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terça-feira, 30 de maio de 2023

Eneida de Heloisa Passos: épico familiar

 

5ª feira, dia 25 de maio de 2023. O PPGHIS da UFPR viveu uma atividade rara: a união de suas Linhas de Pesquisa para uma experiência em comum. Colegas, alunas e alunos, convidados e convidadas reuniram-se no anfiteatro 1100 do Edifício Pedro I da Reitoria para ver o filme Eneida da cineasta Heloisa Passos. A qualidade “rara” teve a ver tanto com o que há de mais funcional na rotina dos dias: os horários diferentes das aulas, quanto com as preocupações acadêmicas: as especificidades de cada seminário de pesquisa e até com a surpresa gerada pelo encontro entre o previsível e o imprevisível. Na 5ª feira, dia 25 de maio de 2023, colegas, alunas e alunos encontraram-se com a protagonista do filme, Eneida Passos (86 anos), para ver com ela um filme em que suas alegrias, conversas e suas dores foram projetados para nossa surpresa e emoção, em uma sala de aula.

Uma atividade assim tem suas “horas de filmagem” invisíveis aos presentes pontuais e que merecem aqui um destaque para as que vivi com a Taturana, distribuidora do documentário, com quem conversei e de quem recebi materiais generosos e muito bem elaborados sobre o filme. Ora, a existência desse conjunto revela que o filme tinha a ambição de extrapolar a experiência de seus minutos visíveis. A exibição começou antes com a leitura do material e se prolongou na conversa depois do filme, em que contamos também com as presenças gentis da produtora Débora Zanatta e da filha mais nova de Eneida Passos, Luciane Passos. Palavras aquecidas com café.

Eneida é um documentário sobre Eneida, a mãe de Heloisa Passos. A cineasta encena a microescala italiana – tão conhecida da historiografia – para “falar” com o público sobre a sua gente, tão nossa... Mãe e filha estão em cena! Eu tive a satisfação de escrever sobre o filme Construindo pontes em 2018 que para mim, tanto quanto Eneida, conta muito sobre o Brasil recente[1]. Mas em Construindo, era o pai que passava pelas telas... Ele volta em Eneida, presença sutil na tela e de grande impacto na trama invisível que é o centro do filme.

Quando o filme começa, Eneida está em Portugal, revisitando suas próprias raízes. Eneida tem 81 anos e vai ao encontro da casa de seu pai. Depois, ela realiza seu épico para religar os ramos todos de que ela é árvore. Eneida vive a separação de uma filha e essa separação reverbera em sua família como afastamento por mais de vinte anos, entre irmãs, netos, primos, tias... sombra e silêncio. Eneida e Heloisa enfrentam a mudez dos anos, sufocada por camadas de desencontro, em busca da filha mais velha da protagonista. Eneida e Heloisa insistem, enfrentam seguranças, porteiros e rabinos. Reviram o sedimento de uma terra inundada pela alga mais tóxica para o amor: o ressentimento.

No material que estudamos sobre o filme, havia três temas disparadores: o cuidado, o envelhecimento e a reconciliação. O filme tem tudo isso. Eu gostaria de acrescentar o ressentimento e o perdão. O ressentimento é a invisibilidade mais opressiva do filme e o perdão... eu volto a Paul Ricoeur, para ele dizer uma coisa muito difícil: “pedir perdão também é manter-se disposto a receber uma palavra negativa: não, não posso, não posso perdoar”[2].

O filme Eneida também é outra coisa, ele encena o que vou buscar outra vez na precisão de Paul Ricoeur: “A fidelidade ao passado não é um dado, mas um voto”[3]. O legado desse filme é um voto. Refuto a ambiguidade desse substantivo, em contexto brasileiro de persistente divisão no almoço de domingo em nome do único sentido que interessa aqui. Na 5ª feira, dia 25 de maio de 2023, foi possível uma mesa comum.

Uma das coisas mais emocionantes para mim foi ver Eneida vendo Eneida... Ela não acredita que sua filha mais velha ou seu círculo viram ou verão o filme da sua epopeia. Eu acho que fica o voto, “o brilho dessa estrela norteadora”[4]...

