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domingo, 29 de maio de 2022

Alcione em Curitiba – 28 de maio de 2022

 

21:30, no Teatro Positivo: uma mulher envolvida em um brilho lilás (seguindo a letra de Gilberto Gil: quanto mais purpurina melhor) adentra o palco para levar a plateia a um estado de alegria coletiva muito raro, depois de 2 anos. Alcione cantou seus sucessos mais conhecidos acompanhada de sua banda fiel. A maior parte do tempo, cantou sentada. Explicou ao público que vai fazer uma cirurgia na lombar em julho e que tem, em seguida, uma turnê pela Europa. Por isso, era preciso ficar sentada. Primeira coisa que faz pensar: 2 anos longe dos palcos teve repercussão na vida dos artistas. Na vida de artistas que orbitam muito distante da órbita de Alcione, o jejum da plateia foi fatal. Os artistas longe do sol viveram de subsídios, dos amigos, dos parentes, de doações de fãs desconhecidos e de dar nó em pingo. Não raro passaram necessidade, não tinham como pagar as contas básicas, passaram fome. Mas a órbita de Alcione também foi afetada. Imaginamos a quantidade de profissionais que são suas luas e que dependem que ela esteja no seu lugar, no palco. Isso talvez ajude a explicar a necessidade de vir a Curitiba para 1 show e cantar sentada quase todo o tempo e mal conseguir terminá-lo. Alcione sequer apresentou a banda...

A gente não sabe se Alcione sentia dor. Se sentia, a necessidade de honrar contratos e garantir o sustento de todas as suas luas fez com que ficasse lá, no seu trono branco de rainha, ao lado de uma mesinha, onde jazia seu copo de água e onde era depositada a sua xícara de café quentinho. Se não sentia, imaginamos talvez remédios para aliviar a dor, remédios que talvez tenham consequências no seu ânimo e na mobilidade. Na voz? Duvidamos. A voz era aquela nossa conhecida... e sentada, gesticulava, ia um pouco para trás no trono branco, jogando a cabeça, em algumas canções em que a entrega amorosa é protagonista. O corpo combalido tentava extravasar no limite imposto.

Alcione encantou a gente. Escolheu as músicas a dedo. Todo mundo sabia cantar tudo. Fomos o seu gigante backing vocal. Não dava para levantar e sambar... Outro dia, a gente foi a um show de samba, muito petit comité, ao ar livre, em que era possível sambar e a gente sambou! Mas no Teatro Positivo não era possível. Todo mundo sentadinho, um atrás do outro. Mas... os braços podem dançar! E eles vingaram os pés e os quadris rebolantes. Teve um momento, antecedendo “Ébano”, em que ela perguntou se havia ébanos presentes. Ora, havia... Uma de nós pensou que, se fosse um ébano, teria levantado ali no meio do corredor e teria dançado para ela! Será que eu caí na sua rede, ainda não sei...

Alcione não apresentou nenhum lançamento, nenhuma criação pandêmica (como vemos vários artistas tentando criar numa tentativa também de sobrevivência ao isolamento). Alcione passou por vários sucessos de sua carreira, que todo mundo sabia cantar. Mexeu com nossa memória e fez todos entenderem porque estavam lá naquele show. Na entrada, o brilho cintilante de sua roupa contrastava com os Retalhos de Cetim. Na passagem pelos seus sucessos, Alcione acrescenta um comentário essencial na música O Surdo, que traz a "pancada de amor não dói". "Dói, sim", a cantora finaliza a música marcando sua posição, ao mesmo tempo em que data e documenta a produção de letras machistas na música brasileira. Adendo necessário haja vista o público que a acompanha há anos e os novos ouvintes de uma geração em que a violência contra mulher não deveria mais existir. No meio do show, o ponto de beleza exuberante e esperançosa: Juízo final! Ah... esse sol que há de brilhar mais uma vez. Os raios luminosos irradiavam na plateia enquanto misturávamos a esperança nesse (re)nascer com a memória da saudosa Clara Nunes! Quando estávamos prontas para gritar o tão significativo "Meu vício é você", o show foi encerrado. Não teve nem BIS... E, não sabemos muito bem por quê, o público não se animou a pedir. Compreensão sobre o estado da cantora, talvez, necessidade de sair rápido do teatro para não aglomerar, tanto tempo sem ir a shows que se esqueceram até de como pedir BIS... Não sabemos.

Sobre o público, uma de nós escreveu em 2016, um texto sobre o comportamento do respeitável público em um balé infantil[1]. Remetemos nossos leitores a essa memória edificante... Mas o que havia de novo? Pouco, afinal, quase todo mundo ali estava sem máscara. Quê?! Sim, um público diverso, pintado de idades diferentes, gente de 20, de 30, 40, que passou dos 70 há um tempo, dos 80... e sem máscara. Enquanto isso, os veículos de comunicação noticiam o rebote da covid-19. A gente tirou a máscara 2 vezes para fazer 2 fotinhos e foi isso. No uber da ida e no da volta, máscaras. Só a gente, pois os 2 profissionais dispensaram. A gente aprendeu a sorrir de felicidade com os olhos, enquanto há perigo. Mas foi mesmo impressionante a despreocupação.

Os atrasos, o levanta e incomoda a fila inteira 1, 2, 3 vezes para ir sei lá onde, quando o 2º sinal já tocou... No texto de 2016, uma de nós falava da ausência da etiqueta de plateia. Se você tem implicância com a palavra etiqueta, pode trocar por respeito que vai servir. Serviu para uns, umas e outros, outras, no show de Alcione. No balé de 2016, uma de nós tocou no problema do salto na escada, e fica aqui prometido um texto sobre escada... O fato é que a gente tem de ter clareza sobre os limites do nosso corpo, para se sentir mais confortável, à vontade e se divertir.

Mas, então, por que ir ao show? Alguém pode alegar o não ineditismo do repertório e a disposição de todas as músicas nas plataformas digitais como justificativa para não ir. Respeitamos. Entretanto, a ida ao show é um pedido de presença. Sim, a presença da artista, a presença da música, cujos únicos intermediários do som até o público são os microfones e a mesa de som. O som "limpo", sem paradas para empresas mandando a gente comprar alguma coisa (parênteses apenas para uma reclamação sobre as propagandas ensurdecedores que antecederam o show. Mas só antecederam!) O show é a troca de presença entre artista e expectador; é a busca pela sinestesia que só a arte consegue produzir! A sinestesia que é um dos nossos trajetos para o sensível, a sensibilização, tão necessária e um dos caminhos de esperança para o sol que há de brilhar mais uma vez. Nós cantamos alto, dançamos, ficamos emocionadas. Um show revigorante para artista, a retomada da presença pelo público mesmo com incerteza... E a companhia especial, que realça a cintilância (Gil de novo) do sensível. Alcione, volte mais vezes para Curitiba. Há duas pessoas aqui esperando os próximos shows!

