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segunda-feira, 6 de março de 2023

Uma receita que é também um modo de lembrar (5 anos, em 5/3/2023)

 

Há 5 anos, o coração do meu pai parou de bater. O coração ambíguo dos Guimarães: forte na intenção e frágil entre socacos da fisiologia e das escolhas da vida. Meu pai acreditava que adentraria em uma outra vida e eu espero que sua crença tenha encontrado uma resposta ainda mais bonita que a sua esperança. Nesses 5 anos, a memória do seu passamento foi vivenciada por mim e por minha mãe com a tradicional marcação de missa e ponto na Igreja. Este ano isso não me passou pela cabeça. Estou brigada com a igreja em que me criei? Brigada não é palavra precisa, mas o fato é que tive uma outra idéia e, ao encerrar o dia, com uma serenidade rara, acho que acertei, sem acumular dívidas. Esse texto é sobre memória e tempo.

Ao longo da semana, encasquetei de preparar a carne assada dele e, como minha mãe está hospedada em minha casa, recuperando-se (bem) de um problema de saúde, pedi a ela que fizesse no almoço do dia 5 a sobremesa favorita dele: manjar branco. Já preparei a carne assada de meu pai muitas vezes, mas é fato que, desde que ele se foi, não tinha voltado à receita. Bem, voltar à receita talvez seja demasiado..., nunca houve receita em papel. O que sempre houve foi a observação de um modo de fazer.

Papai gostava de cozinhar. Seu repertório era modesto, mas suas poucas especialidades eram de fato únicas em matéria de sabor. Sua carne assada era imbatível e os bifes à milanesa, creioemdeuspai... Ele me ensinou de forma mais detida os bifes à milanesa e sua técnica de congelamento e descongelamento, que utilizo com respeito e confiança. Mas a carne assada..., era mais reparar nele.

Sua carne assada leva 4 horas para ficar pronta. Não 3 horas e meia; não 3 horas e 45 minutos; não 4 horas e 15; 4 horas e fim; e não existia panela de pressão para facilitar. Papai considerava uma concessão (absurda) à preguiça recorrer à pressão. Colocava obviamente o feijão na pressão, mas a sua carne, jamais. Essa carne era meio que o papai. Nunca vi meu pai de preguiça. Acordava cedíssimo, dormia cedíssimo, lia muito, estudava outro tanto. Quando tinha casa com jardim, arrancava matinhos invisíveis. Quando se mudou para o pequeno apartamento de Teresópolis, as paredes eram mais brancas que véu de noiva; a gente não andava por lá, flutuava sob seu olhar vigilante de poeiras impossíveis. Aposentou-se e vivia absorvido por tarefas.

Papai gostava de alcatra e gostava de incluir uma linguiça na peça, bem no meio, e isso sempre deu um gosto muito especial ao prato. A carne dele é uma carne de panela. Papai a preparava em pé, colocava água aos pouquinhos, uma coisa impressionante de paciência de Jó. Jogar um monte de água também não se punha! Coisa de preguiçoso. E ele ficava ali, de pouquinho em pouquinho. No calor, sem camisa, um 4 com as pernas levemente arqueadas. Papai tinha 1,80 m de altura, era um senhor cozinheiro com seus copinhos: o de água para refrescar a sua carne e o de coca/cerveja/vinho para molhar a garganta. Ele falava enquanto preparava. Conversava. Narrava. Conversava quando queria ouvir o público; narrava quando queria apenas ser ouvido. Na última hora da carne, ele incluía batatas. Se eram muito grandes, cortava-as apenas ao meio; se médias, iam inteiras. Virava a carne na metade do tempo do preparo, então só uma vez. Esse é o segredo da integridade de suas batatas.

Papai não gostava de salada nenhuma. Sua carne era a sua maravilha, que admitia a companhia das batatas, do arroz branco e do feijão preto. Nós, de vez em quando.

Nunca vi meu pai temperar a carne, sei que o fazia com antecedência. Mas o que colocava? Eu fiz várias tentativas ao longo dos anos com resultados mais ou menos próximos. Este ano pedi ajuda. A ajuda é presente, um futuro que meu pai não teve acesso.