Marcella Lopes Guimarães

 

***

 

Abaixo, a livre manifestação dos alunos do seminário de Cultura e Poder presentes na sessão de 25 de maio de 2023:

 

I)

Nikita Chrysan

Eneida não é apenas um filme, é uma experiência. É um convite para refletirmos sobre nossas próprias vidas, nossas famílias e amigos, os relacionamentos que vivemos, sejam curtos ou duradouros, assim como nossos medos e esperanças sobre aquilo que o futuro ainda há de nos revelar. A jornada de Dona Eneida em busca do tão sonhado reencontro com sua filha mais velha depois de mais de vinte anos, deixa o espectador ansiando pelo final perfeito que os diversos filmes e histórias fantásticas nos condicionaram a esperar desde a infância. Mas não podemos nos esquecer de que este filme conta uma história de vida, de mulheres que viram o machismo despedaçar importantes laços familiares que o tempo por si só não foi capaz de remendar, quando homens optaram pela discórdia onde o diálogo podia ter oferecido melhores alternativas. Em certo momento do filme, Dona Eneida diz ter vivido uma vida cercada e cerceada pelo machismo, não vendo formas de algum dia se livrar completamente disso, mas aos meus olhos ela já se impõe frente a seus opressores, como mulher, mãe, avó e bisavó, pela coragem e resiliência de buscar a conciliação familiar que foi inviabilizada por homens tantos anos atrás.

Como o próprio material promocional e didático do filme traz, Eneida é uma produção sobre mulheres feita por mulheres, que por meio de diversos temas nos aproxima da vida dessas pessoas, de sua dor, de suas alegrias, memórias e esperanças. Nos lembra que o tempo não espera por ninguém e que há infinitas maneiras de navegarmos por ele, mas que o perdão, o diálogo e a coragem devem ser nossos companheiros e companheiras de caminhada. O filme me fez pensar em minha própria família, tanto nas pessoas que não estão mais fisicamente comigo quanto naquelas que irei reencontrar nas férias que se aproximam depois do término deste semestre letivo, para a qual já tenho a passagem para casa comprada. Para Dona Eneida, sua filha e cineasta Heloisa e todas as mulheres de sua família, desejo toda sorte no caminho que vocês bravamente percorrem, e para minha mãe, minha eterna melhor amiga, deixo aqui meu até logo, na certeza de que este mês que me distancia de seu abraço passará tão rápido quanto o tempo que corre e guarda as memórias de todas nós.

 

II)

Dalton Iathiskoski

 

Eneida é um filme que nos faz refletir sobre as relações familiares, e não somente isso, também perante a sociedade. Assistindo ao filme pensamos sobre as ligações e os rompimentos que vivemos em nossas vidas. O quanto vale a pena uma relação? O quanto vale um rompimento? Pensar nos eventos e suas consequências desafia-nos a olhar para nós mesmos. Pois todos, em sua memória, podem lembrar-se de casos de machismo, injustiça, rejeição e abandono, seja por ouvir ou por presenciar. É impossível passar levianamente por esse filme. Em algum momento você é transportado para alguma vivência que teve e é obrigado a refletir sobre a conduta dos outros, mas também da sua. O que somos? O que nós queremos? Quem está conosco? O que ganhamos e o que perdemos? Por fim, a busca trágica de Eneida... torna-se uma busca por nós mesmos.

