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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Sobre o leitor libertado, divagações sobre o volume A prisioneira, 5º de Em busca do tempo perdido de Marcel Proust

O clube do livro começou a leitura de A Fugitiva, 6º volume de Em busca do tempo perdido de Marcel Proust. No final deste mês temos debate! Depois do 5º volume, resolvemos fazer um intervalo de valorização da compreensão da catedral proustiana, que também revelou alguns impasses e desconfortos da leitura de A prisioneira. Esse 5º volume não foi fácil. Nenhum de nós (do clube)curte relações abusivas, sequer no domínio do texto, e o volume encena esse tipo de vínculo com os mesmos requintes textuais que nos encantaram desde 2015..., o que piorou as coisas. Antes de prosseguir, preciso apontar que a sensação de desconforto proveniente da leitura do 5º volume não foi uma “fraqueza” de nossos espíritos sensíveis. Muita gente não gosta desse volume em participar. Anne Carson escreveu um breve livro, The Albertine Workout, sobre seu desconforto e esse opúsculo recebeu uma resenha muito atenta de Adalberto Costa, em que ele revela os engodos que vitimaram a própria Carson[1]. Vale muito a leitura dos dois textos.
O 6º volume, A Fugitiva, começou para mim com a sensação de que a libertação foi do leitor, ao mesmo tempo em que reconheci meu “velho” Proust, mais maduro nas relações, ou seja, mais definitivamente lançado à evidência do fracasso do protagonista. Mas será que de fato se pode pular o 5º volume[2]? Nada presta em A Prisioneira?
Para esse exercício de validação, voltei meus olhos aos grifos e comentários às margens da minha elegante (e algo decadente, do ponto de vista físico) edição de 1954, cuja imagem vai logo abaixo.
O narrador evoca o tempo em que coabitou com Albertine e a narrativa encena a complexificação disso, na apresentação de uma Albertine em camadas: de Balbec (em franca liberdade) a Paris (cativa do protagonista). O cativeiro dessa personagem é um aspecto muito curioso no volume, na medida em que Albertine vai aonde quer, enquanto o protagonista-algoz-guardião da cela, trancado em seu próprio quarto, está sempre a ponto de rebentar ante as suspeitas dos passeios da personagem feminina. Bizarre.
Superada (quase nunca...) a má vontade ou a revolta franca contra as relações abusivas que imperam no 5º volume, a questão do tempo merece toda a atenção do leitor. Esse é um volume visitado por fantasmas. A memória da avó volta em várias páginas. A mãe viva comparece como ectoplasma, entretanto, nas cartas, cheias de citações de Madame de Sevigné (p. 117)... É um volume carregado de lutos difíceis para os leitores da catedral: Bergote e Swann morrem! Como assim??? “A morte de Swann impressionara-me na ocasião profundamente. A morte de Swann! Swann não tem nesta frase o simples papel de um genitivo” (p. 168).
Meu segmento favorito do volume foi a apresentação de Morel em casa da Sra. Verdurin. Essa festa acaba mal..., mas seu “durante” é espetacular. Por quê? Porque a narrativa mergulha em uma simbiose estranha de música e palavra que fascina. Há a relação física, o amplexo do músico com seu instrumento musical; há o exercício materializado na mecha que cai no rosto de Morel, enquanto executa as notas..., coisas mal contadas por mim. A festa gira em torno da apresentação do Septeto de Vinteuil, personagem que conhecemos pelo talento musical e pelas preferências amorosas e eróticas da filha. Para não contar mal outra vez, transcrevo o texto, mas não resisto à tentação de entabular um diálogo entre colchetes:
“Mas no momento em que eu a imaginava assim a esperar-me em casa [o narrador imagina Albertine, à sua espera].... fui afagado de passagem por uma cariciosa frase familiar e doméstica do septeto [agora, a frase musical vai transportar o narrador a lugares imaginados]. É possível, de tal modo tudo se entrelaça e se superpõe em nossa vida interior – que ela tivesse sido inspirada pelo sono de sua filha – da filha, causa hoje de todas as minhas inquietações – quando esse sono envolvia em doçura, nos tranquilos serões, o trabalho do músico [aqui, eu me encontro também, na frase musical muda e na cena tão cotidiana, de alguém que escreve, estuda, trabalha..., velada pelo sono tranquilo de uma filha que repousa logo ao lado. Esse trecho me emociona], essa frase que me acalmou tanto, pelo mesmo macio fundo de silêncio que enche de paz certas rêveries de Schumann, durante as quais, mesmo quando ‘o Poeta fala’, adivinhamos que a ‘criança dorme’” (p. 214)
“A alegria de certas sonoridades” (p. 215)... A palavra persegue o som, tenta traduções impossíveis. Eu não escuto o Septeto, mas compreendo a língua dos sinais que Proust me apresenta.
Há certas ironias nesse volume como quando o narrador recebe uma carta da mãe, “esta carta de minha mãe fez-me cair na realidade” (p. 311), e não posso deixar de sorrir do fato de a realidade ser apresentada por meio da ficção do texto! Mas a ironia mais fina do volume para mim é a autorreferência ao 2º volume da Busca, refiro-me ao “lado Dostoievski de Madame de Sevigné” (citado em À sombra das raparigas em flor, p. 205) sobre o qual já escrevi[3]. Como o narrador retoma o tema? “Confesso que o que eu disse naquela ocasião era uma sandice” (p. 324). Mas ele continua a brincadeira, contradizendo a “sandice” afirmada, com diálogo entre colchetes:
 “Acontece que a Sra. de Sévigné, como Elstir, como Dostoievski [vejam a mistura entre fictícios e reais!], em vez de apresentar as coisas na ordem lógica, isto é, começando pela causa, nos mostra primeiro o efeito, a ilusão que nos impressiona. [depois de falar da “obsessão” de Dostoievski por assassinatos, o narrador prossegue na ironia] Eu não sou romancista; é possível que os criadores sejam tentados por certas formas de vida que não experimentaram pessoalmente.” (p. 325)
É espetacular! Ironia em camadas também: ridiculariza a associação que construíra, mas prova logo em seguida que ela é pertinente e se identifica como um não romancista, enquanto o romance se escreve. Onde essa análise tão sofisticada é realizada? No quarto, com Albertine nos joelhos do narrador.
Sobre as interdisciplinaridades, o historiador que lê a Busca encontra motivos sobejos de animação. Além do caso Dreyfus que atravessa a obra nas considerações do narrador e dos mais diversos personagens, é possível ver em detalhes as mudanças da sociedade parisiense na época, e mesmo o avião vemos sobrevoar a cidade luz, pelo olhar admirado do casal Marcel e Albertine, justamente no 5º volume! Esse volume também vai agradar aos amantes da boa gastronomia, leitores de À mesa com Proust (como eu[4]), pela sinestesia que propõe: “O que eu gosto nesses alimentos apregoados, é que uma coisa ouvida como uma rapsódia muda de natureza às refeições e se dirige ao paladar” (p. 107). Mas atenção, são superficialidades de enredo, menos no caso da sinestesia.
Para terminar, tem mais abuso nesse volume..., o que são as relações entre Morel, a sobrinha de Jupien e o Barão de Charlus?!? A verdade é que não sou imediatista e com esse texto confirmo mais uma vez que, se o leitor tem o direito de abandonar o livro que está a ler (tem sim!!!)a qualquer momento que desejar, uma história da leitura também deve incluir perseverança. Eu já espalhei aos quatro ventos minhas obtusas preferências de ler os finais dos livros. A ansiedade pelo fim não constitui a minha biografia (eu tenho outras...). Saber tranquiliza e garante uma entrega maior ao texto. Opinião pessoal. Eu sabia que depois d’A Prisioneira viria um’A Fugitiva e isso me animou, deu-me esperança.

