Mostrando postagens com marcador entrevista. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador entrevista. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

O blog completou 4 anos em 2019 e o presente cheira a Natal: Literistórias entrevistou uma historiadora cheia de talentos - Profa. Miliandre Garcia de Souza. Confira!

Conheci Miliandre em uma banca de qualificação de Doutorado do PPGHIS/UFPR. Tratava-se da banca de José Gustavo Bononi, orientando da colega de DEHIS e PPGHIS Rosane Kaminski[1]. Eu me sentia um pouco o peixe fora d’água, afinal como uma medievalista poderia se sentir em banca sobre o Teatro Oficina, entre 68 e 72?! Só mesmo o imenso carinho de José Gustavo pela velha professora e a confiança inabalável da colega Rosane para explicar isso... Essas bancas fazem a gente estudar muito, ter uma atenção de filatelista e rezar para não falar (muita) bobagem. Miliandre me chamou logo a atenção por um dado que não tinha a ver com a banca. Entrou na sala linda, leve, sorridente e fresca de batom vermelho. Já tive conversas significativas com minha amiga Fabiana sobre essa história de batom vermelho! Eu tento raramente porque sou covarde e, quando vejo uma mulher ficar tão à vontade assim, tendo a gostar dela no ato. Pois não foi diferente. Ainda por cima, falou pelos cotovelos coisas de ajudar muito o José Gustavo. Tendo a gostar muito de quem vai para as bancas de qualificação com mangas arregaçadas para colaborar. Pois não foi diferente também.
E não é que o batom voltou na defesa pública?! José Gustavo foi aprovado e a velha professora espera que esteja feliz, realizando trabalhos que lhe deem muita satisfação intelectual. Um dia, no FB, descobri que aquele batom vermelho bordava e escrevia textos com pensamentos tão próximos dos meus que até admirava! Descobri ainda pessoas em comum, pessoas de quem gosto demais, ainda que nem sempre consiga ver e conversar mais amiúde. Mas confesso que a descoberta do tecer, as imagens dos bordados depois de terminados, os motivos, as cores, a parede da casa que nunca visitei (olha como sou abusada!) iluminaram um mantra que repito por aí: a necessidade de uma vida mais plena, cheia de realizações diversas e descomprometidas com o desempenho que nos constrange nesse mundo em que, se concordarmos com Byung-Chul Han[2], estamos doentes de excesso de positividade. Não é que eu ache que Miliandre está imune a isso, acho mesmo que não. Penso só que, desde o batom, estou diante de uma mulher forte e que exerce a vida plena, com seus bordados, filhos, livros, máquina de costura, alunos, marido, casa e estojo de maquiagem.
Miliandre estuda umas proximidades difíceis da história do Brasil com um disco na vitrola, revirando as coxias, olhando comprido para os figurinos, cores, textos e descobrindo que, em meio a tantas diferenças, grupos, artistas, homens e mulheres não abriram mão de dialogar “em dimensões estéticas e políticas”, no período da Ditadura Militar no Brasil.
Vem livro novo por aí, ela fala dele na entrevista! Ao lado de seu mestre Carlos Fico, reuniu um timão para lidar com um tema importante desde sempre. Miliandre refuta a exclusividade do presente que vivemos. Enquanto o livro não vem, eu a vejo recortando motivos, desenhando em bastidores e lendo uma historinha singela que escrevi. Quem sabe um dia, seus pontos não encontram os pingos dos i(s) dessa narrativa de uma avó emprestada?
Quanto ao batom, desconfio que ela tem vários tons de vermelho!

LITERISTÓRIAS: Miliandre, você é uma historiadora bordadeira! Como é isso? Quando e como o bordado entrou na sua vida?
MILIANDRE: Querida Marcella, é uma grande honra comemorar com você e seus leitores o quarto aniversário de Literistórias.
Bem, o bordado entrou na minha vida há muito tempo, não só o bordado como outras manualidades. Como em muitas famílias, essa atividade foi estimulada desde muito cedo, ainda menina. Minha mãe e minha tia, costureiras, me apresentaram o universo da costura, outra tia me iniciou nos pontos básicos do bordado e mais uma tia me ensinou a tricotar. Nessa época, no entanto, eu era uma menina muito “elétrica” como diziam, hoje talvez me diagnosticassem com “hiperatividade” (risos). Magricela e mais alta que a média das meninas, eu era sempre escalada para as atividades esportivas e gostava muito, fiz ginástica olímpica, rítmica e voleibol com expectativas de profissionalização.
Nada disso nem meus interesses escolares durante o ensino fundamental apontavam para o interesse pela história ou pela literatura, que nasceram por influência direta de professores do ensino médio e do cursinho e por intermédio de um primo que já era estudante de sociologia e fã da Elba Ramalho.
Atarefada, mais correto dizer atordoada com as leituras da graduação, depois com as pesquisas na pós-graduação, protelei durante muito tempo pegar numa agulha ou usar a máquina de costura para fazer qualquer reparo ou pregar um simples botão.
Um detalhe que eu acho importante mencionar: essa máquina de costura que tenho foi o presente mais lindo que minha mãe poderia me dar. Era a sua primeira máquina de costura, da marca Singer, adquirida em 1972, antes do meu nascimento. Para minha surpresa, minha mãe presenteou-me com a nota fiscal, às quais, máquina e nota, eu guardo com muito carinho, registro físico de uma história que atravessou o tempo e gerações e que vestiu muita gente: pai, irmão, prima, primo, tia, tio, vó, vô.
Por algum motivo que não sei precisar, guardei a memória daquele ponto que minha tia havia me ensinado na infância numa visita familiar. Enquanto eu procurava pelo ponto e não encontrava, fiz muitas outras coisas: tricô, tapeçaria, arraiolo, mosaico, sabonete, vela.
Em algum momento, descobri que as atividades manuais eram essenciais para o meu desenvolvimento, minha existência no mundo, como pessoa, como profissional, pois ao praticá-las eu organizava a vida, o trabalho, também me organizava internamente, me dava, me permitia dar o tempo necessário (e nem sempre possível) à introspecção, ocupando com isso mãos e pensamentos simultaneamente.
Um dia, a trabalho, fizemos uma viagem a Portugal. Nas proximidades do Porto, resolvemos visitar a cidade de Amarante. Lá, até que enfim, encontrei o tal ponto, com nome e endereço: se chamava rococó e morava em Amarante. Encontrei outros pontos colegas seus, todos da família do “bordado livre”. De Amarante, trouxemos algumas peças bordadas, de lembrança e na esperança de aprender a técnica e por meio dela reencontrar a menina que eu era, mas que havia crescido e já tinha uma menina também, Alice, e carregava, sem saber, um menino no ventre, Francisco. Coincidentemente, naquele breve passeio, sem saber que estava grávida, visitei o santuário de São Gonçalo do Amarante, o santo mais importante da região, a quem mulheres e homens recorrem para pedir coisas relacionadas à fertilidade e à sexualidade.
Também nessa época, conheci Carol, mãe do Nicolas, na escola da Alice. Carolina Sobreira, xilogravurista, ilustradora, gravadora. “Um balaio de coisas”, como ela gosta de dizer. Nesses encontros entre arte e história, ela cursava artes visuais na UEL e eu fazia parte do departamento de história também da mesma instituição, descobrimos amigos em comum, ficamos amigas. Carol decidiu ter um segundo filho, mas nem tudo ocorreu como planejado. Vicente infelizmente faleceu com poucas semanas de vida. Enquanto passava horas na UTI neonatal, Carolina aprendeu a bordar e bordando encontra-se até hoje. Com ela, fiz uma oficina de bordado e aprendi os pontos básicos. A partir disso comprei livros, vi muitos vídeos, treinei vários pontos e também cá estou desde então, bordando histórias, paixões e afetos, em viagens, salas de espera, reuniões, “nas horas à toa”, quando eu “ando a cismar”, como escreveu aquele “compositor confuso” que me rodeia...