 

III)

Rennan Negrão

 

Eneida me tocou de maneira especial. Sua história é a história das nossas famílias, das discussões por dinheiro que levantam paredes no meio das salas das nossas casas, das palavras não ditas e que carregam expectativas que não foram cumpridas. Apesar da ruptura com uma das filhas - e com o braço da família que dela descende -, o filme mostra de maneira muito sensível a relação de Eneida com seus netos. Os netos dão aos avós a oportunidade de renovar as relações de afeto. É um amor demonstrado de maneira diferente. Eneida, nesses momentos, é avó. As interações com os netos nos colocam diante de dois problemas que estão dentro das nossas casas. O primeiro é o envelhecimento, e o cuidado que não relega aos idosos da família o lugar de apartamento, reservado às pessoas que, como objetos, vão se tornando obsoletas com o passar do tempo. O segundo problema, que atravessa o filme todo, são as relações de gênero; a vulnerabilidade masculina é apresentada em um único momento, quando a avó está barbeando o neto Bruno. A relação com os netos é o lembrete que, apesar do seu drama, essa é a família que Eneida possui*. O filme também nos relembra da importância daqueles que ficam do lado de cá após a ruptura, daqueles que tentam uma reaproximação, que querem reatar os laços. Novamente, essa é a história das nossas famílias.

 

*Assistimos ao filme na presença de Eneida, a protagonista, e sua filha mais nova. Ao final da apresentação, ambas saíram em direção ao toilette, e eu estava atrás, no corredor. Ao ver a mãe emocionada, a filha a abraça e diz: “Mãe, olhe tudo o que você tem, a gente, seus netos…”.

 

IV)

Danilo Rodrigues Silva

 

O filme na sua parte final expressa aquilo que nós usualmente concebemos como o derradeiro não desejável, aquilo que não esperamos e não queremos em um filme e muito menos nas nossas vidas, talvez por estarmos acostumados com a idealização da vida no cinema, a idealização de tudo aquilo que anelamos mas não encontramos nas nossas relações familiares e sociais. Eneida, obra de excelência em transpassar para além da tela aquilo que nós enquanto grande público não toleramos que nos seja despertado, sem subterfugio de algum clímax dramático da trilha sonora subjacente ás imagens, não faz avivar na consciência necessariamente aquilo que nós queremos; faz avivar o “nós” demasiado humanos, o “nós” sem muitos outros horizontes a não ser aquele da grande dor do passado, aquela que levamos ao futuro. Não se detendo apenas na rigidez da vida, o filme também aviva o “nós” amor, o incansável esperançoso. A obra não é a descrição de uma história com uma conclusão encantada e positiva para depois de um dia de muito trabalho, corrido, que nos retire á consciência para sermos lançados ao mundo das quimeras, não é uma história feita para termos boas emoções e relaxarmos depois do cansaço, ele é expressão cinematográfica das relações humanas como elas são, demasiado humanas, não necessariamente certas ou erradas eticamente, mas indomáveis pelos sentimentos.

 

V)

Raoni Paes Peres

 

A percepção da brevidade que contém toda vida muitas vezes nos traz reflexões aguçadas sobre como nos relacionamos com os que nos são importantes; certamente a força motriz de muitas reconciliações. No entanto, nem sempre temos o poder de mudar o curso de rupturas nas relações interpessoais como gostaríamos, algo com que muito podemos aprender, como demonstrou Eneida. Ao contrário de um mero conformismo, entre intenções materializadas em ações e a dose certa de estoicismo, encontramos também um conforto – o de viver intensamente sem adiar sonhos, convivendo com objetivos que não pudemos atingir, sem transformá-los em uma condição vital. Reconciliar é muito importante, e viver, mais ainda.

 

VI)

Mariana Megel

 

     O que foi Eneida para mim? Uma enorme reconciliação. Sou tecnóloga em gastronomia, estudante de nutrição e mestranda em história, porém, essas três faces do meu eu não andavam ressoando em consonância por aqui. Com essa inquietação, busquei transbordar a narrativa do filme através da alimentação. Enviei uma mensagem e um e-mail para a Heloisa perguntando se haveria alguma comida que fosse cara para a Eneida e a família delas e, para minha felicidade, dias antes do evento do PPGHIS fui presenteada com a receita do bolinho de polvilho da mãe da Eneida. Foram três testes na cozinha da minha casa até conseguir um resultado agradável e que me falasse ainda de boca cheia “é isso”. Reproduzi a receita com a intenção de que no dia 25 de maio de 2023 todas as conversas a mesa da família Passos estivessem presentes no anfiteatro 1100 do Edifício Pedro II. No entanto, não esperava que a partir disso as minhas três faces celebrariam juntas aquele momento. Eu celebrei naquelas 4 horas o fim da minha tripartite e a minha reconciliação. Finalizo dizendo que ainda não encontrei palavras suficientes para agradecer o fenômeno que é Eneida, mas usando da simplicidade, muito obrigada, Eneida.

