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terça-feira, 30 de maio de 2023

Eneida de Heloisa Passos: épico familiar

 

5ª feira, dia 25 de maio de 2023. O PPGHIS da UFPR viveu uma atividade rara: a união de suas Linhas de Pesquisa para uma experiência em comum. Colegas, alunas e alunos, convidados e convidadas reuniram-se no anfiteatro 1100 do Edifício Pedro I da Reitoria para ver o filme Eneida da cineasta Heloisa Passos. A qualidade “rara” teve a ver tanto com o que há de mais funcional na rotina dos dias: os horários diferentes das aulas, quanto com as preocupações acadêmicas: as especificidades de cada seminário de pesquisa e até com a surpresa gerada pelo encontro entre o previsível e o imprevisível. Na 5ª feira, dia 25 de maio de 2023, colegas, alunas e alunos encontraram-se com a protagonista do filme, Eneida Passos (86 anos), para ver com ela um filme em que suas alegrias, conversas e suas dores foram projetados para nossa surpresa e emoção, em uma sala de aula.

Uma atividade assim tem suas “horas de filmagem” invisíveis aos presentes pontuais e que merecem aqui um destaque para as que vivi com a Taturana, distribuidora do documentário, com quem conversei e de quem recebi materiais generosos e muito bem elaborados sobre o filme. Ora, a existência desse conjunto revela que o filme tinha a ambição de extrapolar a experiência de seus minutos visíveis. A exibição começou antes com a leitura do material e se prolongou na conversa depois do filme, em que contamos também com as presenças gentis da produtora Débora Zanatta e da filha mais nova de Eneida Passos, Luciane Passos. Palavras aquecidas com café.

Eneida é um documentário sobre Eneida, a mãe de Heloisa Passos. A cineasta encena a microescala italiana – tão conhecida da historiografia – para “falar” com o público sobre a sua gente, tão nossa... Mãe e filha estão em cena! Eu tive a satisfação de escrever sobre o filme Construindo pontes em 2018 que para mim, tanto quanto Eneida, conta muito sobre o Brasil recente[1]. Mas em Construindo, era o pai que passava pelas telas... Ele volta em Eneida, presença sutil na tela e de grande impacto na trama invisível que é o centro do filme.

Quando o filme começa, Eneida está em Portugal, revisitando suas próprias raízes. Eneida tem 81 anos e vai ao encontro da casa de seu pai. Depois, ela realiza seu épico para religar os ramos todos de que ela é árvore. Eneida vive a separação de uma filha e essa separação reverbera em sua família como afastamento por mais de vinte anos, entre irmãs, netos, primos, tias... sombra e silêncio. Eneida e Heloisa enfrentam a mudez dos anos, sufocada por camadas de desencontro, em busca da filha mais velha da protagonista. Eneida e Heloisa insistem, enfrentam seguranças, porteiros e rabinos. Reviram o sedimento de uma terra inundada pela alga mais tóxica para o amor: o ressentimento.

No material que estudamos sobre o filme, havia três temas disparadores: o cuidado, o envelhecimento e a reconciliação. O filme tem tudo isso. Eu gostaria de acrescentar o ressentimento e o perdão. O ressentimento é a invisibilidade mais opressiva do filme e o perdão... eu volto a Paul Ricoeur, para ele dizer uma coisa muito difícil: “pedir perdão também é manter-se disposto a receber uma palavra negativa: não, não posso, não posso perdoar”[2].

O filme Eneida também é outra coisa, ele encena o que vou buscar outra vez na precisão de Paul Ricoeur: “A fidelidade ao passado não é um dado, mas um voto”[3]. O legado desse filme é um voto. Refuto a ambiguidade desse substantivo, em contexto brasileiro de persistente divisão no almoço de domingo em nome do único sentido que interessa aqui. Na 5ª feira, dia 25 de maio de 2023, foi possível uma mesa comum.

Uma das coisas mais emocionantes para mim foi ver Eneida vendo Eneida... Ela não acredita que sua filha mais velha ou seu círculo viram ou verão o filme da sua epopeia. Eu acho que fica o voto, “o brilho dessa estrela norteadora”[4]...

Marcella Lopes Guimarães

 

***

 

Abaixo, a livre manifestação dos alunos do seminário de Cultura e Poder presentes na sessão de 25 de maio de 2023:

 

I)

Nikita Chrysan

Eneida não é apenas um filme, é uma experiência. É um convite para refletirmos sobre nossas próprias vidas, nossas famílias e amigos, os relacionamentos que vivemos, sejam curtos ou duradouros, assim como nossos medos e esperanças sobre aquilo que o futuro ainda há de nos revelar. A jornada de Dona Eneida em busca do tão sonhado reencontro com sua filha mais velha depois de mais de vinte anos, deixa o espectador ansiando pelo final perfeito que os diversos filmes e histórias fantásticas nos condicionaram a esperar desde a infância. Mas não podemos nos esquecer de que este filme conta uma história de vida, de mulheres que viram o machismo despedaçar importantes laços familiares que o tempo por si só não foi capaz de remendar, quando homens optaram pela discórdia onde o diálogo podia ter oferecido melhores alternativas. Em certo momento do filme, Dona Eneida diz ter vivido uma vida cercada e cerceada pelo machismo, não vendo formas de algum dia se livrar completamente disso, mas aos meus olhos ela já se impõe frente a seus opressores, como mulher, mãe, avó e bisavó, pela coragem e resiliência de buscar a conciliação familiar que foi inviabilizada por homens tantos anos atrás.

Como o próprio material promocional e didático do filme traz, Eneida é uma produção sobre mulheres feita por mulheres, que por meio de diversos temas nos aproxima da vida dessas pessoas, de sua dor, de suas alegrias, memórias e esperanças. Nos lembra que o tempo não espera por ninguém e que há infinitas maneiras de navegarmos por ele, mas que o perdão, o diálogo e a coragem devem ser nossos companheiros e companheiras de caminhada. O filme me fez pensar em minha própria família, tanto nas pessoas que não estão mais fisicamente comigo quanto naquelas que irei reencontrar nas férias que se aproximam depois do término deste semestre letivo, para a qual já tenho a passagem para casa comprada. Para Dona Eneida, sua filha e cineasta Heloisa e todas as mulheres de sua família, desejo toda sorte no caminho que vocês bravamente percorrem, e para minha mãe, minha eterna melhor amiga, deixo aqui meu até logo, na certeza de que este mês que me distancia de seu abraço passará tão rápido quanto o tempo que corre e guarda as memórias de todas nós.

 

II)

Dalton Iathiskoski

 

Eneida é um filme que nos faz refletir sobre as relações familiares, e não somente isso, também perante a sociedade. Assistindo ao filme pensamos sobre as ligações e os rompimentos que vivemos em nossas vidas. O quanto vale a pena uma relação? O quanto vale um rompimento? Pensar nos eventos e suas consequências desafia-nos a olhar para nós mesmos. Pois todos, em sua memória, podem lembrar-se de casos de machismo, injustiça, rejeição e abandono, seja por ouvir ou por presenciar. É impossível passar levianamente por esse filme. Em algum momento você é transportado para alguma vivência que teve e é obrigado a refletir sobre a conduta dos outros, mas também da sua. O que somos? O que nós queremos? Quem está conosco? O que ganhamos e o que perdemos? Por fim, a busca trágica de Eneida... torna-se uma busca por nós mesmos.