A minha elegante edição de 1954!



[1] http://rascunho.com.br/tese-banal/ (acesso em 14 de outubro de 2017)
[2] Sugestão que aparece apontada no livro de Anne Carson.
[4] Procure aqui no blog minhas considerações sobre esse livro de fazer a gente comer com os olhos. 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

À Mesa com Proust é um presente para os olhos!

Pense em um livro que eu adorei ano passado? Esquece. Não sou confiável, a lista é enorme. Mudo a questão. Pense em um livro que eu adorei folhear? Agora sim: À mesa com Proust, de Anne Borrel, Jean-Bernard Naudin e Alain Senderens (Tradução de Ana Luiza Borges, Fernnado Py e Maria Cecpilia d’Egmont. Rio de Janeiro: Sextante, 2013). Fiz questão de nomear os tradutores, pois deve ter sido um desafio..., eufemismo para coisa difícil à beça!
Conheci esse livro pelo de Alain de Botton, Como Proust pode mudar sua vida, lido ano passado[1]. Botton desqualifica o livro de Borrel/Naudin/Senderens e, como escrevi em 2016, só isso seria motivo para eu me interessar! O fato é que quando mais avançávamos na leitura dos volumes de Em busca do tempo perdido no clube do livro, mais meu interesse crescia, entre um banquete e outro, um papo entre amigos militares em um hotel, uma merenda romântica etc. Claro, há ainda minha queda pela cozinha, por receitas e sabores novos.
O livro de Borrel/Naudin/Senderens é um livro presente, no melhor sentido da expressão. Mas é um presente para poucos. Livro caro decerto e totalmente voltado aos leitores de Proust. Anne Borrel, consultora da sociedade dos Amigos de Marcel Proust, não está nem um pouco interessada em demarcar verdades e ficções e, como o protagonista de Em busca do tempo perdido e seu autor têm o mesmo prenome, os leitores que não conhecem o texto, podem achar que quem experimentou a madeleine de revocação foi o recluso escritor... Trechos do romance, sobretudo até o quarto volume, comparecem robustamente entre um comentário minúsculo ou outro dessa “amiga de Proust”. Por causa dela, fui olhar o site desses amigos[2] e descobri que para ser amigo de carteirinha é preciso pagar. Então, serei amiga secreta mesmo.
Anne Borrel faz uma boa seleção de fragmentos do romance. Conhece o texto! Poderia, entretanto, ter se aventurado mais na mediação. Outro dia, copiei em meu perfil do FB um fragmento que adorei, um dos raros momentos em que a mediação de Borrel não se intimida com o monumento. Vale repetir aqui:
"A cozinheira levanta o véu que ocultava mistérios aterradores e implacáveis. O menino os pressente: como a literatura, a cozinha é uma arte violenta, e, para conter essa onda de selvageria, a civilização instituiu um certo número de leis e rituais. Os ornamentos litúrgicos, que cercam metaforicamente o animal cozinhado ao ponto, testemunham a passagem da selvageria primitiva ao 'estado de cultura'. O ritmo inalterável das refeições ordena o desenrolar dos dias e dissimula a crueldade da cozinheira." (p. 30).
Borrel havia acabado de referir a lida de Fraçoise na cozinha, entre aspargos e o sacrifício de um frango. Mas o trecho extrapola aludindo a um processo civilizador cujo palco se estende da cozinha à sala de jantar.
Compreendo Borrel e a reverência a Proust, e talvez esta seja a essência da má vontade de Alain de Botton (reverência a que ele também não está imune. Minha bronca foi essa: para que resistir, assume e vai!). Mas o livro é o que é de verdade porque colaboram nele Jean-Bernard Naudin e Alain Senderens. O primeiro ilustrou À mesa com Monet (quero também!!!) e colabora em revistas de decoração; o segundo é chef prestigiado e responsável pela adaptação das receitas
As fotografias do livro são extraordinárias! Tanto as fotos de cenários recompostos, com mobiliário da época ou inspirado na época em que viveu o autor; quanto de alimentos; paisagens; quadros famosos; até as fotografias da família de Proust, dele mesmo e dos seus amigos, ou melhor, dos amigos que fez enquanto viveu a vida real. Esses documentos são a metade do esplendor de uma obra que faz sonhar. A segunda metade vem do trabalho de Alain Senderens!
As receitas coligidas constituem mais de 25 por cento de À mesa com Proust. Fiquei super curiosa para saber como essa pesquisa foi realizada, conhecer a metodologia mesmo! Imagino Senderens com cadernos de receita da época no seu balcão de chef chique; vejo cardápios das grandes casas espalhados; livros de cozinha pelo chão; listas de compras de hotéis; preços... Mas nada disso está explícito. Há uma bibliografia com letra minúscula e desinteressante no final do livro. Você vai dizer: Marcella, curte o livro e para com essa de metodologia... Mas, veja bem, meu bem, sinto lhe informar[3]... rsrsrs, que eu curto mais quando ganho corda. Faltou.
Folheando a obra, em uma foto, descobri ainda a pintora Madeleine Lemaire da qual nunca tinha ouvido falar. Era amiga de Proust! Das íntimas, com todo respeito. Ela viveu no mesmo contexto em que os badalados impressionistas de nossos livros de história da arte escolares produziram. São Google me mostrou que Lemaire merecia páginas e páginas dos meus manuais. Fiquei hipnotizada pelas suas flores, pelos seus nus e pelas suas mulheres que descansam depois dos bailes da vida... À mesa com Proust, sentam-se convidados talentosos de quem conhecemos pouco por razões dificilmente sustentáveis hoje. À mesa, um presente.
Fui com meu livro às compras para a ceia de Natal. Fui com meu livro para a cozinha e fiz o Daube de Boeuf, reconstituído por Alain Senderens. Escrevi no meu perfil do FB, no alto da minha animação ainda não etílica, que comida que se finaliza com bouquet (no caso bouquet garni) é coisa especial... Há mais, porém. Comida que precisa de mais de 24 horas para ficar pronta desafia o tempo e só Proust para nos fazer reencontrar as prioridades!
À mesa com Proust é um extraordinário livro presente e me foi dado como presente, pela minha aluna Morgana Kwaczynski (espero ter escrito certo seu sobrenome, conferi 3 vezes...). Não sei em que momento em sala de aula eu descaradamente mencionei o quanto sonhava ter esse livro, só sei que ela fisgou minha falta de vergonha e a transformou em um gesto amoroso, no último dia de nossa disciplina, sem nenhuma pretensão de ajudinha na nota, afinal aluna excelente e não precisada dessas desconfianças. Morgana, esse texto é para você, não um presente, uma lembrancinha.
Sobre a minha mesa...: o livro e a caixa de madeleines que ganhei dos meus alunos