LITERISTÓRIAS: Miliandre, sua pesquisa atual relaciona música e teatro[3]. O que só a arte responde ao historiador?
MILIANDRE: Marcella, penso que só a arte é capaz de acessar certos lugares que nenhum outro meio de comunicação, área do conhecimento consegue. A arte cria universos que nos auxiliam a enfrentar estados nem sempre tangíveis, realidades nem sempre favoráveis, sejam elas históricas, sociais, econômicas ou até mesmo existenciais. A arte conecta seres humanos e os conecta naquilo que se tem de mais humano. A arte emociona, desestabiliza, desconcerta, faz pensar, também faz rir, mexe com sentimentos, preconceitos e certezas. O diálogo entre arte e história é um daqueles encontros mais que perfeito, posto que se complementam no que tem de diferente, não de igual. Nosso papel, como historiador que trabalha com arte, teatro, música, cinema, literatura talvez seja o de tornar tangível ou próximo disto aquilo que nem sempre tem tradução, não plena. É um desafio permanente, cujo resultado (suponho) é e sempre será incompleto, porém muito necessário.

LITERISTÓRIAS: Miliandre, quem você lê com paixão?
MILIANDRE: Leio com paixão até mesmo as leituras mais técnicas. Sempre penso, ao menos espero tirar dali algo que me motive de alguma maneira, que estimule a minha curiosidade para além do texto, que me faça buscar em outros lugares coisas que possam vir a se juntar àquela leitura. Mas sonho mesmo ter, criar tempo para me dedicar às leituras que sinto que estou em débito, àquelas leituras que, como disse um amigo sobre o disco de João Gilberto & Stan Getz, “formam caráter”, aquela lista de clássicos que o Calvino nos indica fazer, ler por prazer e quem sabe conseguir inspirar essa paixão em outras pessoas (estudantes ou não) como você faz tão bem. Como disse Ana Maria Machado, “a leitura é um hábito que se cria pelo exemplo” e nisto você é mais que exemplar.

LITERISTÓRIAS: Miliandre, queria que você explicasse a importância do lançamento da coletânea CENSURA NO BRASIL REPUBLICANO organizada por você e por Carlos Fico no Brasil de hoje.
MILIANDRE: A censura é uma prática autoritária que não está restrita a um lugar nem a um tempo histórico, ela atravessa temporalidades e espaços geográficos. É ressignificada de várias maneiras, mas sempre que governos, autoridades, políticos a julgam necessária para conter, controlar, coibir, inibir algum tipo de ação ou comportamento, individuais e coletivos.
No Brasil, a censura esteve presente desde os momentos fundadores, isso se considerarmos que também a Inquisição exerceu algum tipo de censura. Foi institucionalizada e amplamente utilizada pelo governo imperial e atravessou praticamente todo o período republicano até 1988. Esteve presente em regimes ditatoriais como o Estado Novo e a ditadura militar, mas também em períodos considerados democráticos ou de transição democrática. O fato de ter sido extinta da última Constituição brasileira não significa que estejamos plenamente livres desse recurso, dessa ferramenta, desse mecanismo que mais limita que constrói, quem mais cerceia que cria condições de desenvolvimento, muito menos quando imposta à literatura, ao teatro, ao cinema, à música, às artes em geral e às manifestações do pensamento.
Ao contrário, desde que ela foi extinta da Constituição em 1988 não deixamos de vivenciar situações bastante embaraçosas envolvendo algum tipo de controle, eventualmente classificado como censura. Principalmente no contexto atual no qual o Estado já não mais se responsabiliza por ela, mas o governo impõe formas escamoteadas ou declaradas de censura, como também estimula entidades de representação e até mesmo indivíduos a exercê-la indiretamente, a perseguir artistas, intelectuais, jornalistas, humoristas e professores e inviabilizar a produção artístico-cultural no Brasil seja pelo boicote, seja pela ofensiva direta, incitando o público, as pessoas de modo geral, a interferir direta e muitas vezes violentamente num evento, numa apresentação, numa exposição. Isso é tão ou mais grave que criar um órgão com censores credenciados, concursados para realizá-la como aconteceu em outros momentos da história recente brasileira.
Saber que ela existiu e entender como foi praticada, sob quais argumentos, com que propósitos, por quem, em que governos e regimes, que setores da sociedade a apoiaram ou mesmo requisitaram maior rigor, penso ser um passo em tantos outros a serem dados nesse “longo caminho” de construção da cidadania no Brasil.
Se “é preciso estar atento e forte” e o “caminho se faz ao caminhar”, como já disseram dois gigantes, essa coletânea Censura no Brasil republicano, a ser publicada em dois volumes pela editora Sagga em 2020, é nossa contribuição à sociedade. Buscamos com ela ultrapassar o caráter opinativo que tem permeado o debate público no Brasil e analisá-la a partir de experiências concretas no Brasil e no mundo. Como não haveria de ser diferente, buscamos estar ao lado da “cultura, contra a censura” e estabelecer um pacto social amplo e consciente de rejeição da censura como mecanismo de controle e cerceamento de ideias. A tarefa não é fácil, não tem sido, mas assumimos esse compromisso como profissionais e cidadãos.

