terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Filmes românticos de Natal para os românticos incuráveis

Abandone as redes sociais e estique-se no sofá por 90 minutinhos. Um certo canal de TV por assinatura anunciou “24 dias cheios de Natal”, ou seja, 24 horas de filmes românticos de Natal em 24 dias. Um prato cheio para os cinéfilos românticos. Presente! Como eu passei metade do mês fazendo de tudo um pouco, raramente consegui ver os filmes todos de uma vez. Mas o canal não prometeu 24 horas de filmes inéditos, então eu me beneficiei das inumeráveis repetições e posso anunciar com certo orgulho que, em 16 dias loucos de tarefas, consegui ver 12 filmes românticos de Natal!!!!!
Um cinéfilo romântico é só um romântico incurável que ama filmes do gênero: alguém que quer avisar o casal quando o equívoco se apresenta; que torce por eles; que não perdoa quem atravessa a cena do primeiro beijo; que suspira internamente quando o ambiente é hostil, ou seja, quando há outras pessoas na sala... Junte tudo isso ao Natal e parece que os problemas, as crises, as decepções são lavados pela neve ininterrupta na tela: neve que eu ou você de fato nunca sentimos no rosto.
O mês de dezembro na nossa Curitiba tem nos dado dias frios: convidativos para um casaquinho e uma coberta. O verão degenerado predispõe o corpo para sentar diante da TV. A filha aprendeu a fazer cookies e eu senti vontade até de preparar chocolate quente! A filha (ainda) detesta os filmes românticos de Natal, pode ser que nunca aprecie ou pode ser só a timidez da pré-adolescência. Na minha, eu escondia bem, mas aos 45 já saí do armário faz tempo!
O melhor de assumir a cafonice é saber que a gente também não abre mão de achar sumamente tosco o rapaz estar pensando na vida ou na morte da bezerra, no meio da rua, debaixo de uma nevasca, com o presentinho que ganhou da moça, e encontrar o patrão para quem ele mentiu metade do filme e que lhe dá, entretanto, uma promoção! Trata-se de “Aplicativo para o Natal”, um tinder para solteiros e solteiras que precisam de companhia em eventos, sem que isso implique romance ou sexo. Ah, antes que você se assanhe, devo esclarecer que não há sexo em filmes românticos de Natal. Temos direito a apenas um beijo no final, no máximo 2: beijinho ou beijinhos muito corretos.
Tem singeleza exagerada nos filmes românticos de Natal, mas isso não refreia o cinéfilo romântico. Na verdade, a gente acha até bonitinho..., é como ter um pinguim bebê na geladeira. Esse texto não julga as (inúmeras) arestas do gênero. Na verdade, enquanto via esses filmes curtinhos (em média 90 min.) e feitos para TV, comecei a pensar nas várias coisas que eles me diziam e achei que isso merecia duas ou três considerações. Se ao final do texto, você não julgar que elas bastam ao menos para um bate papo antes da ceia, pode ao menos não julgar repulsivo alguém que se senta uns 15 minutos (ou mais...) para assistir com o coração na mão a confissão de Candace para a cidade toda, de ter duas mãos esquerdas, enquanto sua mãe é uma espécie de Martha Stewart!!!
 Em 11 dos 12 filmes que vi, encontrei mulheres assoberbadas: comissárias de bordo (Conexão de Natal), escritoras (Uma viagem de Natal), arquitetas (Flores de Natal), empresárias (Um Natal de Cinderela, Aplicativo para o Natal, À Procura de um Papai Noel), atrizes de sucesso (Natal fora de casa), produtoras de TV (Estrada para o Natal), atendentes (12 dias de presentes) e decoradoras (De repente noiva). Decoradoras me lembram Doris Day em “Confidências à meia noite”, filme que eu adorava ver nos finais dos anos com o meu pai. Essas mulheres são boas filhas, superaram em muito as expectativas de suas famílias e, ainda que algumas vezes tenham dúvidas sobre isso, o pai, ou a mãe ou um amigo muito próximo vai esclarecer que elas são demais! Obrigada, roteiristas amáveis.
Essas mulheres – na maior parte dos filmes são elas as protagonistas – não estão procurando um namorado. Elas estão cheias de planos não românticos, elas conhecem o mundo, têm fotos de vários lugares em que já estiveram, mas o amor atravessa a sua vida e ele faz com que elas achem o caminho de volta. Ulisses de saias! Também acham um jeito de acolher o amor na sua vida ocupada. Homens e mulheres se encontram. Eles se veem, reparam nas singularidades um do outro, eles se apaixonam.
Em 11 dos 12 dos filmes, há crianças. Elas têm entre 7 e 10 anos. São meninas e meninos, sobrinhos e sobrinhas, filhas e filhos de viúvos, uma viúva e um divorciado. As crianças são fundamentais, elas mobilizam o “espírito de Natal”. Elas creem em Papai Noel, fazem questão da decoração, espalham a sua pureza pelos quatro cantos onde se agitam adultos engajados nas festividades. Não raro as crianças colaboram para o namoro dos pais: “Conexão de Natal”, “Natal fora de casa”, “12 dias de presentes” e “Uma viagem de Natal”. Em “Um Romance de Natal”, trata-se do romance do tio da criança.
As famílias são todas de mamãe, papai, vovô, vovó, filhos e filhas. Não há duas mães ou dois pais sob o mesmo teto. O rapaz de “Aplicativo para o Natal” é bonitão, mas, se eu fosse a moça, voltava ao aplicativo numa boa e deixaria ele se descobrir. Match.
Os viúvos, a viúva e o único divorciado não namoram há muito tempo. Estão concentrados no trabalho e na criação dos filhos. Na sua agenda, não cabe nem uma quarta-feira com os amigos; na sua memória, não há noitadas ou bebedeiras. São pais sérios e decentes. É a noiva chata de “12 dias de presentes” que sai de casa e deixa o caminho livre para o fofo protagonista! Sim, há mulheres e homens chatos, mas há gente bacana à beça. Maioria. E todos lindos! Oh, glória!        
Em todos os filmes, há amigos. Amigos verdadeiros! Eles podem ser os irmãos e as irmãs, mas há também vizinhos, amigos de infância, do trabalho... Não há canalhas. Obrigada, obrigada! Eles são o ombro amigo, a palavra que falta, a consciência vigilante e o estímulo necessário. O casal precisa deles, do seu empurrão!
Os enfeites enchem nossos olhos e até causam confusão: “Um Natal muito, muito louco”. Há metros de anéis de papel vermelho e verde feitos em casa! Esses filmes devastaram florestas inteiras em busca da árvore ideal. Quem diria que pudessem ameaçar o meio ambiente?! Há muita gemada. Em “À procura de um papai Noel”, a receita! Há sempre muita comida, muito biscoito de gengibre. Se a revista de Liz Livingstone existisse, eu era capaz de fazer assinatura! E a neve? Muita: bonecos de neve, jogos na neve, bolas de neve atiradas carinhosamente, risos de neve.
Os suéteres são ridículos e fofinhos, com aquelas renas, estrelas, trenós... Ninguém pode querer enlaçar de maneira mais ousada uma rena desses, mesmo que envolva um belo talhe ou mesmo quando há um empurrão do roteiro: a protagonista cai nos braços do rapaz, no momento em que ela está colocando um enfeite no mais alto da árvore! Se a memória não me falha, duas protagonistas caíram nos braços dos amados. Mas não tem clima, gente. Rena, trenó, Papai Noel de narizinho vermelho... O vermelho é a cor das mulheres e do Noel! Em “Aplicativo para o Natal”, quando a atriz está vestida de vermelho na cena, ninguém mais está. Mas é vermelho Natal, não paixão, mesmo que sejam bem parecidos...
  Engraçado, esses filmes tão pudicos são muito recentes. Estamos falando de filmes de 2016, 2017 e 2018, sobretudo. Em dois deles, as coadjuvantes esperam seus maridos militares que estão em manobra e chegam para o Natal. Em “Flores de Natal”, o casal espera um novo bebê, ele ainda não sabe... Como assim? Rsrsrs Em “Um Romance de Natal”, é o vídeo da filha pedindo ajuda para organizar uma festa de volta para o pai militar que espoleta os acontecimentos. Suspeito gostos republicanos.   
Há uma coisa que me interessa muito: a oportunidade encontrada pelas mulheres para amar. A comissária de “Conexão de Natal” viu o mundo. Suas fotos encantam a filha do seu amado, um jornalista preso à cidade de Chicago. Ela é uma mulher feliz, realizada e capaz também de estar à vontade entre os membros daquela família que a acolhe no feriado. Compartilha com o pai da menina um enigma: gostaria de saber como os pais de conheceram na cidade de Chicago em que ela mesma nasceu, mas foi embora pequena. Ele é jornalista e está disposto (e interessado...) em ajudar. No Natal, entretanto, ela tem de voar. Lá pelas tantas, escolhe dar meia volta. Atenção: não largar tudo, mas se dar a oportunidade de ficar algumas vezes. O beijo, finalmente! Caso parecido com “Natal fora de casa”, espécie de Um Lugar Chamado Notting Hill. A atriz não larga tudo, ela se dá uma chance e, um ano depois, a gente sabe que ela continua a fazer sucesso e está ainda ao lado do namorado não ator, todos felizes. De todos, ele é o meu favorito. Hummmm...
De uma forma singela, esses filmes cheios de biscoitos, famílias de mamãe e papai, bonecos de neve, árvores cortadas, dizem a nós mulheres – sem dúvida, somos os seus alvos – que dá para ganhar o globo de ouro e ficar com dono do charmoso lodge; que podemos tocar a empresa de eventos do nosso tio e casar com o “príncipe”. Mas esses filmes dizem mais: que no mundo narcisista das selfies, as pessoas podem olhar umas para as outras sem pressa, elas podem se conhecer com calma, podem confiar na possibilidade de uma nova chance, ouvindo os amigos, olhando as crianças e, sem afobação, podem esperar uma nova chance para beijar. Dá-lhe, Pepeu!
Até 24/12, sobraram alguns dias para os filmes românticos de Natal. Os românticos incuráveis nem precisam de convite! Mas os descolados e conceituais também estão autorizados a fazer uma paradinha secreta para rir das pouco lapidadas situações, para sofrer com o equívoco ridículo que nos separa de quem amamos, para se dar a chance de pensar sobre o amor como possibilidade que acolhe e não exclui. Os filmes de Natal estão cheios de tradições inventadas para dar sentido a essa vida cheia de problemas... “Sua honestidade é revigorante” afirmou uma personagem que eu acho que só apareceu em uma cena de filme que ainda não consegui terminar. É uma coisa bonita de dizer, né? Me dá vontade de sonhar com um mundo de figurantes assim!