Bouquet garni!

Eu e Maria Clara compartilhando mais uma paixão...




[1] Remeto o leitor à minha resenha: “Um livro legal, mas que terminou esnobe, seguido de CONVITE!”, em http://literistorias.blogspot.com.br/2016/02/um-livro-legal-mas-que-terminou-esnobe.html
[3] Versos de “Veja bem, meu bem” de Ney Matogrosso. 

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Hum... Nasce uma estrela!

Nesse outubro que finda hoje, nos dias 18, no Rio de Janeiro, e 25, em Curitiba, o Diretor da Hum Publicações FRANCISCO SOUSA nos deu a conhecer a sua coleção Mediações. Trata-se de sete livros entre 50 e 80 páginas em que a leitura é a estrela principal. Assinam as sete obras especialistas nessa astronomia: Eliana Yunes (Professor leitor: uma aprendizagem e seus prazeres); Alessandro Rocha (Formação de mediadores de leitura: o sentido entre o texto e seu leitor); Maria Clara Cavalcanti (Formação do leitor: uma questão de jardinagem); Gilda Maria Richa de Carvalho e Thatty Castello Branco (Leitura no trabalho: destravando línguas, olhares, pensamentos); Rosana Kohl Bines (Que histórias contar para os filhos); Rubén Pérez-Buendía (Roteiros de leitura na escola: da biblioteca escolar à sala de aula) e Marta Morais da Costa (Hoje se lê o espetáculo? Lê, sim, senhor!). Dia 25 de outubro, estive no charmoso Marbô Bakery para abraçar bem apertado o meu querido Francisco, ex-aluno e página de um dos meus livros[1], e minha amiga, Profa. Marta Morais da Costa, que há muitos anos atrás me deu um emprego que larguei depois. Deixei o emprego, mas ela... Comprei minha coleção, ganhei autógrafo e comprei um volume em separado para dar de presente à Professora da Clarinha. De quebra, abracei meus queridos Jeferson Freitas, Juliana Sanson, Júlio Röcker, Jurema Ortiz, em ordem alfabética para não despertar ciúmes – minha biografia é cheia de Js! – e Luiz Lucena.
Passei a semana envolvida com muitas leituras, mas não resisti ao convite de dois volumes em especial: o de Rosana Bines, pelo título atraente, e o da amiga Profa. Marta, pelas razões do coração.
Que histórias contar para os filhos? se abre com um aparente paradoxo: “não importa tanto o livro que se tem em mãos” (p. 10), mas quer falar mesmo das histórias que enfeitiçam pelo seu potencial sonoro. A experiência da autora no Instituto Benjamin Constant é evocada desde a dedicatória, parece ter sido a sua inspiração. O livro está organizado em faixas (como em um disco) e para uma historiadora que reflete sempre a respeito da apresentação da pesquisa histórica, achei genial a sintonia! Sobre o aparente paradoxo, ele é desmontado na alusão à cena de leitura e quem lê para as crianças em casa sabe o quanto a cena é importante: o aconchego, o tom da voz, o ritmo, o encadeamento entre uma história e outra... Eu confesso, porém, que quando li esse “não importa tanto”, lembrei de imediato (e com graça) de quando a Clarinha era bem pequena e eu às vezes lia os textos historiográficos e filosóficos de minha necessidade para ela, como quem conta Fada Cisco quase nada[2]... Estou imaginando o “horror” dos que me leem agora: eu, a mãe absurda, a impor à minha pobre criança os densos conteúdos da falsafa, das cruzadas, da peste negra, na hora de ninar!!!!! A verdade é que eu tenho sempre muito a ler e tenho sempre muito de estar com ela, portanto: “Com nossos filhos por perto, como não fazer deles o alvo de nossos afagos e afetos?” (p. 30). Mas um dia, ela começou a entender que, em algumas noites em que eu parecia ainda mais atarefada, o enredo lido não tinha nada a ver com as aventuras de Babel e Pepe[3], aí eu tirei o Averróis de seu quarto.
Rosana Kohl Bines compartilha com os leitores a seleção que mora em sua bolsa amarela[4], fundada do potencial sonoro das histórias e isso faz com que a obra seja muito generosa para professores que acreditam nesse potencial e gostariam de ampliar o próprio repertório. Algumas dessas histórias eu conhecia e outras eu experimentei com a Maria Clara na semana que passou, nós duas pela primeira vez. Hum..., uma delícia!