***
Quando LITERISTÓRIAS completou 2 anos, eu ofereci aos leitores uma entrevista com a amiga Maria Cristina Pereira  (USP), um sucesso de visualizações e orientações para jovens historiadores da arte. Quando Literistórias completou 3, quem brilhou foi a amiga Mônica Figueiredo (UFRJ), grande especialista da obra de Eça de Queirós no Brasil e autora de um discurso de formatura que viralizou nas redes sociais (turma Marielle Franco, de 2018). Se quiser matar as saudades, procure abaixo em “entrevistas”. 


Miliandre Garcia, seu filho Francisco e os bordados, na casa da historiadora.



[2] Sociedade do Cansaço (Petrópolis (RJ): Vozes, 2017).
[3] Pesquisa atual: “Entre o palco e a canção: afinidades eletivas entre a Música Popular Brasileira (MPB) e o teatro engajado na década de 1970”.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

LITERISTÓRIAS completou 3 anos ONTEM, dia 22/7! De presente, uma entrevista com um fenômeno: uma professora brasileira de Literatura Portuguesa cujo discurso em uma formatura viralizou na internet e emocionou seus alunos e pessoas que nunca estiveram em suas salas de aula. Trata-se da Profa. Dra. Mônica Figueiredo (UFRJ), uma das maiores especialistas da obra de Eça de Queirós.


Conheço MÔNICA FIGUEIREDO há muitos anos. Eu ainda morava no Rio de Janeiro, estava no fim de minha graduação em Letras na UFRJ, quando dividimos uma mesa em um evento. Ela brilhava, notei logo. Depois, eu já no Mestrado, ela no Doutorado, cursamos uma disciplina com o Professor Helder Macedo, disciplina que haveria de mudar a minha vida, aproximando-me de Fernão Lopes e da História. Mônica brilhava: inteligentíssima, alegre, linda, colega que todo mundo quer para si no recreio, nos trabalhos da faculdade e pela vida afora. Eu e Mônica temos muito em comum e talvez o mais importante seja nossa alma mater, Teresa Cerdeira. Ainda bem que o coração dela é grande e que nós – eu e Mônica – não somos ciumentas (talvez só um pouquinho... rsrsrs). Ela tem o privilégio de convier com nossa mestra e eu, o privilégio de tê-las na minha biografia.

Minha amiga Mônica é Professora de Literatura Portuguesa na UFRJ. É licenciada e bacharel em Português-Literaturas pela nossa UFRJ; Mestra em Literatura Portuguesa (Letras Vernáculas) pela UFRJ (1994) – até aí, nossa trajetória é igual! – e doutora em Literatura Portuguesa (Letras Vernáculas) pela mesma UFRJ (2002) – nossa diferença. Fez estágio pós-doutoral na Universidade de Coimbra, onde desenvolveu o projeto de pesquisa: "E[ç]as Mulheres: um estudo da presença feminina na narrativa de Eça de Queirós". Esse projeto foi premiado pela Cátedra Jorge de Sena/Fundação Calouste Gulbenkian (2005); pela Fundação Universitária José Bonifácio, através do Programa Antônio Luís Vianna (2004); e recebeu Bolsa de Pós-Doutorado no Exterior pelo CNPq. Em 2006, o seu projeto de pesquisa foi novamente premiado pela Fundação Universitária José Bonifácio, através do Prêmio Antônio Luís Vianna. Em 2010, finalizou o projeto que discutia as relações estabelecidas entre o romance realista brasileiro e o português, através das personagens masculinas construídas pela ficção de Machado de Assis e Eça de Queirós: "De vencedores vencidos: Bento Santiago e Carlos da Maia. Algumas considerações sobre o romance luso-brasileiro oitocentista". O referido projeto foi agraciado com Bolsa de Pesquisa da Fundação Biblioteca Nacional do Brasil em 2007/2008. Em 2013, Mônica se tornou Bolsista de Produtividade do CNPq. Em 2016, iniciou seu novo projeto de pesquisa, intitulado: "Atlas do romance queirosiano: (des)caminhos viajantes da estética realista", agraciado com Bolsa de Estágio Sênior pela CAPES, em 2017-2018, realizado na Universidade do Porto/ILCML.

Recentemente Mônica viveu a experiência de ser quase uma “youtuber”, por causa de um discurso de formatura, um dos muitos que ela já proferiu, porque seus alunos são apaixonados por ela, o que ajuda a explicar a coleção de homenagens que ela merece na carreira. Eu era menina e moça quando conheci Mônica, ela, Oriana, sem par, porque incomparável[1].

LITERISTÓRIAS: Mônica Figueiredo, você foi patronesse da turma Marielle Franco, da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro em 14 de abril deste ano e na ocasião fez um discurso que viralizou na internet! Em sua opinião, a que se deveu o fenômeno?

MÔNICA: Gostaria de começar por agradecer a lembrança de meu nome para esta entrevista e dizer que é um prazer estar de alguma forma perto da Marcella, amiga de longa data e de jornadas que unem História e Literatura. Em relação a esta cerimônia de formatura, há mesmo coisas que fazem pensar. Ao longo destes anos, tenho tido sorte de ser regularmente homenageada por sucessivas turmas na Faculdade de Letras da UFRJ, ora sendo convidada para patronesse, ora paraninfa, ou ainda como professora homenageada. Creio que em todas as vezes procurei fazer de minhas palavras um depoimento comovido, que fosse capaz de unir o meu coração ao de meus alunos, na tentativa – de todo vã – de vencer o tempo e de ficar na memória afetiva de cada um deles. Se a circunstância nada tinha de nova e se a professora era a mesma, creio que a diferença estava no entorno, ou como diria um escritor realista, o problema estava no real. O discurso de formatura de uma professora de literatura (não partidária politicamente e sem religião) obter mais de 1.350.000 visualizações e incontáveis compartilhamentos, num país indiferente à sua ignorância cultural e polarizado por extremismo político, é mesmo fato que causa espanto. Ouso arriscar que a explicação desse “sucesso” reside no respeito que procurei ter com as várias fraturas que hoje aleijam o corpo nacional. Creio que aliado à ideia de respeito, há em meu texto um apelo ao bom senso e ao equilíbrio, coisas tão em falta neste estado de barbárie em que vivemos. Há também uma boa dose de reconhecimento que une, num país cheio de injustiças, uma legião de humilhados. Por último, (e o que gosto de acreditar que foi mesmo definitivo!), há ainda quem queira ouvir falar de tolerância e compaixão.

