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quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

2020 em leituras

 

Quem ama os livros sabe que eles são grandes companheiros. No ano em que a terra parou por causa da Convi-19, quem ainda tinha dúvidas sobre essa amizade talvez tenha tido um reencontro para sempre. Como muita gente que conheço, eu li muito: li para a pesquisa que desenvolvi e para a qual obtive uma licença, uma bolsa de estudos e a oportunidade de pesquisar em bibliotecas extraordinárias da Universidade de Poitiers, na França[1], e li para conservar a minha saúde mental, para viver as vidas alternativas de que preciso. Descobri muitas coisas bonitas nas escolhas que fiz este ano, lendo livros em papel e livros no meu kindle[2], nos livros que ganhei de presente e nas sugestões de leitura que acolhi prontamente de amigos e amigas. De repente, no fim de um ano tão duro, achei que poderia partilhar essa beleza que me salvou um tanto.

Então, abaixo eu reúno exclusivamente os livros que li sem relação com a minha pesquisa ou com meu trabalho como pesquisadora universitária. São livros lidos por prazer. Alguns ajudaram a minha pesquisa de modo surpreendente para mim (!) e até outros projetos, mas quero deixar claro que eu não os procurei para esses fins mais utilitários. Então, assim como excluí os estudos acadêmicos, eu excluí desse texto o meu eu acadêmico rsrsrs... Trata-se de uma lista animada por descobertas, impressões, paixões, abandono, enfado, desafio e relações que eu fui construindo de forma meio selvagem, livre. Uma mulher com seu amante, o livro[3] (Clarice, Clarice...). Espero que os títulos e a tagarelice convidem os amigos, alunos, ex-alunos, família, visitantes ocasionais do blog a lerem e a investirem nessa amizade que faz a gente viver uma vida mais rica, sem ter necessariamente recebido um aumento de salário.

 

Então, senta que lá vem história!

 

O Sobretudo de Proust: história de uma obsessão literária da jornalista da RAI Lorenza Foschini foi o primeiro livro que li em 2020. Li no meu Kindle recém comprado então. Fiquei fascinada! Todo mundo sabe que eu amo o Marcel Proust, então eu amo seu bigode fino, suas luvas, seu pincenê, seu olhar triste e seu casaco, ora!! Mas esse livro é um trabalho de investigação. Li como um romance policial. Ele documenta a dispersão dos objetos do autor depois de sua morte, fala do ressentimento de familiares, da paixão de um homem (Jacques Guérin) por encontrar e reunir esses objetos e o casaco está no Museu Carnavalet! Planejei ir ao encontro de tudo isso, mas a crise sanitária me tirou a chance.

Logo que comprei o kindle, fiz a assinatura unlimited e fui explorando novidades como criança em loja de brinquedo onde é possível brincar! Depois do casaco do meu amado Marcel, li A menina da neve da americana Eowin Ivey, autora da minha geração. Nunca tinha ouvido falar. Fui atraída pela sinopse. Que livro marcante! Um casal perde um filho e foge do olhar de comiseração da família. Muda-se para os quintos, quase sem vizinhos. De repente, encontra uma criança na floresta (!), mas essa criança é uma criança livre, não pode viver com um papai e uma mamãe numa casa aquecida, não vai à escola, não corresponde ao sonho do filho perdido..., ela é só ela mesma. Fiquei um bom pedaço do livro achando que era uma criança imaginária, mas não era! Chorei horrores, é claro, com minha filha ao pé de mim. A criança cresce, torna-se uma moça, uma mulher, casa... ai, meu coração.

Depois de me emocionar com a narrativa de Eowin Ivey (que foi inclusive finalista do Pulitzer), voltei para um amor conhecido em texto ainda não lido: Anne Brontë e A moradora de Wildfell Hall. Um romance rocambolesco! Fiquei exausta de tanto ir pra lá e para cá. Talvez Anne Brontë não tenha tido tempo de revisá-lo… Narrativa dentro de narrativa, narradores… Mas se trata de um romance de paciência e eu sou alucinada por isso! Quem ama Persuasão de Jane Austen levanta a mão! Enquanto lia o romance, eu conheci o trabalho da socióloga Eva  Illouz e não pude deixar de notar (e de me entristecer) com o quanto a gente tem sido barato no “mercado”, entretanto, aquecido, das relações amorosas. Eu não falo de diamantes, colar de pérolas e carrão, você entendeu, o mercado do amor nos reduziu demais, ficamos desinteressantes, e ler romances de paciência me lembra que na literatura a gente já teve mais valor: que valia a pena lutar por nós!

Em A moradora de Wildfell Hall, há um homem que ama uma mulher que se enganou um dia e foi duramente maltratada pelo traste com quem casou. Ela foge desse traste (Graças!), mas não se sente livre, para tocar a vida amorosa, compreende? O homem que a ama de verdade espera, espera, espera, está louco de amor, é meio biruta rsrsrs e, quando ela fica livre, ele hesita: será que ela ainda se lembra...? Ai, meu coração! É claro que ela lembra!!!!!

Conversando com meu amigo Prof. Martin Aurell em Poitiers, ele me emprestou o seu exemplar de Le portefeuille toulousain, de Michel Zink. Já escrevi sobre a carreira do Prof. Zink e sobre sua aposentadoria no Collège de France[4]; ele é um autor importante para minha pesquisa. Mas eu não sabia que tinha se aventurado na literatura! Um romance leve, gostoso de ler, tem uma ironia fina. Foi meu primeiro romance em papel do ano. De uma tacada, devorei a Primavera de cão de Patrick Modiano, no Kindle; Le roi disait que j’étais le diable, de Clara Dupont-Monod e Aliénor d’Aquitaine, do amigo Prof. Martin Aurell. Papel e papel. Modiano foi um pouco decepcionante... Falei e saí correndo, pois ele ganhou prêmios importantes. O romance de Clara foi uma descoberta em que mais uma vez o amigo Prof. Martin Aurell tem culpa, uma boa culpa. Ela é ótima! Comprei 2 exemplares para dar de presente para dois amigos. Sei o que você vai dizer: mas, Marcella, trata-se de sua adorée..., então seu coração vai pré-disposto. É verdade e eu adorei o livro também!!! Depois, ganhei o livro do Prof. Martin Aurell, com dedicatória fofa. Até sonhei com a minha rainha! Então, eu tinha um romance e uma pequena biografia escrita por um grande historiador. O mundo já estava pegando fogo e eu descobri uma nesga de céu azul.

Ao longo de todo o primeiro semestre, estive envolvida com um projeto que não tinha relação com a pesquisa. Eu fazia coisas concomitantes. Inspirada por esse projeto, quis ler livros que eu tinha deixado pelo caminho e reencontrei um velho amigo. Eu tinha deixado H. G. Wells pelo caminho da vida. Ano passado, lendo com meus alunos um texto de Marc Bloch que o mencionava, me prometi mudar isso e consegui. Encarei A máquina do tempo e O homem invisível. Acho que li os dois em três dias. Simplesmente amei! São livros geniais! Depois eu descobri uma bela tese de doutorado defendida no PPGHIS da UFPR, sobre Wells[5]. Li trechos e pude enriquecer a minha leitura. Logo depois, reencontrei o velho amigo Joaquim Manuel de Macedo e a sua Moreninha. Vivi em Poitiers sonhando visitar Paquetá! Aviso: é para românticos incuráveis. Segura na minha mão e vem. Os três no kindle.

