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quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

2020 em leituras

 

Quem ama os livros sabe que eles são grandes companheiros. No ano em que a terra parou por causa da Convi-19, quem ainda tinha dúvidas sobre essa amizade talvez tenha tido um reencontro para sempre. Como muita gente que conheço, eu li muito: li para a pesquisa que desenvolvi e para a qual obtive uma licença, uma bolsa de estudos e a oportunidade de pesquisar em bibliotecas extraordinárias da Universidade de Poitiers, na França[1], e li para conservar a minha saúde mental, para viver as vidas alternativas de que preciso. Descobri muitas coisas bonitas nas escolhas que fiz este ano, lendo livros em papel e livros no meu kindle[2], nos livros que ganhei de presente e nas sugestões de leitura que acolhi prontamente de amigos e amigas. De repente, no fim de um ano tão duro, achei que poderia partilhar essa beleza que me salvou um tanto.

Então, abaixo eu reúno exclusivamente os livros que li sem relação com a minha pesquisa ou com meu trabalho como pesquisadora universitária. São livros lidos por prazer. Alguns ajudaram a minha pesquisa de modo surpreendente para mim (!) e até outros projetos, mas quero deixar claro que eu não os procurei para esses fins mais utilitários. Então, assim como excluí os estudos acadêmicos, eu excluí desse texto o meu eu acadêmico rsrsrs... Trata-se de uma lista animada por descobertas, impressões, paixões, abandono, enfado, desafio e relações que eu fui construindo de forma meio selvagem, livre. Uma mulher com seu amante, o livro[3] (Clarice, Clarice...). Espero que os títulos e a tagarelice convidem os amigos, alunos, ex-alunos, família, visitantes ocasionais do blog a lerem e a investirem nessa amizade que faz a gente viver uma vida mais rica, sem ter necessariamente recebido um aumento de salário.

 

Então, senta que lá vem história!

 

O Sobretudo de Proust: história de uma obsessão literária da jornalista da RAI Lorenza Foschini foi o primeiro livro que li em 2020. Li no meu Kindle recém comprado então. Fiquei fascinada! Todo mundo sabe que eu amo o Marcel Proust, então eu amo seu bigode fino, suas luvas, seu pincenê, seu olhar triste e seu casaco, ora!! Mas esse livro é um trabalho de investigação. Li como um romance policial. Ele documenta a dispersão dos objetos do autor depois de sua morte, fala do ressentimento de familiares, da paixão de um homem (Jacques Guérin) por encontrar e reunir esses objetos e o casaco está no Museu Carnavalet! Planejei ir ao encontro de tudo isso, mas a crise sanitária me tirou a chance.

Logo que comprei o kindle, fiz a assinatura unlimited e fui explorando novidades como criança em loja de brinquedo onde é possível brincar! Depois do casaco do meu amado Marcel, li A menina da neve da americana Eowin Ivey, autora da minha geração. Nunca tinha ouvido falar. Fui atraída pela sinopse. Que livro marcante! Um casal perde um filho e foge do olhar de comiseração da família. Muda-se para os quintos, quase sem vizinhos. De repente, encontra uma criança na floresta (!), mas essa criança é uma criança livre, não pode viver com um papai e uma mamãe numa casa aquecida, não vai à escola, não corresponde ao sonho do filho perdido..., ela é só ela mesma. Fiquei um bom pedaço do livro achando que era uma criança imaginária, mas não era! Chorei horrores, é claro, com minha filha ao pé de mim. A criança cresce, torna-se uma moça, uma mulher, casa... ai, meu coração.

Depois de me emocionar com a narrativa de Eowin Ivey (que foi inclusive finalista do Pulitzer), voltei para um amor conhecido em texto ainda não lido: Anne Brontë e A moradora de Wildfell Hall. Um romance rocambolesco! Fiquei exausta de tanto ir pra lá e para cá. Talvez Anne Brontë não tenha tido tempo de revisá-lo… Narrativa dentro de narrativa, narradores… Mas se trata de um romance de paciência e eu sou alucinada por isso! Quem ama Persuasão de Jane Austen levanta a mão! Enquanto lia o romance, eu conheci o trabalho da socióloga Eva  Illouz e não pude deixar de notar (e de me entristecer) com o quanto a gente tem sido barato no “mercado”, entretanto, aquecido, das relações amorosas. Eu não falo de diamantes, colar de pérolas e carrão, você entendeu, o mercado do amor nos reduziu demais, ficamos desinteressantes, e ler romances de paciência me lembra que na literatura a gente já teve mais valor: que valia a pena lutar por nós!

Em A moradora de Wildfell Hall, há um homem que ama uma mulher que se enganou um dia e foi duramente maltratada pelo traste com quem casou. Ela foge desse traste (Graças!), mas não se sente livre, para tocar a vida amorosa, compreende? O homem que a ama de verdade espera, espera, espera, está louco de amor, é meio biruta rsrsrs e, quando ela fica livre, ele hesita: será que ela ainda se lembra...? Ai, meu coração! É claro que ela lembra!!!!!

Conversando com meu amigo Prof. Martin Aurell em Poitiers, ele me emprestou o seu exemplar de Le portefeuille toulousain, de Michel Zink. Já escrevi sobre a carreira do Prof. Zink e sobre sua aposentadoria no Collège de France[4]; ele é um autor importante para minha pesquisa. Mas eu não sabia que tinha se aventurado na literatura! Um romance leve, gostoso de ler, tem uma ironia fina. Foi meu primeiro romance em papel do ano. De uma tacada, devorei a Primavera de cão de Patrick Modiano, no Kindle; Le roi disait que j’étais le diable, de Clara Dupont-Monod e Aliénor d’Aquitaine, do amigo Prof. Martin Aurell. Papel e papel. Modiano foi um pouco decepcionante... Falei e saí correndo, pois ele ganhou prêmios importantes. O romance de Clara foi uma descoberta em que mais uma vez o amigo Prof. Martin Aurell tem culpa, uma boa culpa. Ela é ótima! Comprei 2 exemplares para dar de presente para dois amigos. Sei o que você vai dizer: mas, Marcella, trata-se de sua adorée..., então seu coração vai pré-disposto. É verdade e eu adorei o livro também!!! Depois, ganhei o livro do Prof. Martin Aurell, com dedicatória fofa. Até sonhei com a minha rainha! Então, eu tinha um romance e uma pequena biografia escrita por um grande historiador. O mundo já estava pegando fogo e eu descobri uma nesga de céu azul.