LITERISTÓRIAS: Mônica, parte importante de sua carreira é dedicada à pesquisa da obra de Eça de Queirós, quais são as mais recentes tendências da crítica sobre o autor português do século XIX?

MÔNICA: Como você deve imaginar, o número de estudiosos da literatura oitocentista não pode ser considerado uma multidão. Em tempos de pós-modernismos, por muita ignorância e consequente preconceito, o século burguês foi paulatinamente emoldurado como um século artisticamente conservador apesar de tudo o que foi capaz de gerar de mudança e de inovação. A crítica queirosiana na atualidade continua bem representada por aqueles que podemos considerar os “leitores clássicos”, ou seja: Carlos Reis e a coordenação da edição crítica da obra do autor que segue com muitos volumes já publicados; Elsa Miné, que se dedica atualmente ao estudo de outros grandes representantes da Geração de 70; e Isabel Pires de Lima que dá atenção a várias formas de releitura que a obra de Eça vem recebendo da literatura e de outras formas de artes contemporâneas (teatro, cinema, pintura, etc). Há ainda muitos estudos que se dedicam ao “último Eça” e seu Fradique Mendes ligado agora à fundação da questão da heteronímia, antes mesmo de Fernando Pessoa; estudos que averiguam o homoerotismo na obra do autor de “Os Maias”; e, no meu caso específico – depois de uma longa pesquisa que se debruçou sobre a questão do feminino e da consequente revisão crítica da suposta misoginia queirosiana -, cada vez mais insisto no trabalho comparativo da obra de Eça com outros autores de seu tempo e com outras disciplinas, sendo a História e a Geografia os diálogos que mais gosto de privilegiar.

LITERISTÓRIAS: Mônica, você é uma professora apaixonada. O que lê com paixão hoje? Valem clássicos e novidades.

MÔNICA: Cada vez mais gosto de reler, e gosto de reler porque gosto de ver como somos míopes, o quanto nos escapa, o quanto os olhos nos enganam e insistem em deixar “para trás”. Tenho atualmente uma obsessão indisfarçada sobre os estudos históricos sobre a sociedade vitoriana, pois guardo sempre a sensação de que, ao ler a História, estou lendo uma forma de ficção já que, de fato, sou capaz de me transportar no tempo, experiência que chega às vezes a me assustar! É o que acontece quando estou diante do trabalho de Peter Gay, por exemplo! Paralelo a isto, há em mim uma necessidade cada vez mais emergente de reler a ficção do Brasil do fim do Segundo Império e do início da Primeira República, aquele mesmo período que foi conhecido como o da Belle Époque que, convenhamos, historicamente de bela não teve nada! Compreender a composição de uma cidade injusta e injustiçada como foi a construção do Rio de Janeiro tem me deixado hipnotizada e, para tanto, as narrativas de João do Rio, Lima Barreto e, se recuarmos um pouco mais, a prosa de Coelho Neto e de Aluísio Azevedo vêm mesmo ocupando as minhas retinas. Indubitavelmente, literatura e cidade são para mim um tema avassalador.

LITERISTÓRIAS: Mônica, você é professora de Literatura Portuguesa no Brasil. Em contexto de aprovação da BNCC e do novo Ensino Médio, o que tem a dizer ao professor de Literatura do futuro?

MÔNICA: Minha querida Marcella, creia que só não estou mais deprimida porque é chegada a hora da aposentadoria que poderia adiar, mas que não o farei por uma questão de sanidade mental. A verdade é que as chamadas “humanidades” nunca interessaram a um país como o nosso, que desde muito cedo teve como modelo de desenvolvimento nações com potencialidades técnico-científicas e, por isso, aprendeu a se envergonhar de sua cultura, como se uma coisa estivesse atrelada a outra. Um país assim “projetado” não conseguiria – a não ser com muita vontade política – superar seu sentimento de subdesenvolvimento intelectual sem um projeto sério que livrasse nosso povo da ignorância a que sistematicamente foi submetido. A literatura é perigosa, liberta porque faz pensar, mas não produz capital, apenas mentes iluminadas que são capazes de perguntar por quais caminhos tortuosos passam esse capital? Num país em que o analfabetismo funcional já é uma epidemia, o “extermínio oficial” de disciplinas como literatura, história, sociologia, filosofia torna-se uma consequência natural, porque afinal não fazem falta a quase ninguém. Porém, o que mais me dói é intuir que antes mesmo dos governos acabarem com a literatura, serão os professores de literatura que acabarão com ela ao substituírem, cada vez mais de forma inescrupulosa e digo mesmo imbecializante, o texto literário por outros objetos de estudo que, se merecem atenção, não é a dos professores ligados à área de Letras. Precisamos desesperadamente daqueles professores que ainda saibam ler e ensinar Eça de Queirós ou Machado de Assis. Creio firmemente que os alunos brasileiros têm direito a isto!

Para quem quiser conferir o discurso que (viralizou!!!!) emocionou todo mundo:

Quando LITERISTÓRIAS completou 2 anos, eu ofereci aos amigos que me visitam uma entrevista riquíssima com a amiga Maria Cristina Pereira (USP), um sucesso de visualizações e orientações para jovens historiadores da arte. Role a barra e mate as saudades, pesquisando em “entrevista”.



[1] Brincadeira de leitores, com o romance de Bernardim Ribeiro Menina e Moça e com o Amadis de Gaula...


Mônica Figueiredo no lançamento de um de seus livros 


segunda-feira, 24 de julho de 2017

O blog LITERISTÓRIAS completou 2 anos em 22 de julho e hoje tem presente: uma entrevista com a medievalista Maria Cristina Pereira!

Na apresentação do currículo lattes de Maria Cristina Correia Leandro Pereira, lemos que ela se formou em História pela UFRJ, em 1990, e defendeu o mestrado em História Social pela UFRJ, em 1993. Na época em que Maria Cristina era moça quase mestra, eu entrava na mesma UFRJ, só que para fazer Letras. Depois ela continuou seus estudos fora do Brasil: DEA em História pela Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (1997) e doutorado em História - Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (2001). Eu fiquei no Brasil e acabei por encontrar seu nome na área que me adotou, a área dela!, nossa!, a História. Atualmente ela é professora de História Medieval do Departamento de História da USP e do Programa de Pós-graduação em História Social da mesma universidade. Coordena o Laboratório de Teoria e História da Imagem e da Música Medievais (LATHIMM-USP), sobre o qual ela fala logo abaixo com mais detalhes. Tem pesquisas nas áreas de História, com ênfase em História Medieval e História da Arte, atuando principalmente nos seguintes temas: imagens, arte medieval, arte barroca, arte sacra.