 

Deusa e banda

(Respeitável público, use máscara!)

Denise Miotto Mazocco

Marcella Lopes Guimarães

Em 29 de maio de 2022



[1] “Procura-se o respeitável público” <http://literistorias.blogspot.com/2016/12/procura-se-o-respeitavel-publico.html>


Fãs à espera da Deusa
Fãs à espera da Deusa e agindo certo











quarta-feira, 18 de agosto de 2021

GORDA!

 

Hoje, quando começávamos nosso treino no parque São Lourenço, com o grupo ainda mais junto, um homem passou por nós de bicicleta irregularmente – afinal, há avisos de que não é possível ainda trafegar de bicicleta no parque – e gritou: - Gorda! Outro dia, ainda durante as olimpíadas, um senhor passou por nós e disse: - Atletas olímpicas! Já ouvimos: - Que lindas! Mas é mais comum a gente dizer para nossos companheiros desconhecidos de parque e ouvir deles e delas: - Bom dia!

Um homem levantou pela manhã, fez xixi, ou não; escovou os dentes, ou não; tomou banho, ou não; tomou café, ou não; beijou a mãe, ou ela já morreu de desgosto; vestiu uma roupa decente, ou não; chaveou a casa, ou não; pegou a bicicleta com intenção de ir e vir e resolveu vasculhar o pouco léxico que coube à sua capacidade, para adentrar o parque irregularmente e desferir o vocativo: Gorda!

Eu não faço ideia de contra quem ele desferiu o golpe, mas reivindico. Foi pra mim! É pra mim! Sou eu, orgulhosamente! Eu engordei 17 quilos na gravidez e me senti a mulher mais espetacular que pisou essa Terra, nunca mais consegui recuperar aquela alta/autoestima rsrsrs Sobraram nesse corpo que levo para correr e que está hipertenso 4 quilos. Nunca retoquei meu corpo (mesmo!), não pinto o cabelo, mas atenção: Não imponho meus princípios a ninguém. O dia em que eu quiser me livrar da barriga de coabitação com Maria Clara, desafiar a gravidade (e a idade) recompondo os peitos da adolescente que eu fui ou pintar as madeixas cacheadas e, agora, compridas como há muito tempo eu mesma não via, farei! Eu posso harmonizar os princípios que me guiam hoje, de respeito ao corpo de 47 anos que pariu, com desejos que ainda não possuo. Por que não?

O homem passou tão rápido que não vi, poderia ter machucado alguém com sua bicicleta irregular. Desejei-lhe mal. Desejei que se arrebentasse, que se ralasse todo...  Agora, fria de banho e de ódio, todo o meu desejo de mal se encerra nesse texto. Quando eu colocar o ponto final, ele terá sumido – o homem ou o ódio, você escolhe o referente – e sobrará o que vou fazer com o seu grito daqui adiante: a opulência e a abundância... da força que leva um grupo de mulheres de idades diferentes, histórias, corpos a treinarem juntas; a partilharem vontades, planos para o dia, para o ano, as dificuldades com lesões, com as crianças, com os maridos, com os chefes...

Antes de chegar ao parque, eu tive a grata surpresa de acompanhar uns minutos a participação do meu colega Clóvis Gruner no programa de Maria Rafart e ele falava, nesse minutos, sobre o Talibã. Referia um texto que ele leu em que se noticiava como os professores de Cabul já começaram a se despedir de suas alunas... Eu me imaginei me despedindo dele, de minhas aulas, de minhas alunas, nós todas saindo, servidoras, nossa vice-reitora... Ele, que é ateu confesso, reclamou um princípio que infelizmente gente religiosa não segue, foi mais ou menos assim: nenhuma religião prega entre seus princípios a indignidade. Eu não sei se o homem que nos golpeou é de amém, se grita em templo até Jesus perder a audição, se batuca, se incensa.

O Afeganistão não é aqui, que ninguém ofenda (ainda mais) as afegãs, mas os duros golpes contra o corpo das mulheres doem por todo lugar em que teimamos ser.

47 anos de malcriação, né, mãe?


sábado, 4 de abril de 2020

Meu longo caminho até o supermercado: uma crônica da França


Detesto ir ao mercado. Mas há muitos anos assumi que é uma coisa chata que devo fazer uma vez por semana..., ou duas..., ou três... que coisa emmerdante[1] chegar em casa e me dar conta de ter esquecido a manteiga!!  Que irônico ter desdenhado a farinha e, em pleno sábado à tarde, ter vontade de comer um bolo feito em casa, com minha filha!! Mas nem nos mais aflitivos pesadelos em que me bato entre corredores de enlatados ameaçadores, sem conseguir escapar das amarras do sódio, eu imaginaria que, acordada, pudesse caminhar para o mercado como quem vai em missão. Hoje, enquanto amarrava o cabelo em frente ao espelho, cheguei a imaginar uma maquiagem preta e verde sobre a pele do rosto. Hoje, eu fui cantando andar com fé eu vou, mas, às vezes, vou mesmo de o senhor é meu pastor.

Há uma roupa de rua pendurada na entrada de casa. Eu me visto na entrada e me dispo nela também. Imagino a preocupação de meus alunos. Mas sosseguem: moro no 4º andar de uma cidade pequena. Não tenho vizinhos de altura. Ninguém terá interesse em ser fotógrafo voyeur de uma professora obscura de 46 anos, sem qualquer intervenção cirúrgica remodeladora. Nenhuma foto comprometedora ameaçará uma defesa. Essa roupa de batalha é usada para comprar cebola, alho, arroz, cenoura, leite, carne e pão. Hoje, comprei shampoo! Há duas semanas lavo o cabelo com sabão para deixar o pouco shampoo para a filha. Mas é sabão de Marseille! Phyna.