Até então, fora uma suave decepção com Modiano, sempre falando baixinho..., eu tinha gostado de tudo, com destaque para A menina da neve da americana Eowin Ivey! Um dia, li a resenha escrita por Miguel Sanches Neto do livro Benção do americano Kent Haruf. Fiquei interessadíssima. Passei a mão no kindle e... cadê??? Benção só em papel. Mas como, com um oceano no meio?! Encontrei disponível do autor o romance Nossas noites. Esta foi a primeira grande, grande mesmo, descoberta do ano! Fiquei tão encantada que escrevi um texto sobre o romance e publiquei aqui no blog em junho. Dá uma olhada. Não vou me repetir, mas é de uma doçura que eu nem sei se a gente está preparando nesse mundo tão baratinho para o amor... Saber que Haruf morreu em 2014 me corta o coração. Um dia vou ler tudo dele e me sentar meio bêbada no meio fio para chorar não ter mais.

Há um tempo, eu ouvia falar de Carlos Ruiz Zafón. Acho que minha grande amiga e irmã da vida Renata Nascimento leu a obra completa dele e tinha me dado de presente há uns dois anos A sombra do vento. Zafón faleceu este ano, em junho, então a tristeza de seus fãs me despertou: eu tinha de honrar o presente. Fiquei com dois exemplares: no kindle e em papel. Amei! Livro sobre amar os livros!!!! Mistério, Barcelona, personagens para a gente amar, odiar, ter muito medo... Não contente em ler, impus Zafón a uma de minhas irmãs, que está adorando. Mas há outra coisa nesse livro, sobre a qual já falo.

O convite de uma pessoa querida para escrever a orelha de um livro que ela organizou me revelou a obra de uma historiadora que eu não visito na minha pesquisa. Trata-se de Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke. Fiquei muito impressionada com sua carreira e resolvi me dar ao luxo de mergulhar no seu robusto e premiado Gilberto Freyre: um vitoriano dos trópicos. Foi fácil, tem no kindle! Como não estava na minha assinatura, eu comprei com dois toquinhos. Li essa biografia intelectual do Freyre como li os romances anteriores, sem grandes pretensões, mas com pré-admiração pela autora. Que livro maravilhoso! Finíssimo, bem escrito, erudito, sem ser chato ou arrogante, aliás, delicioso! E atenção: delicado... Uma coisa meio rara. Surpresa para mim: ele me ajudou na pesquisa; ele me ajudou a pensar o meu texto.

Outro presente que eu resolvi honrar foi o Par les routes de Sylvain Prudhomme. Foi presente de minha amiga Patrícia Gaspar quando me visitou em Poitiers, antes do pandemônio ou da pandemia (ou antes que pressentíssemos...), o que você preferir. Ele ficou me olhando uns meses. Trata-se da história de dois homens e uma mulher. Os homens são grandes amigos e essa amizade se espraia para a mulher, esposa de um deles. O personagem que motiva o título (tenho dificuldades de compreendê-lo como protagonista) é um homem que deixa a sua casa, a mulher e o filho periodicamente para fazer viagens de carona, pela França. Assim, do nada. Vai sozinho. Não vai em busca de drogas, aventuras sexuais, ainda que... vai porque gosta de estar na estrada. Com o passar do tempo, suas ausências prolongadas fazem com que sua esposa, o amigo e o seu filho pequeno descubram na companhia uns dos outros um milhão de sintonias, o amor compartilhado. Um dia, esse homem que gosta de se evadir some. Agora o clique: eu tenho lido há algum tempo histórias em que os personagens somem, eles se despersonalizam!... E isso desde pelo menos a tetralogia de Elena Ferrante. O que aconteceu com Lila? Em Zafón, a gente também encontra o tema e há outros romances mais abaixo que me fizeram pensar sobre personagens que somem. Não se trata de personagens sequestrados ou mortos, ok? São personagens que decidem sumir, escapar da vida que viveram.

É de Par les routes a epígrafe que escolhi para o livro que compreende parte substancial da pesquisa acadêmica que realizei este ano. Então, sem querer, esse livro me ajudou! Devo dizer, entretanto, que não gostei de uma coisinha mínima (talvez não tão mínima...) nesse romance e a razão vai ficar mais clara daqui a pouco, quando eu abordar a maior decepção do ano.

A Amazon é meio engraçadinha. Além de me oferecer meus próprios livros, de vez em quando planta ofertas, além da assinatura... Na empolgação, comprei Carta a um refém de Antoine de Saint-Exupéry. Amei! Livro sobre amizade. Fofo demais.

A maior decepção do ano foi o romance A noiva jovem de Alessandro Baricco. A sinopse do kindle me enganou. Lembra que eu disse no início que esse texto é um conjunto de impressões não acadêmicas, pessoais etc etc etc? Então, se você tem tese sobre Baricco, pule o parágrafo para não se chatear comigo. Uma jovem, quando chega à idade acertada, vai para a casa do noivo a fim de casar-se com ele. Ele não está. Ela espera. Na casa, acontecem mil coisas. Rapidinho: livros são proibidos nessa casa. Eita... Mas ela consegue clandestinamente um Dom Quixote, opa, estou gostando... É seduzida pela futura sogra, uma mulher muito bonita e misteriosa. A menina esquece o Quixote, putz, era uma falsa pista (!), a sogra se enfada e aí ela vai esperar o noivo em um prostíbulo, único lugar em que Baricco acha que ela é capaz de trabalhar! Talvez esse livro pequeno deixe alguém excitado... Mas sinceramente a cena em que a noiva senta no colo de certo personagem que não queria aquele peso é enfadonha. Você me pergunta: nada presta? O noivo é um personagem de despersonalização também. Ele fica o livro inteiro sumido, sua presença são os presentes obtusos que ele envia. Mas seria ele mesmo? Só que Baricco frustra até nisso, pois o noivo aparece afinal e vai buscar a noiva, coitada, no “escritório”... A coisinha pequena de que não gostei em Par les routes tem relação com esse meu desgosto com Baricco. Em ambos os livros, A noiva jovem e Par les routes, as mulheres estão tão disponíveis que me irritaram. Esses autores homens e suas fantasias...

Minha redenção veio com a segunda maior descoberta do ano: Júlia Lopes de Almeida. Fuçando o kindle, dei-me conta de que tinha à minha disposição vários livros dessa autora brasileira. Mas quem era ela?! Contei parte da minha surpresa em outro texto que publiquei em setembro aqui no blog. Li A Intrusa e fiquei aturdida, fascinada. Um romance que me fez lembrar da Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro, romance perturbador e que eu adoro. Em A Intrusa, um homem viúvo precisa de uma governanta, sabe que isso pode gerar fofoca..., então, para manter-se fiel a uma promessa feita à mulher morta, nem quer olhar a contratada. Trata-se de Alice Galba. Alice é uma sombra no livro, mas vai se personalizando..., o contrário do fenômeno que mencionei antes!!! Argemiro não a vê, mas sente seu perfume, acha um livro seu aberto na sala, deslumbra-se com as flores em um móvel, com o jardim, escuta o farfalhar de sua saia (farfalhar é lindo, não?), encanta-se com tudo em que ela toca na casa, encanta-se com o efeito dela sobre a sua filha! Um dia o véu que cobria o rosto de Alice revela... eu paro. Todo mundo tem de descobrir a Júlia!