 

(depoimentos enviados entre 28 e 29 de maio de 2023)

 

***

 

Eneida vendo Eneida, no anfiteatro 1100

 

 

 



[1] http://literistorias.blogspot.com/2018/05/construindo-pontes-de-heloisa-passos-um.html acesso em 29 de maio de 2023.

Achei uma dissertação sobre Construindo Pontes, que não li, defendida em 2021: http://ppgcineav.unespar.edu.br/dissertacoes_defendidas_new/2021/Dissertao_ThaiseJorgeMendona_PPGCINEAV.pdf acesso em 29 de maio de 2023. 

[2] RICOEUR, Paul. A memória, a história e o esquecimento. Campinas: Ed. da Unicamp, 2007. p. 489.

[3] Idem, p. 502.

[4] Idem.

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

De volta à nave

Dia 20 de novembro de 2022 fui contemplada com um lugar na plateia para ver o espetáculo Nave mãe, dirigido por Vanessa Corina, da companhia de teatro curitibana Pé no Palco. O espetáculo teve entradas gratuitas, bastava enviar mensagem e aguardar a confirmação para sábado ou domingo. Há muitos anos eu não entrava no espaço Pé no Palco! Eu tive a felicidade de fazer alguns cursos de teatro oferecidos pela companhia – que além do teatro profissional, tem uma vocação formativa e engajamento em projetos sociais –, destaco um deles: sobre Beltold Brecht, que me marcou. Na ocasião, o Pé no Palco recebeu a diretora Dedé Pacheco e, ao longo de uma semana, os interessados e as interessadas – eu! – mergulharam no universo das peças didáticas. Inesquecível. Além dos cursos, tive uma experiência de “público insistente”, que costumo ostentar por aí: eu assisti a umas cinco apresentações da peça O conto da ilha desconhecida, texto de José Saramago, encenada pelo grupo. Meu número não é hipérbole, eu desconfio até que é eufemismo, porque eu fui ver essa peça com todo mundo. Na época eu trabalhava na rede privada, ensino superior e ensino fundamental, e eu levei todas as minhas turmas! Também levei a família, amigos... Eu fui. Um dia, deixei de ir. É impressionante como a gente deixa de fazer as coisas que considera cintilantes e vive anos a fio esquecida do brilho delas sobre a própria vida.

Uma das primeiras experiências de reencontro foi ser reconhecida pela produtora da companhia, a Giselle Lima, depois de tantos anos e da máscara phitta! Adentrei, reconheci. O público esperou o espetáculo entre a exposição “Ela em mim” da artista Laiz Zotovici Martins, que preparou o espírito para as histórias mãe & filha, e o café, que eu não conhecia. Mas a gente não esperou muito. Logo, as atrizes e os atores vieram nos buscar e eu devia desconfiar que, nesse reencontro tão aguardado entre público e os atores e atrizes privados da intimidade pela crise sanitária, eles e elas haveriam de “inventar”. Chamaram a gente com música e com olho no olho. Eu me lembrei do exercício do enfrentamento de plateia. Não se tratou de encarar, mas de voltar a olhar, sorrir, estar perto, já dentro do espetáculo, porque afinal eles e elas já estavam maquiados, vestidos com seus figurinos, e nos envolveram como um grande elenco. Adentramos, reconheci. Uma das coisas de que eu me lembrava com mais afeto – talvez da experiência de público insistente de O conto da ilha desconhecida – era esse teatro muito afetivo, de público pequeno, próximo. Poucos. Não selecionados, mas interessados.