Todo o dia em que não vou ao mercado, vejo as autoridades na TV com seus números e gráficos. Assisto à análise dos médicos. Eles estão no hospital e na TV, é uma jornada imensa! Assisto ao desfilar do rosário: o diretor geral de saúde, o ministro, os ministros, o ministro da educação, o primeiro ministro. Esta semana, Édouard Philippe foi sabatinado por mais de 3 horas. Perguntas difíceis. Vejo a movimentação do presidente, quase me lembro da semana do presidente (no SBT) da minha infância e que Sílvio Santos, que não pode frear o tempo no seu corpo, quer ao menos reviver o mau gosto no tempo. Já escrevi que os franceses têm muito que reclamar do seu presidente. Aquela dama que substituiu o paizinho na presidência de certo partido e que profere declarações tão horríveis quanto ela é de fato uma mulher bela tem subido seus ataques. Tem evocado a lentidão do Palácio do Eliseu em decretar o confinamento. Só esqueceu-se de que ela mesma não sabia bem se ia ou se ficava (essa semana, o Libération lembrou. Meninos, eu li). O fato é que Macron esta semana apercebeu-se da necessidade de repatriar a sua gente: ser francês significa alguma coisa (...) quando há inquietude, a nação está lá, ela protege. Sinceramente, fiquei pensando no genocida que 58 milhões de brasileiros colocaram na presidência do nosso país: Algumas pessoas vão morrer, o brasileiro tem de parar de achar que o Estado vai resolver. Macron não é nenhum santo, mas é um líder. Seus colegas de Eliseu devem quebrar o pau entre eles, mas para todo mundo, para a bela dama que vocifera atrocidades e para outros oponentes, eles estão juntos. Os outros que latam! No Brasil é o presidente que late, que espuma, atleta falso, de passado duvidoso e presente de aterrar! Cada um vai para um lado, às vezes se encontram em encontrão, então caem como fruta podre. Os homens (mal) fardados, superiores na hierarquia original, são apequenados, não no seu desejo secreto de golpe, mas no seu bom senso, no seu patriotismo. Os eleitores com sobras de humanidade temem, pedem união. Não tem união com o genocida que prescinde dos nossos velhos e que finge não saber que pode perder os nossos jovens[2].

Hoje, o chefe da polícia de Paris falou uma besteira de grandes proporções: estabeleceu uma relação entre quem está lutando pela vida na reanimação e o desrespeito ao confinamento... Consigo achar explicação na pressão, na obrigação de defender publicamente o confinamento, no cansaço e no contexto (estava na rua quando falou, microfone aberto). Mas foi cruel e não há justificativa. Por todo lado, pediram-lhe a cabeça. Uma coisa que os franceses curtem.

Amanhã, chegam 13 pacientes de Estrasburgo aqui em Portiers, para desafogarem um pouco o grande leste. Vêm no TGV medical. Tenho gente querida em Estrasburgo. Sei que estão bem, entretanto. Que essa cidade que me acolheu e acolheu a minha filha tenha meios de ajudar esses 13 guerreiros que vêm em alta velocidade, mas quase sem conseguir respirar...

Faço a minha lista. Do que vou abrir mão? É um critério engraçado para uma lista de compras, mas afinal sou uma mulher com dois braços e duas sacolas grandes. O relógio de corrida me disse que tenho 1,5 km para ir e outro 1,5 km para voltar. Então, não basta querer, é preciso abrir mão. Cabelo amarrado, roupa de rua, álcool no bolso envolvido em papel higiênico raro, atestação, lista, celular, duas sacolas na bolsa... Beijo na filha. Mãe, você fica fora 1 hora? Sim, se eu não voltar em 2, você deve avisar às pessoas que eu já te ensinei. Não tenho máscara.

Uma das coisas mais lindas de ser um caminhante é ter um rio brando perto de casa. Atravesso o Clain, vejo os patos adoráveis com quem brinquei quando ir ao mercado era só enfadonho e subo a rua cuja inclinação me prova que estou em ótima condição física. Avanço. Atravesso. Entro. O mercado é pequeno, mas a gente se espalha bem. Uns 2 metros! O chão está pintado, cada um no seu quadrado. De repente, eu me lembro de jogar amarelinha. Contenho-me. As mulheres que trabalham no caixa são peixes em aquário. Meto tudo nas bolsas. Pago. Arrumo melhor na porta. Tento equilibrar o peso.

Na volta, vejo a escola da minha filha. Um edifício lindo construído pelos jesuítas. A escola está vazia. Pessoas mascaradas sobem a rua. Lamento não ter investido na maquiagem verde e preta. Lamento não ter tentado uma máscara de pano de prato. É um curioso Carnaval esse, em que preferimos dançar bem afastados. Nem os longos braços do boneco de Olinda seriam capazes de nos juntar... Estranho Carnaval esse que acontece quase no Domingo de Ramos. Revejo o Clain. Até semana que vem.

Nudez na volta. Sou destaque de fim de desfile. Minha alegoria é o spray de água sanitária. Nunca vi embalagens mais limpinhas! A gente tem uns orgulhosos bem idiotas na vida... Banho completo também. Esse negócio de ir ao mercado em pandemia é uma trabalheira danada. Nenhuma garantia de voltar saudável, a não ser a fé no cuidado e na música do Gil.

Enquanto escrevo, tento ficar em dia com os médicos, os ministros, as sabatinas, os números, a França, a Espanha, o Brasil, o whatsapp e a filha. Ai, esqueci da Itália! Não posso esquecer. Pra que tanta pressa, meu Deus? Balanço a cabeça para mim, peixe de aquário. Aquário com ascendente em gêmeos! A curva da reanimação inflecte devagar. É sutil, mas anima. Assisto ao 15, canal que é também o número da urgência. O médico que assume o turno da TV agora pede calma, nada de rua, gente de Carnaval! O confinamento continua a ser necessário. Nada de mercado três vezes na semana! Eu me acalmo. Mas o rio faz falta, tanto quanto os livros das bibliotecas com que sonhei quando me preparei para essa aventura... Lenine pede Paciência. Aceito. Desfilo duas Sapucaís[3] para ir e mais duas para voltar atrás do arroz, segurando o grito Liberdade, liberdade.

Esqueci do alho.


Poitiers, le 3 avril 2020


Venço 3 portas até a rua. 



[1]  Emmerder..., não precisa traduzir, não é? Quero esse verbo na língua portuguesa já!
[2] Esta semana, a Bélgica chorou a morte de uma menina de 12 anos.
[3] A pista do sambódromo do Rio tem 700 metros.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Filmes românticos de Natal para os românticos incuráveis