Saudosa dos meus clubes do livro, li dois livros em sequência sobre clubes do livro! Ambos viraram filmes e são livros deliciosos. Boas opções para darmos de presente para uma pessoa que não sabemos se é leitora: A sociedade literária e a torta de casca de batata de Mary Ann Shaffer e Annie Barrows e O clube de leitura de Jane Austen de Karen Joy Fowler. Eu gostei mais do primeiro. Ambos, no kindle.

Minha amiga Denise Mazocco tinha lançado seu segundo livro, Peças e pensarias, em julho. Eu que tinha gostado e prefaciado o seu Primeiro voo, logo que pude comprei Peças para ler. Livro bonito, bem escrito, sobre amizade, sobre brincar com as palavras (Denise é uma linguista e para mim convida as pessoas a verem perspectivas menos óbvias na sua formação), sobre fantasia de Carnaval, sobre famílias que se transformam e aí uma delicadeza para abordar um assunto difícil na infância (só na infância?)... Ótima dica de presente para os leitores autônomos. O livro é prefaciado pela professora e pesquisadora Teresa Cristina Wachomicz, pessoa querida da Denise e minha também.

Por falar em Literatura infanto-juvenil, li O homem que não parava de crescer de Marina Colassanti com a Clarinha, a contragosto dela... Quando era pequena, líamos muito para ela. Depois que ficou autônoma, demitiu a gente. Agora, os livros estão meio de lado, eles concorrem com seus desenhos (em papel ou digitais), com suas animações, com suas conversas com as amigas, de quem ela está há tanto tempo longe... Eu continuo tagarelando sobre os livros, quase derrubo-os sobre seu colo (de propósito). Clarinha tem azar: sou mãe experiente, não desisto fácil! O livro de Marina é delicado e fala sobre pais e filhos, fala sobre amadurecimento.

E não é que a minha Júlia Lopes de Almeida escreveu um livro com um de seus filhos?! Ah, Júlia, senta aqui ao meu lado... Trata-se de A Árvore. O texto do blog que referi acima é sobre esse lindo livro! Kindle, kindle... Depois desse, li ainda da Júlia Ânsia eterna, livro de contos que me lembraram demais o Maupassant! Veja o desacerto: conheci o Guy de Maupassant antes da Júlia! Na Ânsia de Júlia, descobri contos fantásticos, contos de terror, histórias mirabolantes, cruéis e tive até medinho... Sinceridade. A Júlia me levou ao livro A alma encantadora das ruas de João do Rio. Eu fui aluna de Luiz Edmundo Bouças Coutinho na UFRJ e acho que ele ficaria feliz em saber dessa minha redescoberta.

Mas, sabe, em uma etapa cabeluda da minha pesquisa, necessitada demais, fui buscar apoio nos braços de Marcel Proust. Na verdade, não foi “do nada”... Ele apareceu em uma curiosa nota de pé de página de um autor que foi se tornando importante para minha compreensão dos trovadores: Charles Baladier. Encarei a miscelânea Contre Saint-Beuve de Proust. O livro foi parar no meu livro sobre trovadores medievais! Há lá uma nota imensa em que eu discuto uma coisa que foi o amado Marcel que me suscitou (e ao Baladier também). Match!

Um dia, minha professora de francês propôs que os trabalhos do clube do livro de francês voltassem. Lemos o badaladíssimo Boujour tristesse de Françoise Sagan. Achei interessante não pelos motivos que eu li por aí, mas por um aspecto da narradora protagonista que já vi em outros livros e na vida: ela me fala sobre o perigo das pessoas superficiais... Eu me lembrei na hora de Elena Ferrante e do personagem Nino Sarratore, um dos personagens que mais odiei nos últimos anos. Escrevi sobre isso aqui no blog, em 2017. Com minha professora, li também o breve e lindo Monsieur Ibrahim et les fleurs du Coran de Eric-Emmanuel Schmitt. Livro de encontros.

Os três próximos livros foram sugestões de uma amiga para um projeto novo, mas eu não li constrangida por isso. Li porque eu quis. Na ordem de leitura: Meus desacontecimentos de Eliane Brum, Ideias para adiar o fim do mundo de Ailton Krenak e O olho da rua de Eliane Brum. Adorei saber mais sobre Elaine Brum e esses dois livros me emocionaram muito: o primeiro uma autobiografia da relação dela com a escrita e o segundo uma reunião de suas reportagens favoritas seguida da autocrítica favorecida pelo tempo. Corajoso. Eu ri e chorei, lendo. O livro de Ailton Krenak me mostrou que eu ainda preciso saber mais sobre ele, estudar. Um convite. Ano que vem, pretendo ler mais esse autor.

O romance L’absence de Jean-Denis Bredin caiu na minha cabeça no escritório desarrumado pela minha ausência. Achei que ele me pedia então. Uma descoberta. Novamente eu me vi com a despersonalização..., com o apagamento do eu como escolha. O livro é dos anos 80, então não dá (ou dá?) para dizer que é uma coisa de agora: Ferrante, Zafón, Baricco, Sylvain Prudhomme... Eu preciso pensar mais. O enigma literário que vou levar para 2021.

Há um tempinho ganhei de uma das muitas pessoas queridas da minha vida O filho de mil homens de Valter Hugo Mãe. Eu conhecia Mãe de textos breves, aqui e ali, e por dois livros que comprei para a Clarinha e para mim: A História do homem calado e As mais belas coisas do mundo. Livros encantadores! Em O filho de mil homens, Isaura e Antonino me fizeram sofrer demais, porém infinitamente menos do que os dois penaram no romance..., mas o Crisóstomo é um desses personagens que nascem de uma esperança imprevista, que escapou do peito do escritor e que o escritor permitiu que vingasse! O livro é dedicado às crianças... Ele me “ensinou” que se a gente se sente inteiro ainda pode ser o dobro! Eu flutuei. No final, ele também me fez pensar em História, em tempo longo e em reconexão com uma história maior que nossa vida pequenina... Temas candentes para mim e que estão em vários textos que escrevi e publiquei. Tenho uma amiga que vai amar esse parágrafo sobre seu deus particular...

Este ano uma pessoa amiga lançou seu primeiro romance por uma editora que me é cara: Adriana Martins lançou Berenice da capadócia: jornada do não herói. Amanhecer, pela editora Máquina de Escrever. Trata-se de um romance histórico e de aventuras, ambientado no século IV de nossa Era. Esse é só o primeiro volume da saga. Eu gostei de como as camadas de tempo se entrelaçam no texto: a pesquisa da autora, seu esforço de ambientação (finíssimo em Adriana, que é historiadora. O livro tem ricas notas) e o tempo que se insinua pela estratégia – no autor modelo. Trata-se de um romance sobre uma moça simples que começa a vida e a narrativa como pastora na Capadócia.  A personalidade de Berenice é em grande parte moldada pelo contador de histórias Matathias, a quem ela salva e que se torna seu melhor amigo. As suas aventuras/agruras são de fato emocionantes. As violências sofridas no palácio da “perfumista” Lewellyn, a amizade com a doce Licínia, o “crime”, a vida junto aos Charmosos Maltrapilhos e depois encontrar o amor junto a Ezana... A vida de Berenice não é fácil e acho que os leitores interessados lerão um capítulo da história das mulheres no tempo, por meio de um romance bem escrito e informado. Já estou à espera dos próximos volumes, Adriana!

Li um romance inédito de uma amiga. Não posso avançar, ela ainda não publicou. Agradeço a confiança da partilha. Espero que ela possa publicá-lo em 21. Sei que é trabalho de anos, em que juntou experiências estéticas e coração.