Minha companheira é uma exímia cozinheira e esse ano reuniu mais ajuda para reconstruir a possibilidade de um tempero que ela nunca provou, engajada no desejo de partilhar a minha memória. Fez ligações, escreveu mensagens. Minha sogra entrou em jogo. Sugeriu. Os tempos desencontrados na vida ordinária, mas encontrados na minha vida se juntaram todos para fazer o almoço de hoje. Começamos na véspera, na salmoura, nos temperos da peça de posta vermelha que precisou ser refeita! Constrangido pelo hábito no estabelecimento, o açougueiro temperou... Pedi desculpas, mas esse prazer/tarefa tinha de ser meu, nosso. Sem preguiça.

Minha mãe também começou e terminou na véspera. O manjar precisa descansar na geladeira. Nem todos apreciam ameixa, então tivemos duas caldas. A leve intolerância à lactose de mamãe impôs outros leites. A textura mudou. Papai apreciaria? Eu repeti três vezes a sobremesa.

Às 9:00 de hoje, comecei a carne. Sem coca-coca, sem cerveja, sem vinho, com chimarrão. Quê?! Quando me dei conta, ri. O aroma da erva em contato com os aromas exalados da cebola, da sálvia, do louro, do vinho branco... mudariam o resultado? Trouxe a poesia portuguesa e um ensaio para me fazer companhia, enquanto vivi a paciência de Jó do copinho. O ensaio se intitula Lápide e versão[1]. Achei tão curiosa a minha escolha! Papai não fazia duas coisas ao mesmo tempo; eu faço inúmeras e não tenho orgulho.

4 horas. Comida de 4 horas não se faz pra qualquer um. Em um domingo hesitante ou performático, a depender do juízo de valor que meus raros leitores vão fazer da chuva e do sol ao longo de todo o dia (!), exigi da filha que ao menos trocasse o pijama para o almoço. “Não precisa roupa de sair”, mas eu não sentaria à mesa do almoço de pijamas com meu pai...

Eu servi. Mamãe primeiro. Papai servia. Não rezamos, brindamos à sua memória. Uma parte do tempo à mesa foi conversa, memória; outra, apreciação do quão perto cheguei do sabor original graças à participação de pessoas que só conhecem meu pai por fotografias, pelas ondas no meu cabelo, pela minha risada, pelo (tamanho) do meu nariz.  

A carne assada do meu pai é um modo de falar do meu pai no presente. Ao meu lado direito, entre aérea de sono domingueiro e faminta da carne, estava o futuro dele, meu, o tenro ramo florescente da nossa árvore. Cachos, a negra cabeleira, negros olhos... nariz surpreendente! Um caracacá veio pousar nos seus ombros para desenhar possibilidades imprevistas para mim. Comeu rápido. “Dá licença”. Toda. Um dia, o desejo dela pela memória pode me fazer companhia nessas 4 horas. Ou não.

A carne assada do meu pai é um modo de falar. Um modo do meu pai.


[1] Do meu mestre e amigo Jorge Fernandes da Silveira. O livro é sobre a poeta portuguesa Fiama Hasse Paes Brandão.

Nós três há tanto tempo... 2011! Depois dessa, nunca outra.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Literistórias entrevista o poeta marabense AIRTON SOUZA. Confira!

Airton Souza nasceu em Marabá, no Pará, em 23 de março de 1982. É um ano mais novo que minha irmã caçula e por 3 dias não é do signo de peixes, igual à minha mana. Poeta e professor, possui 27 livros publicados. A formação de Airton está entre a História e as Letras. É licenciado em História, pós-graduado em Metodologia do Ensino de História, licenciado em Letras – Língua portuguesa, pela UNIFESPA – Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará e Mestrando em Literatura pela UNIFESSPA. É membro de diversas academias de Letras e instituições literárias, entre elas a ALSSP – Academia de Letras do Sul e Sudeste Paraense, cadeira nº 15, patrono o poeta Max Martins. Possui uma intensa atividade voltada à promoção do livro e da leitura, como a realização de saraus e encontros literários entre escritores e leitores.  Já venceu prêmios literários importantes, entre os quais se destacam: menção honrosa no Prêmio Proex de Literatura, Prêmio Cannon de Poesia, menção honrosa no Prêmio LiteraCidade, com o livro Face dos disfarces, primeiro lugar no Prêmio Dalcídio Jurandir de 2014, um dos mais importantes da Estado do Pará, com o livro de poemas Ser não sendo, um dos vencedores do IV Prêmio Proex de Arte e Cultura, com o livro de poemas manhã cerzida, em 2015 venceu prêmios literários importantes, entres eles o III Prêmio de Literatura da UFES, promovido pela Universidade Federal do Espírito Santo, com o livro de poemas Cortejo & outras begônias e o Prêmio Nacional Machado de Assis, promovido pelo Canal 6 Editora, de São Paulo.
Airton é casado com Leonice Souza e pai de Leonardo Souza. A imagem que escolhi para esse post foi feita por Leonardo, que captou o pai em entrevista concedida ao grupo RBA, afiliada a Band, sobre a fundação da Academia de Letras do Brasil e sua importância para a região do Sul e Sudeste do Pará. Eu tenho particular afeição pelas imagens que minha filha faz de mim... e como Airton me deixou escolher, acho que vai aprovar a minha escolha!