Ao longo de todo o primeiro semestre, estive envolvida com um projeto que não tinha relação com a pesquisa. Eu fazia coisas concomitantes. Inspirada por esse projeto, quis ler livros que eu tinha deixado pelo caminho e reencontrei um velho amigo. Eu tinha deixado H. G. Wells pelo caminho da vida. Ano passado, lendo com meus alunos um texto de Marc Bloch que o mencionava, me prometi mudar isso e consegui. Encarei A máquina do tempo e O homem invisível. Acho que li os dois em três dias. Simplesmente amei! São livros geniais! Depois eu descobri uma bela tese de doutorado defendida no PPGHIS da UFPR, sobre Wells[5]. Li trechos e pude enriquecer a minha leitura. Logo depois, reencontrei o velho amigo Joaquim Manuel de Macedo e a sua Moreninha. Vivi em Poitiers sonhando visitar Paquetá! Aviso: é para românticos incuráveis. Segura na minha mão e vem. Os três no kindle.

Até então, fora uma suave decepção com Modiano, sempre falando baixinho..., eu tinha gostado de tudo, com destaque para A menina da neve da americana Eowin Ivey! Um dia, li a resenha escrita por Miguel Sanches Neto do livro Benção do americano Kent Haruf. Fiquei interessadíssima. Passei a mão no kindle e... cadê??? Benção só em papel. Mas como, com um oceano no meio?! Encontrei disponível do autor o romance Nossas noites. Esta foi a primeira grande, grande mesmo, descoberta do ano! Fiquei tão encantada que escrevi um texto sobre o romance e publiquei aqui no blog em junho. Dá uma olhada. Não vou me repetir, mas é de uma doçura que eu nem sei se a gente está preparando nesse mundo tão baratinho para o amor... Saber que Haruf morreu em 2014 me corta o coração. Um dia vou ler tudo dele e me sentar meio bêbada no meio fio para chorar não ter mais.

Há um tempo, eu ouvia falar de Carlos Ruiz Zafón. Acho que minha grande amiga e irmã da vida Renata Nascimento leu a obra completa dele e tinha me dado de presente há uns dois anos A sombra do vento. Zafón faleceu este ano, em junho, então a tristeza de seus fãs me despertou: eu tinha de honrar o presente. Fiquei com dois exemplares: no kindle e em papel. Amei! Livro sobre amar os livros!!!! Mistério, Barcelona, personagens para a gente amar, odiar, ter muito medo... Não contente em ler, impus Zafón a uma de minhas irmãs, que está adorando. Mas há outra coisa nesse livro, sobre a qual já falo.

O convite de uma pessoa querida para escrever a orelha de um livro que ela organizou me revelou a obra de uma historiadora que eu não visito na minha pesquisa. Trata-se de Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke. Fiquei muito impressionada com sua carreira e resolvi me dar ao luxo de mergulhar no seu robusto e premiado Gilberto Freyre: um vitoriano dos trópicos. Foi fácil, tem no kindle! Como não estava na minha assinatura, eu comprei com dois toquinhos. Li essa biografia intelectual do Freyre como li os romances anteriores, sem grandes pretensões, mas com pré-admiração pela autora. Que livro maravilhoso! Finíssimo, bem escrito, erudito, sem ser chato ou arrogante, aliás, delicioso! E atenção: delicado... Uma coisa meio rara. Surpresa para mim: ele me ajudou na pesquisa; ele me ajudou a pensar o meu texto.

Outro presente que eu resolvi honrar foi o Par les routes de Sylvain Prudhomme. Foi presente de minha amiga Patrícia Gaspar quando me visitou em Poitiers, antes do pandemônio ou da pandemia (ou antes que pressentíssemos...), o que você preferir. Ele ficou me olhando uns meses. Trata-se da história de dois homens e uma mulher. Os homens são grandes amigos e essa amizade se espraia para a mulher, esposa de um deles. O personagem que motiva o título (tenho dificuldades de compreendê-lo como protagonista) é um homem que deixa a sua casa, a mulher e o filho periodicamente para fazer viagens de carona, pela França. Assim, do nada. Vai sozinho. Não vai em busca de drogas, aventuras sexuais, ainda que... vai porque gosta de estar na estrada. Com o passar do tempo, suas ausências prolongadas fazem com que sua esposa, o amigo e o seu filho pequeno descubram na companhia uns dos outros um milhão de sintonias, o amor compartilhado. Um dia, esse homem que gosta de se evadir some. Agora o clique: eu tenho lido há algum tempo histórias em que os personagens somem, eles se despersonalizam!... E isso desde pelo menos a tetralogia de Elena Ferrante. O que aconteceu com Lila? Em Zafón, a gente também encontra o tema e há outros romances mais abaixo que me fizeram pensar sobre personagens que somem. Não se trata de personagens sequestrados ou mortos, ok? São personagens que decidem sumir, escapar da vida que viveram.

É de Par les routes a epígrafe que escolhi para o livro que compreende parte substancial da pesquisa acadêmica que realizei este ano. Então, sem querer, esse livro me ajudou! Devo dizer, entretanto, que não gostei de uma coisinha mínima (talvez não tão mínima...) nesse romance e a razão vai ficar mais clara daqui a pouco, quando eu abordar a maior decepção do ano.

A Amazon é meio engraçadinha. Além de me oferecer meus próprios livros, de vez em quando planta ofertas, além da assinatura... Na empolgação, comprei Carta a um refém de Antoine de Saint-Exupéry. Amei! Livro sobre amizade. Fofo demais.

A maior decepção do ano foi o romance A noiva jovem de Alessandro Baricco. A sinopse do kindle me enganou. Lembra que eu disse no início que esse texto é um conjunto de impressões não acadêmicas, pessoais etc etc etc? Então, se você tem tese sobre Baricco, pule o parágrafo para não se chatear comigo. Uma jovem, quando chega à idade acertada, vai para a casa do noivo a fim de casar-se com ele. Ele não está. Ela espera. Na casa, acontecem mil coisas. Rapidinho: livros são proibidos nessa casa. Eita... Mas ela consegue clandestinamente um Dom Quixote, opa, estou gostando... É seduzida pela futura sogra, uma mulher muito bonita e misteriosa. A menina esquece o Quixote, putz, era uma falsa pista (!), a sogra se enfada e aí ela vai esperar o noivo em um prostíbulo, único lugar em que Baricco acha que ela é capaz de trabalhar! Talvez esse livro pequeno deixe alguém excitado... Mas sinceramente a cena em que a noiva senta no colo de certo personagem que não queria aquele peso é enfadonha. Você me pergunta: nada presta? O noivo é um personagem de despersonalização também. Ele fica o livro inteiro sumido, sua presença são os presentes obtusos que ele envia. Mas seria ele mesmo? Só que Baricco frustra até nisso, pois o noivo aparece afinal e vai buscar a noiva, coitada, no “escritório”... A coisinha pequena de que não gostei em Par les routes tem relação com esse meu desgosto com Baricco. Em ambos os livros, A noiva jovem e Par les routes, as mulheres estão tão disponíveis que me irritaram. Esses autores homens e suas fantasias...