 

III)

Rennan Negrão

 

Eneida me tocou de maneira especial. Sua história é a história das nossas famílias, das discussões por dinheiro que levantam paredes no meio das salas das nossas casas, das palavras não ditas e que carregam expectativas que não foram cumpridas. Apesar da ruptura com uma das filhas - e com o braço da família que dela descende -, o filme mostra de maneira muito sensível a relação de Eneida com seus netos. Os netos dão aos avós a oportunidade de renovar as relações de afeto. É um amor demonstrado de maneira diferente. Eneida, nesses momentos, é avó. As interações com os netos nos colocam diante de dois problemas que estão dentro das nossas casas. O primeiro é o envelhecimento, e o cuidado que não relega aos idosos da família o lugar de apartamento, reservado às pessoas que, como objetos, vão se tornando obsoletas com o passar do tempo. O segundo problema, que atravessa o filme todo, são as relações de gênero; a vulnerabilidade masculina é apresentada em um único momento, quando a avó está barbeando o neto Bruno. A relação com os netos é o lembrete que, apesar do seu drama, essa é a família que Eneida possui*. O filme também nos relembra da importância daqueles que ficam do lado de cá após a ruptura, daqueles que tentam uma reaproximação, que querem reatar os laços. Novamente, essa é a história das nossas famílias.

 

*Assistimos ao filme na presença de Eneida, a protagonista, e sua filha mais nova. Ao final da apresentação, ambas saíram em direção ao toilette, e eu estava atrás, no corredor. Ao ver a mãe emocionada, a filha a abraça e diz: “Mãe, olhe tudo o que você tem, a gente, seus netos…”.

 

IV)

Danilo Rodrigues Silva

 

O filme na sua parte final expressa aquilo que nós usualmente concebemos como o derradeiro não desejável, aquilo que não esperamos e não queremos em um filme e muito menos nas nossas vidas, talvez por estarmos acostumados com a idealização da vida no cinema, a idealização de tudo aquilo que anelamos mas não encontramos nas nossas relações familiares e sociais. Eneida, obra de excelência em transpassar para além da tela aquilo que nós enquanto grande público não toleramos que nos seja despertado, sem subterfugio de algum clímax dramático da trilha sonora subjacente ás imagens, não faz avivar na consciência necessariamente aquilo que nós queremos; faz avivar o “nós” demasiado humanos, o “nós” sem muitos outros horizontes a não ser aquele da grande dor do passado, aquela que levamos ao futuro. Não se detendo apenas na rigidez da vida, o filme também aviva o “nós” amor, o incansável esperançoso. A obra não é a descrição de uma história com uma conclusão encantada e positiva para depois de um dia de muito trabalho, corrido, que nos retire á consciência para sermos lançados ao mundo das quimeras, não é uma história feita para termos boas emoções e relaxarmos depois do cansaço, ele é expressão cinematográfica das relações humanas como elas são, demasiado humanas, não necessariamente certas ou erradas eticamente, mas indomáveis pelos sentimentos.

 

V)

Raoni Paes Peres

 

A percepção da brevidade que contém toda vida muitas vezes nos traz reflexões aguçadas sobre como nos relacionamos com os que nos são importantes; certamente a força motriz de muitas reconciliações. No entanto, nem sempre temos o poder de mudar o curso de rupturas nas relações interpessoais como gostaríamos, algo com que muito podemos aprender, como demonstrou Eneida. Ao contrário de um mero conformismo, entre intenções materializadas em ações e a dose certa de estoicismo, encontramos também um conforto – o de viver intensamente sem adiar sonhos, convivendo com objetivos que não pudemos atingir, sem transformá-los em uma condição vital. Reconciliar é muito importante, e viver, mais ainda.

 

VI)

Mariana Megel

 

     O que foi Eneida para mim? Uma enorme reconciliação. Sou tecnóloga em gastronomia, estudante de nutrição e mestranda em história, porém, essas três faces do meu eu não andavam ressoando em consonância por aqui. Com essa inquietação, busquei transbordar a narrativa do filme através da alimentação. Enviei uma mensagem e um e-mail para a Heloisa perguntando se haveria alguma comida que fosse cara para a Eneida e a família delas e, para minha felicidade, dias antes do evento do PPGHIS fui presenteada com a receita do bolinho de polvilho da mãe da Eneida. Foram três testes na cozinha da minha casa até conseguir um resultado agradável e que me falasse ainda de boca cheia “é isso”. Reproduzi a receita com a intenção de que no dia 25 de maio de 2023 todas as conversas a mesa da família Passos estivessem presentes no anfiteatro 1100 do Edifício Pedro II. No entanto, não esperava que a partir disso as minhas três faces celebrariam juntas aquele momento. Eu celebrei naquelas 4 horas o fim da minha tripartite e a minha reconciliação. Finalizo dizendo que ainda não encontrei palavras suficientes para agradecer o fenômeno que é Eneida, mas usando da simplicidade, muito obrigada, Eneida.

 

(depoimentos enviados entre 28 e 29 de maio de 2023)

 

***

 

Eneida vendo Eneida, no anfiteatro 1100

 

 

 



[1] http://literistorias.blogspot.com/2018/05/construindo-pontes-de-heloisa-passos-um.html acesso em 29 de maio de 2023.

Achei uma dissertação sobre Construindo Pontes, que não li, defendida em 2021: http://ppgcineav.unespar.edu.br/dissertacoes_defendidas_new/2021/Dissertao_ThaiseJorgeMendona_PPGCINEAV.pdf acesso em 29 de maio de 2023. 

[2] RICOEUR, Paul. A memória, a história e o esquecimento. Campinas: Ed. da Unicamp, 2007. p. 489.

[3] Idem, p. 502.