Abandone as redes sociais e estique-se no sofá por 90 minutinhos. Um certo canal de TV por assinatura anunciou “24 dias cheios de Natal”, ou seja, 24 horas de filmes românticos de Natal em 24 dias. Um prato cheio para os cinéfilos românticos. Presente! Como eu passei metade do mês fazendo de tudo um pouco, raramente consegui ver os filmes todos de uma vez. Mas o canal não prometeu 24 horas de filmes inéditos, então eu me beneficiei das inumeráveis repetições e posso anunciar com certo orgulho que, em 16 dias loucos de tarefas, consegui ver 12 filmes românticos de Natal!!!!!
Um cinéfilo romântico é só um romântico incurável que ama filmes do gênero: alguém que quer avisar o casal quando o equívoco se apresenta; que torce por eles; que não perdoa quem atravessa a cena do primeiro beijo; que suspira internamente quando o ambiente é hostil, ou seja, quando há outras pessoas na sala... Junte tudo isso ao Natal e parece que os problemas, as crises, as decepções são lavados pela neve ininterrupta na tela: neve que eu ou você de fato nunca sentimos no rosto.
O mês de dezembro na nossa Curitiba tem nos dado dias frios: convidativos para um casaquinho e uma coberta. O verão degenerado predispõe o corpo para sentar diante da TV. A filha aprendeu a fazer cookies e eu senti vontade até de preparar chocolate quente! A filha (ainda) detesta os filmes românticos de Natal, pode ser que nunca aprecie ou pode ser só a timidez da pré-adolescência. Na minha, eu escondia bem, mas aos 45 já saí do armário faz tempo!
O melhor de assumir a cafonice é saber que a gente também não abre mão de achar sumamente tosco o rapaz estar pensando na vida ou na morte da bezerra, no meio da rua, debaixo de uma nevasca, com o presentinho que ganhou da moça, e encontrar o patrão para quem ele mentiu metade do filme e que lhe dá, entretanto, uma promoção! Trata-se de “Aplicativo para o Natal”, um tinder para solteiros e solteiras que precisam de companhia em eventos, sem que isso implique romance ou sexo. Ah, antes que você se assanhe, devo esclarecer que não há sexo em filmes românticos de Natal. Temos direito a apenas um beijo no final, no máximo 2: beijinho ou beijinhos muito corretos.
Tem singeleza exagerada nos filmes românticos de Natal, mas isso não refreia o cinéfilo romântico. Na verdade, a gente acha até bonitinho..., é como ter um pinguim bebê na geladeira. Esse texto não julga as (inúmeras) arestas do gênero. Na verdade, enquanto via esses filmes curtinhos (em média 90 min.) e feitos para TV, comecei a pensar nas várias coisas que eles me diziam e achei que isso merecia duas ou três considerações. Se ao final do texto, você não julgar que elas bastam ao menos para um bate papo antes da ceia, pode ao menos não julgar repulsivo alguém que se senta uns 15 minutos (ou mais...) para assistir com o coração na mão a confissão de Candace para a cidade toda, de ter duas mãos esquerdas, enquanto sua mãe é uma espécie de Martha Stewart!!!
 Em 11 dos 12 filmes que vi, encontrei mulheres assoberbadas: comissárias de bordo (Conexão de Natal), escritoras (Uma viagem de Natal), arquitetas (Flores de Natal), empresárias (Um Natal de Cinderela, Aplicativo para o Natal, À Procura de um Papai Noel), atrizes de sucesso (Natal fora de casa), produtoras de TV (Estrada para o Natal), atendentes (12 dias de presentes) e decoradoras (De repente noiva). Decoradoras me lembram Doris Day em “Confidências à meia noite”, filme que eu adorava ver nos finais dos anos com o meu pai. Essas mulheres são boas filhas, superaram em muito as expectativas de suas famílias e, ainda que algumas vezes tenham dúvidas sobre isso, o pai, ou a mãe ou um amigo muito próximo vai esclarecer que elas são demais! Obrigada, roteiristas amáveis.
Essas mulheres – na maior parte dos filmes são elas as protagonistas – não estão procurando um namorado. Elas estão cheias de planos não românticos, elas conhecem o mundo, têm fotos de vários lugares em que já estiveram, mas o amor atravessa a sua vida e ele faz com que elas achem o caminho de volta. Ulisses de saias! Também acham um jeito de acolher o amor na sua vida ocupada. Homens e mulheres se encontram. Eles se veem, reparam nas singularidades um do outro, eles se apaixonam.
Em 11 dos 12 dos filmes, há crianças. Elas têm entre 7 e 10 anos. São meninas e meninos, sobrinhos e sobrinhas, filhas e filhos de viúvos, uma viúva e um divorciado. As crianças são fundamentais, elas mobilizam o “espírito de Natal”. Elas creem em Papai Noel, fazem questão da decoração, espalham a sua pureza pelos quatro cantos onde se agitam adultos engajados nas festividades. Não raro as crianças colaboram para o namoro dos pais: “Conexão de Natal”, “Natal fora de casa”, “12 dias de presentes” e “Uma viagem de Natal”. Em “Um Romance de Natal”, trata-se do romance do tio da criança.
As famílias são todas de mamãe, papai, vovô, vovó, filhos e filhas. Não há duas mães ou dois pais sob o mesmo teto. O rapaz de “Aplicativo para o Natal” é bonitão, mas, se eu fosse a moça, voltava ao aplicativo numa boa e deixaria ele se descobrir. Match.
Os viúvos, a viúva e o único divorciado não namoram há muito tempo. Estão concentrados no trabalho e na criação dos filhos. Na sua agenda, não cabe nem uma quarta-feira com os amigos; na sua memória, não há noitadas ou bebedeiras. São pais sérios e decentes. É a noiva chata de “12 dias de presentes” que sai de casa e deixa o caminho livre para o fofo protagonista! Sim, há mulheres e homens chatos, mas há gente bacana à beça. Maioria. E todos lindos! Oh, glória!        
Em todos os filmes, há amigos. Amigos verdadeiros! Eles podem ser os irmãos e as irmãs, mas há também vizinhos, amigos de infância, do trabalho... Não há canalhas. Obrigada, obrigada! Eles são o ombro amigo, a palavra que falta, a consciência vigilante e o estímulo necessário. O casal precisa deles, do seu empurrão!
Os enfeites enchem nossos olhos e até causam confusão: “Um Natal muito, muito louco”. Há metros de anéis de papel vermelho e verde feitos em casa! Esses filmes devastaram florestas inteiras em busca da árvore ideal. Quem diria que pudessem ameaçar o meio ambiente?! Há muita gemada. Em “À procura de um papai Noel”, a receita! Há sempre muita comida, muito biscoito de gengibre. Se a revista de Liz Livingstone existisse, eu era capaz de fazer assinatura! E a neve? Muita: bonecos de neve, jogos na neve, bolas de neve atiradas carinhosamente, risos de neve.
Os suéteres são ridículos e fofinhos, com aquelas renas, estrelas, trenós... Ninguém pode querer enlaçar de maneira mais ousada uma rena desses, mesmo que envolva um belo talhe ou mesmo quando há um empurrão do roteiro: a protagonista cai nos braços do rapaz, no momento em que ela está colocando um enfeite no mais alto da árvore! Se a memória não me falha, duas protagonistas caíram nos braços dos amados. Mas não tem clima, gente. Rena, trenó, Papai Noel de narizinho vermelho... O vermelho é a cor das mulheres e do Noel! Em “Aplicativo para o Natal”, quando a atriz está vestida de vermelho na cena, ninguém mais está. Mas é vermelho Natal, não paixão, mesmo que sejam bem parecidos...
  Engraçado, esses filmes tão pudicos são muito recentes. Estamos falando de filmes de 2016, 2017 e 2018, sobretudo. Em dois deles, as coadjuvantes esperam seus maridos militares que estão em manobra e chegam para o Natal. Em “Flores de Natal”, o casal espera um novo bebê, ele ainda não sabe... Como assim? Rsrsrs Em “Um Romance de Natal”, é o vídeo da filha pedindo ajuda para organizar uma festa de volta para o pai militar que espoleta os acontecimentos. Suspeito gostos republicanos.   
Há uma coisa que me interessa muito: a oportunidade encontrada pelas mulheres para amar. A comissária de “Conexão de Natal” viu o mundo. Suas fotos encantam a filha do seu amado, um jornalista preso à cidade de Chicago. Ela é uma mulher feliz, realizada e capaz também de estar à vontade entre os membros daquela família que a acolhe no feriado. Compartilha com o pai da menina um enigma: gostaria de saber como os pais de conheceram na cidade de Chicago em que ela mesma nasceu, mas foi embora pequena. Ele é jornalista e está disposto (e interessado...) em ajudar. No Natal, entretanto, ela tem de voar. Lá pelas tantas, escolhe dar meia volta. Atenção: não largar tudo, mas se dar a oportunidade de ficar algumas vezes. O beijo, finalmente! Caso parecido com “Natal fora de casa”, espécie de Um Lugar Chamado Notting Hill. A atriz não larga tudo, ela se dá uma chance e, um ano depois, a gente sabe que ela continua a fazer sucesso e está ainda ao lado do namorado não ator, todos felizes. De todos, ele é o meu favorito. Hummmm...
De uma forma singela, esses filmes cheios de biscoitos, famílias de mamãe e papai, bonecos de neve, árvores cortadas, dizem a nós mulheres – sem dúvida, somos os seus alvos – que dá para ganhar o globo de ouro e ficar com dono do charmoso lodge; que podemos tocar a empresa de eventos do nosso tio e casar com o “príncipe”. Mas esses filmes dizem mais: que no mundo narcisista das selfies, as pessoas podem olhar umas para as outras sem pressa, elas podem se conhecer com calma, podem confiar na possibilidade de uma nova chance, ouvindo os amigos, olhando as crianças e, sem afobação, podem esperar uma nova chance para beijar. Dá-lhe, Pepeu!
Até 24/12, sobraram alguns dias para os filmes românticos de Natal. Os românticos incuráveis nem precisam de convite! Mas os descolados e conceituais também estão autorizados a fazer uma paradinha secreta para rir das pouco lapidadas situações, para sofrer com o equívoco ridículo que nos separa de quem amamos, para se dar a chance de pensar sobre o amor como possibilidade que acolhe e não exclui. Os filmes de Natal estão cheios de tradições inventadas para dar sentido a essa vida cheia de problemas... “Sua honestidade é revigorante” afirmou uma personagem que eu acho que só apareceu em uma cena de filme que ainda não consegui terminar. É uma coisa bonita de dizer, né? Me dá vontade de sonhar com um mundo de figurantes assim!