A Bênção de Kent Harut chegou no Natal. É o último livro desse ano de leituras e peço perdão ao leitor cansado para... um pouco mais. Ainda que tenhamos trocado presentes e celebrado um nascimento à mesa em casa, estávamos machucados pela morte de um amigo bem no dia 24 (role a barra e leia aqui no blog). A leitura foi dura... Bênção é a narrativa do último mês de vida de um homem: Pai Lewis, dono de uma loja de ferragens no condado de Holt (Nebrasca), casado e pai de Lorraine e Frank. Simples, Harut vai devagar. Pai Lewis não via o filho há anos. Filho gay; filha sobrevivente de uma filha morta aos 16 anos. Pai Lewis sobreviveu também: ao antigo funcionário ladrão e depois suicida, casado com uma mulher que ofereceu a Lewis compensação do furto com um sobretudo aberto. Hã?! É isso mesmo. Vizinho de uma senhora que perdeu a filha jovem demais (também) e herdou uma neta criança demais... Amigo de duas mulheres valentes, sozinhas (Willa e Alene)... Vai devagar, Haruf. Ele sabe do ofício. Eu já tinha visto isso em Nossas Noites. Como ele nos arrebata? Vou dizer. Ele descobriu uma saída, ao retirar toda a vaidade do narrador. É como se ele deixasse os personagens na nossa frente e dissesse: conheçam-se, descubram-se, eu já volto. Mas ele está ali, atrás da cortina.

Bênção me emocionou. Talvez não tenha sido o melhor momento... Mas 3 cenas me tiraram da sarjeta literária. 3 banhos! O primeiro, tão bonito quanto o banho que Lenu deu em Lila antes do casamento de Lila (Amiga genial, de Elena Ferrante). Lorraine, Willa, Alene e a pequena Alice fazem piquenique, tomam sol e sentem calor. Há um reservatório logo ali, que bom para refrescar! É Lorraine quem se desnuda primeiro: seu corpo aos 50 anos é bonito, natural. Depois, cada uma, desde a pequena Alice até Willa. Corpos disciplinados, de repente em liberdade. Elas riem surpresas da descoberta da sua nudez. Etapas da vida de uma mulher. Quando Willa mergulha, a água desmancha seu coque de velha em um longo e farto cabelo branco! Choro. Há uma profunda comunhão ali. Não, não há nada erótico. Esquece o Baricco! Lorraine segura a mão pequena de Alice. A água está fria, a menina sente – “Meu Jesus!”. Lorraine diz: “Você tem de gritar”. Eu quero também. A pequena responde: “Filho da puta!”. Todas elas riem. Chorei outra vez. São poucas falas, o que significa que o narrador está ali o tempo todo, mas Kent é tão respeitoso que a gente nem sente o seu voyeurismo. Os outros banhos são os da despedida de Pai Lewis. O primeiro, seu corpo ainda vivo, entregue aos cuidados da mulher amada; o segundo, a filha e a mãe preparam o corpo morto do personagem. Miguel Sanches Neto também ressaltou o banho das mulheres na sua resenha.

Na manhã em que terminei Bênção, eu recebi a notícia da morte de uma outra pessoa: o marido de uma das mulheres mais importantes de minha vida. Eu pedi Bênção como presente de Natal e você pode ler essa frase de outro jeito, tirando o itálico. A leitura ficou entre perdas reais e eu não sei bem se as páginas me fizeram sofrer mais ou se Kent Harut me deu aquilo que Paul Ricoeur anteviu em Soi-même comme un autre sem “resolver” a questão, com aquela delicadeza que era a sua marca intelectual: “Quanto à morte, as narrativas que a literatura faz dela acaso não têm a virtude de embotar o aguilhão da angústia em face do nada desconhecido, dando-lhe imaginariamente o contorno desta ou daquela morte, exemplar por uma razão ou outra?”[6].

Eu abandonei uma dica de leitura de amigo: San-Antonio renvoie la balle... Isso me corta o coração. Li 1/3 da obra e não gostei. É direito do leitor abandonar, eu sei, mas é direito abandonar a dica de um amigo?! Ano que vem, eu tento pagar a dívida do coração.

São 35 livros lidos exclusivamente pelo meu prazer, sem relação com meu projeto de pesquisa. Não é uma lista descomunal. Não dá 3 por mês. Em dois meses, março e agosto, eu quase não li “outras coisas”, ocupadíssima com a pesquisa, com o acesso às bibliotecas, com as reviravoltas do mundo, com meus temores, minha saúde, minha filha – menina demais. Mas 35 livros acompanharam os meus estudos acadêmicos, a tradução que encampei, minha escrita ensaística e a escrita de uma nova história. São livros parceiros de outros, meus parceiros. Livros fuga, livros salvação... Para o próximo ano: meu enigma literário, dois livros começados em 2020 nos dois clubes do livro de que faço parte e para os quais voltei – o Romance da pedra do reino de Ariano Suassuna e La vie devant soi de Romanin Gary – e um terceiro, começado mesmo ontem, sugestão da minha querida Sofia Silva: Torto arado de Itamar Vieira Júnior. Mas esse, vou bem devagar, pois quero esperar uma pessoa. É gostoso isso: romances começados e companheiros para desbravar 2021; juntos: eu, eles e as pessoas queridas com quem os leio ou de quem me lembro em cada página, com quem converso. Livros e gentes. Acho que 2021 pode começar assim logo mais.



Feliz ano novo!





[1] A lista desses livros em particular estará na bibliografia do livro que pretendo lançar no próximo ano

[2] Há alguns anos meu ex-orientando Victor Alvim me falou do Kindle: Profe, você precisa de um! Eu, preguiçosa e burra para as tecnologias, deixei para lá. Ano passado, meu orientando Renato Toledo e minha amiga e ex-aluna Daniele Shorne me convenceram afirmando que minha burrice contumaz não me impediria de dar conta do kindle, além disso eu não podia incluir livros na minha única mala permitida para tantos meses de França... Renato me falou da assinatura e ele tinha razão. Fiz e ela se pagou desde sempre.

[3] Aludo aqui ao conto de Clarice Lispector: “Felicidade clandestina”.

[4] Em 2016: < http://literistorias.blogspot.com/search/label/Michel%20Zink>

[6] RICOEUR, Paul. O si-mesmo como outro (1ª ed.). São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2014. P. 173. Levei essa mesma questão para meu livro sobre os trovadores...