[4] Idem.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Filmes românticos de Natal para os românticos incuráveis

Abandone as redes sociais e estique-se no sofá por 90 minutinhos. Um certo canal de TV por assinatura anunciou “24 dias cheios de Natal”, ou seja, 24 horas de filmes românticos de Natal em 24 dias. Um prato cheio para os cinéfilos românticos. Presente! Como eu passei metade do mês fazendo de tudo um pouco, raramente consegui ver os filmes todos de uma vez. Mas o canal não prometeu 24 horas de filmes inéditos, então eu me beneficiei das inumeráveis repetições e posso anunciar com certo orgulho que, em 16 dias loucos de tarefas, consegui ver 12 filmes românticos de Natal!!!!!
Um cinéfilo romântico é só um romântico incurável que ama filmes do gênero: alguém que quer avisar o casal quando o equívoco se apresenta; que torce por eles; que não perdoa quem atravessa a cena do primeiro beijo; que suspira internamente quando o ambiente é hostil, ou seja, quando há outras pessoas na sala... Junte tudo isso ao Natal e parece que os problemas, as crises, as decepções são lavados pela neve ininterrupta na tela: neve que eu ou você de fato nunca sentimos no rosto.
O mês de dezembro na nossa Curitiba tem nos dado dias frios: convidativos para um casaquinho e uma coberta. O verão degenerado predispõe o corpo para sentar diante da TV. A filha aprendeu a fazer cookies e eu senti vontade até de preparar chocolate quente! A filha (ainda) detesta os filmes românticos de Natal, pode ser que nunca aprecie ou pode ser só a timidez da pré-adolescência. Na minha, eu escondia bem, mas aos 45 já saí do armário faz tempo!
O melhor de assumir a cafonice é saber que a gente também não abre mão de achar sumamente tosco o rapaz estar pensando na vida ou na morte da bezerra, no meio da rua, debaixo de uma nevasca, com o presentinho que ganhou da moça, e encontrar o patrão para quem ele mentiu metade do filme e que lhe dá, entretanto, uma promoção! Trata-se de “Aplicativo para o Natal”, um tinder para solteiros e solteiras que precisam de companhia em eventos, sem que isso implique romance ou sexo. Ah, antes que você se assanhe, devo esclarecer que não há sexo em filmes românticos de Natal. Temos direito a apenas um beijo no final, no máximo 2: beijinho ou beijinhos muito corretos.
Tem singeleza exagerada nos filmes românticos de Natal, mas isso não refreia o cinéfilo romântico. Na verdade, a gente acha até bonitinho..., é como ter um pinguim bebê na geladeira. Esse texto não julga as (inúmeras) arestas do gênero. Na verdade, enquanto via esses filmes curtinhos (em média 90 min.) e feitos para TV, comecei a pensar nas várias coisas que eles me diziam e achei que isso merecia duas ou três considerações. Se ao final do texto, você não julgar que elas bastam ao menos para um bate papo antes da ceia, pode ao menos não julgar repulsivo alguém que se senta uns 15 minutos (ou mais...) para assistir com o coração na mão a confissão de Candace para a cidade toda, de ter duas mãos esquerdas, enquanto sua mãe é uma espécie de Martha Stewart!!!
 Em 11 dos 12 filmes que vi, encontrei mulheres assoberbadas: comissárias de bordo (Conexão de Natal), escritoras (Uma viagem de Natal), arquitetas (Flores de Natal), empresárias (Um Natal de Cinderela, Aplicativo para o Natal, À Procura de um Papai Noel), atrizes de sucesso (Natal fora de casa), produtoras de TV (Estrada para o Natal), atendentes (12 dias de presentes) e decoradoras (De repente noiva). Decoradoras me lembram Doris Day em “Confidências à meia noite”, filme que eu adorava ver nos finais dos anos com o meu pai. Essas mulheres são boas filhas, superaram em muito as expectativas de suas famílias e, ainda que algumas vezes tenham dúvidas sobre isso, o pai, ou a mãe ou um amigo muito próximo vai esclarecer que elas são demais! Obrigada, roteiristas amáveis.
Essas mulheres – na maior parte dos filmes são elas as protagonistas – não estão procurando um namorado. Elas estão cheias de planos não românticos, elas conhecem o mundo, têm fotos de vários lugares em que já estiveram, mas o amor atravessa a sua vida e ele faz com que elas achem o caminho de volta. Ulisses de saias! Também acham um jeito de acolher o amor na sua vida ocupada. Homens e mulheres se encontram. Eles se veem, reparam nas singularidades um do outro, eles se apaixonam.
Em 11 dos 12 dos filmes, há crianças. Elas têm entre 7 e 10 anos. São meninas e meninos, sobrinhos e sobrinhas, filhas e filhos de viúvos, uma viúva e um divorciado. As crianças são fundamentais, elas mobilizam o “espírito de Natal”. Elas creem em Papai Noel, fazem questão da decoração, espalham a sua pureza pelos quatro cantos onde se agitam adultos engajados nas festividades. Não raro as crianças colaboram para o namoro dos pais: “Conexão de Natal”, “Natal fora de casa”, “12 dias de presentes” e “Uma viagem de Natal”. Em “Um Romance de Natal”, trata-se do romance do tio da criança.
As famílias são todas de mamãe, papai, vovô, vovó, filhos e filhas. Não há duas mães ou dois pais sob o mesmo teto. O rapaz de “Aplicativo para o Natal” é bonitão, mas, se eu fosse a moça, voltava ao aplicativo numa boa e deixaria ele se descobrir. Match.
Os viúvos, a viúva e o único divorciado não namoram há muito tempo. Estão concentrados no trabalho e na criação dos filhos. Na sua agenda, não cabe nem uma quarta-feira com os amigos; na sua memória, não há noitadas ou bebedeiras. São pais sérios e decentes. É a noiva chata de “12 dias de presentes” que sai de casa e deixa o caminho livre para o fofo protagonista! Sim, há mulheres e homens chatos, mas há gente bacana à beça. Maioria. E todos lindos! Oh, glória!        
Em todos os filmes, há amigos. Amigos verdadeiros! Eles podem ser os irmãos e as irmãs, mas há também vizinhos, amigos de infância, do trabalho... Não há canalhas. Obrigada, obrigada! Eles são o ombro amigo, a palavra que falta, a consciência vigilante e o estímulo necessário. O casal precisa deles, do seu empurrão!
Os enfeites enchem nossos olhos e até causam confusão: “Um Natal muito, muito louco”. Há metros de anéis de papel vermelho e verde feitos em casa! Esses filmes devastaram florestas inteiras em busca da árvore ideal. Quem diria que pudessem ameaçar o meio ambiente?! Há muita gemada. Em “À procura de um papai Noel”, a receita! Há sempre muita comida, muito biscoito de gengibre. Se a revista de Liz Livingstone existisse, eu era capaz de fazer assinatura! E a neve? Muita: bonecos de neve, jogos na neve, bolas de neve atiradas carinhosamente, risos de neve.
Os suéteres são ridículos e fofinhos, com aquelas renas, estrelas, trenós... Ninguém pode querer enlaçar de maneira mais ousada uma rena desses, mesmo que envolva um belo talhe ou mesmo quando há um empurrão do roteiro: a protagonista cai nos braços do rapaz, no momento em que ela está colocando um enfeite no mais alto da árvore! Se a memória não me falha, duas protagonistas caíram nos braços dos amados. Mas não tem clima, gente. Rena, trenó, Papai Noel de narizinho vermelho... O vermelho é a cor das mulheres e do Noel! Em “Aplicativo para o Natal”, quando a atriz está vestida de vermelho na cena, ninguém mais está. Mas é vermelho Natal, não paixão, mesmo que sejam bem parecidos...
  Engraçado, esses filmes tão pudicos são muito recentes. Estamos falando de filmes de 2016, 2017 e 2018, sobretudo. Em dois deles, as coadjuvantes esperam seus maridos militares que estão em manobra e chegam para o Natal. Em “Flores de Natal”, o casal espera um novo bebê, ele ainda não sabe... Como assim? Rsrsrs Em “Um Romance de Natal”, é o vídeo da filha pedindo ajuda para organizar uma festa de volta para o pai militar que espoleta os acontecimentos. Suspeito gostos republicanos.   
Há uma coisa que me interessa muito: a oportunidade encontrada pelas mulheres para amar. A comissária de “Conexão de Natal” viu o mundo. Suas fotos encantam a filha do seu amado, um jornalista preso à cidade de Chicago. Ela é uma mulher feliz, realizada e capaz também de estar à vontade entre os membros daquela família que a acolhe no feriado. Compartilha com o pai da menina um enigma: gostaria de saber como os pais de conheceram na cidade de Chicago em que ela mesma nasceu, mas foi embora pequena. Ele é jornalista e está disposto (e interessado...) em ajudar. No Natal, entretanto, ela tem de voar. Lá pelas tantas, escolhe dar meia volta. Atenção: não largar tudo, mas se dar a oportunidade de ficar algumas vezes. O beijo, finalmente! Caso parecido com “Natal fora de casa”, espécie de Um Lugar Chamado Notting Hill. A atriz não larga tudo, ela se dá uma chance e, um ano depois, a gente sabe que ela continua a fazer sucesso e está ainda ao lado do namorado não ator, todos felizes. De todos, ele é o meu favorito. Hummmm...
De uma forma singela, esses filmes cheios de biscoitos, famílias de mamãe e papai, bonecos de neve, árvores cortadas, dizem a nós mulheres – sem dúvida, somos os seus alvos – que dá para ganhar o globo de ouro e ficar com dono do charmoso lodge; que podemos tocar a empresa de eventos do nosso tio e casar com o “príncipe”. Mas esses filmes dizem mais: que no mundo narcisista das selfies, as pessoas podem olhar umas para as outras sem pressa, elas podem se conhecer com calma, podem confiar na possibilidade de uma nova chance, ouvindo os amigos, olhando as crianças e, sem afobação, podem esperar uma nova chance para beijar. Dá-lhe, Pepeu!
Até 24/12, sobraram alguns dias para os filmes românticos de Natal. Os românticos incuráveis nem precisam de convite! Mas os descolados e conceituais também estão autorizados a fazer uma paradinha secreta para rir das pouco lapidadas situações, para sofrer com o equívoco ridículo que nos separa de quem amamos, para se dar a chance de pensar sobre o amor como possibilidade que acolhe e não exclui. Os filmes de Natal estão cheios de tradições inventadas para dar sentido a essa vida cheia de problemas... “Sua honestidade é revigorante” afirmou uma personagem que eu acho que só apareceu em uma cena de filme que ainda não consegui terminar. É uma coisa bonita de dizer, né? Me dá vontade de sonhar com um mundo de figurantes assim!