Ano passado, Maria Cristina lançou o livro Pensamento em imagem. Montagens topo-lógicas no claustro de Moissac (São Paulo: Intermeios, 2016. v. 1. 275p). Conheço a sua obra há um tempo e a tenho indicado a meus alunos, sobretudo os textos que estão disponíveis na internet. Mas só conheci Maria Cristina pessoalmente em 2013, no X Encontro da ABREM (Associação Brasileira de Estudos Medievais), em Brasília. Há duas fotos nossas dessa época em meu perfil do FB e nas duas estamos lado a lado. Maria Cristina ama felinos, igual à minha filha Maria Clara, deve ser coisa de marias... rsrs e coleciona fantásticas imagens de grafites que ela compartilha em seu perfil do FB. Para fechar, uma coisinha que não posso deixar passar: adoro os cabelos de Maria Cristina!

Agradeço imensamente a ela o tempo que dedicou a responder às quatro perguntas que lhe enviei para essa edição de aniversário dos 2 anos de LITERISTÓRIAS! Esse caderno de notas virtual começou tão despretensioso e já entrevistou colegas importantes!!, que eu penso que Literistórias está se sentindo com o rei na barriga nesse seu aniversário... Obrigada a todos os colegas que entrevistei!

LITERISTÓRIAS: Maria Cristina, você é uma medievalista dedicada à pesquisa dos ornamentos e outras imagens nos manuscritos medievais. Que tipo de respostas o pesquisador pode obter ao voltar seus olhos e as suas questões a esse tipo de documentação?

MARIA CRISTINA: As imagens são uma fonte muito rica para os medievalistas – menos por seu caráter “arqueológico” (ou seja, de permitir a obtenção de conhecimentos concretos sobre a sociedade medieval através de representações mais realistas) e mais por seu caráter “teórico” (ao permitir conhecer mais sobre a cultura e o pensamento medieval). As imagens têm distintos usos e funções, que vão muito além da tão falada função didática, possuem modos de funcionamento complexos e a elas são atribuídos poderes de várias ordens. Um aspecto importante e que diz respeito a todos esses âmbitos é a ornamentação: as imagens, mesmo as mais figurativas, podem ornar objetos (roupas, livros, armas etc) e lugares (igrejas, claustros etc), colocando-os em destaque, embelezando-os ou mesmo trabalhando para seu bom funcionamento. A concepção medieval de ornamento é bastante afastada da atual, que o associa a algo supérfluo. Cito um exemplo, para ficar mais claro: em um manuscrito iluminado, muitas das letras iniciais podem ser ornamentadas, tanto com motivos não-figurativos, como folhagens, quanto figurativos, ou mesmo simplesmente com uma cor diferente do resto do texto. Essa ornamentação não apenas contribui para o embelezamento da obra e para torná-la um objeto de mais prestígio (digno de ser dado de presente a um grande senhor), mas também ajuda a organizar as divisões internas do livro e pode inclusive servir de suporte para comentários visuais ao texto.

LITERISTÓRIAS: Fale um pouco sobre a diversidade de trabalhos congregados no LATHIMM-USP?

MARIA CRISTINA: O Lathimm, que recentemente foi rebatizado como “Laboratório de Teoria e História das Mídias Medievais”, tem três eixos distintos de interesse: a imagem, a música e o texto escrito (e o novo nome busca justamente sublinhar as possibilidades dessas diferentes mídias). Cada um deles é coordenado por um pesquisador diferente, que pode ou não congregar outros pesquisadores. Assim, no caso do eixo da música, trata-se das pesquisas realizadas individualmente pelo Prof. Dr. Eduardo Henrik Aubert, fellow researcher da Universidade de Cambridge, na área de musicologia histórica; no eixo dos textos, seu coordenador, o Prof. Dr. Gabriel Castanho, da UFRJ, trabalha com seus orientandos de graduação e pós-graduação, que desenvolvem diferentes pesquisas sobre as práticas escritas, a retórica, os discursos e a semântica na documentação medieval; e no eixo das imagens, que coordeno, há pesquisas individuais dos membros da equipe (graduandos e pós-graduandos) sobre temas tão diversos como manuscritos medievais, iconoclastia na Península Ibérica do início dos tempos modernos, claustros românicos e mosaicos bizantinos, além da pesquisa coletiva sobre imagens nas margens dos manuscritos. Todos os anos organizamos um congresso onde são apresentadas não só as pesquisas realizadas nos três eixos mas também trabalhos de outros pesquisadores sobre as imagens medievais.

LITERISTÓRIAS: Maria Cristina, fale um pouco sobre o projeto “Escritos sobre os novos mundos: uma história da construção de valores morais em língua portuguesa”. Como ele se relaciona à sua trajetória vocacionada às imagens?

MARIA CRISTINA: Minha participação nesse projeto se insere no eixo medieval, estando relacionada à problemática da construção do passado através de escritos e imagens. Mais especificamente, busco entender o modo de funcionamento de um tipo de imagens relativamente frequentes nos manuscritos medievais do século XIII ao XV: as que se encontram nas margens. Estudo, portanto, os discursos propostos por essas imagens – que têm muitas vezes um viés moralizante, mesmo quando se trata de imagens satíricas, pois eram norteadas por um humor profundamente moralizante.

LITERISTÓRIAS: Pensando no jovem pesquisador, que desde a sua IC se encanta com as imagens medievais (como não se encantar?!), que saberes esse interessado ou interessada precisaria reunir para começar a trabalhar com essa documentação? Como você começou?

A quem quer entrar nesse campo de pesquisas riquíssimo e ainda relativamente pouco explorado no nosso país, eu daria alguns conselhos, sobretudo de ordem prática. Em primeiro lugar, o investimento no domínio de línguas estrangeiras: o francês e o inglês, necessariamente, além do alemão e do italiano ou de outra língua específica, e também do latim. Também aconselharia a buscar uma formação em paleografia, caso o interesse seja por manuscritos (porque não se pode estudar imagens descoladas dos textos). E, por fim, a construção do repertório de imagens mais amplo possível, o que só se consegue com a frequentação das imagens (por meio de bancos de imagens, por exemplo).
No meu caso, quando comecei a me interessar por imagens, depois do Mestrado, busquei um tema que tivesse relação com minhas pesquisas de IC e de Mestrado, que foram sobre o monaquismo beneditino: a arte escultórica cluniacense. O primeiro passo foi o estabelecimento do recorte, através da consulta a livros e catálogos com imagens de claustros de mosteiros cluniacenses (a inexistência da internet na época certamente dificultou muito a tarefa), até definir um objeto preciso, o claustro de Moissac. Paralelamente a isso, efetuava leituras teóricas sobre imagens medievais. Essa primeira e breve etapa de formação mais autodidata, por assim dizer, foi completada pela orientação que tive de um dos maiores especialistas na área, Jean-Claude Schmitt, e da participação no grupo de pesquisa que ele coordenava no então GAHOM (Groupe d’Anthropologie Historique de l’Occident Médiéval), na EHESS, onde pude também receber orientações de outros especialistas, como Jean-Claude Bonne, Jérôme Baschet e Michel Pastoureau.