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Sobre o leitor libertado, divagações sobre o volume A prisioneira, 5º de Em busca do tempo perdido de Marcel Proust

O clube do livro começou a leitura de A Fugitiva, 6º volume de Em busca do tempo perdido de Marcel Proust. No final deste mês temos debate! Depois do 5º volume, resolvemos fazer um intervalo de valorização da compreensão da catedral proustiana, que também revelou alguns impasses e desconfortos da leitura de A prisioneira. Esse 5º volume não foi fácil. Nenhum de nós (do clube)curte relações abusivas, sequer no domínio do texto, e o volume encena esse tipo de vínculo com os mesmos requintes textuais que nos encantaram desde 2015..., o que piorou as coisas. Antes de prosseguir, preciso apontar que a sensação de desconforto proveniente da leitura do 5º volume não foi uma “fraqueza” de nossos espíritos sensíveis. Muita gente não gosta desse volume em participar. Anne Carson escreveu um breve livro, The Albertine Workout, sobre seu desconforto e esse opúsculo recebeu uma resenha muito atenta de Adalberto Costa, em que ele revela os engodos que vitimaram a própria Carson[1]. Vale muito a leitura dos dois textos.
O 6º volume, A Fugitiva, começou para mim com a sensação de que a libertação foi do leitor, ao mesmo tempo em que reconheci meu “velho” Proust, mais maduro nas relações, ou seja, mais definitivamente lançado à evidência do fracasso do protagonista. Mas será que de fato se pode pular o 5º volume[2]? Nada presta em A Prisioneira?
Para esse exercício de validação, voltei meus olhos aos grifos e comentários às margens da minha elegante (e algo decadente, do ponto de vista físico) edição de 1954, cuja imagem vai logo abaixo.
O narrador evoca o tempo em que coabitou com Albertine e a narrativa encena a complexificação disso, na apresentação de uma Albertine em camadas: de Balbec (em franca liberdade) a Paris (cativa do protagonista). O cativeiro dessa personagem é um aspecto muito curioso no volume, na medida em que Albertine vai aonde quer, enquanto o protagonista-algoz-guardião da cela, trancado em seu próprio quarto, está sempre a ponto de rebentar ante as suspeitas dos passeios da personagem feminina. Bizarre.
Superada (quase nunca...) a má vontade ou a revolta franca contra as relações abusivas que imperam no 5º volume, a questão do tempo merece toda a atenção do leitor. Esse é um volume visitado por fantasmas. A memória da avó volta em várias páginas. A mãe viva comparece como ectoplasma, entretanto, nas cartas, cheias de citações de Madame de Sevigné (p. 117)... É um volume carregado de lutos difíceis para os leitores da catedral: Bergote e Swann morrem! Como assim??? “A morte de Swann impressionara-me na ocasião profundamente. A morte de Swann! Swann não tem nesta frase o simples papel de um genitivo” (p. 168).
Meu segmento favorito do volume foi a apresentação de Morel em casa da Sra. Verdurin. Essa festa acaba mal..., mas seu “durante” é espetacular. Por quê? Porque a narrativa mergulha em uma simbiose estranha de música e palavra que fascina. Há a relação física, o amplexo do músico com seu instrumento musical; há o exercício materializado na mecha que cai no rosto de Morel, enquanto executa as notas..., coisas mal contadas por mim. A festa gira em torno da apresentação do Septeto de Vinteuil, personagem que conhecemos pelo talento musical e pelas preferências amorosas e eróticas da filha. Para não contar mal outra vez, transcrevo o texto, mas não resisto à tentação de entabular um diálogo entre colchetes:
“Mas no momento em que eu a imaginava assim a esperar-me em casa [o narrador imagina Albertine, à sua espera].... fui afagado de passagem por uma cariciosa frase familiar e doméstica do septeto [agora, a frase musical vai transportar o narrador a lugares imaginados]. É possível, de tal modo tudo se entrelaça e se superpõe em nossa vida interior – que ela tivesse sido inspirada pelo sono de sua filha – da filha, causa hoje de todas as minhas inquietações – quando esse sono envolvia em doçura, nos tranquilos serões, o trabalho do músico [aqui, eu me encontro também, na frase musical muda e na cena tão cotidiana, de alguém que escreve, estuda, trabalha..., velada pelo sono tranquilo de uma filha que repousa logo ao lado. Esse trecho me emociona], essa frase que me acalmou tanto, pelo mesmo macio fundo de silêncio que enche de paz certas rêveries de Schumann, durante as quais, mesmo quando ‘o Poeta fala’, adivinhamos que a ‘criança dorme’” (p. 214)
“A alegria de certas sonoridades” (p. 215)... A palavra persegue o som, tenta traduções impossíveis. Eu não escuto o Septeto, mas compreendo a língua dos sinais que Proust me apresenta.
Há certas ironias nesse volume como quando o narrador recebe uma carta da mãe, “esta carta de minha mãe fez-me cair na realidade” (p. 311), e não posso deixar de sorrir do fato de a realidade ser apresentada por meio da ficção do texto! Mas a ironia mais fina do volume para mim é a autorreferência ao 2º volume da Busca, refiro-me ao “lado Dostoievski de Madame de Sevigné” (citado em À sombra das raparigas em flor, p. 205) sobre o qual já escrevi[3]. Como o narrador retoma o tema? “Confesso que o que eu disse naquela ocasião era uma sandice” (p. 324). Mas ele continua a brincadeira, contradizendo a “sandice” afirmada, com diálogo entre colchetes:
 “Acontece que a Sra. de Sévigné, como Elstir, como Dostoievski [vejam a mistura entre fictícios e reais!], em vez de apresentar as coisas na ordem lógica, isto é, começando pela causa, nos mostra primeiro o efeito, a ilusão que nos impressiona. [depois de falar da “obsessão” de Dostoievski por assassinatos, o narrador prossegue na ironia] Eu não sou romancista; é possível que os criadores sejam tentados por certas formas de vida que não experimentaram pessoalmente.” (p. 325)
É espetacular! Ironia em camadas também: ridiculariza a associação que construíra, mas prova logo em seguida que ela é pertinente e se identifica como um não romancista, enquanto o romance se escreve. Onde essa análise tão sofisticada é realizada? No quarto, com Albertine nos joelhos do narrador.
Sobre as interdisciplinaridades, o historiador que lê a Busca encontra motivos sobejos de animação. Além do caso Dreyfus que atravessa a obra nas considerações do narrador e dos mais diversos personagens, é possível ver em detalhes as mudanças da sociedade parisiense na época, e mesmo o avião vemos sobrevoar a cidade luz, pelo olhar admirado do casal Marcel e Albertine, justamente no 5º volume! Esse volume também vai agradar aos amantes da boa gastronomia, leitores de À mesa com Proust (como eu[4]), pela sinestesia que propõe: “O que eu gosto nesses alimentos apregoados, é que uma coisa ouvida como uma rapsódia muda de natureza às refeições e se dirige ao paladar” (p. 107). Mas atenção, são superficialidades de enredo, menos no caso da sinestesia.
Para terminar, tem mais abuso nesse volume..., o que são as relações entre Morel, a sobrinha de Jupien e o Barão de Charlus?!? A verdade é que não sou imediatista e com esse texto confirmo mais uma vez que, se o leitor tem o direito de abandonar o livro que está a ler (tem sim!!!)a qualquer momento que desejar, uma história da leitura também deve incluir perseverança. Eu já espalhei aos quatro ventos minhas obtusas preferências de ler os finais dos livros. A ansiedade pelo fim não constitui a minha biografia (eu tenho outras...). Saber tranquiliza e garante uma entrega maior ao texto. Opinião pessoal. Eu sabia que depois d’A Prisioneira viria um’A Fugitiva e isso me animou, deu-me esperança.

A minha elegante edição de 1954!