Feliz Natal, gente romântica, cinéfila e leitora!

Filmes citados e vistos:
1. 12 dias de presentes (12 Days of Giving , 2017)
2. À procura de um papai Noel (Finding Santa, 2017)
3. Aplicativo para o Natal (Mingle All the Way, 2018)
4. Conexão de Natal (Christmas Connection, 2017)
5. De repente noiva (A December Bride, 2016)
6. Estrada para o Natal (Road to Christmas, 2018)
7. Flores de Natal (Poinsettias for Chritmas,2018)
8. Natal fora de casa (Christmas in Homestead, 2016)
9. Um Natal de Cinderela (A Cinderella Christmas, 2016)
10.    Um Natal muito, muito louco (Christmas with the Kranks, 2004) – o mais fora da curva, mais para comédia que romântico de Natal
11.    Um Romance de Natal (Entertaining Christmas, 2018)
12.    Uma viagem de Natal (Christmas Getaway, 2017)

Não é filme de Natal, mas Confidências à meia noite (Pillow Talk, 1969), com Doris Day e Rock Hudson, é simplesmente imbatível! You are my inspiration, Eileen, Marie...  Y¯, para todos os Natais da nossa vida.


Uma pausa

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

O blog completou 4 anos em 2019 e o presente cheira a Natal: Literistórias entrevistou uma historiadora cheia de talentos - Profa. Miliandre Garcia de Souza. Confira!