Minha redenção veio com a segunda maior descoberta do ano: Júlia Lopes de Almeida. Fuçando o kindle, dei-me conta de que tinha à minha disposição vários livros dessa autora brasileira. Mas quem era ela?! Contei parte da minha surpresa em outro texto que publiquei em setembro aqui no blog. Li A Intrusa e fiquei aturdida, fascinada. Um romance que me fez lembrar da Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro, romance perturbador e que eu adoro. Em A Intrusa, um homem viúvo precisa de uma governanta, sabe que isso pode gerar fofoca..., então, para manter-se fiel a uma promessa feita à mulher morta, nem quer olhar a contratada. Trata-se de Alice Galba. Alice é uma sombra no livro, mas vai se personalizando..., o contrário do fenômeno que mencionei antes!!! Argemiro não a vê, mas sente seu perfume, acha um livro seu aberto na sala, deslumbra-se com as flores em um móvel, com o jardim, escuta o farfalhar de sua saia (farfalhar é lindo, não?), encanta-se com tudo em que ela toca na casa, encanta-se com o efeito dela sobre a sua filha! Um dia o véu que cobria o rosto de Alice revela... eu paro. Todo mundo tem de descobrir a Júlia!

Saudosa dos meus clubes do livro, li dois livros em sequência sobre clubes do livro! Ambos viraram filmes e são livros deliciosos. Boas opções para darmos de presente para uma pessoa que não sabemos se é leitora: A sociedade literária e a torta de casca de batata de Mary Ann Shaffer e Annie Barrows e O clube de leitura de Jane Austen de Karen Joy Fowler. Eu gostei mais do primeiro. Ambos, no kindle.

Minha amiga Denise Mazocco tinha lançado seu segundo livro, Peças e pensarias, em julho. Eu que tinha gostado e prefaciado o seu Primeiro voo, logo que pude comprei Peças para ler. Livro bonito, bem escrito, sobre amizade, sobre brincar com as palavras (Denise é uma linguista e para mim convida as pessoas a verem perspectivas menos óbvias na sua formação), sobre fantasia de Carnaval, sobre famílias que se transformam e aí uma delicadeza para abordar um assunto difícil na infância (só na infância?)... Ótima dica de presente para os leitores autônomos. O livro é prefaciado pela professora e pesquisadora Teresa Cristina Wachomicz, pessoa querida da Denise e minha também.

Por falar em Literatura infanto-juvenil, li O homem que não parava de crescer de Marina Colassanti com a Clarinha, a contragosto dela... Quando era pequena, líamos muito para ela. Depois que ficou autônoma, demitiu a gente. Agora, os livros estão meio de lado, eles concorrem com seus desenhos (em papel ou digitais), com suas animações, com suas conversas com as amigas, de quem ela está há tanto tempo longe... Eu continuo tagarelando sobre os livros, quase derrubo-os sobre seu colo (de propósito). Clarinha tem azar: sou mãe experiente, não desisto fácil! O livro de Marina é delicado e fala sobre pais e filhos, fala sobre amadurecimento.

E não é que a minha Júlia Lopes de Almeida escreveu um livro com um de seus filhos?! Ah, Júlia, senta aqui ao meu lado... Trata-se de A Árvore. O texto do blog que referi acima é sobre esse lindo livro! Kindle, kindle... Depois desse, li ainda da Júlia Ânsia eterna, livro de contos que me lembraram demais o Maupassant! Veja o desacerto: conheci o Guy de Maupassant antes da Júlia! Na Ânsia de Júlia, descobri contos fantásticos, contos de terror, histórias mirabolantes, cruéis e tive até medinho... Sinceridade. A Júlia me levou ao livro A alma encantadora das ruas de João do Rio. Eu fui aluna de Luiz Edmundo Bouças Coutinho na UFRJ e acho que ele ficaria feliz em saber dessa minha redescoberta.

Mas, sabe, em uma etapa cabeluda da minha pesquisa, necessitada demais, fui buscar apoio nos braços de Marcel Proust. Na verdade, não foi “do nada”... Ele apareceu em uma curiosa nota de pé de página de um autor que foi se tornando importante para minha compreensão dos trovadores: Charles Baladier. Encarei a miscelânea Contre Saint-Beuve de Proust. O livro foi parar no meu livro sobre trovadores medievais! Há lá uma nota imensa em que eu discuto uma coisa que foi o amado Marcel que me suscitou (e ao Baladier também). Match!

Um dia, minha professora de francês propôs que os trabalhos do clube do livro de francês voltassem. Lemos o badaladíssimo Boujour tristesse de Françoise Sagan. Achei interessante não pelos motivos que eu li por aí, mas por um aspecto da narradora protagonista que já vi em outros livros e na vida: ela me fala sobre o perigo das pessoas superficiais... Eu me lembrei na hora de Elena Ferrante e do personagem Nino Sarratore, um dos personagens que mais odiei nos últimos anos. Escrevi sobre isso aqui no blog, em 2017. Com minha professora, li também o breve e lindo Monsieur Ibrahim et les fleurs du Coran de Eric-Emmanuel Schmitt. Livro de encontros.

Os três próximos livros foram sugestões de uma amiga para um projeto novo, mas eu não li constrangida por isso. Li porque eu quis. Na ordem de leitura: Meus desacontecimentos de Eliane Brum, Ideias para adiar o fim do mundo de Ailton Krenak e O olho da rua de Eliane Brum. Adorei saber mais sobre Elaine Brum e esses dois livros me emocionaram muito: o primeiro uma autobiografia da relação dela com a escrita e o segundo uma reunião de suas reportagens favoritas seguida da autocrítica favorecida pelo tempo. Corajoso. Eu ri e chorei, lendo. O livro de Ailton Krenak me mostrou que eu ainda preciso saber mais sobre ele, estudar. Um convite. Ano que vem, pretendo ler mais esse autor.

O romance L’absence de Jean-Denis Bredin caiu na minha cabeça no escritório desarrumado pela minha ausência. Achei que ele me pedia então. Uma descoberta. Novamente eu me vi com a despersonalização..., com o apagamento do eu como escolha. O livro é dos anos 80, então não dá (ou dá?) para dizer que é uma coisa de agora: Ferrante, Zafón, Baricco, Sylvain Prudhomme... Eu preciso pensar mais. O enigma literário que vou levar para 2021.

Há um tempinho ganhei de uma das muitas pessoas queridas da minha vida O filho de mil homens de Valter Hugo Mãe. Eu conhecia Mãe de textos breves, aqui e ali, e por dois livros que comprei para a Clarinha e para mim: A História do homem calado e As mais belas coisas do mundo. Livros encantadores! Em O filho de mil homens, Isaura e Antonino me fizeram sofrer demais, porém infinitamente menos do que os dois penaram no romance..., mas o Crisóstomo é um desses personagens que nascem de uma esperança imprevista, que escapou do peito do escritor e que o escritor permitiu que vingasse! O livro é dedicado às crianças... Ele me “ensinou” que se a gente se sente inteiro ainda pode ser o dobro! Eu flutuei. No final, ele também me fez pensar em História, em tempo longo e em reconexão com uma história maior que nossa vida pequenina... Temas candentes para mim e que estão em vários textos que escrevi e publiquei. Tenho uma amiga que vai amar esse parágrafo sobre seu deus particular...