MARIA CRISTINA: (se quiser pode superar as 200 palavras. Maria Cristina, aqui você poderia evocar algumas dificuldades e como fez/faz para vencê-las)

A maior dificuldade que enfrento é o acesso à bibliografia e aos próprios objetos de estudo. Certamente, nos últimos 10 ou 12 anos, com a expansão da internet e dos bancos digitalizados de textos e de imagens, essas dificuldades estão sendo cada vez menores. Mas ainda assim, é necessário passar temporadas na Europa para completar o acesso a esse material, o que torna a pesquisa nessa área de conhecimento muito dependente dos órgãos de financiamento.

Antes de terminar:

Quem quiser comprar o livro Pensamento em imagens... de Maria Cristina, deve visitar o site da editora Intermeios: http://redeintermeios.com/livros-intermeios/151-pensamento-em-imagens-montagens-topo-logicas-no-claustro-de-moissac-9788584990511.html

Quem quiser ler Maria Cristina, no que há disponível na rede, pode consultar seu perfil em Academia.edu: https://usp-br.academia.edu/MariaCCLPereira


    sexta-feira, 19 de maio de 2017

    Entrevista sobre o livro Diálogo sobre a alegria

    Pessoas queridas que passam por aqui, gostaria de divulgar a entrevista que eu e Jelson Oliveira concedemos a Sérgio Silva, sobre nosso livro Diálogo sobre a alegria: entre a Filosofia e  a História. Confira!!


    segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

    Uma chef na academia: deliciosas trocas culturais, por Ana Cláudia Spengler

    Há uma semana, convidei minha ex-aluna Ana Cláudia Spengler[1] para escrever um texto para Literistórias, sobre a sua experiência de ter sido aluna da disciplina História e Cultura da alimentação, disciplina oferecida ao curso de Nutrição pelos historiadores..., sendo ela – Ana – não aluna da UFPR, mas membro da comunidade externa e chef de cozinha renomada no sul do Brasil! Meu convite não teve nada a ver com um desejo de fazer propaganda da disciplina que, por muitos anos foi ministrada pelo grande especialista da área, o saudoso Prof. Dr. Carlos Antunes, e que depois de sua morte em 2013, passou a ser oferecida por mim, requisitada por mim na rodada de encargos do DEHIS. Na verdade, depois de um semestre confuso – o 2º de 2016 -, eu fiquei com vontade de saber mais sobre a importância de acolher membros da comunidade externa à Universidade nas minhas disciplinas; em saber do impacto dos textos, da convivência e das amizades sobre pessoas que estavam há algum tempo um pouco afastadas dos bancos escolares e que encararam a volta; em saber por fim o que a querida Ana levava para casa de um semestre intenso, cheio de trocas culturais bacanas ali no nosso microcosmo, rodeado, entretanto, pelo desentendimento e pela cizânia geral. Eu agradeço muito o tempo que ela empregou na escrita desse texto que li, em lembrança do seu sorriso, do seu jeito alegre de ser; na lembrança do acolhimento que recebi (que a turma inteira recebeu!) em sua casa, ao lado do amor de sua vida, o querido André[2], em meio às delícias que suas mãos são capazes de preparar!

    Então, queridos leitores, bon appétit!

    Uma chef na academia: deliciosas trocas culturais

    Quando me inscrevi na disciplina História e Cultura da Alimentação nunca imaginei quantos horizontes seriam abertos e nem o quanto eu seria provocada por aquelas aulas. Temas relacionados com história e gastronomia sempre estiveram presentes na minha formação e no meu trabalho, mas acabavam chamando minha atenção de outra forma; era mais um prazer, quase um passatempo – delicioso e cheio de conteúdo, não vou negar. Boa parte da bibliografia da disciplina já estava ali na minha estante, e eu já havia lido boa parte deles, com um interesse curioso, mas não o de um estudo aprofundado.

    Mas, então, o que estaria fazendo uma chef de cuisine na academia? E não estou me referindo aqui à academia de ginastica, evidentemente, porque seria uma contradição!
    (tenho um amigo que sempre diz que não confia em cozinheiro magro)

    Na graduação (sou bacharel em Gastronomia pela Univali) tive o meu primeiro contato com a história da alimentação (isso lá no final do milênio passado). Diria que foi um despertar. Primeiro para a própria disciplina “História” em si – sou do tempo da LBD de 1971, em que o ensino de humanidades ficou em segundo plano – e, depois, pela história da alimentação, diretamente. Mas era um tempo onde os artigos eram escassos, pra não dizer inexistentes, e muitas das publicações se baseavam em lendas misturadas a conteúdos de fundamento histórico.

    No início das suas aulas, sentimentos múltiplos me acompanharam. O encantamento que o aprendizado traz, a sensação de “poder dominar o mundo” que chega junto com o entendimento e a compreensão... Começamos pelo Egito antigo. Tudo era distante e, ao mesmo tempo, tão palpável, tão “óbvio” sob aquele olhar! Fiquei igual criança quando aprende a ler.

    Agora vejo, porém, que meus interesses giravam em torno de uma época apenas, e um local: o início do século XIX na França. A cerimônia em torno da refeição, a etiqueta (ou a falta dela) à mesa e tantos assuntos afins que me encantavam estavam todos ali, naquele momento histórico. Talvez isso acontecesse por causa da atração que sempre tive pela gastronomia francesa, a corte onde ela era tão importante e fértil, ou, talvez, pela oferta de publicações narrando esse período – ou, mais provavelmente, uma junção dos dois fatores.

    Assim, paralelamente aos textos de “leitura obrigatória” para nossos encontros, revisitei as biografias e obras dos meus grandes ídolos – Carême, Brillat-Savarin, Grimod de la Reynière – agora interessada na História por trás das histórias. Ah, como foi esclarecedor reler meus preferidos sob a ótica do historiador! Foi um semestre e tanto! Não consegui acompanhar tudo... a vida pulsante batia na porta (e na cara) a cada evento, a cada treinamento, a cada preparo. E eu ali, querendo ler mais, descobrir mais...

