Mostrando postagens com marcador Jornal Rascunho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jornal Rascunho. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Preguiça ou acídia? Ponderações com o rei de Portugal D. Duarte (1433-1438) – Café Filosófico 2016

Prólogo:
Em fevereiro deste ano, o colega Prof. Wilton Borges dos Santos me convidou para participar de uma sessão do Café Filosófico, uma parceria entre PUCPR, Aliança Francesa e Café Babette. O Café Filosófico de 2016 seria consagrado aos pecados capitais e para mim ficaria o pecado da PREGUIÇA. Assim, na última 6ª feira, dia 7 de outubro de 2016, diante do lotado e charmoso salão do Babette, eu e o colega Prof. Dr. Cauê Krüger, conversamos sobre esse pecado “invejado”... Será?
Abaixo, divido com os leitores do blog os apontamentos que me guiaram. Não publico uma conferência (pois não era essa a proposta), mas notas sobre o que pude pensar do ponto de vista da História Medieval.


Café Babette, 7 de outubro de 2016

Agradecimento ao convite feito pelos organizadores, na pessoa do Professor Wilton Borges, a oportunidade de participar da parceria entre PUCPR, Aliança Francesa e Café Babette.
Agradecimento ao público, que não teve preguiça e teve generosidade.
Minha experiência com o tema dos pecados capitais não é exaustiva, mas é alguma, como medievalista, leitora ocasional de Tomás de Aquino, mas, sobretudo, como alguém que pesquisou uma obra singular, onde encontramos uma discussão importante sobre o tema, na Idade Média. Falo do Leal Conselheiro, escrito pelo rei de Portugal D. Duarte (rei de 1433 a 1438). Em 2004, eu participei do Seminário Internacional Os Pecados Capitais na Idade Média, promovido pela PPG de História da UFRGGS, pelo Departamento de História da mesma instituição e pela Secretaria de Cultura de Porto Alegre. Em 2005, escrevi sobre a soberba e sobre a acídia, justamente[1]. Guardem essa palavra.

Preguiça boa? Pecado leve e pecado duplo.
Ai, ai, que preguiça,
Que preguiça boa!
Passo o dia à toa
Sem me dar notícia.

Só, numa canoa,
Contemplando alturas,
Pensando em branduras,
Nada que me doa...

Páginas futuras,
Ecos do passado,
Nada turve o estado
De calmas doçuras!

‘Stando assim parado
Neste eterno instante
Algo que é intrigante
É-me revelado:

Todo ser pensante,
Tendo assim pensado,
Sofre tanto o fado
De não ser constante,

Que no desagrado
Da verdade dura
Perde a belezura
De ser limitado.

Eis que não me apura
Se tu me caçoas
Porque teço loas
A essa loucura:

Passo o dia à toa
Sem me dar notícia.
Ai, ai, que preguiça,
Que preguiça boa![2]