Este ano uma pessoa amiga lançou seu primeiro romance por uma editora que me é cara: Adriana Martins lançou Berenice da capadócia: jornada do não herói. Amanhecer, pela editora Máquina de Escrever. Trata-se de um romance histórico e de aventuras, ambientado no século IV de nossa Era. Esse é só o primeiro volume da saga. Eu gostei de como as camadas de tempo se entrelaçam no texto: a pesquisa da autora, seu esforço de ambientação (finíssimo em Adriana, que é historiadora. O livro tem ricas notas) e o tempo que se insinua pela estratégia – no autor modelo. Trata-se de um romance sobre uma moça simples que começa a vida e a narrativa como pastora na Capadócia.  A personalidade de Berenice é em grande parte moldada pelo contador de histórias Matathias, a quem ela salva e que se torna seu melhor amigo. As suas aventuras/agruras são de fato emocionantes. As violências sofridas no palácio da “perfumista” Lewellyn, a amizade com a doce Licínia, o “crime”, a vida junto aos Charmosos Maltrapilhos e depois encontrar o amor junto a Ezana... A vida de Berenice não é fácil e acho que os leitores interessados lerão um capítulo da história das mulheres no tempo, por meio de um romance bem escrito e informado. Já estou à espera dos próximos volumes, Adriana!

Li um romance inédito de uma amiga. Não posso avançar, ela ainda não publicou. Agradeço a confiança da partilha. Espero que ela possa publicá-lo em 21. Sei que é trabalho de anos, em que juntou experiências estéticas e coração.

A Bênção de Kent Harut chegou no Natal. É o último livro desse ano de leituras e peço perdão ao leitor cansado para... um pouco mais. Ainda que tenhamos trocado presentes e celebrado um nascimento à mesa em casa, estávamos machucados pela morte de um amigo bem no dia 24 (role a barra e leia aqui no blog). A leitura foi dura... Bênção é a narrativa do último mês de vida de um homem: Pai Lewis, dono de uma loja de ferragens no condado de Holt (Nebrasca), casado e pai de Lorraine e Frank. Simples, Harut vai devagar. Pai Lewis não via o filho há anos. Filho gay; filha sobrevivente de uma filha morta aos 16 anos. Pai Lewis sobreviveu também: ao antigo funcionário ladrão e depois suicida, casado com uma mulher que ofereceu a Lewis compensação do furto com um sobretudo aberto. Hã?! É isso mesmo. Vizinho de uma senhora que perdeu a filha jovem demais (também) e herdou uma neta criança demais... Amigo de duas mulheres valentes, sozinhas (Willa e Alene)... Vai devagar, Haruf. Ele sabe do ofício. Eu já tinha visto isso em Nossas Noites. Como ele nos arrebata? Vou dizer. Ele descobriu uma saída, ao retirar toda a vaidade do narrador. É como se ele deixasse os personagens na nossa frente e dissesse: conheçam-se, descubram-se, eu já volto. Mas ele está ali, atrás da cortina.

Bênção me emocionou. Talvez não tenha sido o melhor momento... Mas 3 cenas me tiraram da sarjeta literária. 3 banhos! O primeiro, tão bonito quanto o banho que Lenu deu em Lila antes do casamento de Lila (Amiga genial, de Elena Ferrante). Lorraine, Willa, Alene e a pequena Alice fazem piquenique, tomam sol e sentem calor. Há um reservatório logo ali, que bom para refrescar! É Lorraine quem se desnuda primeiro: seu corpo aos 50 anos é bonito, natural. Depois, cada uma, desde a pequena Alice até Willa. Corpos disciplinados, de repente em liberdade. Elas riem surpresas da descoberta da sua nudez. Etapas da vida de uma mulher. Quando Willa mergulha, a água desmancha seu coque de velha em um longo e farto cabelo branco! Choro. Há uma profunda comunhão ali. Não, não há nada erótico. Esquece o Baricco! Lorraine segura a mão pequena de Alice. A água está fria, a menina sente – “Meu Jesus!”. Lorraine diz: “Você tem de gritar”. Eu quero também. A pequena responde: “Filho da puta!”. Todas elas riem. Chorei outra vez. São poucas falas, o que significa que o narrador está ali o tempo todo, mas Kent é tão respeitoso que a gente nem sente o seu voyeurismo. Os outros banhos são os da despedida de Pai Lewis. O primeiro, seu corpo ainda vivo, entregue aos cuidados da mulher amada; o segundo, a filha e a mãe preparam o corpo morto do personagem. Miguel Sanches Neto também ressaltou o banho das mulheres na sua resenha.

Na manhã em que terminei Bênção, eu recebi a notícia da morte de uma outra pessoa: o marido de uma das mulheres mais importantes de minha vida. Eu pedi Bênção como presente de Natal e você pode ler essa frase de outro jeito, tirando o itálico. A leitura ficou entre perdas reais e eu não sei bem se as páginas me fizeram sofrer mais ou se Kent Harut me deu aquilo que Paul Ricoeur anteviu em Soi-même comme un autre sem “resolver” a questão, com aquela delicadeza que era a sua marca intelectual: “Quanto à morte, as narrativas que a literatura faz dela acaso não têm a virtude de embotar o aguilhão da angústia em face do nada desconhecido, dando-lhe imaginariamente o contorno desta ou daquela morte, exemplar por uma razão ou outra?”[6].

Eu abandonei uma dica de leitura de amigo: San-Antonio renvoie la balle... Isso me corta o coração. Li 1/3 da obra e não gostei. É direito do leitor abandonar, eu sei, mas é direito abandonar a dica de um amigo?! Ano que vem, eu tento pagar a dívida do coração.

São 35 livros lidos exclusivamente pelo meu prazer, sem relação com meu projeto de pesquisa. Não é uma lista descomunal. Não dá 3 por mês. Em dois meses, março e agosto, eu quase não li “outras coisas”, ocupadíssima com a pesquisa, com o acesso às bibliotecas, com as reviravoltas do mundo, com meus temores, minha saúde, minha filha – menina demais. Mas 35 livros acompanharam os meus estudos acadêmicos, a tradução que encampei, minha escrita ensaística e a escrita de uma nova história. São livros parceiros de outros, meus parceiros. Livros fuga, livros salvação... Para o próximo ano: meu enigma literário, dois livros começados em 2020 nos dois clubes do livro de que faço parte e para os quais voltei – o Romance da pedra do reino de Ariano Suassuna e La vie devant soi de Romanin Gary – e um terceiro, começado mesmo ontem, sugestão da minha querida Sofia Silva: Torto arado de Itamar Vieira Júnior. Mas esse, vou bem devagar, pois quero esperar uma pessoa. É gostoso isso: romances começados e companheiros para desbravar 2021; juntos: eu, eles e as pessoas queridas com quem os leio ou de quem me lembro em cada página, com quem converso. Livros e gentes. Acho que 2021 pode começar assim logo mais.