Feliz Natal, gente romântica, cinéfila e leitora!

Filmes citados e vistos:
1. 12 dias de presentes (12 Days of Giving , 2017)
2. À procura de um papai Noel (Finding Santa, 2017)
3. Aplicativo para o Natal (Mingle All the Way, 2018)
4. Conexão de Natal (Christmas Connection, 2017)
5. De repente noiva (A December Bride, 2016)
6. Estrada para o Natal (Road to Christmas, 2018)
7. Flores de Natal (Poinsettias for Chritmas,2018)
8. Natal fora de casa (Christmas in Homestead, 2016)
9. Um Natal de Cinderela (A Cinderella Christmas, 2016)
10.    Um Natal muito, muito louco (Christmas with the Kranks, 2004) – o mais fora da curva, mais para comédia que romântico de Natal
11.    Um Romance de Natal (Entertaining Christmas, 2018)
12.    Uma viagem de Natal (Christmas Getaway, 2017)

Não é filme de Natal, mas Confidências à meia noite (Pillow Talk, 1969), com Doris Day e Rock Hudson, é simplesmente imbatível! You are my inspiration, Eileen, Marie...  Y¯, para todos os Natais da nossa vida.


Uma pausa

sábado, 5 de maio de 2018

“Construindo pontes”, de Heloísa Passos. Um filme-documentário-biografia-combinada de Álvaro, de sua família e do Brasil recente.