Conheci Miliandre em uma banca de qualificação de Doutorado do PPGHIS/UFPR. Tratava-se da banca de José Gustavo Bononi, orientando da colega de DEHIS e PPGHIS Rosane Kaminski[1]. Eu me sentia um pouco o peixe fora d’água, afinal como uma medievalista poderia se sentir em banca sobre o Teatro Oficina, entre 68 e 72?! Só mesmo o imenso carinho de José Gustavo pela velha professora e a confiança inabalável da colega Rosane para explicar isso... Essas bancas fazem a gente estudar muito, ter uma atenção de filatelista e rezar para não falar (muita) bobagem. Miliandre me chamou logo a atenção por um dado que não tinha a ver com a banca. Entrou na sala linda, leve, sorridente e fresca de batom vermelho. Já tive conversas significativas com minha amiga Fabiana sobre essa história de batom vermelho! Eu tento raramente porque sou covarde e, quando vejo uma mulher ficar tão à vontade assim, tendo a gostar dela no ato. Pois não foi diferente. Ainda por cima, falou pelos cotovelos coisas de ajudar muito o José Gustavo. Tendo a gostar muito de quem vai para as bancas de qualificação com mangas arregaçadas para colaborar. Pois não foi diferente também.
E não é que o batom voltou na defesa pública?! José Gustavo foi aprovado e a velha professora espera que esteja feliz, realizando trabalhos que lhe deem muita satisfação intelectual. Um dia, no FB, descobri que aquele batom vermelho bordava e escrevia textos com pensamentos tão próximos dos meus que até admirava! Descobri ainda pessoas em comum, pessoas de quem gosto demais, ainda que nem sempre consiga ver e conversar mais amiúde. Mas confesso que a descoberta do tecer, as imagens dos bordados depois de terminados, os motivos, as cores, a parede da casa que nunca visitei (olha como sou abusada!) iluminaram um mantra que repito por aí: a necessidade de uma vida mais plena, cheia de realizações diversas e descomprometidas com o desempenho que nos constrange nesse mundo em que, se concordarmos com Byung-Chul Han[2], estamos doentes de excesso de positividade. Não é que eu ache que Miliandre está imune a isso, acho mesmo que não. Penso só que, desde o batom, estou diante de uma mulher forte e que exerce a vida plena, com seus bordados, filhos, livros, máquina de costura, alunos, marido, casa e estojo de maquiagem.
Miliandre estuda umas proximidades difíceis da história do Brasil com um disco na vitrola, revirando as coxias, olhando comprido para os figurinos, cores, textos e descobrindo que, em meio a tantas diferenças, grupos, artistas, homens e mulheres não abriram mão de dialogar “em dimensões estéticas e políticas”, no período da Ditadura Militar no Brasil.
Vem livro novo por aí, ela fala dele na entrevista! Ao lado de seu mestre Carlos Fico, reuniu um timão para lidar com um tema importante desde sempre. Miliandre refuta a exclusividade do presente que vivemos. Enquanto o livro não vem, eu a vejo recortando motivos, desenhando em bastidores e lendo uma historinha singela que escrevi. Quem sabe um dia, seus pontos não encontram os pingos dos i(s) dessa narrativa de uma avó emprestada?
Quanto ao batom, desconfio que ela tem vários tons de vermelho!

LITERISTÓRIAS: Miliandre, você é uma historiadora bordadeira! Como é isso? Quando e como o bordado entrou na sua vida?
MILIANDRE: Querida Marcella, é uma grande honra comemorar com você e seus leitores o quarto aniversário de Literistórias.
Bem, o bordado entrou na minha vida há muito tempo, não só o bordado como outras manualidades. Como em muitas famílias, essa atividade foi estimulada desde muito cedo, ainda menina. Minha mãe e minha tia, costureiras, me apresentaram o universo da costura, outra tia me iniciou nos pontos básicos do bordado e mais uma tia me ensinou a tricotar. Nessa época, no entanto, eu era uma menina muito “elétrica” como diziam, hoje talvez me diagnosticassem com “hiperatividade” (risos). Magricela e mais alta que a média das meninas, eu era sempre escalada para as atividades esportivas e gostava muito, fiz ginástica olímpica, rítmica e voleibol com expectativas de profissionalização.
Nada disso nem meus interesses escolares durante o ensino fundamental apontavam para o interesse pela história ou pela literatura, que nasceram por influência direta de professores do ensino médio e do cursinho e por intermédio de um primo que já era estudante de sociologia e fã da Elba Ramalho.
Atarefada, mais correto dizer atordoada com as leituras da graduação, depois com as pesquisas na pós-graduação, protelei durante muito tempo pegar numa agulha ou usar a máquina de costura para fazer qualquer reparo ou pregar um simples botão.
Um detalhe que eu acho importante mencionar: essa máquina de costura que tenho foi o presente mais lindo que minha mãe poderia me dar. Era a sua primeira máquina de costura, da marca Singer, adquirida em 1972, antes do meu nascimento. Para minha surpresa, minha mãe presenteou-me com a nota fiscal, às quais, máquina e nota, eu guardo com muito carinho, registro físico de uma história que atravessou o tempo e gerações e que vestiu muita gente: pai, irmão, prima, primo, tia, tio, vó, vô.
Por algum motivo que não sei precisar, guardei a memória daquele ponto que minha tia havia me ensinado na infância numa visita familiar. Enquanto eu procurava pelo ponto e não encontrava, fiz muitas outras coisas: tricô, tapeçaria, arraiolo, mosaico, sabonete, vela.
Em algum momento, descobri que as atividades manuais eram essenciais para o meu desenvolvimento, minha existência no mundo, como pessoa, como profissional, pois ao praticá-las eu organizava a vida, o trabalho, também me organizava internamente, me dava, me permitia dar o tempo necessário (e nem sempre possível) à introspecção, ocupando com isso mãos e pensamentos simultaneamente.
Um dia, a trabalho, fizemos uma viagem a Portugal. Nas proximidades do Porto, resolvemos visitar a cidade de Amarante. Lá, até que enfim, encontrei o tal ponto, com nome e endereço: se chamava rococó e morava em Amarante. Encontrei outros pontos colegas seus, todos da família do “bordado livre”. De Amarante, trouxemos algumas peças bordadas, de lembrança e na esperança de aprender a técnica e por meio dela reencontrar a menina que eu era, mas que havia crescido e já tinha uma menina também, Alice, e carregava, sem saber, um menino no ventre, Francisco. Coincidentemente, naquele breve passeio, sem saber que estava grávida, visitei o santuário de São Gonçalo do Amarante, o santo mais importante da região, a quem mulheres e homens recorrem para pedir coisas relacionadas à fertilidade e à sexualidade.
Também nessa época, conheci Carol, mãe do Nicolas, na escola da Alice. Carolina Sobreira, xilogravurista, ilustradora, gravadora. “Um balaio de coisas”, como ela gosta de dizer. Nesses encontros entre arte e história, ela cursava artes visuais na UEL e eu fazia parte do departamento de história também da mesma instituição, descobrimos amigos em comum, ficamos amigas. Carol decidiu ter um segundo filho, mas nem tudo ocorreu como planejado. Vicente infelizmente faleceu com poucas semanas de vida. Enquanto passava horas na UTI neonatal, Carolina aprendeu a bordar e bordando encontra-se até hoje. Com ela, fiz uma oficina de bordado e aprendi os pontos básicos. A partir disso comprei livros, vi muitos vídeos, treinei vários pontos e também cá estou desde então, bordando histórias, paixões e afetos, em viagens, salas de espera, reuniões, “nas horas à toa”, quando eu “ando a cismar”, como escreveu aquele “compositor confuso” que me rodeia...

