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segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Pensando alto sobre o tempo, a História e as crianças


Escrevi a 1a parte desse texto pensando em professores que tive o prazer de conhecer nas últimas semanas e na companhia de quem passei um pedacinho do meu sábado. Obrigada por me ouvirem!

Pensando alto sobre o tempo, a História e as crianças

As crianças trazem para a escola muitas noções de tempo. Isso significa que não somos nós – professores e professoras – que começamos a lhes ensinar o que é o tempo, esse fundamento da História. São os pais, os avôs e avós e as pessoas que cuidam dos meninos e meninas que ensinam o antes e o depois, o enquanto isso, o daqui a pouco, o só amanhã. Nas conversas da cozinha, na olhadela para o cercadinho, nas histórias que contamos à noite[1], antes da mamada, depois..., pela linguagem, as crianças enfrentam o tempo.
Enfrentam-no também na imagem, contemplando fotos, nos celulares, TVs, computadores e nos álbuns de família. Mas a imagem não fala por si, ela é completada por narrativas. Ora, outra vez a conversa, com seus antes e depois, suas simultaneidades, seu tempo longo, curto, imemorial! Portanto, antes de preencherem o calendário da escola, marcarem seus aniversários, tomarem posse da própria agenda, elas sabem muitas coisas sobre esse senhor tão bonito, invisível mais visível de nossas vidas. Falam o tempo, contam-no!


A mulher na foto é Pérola de Paula Sanfelice. A criança que cresce em seu ventre é a Pétala Sanfelice. A Foto é da fotógrafa Dani Starck. Agradeço a gentileza de poder iluminar minhas pobres palavras com essa imagem de plenitude.

Se sabem tantas coisas, o que podem aprender mais? Um universo de possibilidades! Aí começa o trabalho da escola. A escola deve se tornar o laboratório da experimentação. Ela é uma vida fora de casa, mas ainda muito protegida, mesmo quando ela mesma não é protegida pela comunidade ou pelo poder público... Daí, eu ter falado em laboratório e experimentação. Nós, professores e professoras, contemplamos a diversidade de noções sobre o tempo trazidas por nossas crianças e colaboramos para incrementar esse repertório.
A primeira coisa que devemos procurar fazer para colaborar com nossas crianças é desnaturalizar nossas próprias práticas. Se o tempo passa para nós de forma irrefletida, e esse se não é um julgamento, mas uma atenção, é mais fácil repetir, deixar-se cegar. Apresentar o calendário, pintar-lhe os dias, destacar aniversários, o próprio aniversário (do professor ou da professora, afinal parte do grupo!) e colar recados na agenda não podem ser tarefas irrefletidas. São práticas compartilhadas que merecem reflexões.
São ricas as reflexões que podemos fazer a partir de cada prática. Uma das minhas favoritas é a espera. É uma bela aprendizagem a espera! Bela e difícil:

Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!
(“Das Utopias”, Mário Quintana)