Aqui, parece que a preguiça é uma coisa positiva que proporciona ao eu poético contemplar alturas, refletir “em branduras” e ter revelação sobre a perda “da belezura”. É uma preguiça muito ativa, afinal!
No livro Pecados, organizado por Eliana Yunes e Maria Clara Lucchetti Bingemer, Bartolomeu Campos Queirós, autor de uma fantástica obra consagrada às crianças, perguntou-se na introdução da resposta ao convite para falar do tema: “Como descobriram que sou preguiçoso?”[3]. Mas, logo depois, esclareceu que não reconhecia a preguiça como um pecado: “Acho que preguiça é uma graça que Deus dá a determinados filhos. É que quando se vive profundamente em preguiça estamos interditados para praticar qualquer outros pecados”[4]. Bartolomeu, entretanto, reconhece qualquer relação entre a preguiça e a depressão: “Muitas vezes, o que nos imobiliza é a dificuldade de justificar o sentido de estar no mundo”[5].
Oswaldo Giacóia Jr que esteve em Ctba ano passado, em junho para falar sobre as políticas do perdão, em iniciativa da PUCPR (estive lá para vê-lo), também falou sobre a preguiça um em café filosófico acontecido em 2014[6]. Começou mencionando a mesma palavra que pedi a vocês para guardarem: a acídia, e abordou o perigo dessa falta nos religiosos, quando liam... Como ele compreende a relação afinal entre acídia e preguiça? A acídia tem como filhas a melancolia (que gera a insatisfação, pela falta de sentido) e a preguiça (que gera a improdutividade). Giacóia vê na Modernidade que a associação da nobreza ao trabalho empurrou a preguiça à marginalidade; eu acrescentaria que, na Modernidade, o que era uma consequência sobrepujou o princípio. Sorrindo, Giacóia compreende o ócio e a preguiça como reações à alienação do utilitarismo (nisso, junta Georges Bataille à discussão), ou à barbárie civilizacional. Menciona a arte e afirma que sua fruição exige sossego.  Contra essa necessidade, há a consciência dos laboriosos e o consumo ininterrupto.
Mas a argumentação de Giacóia, certamente sofisticada e brilhante, revela para o historiador um fenômeno interessante da Modernidade, como certos pecados viraram virtudes. O poupador não é avarento, mas precavido; os gulosos foram redimidos pela  gourmetização da vida; pessoas ostentam em redes sociais sua adesão a políticos que propalam a violência e estão sempre com a expressão de que vão cometer um crime; somos fãs de Cinquenta tons de cinza; perdoamos o colega com autoestima exacerbada; invejamos a preguiça (ora, dois pecados em 1!!!). Fora a maneira como algumas virtudes viraram pecados... Pode ser tema para outro café filosófico... 
Como medievalista, convido vocês à enumeração de Tomás de Aquino dos pecados capitais. São eles, então, vaidade, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e acídia. Cadê a preguiça???? O professor Jean Lauand lembra: “O atual Catecismo da Igreja Católica apresenta como pecados ou vícios capitais: soberba, a avareza, inveja, ira, impureza, gula e preguiça ou acídia”[7]. Opa, ou!  A Modernidade substituiu a acídia pela preguiça. Segundo Lauand, não há conceito ético mais desvirtuado, mais notoriamente aburguesado na consciência cristã, do que o de acídia.” Mas alguém poderia ver na substituição não um desvirtuamento, mas a reabilitação da pobre tristeza...
Eu deixo por um momento essa reflexão com vocês, para levá-los à Idade Média e a um contexto em que acídia e preguiça comparecem em um comovente relato, sobre a doença de um rei. Esse rei não é personagem de romance, embora pudesse ter sido, ou seja, é um rei cuja existência é fundada na verdade. Acídia e preguiça compararem no trecho mais autobiográfico de uma obra chamada Leal Conselheiro. Seu autor é D. Duarte.

O rei D. Duarte (1433-1438) não é uma individualidade esquecida pelos estudos históricos; os estudos literários e os filosóficos também não o ignoram. Todos esses campos parecem concordar que o período exíguo de seu reinado não ensombrou a sua obra, quer seja doutrinal, quer seja a do exercício efetivo do poder, ainda no reinado de seu pai, D. João I. Primeiro rei da nova dinastia que não precisou mais lutar pela sua legitimidade, beneficiado pelas lutas e longevidade do pai, D. Duarte pode dar-lhe continuidade e se entregar a outras realizações que não apenas o monte, a caça e o poder. Desde muito cedo, associado pelo pai à governação, quando foi alçado à condição de rei, sabia tudo do “emprego”. Foi o rei que nomeou Fernão Lopes (1385-1460) para um ofício novo no reino, o de cronista régio, e é possível que a escrita da história de forma direta, ou seja, a cargo de seu próprio ditar, não estivesse excluída de seus projetos pessoais. A nomeação de Fernão Lopes pode significar a impossibilidade de se dedicar ao ofício em meio às obrigações principescas e régias. D. Duarte foi um rei legislador, ainda que a energia tenha sido maior enquanto infante. Teve seu curto reinado atravessado pelo desastre de Tânger (1437), que haveria de ser fatal para o infante D. Fernando, seu irmão mais novo, e também para a própria construção da memória do monarca, negativa e ironicamente tecida a partir de um labor que criou em Portugal, o de cronista. Refiro-me à sua detração narrativa realizada pelo cronista Rui de Pina[8]. Entre as muitas coisas que Pina não poderia negar, porém, destaco a formação “de alto nível”[9] do rei, bem a como de seus irmãos.[10]

