mim é que não me marcaram nenhum.
Apesar da derrota os campistas defenderam a sua honra, marcaram o golo de honra e tinham na equipa não uma estrela, esses são os cracks das N divisões, mas um cometa, que tem também luz, é mais fugaz e mais fatídico.
Era uma vez um jogo de futebol de verão em Odeceixe …
António Rei.


Epílogo:
Pensei em ilustrar o texto do meu amigo com lindas paisagens de Odeceixe, sítio que eu afinal não conheço, mas que fiquei com muita vontade de conhecer por causa do texto e da pesquisa que fiz na internet. Entretanto, uma pequena frase sua me lembrou de um quadro de Arpad Szenes (o pintor húngaro foi casado com a pintora portuguesa Maria Vieira da Silva), chamado Les guerriers (1938-1939)... Não resisti!



Para conhecer mais a obra tanto de Arpad Szenes quanto a de Vieira da Silva, recomendo a visita à página da Fundação Aspad Szenes-Vieira da Silva 

Visite a entrevista que António Rei concedeu a mim, sobre o estudo do Al-Andaluz, e a sua outra crônica literária, sobre o 25 de abril, aqui em LITERISTÓRIAS!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Originais perdidos

Levei muito tempo para ter coragem de escrever as histórias que eu contava para mim mesma. Encontrei o caminho na confiança de algumas pessoas e na sintonia emocional que certos elementos das minhas narrativas tinham e têm comigo. Dou um exemplo: no fim de janeiro de 2015, eu abandonei uma história, porque perdi a energia da minha protagonista. Se vou voltar? Talvez. Eu já perdi gente para sempre, mesmo em vida; já reencontrei pessoas que julgava perdidas; por que seria diferente com as personagens? Talvez o medo de perder seja a causa de eu escrever tão rápido, como dizem. Não é talento, portanto, é medo.
Terminei 2015 com uma história na cabeça. Ela começou como costumam começar as minhas narrativas: eu sabia exatamente onde queria chegar. Foi assim com o meu romance Menina com brinco de folha, vencedor do III Prêmio UFES de Literatura, na categoria infantil. Tão logo o menino e a menina se fizeram presentes, a última frase surgiu. Meu trabalho foi levar os personagens até lá.
Saudei essa nova epifania, como sinal de boa sorte, porque geralmente os Réveillons trazem um conjunto de sentimentos positivos e boas energias que infelizmente a gente vai perdendo ou de que cansando... Eu li o cansaço de 2015, escrito por muitos de meus amigos nas redes sociais.
Escrevi 9 páginas da história nascida logo ali e não deixei escapar aquele final da epifania. Era a história de um objeto que viajava nas mãos de uma criança intrépida.
Mas de repente a vida me apartou daquela solução e eu decidi que a narrativa devia acompanhar a vida. Escritores muito melhores do que eu que passarem por acaso por aqui vão dizer que essa decisão é prova da fraqueza da minha literatura. Eu daria um beijo nesse descobridor dos 7 mares! Quando a fraqueza mora no texto, a gente sempre pode fechar o caderno ou desenhar nas folhas que restam; pode desligar o computador e economizar na conta da luz; pode levantar e ir comprar um picolé na padaria da esquina e não ter vergonha de voltar para casa com bigode de uva... Quando a fraqueza não é de papel, o bigode é um daqueles bigodes de carnaval: o suor de verdade não deixa colar o artifício.

Eu resolvi destruir os originais em respeito à protagonista. Espero que um dia o objeto da sua intrépida viagem encontre o final que um dia escrevi a lápis, mas que destruí com minhas mãos de matar. Tenho a impressão de que a memória vai vingar esse gesto de morte e cravar o destino abandonado no meu coração.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Sobre a liberdade ou o desapego, dependendo do ponto de vista...