As crianças devem esperar pelo recreio, devem esperar para se despedirem de nós com seu até amanhã, devem esperar para vir para a escola outra vez, devem esperar seus responsáveis na porta da escola para irem para casa, devem esperar seu aniversário chegar! Esperar é ansiar pelo futuro! Uma das dimensões mais bonitas do enfrentamento com o tempo é o desejo.
Assim, na escola “herdamos” noções de tempo, incrementamos essas noções até virarem conceitos interdisciplinares e elaboramos a espera, forjadora de futuro. Como podemos compreender essa experiência multidirecional? Podemos sintetizá-la no que foi definido por Jörn Rüsen como aprendizagem histórica. De forma geral, trata-se da “consciência humana relativa ao tempo, experimentando o tempo para ser significativa, adquirindo e desenvolvendo a competência para atribuir significado ao tempo”[2]. A escola promove, assim, a aprendizagem histórica para a construção de sentido ou para a construção de uma experiência muito sofisticada: a consciência histórica. Por consciência histórica, ele entende a “atividade mental da memória histórica, que tem sua representação em uma interpretação da experiência do passado encaminhada de maneira a compreender as atuais condições de vida e a desenvolver perspectivas de futuro na vida prática conforme a experiência”[3]. Destaco memória, essa lembrança afetiva das coisas; interpretação, o pensamento particular sobre o experenciado, a compreensão, o entendimento racional da experiência e a perspectiva de futuro, um direito que pertence às crianças.
Quando eu afirmei que a construção é sofisticada, eu estava interessada em dois sentidos dessa palavra chique (ou afetada...): a sutileza e a originalidade! Para mim, há tempo na sutileza. Então, a consciência histórica é um trabalho no tempo, é um investimento delicado e paulatino, que envolve muitos agentes e muitos saberes. Da originalidade, gosto do que é único, pessoal. A construção da consciência histórica não é um conteúdo da aula de História, mas um investimento da escola. E, a propósito, também é toda a aula de História! É uma construção de cada ano, que acompanha o crescimento de meninos e meninas e sua a experiência de vida, única, e passível de ser compartilhada no dia-a-dia.
Compromisso da escola, rotina da aula de História. Rotina aqui nada tem a ver com coisa sem sabor. Não vejo paradoxo em desnaturalizar o que entendemos por rotina! Essa desnaturalização pode reabilitar os sentidos de caminho que se utiliza normalmente e de conjunto de instruções, o que nos leva ao método.
A consciência histórica vivenciada na rotina escolar e na disciplina histórica enraíza as crianças na sua própria história e as vincula a uma história maior, da qual ela (pode aprender que) é partícipe e autora. Daí a necessidade de trabalhar sem pressa com a ampliação das durações, com a distinção entre contos de fada e realidades de maior distância no tempo[4] e com a consciência de que ser partícipe e autor é ter responsabilidade.
A consciência histórica é uma tomada de consciência do meu estar no mundo e defender a sua relevância na vida dentro e fora da escola é para mim garantir que crianças, jovens e  adultos tenham direito a uma história maior que a sua, decerto, mas que lhe pertence como sua, porque está à sua volta e dentro do seu coração, desde o primeiro antes e o primeiro depois aprendido de um adulto cuidador e contador de histórias.

***

Ano passado, escrevi um ensaio sobre o tempo na Literatura infanto-juvenil. Compartilho com vocês agora:

Sobre o TEMPO na Literatura Infanto-juvenil

Escrevi sobre o tempo para adultos e para crianças. Para os adultos, no Diálogo sobre o tempo: entre a Filosofia e a História com o filósofo Jelson Oliveira (dentro da coleção “Café com Ideias” da Editora PUCPRess, publicado em 2015); para as crianças na coleção TEMPO: Identidade, Alteridade e Memória, os Livros das coisas para guardar (Ed. Positivo, 2013). No Diálogo, nós escrevemos que “o tempo é nossa dor principal. A saudade ou o lamento do que foi, o transitório do que é, o perigoso do que será” (pág. 21). O tempo está nas flexões de nossos verbos; em expressões denotadoras de intervalos; na relatividade; foi tripartido pelo historiador Fernand Braudel[5]... O fato é que “as concepções de tempo são temporais não apenas na medida de nossos afetos, mas também das possibilidades científicas dos contextos” (pág. 49); “se o tempo existe, as sociedades construíram maneiras diversas de lidarem com a duração” (pág. 53) e com a surpresa das transformações que se operam em nós. A Literatura é certamente uma das formas mais singulares de compreender o tempo à nossa volta e em nós mesmos.

Escolhi dois níveis de discussão do tempo nas narrativas que têm como alvo as crianças: um tempo “perdido”, quase imóvel na sua distância, pelo menos na perspectiva dos meninos e meninas muito pequenos, mas que seus professores e pais podem reconhecer vinculado a tradições antigas, no Brasil: tradições ibéricas medievais, indígenas e africanas, sobretudo; e um tempo que passa dentro da diegese: na sucessão das ações, no envelhecimento dos personagens ou na evidência de sua diferença etária (em relação aos outros personagens e em relação à própria criança leitora). Singularizo esses tempos na obra do autor brasileiro Ricardo Azevedo, também publicado em Portugal. Um dos aspectos da problemática do tempo me levará rapidamente ao meu livro Menina com brinco de folha (Vitória (ES): EDUFES, 2016). Por fim, gostaria de propor uma síntese provisória das pistas que essas obras que têm como público alvo as crianças nos oferecem para a discussão do tempo como tema central da Filosofia e da História.