O rei é autor do Leal Conselheiro, obra que me interessa hoje aqui, mas também do Livro da Ensinança de bem cavalgar toda sela e do Livro dos Conselhos. O que é essa obra, Leal Conselheiro? Um tratado para o bom regimento das consciências e vontades. Escrito por requerimento da esposa do rei, a rainha D. Leonor, a partir da observação da vida, para elevação das virtudes, daí ser necessário abordar os pecados... O que é mais espetacular nesse livro, e eu me junto a muitos autores que ressaltam isso, é a maneira como a experiência pessoal do rei comparece. Portanto, depois de conceituar a tristeza a partir dos sábios autorizados, o rei revela como foi doente do humor menencórico.
No capítulo 18 da obra, há um aspecto que eu também desejaria que guardassem: D. Duarte reconhece que a tristeza pode advir do desejo de perfeição e por isso esse tipo de tristeza seria “bom”... Por outro lado, como falta, ela nasce do medo da morte; da sanha não vingada; do desejo não realizado; do nojo da perda; da saudade; da doença (caso do humor menencórico); da insistência em uma conversação triste; no cuidado exagerado e na desesperança. Destaco que D. Duarte reconhece que a depressão é uma doença.
D. Duarte afirma ter ficado três anos doente; desejou escrever para que sua experiência (o que inclui a experiência da cura) pudesse ser exemplo e dar esperança. Lembremo-nos que a desesperança é uma das causa da tristeza e agravamento a doença.
Por que D. Duarte ficou doente? Porque fez coisas demais; assumiu muitas tarefas; era muito jovem; não estava preparado... Quando o pai lhe passou os encargos, não soube equilibrar o que tinha a fazer ao necessário desenfado. A situação foi agravada por outros fatores externos, como a ciência de que a peste atingia pessoas próximas (sua própria mãe). Um primeiro sinal da doença foi uma dor na perna; depois, um medo agudo de morrer (possivelmente, ataques de pânico).
No minucioso relato do rei, há, porém, confiança. D. Duarte afirma ter se curado. Como o fez? Não se afastou das formas de seu viver; cuidou pessoalmente da mãe e achou que se Deus dava tanta pena a seu coração era para corrigi-lo dos seus pecados. Para a cura, é preciso esforço, paciência e virtude. D. Duarte tem confiança. O Leal Conselheiro é uma obra comovente pelo desvelamento detalhado da doença, a partir do próprio doente, e pela esperança consumada na cura. O rei menciona também o conselho dos médicos. Preocupa-se com o corpo, sua coleção de mezinhas no Livro dos Conselhos é prova disso.
D. Duarte é um especialista da tristeza e, sobretudo, do sentido de enfermidade... Como traz a preguiça ao debate? Um dos elementos de cura do humor menencórico é o desenfado, ou seja, a distração necessária ao corpo e à alma. Ora, alguém poderia confundir isso com preguiça. Mas o rei afirma que só há pecado se deixamos de fazer o que é preciso, ou seja, desenfadar-se, distrair-se é necessário, mas é preciso cumprir as tarefas que nos cabem. Afirma que da preguiça vem começar, continuar e acabar as coisas mal, tarde ou fracamente, quando bem e cedo elas deveriam ser feitas. São seis as suas causas: fraqueza; querer uma vida sem trabalhos; postergar as coisas; ser distraído e se entregar a obras sem proveito ou a fantasias; esquecer o que há para fazer e ser desleixado (Capítulo 26). A preguiça ainda facilitaria outros pecados, como a cobiça, ou seja, se alguém tem preguiça de fazer seu trabalho – o rei exemplifica com o trabalho nos campos – pode roubar e mentir para se satisfazer e para se satisfazer de forma desordenada.
D. Duarte tem muito cuidado em definir desenfados... e cita a leitura como uma atividade de saudável proveito. Mas se refere a uma leitura especial, como a dos “livros de ensinamentos” e sutilmente levanta a questão de alguém achar que ele se dedicava demais a isso... Menciona a atividade de escrita como outro bom emprego do tempo – quase um metatexto, na medida em que O Leal Conselheiro é um livro de ensinamentos... O rei se põe em uma linhagem de reis autores (alça seu irmão Pedro, o Duque de Coimbra, ao patamar de comparação com Salomão...) que se preocuparam com o conhecimento e com o conselho.
Se o desenfado é necessário, estar assoberbado, portanto, não é virtude. O rei cita o exemplo de Marta (sobre quem já escrevi no blog, um texto chamado “Papo entre amigos – sobre um fragmento de Lucas”), que estava ocupada com diversas tarefas, quando uma só era necessária.
D. Duarte nos cobra, portanto, equilíbrio e foco. Entende a tristeza como um pecado que até pode nascer da virtude, mas sempre tira a força do coração; a depressão como doença e a preguiça como desvio das obrigações. Não constrange ninguém com a sugestão de que só devemos trabalhar; demonstrou com a sua experiência que esse desequilíbrio pode virar doença e recomenda o desenfado, a diversão (não a preguiça) como dieta saudável. Em tudo isso, seu Leal Conselheiro continua a ser fiel ao futuro, ou seja, a nosso presente de leitura.
Compreendo a fidelidade dessa obra em relação tanto ao que leio no poema de André Ricardo de Sousa quanto ao que Giacóia faz menção. No poema, estar à toa faz pensar e, de quebra, favorece a escrita, afinal o poema é feito! Na mesma direção, quando o filósofo afirma a necessidade do sossego para fruir a arte, estaria eu incorrendo em indelicadeza estendendo perigosamente sua orientação à leitura? Os livros de ensinamentos da época de D. Duarte corresponderiam à filosofia em nossos dias? A escrita também precisa de sossego. Mais extensão... Creio que na contemporaneidade, há uma imprecisão favorecida pela duplicidade do pecado a partir da própria lista do Vaticano. Tristeza e preguiça são coisas diferentes e, quando as abordamos em relação, sobram equívocos, que nos fazem ter espanto em pensar que a tristeza possa ter sido algum dia um pecado e revolta contra a preguiça boa...