Da programação de A Nave mãe: “a peça se desdobra em três camadas: dos depoimentos autorais, na presença da música como texto/melodia e/nos momentos de necessários protestos”. É uma informação precisa e eu vou apenas completá-la. Os depoimentos autorais incluem o público pela identificação. Há uma magia – e eu emprego essa palavra porque ela revela a minha própria surpresa com a arte – que faz com que o mais particular da experiência do outro de repente se revele tão meu! Ouvir Vanessa Corina, além de mitigar saudades, foi me ver bem no meio do palco. “Eu sou free, sou free demais!!!”, Sempre Livre! Menudo... Eu ri de nervosa. Cada biografia dramática emanava uma possibilidade nova de se ver/de nos ver. As músicas foram texto amigo, complementar e também paralelo, que se impôs algumas vezes, um coro para despertar o público: olha, estamos no teatro, olhe para cá, desvie seu olhar da identificação, cante com a gente! Acho que foi a música que funcionou como mediação para esse processo de “desidentificação” que nos jogou em outra escala: do particular para o mais amplo, para o que irmana diferente, como compromisso cidadão. Lembranças de Brecht... O espetáculo cresce.

O teatro é o agora e a surpresa. Tem ensaio, tem repetição, tem técnica, concentração... e tem aquela magia lá. A silhueta de Fátima que se mistura a de Pedro, seus braços, que formam uma estranha criatura, de novo um só ser. As silhuetas que a iluminação foi revelando, molhadas por uma chuva portátil. De repente, o silêncio, um longo olhar. Sim, porque mesmo um espetáculo com música, com barulhão, teve silêncio, teve pausa. Pausa antes, no convite dos atores: desligue-se; pausa dentro: vamos olhar, vamos pensar.

Nave mãe é um espetáculo bonito, bem construído, pensado, múltiplo e que não abre mão da magia. Dias depois de ter adentrado essa nave, atravessada pelo dia a dia de experiências menos cintilantes, guardo em mim a experiência dessa viagem tão amorosa.

Obrigada, nautas!




sábado, 4 de abril de 2020

Meu longo caminho até o supermercado: uma crônica da França


Detesto ir ao mercado. Mas há muitos anos assumi que é uma coisa chata que devo fazer uma vez por semana..., ou duas..., ou três... que coisa emmerdante[1] chegar em casa e me dar conta de ter esquecido a manteiga!!  Que irônico ter desdenhado a farinha e, em pleno sábado à tarde, ter vontade de comer um bolo feito em casa, com minha filha!! Mas nem nos mais aflitivos pesadelos em que me bato entre corredores de enlatados ameaçadores, sem conseguir escapar das amarras do sódio, eu imaginaria que, acordada, pudesse caminhar para o mercado como quem vai em missão. Hoje, enquanto amarrava o cabelo em frente ao espelho, cheguei a imaginar uma maquiagem preta e verde sobre a pele do rosto. Hoje, eu fui cantando andar com fé eu vou, mas, às vezes, vou mesmo de o senhor é meu pastor.

Há uma roupa de rua pendurada na entrada de casa. Eu me visto na entrada e me dispo nela também. Imagino a preocupação de meus alunos. Mas sosseguem: moro no 4º andar de uma cidade pequena. Não tenho vizinhos de altura. Ninguém terá interesse em ser fotógrafo voyeur de uma professora obscura de 46 anos, sem qualquer intervenção cirúrgica remodeladora. Nenhuma foto comprometedora ameaçará uma defesa. Essa roupa de batalha é usada para comprar cebola, alho, arroz, cenoura, leite, carne e pão. Hoje, comprei shampoo! Há duas semanas lavo o cabelo com sabão para deixar o pouco shampoo para a filha. Mas é sabão de Marseille! Phyna.