No último dia 16 de abril, eu e a filha fomos ver o filme de Heloísa Passos “Construindo pontes”. Tratava-se da estreia, no Shopping Crystal em Curitiba. É difícil de caracterizar essa obra, daí a profusão de elementos que incluí no título da resenha. Eu não sabia praticamente nada do filme, quem me convidou foi uma pessoa com quem trabalhei por alguns anos e há muitos, Tina Hardy, que integra a equipe do filme. Recebi os ingressos por e-mail e achei que era uma boa chance de rever gente amiga, com a qual eu e Tina havíamos trabalhado. Rever a própria Tina, inclusive! Intuição correta. Antes da exibição do filme, Heloisa chamou a equipe, revelou-se emocionada de estrear em sua cidade, afirmou o desejo de um Brasil mais plural, onde o desaparecimento de uma mulher que lutava pelos direitos humanos: Mariele presente!, não pode passar despercebido, nem ser esquecido, chamou Álvaro. Foi ovacionada.
A princípio, achei curioso que Heloísa Passos tivesse espantado o mal estar diante do gerúndio, que passou a ser quase uma forma desagradável desde que a sintaxe inglesa meteu-se naquilo que era tão bonito em Camões, que gostava do gerúndio! Fiquei intrigada. Por que Heloísa não preferira um belo substantivo: “A construção de pontes” ou “A construção das pontes”. Eu sabia que depois da exibição, haveria debate, mas como estava acompanhada da filha, em plena 2ª feira, sabia também que a necessidade de obedecer à hora de dormir não permitiria que a gente explorasse essa e outras questões. Heloísa espantou o medo, preferindo o gerúndio. Que nem eu. Heloísa pareceu preferir o inacabado. A construção não terminou. Está em curso.
Há muitas coisas dissonantes no filme, a começar pela relação de Heloísa, que atua no filme, e Álvaro, seu pai, também “ator”. Seus desentendimentos parecem inviabilizar qualquer ponte. Para Álvaro, houve um tempo em que no Brasil havia um projeto de país, um projeto de progresso, de desbravamento, melhorias... que ele identifica com “os tempos da revolução”. É outra a semântica de Heloísa, que afirma que todo esse tempo era a ditadura e que esse projeto de país nunca foi o único projeto e que ele tinha desdobramentos, que Álvaro minimiza... Minimiza com jeito. É Heloísa que fala alto, exalta-se, não aceita. O pai se cala, pede que não se exalte, não é para tanto.
Logo no início há um momento que arrancou risadas da plateia. Pai e filha discutem e ela afirma: não é isso o meu filme, vou desligar o som e desliga. Há uns segundos de respeitosa porta fechada depois daquele duelo entre os dois. A plateia fica de fora. Quantos de nós já não batemos a porta de casa para terminar uma discussão?
Heloísa ausculta a memória da família. Filmes e fotografias antigas mostram viagens divertidas e caras do núcleo feminino. Onde estava o pai? No trabalho. Às vezes levava-as aos destinos, ficava uns dias e voltava apressado. Mapas são abertos na mesa da sala de jantar e Heloísa pede ao pai que localize as suas obras. São inúmeras. Álvaro fala das dificuldades, de onde morou provisoriamente e sem a família, fala do constrangimento dos prazos fixados pelos militares.
Muitas vezes a palavra final é de Álvaro, mas deixado só, no meio da sala, depois de um confronto. Heloisa deixa o aposento, passa; ele quase fala para si mesmo, tinha total lembrança na câmera ligada no meio da sala? É Heloisa quem narra. Eu não gostava de mim quando estava com ele. É uma das frases mais difíceis do filme; ela ribombou dentro de mim.
E não é que Heloísa e Álvaro se metem em um carro para empreender uma viagem a dois mesmo com toda essa dissonância??!! Quantas viagens a dois fiz com meu pai, morto em 5/3/2018? Muitas. A última foi para a França em 2014, quando ele foi morar “para sempre” na Europa e voltou 11 dias depois. É Heloísa quem dirige, o pai dá uns palpites (ora, como não?! É um pai!!!). São parados para uma pesquisa, o pai responde algumas vezes; parecem perdidos em alguns caminhos. Onde estaria a tal ponte que Heloísa queria tanto ver/mostrar?
Há um momento em que ela para diante de um sítio que motivou todo o filme para ela. Sua intenção? Deslanchar a epifania. Heloísa faz a tomada 3 vezes; é ela que conta. Fala as mesmas frases. Vemos que o sol vai se ponto. Nada de revelação em Álvaro. Não há qualquer impressão sensível. E se Heloísa tivesse levado umas madalenas proustianas? Não há madalenas no carro... Há, porém, um momento em que ele parece tentar agradá-la: é bonito. A plateia ri do esforço do pai, do seu equívoco. Heloísa não entrega.
Mas como todo destino das viagens é chegar, a deles também chega a termo. O termo era uma ponte, pela qual trafegam trens. É difícil chegar até lá. Fazem uma manobra na estrada. Estacionam. Os dois sobrem uma escadinha sofrida. Há um detalhe lindo dessa subida. Lindo e arriscado. Ah, como a beleza é perigosa! Heloísa é mais jovem, sobe sem esforço. Álvaro é um senhor e preocupa-lhe a lepidez da filha, cuidado, mas é ele quem resvala e é a filha que o sustém. Emoção forte em mim. O pai nos seus braços. Cuidado, pai. Não tenha medo.
Conversam. E não é que o trem vem?! Heloísa é uma menina de novo. Talvez não esperasse, ri-se, está perto demais, afasta-se. O sol já se pôs, quase não se vê mais nada; ouve-se o barulho.
“Construindo pontes” é um filme lançado em momento propício. Como a narrativa foi se fazendo (olha o gerúndio novamente!), talvez ela tenha sido atravessada mais facilmente pelos acontecimentos da nossa história recente. Há um momento em que há uma discussão de concepção de narrativa: Álvaro diz: mas você precisa planejar e depois filmar; Heloísa não quer isso, quer o oposto: que a captação das imagens motivem a sua “escrita”. Embora eu particularmente fizesse como Álvaro, mas nem eu nem ele somos cineastas..., acho que o resultado levou o expectador a uma urgência. A explicação dessa urgência me leva a uma digressão.
Temos visto e celebrado a afirmação de identidades que por anos, séculos!, foram caladas. Hoje, um mesmo indivíduo se identifica de formas múltiplas. Entretanto, de uns tempos para cá eu, muito atenta às redes sociais, porque participo delas como “personagem” e como analista do comportamento das pessoas (até das que não me interessam), tenho visto que não raro temos reduzido os nossos campos. As nossas “novas” identidades nos fizeram adentrar em grupos pequenos, quase sociedades secretas. Exemplifico: outro dia li o texto de uma aluna muito boa no FB que afirmava seu orgulho de ser uma jovem pesquisadora, historiadora, mulher e desprezava a sua identificação como brasileira... Eu sei por quê. Porque a extrema direita tem sequestrado os símbolos mais evidentes da nossa identificação e talvez a afirmação e o orgulho de ser brasileira, em meio ao golpe e a seus desdobramentos, pareçam à minha aluna um alto risco. O fato é que eu não pretendo deixar a extrema direita sequestrar nem um centímetro do que sou. Então ser uma mulher, intelectual, historiadora, escritora, mãe convivem com minha atenção constante ao Brasil. Convivem com minha luta. Convivem com meu amor.
O fato de afirmar novas identidades, dizê-las em voz alta, exibi-las orgulhosamente têm-nos feito abandonar pontes muito precisadas de reparo. Volto à Heloísa. É por isso que acho que seu filme é lançado em momento propício. Não sei se Heloísa tem a ambição de propor reparos, mas é filha de engenheiro, sabe da necessidade disso! Coisas podem ruir de vez se a gente não cuida, se a gente não se interessa, se não vai aferir com muito jeito o que é preciso fazer para evitar desmoronamento.
Tenho visto muita ameaça de desmoronamento por aí e de divisão – a divisão na família de Heloísa é a redução da escala de uma crise que se instalou fortemente entre nós nas últimas eleições, dividindo a mesa de jantar da casa da gente. Mas Heloísa não se encolhe, ela enfrenta a diferença e convida o pai para viajar com ela! Isso é tão bonito... Estão confinados no carro para o dissenso e o amor. E a maior surpresa é que a “rebelde” Heloísa é que a engenheira construtora de pontes. O filme acerta na mosca; eita precisão matemática! Heloísa tem novo diploma.

Epílogo:
Escrevi esse texto em aeroportos. Comecei no dia 20 de abril no Recife, quando viajava para Cabo Verde (África) e terminei dia 27, no aeroporto de Lisboa, no meio da volta para casa: a Curitiba de Heloísa e minha! O que fui fazer lá? Construir pontes! O filme me preparou, acordou a engenheira na professora. Eu me esforcei para deixar fundações sólidas lá. Será que Álvaro aprovaria minhas técnicas? Como deixei lá contatos, e-mails, promessas..., vou fazer como esse pai e essa filha: refutar belos substantivos e dizer que voltei construindo.   




segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Eu vou à locadora (de filmes): duas ou três palavras sobre uma experiência retrô