Epílogo:
Quando eu já havia terminado meus apontamentos, eis que recebo meu jornal Rascunho em casa, com um texto de José Castello intitulado “A Potência da preguiça”. Castello afirma que a poesia precisa de intervalo, de preguiça..., de uma vivência não utilitária. Não foi Jean Cocteau que afirmou “A poesia é indispensável. Se eu ao menos soubesse para quê...”? Então, o útil/ o indispensável precisa de tempo, que ele chamou de intervalo ou preguiça. Eu continuo a achar que nos perdemos em equívocos conceituais, travestidos de reação (necessária!) aos utilitarismos...
Com tristeza, acho que vivemos também um presente pouco poético, sobretudo em nosso país, que tem nos apresentado tantas demandas. D. Duarte me “contou” que quando temos um trabalho importante é preciso encará-lo. Talvez haja momentos em que podemos ser mais preguiçosos, não vivemos em um desses, mas saibamos incluir o desenfado como ousadia e cura para prosseguir!

Eu e Cauê Krüger

Público excelente





[1] GUIMARÃES, Marcella Lopes. “A ensinança de evitar o pecado na prosa de D. João I e D. Duarte” in Revista de História da UPIS. Brasília. Vol. 1. 2005.
[2] O poema é da autoria do Prof. Dr. André Ricardo de Souza (UNESPAR – Bacharelado e Licenciatura em Música e Teatro), a quem agradeço por ter concordado com a leitura pública e com a publicação no blog.
[3] YUNES, BINGEMER (orgs). Pecados. Rio de Janeiro: São Paulo, Ed. da PUC-Rio, Edições Loyola, 2001. p. 148.
[4] Ibidem, p. 148.
[5] Ibidem, p. 149.
[7]“O pecado capital da acídia na análise de Tomás de Aquino” disponível em:  http://www.hottopos.com/videtur28/ljacidia.htm (acesso em 26 de setembro de 2016).
[8] Como observa Luís Miguel Duarte, ao longo de toda a sua biografia consagrada a D. Duarte: DUARTE, Luís Miguel. D. Duarte. Lisboa, Círculo de Leitores, 2007.
[9] Ibidem, p. 47.
[10] Todo o trecho em destaque é aproveitado do meu artigo “O corpo do rei: capítulos sobre saúde e doença em D. Duarte (1433-1438)”, que será proximamente publicado na Revista Locus.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Em tempos de lançamento de "Menina com brinco de folha", uma reflexão sobre o 1o volume da dita coleção "Antiprincesas"

O texto abaixo foi publicado na edição 193 (maio), do Rascunho. Agradeço ao meu amigo Rogério Pereira, meu primeiro editor, que há tantos anos acha que vale a pena publicar minhas impressões de leitura em seu prestigiado jornal. Só trago aqui, porque foi publicado primeiro lá.