LITERISTÓRIAS: Miliandre, sua pesquisa atual relaciona música e teatro[3]. O que só a arte responde ao historiador?
MILIANDRE: Marcella, penso que só a arte é capaz de acessar certos lugares que nenhum outro meio de comunicação, área do conhecimento consegue. A arte cria universos que nos auxiliam a enfrentar estados nem sempre tangíveis, realidades nem sempre favoráveis, sejam elas históricas, sociais, econômicas ou até mesmo existenciais. A arte conecta seres humanos e os conecta naquilo que se tem de mais humano. A arte emociona, desestabiliza, desconcerta, faz pensar, também faz rir, mexe com sentimentos, preconceitos e certezas. O diálogo entre arte e história é um daqueles encontros mais que perfeito, posto que se complementam no que tem de diferente, não de igual. Nosso papel, como historiador que trabalha com arte, teatro, música, cinema, literatura talvez seja o de tornar tangível ou próximo disto aquilo que nem sempre tem tradução, não plena. É um desafio permanente, cujo resultado (suponho) é e sempre será incompleto, porém muito necessário.

LITERISTÓRIAS: Miliandre, quem você lê com paixão?
MILIANDRE: Leio com paixão até mesmo as leituras mais técnicas. Sempre penso, ao menos espero tirar dali algo que me motive de alguma maneira, que estimule a minha curiosidade para além do texto, que me faça buscar em outros lugares coisas que possam vir a se juntar àquela leitura. Mas sonho mesmo ter, criar tempo para me dedicar às leituras que sinto que estou em débito, àquelas leituras que, como disse um amigo sobre o disco de João Gilberto & Stan Getz, “formam caráter”, aquela lista de clássicos que o Calvino nos indica fazer, ler por prazer e quem sabe conseguir inspirar essa paixão em outras pessoas (estudantes ou não) como você faz tão bem. Como disse Ana Maria Machado, “a leitura é um hábito que se cria pelo exemplo” e nisto você é mais que exemplar.

LITERISTÓRIAS: Miliandre, queria que você explicasse a importância do lançamento da coletânea CENSURA NO BRASIL REPUBLICANO organizada por você e por Carlos Fico no Brasil de hoje.
MILIANDRE: A censura é uma prática autoritária que não está restrita a um lugar nem a um tempo histórico, ela atravessa temporalidades e espaços geográficos. É ressignificada de várias maneiras, mas sempre que governos, autoridades, políticos a julgam necessária para conter, controlar, coibir, inibir algum tipo de ação ou comportamento, individuais e coletivos.
No Brasil, a censura esteve presente desde os momentos fundadores, isso se considerarmos que também a Inquisição exerceu algum tipo de censura. Foi institucionalizada e amplamente utilizada pelo governo imperial e atravessou praticamente todo o período republicano até 1988. Esteve presente em regimes ditatoriais como o Estado Novo e a ditadura militar, mas também em períodos considerados democráticos ou de transição democrática. O fato de ter sido extinta da última Constituição brasileira não significa que estejamos plenamente livres desse recurso, dessa ferramenta, desse mecanismo que mais limita que constrói, quem mais cerceia que cria condições de desenvolvimento, muito menos quando imposta à literatura, ao teatro, ao cinema, à música, às artes em geral e às manifestações do pensamento.
Ao contrário, desde que ela foi extinta da Constituição em 1988 não deixamos de vivenciar situações bastante embaraçosas envolvendo algum tipo de controle, eventualmente classificado como censura. Principalmente no contexto atual no qual o Estado já não mais se responsabiliza por ela, mas o governo impõe formas escamoteadas ou declaradas de censura, como também estimula entidades de representação e até mesmo indivíduos a exercê-la indiretamente, a perseguir artistas, intelectuais, jornalistas, humoristas e professores e inviabilizar a produção artístico-cultural no Brasil seja pelo boicote, seja pela ofensiva direta, incitando o público, as pessoas de modo geral, a interferir direta e muitas vezes violentamente num evento, numa apresentação, numa exposição. Isso é tão ou mais grave que criar um órgão com censores credenciados, concursados para realizá-la como aconteceu em outros momentos da história recente brasileira.
Saber que ela existiu e entender como foi praticada, sob quais argumentos, com que propósitos, por quem, em que governos e regimes, que setores da sociedade a apoiaram ou mesmo requisitaram maior rigor, penso ser um passo em tantos outros a serem dados nesse “longo caminho” de construção da cidadania no Brasil.
Se “é preciso estar atento e forte” e o “caminho se faz ao caminhar”, como já disseram dois gigantes, essa coletânea Censura no Brasil republicano, a ser publicada em dois volumes pela editora Sagga em 2020, é nossa contribuição à sociedade. Buscamos com ela ultrapassar o caráter opinativo que tem permeado o debate público no Brasil e analisá-la a partir de experiências concretas no Brasil e no mundo. Como não haveria de ser diferente, buscamos estar ao lado da “cultura, contra a censura” e estabelecer um pacto social amplo e consciente de rejeição da censura como mecanismo de controle e cerceamento de ideias. A tarefa não é fácil, não tem sido, mas assumimos esse compromisso como profissionais e cidadãos.