LITERISTÓRIAS: Airton, o que é a Barraca Literária?
Airton: Bem, a Barraca Literária nasceu como Tenda do Escritor Marabaense, que visava integrar uma rede de autores de Marabá, para em uma tenda nas praças públicas da cidade expor seus livros e, sobretudo, promover a venda desses livros. A ideia não funcionou porque os autores não participaram ativamente da Tenda. Desse projeto, surgiu então a ideia de criar a Barraca Literária, que já vai completar dois anos em atividade. Trata-se de uma barraca onde exponho todos os livros que publiquei para vender nas praças de Marabá aos domingos e feriados. Apesar de cumprir uma função mais comercial, não deixa de ser um espaço para mostrar a produção literária de mais de 16 anos de publicações, que resultou hoje em mais de 26 livros publicados e diversas antologias organizadas.
Existem outros projetos que coordeno, entre eles está o Projeto Tocaiunas que é hoje o maior projeto de literatura independente da Amazônia. Já conseguimos publicar mais de 45 autores, com a tiragem dos livros que ultrapassou os 16 mil exemplares. Livros que são comercializados a R$ 5 e que têm o formato bolso. Tudo pensado para incentivar a produção literária e principalmente a leitura, por meio do livro acessível, de baixo custo.

LITERISTÓRIAS: Airton, fale um pouco sobre a poesia de Marabá. Existe uma poesia “de Marabá”? Fale um pouco sobre o seu trabalho como organizador de antologias.
Airton: Na verdade o que estamos criando por aqui, por meio de diversos projetos é um coletivo, que visa além de valorizar a produção dos autores de Marabá, buscar mostrar que Marabá é um espaço onde existe literatura. Nossa terra ficou muito conhecida pelo alto índice de violência, principalmente na década de 80 em diante, devido aos fortes ciclos econômicos existentes por aqui. Na década de 80, por exemplo, tínhamos em nossa geografia a maior jazida de ouro a céu aberto do mundo, o Garimpo de Serra Pelada.
Se fôssemos mapear a literatura marabaense e aferir quantos autores estão publicando, acho que hoje estaríamos com certeza com um número que chegaria a ultrapassar cem, o que é um número expressivo levando em consideração diversos aspectos, entre eles: as condições culturais e econômicas, ou seja, grande parte das publicações é independente, custeada pelos próprios autores, pois não há incentivo algum, por se tratar de um espaço em que a violência ainda é muito latente, além de estarmos em um espaço periférico do país e onde a leitura, por parte do poder público, nem de longe parece ser prioridade.
Como organizador de antologias, eu criei um projeto anual que denominamos de Anuário da Poesia Paraense, que tenta publicar um grande número de poetas paraenses; a antologia Mandala que é uma publicação nacional, aberta para poetas do país inteiro e diversas antologias resultantes das oficinas que de vez em quando ministro em escolas públicas da cidade de Marabá.