Eu e minha família passamos o Natal em Portugal, na companhia de uma grande amiga e da sua família. Lá, entre muitos papos e experiências, todos juntos e misturados, trocamos dicas de filmes, coisa que adoro! Não me lembro mais em que momento, eu saí com essa: “Assim que eu chegar ao Brasil, vou procurar na locadora”. Ela se espantou: “Ainda há locadoras?”.
Há pouquíssimas. As locadoras estão em extinção, depois da adesão massiva das pessoas às assinaturas de serviços especializados em filmes e séries. É como ter uma locadora à disposição, sem precisar sair de casa, na chuva e no frio! Estou em Curitiba, amigos e amigas, o verão foi cancelado. Além dessa facilidade que economiza guarda-chuva e/ou combustível, há os preços que, segundo várias pessoas, é razoável. Não é preciso sair da cama, paga-se pouco e há quem escolhe para a gente!...
Pois é, o meu problema é que eu gosto de ter escolha. Já sei o que vão dizer os inumeráveis fãs dos tais serviços especializados, cuja propaganda recuso-me a fazer: “Mas você escolhe, louca! E ainda pode parar e ver depois, sem a neura de pagar multa por causa de  atraso!”. Percebo o caldo engrossar: “Marcella, quantas vezes você devolveu filme sem ver?”. Verdades.
Eu vou ao cinema. É claro que depois que todos os cinemas foram alocados em shoppings, eu procuro combinar o meu desejo de ver um determinado filme ao shopping em que ele está a ser exibido. Isto por duas razões: o barulho dentro e fora da sessão (há um shopping na cidade cujo som do cinema é praticamente insuportável) e a qualidade do ar. “Frescura...”, não, amigo ou amiga leitora, se eu fico muito tempo nesses ambientes, pode contar que meus olhos ficarão vermelhos e ardidos. Já ouviu falar em síndrome dos edifícios doentes?
Mais um argumento para ficar em casa quentinha? Veja bem, praticamente todo mundo que me conhece sabe que eu tenho medo de avião. Medo mesmo. Já fiz tratamento e tomo remédio para voar. Mas isso me impede de viajar? Uma vez, quase... Eu confronto meu medo, no sentido do face a face, como um problema meio crônico, que exige cuidado, mas que eu não quero/não posso deixar que me imobilize. Quando eu fui buscar ajuda profissional, foi porque cheguei perto de não conseguir transpor o obstáculo. Eu vi o perigo de perto, bem ali. Calma, não abandonei o tema, apenas tomei um caminho maior para deixar claro que não temo sair de casa, eu tenho casaco.
Uma vez eu tive um aluno que me ofereceu uma assinatura do serviço de filmes e séries, de presente. Tudo porque eu ignorava por completo as séries e os filmes que ele considerava que eu haveria de adorar e sobre os quais ele queria obviamente conversar comigo! Eu agradeci e recusei polidamente. Consigo ver muita beleza nesse desejo de compartilhar uma experiência bacana com alguém que a gente quer bem. Só que, outra vez, existe a questão de fundo que me incomoda nesse serviço especializado: a questão da escolha. Com todo o respeito e carinho por esse aluno, vejo na oferta dele, também implícito, o princípio do serviço: a escolha pelo outro.
Além do relato dos clientes fieis, eu já tive uma experiência com esse serviço e não gostei. Foi em um hotel em que eu e minha família nos hospedamos. Sei que não foi uma experiência beneficiada com o tempo para a fruição de “tudo o que o serviço pode oferecer!”, mas experimentei os princípios básicos. O oráculo te oferece opções segundo o seu perfil, e eu me vejo e aos meus amigos como em Matrix... rsrs
Quase ouço o argumento “final” ante a minha teimosia: “Marcella, o dono da locadora também escolheu os filmes que você empresta, tão independentemente...” Ele escolheu decerto, como o shopping ou o cinema de rua resistente “escolheram” o que vai ser exibido, mas eu sei que não escolheram de verdade, pois outros parceiros constrangeram as suas escolhas e por aí vai. Ai, a Matrix... Então, estou bem esclarecida de que não existem escolhas tão isentas, mesmo na minha rebeldia.
O fato é que eu não quero que ninguém me constranja a ficar na cama. Ficar na cama é uma escolha que eu faço e escrever isso na semana seguinte à dos debates de gênero que mobilizaram as mulheres em todo o planeta, a partir das estrelas de cinema!!, tem grande ressonância para mim. Sair de casa para ir ao cinema toda arrumadinha ou pegar um filme, de moletom surrado e havaianas (essa combinação bacanésima! Rsrs), na locadora são atos que me mobilizam. Quando eu decido ver um filme, vou parar tudo e ver aquele filme em particular, que eu queria tanto ou que minhas amigas sugeriram. Filmes que são a minha cara, do meu gosto, do meu perfil, necessários... Não sou cliente naquele momento, sou alguém que gosta e muito de narrativas e que gosta de conversar sobre elas.
Há 20 anos eu frequento a mesma locadora. Quando eu cheguei a Curitiba só havia uma locadora em que eu conseguia encontrar o que queria ver! O nome desse espaço de resistência ou teimosia é Cartoon Vídeo. Temos uma história. Às vezes (muitas...), outras pessoas eram mais rápidas que eu e eu tinha de esperar para ver o que desejava, que espera aflitiva...; eu já recebi telefonemas (vários) me avisando que meu desejo estava lá à minha disposição; lembro-me de pegar o carro toda desgrenhada atrás do filme; lembro-me de levar a minha barrigona de grávida para pegar filmes; de sentar a filha no balcão para ela desenhar bolinhas e flores no lugar da assinatura de locação; das corridas dentro da locadora; de uma vez julgar que a tinha perdido e quase desmaiei; lembro-me quando ela escreveu MARIA pela primeira vez na ficha... A Cartoon tem uma coleção de assinaturas dela que revelam a mudança da letra, o seu crescimento; ela há muito sabe o telefone de casa (e foi para dizer lá e ganhar elogios dos funcionários que decorou!); sabe meu CPF. José Carlos e Marcelo conhecem meu perfil, mas eu não recebo deles as escolhas prontas, troco experiências. Eu bato papo.
Queridos amigos e amigas, eu compro livros pela internet e nunca dispenso visitas às livrarias. Não sei quanto tempo a Cartoon vai resistir. Queria que ela resistisse muito e que houvesse espaço para todos e todas: os que gostam das escolhas do oráculo; da cama quentinha (também curto...); de ir à locadora desgrenhada e de moleton surrado; de ir ao cinema e comprar baldes de pipoca doce até não aguentar mais... Que a nossa liberdade não fique circunscrita ao preço razoável...
Enquanto a Cartoon existir, eu desfilarei minhas havaianas por lá e esperarei os rapidinhos devolverem o que eu quero. A espera tem graça. Depois, voltarei para casa e me envolverei no cobertor, com a música da chuva de fundo; vou dormir no meio do filme e me desesperar porque tenho de entregar no dia seguinte; vou pedir mais prazo ou devolver sem ter visto tudo, porque tenho aflição de atrasar a entrega. Vou viver toda essa confusão gostosa, porque tenho mania de achar que nem sempre é o fácil ou o muito prático o que me interessa. E tem o papo, sempre excelente!; e tem a filha, que ainda corre lá dentro e que me encontra; também espera e acha sozinha o que deseja. Escolhas que se renovam.