[1] http://rascunho.com.br/tese-banal/ (acesso em 14 de outubro de 2017)
[2] Sugestão que aparece apontada no livro de Anne Carson.
[4] Procure aqui no blog minhas considerações sobre esse livro de fazer a gente comer com os olhos. 

segunda-feira, 22 de maio de 2017

A intimidade de Marcel Proust por Céleste Albaret

Monsieur Proust foi recebido com uma profusão de sentimentos (contraditórios) quando foi lançado em 1973[1]. Em minhas mãos tenho exatamente essa edição, embora saiba que a obra foi reeditada em 2014. Hesitei bastante na compreensão desse texto complexo: trata-se de um testemunho dado a Georges Belmont por Céleste Albaret. É a reunião feita por ele de cerca de 70 horas (5 meses) de entrevistas realizadas com a mulher que trabalhou para o escritor Marcel Proust ao longo dos  últimos 8 anos da vida dele; que viveu ao pé do autor; para ele; sacrificando a sua juventude, sua vida particular, sua vida conjugal, na consciência absoluta de que serviu (o verbo é esse mesmo) a um gênio.
Georges Belmont sabe da importância e da complexidade da obra que realizou. Escreve uma introdução, em que contextualiza o testemunho de Céleste. Ela tem já 82 anos e, depois de cerca de 50 em silêncio, resolveu falar. Belmont teme essa voz tardia, afirma que submeteu as declarações de Céleste a repetições e também pôde aferir essa impressão tão certa quanto difícil de explicar: a franqueza. Mas por que afinal Céleste rompeu o silêncio? Não é uma coisa estranha pensar que, algumas pessoas quando alcançam certa idade julgam-se capazes de falar tudo... Nesse tudo, incluem as mágoas e impropérios que a decrepitude desculpa (será?)... O livro Monsieur Proust. Souvenirs recueillis par Georges Belmont é feito de respostas.
Alguém pode redarguir: mas as obras não são sempre respostas, nosso desafio é saber fazer as perguntas?! Essa réplica é certa. Mas, quando afirmo que o livro é uma coleção de respostas, quero dizer que Céleste responde a outra coleção de equívocos que a fama de Proust, sua obra, sua larga epistolografia, sua reclusão e o próprio silêncio de Céleste... só fizeram crescer, após a morte do autor. Meu exemplar de Monsieur Proust está repleto da palavra “resposta” nas margens. Já no final da narrativa, essa síntese:
“Mas hoje, antes de deixar o mundo na minha hora, a ideia de que possa subsistir uma dúvida ou uma mentira sobre tudo o que eu vi e que é a verdade tornou-se me tão intolerável que eu quis que fosse dito, de uma vez por todas, que as páginas que se seguem são a minha memória exata e que eu reexaminei suficientemente, controlei e verifiquei os fatos de minhas lembranças para ter a certeza da minha fidelidade absoluta à realidade do que foi. É um testamento o que eu escrevo aqui, não um testemunho.” (pág. 412).
O livro é dividido em 30 capítulos, tem excelentes documentos fotográficos e, ao final, consigna transcrições de alguns poucos (mas relevantes) telegramas enviados pelo autor a pessoas do círculo de Céleste Albaret, conjunto em que fica evidente a atenção de Proust para com as pessoas a quem se dirigia e a sua tocante gentileza. O livro é linear, foi organizado dessa forma por Georges Belmont, ainda que aqui e ali haja antecipações ou retomadas de algumas ideias. Belmont resolveu realizar uma narrativa em primeira pessoa, é Céleste quem fala. Aqui está a essência da hesitação que referia acima: não seria esta uma biografia dupla? Biografia e autobiografia misturadas? Depois de muito refletir, cheguei a uma compreensão que compartilho, não sem antes ressaltar que a obra está inscrita na coleção “Vécu”. Trata-se, portanto, da memória do vivido; a memória de alguém sobre outro alguém com quem a voz que narra e revoca conviveu. Biografia escrita em primeira pessoa. Não seria mais fácil compreender o texto realizado por Belmont como uma autobiografia em que Marcel Proust é o personagem mais brilhante? Não..., porque toda a vida de Céleste só aparece no texto para fazer viver Marcel Proust e às vezes literalmente, levando-se em conta a narração de seus cuidados para com o autor de Em busca do tempo perdido.
Céleste “nasce” no texto praticamente casada com Odilon Albaret. É Odilon que coloca a esposa em contato com o autor. Importa destacar que, assim como Céleste foi devotada a Proust ao longo de 8 anos, seu marido o foi desde antes, pois servira como chauffer ao autor, na sua época mais mundana. O começo do texto está cheio da conversa de cozinha, entre os empregados de Proust e, talvez tenha sido esse disse-me-disse um dos elementos da má vontade com que a obra foi recebida em alguns meios. Parece que os primeiros leitores da memória de Céleste tiveram dificuldade em compreender seu deus em uma casa em que os criados tinham ciúmes uns dos outros e disputavam a primazia do serviço ao autor... Ora, eu fiquei a pensar nas pessoas que disputavam para serem recebidas por Proust! Vejo uma grande diferença entre os grupos: os palacetes e contas bancárias.
Céleste começa a trabalhar para Marcel Proust logo depois de seu casamento. Ela tem 22 anos, veio do campo, está só em Paris e se entristece. É Proust quem analisa esse abatimento em uma conversa com seu chauffer (sim, o autor da Recherche era atento a tudo e a todos) e sugere a Odilon ocupá-la em seus correios. A princípio, não há compromisso, é um passatempo. Mas o tempo de fato corre e Odilon é rapidamente mobilizado para a guerra. Trata-se da Primeira Guerra Mundial. A experiência da guerra muda a vida de todos no livro e, sobretudo, a do autor, de quem ela fala. Quando o valet Nicolas Cottin deixa o serviço da casa, Céleste assume tudo. Ela já aprendera a estrita rotina do autor, desde o preparo do café (super detalhado na obra, o que a princípio parece um exagero de texto) até o arejamento do quarto, passando pela troca da roupa, pela espera do chamado para levar o café e os horários, de quem levantava depois do meio dia e costumada tomar o café da manhã às 16:00!
O preparo do café e outros mil detalhes na verdade são muito importantes na obra. Eles conferem grande credibilidade à narrativa de Céleste, porque ela deixa muito claro o que de fato viu. Essas miudezas que desagradaram a alguns são a riqueza da obra! A experiência de Céleste compreende o que ninguém a não ser ela poderia contar sobre Proust. Não são, portanto, pormenores desimportantes, mas a vida “real”, com seu café, croissant e leite... Durante esses 8 anos, e apenas interrompido por algumas encomendas, foi tudo o que constituiu a dieta do autor. Céleste não conjectura sobre o que e se ele comia fora, ela se limita (e insiste nisso) em recontar o que viu.
A minha leitura de uma rotina tão rigorosa como a de Marcel Proust me fez pensar em uma coreografia muito bem ensaiada. Não acho que Céleste ou Belmont desaprovariam a metáfora, porque ela me foi sugerida pela observação da própria Céleste dos gestos do autor: delicados e precisos. A linguagem do corpo tão bem observada pela governanta, a imitação de alguns no início das madrugadas depois de animados saraus, os dedos a enquadrar bochecha e queixo, em uma das imagens mais conhecidas..., tudo isso constituía um verdadeiro ballet! Mas para que a primeira bailarina dançasse, um corpo de baile se matava para garantir seu sucesso... Ora, o capítulo 18 se chama justamente “Tyrannique et méfiant” e nos faz pensar que por muito menos que o que está lá, uma décima parte talvez, umas vinte Célestes teriam abandonado aquela casa do Boulevard Haussmann.