Há um momento muito especial do texto em que a autora afirma: “E nunca é demais lembrar que quem lê em voz alta é também ouvinte das histórias que conta e habitante das paisagens sonoras que delas emanam” (p. 61). O que Rosana quer dizer com isso? Que o prazer visado (o desejo de afetar as crianças) se engrandece no inesperado contentamento de ouvir a própria voz contadora. O movimento de dar e receber é sempre a essência da felicidade no amor.
Em Hoje se lê o espetáculo? Lê, sim, senhor!, Marta Morais da Costa não dá bola para a dificuldade (que, entretanto, reconhece existir)de se propor a leitura do texto dramático aos leitores aprendizes, isto porque no exercício do magistério constatou que, superada a falta de familiaridade inicial, a sensação de vitória – “Ah, agora entendi!” (p. 10) compensava todo o resto. Mas qual é o sentido dessa vitória? A conquista de um prêmio pontual?
A tarefa da leitura decodificadora do texto dramático é, portanto, mais atribulada e de maior exigência das capacidades do leitor: para que a interpretação possa se formar com qualidade, ele deverá construir e acionar imagens mentais complexas. Ele precisa criar um espetáculo mental, uma representação teatral ao mesmo tempo em que procede, como na leitura dos demais gêneros textuais, às ações de previsão, de relação, de confrontação, de ajuste, de confirmação ou de alteração de seu horizonte de expectativas (p. 22). 

A leitura do texto dramático, portanto, colabora de forma muito particular para o amadurecimento do leitor e um ótimo exemplo vem quatro páginas depois do trecho acima citado, quando a autora pede aos seus leitores que “embarquem” na proposta de colocar-se na posição de testemunha de uma cena de amor, de um acidente ou de uma aula: “cada um dos participantes tem sua fala, sua dose de emoção, seu ponto de vista” (p. 26). Há um saber muito importante, profundo e necessário que mora entre a consciência dos múltiplos pontos de vista e tudo o que o texto dramático proporciona: a possibilidade de experimentar ver a vida de vários ângulos diferentes ou de colocar-se “simplesmente” no lugar dos outros, como preferirem!
Os planos simultâneos que o texto dramático descortina, ou seja, “ao mesmo tempo[5] alguns personagens jogam cartas, outros duelam e outros, ainda, namoram” (p. 32), fortalecem de forma lúdica a empatia. Enquanto eu lia esse trecho, evocava outra Martha(minha vida é cheia delas!), a Nussbaum, de Sem fins lucrativos[6]:
As escolas são apenas uma das influências sobre a mente e o coração em formação da criança. Grande parte da tarefa de superar o narcisismo e desenvolver a preocupação com os outros tem de ser feita dentro da família; além disso, os relacionamentos no interior da cultura de iguais também desempenham um papel influente. (NUSSBAUM, p. 45).

Precisamos ler mais textos dramáticos em casa. Envolver as crianças nessa multiplicidade de planos simultâneos para a fruição decerto e sobretudo, mas também para ver mais e melhor os outros. Cada um pode ser um personagem, depois trocamos e experimentamos ser outros, em casa com os nossos!
Marta Morais da Costa afirma que no texto dramático, “o personagem é garantia da unidade do relato” (p. 56). Isso significa que para não se perder, é preciso seguir as pegadas dessa pessoa que mora no texto e anima o palco, ter atenção a todos os seus gestos! E sem que eu tivesse temido “forçar a barra”, ela mesma resolveu a minha timidez:
o que sabemos sobre as pessoas? Para conhecê-las é preciso, aos poucos e a partir de atos, conversas e relatos de outras pessoas, construir uma ideia sobre esse ser humano. Mesmo assim, continuará a haver lacunas, falhas e imperfeição no retrato que faremos de alguém (p. 58)

Há muita sintonia entre a obra de Rosana Kohl Bines e Marta Morais da Costa. Nussbaum parece pensar como nós: “As histórias aprendidas na infância tornam-se elementos poderosos do mundo que habitamos como adultos” (NUSSBAUM, p. 36). Levando-se em conta as histórias propriamente ditas, a surpresa da própria voz, a importância das cenas e a vivência da multiplicidade de personagens, essas primeiras meditações que escolhi ler pelo título e pelo coração me fizeram pensar no estranho fenômeno de ter confundido o título da coleção Mediações com Meditações... 