Todo o dia em que não vou ao mercado, vejo as autoridades na TV com seus números e gráficos. Assisto à análise dos médicos. Eles estão no hospital e na TV, é uma jornada imensa! Assisto ao desfilar do rosário: o diretor geral de saúde, o ministro, os ministros, o ministro da educação, o primeiro ministro. Esta semana, Édouard Philippe foi sabatinado por mais de 3 horas. Perguntas difíceis. Vejo a movimentação do presidente, quase me lembro da semana do presidente (no SBT) da minha infância e que Sílvio Santos, que não pode frear o tempo no seu corpo, quer ao menos reviver o mau gosto no tempo. Já escrevi que os franceses têm muito que reclamar do seu presidente. Aquela dama que substituiu o paizinho na presidência de certo partido e que profere declarações tão horríveis quanto ela é de fato uma mulher bela tem subido seus ataques. Tem evocado a lentidão do Palácio do Eliseu em decretar o confinamento. Só esqueceu-se de que ela mesma não sabia bem se ia ou se ficava (essa semana, o Libération lembrou. Meninos, eu li). O fato é que Macron esta semana apercebeu-se da necessidade de repatriar a sua gente: ser francês significa alguma coisa (...) quando há inquietude, a nação está lá, ela protege. Sinceramente, fiquei pensando no genocida que 58 milhões de brasileiros colocaram na presidência do nosso país: Algumas pessoas vão morrer, o brasileiro tem de parar de achar que o Estado vai resolver. Macron não é nenhum santo, mas é um líder. Seus colegas de Eliseu devem quebrar o pau entre eles, mas para todo mundo, para a bela dama que vocifera atrocidades e para outros oponentes, eles estão juntos. Os outros que latam! No Brasil é o presidente que late, que espuma, atleta falso, de passado duvidoso e presente de aterrar! Cada um vai para um lado, às vezes se encontram em encontrão, então caem como fruta podre. Os homens (mal) fardados, superiores na hierarquia original, são apequenados, não no seu desejo secreto de golpe, mas no seu bom senso, no seu patriotismo. Os eleitores com sobras de humanidade temem, pedem união. Não tem união com o genocida que prescinde dos nossos velhos e que finge não saber que pode perder os nossos jovens[2].

Hoje, o chefe da polícia de Paris falou uma besteira de grandes proporções: estabeleceu uma relação entre quem está lutando pela vida na reanimação e o desrespeito ao confinamento... Consigo achar explicação na pressão, na obrigação de defender publicamente o confinamento, no cansaço e no contexto (estava na rua quando falou, microfone aberto). Mas foi cruel e não há justificativa. Por todo lado, pediram-lhe a cabeça. Uma coisa que os franceses curtem.

Amanhã, chegam 13 pacientes de Estrasburgo aqui em Portiers, para desafogarem um pouco o grande leste. Vêm no TGV medical. Tenho gente querida em Estrasburgo. Sei que estão bem, entretanto. Que essa cidade que me acolheu e acolheu a minha filha tenha meios de ajudar esses 13 guerreiros que vêm em alta velocidade, mas quase sem conseguir respirar...

Faço a minha lista. Do que vou abrir mão? É um critério engraçado para uma lista de compras, mas afinal sou uma mulher com dois braços e duas sacolas grandes. O relógio de corrida me disse que tenho 1,5 km para ir e outro 1,5 km para voltar. Então, não basta querer, é preciso abrir mão. Cabelo amarrado, roupa de rua, álcool no bolso envolvido em papel higiênico raro, atestação, lista, celular, duas sacolas na bolsa... Beijo na filha. Mãe, você fica fora 1 hora? Sim, se eu não voltar em 2, você deve avisar às pessoas que eu já te ensinei. Não tenho máscara.

Uma das coisas mais lindas de ser um caminhante é ter um rio brando perto de casa. Atravesso o Clain, vejo os patos adoráveis com quem brinquei quando ir ao mercado era só enfadonho e subo a rua cuja inclinação me prova que estou em ótima condição física. Avanço. Atravesso. Entro. O mercado é pequeno, mas a gente se espalha bem. Uns 2 metros! O chão está pintado, cada um no seu quadrado. De repente, eu me lembro de jogar amarelinha. Contenho-me. As mulheres que trabalham no caixa são peixes em aquário. Meto tudo nas bolsas. Pago. Arrumo melhor na porta. Tento equilibrar o peso.