Quando Céleste passou ao serviço de Proust, o “temps du camélia à la boutonnière” terminara... Mesmo assim, ela teve acesso à memória que o autor conservou do período. Nessa rememoração da rememoração, um aspecto se revela em conformidade com a franqueza que comoveu Georges Belmont. Céleste não tem o menor problema de revelar nomes e opiniões que alguns poderiam/puderam considerar chocantes sobre pessoas “admiráveis”, mesmo dos amigos mais próximos e devotados do autor. Trata-se em grande parte de ciúmes, invejas e incompreensão...
Ligado à identificação de pessoas muito reais, que visitam manuais de Literatura, Pintura, Música, bem como têm seu nome na capa de várias publicações de prestígio (o que ela nos entrega de André Gide não é pouca coisa[2]...), vemos os “modelos” do autor: uma coleção de pessoas que emprestaram traços a seus personagens mais conhecidos e fascinantes. Devorei as páginas escritas sobre o conde Robert de Montesquiou, modelo do fantástico Barão de Charlus!!!! A princípio, não sabemos quem é mais estranho: se o modelo ou o personagem. Proust chega a prevenir Céleste para o caso de Montesquiou mandar entregar qualquer caixa de chocolates... O autor não esconde o receio de que estivessem envenenados (pág. 315). Depois de ser informado da morte do conde, Proust revela a Céleste que havia momentos em que achava que Montesquiou ainda vivia: “ele é perfeitamente capaz de se fazer passar por morto e de tomar um outro nome, por curiosidade de seu ‘pós’” (p. 315). O final do capítulo é muito bonito. Céleste afirma que, depois de algum tempo, ela achava que o conde Montesquiou deixou de existir no espírito de Proust: “A verdadeira realidade, era Charlus” (p. 315). O personagem lhes sobreviveu a todos.
Ainda que a sinceridade de Céleste possa ter sido algo indigesta para uns e outros, o desconforto veio primeiro da leitura da obra enquanto o autor ainda vivia! Isso é muito interessante. Alguns “modelos” se insurgiram contra Proust! O conde Robert de Montesquiou foi um deles... Isso exigia que Marcel Proust empregasse muitos recursos retóricos para defender a sua obra aos olhos de pessoas que se reconheciam nela. A verdade é que mesmo tendo modelos bem nítidos e saindo à noite para fazer prospecções, o autor reuniu traços de diversas pessoas. O fato de algumas delas se reconhecerem talvez advenha da convivência que experimentaram com Proust ou... do fato de termos sim a certeza de que ele escreveu para nós.
Muito já se escreveu sobre a homossexualidade de Marcel Proust. O fato é que Céleste nada afirma sobre isso e não devemos pensar que se tratou de “proteção” ao autor em um contexto em que as paixões de um homem como Montesquiou ou como o personagem Charlus eram tabu. Céleste nada pode revelar porque só tem duas fontes: o que viu e o que Proust lhe relatou. Segundo ela mesma declara, o autor era de um pudor imenso. No fim da vida, extremamente debilitado, para se levantar da cama, onde estava todo vestido, pediu à Céleste que se virasse e, quase inconsciente, deve ter sofrido mais por ter percebido sua coberta ser levantada para uma injeção que pela injeção em si (mesmo levando em conta que ele tinha horror a picadas). Ainda que ela tenha afirmado que ele lhe confiava tudo, havia limites decerto.
Há dois capítulos sobre os amores de Marcel Proust. No capítulo 15, as mulheres que ele admirou, cujo charme lhe marcou (elemento muito valorizado por ele!), pelas quais se interessou ou se apaixonou. Entre os documentos fotográficos, encontramos algumas delas: a atriz Louisa de Mornand, o amor adolescente Marie de Benardaky... Lemos a sua desistência de casar-se. No início do capítulo 16, “’d’autres’ amours” (pág. 227), Céleste afirma que embora achasse que Proust tivesse capacidade para amar, não acredita que jamais tenha realmente se apaixonado. Ela cita diversos nomes de homens, para desfazer equívocos de encontros no Boulevard Haussmann. Novamente ressalto que ela só pode se reportar ao que viu ou dele ouviu. Nos seus limites, não se escusa de mencionar, por exemplo, um nome que segundo ela mesma fez correr tinta: Alfred Agostinelli, que serviu Proust como chauffer. Mas Agostinelli haveria de morrer em 1914, quando Céleste havia recém entrado a serviço do autor! Outro nome citado foi o do “modelo” de Jupien: Le Cuziat, que era proprietário de um bordel. Nada sobre Reynaldo Hahn nesse enquadramento... Embora esse amigo fiel apareça muito ao longo da obra e tenha mesmo velado o corpo de Proust junto a Céleste e ao irmão do autor. Apenas os três na companhia de 2 religiosas (pág. 432). Hahn tem mais desenvolvimento no capítulo das amizades (capítulo 19), junto a Mme Strauss, Robert de Billy, os irmãos Bibesco e Frédéric de Madrazo.
Na memória de Céleste, Marcel Proust fez todas as concessões (im)possíveis para a sua obra e só as fez por ela. Ao colocar um fim no livro, mesmo que ainda houvesse muito a corrigir (entre os documentos fotográficos, vemos como os originais voltavam de suas correções...), seu corpo entrou em colapso. As concessões ignoravam os cuidados para preservar a frágil saúde. Mas há uma cena interessante em que se misturam pesquisa e frequentação ao bordel de Cuziat, poderíamos compreendê-la no quadro das concessões? Na volta, Marcel Proust relata uma cena masoquista à Céleste. O diálogo seguinte à narração é extraordinário:
- Senhor, isso não é possível, não pode existir!
- Mas existe, eu não inventei.
- Mas, Senhor, como pôde olhar para isso?
- Justamente, Céleste, porque eu não posso inventá-lo. (pág. 240)
Trata-se de um pequeno capítulo das relações entre ficção e realidade...
Apenas uma visão muito parcial da catedral[3] proustiana, ou mesmo a ignorância completa do texto, travestida de escolha por textos mais “engajados”, explicariam a falta de reconhecimento do extraordinário desvelamento literário de um mundo prestes a sucumbir. Proust foi um leitor voraz e, durante a construção de sua catedral, lia variados jornais e se interessava pela política, pela bolsa de valores, pelas artes, pela literatura e pela crítica. Tinha suas preferências políticas e manifesta na sua obra um evento que lhe tocou particularmente: o caso Dreyfus[4]. Céleste não busca explicar a crença de Proust na inocência de Alfred Dreyfus a partir da sua ascendência materna (a mãe de Proust era judia), mas pelo seu amor à verdade e à justiça.
Céleste nos conta algumas coisas muito difíceis, como a queima dos cadernos pretos de notas; a verdade (com provas materiais rsrsrs) de que André Gide, o “falso monge” (pág. 353), sequer teria lido o célebre manuscrito recusado; a mudança do Boulevard Haussmann, não sem desfazer os equívocos dessa mudança de endereço, para a rua Hamelin, onde o autor haveria de morrer, e a sua agonia. Proust recursou todos os tratamentos médicos que estavam à sua disposição, e estavam à sua disposição o que de melhor havia em seu contexto! É nesse momento que nem Céleste lhe pôde obedecer..., mesmo tendo se remoído de remorsos. Mas quem não lutaria mesmo contra quem ama para salvar-lhe a vida?
Marcel Proust morreu no dia 18 de novembro de 1922. Era um sábado. Logo, um cortejo de amigos viria até a rua Hamelin para despedir-se dele. Ele só seria enterrado na quarta feita, dia 22 de novembro. Depois disso, a vida de Céleste passa depressa no texto e em poucas páginas a vemos ter uma filha, sua única filha; vemos Odilon morrer; ela vender lembranças de Proust em razão da doença de Odile; vemo-la no Museu Ravel. Sua última lembrança na narrativa é ainda Marcel Proust, em uma pequena joia que ele lhe deixara.