Para quem quiser conhecer a coleção:
·        http://colecaomediacoes.com.br/
·        https://www.facebook.com/hum.publicacoes/


Epílogo: quem leu esse texto na 2a, dia 31/10, percebeu que eu confundi os títulos e que chamei o tempo todo a coleção pelo gênero de "caderno de notas" de Marco Aurélio... Estranhos fenômenos de leitura!



[1] O rosto bonito e franco de Francisco é a página 17 do volume 4 (1º semestre) do Livro das coisas para guardar: Histórias para conhecer, da solução educacional Tempo, assinado por mim e publicado pela Ed. Positivo, em 2013.
[2] De Sylvia Orthof, ilustrado por Eva Furnari.
[3] De Um Gato marinheiro de Roseana Murray, ilustrado por Elisabeth Teixeira.
[4] Referência ao clássico de Lígia Bojunga.
[5] O destaque é do texto de Marta.
[6] Em 5 de outubro de 2016, publiquei aqui no blog um texto sobre a MP do Ensino Médio: http://literistorias.blogspot.com.br/2016/10/tenho-uma-ou-duas-palavras-dizer-sobre.html em que me referi sobejamente à obra de Martha Nussbaum. É um livro que vale muito a pena ler! 

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A 3a visão ou sobre como emprestar livros pode ser surpreendente!

Como muitos da minha geração, também li essa obra que foi best-seller nos anos 70 em Portugal e que dava pelo nome de A 3ª Visão. Da autoria de um real, ou ficcionado, monge tibetano refugiado no Ocidente, de nome Lobsang Rampa.
Esta obra, juntamente com outras, como Viagem ao Mundo da Droga, Siddartha, A Erva do Diabo, O Despertar dos Mágicos e História Desconhecida dos Homens fazia parte do conjunto de obras míticas de referência dos adolescentes de então, e que quase ritualmente os liam, comentavam, discutiam e faziam circular. E que, de alguma forma, também contribuíam para enformar as suas visões do mundo envolvente.
Li esse livro pela primeira vez por empréstimo de algum amigo, e só mais tarde vim a adquiri-lo.
Mas por causa desse tácito acordo de empréstimos que fazia circular os livros, a obra não ficou comigo por muito tempo. Emprestei-o. O amigo a quem o emprestara foi, algum tempo depois, visitar uns conhecidos seus, e acabou por lá deixar o livro por uns dias para que o lessem, e da próxima vez que lá voltasse, trá-lo-ia.
Só que essas pessoas acabaram por se ausentar por largo período para o estrangeiro, e perdeu-se o rasto do livro.
Era esse geralmente o destino dos livros. Eu juntei várias obras que me tinham chegado por empréstimo ou cadeias de empréstimos sucessivos, assim como perdi outros quantos pelo mesmo processo.
Há pouco tempo, estando a minha mulher a arrumar umas malas de coisas suas em que já não mexia havia muito, encontrou um saco com livros dos quais estava a pensar desfazer-se, pois já não lhe interessavam.
Encontrei-a nessa tarefa, e descobri, entre os livros que lá tinha, um exemplar d’ A 3ª Visão.
Contou-me que o tinha havia anos, embora nunca o tivesse lido. Tinha-o emprestado várias vezes, mas sempre se preocupara que lho devolvessem, nunca se tendo desfeito dele. Ali estava ele, na minha mão, a provar esse zelo sem nenhuma razão consciente.
Folheava-o, enquanto ela me contava toda essa sua relação inconsciente com aquele livro, quando, chegando à última página, por uma lista escrita a lápis nessa mesma página, descubro que aquele livro era o MEU LIVRO, perdido há quase vinte anos.
Depois de eu ter contado como o perdera, e de ela ter referido onde e como o encontrara, demos com o ponto de ligação: ela fora viver para a casa de onde tinham saído as pessoas conhecidas do meu amigo que tinham ido para o estrangeiro. O livro, abandonado ou esquecido, lá ficara. A rapariga que depois veio a ser minha esposa recolheu-o e não mais se separou dele.
Sem ela mesmo saber porquê. Até ele voltar à minha mão.

Terá havido em tudo isto, 3ª visão ?


António Rei

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

A primeira resenha do romance Menina com brinco de folha

Prólogo:
Outro dia, recebi por e-mail uma leitura muito afetiva do meu livro Menina com brinco de folha. Pedi à autora do texto para publicar aqui no blog. Ela deixou!