Na volta, vejo a escola da minha filha. Um edifício lindo construído pelos jesuítas. A escola está vazia. Pessoas mascaradas sobem a rua. Lamento não ter investido na maquiagem verde e preta. Lamento não ter tentado uma máscara de pano de prato. É um curioso Carnaval esse, em que preferimos dançar bem afastados. Nem os longos braços do boneco de Olinda seriam capazes de nos juntar... Estranho Carnaval esse que acontece quase no Domingo de Ramos. Revejo o Clain. Até semana que vem.

Nudez na volta. Sou destaque de fim de desfile. Minha alegoria é o spray de água sanitária. Nunca vi embalagens mais limpinhas! A gente tem uns orgulhosos bem idiotas na vida... Banho completo também. Esse negócio de ir ao mercado em pandemia é uma trabalheira danada. Nenhuma garantia de voltar saudável, a não ser a fé no cuidado e na música do Gil.

Enquanto escrevo, tento ficar em dia com os médicos, os ministros, as sabatinas, os números, a França, a Espanha, o Brasil, o whatsapp e a filha. Ai, esqueci da Itália! Não posso esquecer. Pra que tanta pressa, meu Deus? Balanço a cabeça para mim, peixe de aquário. Aquário com ascendente em gêmeos! A curva da reanimação inflecte devagar. É sutil, mas anima. Assisto ao 15, canal que é também o número da urgência. O médico que assume o turno da TV agora pede calma, nada de rua, gente de Carnaval! O confinamento continua a ser necessário. Nada de mercado três vezes na semana! Eu me acalmo. Mas o rio faz falta, tanto quanto os livros das bibliotecas com que sonhei quando me preparei para essa aventura... Lenine pede Paciência. Aceito. Desfilo duas Sapucaís[3] para ir e mais duas para voltar atrás do arroz, segurando o grito Liberdade, liberdade.

Esqueci do alho.


Poitiers, le 3 avril 2020


Venço 3 portas até a rua. 



[1]  Emmerder..., não precisa traduzir, não é? Quero esse verbo na língua portuguesa já!
[2] Esta semana, a Bélgica chorou a morte de uma menina de 12 anos.
[3] A pista do sambódromo do Rio tem 700 metros.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Adeus, Cristina.

Esta semana, o texto do blog ia ser sobre presente para crianças. Só que a filha emprestou o presente em questão para a professora e eu fiquei sem a fonte! Então, decidi que ia ficar para semana que vem, afinal, eu já não faço atualizações semanais, sequer quinzenais, nas manhãs das 2as feiras... Ora, você que é uma das 3 pessoas que me leem em plena 3ª terça (!!) deve estar a pensar que eu resolvi mesmo anarquizar com esse blog. Mas não é nada disso.