    Que sufoco! Cheguei a pensar que essa “vida dupla” era impossível. Perdi muitas aulas – que aconteciam às sextas-feiras, dia de ouro dos eventos – e sofri um pouco até aceitar que eu não precisava aprender tudo de uma vez. Nessa corrida contra o tempo, querendo abraçar o mundo, me via sem tempo de ler e comprando mais livros, baixando mais arquivos com textos e tentando de todas as formar “comer” todas aquelas informações.

    E agora? Passada a angústia da impotência (conteúdo X tempo), digerida essa experiência, penso mais em como o conhecimento dos hábitos antigos e a riqueza da diversidade na alimentação dos diferentes povos e épocas nos fazem refletir sobre a nossa relação com a comida – que é a essência da gastronomia.

    Percebi que, do ponto de vista da história da cultura, a atividade cotidiana em cada época é tão importante quanto os grandes eventos, porque nos aproxima do chamado “espírito do tempo” por meio do conhecimento da vida das pessoas comuns. Nesse contexto não é difícil imaginar a importância que a gastronomia tem para a história da cultura, sendo um elemento fundamental da cultura dos povos. Assim, fomos agraciados com uma quantidade imensa de publicações acerca do assunto. 

    Diante de tantos assuntos interligados e tantas descobertas fundamentadas e estudadas, vejo um grande campo de pesquisa onde historiador e gastrônomo podem colaborar, unindo conhecimentos técnicos de cozinha com a pesquisa e interpretação das fontes, documentos, receitas, ingredientes, utensílios.

    Por outro lado, nos dias de hoje, em que as pessoas almoçam fast food e “jantam no sofá”, todo empenho em trazer toda a nossa atenção para o ato de comer nos ajuda a restabelecer a importância dos hábitos à mesa no desenvolvimento humano. Por esse motivo, considero que a gastronomia tem seu lugar no rol das disciplinas essenciais ao progresso da sociedade e não simplesmente um capricho da elite.

    Ana Cláudia Spengler

    Detalhezinho: Quem levou Ana Spengler para a UFPR foi Bruna Michelin, minha ex-aluna dos tempos de Escola Palmares. Na época, éramos meninas: ela literalmente; eu uma menina grande... rsrs Quem tem alunos fiéis não morre pagão! Obrigada, Bru!

    Ana! Não preciso escrever mais nada a respeito dessa imagem tão linda.


    [1] Para conhecer mais o trabalho de Ana Spengler:
    Todo mundo vai ficar com água na boca!!!!!
    Para conhecer mais o pensamento de Ana sobre a alimentação e gastronomia no presente: https://www.youtube.com/watch?v=-ts0X52hBlk&t=159s
    [2] Prof. Dr. André Ricardo de Souza (UNESPAR – Bacharelado e Licenciatura em Música e Teatro).

    segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

    Literistórias entrevista o poeta marabense AIRTON SOUZA. Confira!

    Airton Souza nasceu em Marabá, no Pará, em 23 de março de 1982. É um ano mais novo que minha irmã caçula e por 3 dias não é do signo de peixes, igual à minha mana. Poeta e professor, possui 27 livros publicados. A formação de Airton está entre a História e as Letras. É licenciado em História, pós-graduado em Metodologia do Ensino de História, licenciado em Letras – Língua portuguesa, pela UNIFESPA – Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará e Mestrando em Literatura pela UNIFESSPA. É membro de diversas academias de Letras e instituições literárias, entre elas a ALSSP – Academia de Letras do Sul e Sudeste Paraense, cadeira nº 15, patrono o poeta Max Martins. Possui uma intensa atividade voltada à promoção do livro e da leitura, como a realização de saraus e encontros literários entre escritores e leitores.  Já venceu prêmios literários importantes, entre os quais se destacam: menção honrosa no Prêmio Proex de Literatura, Prêmio Cannon de Poesia, menção honrosa no Prêmio LiteraCidade, com o livro Face dos disfarces, primeiro lugar no Prêmio Dalcídio Jurandir de 2014, um dos mais importantes da Estado do Pará, com o livro de poemas Ser não sendo, um dos vencedores do IV Prêmio Proex de Arte e Cultura, com o livro de poemas manhã cerzida, em 2015 venceu prêmios literários importantes, entres eles o III Prêmio de Literatura da UFES, promovido pela Universidade Federal do Espírito Santo, com o livro de poemas Cortejo & outras begônias e o Prêmio Nacional Machado de Assis, promovido pelo Canal 6 Editora, de São Paulo.
    Airton é casado com Leonice Souza e pai de Leonardo Souza. A imagem que escolhi para esse post foi feita por Leonardo, que captou o pai em entrevista concedida ao grupo RBA, afiliada a Band, sobre a fundação da Academia de Letras do Brasil e sua importância para a região do Sul e Sudeste do Pará. Eu tenho particular afeição pelas imagens que minha filha faz de mim... e como Airton me deixou escolher, acho que vai aprovar a minha escolha!

    LITERISTÓRIAS: Airton, o que é a Barraca Literária?
    Airton: Bem, a Barraca Literária nasceu como Tenda do Escritor Marabaense, que visava integrar uma rede de autores de Marabá, para em uma tenda nas praças públicas da cidade expor seus livros e, sobretudo, promover a venda desses livros. A ideia não funcionou porque os autores não participaram ativamente da Tenda. Desse projeto, surgiu então a ideia de criar a Barraca Literária, que já vai completar dois anos em atividade. Trata-se de uma barraca onde exponho todos os livros que publiquei para vender nas praças de Marabá aos domingos e feriados. Apesar de cumprir uma função mais comercial, não deixa de ser um espaço para mostrar a produção literária de mais de 16 anos de publicações, que resultou hoje em mais de 26 livros publicados e diversas antologias organizadas.
    Existem outros projetos que coordeno, entre eles está o Projeto Tocaiunas que é hoje o maior projeto de literatura independente da Amazônia. Já conseguimos publicar mais de 45 autores, com a tiragem dos livros que ultrapassou os 16 mil exemplares. Livros que são comercializados a R$ 5 e que têm o formato bolso. Tudo pensado para incentivar a produção literária e principalmente a leitura, por meio do livro acessível, de baixo custo.