Menina com brinco de folha

     Engana-se quem pensa que folhas caem! Elas deslizam no ar buscando um repouso, ora perdido já que a árvore as libertou. As folhas podem se acomodar no chão e, então, serem contempladas pelos que admiram suas mudanças de tons, ou pisoteadas pelas crianças que se divertem com os ruídos das folhas secas, que soltam gar-galhadas. Às vezes, porém, são varridas, sem graça nenhuma. Outras folhas, também, podem virar livros, brincos e coleção. E foram essas que deslizaram sob meus olhos quando li Menina com brinco de folha, de Marcella Lopes Guimarães.
     O livro me conquistou criança. Criança que tem curiosidade sobre as pessoas, sobre as palavras, sobre as formas. Criança que descobre o que é a saudade, o que é a perda, o que é a leitura. E é nessa dança entre curiosidade e descoberta que o personagem menino – cujo nome a autora deixa a cargo do leitor, o qual, distraidamente, nem sente sua falta e, em um primeiro momento, pode considerar qualquer menino, mas diante do “o” consegue enxergá-lo como o personagem do livro sem perdê-lo narrativa adentro – encontra nas folhas o caminho da amizade e, consequentemente, da saudade da menina – também sem nome, mas com a propriedade “com brinco de folha” que a destaca como a amiga especial, dentre os colegas do menino.                                                                                                 
     Também me conquistou adulta. Adulta que, por vezes, busca o ponto de vista da criança para lembrar-se de suas memórias. As reflexões do menino sobre a perda e a saudade, embaladas na voz do narrador, são para nós um acalanto. Compreendemos muito bem o que é voltar a ser menina, após um abraço de vó. Lembramo-nos do que é ficar triste quando chegam as férias – algo que hoje, para nós, é um alívio esperado. Voltamos a prestar atenção em coisas que, por vezes, nós varremos, sem graça nenhuma. Enfim, por isso, Menina com brinco de folha também é um livro para adultos, uma vez que nos provoca a ver o mundo de outra forma, aquela que deixou um rastro que guardamos e, às vezes, esquecemos e precisa ser recuperado com um livro.
     Entretanto, sobretudo, o livro me encantou linguista. A autora brinca com a descoberta dos significados das palavras pelas crianças. Mas não só com essa descoberta como também com a capacidade das crianças as ressignificarem. Basta observar o que o menino faz com a inspiração e com a ciência (não contarei aqui para não interferir na leitura). Em alguns momentos, o jogo com as palavras vira estratégia de retomada de referentes destacados da história e, dessa forma, de condução da narrativa. E é isso que destaca a obra, entre outras produzidas para crianças. Marcella não segue a tendência de adaptar a linguagem para “ensinar” a criança-leitora, mas sim busca diferentes formas para provocá-la, em outras palavras, para mostrar à criança do que a linguagem é capaz e o que nós, falantes, somos capazes de fazer com a linguagem.
     Menina com brinco de folha é o primeiro livro infantil publicado pela autora. Embora já tenha publicado tantos outros, é com este que Marcella acrescenta ao conjunto de sua obra, que lhe faz historiadora, medievalista, crítica literária, professora, contista (esqueci algum?), a graça da mãe e da menina – que recebeu o prêmio da editora EDUFES com o mesmo entusiasmo e surpresa que o menino, quando encontrou a menina na praia durante as férias.
     E é com esses encantos que, no livro, Marcella trata da amizade, do amor, da história, do futuro, do tempo. Ops! Já li isso em algum lugar... No Diálogo sobre o tempo, a autora debate sobre esses temas, enquanto aqui ela os coloca numa narrativa infantil. E (provocando-te, Marcella), embora o livro anterior tenha sido um diálogo, Menina com brinco de folha está mais vivo! Depois dessa, vocês podem pensar que conheço Marcella de perto. Engano. A conheço de verbo (ou de inspiração). Logo, recomendo: a leitura das duas obras. São pontos de vistas diferentes, sensações diferentes, sobre os temas mencionados. Nesse sentido, não me admiraria encontrar o livro da menina, que leitores criteriosos premiaram como livro infantil, numa prateleira de livros para adultos. Ou sem classificação alguma. Afinal, o tempo e as folhas pairam e repousam sobre todas as idades.
Denise Mazocco


Epílogo:
Quem é Denise Mazocco?
Denise Miotto Mazocco é formada em Letras (PUCPR) e em História (UFPR); é Mestra em Letras (UFPR) e faz Doutorado na mesma área (UFPR). Foi minha aluna na UFPR, brilhante aluna! É já uma contista de mão cheia e toca o blog prosadomingueira, em que compartilha mostras do seu talento: https://prosadomingueira.wordpress.com/
Participa do clube do livro, consagrado à leitura de Em busca do tempo perdido de Marcel Proust, e atua como Professora de Língua Portuguesa na UTFPR.


Ainda não fizemos o lançamento do livro em Curitiba... Mas quem não puder esperar rsrsrsrs, pode adquirir o livro pelo site da editora (como Denise Mazocco fez!): http://www.edufes.ufes.br/items/show/382

Denise Mazocco sendo menina com brinco de folha... 

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Um clube do livro em Marechal Cândido Rondon - relato de experiência

Prólogo meu:
Eu sonho com um mundo em que a gente se encontre mais para falar sobre livros. Sonho com reuniões familiares sem cobranças ou evocações das piores memórias, mal temperadas com a superioridade do que se viveu de melhor, para falar de poesia! Sonho com reuniões de amigos, com vinho e palavras, e que a embriaguez seja a das palavras para que juntos continuemos a sentir todos os gostos. Sonho em me sentar com as pessoas favoritas, sejam elas aquelas com quem por acaso compartilho o DNA, sejam as que juro que se um dia a medicina for exata vai descobrir que o parentesco é de fato afetividade, para trocar opiniões sobre vidas que vivemos quase mais intensamente porque as lemos.
É porque animo um clube do livro e já escrevi nesse blog alguns textos sobre essa experiência, que pedi a uma amiga para escrever sobre o clube de que ela participa, na tentativa de animar ainda mais gente a ser íntimo de personagens e a querer se reunir com pessoas especiais para trocar essas intimidades!...