LITERISTÓRIAS: Airton, você é um poeta premiado. Qual é a importância dos prêmios literários, em geral, e para você, em particular?
Airton: Eu sempre procuro enxergar o lado bom dos prêmios literários. Só para constar, antes de vencer um dos principais prêmios de literatura do Estado do Pará, que é o Prêmio Dalcídio Jurandir, diversos poetas nunca tinham falado comigo. Ao vencer o prêmio, até essa relação mudou. Mas, para falar a verdade, eu encaro os prêmios literários por duas ópticas, que são elas: resistência e oportunidade. Entendo sempre os prêmios literários como o nosso espaço de resistir e existir e como uma grande oportunidade de colocar nosso trabalho à prova de outros olhos e sentimentos.
Quando eu chego a vencer um prêmio literário eu sempre coloco entre meu nome o de minha terra. É sempre uma vitória minha, em particular, e de minha cidade, que acaba também por ganhar uma notoriedade. Também os prêmios literários, às vezes me fazem acreditar que somos capazes de algo. Não que seja para mim o essencial, vencer prêmios, pois, por incrível que pareça, nunca me inscrevi em um prêmio literário confiante de que seria vencedor, sempre penso no pior (muitos risos).
Mas eu estou convicto de minha literatura. Gosto do que estou escrevendo nesse momento. Por isso, nenhum prêmio literário me fará mudar o caminho ou me motivará a escrever fora de minhas convicções literárias.

LITERISTÓRIAS: Airton, você é um leitor voraz. Quais são os seus poetas?
Airton: Eu vivi uma história triste com a leitura. Uma das mais tristes histórias que se possa imaginar. Só para ser ter uma ideia, no tempo em que eu estudei, isso até o segundo grau, nem mesmo meus professores tinham livros didáticos para trabalhar. Lembro que lá no ensino fundamental, por exemplo, grande parte de meus professores tinha os assuntos escritos em cadernos, tipo brochuras, e olha que nem sou tão velho assim. Mas, foram tempos difíceis, em que meus pais não tinham a possibilidade de escolher entre comprar ou não livros para nós. O que ganhavam trabalhando compravam milharinas para fazer cuscuz para as jantas e café da manhã e carne, feijão, farrinha e arroz para o almoço.
A minha história com os livros e essa postura que me possibilitou a tornar-me um leitor só seu deu perto de meus 30 anos de idade e, por isso agora o que faço com a leitura é pelo menos tentar correr atrás do prejuízo pelos longos dias sem ter a oportunidade de ler. Por isso mesmo, leio cerca de três a quatro livros de uma vez. Eu reconheço que preciso correr atrás desse prejuízo. E, não só por isso, mas principalmente porque a leitura hoje é um vício em minha vida.
Quando você me pergunta quais são os meus poetas, eu preciso responder que são todos, assim como são todos os romancistas, os contistas, os escritores de livros infantis, o livro de um modo geral. Eu procuro tirar de minhas leituras coisas para os dias de minha vida. Procuro aplicar o que leio em minha vivência no mundo. Na leitura encontro as respostas de que necessito para viver.

LITERISTÓRIAS: Airton, complete esse desafio: fazer poesia no Brasil é ...
Airton: Eu costumo dizer que a poesia se tornou, na história da literatura brasileira, uma espécie de margem, isso em relação aos demais gêneros. Já ouvi professores de língua portuguesa dizerem que não gostam de ler poesias, pelo simples motivo de não entender nada. Acho que eles não aprenderam a lição essencial para quem quer realmente ler poesia: não é no sentido que está o segredo, mas no sentir. Até mesmo na repulsa ao ler qualquer poema está a verdadeira chave do sentido da poesia.
Penso que fazer poesia no país envolve uma questão tão complexa, porque quem escreve sabe o quanto ela é essencial na/para a vida das pessoas. Essa complexidade de fazer a poesia no Brasil envolve uma série de questões que não consigo explicar exatamente. O certo é que a poesia sempre será feita por aqui, aconteça o que acontecer. Isso sim, eu tenho certeza.
“(...)
atravessar
é sempre tragicômico
ainda mais quando
não se tem uma mão
a que segurar
para o gesto da ida” (pág. 33)

“(...)
lança-te sem medo
é preciso encorajar
tua pele para o desconhecido” (pág. 56)

“(...)
enrijecido sustenta passados
medita sobre o presente
tem pelo futuro
um pasmo assombroso
que alimenta o escuro

te inquieta muro
o mundo não arfa baldrames.” (pág. 61)



(Alguns de meus versos favoritos de Cortejo & outras begônias, vencedor do III Prêmio EDUFES de Literatura na categoria poesia. Esse prêmio me deu muitas coisas, deu-me a possibilidade de publicar Menina com brinco de folha!, e uma dos mais significativos presentes foi conhecer a obra de Airton Souza! Escolhi fragmentos e poucos, pois não pedi ao poeta licença para publicar poemas inteiros).