A gente ontem (14/1/2018), na Cartoon (na volta do cinema...)

segunda-feira, 1 de maio de 2017

O Joaquim (2017) de Marcelo Gomes é um herói desiludido

Sábado, dia 29 de abril, fui ver o filme brasileiro Joaquim (2017), de Marcelo Gomes e estrelado por Júlio Machado, no papel título. Ele me fora recomendado por duas amigas. Como eu não sou uma historiadora consagrada à pesquisa das relações entre História e Cinema, nem sou uma historiadora que pesquisa História do Brasil, esses comentários são naturalmente pouco científicos. Vi o filme como documento do presente é claro e como experiência estética.
Eu tinha a expectativa de ver uma cinebiografia de Tiradentes radicada no Brasil triste em que vivemos, e assisti decerto a um filme biográfico, que relê a trajetória do herói antes dos eventos que haveriam de transformá-lo em feriado republicano, compreendido em um feixe de relações cuja singularidade não é sacrificada pela ambição de perscrutar uma individualidade específica. O que eu mais gostei no filme (e eu gostei do filme) é que os personagens têm história, às vezes pequena, às vezes mais robusta, mas sempre deles próprios. Ninguém ali precisa de Tiradentes para viver.
No início do filme, a narração post mortem meio didática e talvez desnecessária, da cabeça fincada num pau, identifica o personagem. Essa introdução pode ter a intenção de aproximar-se da expectativa do público (e minha!), para na sequência surpreender com outro caminho. Depois da narração, vemos o alferes: cabeludo, piolhento, a dividir a comida com os companheiros e “permitir” ao pequeno índio partilhar aquele pouco (prenúncio do herói?), rechaçado nas sucessivas promoções dos outros para tenente... Ao seu lado, Januário, que sonha ser alferes; Benedito da venda; Zua, mulher que Joaquim deseja, mas que se liberta a si mesma (inclusive dele); João, pai de família que vive na condição de escravo de Joaquim; Matias, o português que vem da corte e integra uma expedição por ouro... É interessante que intendentes e governadores, cujo exercício de poder ressuma a corrupção e empáfia, não têm história própria. É uma “vingança” da narrativa que aprovamos.
Joaquim tem dois sonhos: a princípio quer ser tenente. Mas depois que Zua esfaqueia Benedito, que a obriga a sujeitar-se às sevícias sexuais do intendente, Joaquim deseja reencontrá-la. Já no sertão proibido, embriagado com os companheiros, afirma que o ouro que tanto buscava seria o recurso para conquistar a promoção e Preta. Então o ouro é caminho, não fim. Detalhe importante: só sabemos que Preta é Zua, quando ela está no quilombo e é uma cena de fazer a gente gritar no cinema. Algo assim: Meu nome não é Preta; Preta é cor; meu nome é Zua. Arrepio. Depois ela dança, é uma mulher, é uma guerreira. Novo arrepio. Cena bonita mesmo. Mas sabe o que eu achei brilhante? Foi Zua libertar Joaquim. A mulher que libertou a si foi também a que libertou o herói. Ponto para Marcelo Gomes.
Nessa noite de embriaguez, cada homem fala sobre seus desejos. É uma cena triste e bonita. Joaquim, Januário e Matias...; mas ali perto João e o indígena que guiava a expedição conversam também, só não podemos compreender. O diretor nega a tradução. Eu gostei disso. De manhã, uma das minhas cenas do filme: o guia indígena e João cantam, cada um no seu ritmo e idioma, enquanto os militares dormem, roncam, Joaquim abre os olhos... Quando o canto é silenciado, a câmera para no rosto de João. Joaquim observa deitado, um detalhe no canto da cena. É um quadro. A minha outra cena também é protagonizada por João.
Joaquim empreende uma busca infundada por ouro. Na volta, vencido, detém-se em uma propriedade onde descobre umas pedras que pressupõe serem valiosas. Já havia tirado um dente de Benedito e nessa propriedade acaba por ajudar uma das esposas do proprietário (as terras brasis são cheias de relações reconfiguradas...). Ora, é o Tiradentes!
Joaquim leva essas pedras para o governador e, na vila, aproxima-se das pessoas, livros e ideias que haveriam de transformá-lo no feriado nacional. É importante perceber, porém, que a escolha de Marcelo Gomes é compreender essa aproximação como fruto da solidão e da desilusão. Nisso, o filme firma seu pacto com o presente. As pessoas, os livros e as ideias não libertam Joaquim, abrem-lhe certamente possibilidades, é preciso continuar a viver, mas o herói de Marcelo age porque seus sonhos morreram... Como é difícil escrever isso.
Minha segunda cena no filme tem a ver com a solidão do herói e com a reivindicação de um homem, pai e marido. Na vila, João vai visitar a mulher e as filhas. Conta a Joaquim que a esposa havia juntado o dinheiro necessário para comprá-lo... A princípio, Joaquim refuta a transação. Diz mais ou menos o seguinte: você também vai me deixar sozinho? João olha nos olhos do senhor, fala que as filhas estavam crescendo, que precisava cuidar da família. Se Joaquim não tem ninguém, João tem família. O herói diz: você tem direito. Marcelo Gomes põe na boca do seu Joaquim o reconhecimento do direito de um homem (e de uma mulher, afinal Zua havia antecipado esse embate) de ser livre, que João vai buscar do jeito que encontra para isso naquele contexto. É um jogo temporal interessante. Presente e passado se encontram na narrativa, na História do Brasil.

Epílogo
O filme estreou em nosso país na altura do dia de Tiradentes, 21 de abril, e pouco antes do dia 28 de abril, dia da greve nacional. Não posso deixar de apontar essa sintonia, que agrega mais sentidos à narrativa fílmica. Eu não esperava um filme comemorativo, mas me surpreendi com a solução de Marcelo para mover o herói: ao mesmo tempo, a desilusão; ao mesmo tempo a necessidade. Nisso, Joaquim parece um homem de 2017. E ele parece tanto que a narrativa post mortem do início pode não ser exatamente didática como a princípio a compreendi. Vendo Joaquim é possível confundir-se com ele hoje; ou ver nele nosso próximo[1] mais aguerrido, meio desbocado e violento, entre desiludido e triste, entretanto não abatido, no Brasil que temos.