***
Quando LITERISTÓRIAS completou 2 anos, eu ofereci aos leitores uma entrevista com a amiga Maria Cristina Pereira  (USP), um sucesso de visualizações e orientações para jovens historiadores da arte. Quando Literistórias completou 3, quem brilhou foi a amiga Mônica Figueiredo (UFRJ), grande especialista da obra de Eça de Queirós no Brasil e autora de um discurso de formatura que viralizou nas redes sociais (turma Marielle Franco, de 2018). Se quiser matar as saudades, procure abaixo em “entrevistas”. 


Miliandre Garcia, seu filho Francisco e os bordados, na casa da historiadora.



[2] Sociedade do Cansaço (Petrópolis (RJ): Vozes, 2017).
[3] Pesquisa atual: “Entre o palco e a canção: afinidades eletivas entre a Música Popular Brasileira (MPB) e o teatro engajado na década de 1970”.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Raquel presente


Para Maria Cristina e Michael
Para Aline

Maria e Michael, tô chegando aí. Levo 2 sacolas de compras que vou colocar no chão da cozinha. Tô abrindo os armários e a geladeira para guardar. É cedo para o almoço, então vou recolher a roupa do cesto, colocar na máquina, dar aquele jeito no banheiro, fazer a cama de vocês, varrer em silêncio a casa toda. Onde está o pano de chão? Achei. Vou pegar as toalhas e colocar na varanda. Há sol hoje depois de quase onze anos de chuva.
Vou dar uma espiada em vocês. Vejo-os no colo um do outro. Fecho a porta devagar. Além de o Amor me inspirar respeito reverente, temo que o ritmo do bater da máquina de lavar – tão cotidiano – atrapalhe a entrega dessa manhã. Vou deixar uma frestinha, entretanto, só para o caso de vocês precisarem. Basta me chamar. Tô ali na cozinha.
Então vai ter feijão preto e gordo de paio. Hoje vamos nos permitir. Tô lavando o arroz. Vou fazer uma carne moída como a minha amiga Fabiana me ensinou. Nunca me ocorreu colocar alho-poró na carne moída!! Então vai ser do jeito dela que agrada mais lá em casa, inclusive. Trouxe alface e tomate. Abro o armário da pia e encontro a mesma engenhoca do Avon que tenho em casa, para deixar as folhas da alface bem sequinhas. Nós compramos da mesma cor, verde! Resolvo esse cardápio por dois motivos: além de ser rapidinho, faço sem muito barulho. Bem, a não ser o da pressão... Eita, trabalhar ritmado e cozinhar na pressão. Eu sempre encontro verdades muito profundas nas minhas tarefas simples... e vocês?
Vou na ponta do pé até a frestinha e aviso do almoço. Não querem tomar um banho? Roubei da gaveta da minha mãe o sabonete que, na gaveta dela e nela, fica mais cheiroso. Sim, apesar das escolhas políticas, ela ainda é a mulher mais cheirosa do mundo. Seu perfume misterioso me apazigua. Trouxe para vocês. Deixo no box.
Corro na varanda a fim de sentir as toalhas. Estão quentes. Resolvo esperar deixar de ouvir o chuveiro para pendurar as toalhas na maçaneta da porta do banheiro. Dá certo. Corro à cozinha. Imagino o calor abraçando vocês. É por causa da cebola que choro.
Não há pó nos porta-retratos. Êee, lá em casa... Achei uma toalha linda na terceira gaveta da cômoda. Desculpa mexer nas coisas, mas foi só para não ficar perguntando. Não é porque não achamos a toalha na primeira gaveta que vamos desistir, né? Que bom que ninguém desistiu. Assim, eu posso colocar a mesa para a gente. Não se preocupem, hoje eu quero almoçar com vocês.
Escancaro as cortinas. Puxo a cadeira para a Maria, pouso a mão no ombro do Michael. Cheiram ao sabonete da minha mãe quando ela usa esse sabonete. Coloco o prato de cada um, afinal, vim fazer o serviço (!), e a gente come em silêncio. Maria fica intrigada com o alho-poró. Sabia. Sorrio sem medo do caroço de feijão. Acho que vou fazer um bolo para a tarde. Pode sim. A gente é formiga aqui. Em casa também, Maria. Quem não?
Termino a louça, o bolo e vou, tá? Tenho uma porção de coisas... A roupa limpa está no varal do quintal. Cuidem só para o caso de começar a chover. Mas eu acho que hoje não. Acho que a gente vai ter direito a esse sol todo. Da janela, a gente vê passar crianças na volta da escola. Sinto aperto, mas nem Maria nem Michael sentem. Vejo seus olhos limpos. De repente, Michael levanta, vai até cozinha, traz um pedaço de pão e limpa o prato. Maria lembra de uma laranja. Cada gomo é um portão aberto sem sobressalto. Hoje, todas elas estão em casa.
***
Hoje, acordei com a notícia do desvendamento do caso da menina Raquel, sequestrada dessa vida há quase 11 anos, em novembro de 2008. Agradeço aos agentes públicos que não desistiram e me maravilho com a tecnologia que descobriu a identidade da matéria orgânica que desperdiça o precioso oxigênio do planeta. Há 11 anos, uma mulher que trabalhava com afinco para a solução do caso perdeu a sua filha ainda no ventre. Eu soube hoje. Ela contou. A matéria orgânica já encarcerada pode acumular mais esse crime. Há quase 11 anos, em novembro de 2008, minha filha nasceu. Há 11 anos.
Eu não conheço Maria e Michael. Esse texto é só uma forma de acarinhá-los à distância, de forma respeitosa e reverente. Aline, é uma forma de abraçar você também.