Feliz ano novo!





[1] A lista desses livros em particular estará na bibliografia do livro que pretendo lançar no próximo ano

[2] Há alguns anos meu ex-orientando Victor Alvim me falou do Kindle: Profe, você precisa de um! Eu, preguiçosa e burra para as tecnologias, deixei para lá. Ano passado, meu orientando Renato Toledo e minha amiga e ex-aluna Daniele Shorne me convenceram afirmando que minha burrice contumaz não me impediria de dar conta do kindle, além disso eu não podia incluir livros na minha única mala permitida para tantos meses de França... Renato me falou da assinatura e ele tinha razão. Fiz e ela se pagou desde sempre.

[3] Aludo aqui ao conto de Clarice Lispector: “Felicidade clandestina”.

[4] Em 2016: < http://literistorias.blogspot.com/search/label/Michel%20Zink>

[6] RICOEUR, Paul. O si-mesmo como outro (1ª ed.). São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2014. P. 173. Levei essa mesma questão para meu livro sobre os trovadores...

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Nossas noites, de Kent Haruf: uma atrevida singeleza

Em maio deste ano, o Rascunho publicou a resenha escrita por Miguel Sanches Neto do romance Bênção do escritor estadunidense Kent Haruf (1943-2014). Fiquei intrigada: com a percepção de Sanches Neto, de estar diante de algo muito diferente dos padrões e modas hodiernas, e com o enredo do romance em si. Fui rápido ao Kindle para ver se estava disponível na loja. Achei em inglês e tive preguiça, mas logo fui compensada por outra tradução realizada por Sônia Moreira, do último romance do autor: Nossas noites. Li em três dias. Leria em um, se não fossem as outras leituras de trabalho. Trata-se de um pequeno romance.
Na resenha de Bênção, Sanches Neto escreveu: “O literário não advém daquilo que o autor faz com a linguagem, mas do que a linguagem faz com o leitor. Este é o caso de Bênção.” Depois de conviver com Addie e Louis, em Nossas noites, eu acrescentaria o poder de uma história bem contada. É verdade que os enredos não são exatamente infinitos e que um bom número de histórias que amamos os tem bem chinfrins, mas há uma encantatória sintonia entre nós – humanos – e as histórias que nos são contadas por gerações que o fato de elas nos enredarem, a despeito das firulas e modas literárias, é mais uma prova (não que precisássemos...) de que necessitamos de narrativas e de que a nossa vida parece mais rica quando mais uma passa a habitar as prateleiras da nossa biblioteca íntima. A minha está mais rica depois dessa história simples: do amor contrariado, de um casal que soma 140 anos de idade!
Um dia, Addie Moore visita Louis Waters e lhe faz uma proposta inusitada. Os dois se conheciam há muitos anos, não eram exatamente amigos, mas conhecidos, vizinhos de bairro. “O que você acharia da ideia de ir à minha casa de vez em quando para dormir comigo?”. Depois da surpresa dele, um adendo: “Não estou falando de sexo.”. Ora, do que essa senhora estaria falando? “Estou falando de ter uma companhia para atravessar a noite, para esquentar a cama. De nós nos deitarmos na cama juntos e você ficar para passar a noite. As noites são a pior parte. Você não acha?”. Ambos, viúvos, com filhos crescidos, fora de casa já há um tempo; filhos com pouca agenda para visitá-los... Teoricamente, dois velhos livres.
O diálogo continua, ambos compartilham a insônia e a necessidade de remédio para dormir. O que Addie Moore propõe a Louis Waters é intimidade. Louis interpõe um fraco pudor: “E se eu roncar?”; “Se roncar, roncou; ou vai aprender a parar”. Para mim, tudo o que se passa a partir da proposta dessa senhora e do confronto com o outro, a quem ela propõe uma partilha, é gigante. O livro não entrega, mas pude vê-la pensar no assunto, escolher uma roupa, hesitar, pentear os cabelos, andar pelo bairro, tocar a campainha... e sugerir, propor. Coragem mora ali.
No dia seguinte, ele vai ao barbeiro, prepara-se e telefona: “Eu gostaria de ir para a sua casa esta noite, se a proposta ainda estiver de pé.”. É claro que está. Ele bate a porta dos fundos, ela se admira! Ora, para quem tinha atravessado anos de convenções, a porta dos fundos era inconcebível e ele promete que, da próxima vez, virá pela porta da frente. Felizmente, para nós, haverá muitas próximas vezes!
Há descobertas: ele prefere cerveja, ela vinho; ela mostra a casa, para que ele saiba onde está; ele vê fotografias, veste o pijama... Depois da primeira noite, uma contrariedade, a vida é feita de equívocos... Ele liga para dizer que não irá, ela pensa que ele havia desistido, na verdade ele tinha ficado doente. Na retomada das noites, a permissão para deixar o pijama e a escova de dentes.
Na verdade, Louis e os leitores têm uma dúvida: por que Addie o escolheu? “Foi porque eu acho que você é um homem bom. Um homem gentil (...). E sempre pensei em você como alguém de quem eu poderia gostar e com quem poderia conversar”. Precisa de mais? A sinceridade nos arrebata; a simplicidade enleva. Não há catacreses reinventadas, sujeitos entrecortados pela angústia e violência das grandes cidades, a ginástica da focalização múltipla, narradores céticos, cínicos... Addie e Louis são pessoas de papel do bem e o narrador não quer brilhar mais que eles, quer simplesmente (e isso é muito!) deixá-los viver. Por isso, o discurso direto prevalece.
O bairro descobre, o casal se descobre: “Cresci em Lincoln, Nebraska...”; “Ela era casada (...). Seu nome era Tamara...”; “Dezessete de agosto. Um dia quente de verão, de céu azul e límpido”. Origem dela; paixão dele, por quem deixara a própria casa, para voltar, entretanto, 2 semanas depois; a morte da filha dela. A morte de Connie entroniza no romance o personagem de Gene, o filho mais novo de Addie. Amargurado pela culpa que não teve na morte da irmã e pelo desprezo do pai, Gene é o antagonista de tudo de bonito que esse romance entrega, de forma tão singela.
Na verdade, a filha de Louis, Holly, também ensaia oposição, ele é sincero com Addie: “Acho que rumores sobre nós dois chegaram aos ouvidos dela. Imagino que ela queira que eu me comporte”. A conversa com a filha é quase dura, mas Louis consegue se impor ao “constrangimento” dela. Todavia, o episódio com Holly é a antessala para o confronto com Gene.
O que torna o confronto com Gene mais delicado e sofrido é o personagem Jamie, neto de Addie. Falido e com o casamento em ruínas, Gene apela à mãe para ficar alguns dias com o neto. Ela aceita imediatamente. Louis teme o fim do arranjo entre eles, mas Addie joga com a sua experiência e pede paciência para os ajustes. A cena de despedida, do carro que se vai, com a criança que chora enquanto a avó tenta segurá-la, para que ele não fosse atrás do automóvel, é uma daquelas que a gente espera não viver em nenhum dos papeis...
A presença de Jamie, entretanto, é mais uma delicadeza para essa história. Louis e Addie redescobrem a convivência com uma criança em uma altura de suas vidas em que seu papel como educadores e criadores já havia cessado, para o bem e para o mal. A criança fica com a avó, com o avô emprestado, viaja com o casal, acampa, ganha uma cadela para amar e cuidar, enquanto seus pais tentam recompor a vida que estragaram sozinhos.
Gene haverá de tentar estragar mais a vida em torno... Suas razões são da óptica do desamor: “Se você se casar com ele, ele vai ficar com metade de tudo, não vai? Eu não vou poder fazer nada.” Esquece o filho páginas a fio até que um dia para o carro e o leva embora, para seu arremedo de concórdia conjugal. Obviamente que recuperar o filho é abrir uma janela a uma intimidade incompreensível: a de sua mãe com outro homem, que não o pai. As crianças falam... e as suas  narrativas inocentes serão relidas por ele segundo os parâmetros possíveis a um homem com limitadas capacidades de ousar, de perdoar e de amar.
E esse homem execrável – sim, eu odiei o personagem -, falhado na capacidade de mobilizar afeição – tem dificuldade de acariciar a cadelinha do filho! –, pede à mãe que renuncie e, não satisfeito, transfere-a a um lar de idosos. Eu odeio, tu odeias, ele odeia, nós... Já sei o que vão me perguntar os três leitores de minha resenha: Ué, Marcella, cadê a coragem da Addie? Para, gente, Jamie e Gene eram a única família que tinha restado a essa senhora de 70 anos... Ter convivido com o neto mobilizou sentimentos de outro tipo de esperança em um coração cheio de amor como o de Addie! Mas, calma, o amor sempre vai encontrar uma saída...
Antevejo uma última questão (a de natureza maliciosa): Marcella, tudo bem, mas a cama de Nossas Noites é visitada por um Eros maduro? Ora, é visitada desde a primeira noite! Mas se você está se referindo a desempenho sexual, terá de ter paciência com esse casal de 70 anos e aguardar sem pressa o reencontro com um jovem Eros. Eros é sempre juvenil, ainda que velhíssimo... 
Leitura para fazer bem ao coração e para convidar a olhar nossos velhos de forma diferente.    
  