Feliz Natal, gente romântica, cinéfila e leitora!

Filmes citados e vistos:
1. 12 dias de presentes (12 Days of Giving , 2017)
2. À procura de um papai Noel (Finding Santa, 2017)
3. Aplicativo para o Natal (Mingle All the Way, 2018)
4. Conexão de Natal (Christmas Connection, 2017)
5. De repente noiva (A December Bride, 2016)
6. Estrada para o Natal (Road to Christmas, 2018)
7. Flores de Natal (Poinsettias for Chritmas,2018)
8. Natal fora de casa (Christmas in Homestead, 2016)
9. Um Natal de Cinderela (A Cinderella Christmas, 2016)
10.    Um Natal muito, muito louco (Christmas with the Kranks, 2004) – o mais fora da curva, mais para comédia que romântico de Natal
11.    Um Romance de Natal (Entertaining Christmas, 2018)
12.    Uma viagem de Natal (Christmas Getaway, 2017)

Não é filme de Natal, mas Confidências à meia noite (Pillow Talk, 1969), com Doris Day e Rock Hudson, é simplesmente imbatível! You are my inspiration, Eileen, Marie...  Y¯, para todos os Natais da nossa vida.


Uma pausa

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

O blog completou 4 anos em 2019 e o presente cheira a Natal: Literistórias entrevistou uma historiadora cheia de talentos - Profa. Miliandre Garcia de Souza. Confira!

Conheci Miliandre em uma banca de qualificação de Doutorado do PPGHIS/UFPR. Tratava-se da banca de José Gustavo Bononi, orientando da colega de DEHIS e PPGHIS Rosane Kaminski[1]. Eu me sentia um pouco o peixe fora d’água, afinal como uma medievalista poderia se sentir em banca sobre o Teatro Oficina, entre 68 e 72?! Só mesmo o imenso carinho de José Gustavo pela velha professora e a confiança inabalável da colega Rosane para explicar isso... Essas bancas fazem a gente estudar muito, ter uma atenção de filatelista e rezar para não falar (muita) bobagem. Miliandre me chamou logo a atenção por um dado que não tinha a ver com a banca. Entrou na sala linda, leve, sorridente e fresca de batom vermelho. Já tive conversas significativas com minha amiga Fabiana sobre essa história de batom vermelho! Eu tento raramente porque sou covarde e, quando vejo uma mulher ficar tão à vontade assim, tendo a gostar dela no ato. Pois não foi diferente. Ainda por cima, falou pelos cotovelos coisas de ajudar muito o José Gustavo. Tendo a gostar muito de quem vai para as bancas de qualificação com mangas arregaçadas para colaborar. Pois não foi diferente também.
E não é que o batom voltou na defesa pública?! José Gustavo foi aprovado e a velha professora espera que esteja feliz, realizando trabalhos que lhe deem muita satisfação intelectual. Um dia, no FB, descobri que aquele batom vermelho bordava e escrevia textos com pensamentos tão próximos dos meus que até admirava! Descobri ainda pessoas em comum, pessoas de quem gosto demais, ainda que nem sempre consiga ver e conversar mais amiúde. Mas confesso que a descoberta do tecer, as imagens dos bordados depois de terminados, os motivos, as cores, a parede da casa que nunca visitei (olha como sou abusada!) iluminaram um mantra que repito por aí: a necessidade de uma vida mais plena, cheia de realizações diversas e descomprometidas com o desempenho que nos constrange nesse mundo em que, se concordarmos com Byung-Chul Han[2], estamos doentes de excesso de positividade. Não é que eu ache que Miliandre está imune a isso, acho mesmo que não. Penso só que, desde o batom, estou diante de uma mulher forte e que exerce a vida plena, com seus bordados, filhos, livros, máquina de costura, alunos, marido, casa e estojo de maquiagem.
Miliandre estuda umas proximidades difíceis da história do Brasil com um disco na vitrola, revirando as coxias, olhando comprido para os figurinos, cores, textos e descobrindo que, em meio a tantas diferenças, grupos, artistas, homens e mulheres não abriram mão de dialogar “em dimensões estéticas e políticas”, no período da Ditadura Militar no Brasil.
Vem livro novo por aí, ela fala dele na entrevista! Ao lado de seu mestre Carlos Fico, reuniu um timão para lidar com um tema importante desde sempre. Miliandre refuta a exclusividade do presente que vivemos. Enquanto o livro não vem, eu a vejo recortando motivos, desenhando em bastidores e lendo uma historinha singela que escrevi. Quem sabe um dia, seus pontos não encontram os pingos dos i(s) dessa narrativa de uma avó emprestada?
Quanto ao batom, desconfio que ela tem vários tons de vermelho!