Nosso Clube de Leitura

M. Petit afirma que: “Fenômeno antigo, muito presente no mundo anglo-saxônico no século XIX, os clubes de leitura tiveram, durante algum tempo, uma imagem obsoleta. Interessavam pouco aos pesquisadores, com raras exceções. A partir dos anos 1990, contudo, eles se multiplicaram em vários países e havia centenas, milhares, na Inglaterra, e outros milhares nos Estados Unidos. Hoje são atores influentes com os quais as edições e o comércio do livro devem contar. Longe de frear o seu progresso, o uso da internet o ajudou. Nos países de língua inglesa, esses clubes reúnem muito mais mulheres do que homens; dois terços delas têm mais de quarenta anos e, na maioria das vezes, fizeram curso superior. Reúnem-se em diferentes lugares, privados e às vezes públicos, especialmente em bibliotecas”. (Petit, M. A arte de ler ou como resistir à adversidade. São Paulo: Editora 34, 2009 p.61).
O ano de 2015 foi um momento de importantes aprendizados em relação a minha vida pessoal e profissional. Estava terminando minha tese de doutorado em História Medieval, e ao mesmo tempo lecionava, em diferentes instituições, História da Literatura, História do Cinema e História da Arte. Temas, aliás, que adoro em todos os sentidos. No preparo de uma dessas aulas, acabei assistindo ao filme “O Clube de Leitura de Jane Austen”, e não deixei de ficar empolgada com a ideia de, um dia, tentar organizar ou fazer parte de um clube da leitura. Me interessava a ideia de poder conversar sobre obras que havia lido recentemente; obras, preciso destacar, que especialmente  consideravam questões relacionadas ao universo feminino, aos sentimentos que todas nós compartilhamos. Jane Austen, Tolstoi, Balzac... São apenas alguns dos autores que me fascinavam. Essa motivação se deve, em parte, às importantes presenças femininas que tive em minha vida. Mulheres que, sem dúvida, foram grandes inspirações para o que me tornei hoje! Na minha família, tive a importante presença de minha avó, Anna, ao longo de minha infância. Ela, justamente com minha mãe, Ana, superaram as dificuldades e sozinhas cuidaram de minha formação, sempre com muito carinho. Hoje, mesmo “crescida”, ganhei os cuidados de uma segunda mãe, Aldeci, irmãs, Cinthia e Viviane, todas de coração. Minhas amigas de Universidade, Janira, Ana Paula, Ana Luiza, também não podem ser esquecidas, pois com o apoio delas também superei as dificuldades da formação superior. E claro, minhas queridas professoras, Marcella e Fátima, são como exemplos em todos os sentidos, para sempre. Sou, graças a Deus, cercada por mulheres de bom coração! Diferentes entre si, mas cada uma especial ao seu modo.
Bom, por motivos de trabalho, acabei saindo de Curitiba ao final de 2015, indo morar com o meu esposo em uma pequena cidade do interior do Paraná, Marechal Cândido Rondon. Não esperava que fosse tão bem recebida, por novos amigos e amigas. Novas mulheres, portanto, entraram na minha vida! Inicialmente conheci a Fran, que me recepcionou com muito carinho nesta nova etapa da minha vida. Pouco tempo depois, tive a alegria de conhecer a Micheli.  E nosso grupo de amigas foi aumentando, com a chegada das queridas Luciélen e Natania, esta última recentemente. Cada uma de nós possui atividades profissionais diferentes e temos nossas próprias experiências como mulheres no cotidiano. Então, foi no começo de 2016 que lancei a proposta de um clube do livro, dentro de uma conversa informal com a Fran, a Micheli e a Luciélen. Contei um pouco das minhas experiências com leituras relacionadas ao feminino, e todas toparam participar! Nossa dinâmica é a seguinte: cada mulher sugere um livro que gostaria de debater, dentro do tema relacionado ao feminino. Cada encontro é realizado em uma casa diferente, e aproveitamos o momento para conversar e assistir a algum filme relacionado à leitura que realizamos. Dentre as leituras que já realizamos, temos “As mulheres que correm com os lobos”, de Clarissa Pinkola Estés, e “Minha Vida na França”, de Julia Child. Percorremos ainda os caminhos de “Budapeste”, de Chico Buarque; “Emma”, de Jane Austen; “Tomates Verdes Fritos”, de Fannie Flag; as poesias de Fabrício Carpinejar; “O Físico”, de Noah Gordon; o relato autobiográfico de “Malala”; “Último Catão”, de Matilde Asensi; “Americanah”, de Chimamanda Ngozi Adichie; “O Conto da Aia”, de Margaret Atwood; e “Como ser Mulher”, de Caitlin Moran. A nossa lista continuará a crescer, com certeza! Reafirmo que a oportunidade de estar em um clube do livro é enriquecedora, e cada vez mais sinto que estamos trilhando um caminho de aprendizado. Espero, também, que este meu sucinto relato sirva de inspiração para que novos clubes do livro surjam, contribuindo para a discussão de antigas e novas questões, sobre a vida e o nosso mundo, entre familiares e amigos. A literatura, como sempre, despertando os nossos sentidos e emoções, o espírito dentro de cada um de nós. Por fim, agradeço às meninas com quem compartilho essa experiência, Fran, Mi, Lu e Natania, por todas as nossas conversas e por nossa feliz amizade. 
Eu Amo todas as mulheres de minha vida!

Elaine Cristina Senko
Marechal Cândido Rondon, 20 de julho de 2016

Epílogo meu:

Quem é Elaine Cristina Senko?

Elaine Cristina Senko é formada em História (UFPR), Mestra em História (UFPR) e Doutora em História (UFPR). Conheço seu CV muito bem, afinal estive com ela em todas essas titulações, na condição de orientadora. Em todos esses anos, vivi a minha condição mais com amizade que com rigor, pois o rigor dela bastava para nós duas! Elaine me acostumou mal, suas grandes virtudes ditaram em boa parte o que eu espero dos meus orientandos..., ou seja, ela me educou! Um dia, deixou Curitiba e foi para Marechal Cândido Rondon (PR). Está feliz da vida lá! Parte dessa felicidade tem a ver com o fato de rapidamente ter se encontrado no trabalho e com novos amigos. Pois não é que, curiosa e interessada, ela se envolveu em um clube do livro?! Quando eu descobri, pedi a ela que escrevesse sobre a experiência. Ela não perdeu a prática de me acostumar mal, entregou o texto antes do prazo que lhe dei e ainda por cima no DIA DO AMIGO!