Sobre a gente que vive em palácios, pântanos e em uma casa azul de papel

Uma querida aluna anunciou ter comprado a obra Frida Kahlo, de Nadia Fink e ilustrada por Pitu Saá, coleção Antiprincesas da editora Chirimbote (tradução de Sieni Maria Campos, 2015). Na capa, reparo: “para meninas e meninos”. Há uns dois anos, também dei de presente à filha a obra Frida de Jonah Winter, ilustrada por Ana Juan (editada pela Cosacnaify, 2004), naquela mania de os pais já irem apresentando as suas paixões às crianças indefesas. Se levei a filha à exposição de fotos consagrada à pintora no MON, em Curitiba, em 2014? Claro e duas vezes! Minha curiosidade pelo livro de Nadia Fink e Pitu Saá acendeu meu desejo por nova investida junto à minha criança indefesa, mas não só... queria entender o Antiprincesas. Na quarta capa da obra, descubro que há uma série de Anti-heróis e vejo Cortázar.
A coleção Antiprincesas tem uma espécie de manifesto na primeira página. Seleciono fragmentos: “Por que sempre que nos falam de história, nos contam sobre mulheres e homens ‘importantes’ ”? O manifesto pergunta se “importantes” são as princesas “bem vestidinhas” e limpinhas; pergunta também se “importantes” seriam os “heróis e seus superpoderes”, distantes “da gente”. Responde: por “importantes”, “estamos falando de quem se sujou para crescer e se divertir, de quem não ficou esperando sentado e de quem também usou poderes, mas outros", como a “coragem”. O manifesto termina com o desejo de “contar histórias que merecem ser contadas”. Vejo muitos equívocos nesse conjunto de declarações em que reconheço, porém, boas intenções.
Quando o manifesto aborda história, refere-se à História, campo de conhecimento ou à narrativa? É uma escolha difícil, eu sei..., afinal, uma das operações de sentido da História é justamente a narrativa. Mas, se for o primeiro caso, há muito a História abandonou o desejo de circunscrever as suas perguntas ao universo vivido por homens e mulheres que não podem “se sujar”. Desde as primeiras décadas do século XX, esse campo de conhecimento, que é também um fazer, viu-se “revolucionado”, uso expressão do historiador Peter Burke[1], pelo desejo de conhecer a vida de homens e mulheres muito importantes sim, mas que não habitavam castelos. São importantes porque criam um sentido que nos afasta da solidão. O sentido de que eu e você que me lê temos um passado no qual viveram e amaram pessoas de carne e osso. Na narrativa de suas vidas, podemos ler suas vitórias, seus equívocos, seus sonhos e as escolhas que tinham à sua disposição. O fato de saber que viveram e encontraram soluções antes de mim também me enche de esperança de escrever a minha história!
Se a acepção posta no manifesto da coleção, porém, tem a ver com a narrativa ficcional, qual é a essência da sua refutação? Talvez a equipe que concebeu a coleção tenha ido buscar a ideia da princesa “bem vestidinha” e que não pode sujar nas imagens do cinema estadunidense. Alguém pode lembrar que a Cinderela de Disney se suja fisicamente (é a Gata Borralheira!), mas acredito que a coleção tenha ampliado o conceito, pois explica que “importante” é quem “não ficou esperando sentado” e, nesse sentido, vou acreditar em minha intuição quando propus a relação entre a intenção do manifesto e a animação estadunidense. Minha insistência se funda no fato de que a abertura do trabalho extraordinário dos Irmãos Grimm, por exemplo, frustraria essa expectativa de um mundo em concerto, contra o qual seria preciso elevar novos heróis ou anti-heróis, antiprincesas?
Na história dos Grimm, o pai da Cinderela está muito vivo. Vê as perversidades da nova família contra a sua filha e não faz nada. Depois de desafios impossíveis lançados pela madrasta, Cinderela consegue seu intento de ir ao baile, graças a uma mediação mágica, mas faz a travessia sozinha e enfrenta o desconhecido. O príncipe inicia o baile, tira a jovem, irreconhecível aos seus, para uma dança. Ao longo da noite, não se separam. Eles não precisam se conhecer para estarem nos braços um do outro e essa possibilidade aponta para o risco e para a coragem que o cinema não deu destaque, mas que a leitura não pode esquecer! Quem disse que ela ficou esperando sentada? Não me venham com a desculpa da mediação mágica, muitos outros heróis tiveram parceiros mágicos para facilitarem a sua vida!