Cavalgada

O guia afirmou que o passeio até a cachoeira duraria uma hora. Era longe assim? Não, era pertinho, mas só dava para cavalgar até uma parte, o resto se cumpria a pé mesmo e ainda tinha o tempo de descalçar as botas e avançar para a água. Decidiu-se, agarrou as rédeas e seguiu o tio e os primos mais velhos. No alto da égua branca, acarinhada desde a véspera, tinha resolvido não olhar para trás, mas no último pedaço de caminho em que era possível ver os pais com o coração na mão, ofereceu o consolo de um olhar. Ao voltar-se, sentiu que seus cabelos encobriam todo o rosto e até enxugaram uma lágrima. Nunca pensou que se chorasse de coragem, descobriu na cavalgada.
Tentou lembrar se a mãe passara o protetor solar, o repelente... Esqueceu o chapéu com flor! Ai, agora, era tarde. Nem dava para voltar. Eram os primeiros riscos que tinha de assumir. Descavalgou. O trecho a pé era tão longo quanto o percorrido a cavalo. A ponte é essa tabuinha sobre o riacho? Dá a mão pro tio. Pela mão do tio, chegou aquele absurdo de água jorrante! Se soubesse, tinha levado maiô. Fica pra a próxima, avisaria à mamãe. Não, colocaria ela mesma o maiô na mala. Na próxima. Molhou a mão; mergulhou-a. Achou a mão debaixo d’água maior que a da superfície! Tirou. Era a mesma mão com pressa de nadar.
Voltar é uma decisão mais comprida que partir, descobriu. Mais encalorada, sedenta e cansativa. Voltar era confrontar os mesmos riscos? Os primos apostaram corrida. Tentou convidar a sua égua mansa a participar da competição, mas o tio fez que não. Olhou para os lados. Essa plantação de milho estava aqui? Não sabia se os primos, já distantes, tinham reparado. Parecia uma plantação ainda pequena, toda verdinha, sem frutos, mas valente. O guia afirmou que esses milhos não alimentariam as pessoas e sim os animais. Achou curiosa essa sintonia de gostos. O primeiro que viu foi o pai. Mas logo descobriu a mãe na varanda. Empinou-se para o encontro. Quando chegou, sofreu a vergonha das palmas. Abraçou-se a égua com quem correu o mundo e voltou resoluta para os beijos e abraços de quem lhe quis dar.

Para Maria Clara Guimarães Prado que, em 15/11/2015,

fez sua primeira trilha a cavalo, sem os pais.


quarta-feira, 29 de julho de 2015

Alucinando na esteira ou suando com ironia! - crônica

Cinco vezes por semana, eu vou caminhando e cantando, seguindo a canção, sobre a esteira. Mas, de vez em quando, teimo em ver... e ligo a TV. No comercial da LUPO de Dia dos Pais, estrelado por Neimar (é assim que se escreve?), eu fui informada de que as cuecas da marca foram suas ótimas companhias em grandes eventos, mas não no mais importante. Uma piscadela e um abraço ao filho... Lupo e o Ministério da Saúde, tudo a ver! No Jornal da Cultura, eu quase chorei com a lamentação sobre a prisão do cientista almirante... gente como a gente?! Já saindo da esteira, fiquei com medo de o procurador Dallagnol  aparecer lá na minha paróquia Santo Antônio para palestrar sobre... teologia!? Sei que esteve com os irmãos evangélicos em sua igreja palestrando sobre... Lava-Jato?! Uma das chamadas internéticas de sua ação empregava a palavra cruzada... Ou a Idade Média me persegue até nos prazeres vãos ou devo me livrar da TV.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Minhas regras - crônica

- Filha, o que você está fazendo em pé na cama?
- Pai, minha cama, minhas regras.

Sentiu o chão desaparecer. Abraçou-se ao travesseiro como a um paraquedas que não vai abrir... e viu a filha no meio da Praça de São Pedro no Vaticano, nua da cintura para cima, com palavras de ordem pintadas no corpo; viu quando a polícia chegou e dispersou seu grupo; viu-a, bem como as amiguinhas do colégio, rindo depois de uma corrida desenfreada; viu-a pintando com seus lápis de cor preferidos a mulher nua na praça do homem nu, no coração da cidade em que nasceu. Enquanto caía, viu ainda a filha em maio de 68, berrando em Nanterre; viu-a machucada, mas de pé; viu-a tirar o véu depois de ler Qâsim Amîn; viu abraçar-se à Hoda Shrawi e pedir a palavra no Cairo, em 1944. Viu-a no primeiro beijo roubado por ela. Viu-a aceitar o abraço de um homem apaixonado às lágrimas... Viu o chão cada vez mais perto e, quando ia bater com a cara no chão, sentiu uma pequena mão salvá-lo pela camisa do pijama.

- Pai, faz meu café da manhã?