Quem quiser dar uma olhada nas coisas interessantes que ela já escreveu, visite:

Elaine também é blogueira: http://profelainesenko.blogspot.com.br/


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Nem tão divertido assim... – aos meu ex-alunos com amor; aos futuros, com esperança

Outro dia li na timeline de uma ótima aluna um texto sobre como a universidade matou a “motivação” de alguém que se disse “empolgado, motivado e ansioso por todas as oportunidades que estão por vir”, quando adentrou a sublime porta. O texto não fora escrito por ela, foi compartilhado do blog desse “desmotivado”. Eu segui a leitura até o fim, manifestei minha opinião para minha aluna e continuei a pensar. Não farei uma réplica ao autor, porque minha reflexão me levou a outros lugares.
Desde que eu dava aulas para a antiga 5ª série (há 18 anos atrás e por 8 anos), eu venho me perguntando quando nós professores passamos a querer ser “animadores”. Felizmente, nunca me obrigaram a sê-lo, mas muitas vezes eu sentia o fantasma do “gostosinho” e do “divertido” me assombrar. Como todo mundo sabe, eu tenho uma carreira dividida, dei aulas de Literatura, e sempre disse a meus alunos que eles não precisavam de mim para ler Harry Potter, que eles deviam ler o que quisessem (!), mas que eu estava ali, na frente deles, para ajudá-los a diversificar as suas escolhas, ou seja, eu estava ali como uma espécie de “guia de viagens”. Há 18 anos atrás e por 8 anos isso funcionou, pelo menos eu acho... A convicção que eu tinha/tenho, a confiança da instituição e dos pais em mim me ajudaram a não ter nenhum pudor de propor a leitura de Guy de Maupassant a meus alunos da antiga 6ª série.
Mas vira e mexe, lá estava o “divertido” a me perturbar... Alguém pode me dizer que eu não sei me divertir, por isso martirizava meus alunos com leituras indecifráveis. Na verdade, não há enigmas indecifráveis, há a solidão e eu sempre quis caminhar junto. Na verdade também, nunca escondi que para ler o Maupassant a gente tinha de se esforçar e eu acho que está aí a essência da questão.
Nós, professores, vivemos em um contexto que temos medo de propor o esforço aos nossos alunos. Temos motivo! Viramos personagens de crônicas policiais... Mas, e posso estar enganada, parte daquela falta de motivação a que se referia o rapaz do blog tem a ver com o fato de que tudo hoje tem de ser muito divertido e imediato!
Outro dia, varrendo a sala de casa, ouvi o diálogo entre 2 personagens de um filme: um deles não queria ser professor, mas acabou sendo, e a outra personagem era a “professora que ajuda e que se apaixona pelo professor ‘por acaso’”. Pois bem, quando ele perguntou o que deveria fazer, ela disse: “torne tudo divertido!”. Abandonei a minha sala e fui varrer a cozinha.
Então, as aulas devem ser cheias de efeitos especiais, as apostilas muito legais e os professores tão descolados que eu não sei mais o que vestir! Caramba, eu nem pinto cabelo! Mas a verdade é que estudar nem sempre é tão divertido assim. É preciso dedicar-se; é preciso fazer exercícios; escrever; aprender línguas (até língua que ninguém mais fala...); calcular; pesquisar e lidar com frustrações e com limites (do conhecimento, da gente naquele momento e dos nossos recursos). Às vezes, é preciso sair menos, beber menos e namorar menos. Nossa, que horror!
Quando meus alunos declaram me admirar, eu fico feliz, mas tenho muito medo. Eles não sabem da missa a metade... Muitos não sabem, por exemplo, que eu não tinha dinheiro para o almoço na faculdade e que eu obviamente assisti a muitas aulas com fome; que eu aceitava a oferta de uma querida amiga para dormir no colchonete de seu alojamento para economizar na passagem, afinal eu tinha de tirar xerox (!). O martírio um dia acabou, ganhei bolsa, passei a almoçar muito bem, obrigada, e fiquei em plenas condições de me esforçar mais! Conheci gente que não conseguiu bolsa e continuou a se esforçar muito.
Aprender muda a gente de lugar e nem sempre (quase nunca...) estamos preparados. É “terrível”, mas nem sempre (quase nunca) temos repertório para discutir currículo, decidir o que precisa ser estudado, até porque nem sempre estamos muito certos de que a escolha feita é “para a vida toda” e vai descobrir que não precisa ser... Olha eu aqui!!! Acontece de a gente não enxergar o vínculo do que se estuda naquele momento com a vida e isso, simplesmente, porque às vezes a gente é muito jovem (eu menos...) e ainda não viveu tudo (eu também!). Que bom!
Eu li um texto na Timeline de outra ótima aluna (não escrito por ela também. Eu leio o que vocês compartilham!!! Há! Há! Há!) que falava da frustração do autor de não ter comprado uma casa ou um carro, escrito um livro aos 25 anos!... Lá pelas tantas o texto fala que “tudo bem”, afinal “a gente se cobra demais”. Espera aí, a gente tem de se cobrar, o nosso problema é que não fazemos cobranças sensatas!
Eu fugi do assunto? Não. Para mim, esforço e cobrança são coisas relacionáveis, elas são atravessadas pelo tempo e nesse sentido eu convido: “dá para esperar um pouco?!”. Quando a minha primeira nota de Latim na Faculdade chegou, eu quase desmaiei, 55... Outra vez: 55 (cinquenta e cinco). Depois de 2 anos, a minha última nota de Latim foi 100. Outra vez: 2 ANOS! Eu estudo francês há 10 anos e tenho imensas dúvidas... Planejo começar estudar occitano daqui a uns 4 anos. Estarei pronta?!

No final do mês, entrarei em sala à tarde e à noite para dar aulas às pessoas mais empolgadas, motivadas e ansiosas por todas as oportunidades que estão por vir, os calouros. Eu não sou animadora... e o que vai acontecer? Sem promessas e, ainda sim, eu vou me divertir ... Ops!