segunda-feira, 1 de julho de 2019

Os homens que não amavam as mulheres e que convenceram outras a não amarem também


Era uma vez um homem muito poderoso que se descobre um dia traído. Cego de ódio, arquiteta um plano que o afastaria completamente da possibilidade de uma nova deslealdade: desposa mulheres e, no dia seguinte à consumação do intercurso, condena-as à morte. Em outro era uma vez, um homem inescrupuloso usa a própria mulher para cegar o seu patrão. Este, por sua vez, “envenenado” pelo criado, mata a esposa que era, afinal, inocente de toda a perfídia alegada. Muitos era uma vez depois, uma mulher esplendorosa – “ela é uma coisa extraordinária, ela é muito grande” – alucina um indivíduo medíocre que não podendo conter essa grandeza, mata a mulher, para “reduzi-la a nada”. Assim está escrito. São tantos era uma vez e tão fácil reconhecer o sultão Šahriyar de As mil e uma noites (cuja forma mais antiga e inteira é dos séculos XIII ou XIV), Iago personagem da peça Otelo, o mouro de Veneza (Shakespeare) e o Bexiguinha do romance Aparição (Vergílio Ferreira), que qualquer pessoa poderia acrescentar mais leituras, a partir das minhas sugestões, a um rico e sanguinário repertório literário, em cujo enredo está posto o assassinato de personagens femininas. É claro que isso é uma maneira de ver as coisas, afinal personagens masculinos também morrem. A literatura é bem diversificada em seus desejos de vingança.
As histórias que salpiquei tiveram grande impacto sobre mim em diferentes momentos da vida e há dias, enquanto observo acontecimentos por todo o lado, e em especial no Brasil, esses textos me vieram novamente ao coração. Šahriyar, Otelo e Bexiguinha não podem suportar a frustração de não terem sido amados como eles desejaram sê-lo. É como se, a partir do momento em que as mulheres entraram em suas vidas, em suas casas, palácios, em seus quartos... tivessem de abrir mão de toda a sua vontade para saciá-los exatamente como eles sonharam ser saciados. É óbvio que penso nas violências que atravessam a vida das mulheres que mudam de ideia, apesar de seus “sinais”...
Uma digressão rapidinha a propósito dos “sinais”: adoro ouvir rádio e dia desses ouvi de um locutor de uma rádio de sucesso que mulheres como essas “empoderadas” e que adoram dizer que “não é não” andam contrariando o que acontece “na real e na noite”, quando homens e mulheres se encontram. Segundo sua narrativa entrecortada de elipses maliciosas (creio que em razão do horário da emissão), as mulheres dão “sinais”, vão aos apartamentos dos homens e depois querem ir embora (!!!), sem consumar o que quer que esteja plantado na cabeça dos... homens! Ora essa! O machismo é uma doença de proliferação celular tão extraordinária que o locutor não questionou em nenhum momento as próprias palavras, em que jorravam litros de pus sobre o protagonismo masculino (exclusivo) nas decisões sobre o sexo. Mas havia outro homem lá, que disse uma coisa diferente: Sabe, cara, acho que não é não mesmo, vai que a garota não gosta da cara do meu [falo][1]?!
Agora, voltando aos frustrados, somos todos e todas em alguma medida insatisfeitos com a resposta real às nossas expectativas completamente irreais... A frustração não quer nem saber: é um sentimento grande, que vai tomando conta de bons hectares do nosso coração. Alguns de nós ficam na fossa (alguém ainda usa essa palavra?); outros, recorrem aos amigos e amigas e a seus ombros largos; outros precisam de ajuda profissional; outros machucam e matam.
O que tem me chamado muita atenção é um tipo de frustração bem específica, que nasce no sexo e vai tomando conta de outras áreas da vida dos pudicos ou dos ressentidos. Assim, porque alguém ousa uma escolha que só interessa aos implicados, outros que observam a escolha não suportam o gozo alheio (quase sempre, não têm fruição alguma); ou, porque alguém adentrou o quatro com outro alguém, tem de consumar o que só um continuou a querer, segundo a opinião do que insiste no ato e de quem não estava lá (!), mas quer gozar só de imaginar... O que isso tem a ver com as mulheres? Quase sempre, somos as que mudam de ideia ou estamos entre os que ousaram.
Nem sempre a cama é evidente, entretanto. Quando uma autoridade vem a público chamar um homem de “menina” porque esse homem é homossexual, o que a autoridade busca? Uma das possibilidades de resposta é o menosprezo do homem que recebeu a identificação, o que significa que “menina” passa a ser um termo pejorativo, um xingamento. Novamente (porque professora adora explicar tudo explicadinho...): o substantivo menina passa a ser um xingamento na boca de um homem, que usa a palavra como adjetivo para ferir um outro. Eu vejo Iago. Quando um homem, ou um grupo deles, se rejubila ante a morte de uma mulher poderosa, ou obtém fruição com a notícia da violência perpetrada contra mulheres que ousaram ter escolha, quem eu vejo? Eu vejo o medíocre e perigoso Bexiguinha. Quando leio a defesa da subserviência feminina entre ícones da moda diante do desejo exclusivo do outro e/ou o apagamento do nosso desejo, eu temo ver o poderoso Šahriyar.
Entre os homens reais que executam projetos semelhantes aos personagens literários e os que “não fazem nada”, mas calam, riem, trocam um gracejo ou outro no whatsapp com os amigos, aceitam a piada “inofensiva”, mostram enfado diante dos “exageros” das suas mulheres e ousam um like em postagens duvidosas protegidos pela tela, há uma distância que pode ser bem desconfortável, monstruosa... É como se o reino dos ogros tivesse se instalado definitivamente entre nós! Já escrevi sobre isso[2]: não aplaudo o “inofensivo” Shrek, aliás temo que ele convença as meninas a se tornarem ogras por amor. Ora, eu conheço mulheres casadas com ogros e que não se tornaram ogras! Obrigada, queridas, continuo a reconhecê-las!
Os homens vivem entre nós e está claro que boa parte de sua mudança ou do sutil deslocamento das ideias dos mais cabeças duras vêm muitas vezes da convivência conosco. Eita, responsabilidade! Mas não estou dizendo que devemos insistir com aquele namorado possessivo (e/ou violento...), aliás, sugiro escapar dele!! Não foi isso que Jane fez quando descobriu o segredo de Mr. Rochester em pleno altar[3]?! Gente, esse personagem insistente precisou ficar cego para reencontrar Jane nas bases em que ela estava disposta a construir o futuro: um futuro amoroso em que ele inclusive seria cuidado e amado por ela, em pena liberdade! Jane, Jane... Quem de nós não soluçou com a morte de Helen não tem coração!! Lembro: elas eram só meninas...  Meninas que apoiam meninas. Isso me emociona.
Desdêmona e Sofia foram surpreendidas e mortas; Šahrazad conhecia o destino das suas antecessoras e ousou uma alternativa. Seu risco, entretanto, era imenso! Essas mulheres tiveram famílias, amigas, criadas, irmãs... Apenas Šahrazad conseguiu mobilizar apoio de sua irmã Dinarzad a tempo de viver. Sua irmãzinha, escondida debaixo da cama... Lembra quem rouba o lenço de Desdêmona? Emília..., esposa de Iago, move-se por ele! Ela se arrependerá de ter feito o que fez, mas extemporaneamente e perderá a vida também. Dinarzad correu todos os riscos com sua irmã para salvá-la. Estavam do mesmo lado, o lado da vida e da esperança.
Sabe, os ogros podem seduzir as princesas com a sua aparente rebeldia ou não conformidade com a etiqueta da corte; podem convencê-las temporariamente de que o comprimento da saia das suas amigas é sinal da anulação do seu desejo em prol da vontade dos seus pares ogros; podem ser eleitos; não ter escrúpulos; podem dar voz às mulheres para elas dizerem, sem desconfiar, o que eles querem na verdade; podem convidá-las a seus hotéis, convencê-las de que bastou entrar no pântano para chafurdar com eles, mas... podemos lembrar da força das meninas tanto para tentar salvar as Sofias que conhecemos, quanto para virar ofensa em elogio e, assim, reinvestir as palavras do seu sentido e do seu poder.