LITERISTÓRIAS: Miliandre, você é uma historiadora bordadeira! Como é isso? Quando e como o bordado entrou na sua vida?
MILIANDRE: Querida Marcella, é uma grande honra comemorar com você e seus leitores o quarto aniversário de Literistórias.
Bem, o bordado entrou na minha vida há muito tempo, não só o bordado como outras manualidades. Como em muitas famílias, essa atividade foi estimulada desde muito cedo, ainda menina. Minha mãe e minha tia, costureiras, me apresentaram o universo da costura, outra tia me iniciou nos pontos básicos do bordado e mais uma tia me ensinou a tricotar. Nessa época, no entanto, eu era uma menina muito “elétrica” como diziam, hoje talvez me diagnosticassem com “hiperatividade” (risos). Magricela e mais alta que a média das meninas, eu era sempre escalada para as atividades esportivas e gostava muito, fiz ginástica olímpica, rítmica e voleibol com expectativas de profissionalização.
Nada disso nem meus interesses escolares durante o ensino fundamental apontavam para o interesse pela história ou pela literatura, que nasceram por influência direta de professores do ensino médio e do cursinho e por intermédio de um primo que já era estudante de sociologia e fã da Elba Ramalho.
Atarefada, mais correto dizer atordoada com as leituras da graduação, depois com as pesquisas na pós-graduação, protelei durante muito tempo pegar numa agulha ou usar a máquina de costura para fazer qualquer reparo ou pregar um simples botão.
Um detalhe que eu acho importante mencionar: essa máquina de costura que tenho foi o presente mais lindo que minha mãe poderia me dar. Era a sua primeira máquina de costura, da marca Singer, adquirida em 1972, antes do meu nascimento. Para minha surpresa, minha mãe presenteou-me com a nota fiscal, às quais, máquina e nota, eu guardo com muito carinho, registro físico de uma história que atravessou o tempo e gerações e que vestiu muita gente: pai, irmão, prima, primo, tia, tio, vó, vô.
Por algum motivo que não sei precisar, guardei a memória daquele ponto que minha tia havia me ensinado na infância numa visita familiar. Enquanto eu procurava pelo ponto e não encontrava, fiz muitas outras coisas: tricô, tapeçaria, arraiolo, mosaico, sabonete, vela.
Em algum momento, descobri que as atividades manuais eram essenciais para o meu desenvolvimento, minha existência no mundo, como pessoa, como profissional, pois ao praticá-las eu organizava a vida, o trabalho, também me organizava internamente, me dava, me permitia dar o tempo necessário (e nem sempre possível) à introspecção, ocupando com isso mãos e pensamentos simultaneamente.
Um dia, a trabalho, fizemos uma viagem a Portugal. Nas proximidades do Porto, resolvemos visitar a cidade de Amarante. Lá, até que enfim, encontrei o tal ponto, com nome e endereço: se chamava rococó e morava em Amarante. Encontrei outros pontos colegas seus, todos da família do “bordado livre”. De Amarante, trouxemos algumas peças bordadas, de lembrança e na esperança de aprender a técnica e por meio dela reencontrar a menina que eu era, mas que havia crescido e já tinha uma menina também, Alice, e carregava, sem saber, um menino no ventre, Francisco. Coincidentemente, naquele breve passeio, sem saber que estava grávida, visitei o santuário de São Gonçalo do Amarante, o santo mais importante da região, a quem mulheres e homens recorrem para pedir coisas relacionadas à fertilidade e à sexualidade.
Também nessa época, conheci Carol, mãe do Nicolas, na escola da Alice. Carolina Sobreira, xilogravurista, ilustradora, gravadora. “Um balaio de coisas”, como ela gosta de dizer. Nesses encontros entre arte e história, ela cursava artes visuais na UEL e eu fazia parte do departamento de história também da mesma instituição, descobrimos amigos em comum, ficamos amigas. Carol decidiu ter um segundo filho, mas nem tudo ocorreu como planejado. Vicente infelizmente faleceu com poucas semanas de vida. Enquanto passava horas na UTI neonatal, Carolina aprendeu a bordar e bordando encontra-se até hoje. Com ela, fiz uma oficina de bordado e aprendi os pontos básicos. A partir disso comprei livros, vi muitos vídeos, treinei vários pontos e também cá estou desde então, bordando histórias, paixões e afetos, em viagens, salas de espera, reuniões, “nas horas à toa”, quando eu “ando a cismar”, como escreveu aquele “compositor confuso” que me rodeia...

LITERISTÓRIAS: Miliandre, sua pesquisa atual relaciona música e teatro[3]. O que só a arte responde ao historiador?
MILIANDRE: Marcella, penso que só a arte é capaz de acessar certos lugares que nenhum outro meio de comunicação, área do conhecimento consegue. A arte cria universos que nos auxiliam a enfrentar estados nem sempre tangíveis, realidades nem sempre favoráveis, sejam elas históricas, sociais, econômicas ou até mesmo existenciais. A arte conecta seres humanos e os conecta naquilo que se tem de mais humano. A arte emociona, desestabiliza, desconcerta, faz pensar, também faz rir, mexe com sentimentos, preconceitos e certezas. O diálogo entre arte e história é um daqueles encontros mais que perfeito, posto que se complementam no que tem de diferente, não de igual. Nosso papel, como historiador que trabalha com arte, teatro, música, cinema, literatura talvez seja o de tornar tangível ou próximo disto aquilo que nem sempre tem tradução, não plena. É um desafio permanente, cujo resultado (suponho) é e sempre será incompleto, porém muito necessário.