Nos últimos dias, uma pessoa da família do Luiz que lutava contra um câncer piorou muito, precisou ser internada e ontem faleceu. A pessoa em questão não era minha amiga, nem uma pessoa próxima, embora houvesse uma série de coisas que nos uniam: casadas com primos irmãos, professoras ambas, cariocas, filhas de portugueses, mães de crianças pequenas. A mulher em questão se chamava Cristina, o segundo nome de minha irmã caçula. Outra coisa a nos unir.
Eu encontrei Cristina duas únicas vezes: no casamento dela, para o qual fui convidada, ela estava lindíssima, e em uma festa de São Cosme e São Damião que a família do Luiz organizou em 2014[1]. Uma festança! Eu me diverti muito e Clarinha... teve de tomar banho na casa da prima Beth, dado o estado em que ficou! Detalhe: as meias fofinhas e elegantes que ela usava foram para o lixo, irrecuperáveis. Eu abracei Cristina na chegada e na saída dessa festa de crianças pequenas e adultas; falei que seu filho estava grande; ela sorriu. Cristina se divertiu, comeu pé-de-moleque, maria-mole, doce de abóbora, tirou fotos, abraçou o marido, beijou o filho.
No mês passado, Luiz foi ao Rio festejar os 80 anos de seu tio Otávio. Almoçou na mesma mesa que Cristina e sua família. Os primos contaram histórias, tiraram fotos. Há uma linda imagem de todos os presentes à feijoada. Cristina está nela. Luiz se lembra de que ela disse que gostaria de conhecer Curitiba. Venha, então!
Entre os inúmeros pesadelos das mães, destacam-se dois, pelo nível de crueldade: perder um filho (1. para o desaparecimento, em caso de rapto; 2. para a morte) e saber que vai morrer antes de ver o filho crescer até pelo menos um relativo grau de autonomia. Conheço o primeiro pesadelo. Meu corpo já gerou uma vida que não foi adiante em seu desenvolvimento; tenho amigas e uma irmã que perderam filhos para a morte. Qualquer expressão verbal dessa dor é clichê; qualquer tentativa de afirmar que é impossível expressar essa dor em palavras é clichê também. É por essas e outras que eu não julgo mulheres que pagam creches integrais caras para os filhos que mal veem; que tarde da noite só conseguem dar um beijo de boa noite em crianças adormecidas; que não têm dinheiro para pagar creches integrais caras e pagam vizinhas para cuidar de seus filhos; que estão desesperadas sem saber o que fazer com a criança que cresce em seu ventre porque estão sem emprego e o homem deu no pé...; eu as abraço como minhas irmãs.
Eu já tinha medo de avião antes da minha filha nascer; mas... depois do nascimento dela piorei. Ela é a culpada? Não. Ela é a responsável por eu ter explorado sentimentos novos em mim: a saudade física, sobre a qual já escrevi e falei em diversos lugares; o cuidado mais amoroso comigo mesma e o medo de morrer. Antes dela, eu tinha um medo muito vago da morte e era valente, quase biruta. Antes dela, eu tinha um cuidado meio negligente comigo, quase selvagem. Antes dela, eu tinha uma compreensão superficial de toda a poesia que escrevia a saudade, embora lesse muito essa poesia.
Há alguns anos, a mãe de uma amiga da minha filha perdeu para o câncer (também) a sua guerra particular de largos anos. Não éramos amigas; nem éramos próximas; nossas filhas estudam na mesma escola e se gostavam muito. Nossos pontos em comum. Eu sofri horrores com a sua morte. Escrevi sobre isso textos que nunca mostrei a ninguém. É a primeira vez que me refiro publicamente ao que escrevi sobre esse sofrimento. Cristina acordou as palavras esquecidas. Quando a mãe a que me referi neste parágrafo morreu, sua filha não tinha 7 anos.
Eu não tenho a vaidade de achar que essas palavras de agora, lidas alto ou murmuradas, lidas em certo tom, recitadas segundo herméticos princípios, haverão de confortar o coração do marido de Cristina e de seu filho. Cristina se foi; é quanto basta ao seu desespero. Mas quando escrevo seu filho, meu coração se aperta, como quando segui aquele cortejo de uma mulher que mal conhecia, também bonita, alta e sorridente.
Cristina atualiza para mim hoje o segundo pesadelo mais cruel da minha vida. Se no pequeno rol de pontos em comum que tínhamos estava o medo de morrer “antes do tempo”, eu imagino a sua luta; seu combate encarniçado; seu frágil corpo de soldado ferido, sedado, monitorado, de respiração difícil; a imagem insistente de seu filho. Filho, palavra que me deixa hoje de olhos molhados. Quero pegar o carro e tirar a minha filha da escola. Abraçá-la até ela se enervar. –  Filha, eu já disse que te amo hoje?Uma dezena de vezes, mãe...
Eu imagino que o marido de Cristina esteja escutando o indefectível Cristina descasou das pessoas que tentam consolar a sua família exausta. Eu digo a ela adeus e, entre as imagens que tenho na minha pequena coleção, vou acarinhar a da festa de São Cosme e São Damião, em que brincamos, enganamos as dietas que fingimos seguir e abraçamos e beijamos nossos filhos, como se tivéssemos todo o tempo do mundo.

Não sei se Cristina esteve alguma vez na terra de seus pais e avós. Amanhecer em Lisboa.