Illustration des Mille et une nuits, par Léon Carré (1929).

Bibliothèque nationale de France.





[1] Ele empregou outra palavra. Eu uso um sinônimo mais bonitinho e meigo.
[2] Em “Sobre a gente que vive em palácios, pântanos e em uma casa azul de papel”, conferir aqui no blog: http://literistorias.blogspot.com/2016/06/em-tempos-de-lancamento-de-menina-com.html
[3] Romance Jane Eyre de Charlotte Brontë.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Normas “bizantinas” e outras improbidades históricas e linguísticas


Há alguns dias, o presidente anunciou a redução de 90% das Normas Regulamentadoras, as conhecidas NRs: “elaboradas por comissão tripartite incluindo governo, empregados e empregadores, e publicadas pelo Ministério do Trabalho e do emprego. São em número de 32” (hoje, 37)[1]. Os profissionais da Segurança do Trabalho se preocuparam, afinal vivemos uma triste distinção internacional: somos campeões em acidentes... Como entre tantas reações às originalidades deste governo inclui-se o humor, eu mesma vi um meme sobre a NR 10 – Segurança em instalações e serviços em eletricidade:

“10.1 – Cuidado para não tomar choque aí, tá ok?”

A pessoa que compartilhou esse meme comigo sorriu tristemente. Afinal, trata-se de uma norma complexa e vasta.
Na explicação sobre como essa normativa é elaborada, sobressai o esforço conjunto de 3 agentes, mas na “análise” que encerra a promessa do presidente sobressai 1 agente sensível: ”há custos absurdos [para as empresas] em função de uma normatização absolutamente bizantina, anacrônica e hostil”[2].
O uso do adjetivo “bizantina” não me passou despercebido. São 3 também as acepções do adjetivo no Dicionário eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa:

1     relativo à cidade de Bizâncio (atual Istambul, na Turquia) ou o seu natural ou habitante; bizâncio
2    relativo ao Império Romano do Oriente (tb. dito Império Bizantino, 330-1453 d.C.), às manifestações da civilização e da cultura desse império, ou quem nele nasceu ou habitou; bizâncio

n adjetivo
3    Derivação: sentido figurado. Uso: pejorativo.
que tem caráter de bizantinismo ('tendência', 'ato'); frívolo, inútil, pretensioso
Ex.: discussão b.