LITERISTÓRIAS: Miliandre, quem você lê com paixão?
MILIANDRE: Leio com paixão até mesmo as leituras mais técnicas. Sempre penso, ao menos espero tirar dali algo que me motive de alguma maneira, que estimule a minha curiosidade para além do texto, que me faça buscar em outros lugares coisas que possam vir a se juntar àquela leitura. Mas sonho mesmo ter, criar tempo para me dedicar às leituras que sinto que estou em débito, àquelas leituras que, como disse um amigo sobre o disco de João Gilberto & Stan Getz, “formam caráter”, aquela lista de clássicos que o Calvino nos indica fazer, ler por prazer e quem sabe conseguir inspirar essa paixão em outras pessoas (estudantes ou não) como você faz tão bem. Como disse Ana Maria Machado, “a leitura é um hábito que se cria pelo exemplo” e nisto você é mais que exemplar.

LITERISTÓRIAS: Miliandre, queria que você explicasse a importância do lançamento da coletânea CENSURA NO BRASIL REPUBLICANO organizada por você e por Carlos Fico no Brasil de hoje.
MILIANDRE: A censura é uma prática autoritária que não está restrita a um lugar nem a um tempo histórico, ela atravessa temporalidades e espaços geográficos. É ressignificada de várias maneiras, mas sempre que governos, autoridades, políticos a julgam necessária para conter, controlar, coibir, inibir algum tipo de ação ou comportamento, individuais e coletivos.
No Brasil, a censura esteve presente desde os momentos fundadores, isso se considerarmos que também a Inquisição exerceu algum tipo de censura. Foi institucionalizada e amplamente utilizada pelo governo imperial e atravessou praticamente todo o período republicano até 1988. Esteve presente em regimes ditatoriais como o Estado Novo e a ditadura militar, mas também em períodos considerados democráticos ou de transição democrática. O fato de ter sido extinta da última Constituição brasileira não significa que estejamos plenamente livres desse recurso, dessa ferramenta, desse mecanismo que mais limita que constrói, quem mais cerceia que cria condições de desenvolvimento, muito menos quando imposta à literatura, ao teatro, ao cinema, à música, às artes em geral e às manifestações do pensamento.
Ao contrário, desde que ela foi extinta da Constituição em 1988 não deixamos de vivenciar situações bastante embaraçosas envolvendo algum tipo de controle, eventualmente classificado como censura. Principalmente no contexto atual no qual o Estado já não mais se responsabiliza por ela, mas o governo impõe formas escamoteadas ou declaradas de censura, como também estimula entidades de representação e até mesmo indivíduos a exercê-la indiretamente, a perseguir artistas, intelectuais, jornalistas, humoristas e professores e inviabilizar a produção artístico-cultural no Brasil seja pelo boicote, seja pela ofensiva direta, incitando o público, as pessoas de modo geral, a interferir direta e muitas vezes violentamente num evento, numa apresentação, numa exposição. Isso é tão ou mais grave que criar um órgão com censores credenciados, concursados para realizá-la como aconteceu em outros momentos da história recente brasileira.
Saber que ela existiu e entender como foi praticada, sob quais argumentos, com que propósitos, por quem, em que governos e regimes, que setores da sociedade a apoiaram ou mesmo requisitaram maior rigor, penso ser um passo em tantos outros a serem dados nesse “longo caminho” de construção da cidadania no Brasil.
Se “é preciso estar atento e forte” e o “caminho se faz ao caminhar”, como já disseram dois gigantes, essa coletânea Censura no Brasil republicano, a ser publicada em dois volumes pela editora Sagga em 2020, é nossa contribuição à sociedade. Buscamos com ela ultrapassar o caráter opinativo que tem permeado o debate público no Brasil e analisá-la a partir de experiências concretas no Brasil e no mundo. Como não haveria de ser diferente, buscamos estar ao lado da “cultura, contra a censura” e estabelecer um pacto social amplo e consciente de rejeição da censura como mecanismo de controle e cerceamento de ideias. A tarefa não é fácil, não tem sido, mas assumimos esse compromisso como profissionais e cidadãos.

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Quando LITERISTÓRIAS completou 2 anos, eu ofereci aos leitores uma entrevista com a amiga Maria Cristina Pereira  (USP), um sucesso de visualizações e orientações para jovens historiadores da arte. Quando Literistórias completou 3, quem brilhou foi a amiga Mônica Figueiredo (UFRJ), grande especialista da obra de Eça de Queirós no Brasil e autora de um discurso de formatura que viralizou nas redes sociais (turma Marielle Franco, de 2018). Se quiser matar as saudades, procure abaixo em “entrevistas”. 


Miliandre Garcia, seu filho Francisco e os bordados, na casa da historiadora.



[2] Sociedade do Cansaço (Petrópolis (RJ): Vozes, 2017).
[3] Pesquisa atual: “Entre o palco e a canção: afinidades eletivas entre a Música Popular Brasileira (MPB) e o teatro engajado na década de 1970”.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Os homens que não amavam as mulheres e que convenceram outras a não amarem também