O livro Frida Kahlo, de Nadia Fink e ilustrado por Pitu Saá, é uma biografia com diferentes possibilidades visuais de leitura. A edição contém documentos visuais autênticos, como fotografias, e releituras da obra da pintora. Na página 5, uma caixa de texto em lilás fala sobre o nascimento e a polêmica em torno da data. Na mesma página, à direita, a explicação de por que gostamos tanto de Frida. Abaixo, a declaração de que “ela é de uma família trabalhadora!”. Na página 8, um elogio à rebeldia: “Frida divertida, Frida engenhosa, Frida inteligente e rebelde”. Na página 10, sua tragédia... A obra fala de Diego Rivera, mas encontra uma solução discursiva no mínimo inusitada para os propósitos da coleção, em que claramente se propõe o protagonismo de uma mulher incrível: “Diego se apaixonou pelos quadros, e também pela pintora”. Como assim? E ela?! Logo depois, “Diego e Frida se casaram”. Onde está a paixão da mulher “importante”? Seu protagonismo no amor? O livro não escamoteia a liberdade sexual do casal e a enquadra no verbo “compartilhar”. A obra fala ainda da debilidade da saúde da pintora e de sua morte, talvez antecipada pela decisão de levar às ruas, no estado em que estava, seu frágil corpo “como uma bandeira”... A obra contém ainda atividades, “jogos”.
Para mim, foi inevitável compará-la à narrativa de Jonah Winter e às ilustrações surpreendentes de Ana Juan, que eu tinha em casa. Algumas páginas têm apenas 1 ou 2 frases, nada de manifesto, ou muita explicação. Entra em cena uma amiga imaginária, com quem a Frida criança brinca; no hospital, a amiga imaginária é a pintura... Frida não melhora de todo, nós sabemos, e me emociona a pequena frase “seu corpo ficará machucado para sempre”. Não vejo Diego na obra! Ora, então toda uma parte fundamental de sua vida está de fora... Escolhas. Não acho que Jonah Winter me dê um grande texto, acho, entretanto, que Ana Juan tatuou imagens fantásticas nos palácios de minha memória.
Penso que vivemos um grande equívoco contra os príncipes e princesas porque as imagens do cinema suplantaram as contradições que a leitura pode revelar. Em Frida Kahlo, de Nadia Fink, leio a bela intenção de mostrar aos leitores (não entendi até agora porque “para meninas e meninos”, uma nova moda?) que todos são sujeitos da História e isso é muito importante! Mas vamos combinar que Frida foi uma pintora reconhecida em vida. Frida e vida, ai que rima fácil!
O cinema tem tentado nos convencer de que os príncipes são chatos e os ogros são muito bacanas. Na vida, tenho visto mulheres incríveis casadas com ogros também, por livre e espontânea vontade. Só que não viraram ogras por amor; nem assumiram a identidade desses seres; sequer adotaram seus sobrenomes e são felizes porque não foram condenadas, assumiram a responsabilidade por suas escolhas, sem se transformarem neles... Elas parecem felizes. Frida não é uma antiprincesa para mim porque tinha buço, um corpo machucado, andava colorida (Frida, vida, colorida!) ou porque casou com um “príncipe” sapo (ela chamava Diego assim)... Eu me pergunto o que estaria por trás do elogio ao outro morador do pântano? Um convite às meninas a ampliarem seu olhar e a acharem encanto em lugares imprevistos? Ou a naturalização de expectativas muito baixas em relação aos homens ou em relação a elas mesmas?... Cá entre nós, vejo que os ogros se organizam. Que resposta darão os príncipes?
Cinderela virou princesa porque se apaixonou por um homem filho de rei, em uma festa em que jamais teria ido se tivesse ficado sentada, pensando na morte da bezerra. Seu vestido de baile nem era rosa! Isso me lembrou do livro de Ian Falconer (que também ilustra): Olivia não quer ser princesa (traduzido por Silvana Salerno. São Paulo: Globo, 2014). Olívia “estava arrasada” porque havia descoberto que “todas as meninas querem ser princesas”. Ao longo do texto, porém, percebemos que Olivia se insurge contra um tipo de princesa, um estereótipo, pois alude a “alternativas”: “princesa da Índia”, “princesa da Tailândia”, “princesa da África” e “princesa da China” e se imagina assim. Na página em que se vê na história da Rapunzel, Olivia grita socorro para o perigo de ser salva pelo príncipe! Morro de rir! Mas Olívia também não quer ser a Menina da Caixa de Fósforos... Depois de muita reflexão, Olívia descobre afinal o que quer ser: “Eu quero ser rainha!”.
Olívia, você me representa.

Sugiro a visita ao jornal: http://rascunho.com.br/ que sempre vale MUITO A PENA!

Jornal Rascunho





[1] BURKE, Peter. A Escola dos Annales (1929-1989). A Revolução Francesa da Historiografia. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1997.