Referência: ALBARET, Céleste. Monsieur Proust. Souvenirs recueillis par Georges Belmont. Paris: Éditions Robert Laffond, 1973.

Epílogo:
Quando terminei de ler a obra, dia 15 de maio de 2017, tinha o rosto lavado em lágrimas. Precisei ser consolada. 95 anos depois de Marcel Proust ter morrido, eu chorava a sua morte! Desde setembro de 2015, ele tem sido uma companhia constante: o intervalo de minha vida, cheia de linhas preenchidas em agendas cujo tamanho das páginas fica maior a cada ano... É difícil achar tempo para um intervalo tão exigente: 7 volumes! Até para ser lido, ele é o tirano que Céleste e seus grandes amigos deixaram que reinasse em suas vidas. Em nossas vidas.

Amigos, as traduções realizadas no texto são de minha inteira responsabilidade.




[2] “Entre os que gravitaram em torno de [M. Proust] (...) é preciso que eu me detenha sobre André Gide, a princípio porque, ainda uma vez, ele foi o único e grande responsável pela recusa do manuscrito de Swann na [editora] Gallimard, e [porque] depois da morte de M. Proust, nasceu um equívoco sobre uma pretendida intimidade e relacionamento entre eles – equívoco que foi expressamente criado e alimentado por André Gide” (pág. 355)
[3] Céleste emprega essa mesma metáfora no seu relato.
[4] Sobre esse tema, mas não só, recomendo a tese de doutorado do Prof. Alex Neundorf (PUCPR), disponível em: http://www.humanas.ufpr.br/portal/historiapos/files/2013/05/Alex.pdf (acesso em 15 de maio de 2017).

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

O clube do livro de Marechal Cândido Rondon (PR) leu "Eu sou Malala" e conta para nós como foi!

Uma das grandes razões de LITERISTÓRIAS existir é compartilhar impressões sobre livros. Outra, sobre filmes! Mas nesse ano e meio de existência, tenho sido premiada com a colaboração espontânea (ou não... rsrsrs) de amigos, sobre diversos temas: sobre suas pesquisas, suas atividades profissionais e sua arte. Em 1º de agosto de 2016, publiquei um texto de Elaine Cristina Senko sobre o clube do livro de que ela faz parte na cidade de Marechal Cândido Rondon (PR). Ora, o tema CLUBE DO LIVRO já rendeu muito aqui também, afinal ainda estamos a ler Em busca do tempo perdido de Marcel Proust!
Desta vez, Elaine e uma amiga querida, Natânia Silva Ferreira, relatam brevemente suas impressões de leitura da autobiografia da jovem Malala Yousafzai e do filme sobre a sua vida. Mais uma reflexão sobre o gênero biográfico, em comemoração às mais de 100.000 visualizações em LITERISTÓRIAS!

Obrigada, queridas!

     Estudando por onze anos o tema do islamismo seja através da pesquisa ou através da atividade docente, poucas vezes ouvimos o relato de uma criança sobre a vida atual nos países do Oriente. Através de um momento trágico para uma criança, como foi para Malala, caracterizamos duas reflexões, uma que foi o ápice de um movimento destruidor contra os princípios pacifistas do islamismo e outra do despertar de um movimento pela educação feminina ultrapassando até as balizas de idade. Enfim, através do livro de 2013 Eu sou Malala e do filme de 2015 “Malala” podemos ter fontes autobiográficas sobre o tema.
     A luta pela educação é permanente no caso de Malala e nos faz acreditar como através dela podemos ser agentes sociais transformadores. Um dos aspectos que chamam a atenção no caso dessa jovem paquistanesa – para além da sua bravura – é a lembrança de que o islamismo é pacifista e de que os terroristas distorcem violentamente os princípios dessa fé. Apesar da tragédia que se abateu sobre Malala, ela continuou (e continua) forte e com ideais humanitários ainda mais claros.
     Destaca-se tanto na obra escrita quanto no filme a pertinência da formação intelectual do pai de Malala e seu anseio por melhorar a sociedade com a educação. A fundação de uma escola crítica inspira desde cedo Malala. Alimentada por saberes, cria uma esfera de combate contra a ignorância e a maldade imposta pelo talibã; combate ao confinamento das ideias propostas pelo grupo terrorista que resulta não só em submissão, mas em contra-ataque crítico. Percebemos também a defesa da cultura que não apenas está restrita ao protecionismo do Ocidente ou pela ameaça de não retorno, mas que nos comove pela função identitária. Acreditar no mundo de Malala é também acreditar na função social da educação, bem exemplificada na frase dita por ela: “Uma criança, um professor, um livro, uma caneta...”!
     Nessa afirmação de Malala encontramos respostas que realmente são capazes de gerar reflexões profundas no mundo: uma adolescente, Malala, com 15 anos de idade, lutou com bravura pelo direito à educação feminina; seu pai, um professor, ao criar uma escola mista, agiu de forma a tentar melhorar a qualidade de vida de outras crianças e de seus próprios filhos; um livro e uma caneta foram instrumentos usados por Malala para que o mundo soubesse de sua história inspiradora.
     O filme e o livro dão relevância para a questão da família, com lembranças do matrimônio dos pais de Malala. Chamam atenção as falas de seu pai no que diz respeito à mãe de Malala, quando ele comenta que os dois se completam: quando se conheceram, a mãe de Malala tinha 14 anos de idade e, enquanto o pai possuía uma formação cultural acadêmica, a mãe possuía beleza... A forma como o pai de Malala se expressou pode soar, para nós do Ocidente, numa diminuição da mulher, que possuía apenas beleza. Vale ressaltar, porém, que avançar nos estudos ou alcançar determinada formação não eram possibilidades muito exequíveis para as mulheres naquele contexto do islamismo paquistanês. Apesar disso, mesmo fazendo parte daquele cenário, os familiares de Malala não a privaram da educação e da liberdade. Liberdade que a menina ressalta nas obras, ao mencionar que, numa família de sua nação, seria comum que ela, além de não seguir nos estudos, já estivesse talvez casada e com filhos, mesmo na idade de 15 para 16 anos.
     A formação de seu pai permitiu que ele soubesse da importância da educação para o desenvolvimento dos filhos. A força e incentivo positivo da mãe de Malala também foram fatores importantes – pois dentro da cultura islamita daquele contexto específico, o papel da mãe de Malala poderia ter sido o de desestimular a filha em todos os assuntos voltados para a emancipação feminina no que diz respeito à educação.
Depois do atentado contra Malala, a família se mudou para a Inglaterra e ela está estudando, construindo uma história diferente de muitas das mulheres de seu país de nascimento construirão.

Elaine Cristina Senko e Natânia Silva Ferreira.

Sobre Elaine, peço aos leitores que evoquem o texto “Um clube do livro em Marechal Cândido Rondon – relato de experiência”. Já sobre Natânia, ela é doutoranda em História Econômica pela Unicamp, mestra em História Econômica pela USP e graduada em Ciências Econômicas pela UNIFAL-MG. Para conhecer suas pesquisas, recomendo:
http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4496326H2
Sobre Malala, evoco o discurso na ONU: https://www.youtube.com/watch?v=PLKpqajRruQ


Eis o clube do livro de Marechal Cândido Rondon. Alguma dúvida de que ler une as pessoas? Natânia é a primeira jovem à esquerda, sentada à mesa, e Elaine, a jovem de pé, mais alta.