Era uma vez um homem muito poderoso que se descobre um dia traído. Cego de ódio, arquiteta um plano que o afastaria completamente da possibilidade de uma nova deslealdade: desposa mulheres e, no dia seguinte à consumação do intercurso, condena-as à morte. Em outro era uma vez, um homem inescrupuloso usa a própria mulher para cegar o seu patrão. Este, por sua vez, “envenenado” pelo criado, mata a esposa que era, afinal, inocente de toda a perfídia alegada. Muitos era uma vez depois, uma mulher esplendorosa – “ela é uma coisa extraordinária, ela é muito grande” – alucina um indivíduo medíocre que não podendo conter essa grandeza, mata a mulher, para “reduzi-la a nada”. Assim está escrito. São tantos era uma vez e tão fácil reconhecer o sultão Šahriyar de As mil e uma noites (cuja forma mais antiga e inteira é dos séculos XIII ou XIV), Iago personagem da peça Otelo, o mouro de Veneza (Shakespeare) e o Bexiguinha do romance Aparição (Vergílio Ferreira), que qualquer pessoa poderia acrescentar mais leituras, a partir das minhas sugestões, a um rico e sanguinário repertório literário, em cujo enredo está posto o assassinato de personagens femininas. É claro que isso é uma maneira de ver as coisas, afinal personagens masculinos também morrem. A literatura é bem diversificada em seus desejos de vingança.
As histórias que salpiquei tiveram grande impacto sobre mim em diferentes momentos da vida e há dias, enquanto observo acontecimentos por todo o lado, e em especial no Brasil, esses textos me vieram novamente ao coração. Šahriyar, Otelo e Bexiguinha não podem suportar a frustração de não terem sido amados como eles desejaram sê-lo. É como se, a partir do momento em que as mulheres entraram em suas vidas, em suas casas, palácios, em seus quartos... tivessem de abrir mão de toda a sua vontade para saciá-los exatamente como eles sonharam ser saciados. É óbvio que penso nas violências que atravessam a vida das mulheres que mudam de ideia, apesar de seus “sinais”...
Uma digressão rapidinha a propósito dos “sinais”: adoro ouvir rádio e dia desses ouvi de um locutor de uma rádio de sucesso que mulheres como essas “empoderadas” e que adoram dizer que “não é não” andam contrariando o que acontece “na real e na noite”, quando homens e mulheres se encontram. Segundo sua narrativa entrecortada de elipses maliciosas (creio que em razão do horário da emissão), as mulheres dão “sinais”, vão aos apartamentos dos homens e depois querem ir embora (!!!), sem consumar o que quer que esteja plantado na cabeça dos... homens! Ora essa! O machismo é uma doença de proliferação celular tão extraordinária que o locutor não questionou em nenhum momento as próprias palavras, em que jorravam litros de pus sobre o protagonismo masculino (exclusivo) nas decisões sobre o sexo. Mas havia outro homem lá, que disse uma coisa diferente: Sabe, cara, acho que não é não mesmo, vai que a garota não gosta da cara do meu [falo][1]?!
Agora, voltando aos frustrados, somos todos e todas em alguma medida insatisfeitos com a resposta real às nossas expectativas completamente irreais... A frustração não quer nem saber: é um sentimento grande, que vai tomando conta de bons hectares do nosso coração. Alguns de nós ficam na fossa (alguém ainda usa essa palavra?); outros, recorrem aos amigos e amigas e a seus ombros largos; outros precisam de ajuda profissional; outros machucam e matam.
O que tem me chamado muita atenção é um tipo de frustração bem específica, que nasce no sexo e vai tomando conta de outras áreas da vida dos pudicos ou dos ressentidos. Assim, porque alguém ousa uma escolha que só interessa aos implicados, outros que observam a escolha não suportam o gozo alheio (quase sempre, não têm fruição alguma); ou, porque alguém adentrou o quatro com outro alguém, tem de consumar o que só um continuou a querer, segundo a opinião do que insiste no ato e de quem não estava lá (!), mas quer gozar só de imaginar... O que isso tem a ver com as mulheres? Quase sempre, somos as que mudam de ideia ou estamos entre os que ousaram.
Nem sempre a cama é evidente, entretanto. Quando uma autoridade vem a público chamar um homem de “menina” porque esse homem é homossexual, o que a autoridade busca? Uma das possibilidades de resposta é o menosprezo do homem que recebeu a identificação, o que significa que “menina” passa a ser um termo pejorativo, um xingamento. Novamente (porque professora adora explicar tudo explicadinho...): o substantivo menina passa a ser um xingamento na boca de um homem, que usa a palavra como adjetivo para ferir um outro. Eu vejo Iago. Quando um homem, ou um grupo deles, se rejubila ante a morte de uma mulher poderosa, ou obtém fruição com a notícia da violência perpetrada contra mulheres que ousaram ter escolha, quem eu vejo? Eu vejo o medíocre e perigoso Bexiguinha. Quando leio a defesa da subserviência feminina entre ícones da moda diante do desejo exclusivo do outro e/ou o apagamento do nosso desejo, eu temo ver o poderoso Šahriyar.
Entre os homens reais que executam projetos semelhantes aos personagens literários e os que “não fazem nada”, mas calam, riem, trocam um gracejo ou outro no whatsapp com os amigos, aceitam a piada “inofensiva”, mostram enfado diante dos “exageros” das suas mulheres e ousam um like em postagens duvidosas protegidos pela tela, há uma distância que pode ser bem desconfortável, monstruosa... É como se o reino dos ogros tivesse se instalado definitivamente entre nós! Já escrevi sobre isso[2]: não aplaudo o “inofensivo” Shrek, aliás temo que ele convença as meninas a se tornarem ogras por amor. Ora, eu conheço mulheres casadas com ogros e que não se tornaram ogras! Obrigada, queridas, continuo a reconhecê-las!
Os homens vivem entre nós e está claro que boa parte de sua mudança ou do sutil deslocamento das ideias dos mais cabeças duras vêm muitas vezes da convivência conosco. Eita, responsabilidade! Mas não estou dizendo que devemos insistir com aquele namorado possessivo (e/ou violento...), aliás, sugiro escapar dele!! Não foi isso que Jane fez quando descobriu o segredo de Mr. Rochester em pleno altar[3]?! Gente, esse personagem insistente precisou ficar cego para reencontrar Jane nas bases em que ela estava disposta a construir o futuro: um futuro amoroso em que ele inclusive seria cuidado e amado por ela, em pena liberdade! Jane, Jane... Quem de nós não soluçou com a morte de Helen não tem coração!! Lembro: elas eram só meninas...  Meninas que apoiam meninas. Isso me emociona.
Desdêmona e Sofia foram surpreendidas e mortas; Šahrazad conhecia o destino das suas antecessoras e ousou uma alternativa. Seu risco, entretanto, era imenso! Essas mulheres tiveram famílias, amigas, criadas, irmãs... Apenas Šahrazad conseguiu mobilizar apoio de sua irmã Dinarzad a tempo de viver. Sua irmãzinha, escondida debaixo da cama... Lembra quem rouba o lenço de Desdêmona? Emília..., esposa de Iago, move-se por ele! Ela se arrependerá de ter feito o que fez, mas extemporaneamente e perderá a vida também. Dinarzad correu todos os riscos com sua irmã para salvá-la. Estavam do mesmo lado, o lado da vida e da esperança.
Sabe, os ogros podem seduzir as princesas com a sua aparente rebeldia ou não conformidade com a etiqueta da corte; podem convencê-las temporariamente de que o comprimento da saia das suas amigas é sinal da anulação do seu desejo em prol da vontade dos seus pares ogros; podem ser eleitos; não ter escrúpulos; podem dar voz às mulheres para elas dizerem, sem desconfiar, o que eles querem na verdade; podem convidá-las a seus hotéis, convencê-las de que bastou entrar no pântano para chafurdar com eles, mas... podemos lembrar da força das meninas tanto para tentar salvar as Sofias que conhecemos, quanto para virar ofensa em elogio e, assim, reinvestir as palavras do seu sentido e do seu poder.



Illustration des Mille et une nuits, par Léon Carré (1929).

Bibliothèque nationale de France.





[1] Ele empregou outra palavra. Eu uso um sinônimo mais bonitinho e meigo.
[2] Em “Sobre a gente que vive em palácios, pântanos e em uma casa azul de papel”, conferir aqui no blog: http://literistorias.blogspot.com/2016/06/em-tempos-de-lancamento-de-menina-com.html
[3] Romance Jane Eyre de Charlotte Brontë.