[1] No sentido como o compreende Paul Ricoeur, em Memória, história e esquecimento, e eu no capítulo “Amizade” de Diálogo sobre o tempo: entre a Filosofia e a História.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

“Eu andarei vestido e armado...”: sobre São Jorge (2016), filme de Marco Martins

Na semana em que estive em Portugal, fui com minha amiga Patrícia Garpar e com minha prima Andréia Bentes ao Shopping das Amoreiras em Lisboa, para ver São Jorge, filme dirigido por Marco Martins e estrelado por Nuno Lopes, Mariana Nunes e David Semedo. Depois da exibição, o diretor e o ator conversaram com o público até quase a madrugada, com toda a energia, apesar da maratona que têm cumprido para divulgar e debater o filme por diversas cidades europeias. Em setembro de 2016, Nuno Lopes conquistou o prêmio de melhor ator no Festival de Cinema de Veneza pela sua atuação no filme. Mereceu.
Nuno é Jorge, português, boxer, cobrador de “cobranças difíceis”[1], marido de Susana e pai de Nelson[2]. Mora com o pai, o filho e um monte de gente em um apartamento minúsculo, no bairro da Bela Vista; Mariana é Susana, brasileira, mora no bairro da Jamaica e dá um duro danado fazendo limpeza. Apertados no carro, o casal se entrega à paixão teimosa que o racismo do pai de Jorge e as crises da vida teimam (em vão) em arrefecer... Em uma das cenas mais lindas do filme, os personagens estão nos braços um do outro, dançam no bairro da Jamaica, Susana sonha com a casa que Jorge lhe prometera, suas roupas já estão arrumadas para a nova vida, é o único momento em que Mariana pode deixar Susana sorrir; Jorge está à beira do abismo, vai fugir, pode ser implicado na morte de um homem. Ela a tudo ignora; nós não, somos cúmplices, sabemos que ele não matou, mas constrangeu com violência, há testemunhas. Risco. Coração pesado na plateia.
O filme é forte. Se Jorge e Susana são personagens ficcionais, a Troika[3] não. O constrangimento econômico abate o casal; abate os personagens[4] que debatem sua situação na casa do pai de Jorge sob o olhar da câmera que, entretanto, observa sem se intrometer; abate Nelson, a criança que não vemos ir à escola, que vemos respirar mal na cama do pai, que não suporta vê-lo apanhar no ringue para ganhar dinheiro. Mas a câmera é insidiosa para Jorge, vemo-la no seu encalço; a focalizar a nuca, o perfil de Nuno, a evitar seus olhos... até o final, quando ele parte sem olhar para trás. A câmera faz questão de nos colocar frente a frente com ele. Quer o quê? Talvez que sejamos a barreira, que digamos a ele: Volta; volta pra Susana e pro Nelson; toma novamente o colar que acabou de entregar para seu filho e cinge o pescoço com o santo guerreiro, entoando o célebre “eu andarei vestido e armado com as armas de Jorge”!
Fiz duas perguntas ao diretor depois da exibição, e calei uma questão que queria propor a Nuno, para não ser a brasileira-chata-monopolizadora-do-debate... Ao ver o ator sorridente, barbado e cabeludo, tão diferente de como está no filme, fiquei com vontade de ouvi-lo falar sobre sua preparação física. Não me refiro aos treinos de boxe que certamente deve ter sido obrigado a encarar com rigor, gostaria de ouvi-lo falar sobre como foi conter-se e estar sempre pronto a explodir; sobre como foi representar quando a câmera fugiu do encontro com os seus olhos, com o seu rosto, de fato tão diverso do belo ator que quando sorri é capaz de o fazer com covinhas!
Perguntei a Marco Martins sobre o enquadramento e ele confirmou a intenção de uma câmera persecutória. Uma pessoa na plateia fê-lo abordar a iluminação, ou a falta dela. Quase não há sol no filme e, quando há, no campo de futebol, onde pai e filho jogam com outras crianças, Nelson tem de ir embora, levando por outro homem, com quem a mãe mora. Não sabemos bem a relação de Susana com esse homem que abraça Nelson e o conduz para longe do pai. Só vemos Jorge sem sol afinal.
A segunda pergunta que fiz a Marco tinha a ver obviamente com o santo que nomeia o filme. Aludi à longa relação dos portugueses com São Jorge; lembrei do grito radicado no medievo, antes das batalhas. Mas Marco não pareceu embarcar em minha sugestão e ligou o santo mais aos brasileiros que aos portugueses, apesar de tradição. Nuno fez um aparte e nos contou que, em sua leitura muito particular do amor de Jorge e Susana, acredita que ela tenha oferecido a seu personagem a medalha... Fiquei morrendo de vontade de falar uma coisa que não tive coragem lá, mas que escrevo aqui: Nuno, então foi o amor que fez o Brasil devolver a Portugal seu santo de devoção medieval? Emoção triplicada de uma devota do santo (ergui a minha medalha em público...), filha de pais portugueses e medievalista!
O filme é um documento relevante por pelo menos duas razões. Foi desenvolvido mesmo no caminho acidentado que percorreu, afetado pela crise que representa, demorou cinco anos para ficar pronto. Marco Martins afirmou que tinha a intenção de fazer um filme sobre boxe, mas conheceu os cobradores de cobranças difíceis nas academias e pensou: o filme estava ali. Sua pesquisa não foi particularmente beneficiada pela abundância de fontes, afinal nenhuma empresa dessas lhes escancarou as portas... Mas conheceu os homens que a qualquer hora do dia lembravam aos devedores com o auxílio de técnicas diversas as suas dívidas.
Quem imagina um Portugal de Torre de Belém e Mosteiro dos Jerônimos vai se surpreender com São Jorge. Vai se surpreender com a escolha dos cenários, bairros reais, em que habitam pessoas que dão um duro danado. É preciso dizer ainda que as dificuldades não habitam só esses bairros e que não constrangem apenas os imigrantes e seus filhos... Constrangem os portugueses, em uma frase direta. As empresas de cobranças difíceis são a redução de escala da própria Troika, essa é a segunda razão pela qual para mim o filme é um extraordinário documento fixado no presente. Marco Martins deu visibilidade a problemas que muita gente ignorava em Portugal, eu inclusive.
Continuo com a história do santo atravessada no meu coração. O final do filme não me deu esperança, mas Marco Martins o chamou de São Jorge!... Fiquei a considerar a hipótese de um país que precisa cantar para si mesmo dois lindos versos escritos por Chico Buarque em “Fado tropical”[5].
Eu agradeço à minha amiga Patrícia Gaspar, uma amante do cinema português, conhecedora e admiradora do trabalho de Nuno Lopes, o ter nos levado para ver o filme e participar do debate. Lembro-me que, quando ela foi cônsul de Portugal em Curitiba, realizamos um pequeno mas muito exitoso festival de cinema português na PUCPR.
Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa,
Mas meu peito se desabotoa.[6]

Certamente o meu peito se desabotoou de emoção por Jorge, Susana e Nelson! Marco Martins, você fez um filme importante!







[1] Por “cobranças difíceis” se entende a verdadeira perseguição a devedores que tiveram suas dívidas compradas por empresas, que empregam por sua vez métodos violentos para reaver as somas. Conferir: https://jpn.up.pt/2017/03/22/nuno-lopes-conversou-sao-jorge-anunciou-novo-projeto/ (acesso em 9 de abril de 2017).
[2] David Semedo é a criança encantadora que nos emociona no filme, descoberto justamente no bairro da Bela Vista, em Setúbal.
[3] Conferir: https://www.economias.pt/troika/ (acesso em 7 de abril de 2017).
[4] Que não são atores!
[5] Em “Fado tropical”, Chico Buarque afirma: “Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal:/ Ainda vai tornar-se um imenso Portugal!”. Referia-se ao Brasil. Em minha hipótese, entretanto, caberia a Portugal descobrir a sua própria imensidão...
[6] Versos de “Fado tropical”.