HARUF, Kent. Nossas noites (Tradução de Sônia Moreira). São Paulo: Editora Schwarcz, 2017.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Normas “bizantinas” e outras improbidades históricas e linguísticas


Há alguns dias, o presidente anunciou a redução de 90% das Normas Regulamentadoras, as conhecidas NRs: “elaboradas por comissão tripartite incluindo governo, empregados e empregadores, e publicadas pelo Ministério do Trabalho e do emprego. São em número de 32” (hoje, 37)[1]. Os profissionais da Segurança do Trabalho se preocuparam, afinal vivemos uma triste distinção internacional: somos campeões em acidentes... Como entre tantas reações às originalidades deste governo inclui-se o humor, eu mesma vi um meme sobre a NR 10 – Segurança em instalações e serviços em eletricidade:

“10.1 – Cuidado para não tomar choque aí, tá ok?”

A pessoa que compartilhou esse meme comigo sorriu tristemente. Afinal, trata-se de uma norma complexa e vasta.
Na explicação sobre como essa normativa é elaborada, sobressai o esforço conjunto de 3 agentes, mas na “análise” que encerra a promessa do presidente sobressai 1 agente sensível: ”há custos absurdos [para as empresas] em função de uma normatização absolutamente bizantina, anacrônica e hostil”[2].
O uso do adjetivo “bizantina” não me passou despercebido. São 3 também as acepções do adjetivo no Dicionário eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa:

1     relativo à cidade de Bizâncio (atual Istambul, na Turquia) ou o seu natural ou habitante; bizâncio
2    relativo ao Império Romano do Oriente (tb. dito Império Bizantino, 330-1453 d.C.), às manifestações da civilização e da cultura desse império, ou quem nele nasceu ou habitou; bizâncio

n adjetivo
3    Derivação: sentido figurado. Uso: pejorativo.
que tem caráter de bizantinismo ('tendência', 'ato'); frívolo, inútil, pretensioso
Ex.: discussão b.

O sentido pejorativo do adjetivo está previsto no dicionário.
É possível que alguém que estudou história medieval seriamente se pergunte como esse sentido afinal entrou no nosso uso corrente. Fui buscar a resposta em Antônio Geraldo da Cunha, que documenta a palavra entre os falantes do Português no século XIX[3]. Isso é bem interessante.
Sabemos que contrariamente aos iluministas, os românticos gostavam da Idade Média, mas a compreenderam à sua moda. Aliás, o conjunto de particularidades do seu olhar sobre o medievo é uma fonte importantíssima mais sobre os próprios românticos que sobre o medievo! Além disso, a Idade Média que visaram foi quase sempre a da tradição latina. Tradições orientais (incluídas aí as helênicas) estiveram presentes, mas, segundo vários autores já desvendaram, como um “lugar de romance”[4]. Tenho particular encantamento pelos contos fantásticos de Théophile Gautier[5], em que tudo o que é misterioso, terrível, mágico... vem do Oriente! Há outros muitos exemplos para além desse meu gosto particular.
Do lugar “feiticeiro” e politicamente “traiçoeiro” (que rima significativa!), mesmo a identidade cultural de um império, radicado na admirada tradição clássica que soube vigiar e atualizar, haveria de receber a sua demão de desprezo no século dos amantes da Idade Média. Essa história é mais antiga, eu sei, por isso usei o substantivo demão: entre os “inventores” da Idade Média nasceu o desprezo aos sábios bizantinos[6], diminuídos no seu papel fundamental de promotores do Renascimento. Desde o século XV e durante o século XIX, esse desprezo é fortalecido por um desdém de acréscimo: por quem arrasou Bizâncio, os otomanos! A partir do século XIX as próprias relações entre a Turquia e a Europa (que há muito estava “liberta” da consciência do papel cultural da tradição bizantina) tiveram seu papel para a história da transformação do sentido do adjetivo.
Então, o desprezo na fala do presidente tem explicação histórica e palmilhar o rumo dessa explicação é enriquecer o sentido do vivido. No seu esforço de simplificar uma construção plural – a normativa, que deve ser, de fato, sempre revisada pelos agentes, e reduzi-la a 10% do que é hoje, o presidente se serviu do menosprezo histórico a uma tradição cultural que pode lhe ser felizmente explicada pelos “idiotas úteis” ou pelos “espertalhões” do dia 15 de maio de 2019.
Ora, poucos dias depois da “norma bizantina”, seguro pela distância física do país e poucos meses depois da vitória democrática nas urnas, o presidente feriu com ofensa parte significativa do povo brasileiro: a uns chamou de “idiotas úteis” e “massa de manobra”, a outros, “minoria espertalhona” radicada nas “universidades federais do Brasil”, em dia de manifestação democrática.
São muitas ofensas... Elas se coadunam à escolha lexical da inspiração declarada e dos seus sequazes. Idiota é tolo, mas também aquele que outrora preferia não participar da vida pública da polis[7]; ao atrelar a ofensa à expressão “massa de manobra”, o presidente propõe a participação que o uso de idiota não previa no equívoco, e isso tudo a serviço de uma pequena parte de gente de natureza desonesta.
Dia 15 de maio de 2019, levei a minha filha à Praça Santos Andrade no centro de Curitiba para que ela visse como se manifesta democraticamente pela defesa do ensino público e gratuito. Fomos até o Centro Cívico depois e lá assistimos, sobretudo, a jovens que falavam e cantavam. Ela viu que, quando os homens eleitos e suas equipes ameaçam instituições, eles e elas devem ser questionados pelo povo, e que a rua e a praça pertencem a esse povo para exprimir sua opinião e para lembrar que a atuação dos eleitos no curto espaço de tempo de seus mandatos onera gerações... A rua mostra um povo vigilante.
Michael McCormick escreveu sobre o imperador bizantino que:

Quando, ao acordar, os cidadãos de Constantinopla avistavam a espada e os escudo do imperador suspensos dos portões do Palácio imperial, sabiam que a guerra era eminente e que o basileus conduziria o exército na batalha.[8]    

Bizâncio estabeleceu um modo muito particular de se comunicar, e estudar essa e outras formas antigas de comunicação não significa colecionar curiosidades, mas compreender as trocas em sociedades políticas diversas. A púrpura era a cor imperial; o quarto dos partos “batizava” os príncipes em porfirogênitos no império em que o sentido de nobreza era meio supérfluo; os mosaicos não eram arte (como a entendemos), mas uma forma de escrita que se pretendia divina... Existe todo um quadro de particularidades que ilumina as nossas pelas diferenças gritantes! Nem melhor, como os nostálgicos gostariam; nem pior, como os apocalípticos... Diversa. No centro, queria destacar, estão formas de comunicação.
Na voz do presidente, o adjetivo bizantino ganhou o sentido de “hostil” pela associação realizada na enumeração. Novidade. Mais uma nota para a transformação das palavras segundo o desejo de detração das gerações que perderam (de propósito ou por falta de estudo) o ponto de partida! O oriente sedutor, feiticeiro, traiçoeiro, hostil... – cujo vestígio convocado na voz, mereceu, entretanto, ser condenado – pode ser revisto pela explicação histórica, menos interessada na ofensa dos agentes e mais engajada na iluminação fundamentada dos modos de viver de mulheres, homens, crianças e jovens que com sua luta, expressão e sentimentos no tempo são os agentes da História. Uma atividade de honestidade no tempo. 

***

Epílogo:
Imperadores de Bizâncio foram grandes legisladores e a revisão das normativas esteva na sua pauta, na verdade na dos maiores dentre eles.
A família imperial era bem importante em Bizâncio e a transmissão dinástica de poder aconteceu sim, mas... na narrativa desse império de pouco mais de 1000 anos há uma porção de casos de mutilação e afastamento violento da púrpura. Teve até mãe que mandou cegar filho! Drama familiar. Vou deixar uma tarefa: por que será que o apelido de Basílio II é Bulgaróctono?  Sabe, gente, essas metáforas transtemporais escondem umas coisas esquisitas à beça. Se eu fosse crédula, evitava algumas.


Ícone de Basílio II
(Taí uma pessoa morta de que tenho medo...)




[1] ARAÚJO, Giovanni Moraes de. Normas regulamentadoras comentadas. Legislação de segurança e saúde no Trabalho. Colaboradores Juarez Benito e Carlos Roberto de Sousa. 6ª Ed. revisada, ampliada, atualizada e ilustrada. Rio de Janeiro: Gerenciamento Verde Editora e Livraria Virtual, 2007. p. 32.  
Esse dado deve ser atualizado, são 37 normas e 36 em funcionamento.
[3] Dicionário Etimológico Nova Fronteira. (2ª ed. e 5ª impr). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992. p. 113.
[4] Uso expressão de Edward Said em O Orientalismo.
[5] GAUTIER, Théophile. Contes et récits fantastiques. Librairie Générale Française, 1990. Col. Le Livre de Poche. 

[6] Conferir aqui no blog o texto: “Renascimento e tradição bizantina, tradução do artigo “Les Grecs sans Byzance” de Christian Förstel”.

[7] Há alguns vídeos no youtube protagonizados pelo Mário Cortela com explicação clara e didática. Vai lá.
[8] McCORMICK, Michael. “O Imperador” in CAVALLLO, Guglielmo (Dir.). O homem bizantino. Lisboa: Presença, 1998. p. 222.
Detalhes: 1. O tradutor de McCormick empregou mesmo eminente e não iminente... e 2. Basileus é imperador. 

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Sobre o leitor libertado, divagações sobre o volume A prisioneira, 5º de Em busca do tempo perdido de Marcel Proust