O sentido pejorativo do adjetivo está previsto no dicionário.
É possível que alguém que estudou história medieval seriamente se pergunte como esse sentido afinal entrou no nosso uso corrente. Fui buscar a resposta em Antônio Geraldo da Cunha, que documenta a palavra entre os falantes do Português no século XIX[3]. Isso é bem interessante.
Sabemos que contrariamente aos iluministas, os românticos gostavam da Idade Média, mas a compreenderam à sua moda. Aliás, o conjunto de particularidades do seu olhar sobre o medievo é uma fonte importantíssima mais sobre os próprios românticos que sobre o medievo! Além disso, a Idade Média que visaram foi quase sempre a da tradição latina. Tradições orientais (incluídas aí as helênicas) estiveram presentes, mas, segundo vários autores já desvendaram, como um “lugar de romance”[4]. Tenho particular encantamento pelos contos fantásticos de Théophile Gautier[5], em que tudo o que é misterioso, terrível, mágico... vem do Oriente! Há outros muitos exemplos para além desse meu gosto particular.
Do lugar “feiticeiro” e politicamente “traiçoeiro” (que rima significativa!), mesmo a identidade cultural de um império, radicado na admirada tradição clássica que soube vigiar e atualizar, haveria de receber a sua demão de desprezo no século dos amantes da Idade Média. Essa história é mais antiga, eu sei, por isso usei o substantivo demão: entre os “inventores” da Idade Média nasceu o desprezo aos sábios bizantinos[6], diminuídos no seu papel fundamental de promotores do Renascimento. Desde o século XV e durante o século XIX, esse desprezo é fortalecido por um desdém de acréscimo: por quem arrasou Bizâncio, os otomanos! A partir do século XIX as próprias relações entre a Turquia e a Europa (que há muito estava “liberta” da consciência do papel cultural da tradição bizantina) tiveram seu papel para a história da transformação do sentido do adjetivo.
Então, o desprezo na fala do presidente tem explicação histórica e palmilhar o rumo dessa explicação é enriquecer o sentido do vivido. No seu esforço de simplificar uma construção plural – a normativa, que deve ser, de fato, sempre revisada pelos agentes, e reduzi-la a 10% do que é hoje, o presidente se serviu do menosprezo histórico a uma tradição cultural que pode lhe ser felizmente explicada pelos “idiotas úteis” ou pelos “espertalhões” do dia 15 de maio de 2019.
Ora, poucos dias depois da “norma bizantina”, seguro pela distância física do país e poucos meses depois da vitória democrática nas urnas, o presidente feriu com ofensa parte significativa do povo brasileiro: a uns chamou de “idiotas úteis” e “massa de manobra”, a outros, “minoria espertalhona” radicada nas “universidades federais do Brasil”, em dia de manifestação democrática.
São muitas ofensas... Elas se coadunam à escolha lexical da inspiração declarada e dos seus sequazes. Idiota é tolo, mas também aquele que outrora preferia não participar da vida pública da polis[7]; ao atrelar a ofensa à expressão “massa de manobra”, o presidente propõe a participação que o uso de idiota não previa no equívoco, e isso tudo a serviço de uma pequena parte de gente de natureza desonesta.
Dia 15 de maio de 2019, levei a minha filha à Praça Santos Andrade no centro de Curitiba para que ela visse como se manifesta democraticamente pela defesa do ensino público e gratuito. Fomos até o Centro Cívico depois e lá assistimos, sobretudo, a jovens que falavam e cantavam. Ela viu que, quando os homens eleitos e suas equipes ameaçam instituições, eles e elas devem ser questionados pelo povo, e que a rua e a praça pertencem a esse povo para exprimir sua opinião e para lembrar que a atuação dos eleitos no curto espaço de tempo de seus mandatos onera gerações... A rua mostra um povo vigilante.
Michael McCormick escreveu sobre o imperador bizantino que:

Quando, ao acordar, os cidadãos de Constantinopla avistavam a espada e os escudo do imperador suspensos dos portões do Palácio imperial, sabiam que a guerra era eminente e que o basileus conduziria o exército na batalha.[8]    

Bizâncio estabeleceu um modo muito particular de se comunicar, e estudar essa e outras formas antigas de comunicação não significa colecionar curiosidades, mas compreender as trocas em sociedades políticas diversas. A púrpura era a cor imperial; o quarto dos partos “batizava” os príncipes em porfirogênitos no império em que o sentido de nobreza era meio supérfluo; os mosaicos não eram arte (como a entendemos), mas uma forma de escrita que se pretendia divina... Existe todo um quadro de particularidades que ilumina as nossas pelas diferenças gritantes! Nem melhor, como os nostálgicos gostariam; nem pior, como os apocalípticos... Diversa. No centro, queria destacar, estão formas de comunicação.
Na voz do presidente, o adjetivo bizantino ganhou o sentido de “hostil” pela associação realizada na enumeração. Novidade. Mais uma nota para a transformação das palavras segundo o desejo de detração das gerações que perderam (de propósito ou por falta de estudo) o ponto de partida! O oriente sedutor, feiticeiro, traiçoeiro, hostil... – cujo vestígio convocado na voz, mereceu, entretanto, ser condenado – pode ser revisto pela explicação histórica, menos interessada na ofensa dos agentes e mais engajada na iluminação fundamentada dos modos de viver de mulheres, homens, crianças e jovens que com sua luta, expressão e sentimentos no tempo são os agentes da História. Uma atividade de honestidade no tempo. 

***

Epílogo:
Imperadores de Bizâncio foram grandes legisladores e a revisão das normativas esteva na sua pauta, na verdade na dos maiores dentre eles.
A família imperial era bem importante em Bizâncio e a transmissão dinástica de poder aconteceu sim, mas... na narrativa desse império de pouco mais de 1000 anos há uma porção de casos de mutilação e afastamento violento da púrpura. Teve até mãe que mandou cegar filho! Drama familiar. Vou deixar uma tarefa: por que será que o apelido de Basílio II é Bulgaróctono?  Sabe, gente, essas metáforas transtemporais escondem umas coisas esquisitas à beça. Se eu fosse crédula, evitava algumas.


Ícone de Basílio II
(Taí uma pessoa morta de que tenho medo...)




[1] ARAÚJO, Giovanni Moraes de. Normas regulamentadoras comentadas. Legislação de segurança e saúde no Trabalho. Colaboradores Juarez Benito e Carlos Roberto de Sousa. 6ª Ed. revisada, ampliada, atualizada e ilustrada. Rio de Janeiro: Gerenciamento Verde Editora e Livraria Virtual, 2007. p. 32.  
Esse dado deve ser atualizado, são 37 normas e 36 em funcionamento.
[3] Dicionário Etimológico Nova Fronteira. (2ª ed. e 5ª impr). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992. p. 113.
[4] Uso expressão de Edward Said em O Orientalismo.
[5] GAUTIER, Théophile. Contes et récits fantastiques. Librairie Générale Française, 1990. Col. Le Livre de Poche. 

[6] Conferir aqui no blog o texto: “Renascimento e tradição bizantina, tradução do artigo “Les Grecs sans Byzance” de Christian Förstel”.

[7] Há alguns vídeos no youtube protagonizados pelo Mário Cortela com explicação clara e didática. Vai lá.
[8] McCORMICK, Michael. “O Imperador” in CAVALLLO, Guglielmo (Dir.). O homem bizantino. Lisboa: Presença, 1998. p. 222.
Detalhes: 1. O tradutor de McCormick empregou mesmo eminente e não iminente... e 2. Basileus é imperador.