    LITERISTÓRIAS: Airton, fale um pouco sobre a poesia de Marabá. Existe uma poesia “de Marabá”? Fale um pouco sobre o seu trabalho como organizador de antologias.
    Airton: Na verdade o que estamos criando por aqui, por meio de diversos projetos é um coletivo, que visa além de valorizar a produção dos autores de Marabá, buscar mostrar que Marabá é um espaço onde existe literatura. Nossa terra ficou muito conhecida pelo alto índice de violência, principalmente na década de 80 em diante, devido aos fortes ciclos econômicos existentes por aqui. Na década de 80, por exemplo, tínhamos em nossa geografia a maior jazida de ouro a céu aberto do mundo, o Garimpo de Serra Pelada.
    Se fôssemos mapear a literatura marabaense e aferir quantos autores estão publicando, acho que hoje estaríamos com certeza com um número que chegaria a ultrapassar cem, o que é um número expressivo levando em consideração diversos aspectos, entre eles: as condições culturais e econômicas, ou seja, grande parte das publicações é independente, custeada pelos próprios autores, pois não há incentivo algum, por se tratar de um espaço em que a violência ainda é muito latente, além de estarmos em um espaço periférico do país e onde a leitura, por parte do poder público, nem de longe parece ser prioridade.
    Como organizador de antologias, eu criei um projeto anual que denominamos de Anuário da Poesia Paraense, que tenta publicar um grande número de poetas paraenses; a antologia Mandala que é uma publicação nacional, aberta para poetas do país inteiro e diversas antologias resultantes das oficinas que de vez em quando ministro em escolas públicas da cidade de Marabá.

    LITERISTÓRIAS: Airton, você é um poeta premiado. Qual é a importância dos prêmios literários, em geral, e para você, em particular?
    Airton: Eu sempre procuro enxergar o lado bom dos prêmios literários. Só para constar, antes de vencer um dos principais prêmios de literatura do Estado do Pará, que é o Prêmio Dalcídio Jurandir, diversos poetas nunca tinham falado comigo. Ao vencer o prêmio, até essa relação mudou. Mas, para falar a verdade, eu encaro os prêmios literários por duas ópticas, que são elas: resistência e oportunidade. Entendo sempre os prêmios literários como o nosso espaço de resistir e existir e como uma grande oportunidade de colocar nosso trabalho à prova de outros olhos e sentimentos.
    Quando eu chego a vencer um prêmio literário eu sempre coloco entre meu nome o de minha terra. É sempre uma vitória minha, em particular, e de minha cidade, que acaba também por ganhar uma notoriedade. Também os prêmios literários, às vezes me fazem acreditar que somos capazes de algo. Não que seja para mim o essencial, vencer prêmios, pois, por incrível que pareça, nunca me inscrevi em um prêmio literário confiante de que seria vencedor, sempre penso no pior (muitos risos).
    Mas eu estou convicto de minha literatura. Gosto do que estou escrevendo nesse momento. Por isso, nenhum prêmio literário me fará mudar o caminho ou me motivará a escrever fora de minhas convicções literárias.

    LITERISTÓRIAS: Airton, você é um leitor voraz. Quais são os seus poetas?
    Airton: Eu vivi uma história triste com a leitura. Uma das mais tristes histórias que se possa imaginar. Só para ser ter uma ideia, no tempo em que eu estudei, isso até o segundo grau, nem mesmo meus professores tinham livros didáticos para trabalhar. Lembro que lá no ensino fundamental, por exemplo, grande parte de meus professores tinha os assuntos escritos em cadernos, tipo brochuras, e olha que nem sou tão velho assim. Mas, foram tempos difíceis, em que meus pais não tinham a possibilidade de escolher entre comprar ou não livros para nós. O que ganhavam trabalhando compravam milharinas para fazer cuscuz para as jantas e café da manhã e carne, feijão, farrinha e arroz para o almoço.
    A minha história com os livros e essa postura que me possibilitou a tornar-me um leitor só seu deu perto de meus 30 anos de idade e, por isso agora o que faço com a leitura é pelo menos tentar correr atrás do prejuízo pelos longos dias sem ter a oportunidade de ler. Por isso mesmo, leio cerca de três a quatro livros de uma vez. Eu reconheço que preciso correr atrás desse prejuízo. E, não só por isso, mas principalmente porque a leitura hoje é um vício em minha vida.
    Quando você me pergunta quais são os meus poetas, eu preciso responder que são todos, assim como são todos os romancistas, os contistas, os escritores de livros infantis, o livro de um modo geral. Eu procuro tirar de minhas leituras coisas para os dias de minha vida. Procuro aplicar o que leio em minha vivência no mundo. Na leitura encontro as respostas de que necessito para viver.

    LITERISTÓRIAS: Airton, complete esse desafio: fazer poesia no Brasil é ...
    Airton: Eu costumo dizer que a poesia se tornou, na história da literatura brasileira, uma espécie de margem, isso em relação aos demais gêneros. Já ouvi professores de língua portuguesa dizerem que não gostam de ler poesias, pelo simples motivo de não entender nada. Acho que eles não aprenderam a lição essencial para quem quer realmente ler poesia: não é no sentido que está o segredo, mas no sentir. Até mesmo na repulsa ao ler qualquer poema está a verdadeira chave do sentido da poesia.
    Penso que fazer poesia no país envolve uma questão tão complexa, porque quem escreve sabe o quanto ela é essencial na/para a vida das pessoas. Essa complexidade de fazer a poesia no Brasil envolve uma série de questões que não consigo explicar exatamente. O certo é que a poesia sempre será feita por aqui, aconteça o que acontecer. Isso sim, eu tenho certeza.
    “(...)
    atravessar
    é sempre tragicômico
    ainda mais quando
    não se tem uma mão
    a que segurar
    para o gesto da ida” (pág. 33)

    “(...)
    lança-te sem medo
    é preciso encorajar
    tua pele para o desconhecido” (pág. 56)

    “(...)
    enrijecido sustenta passados
    medita sobre o presente
    tem pelo futuro
    um pasmo assombroso
    que alimenta o escuro

    te inquieta muro
    o mundo não arfa baldrames.” (pág. 61)



    (Alguns de meus versos favoritos de Cortejo & outras begônias, vencedor do III Prêmio EDUFES de Literatura na categoria poesia. Esse prêmio me deu muitas coisas, deu-me a possibilidade de publicar Menina com brinco de folha!, e uma dos mais significativos presentes foi conhecer a obra de Airton Souza! Escolhi fragmentos e poucos, pois não pedi ao poeta licença para publicar poemas inteiros).