O clube do livro começou a leitura de A Fugitiva, 6º volume de Em busca do tempo perdido de Marcel Proust. No final deste mês temos debate! Depois do 5º volume, resolvemos fazer um intervalo de valorização da compreensão da catedral proustiana, que também revelou alguns impasses e desconfortos da leitura de A prisioneira. Esse 5º volume não foi fácil. Nenhum de nós (do clube)curte relações abusivas, sequer no domínio do texto, e o volume encena esse tipo de vínculo com os mesmos requintes textuais que nos encantaram desde 2015..., o que piorou as coisas. Antes de prosseguir, preciso apontar que a sensação de desconforto proveniente da leitura do 5º volume não foi uma “fraqueza” de nossos espíritos sensíveis. Muita gente não gosta desse volume em participar. Anne Carson escreveu um breve livro, The Albertine Workout, sobre seu desconforto e esse opúsculo recebeu uma resenha muito atenta de Adalberto Costa, em que ele revela os engodos que vitimaram a própria Carson[1]. Vale muito a leitura dos dois textos.
O 6º volume, A Fugitiva, começou para mim com a sensação de que a libertação foi do leitor, ao mesmo tempo em que reconheci meu “velho” Proust, mais maduro nas relações, ou seja, mais definitivamente lançado à evidência do fracasso do protagonista. Mas será que de fato se pode pular o 5º volume[2]? Nada presta em A Prisioneira?
Para esse exercício de validação, voltei meus olhos aos grifos e comentários às margens da minha elegante (e algo decadente, do ponto de vista físico) edição de 1954, cuja imagem vai logo abaixo.
O narrador evoca o tempo em que coabitou com Albertine e a narrativa encena a complexificação disso, na apresentação de uma Albertine em camadas: de Balbec (em franca liberdade) a Paris (cativa do protagonista). O cativeiro dessa personagem é um aspecto muito curioso no volume, na medida em que Albertine vai aonde quer, enquanto o protagonista-algoz-guardião da cela, trancado em seu próprio quarto, está sempre a ponto de rebentar ante as suspeitas dos passeios da personagem feminina. Bizarre.
Superada (quase nunca...) a má vontade ou a revolta franca contra as relações abusivas que imperam no 5º volume, a questão do tempo merece toda a atenção do leitor. Esse é um volume visitado por fantasmas. A memória da avó volta em várias páginas. A mãe viva comparece como ectoplasma, entretanto, nas cartas, cheias de citações de Madame de Sevigné (p. 117)... É um volume carregado de lutos difíceis para os leitores da catedral: Bergote e Swann morrem! Como assim??? “A morte de Swann impressionara-me na ocasião profundamente. A morte de Swann! Swann não tem nesta frase o simples papel de um genitivo” (p. 168).
Meu segmento favorito do volume foi a apresentação de Morel em casa da Sra. Verdurin. Essa festa acaba mal..., mas seu “durante” é espetacular. Por quê? Porque a narrativa mergulha em uma simbiose estranha de música e palavra que fascina. Há a relação física, o amplexo do músico com seu instrumento musical; há o exercício materializado na mecha que cai no rosto de Morel, enquanto executa as notas..., coisas mal contadas por mim. A festa gira em torno da apresentação do Septeto de Vinteuil, personagem que conhecemos pelo talento musical e pelas preferências amorosas e eróticas da filha. Para não contar mal outra vez, transcrevo o texto, mas não resisto à tentação de entabular um diálogo entre colchetes:
“Mas no momento em que eu a imaginava assim a esperar-me em casa [o narrador imagina Albertine, à sua espera].... fui afagado de passagem por uma cariciosa frase familiar e doméstica do septeto [agora, a frase musical vai transportar o narrador a lugares imaginados]. É possível, de tal modo tudo se entrelaça e se superpõe em nossa vida interior – que ela tivesse sido inspirada pelo sono de sua filha – da filha, causa hoje de todas as minhas inquietações – quando esse sono envolvia em doçura, nos tranquilos serões, o trabalho do músico [aqui, eu me encontro também, na frase musical muda e na cena tão cotidiana, de alguém que escreve, estuda, trabalha..., velada pelo sono tranquilo de uma filha que repousa logo ao lado. Esse trecho me emociona], essa frase que me acalmou tanto, pelo mesmo macio fundo de silêncio que enche de paz certas rêveries de Schumann, durante as quais, mesmo quando ‘o Poeta fala’, adivinhamos que a ‘criança dorme’” (p. 214)
“A alegria de certas sonoridades” (p. 215)... A palavra persegue o som, tenta traduções impossíveis. Eu não escuto o Septeto, mas compreendo a língua dos sinais que Proust me apresenta.
Há certas ironias nesse volume como quando o narrador recebe uma carta da mãe, “esta carta de minha mãe fez-me cair na realidade” (p. 311), e não posso deixar de sorrir do fato de a realidade ser apresentada por meio da ficção do texto! Mas a ironia mais fina do volume para mim é a autorreferência ao 2º volume da Busca, refiro-me ao “lado Dostoievski de Madame de Sevigné” (citado em À sombra das raparigas em flor, p. 205) sobre o qual já escrevi[3]. Como o narrador retoma o tema? “Confesso que o que eu disse naquela ocasião era uma sandice” (p. 324). Mas ele continua a brincadeira, contradizendo a “sandice” afirmada, com diálogo entre colchetes:
 “Acontece que a Sra. de Sévigné, como Elstir, como Dostoievski [vejam a mistura entre fictícios e reais!], em vez de apresentar as coisas na ordem lógica, isto é, começando pela causa, nos mostra primeiro o efeito, a ilusão que nos impressiona. [depois de falar da “obsessão” de Dostoievski por assassinatos, o narrador prossegue na ironia] Eu não sou romancista; é possível que os criadores sejam tentados por certas formas de vida que não experimentaram pessoalmente.” (p. 325)
É espetacular! Ironia em camadas também: ridiculariza a associação que construíra, mas prova logo em seguida que ela é pertinente e se identifica como um não romancista, enquanto o romance se escreve. Onde essa análise tão sofisticada é realizada? No quarto, com Albertine nos joelhos do narrador.
Sobre as interdisciplinaridades, o historiador que lê a Busca encontra motivos sobejos de animação. Além do caso Dreyfus que atravessa a obra nas considerações do narrador e dos mais diversos personagens, é possível ver em detalhes as mudanças da sociedade parisiense na época, e mesmo o avião vemos sobrevoar a cidade luz, pelo olhar admirado do casal Marcel e Albertine, justamente no 5º volume! Esse volume também vai agradar aos amantes da boa gastronomia, leitores de À mesa com Proust (como eu[4]), pela sinestesia que propõe: “O que eu gosto nesses alimentos apregoados, é que uma coisa ouvida como uma rapsódia muda de natureza às refeições e se dirige ao paladar” (p. 107). Mas atenção, são superficialidades de enredo, menos no caso da sinestesia.
Para terminar, tem mais abuso nesse volume..., o que são as relações entre Morel, a sobrinha de Jupien e o Barão de Charlus?!? A verdade é que não sou imediatista e com esse texto confirmo mais uma vez que, se o leitor tem o direito de abandonar o livro que está a ler (tem sim!!!)a qualquer momento que desejar, uma história da leitura também deve incluir perseverança. Eu já espalhei aos quatro ventos minhas obtusas preferências de ler os finais dos livros. A ansiedade pelo fim não constitui a minha biografia (eu tenho outras...). Saber tranquiliza e garante uma entrega maior ao texto. Opinião pessoal. Eu sabia que depois d’A Prisioneira viria um’A Fugitiva e isso me animou, deu-me esperança.

A minha elegante edição de 1954!



[1] http://rascunho.com.br/tese-banal/ (acesso em 14 de outubro de 2017)
[2] Sugestão que aparece apontada no livro de Anne Carson.
[4] Procure aqui no blog minhas considerações sobre esse livro de fazer a gente comer com os olhos.