TEMPOS CONJUGADOS NA OBRA DE RICARDO AZEVEDO

O primeiro nível de discussão – daquele “tempo perdido” – pode nascer da leitura de muitas obras de Ricardo Azevedo, que é também um pesquisador das tradições culturais brasileiras. Dentre essas muitas obras, destaco: A vida e a outra vida de Roberto do Diabo, cujo subtítulo é “versão de um conto popular” (Ed. Scipione, CIDADE, 1988), que por sua vez pertence a uma coleção intitulada “Histórias de encantamento”; o Bazar do folclore: tradição popular (São Paulo: Ática, 2001); os Contos de enganar a morte (São Paulo: Ática, 2003) e os Contos de Bichos do Mato (São Paulo: Ática, 2005). Na conversa com o leitor, que encerra A vida e a outra vida de Roberto do Diabo, Fanny Abramovich escreveu sobre a coleção: “Histórias de encantamento, causos, contos que o povo conta e reconta de jeitos diferentes, atravessando todas as geografias e séculos, mostrando a sua sabedoria, o seu conhecimento enraizado e folhudo (...). Histórias que vêm da tradição oral brasileira, ou europeia, e que foram sendo traduzidas pelo imaginário popular” (“Conversando com o leitor”, pág. 44).

  O Bazar do folclore integrou o projeto Biblioteca da Escola do Ministério da Educação, ou seja, beneficiou as escolas e as crianças com a distribuição gratuita de livros. Na seção final, “Conhecendo melhor o assunto e o autor deste livro”, a editora refere a pesquisa sobre o folclore que Ricardo Azevedo veio a fazer de maneira sistemática a partir de 1986 (A vida e a outra vida de Roberto do Diabo é de 1988). Trata-se de um livro em que coisas diferentes convivem, desde quadrinhas, contos, frases feitas, ditados populares, adivinhas, imagens e até receitas culinárias (como a receita de pão de queijo, de quindim, de bolinho de chuva e de cocadinha). 

Ao final dos Contos de Bichos do Mato, em “Algumas palavras do autor”, Ricardo Azevedo afirma que as narrativas “falam sobre a luta pela sobrevivência (e sobre o amor à vida) e foram criadas e recriadas principalmente por gente do povo, gente humilde vivendo em condições precárias” (pág. 103); sua luta abrigaria a semente do autor chamou de “moral popular” ou “moral ingênua”, que não raro desvela situações de injustiça social. O autor apela ao leitor para que conceba as histórias de Contos de Bichos do Mato “num contexto histórico e social específicos”, antes de taxá-las de “politicamente incorretas” (pág. 104).

Gostaria de referir três contos deste livro, trazidos aqui dentro do enquadramento do tempo “sem tempo” dos contos de fadas, e singularizar o tempo como elemento das narrativas. Em “O macaco e o grão de milho”, há a técnica de acumulação de elementos muito comum na literatura infantil, bem como nas cantigas de roda: o macaco protagonista pede ao pedaço de pau que lhe dê o grãozinho de milho; mas o pedaço de pau não quer dar; então o bicho pede ao machado para cortar o pau; que não quer atender também; o macaco pede ao fogo e por aí vai até chegar ao rato. Este foi o único que aceitou fazer o favor para o macaco. Outro detalhe, é pela vaidade de não ter as suas lindas saias rasgadas e roídas que a mulher do açougueiro despoleta a cadeia que dará o grão de milho ao macaco. Na obra, há muito de fábula em que bichos e humanos se misturam, conversando e interferindo na vida uns dos outros.

Então singularizar a perspectiva do tempo sem tempo, imemorial, na percepção das crianças, nessas obras não significa que na diegese a problemática do tempo não apareça de forma relevante. Assim, em “Forró no céu” (ainda em Contos de Bichos do mato), o sapo protagonista se anima para a festa, mas não tem asas que pudessem conduzi-lo até o céu. Sua tristeza é aguçada pela sucessão de aves que ele encontra, todas que seguiam em direção à festa, mas também pela passagem do tempo...: “passou um tempo, veio a garça”(pág. 15); “passou um tempo, veio a andorinha” (pág. 15). Graças a um estratagema, o sapo consegue ir à festa e a duração é representada na coleção de ações festivas e pelo polissíndeto: “E o sapo caiu no forró e dançou e brincou e sapateou e pererecou e rebolou e cantou e bebeu e comeu e cansou e sentou e deitou e dormiu” (pág. 16). Deu até para sentir saudades de casa... São personagens da trama São Pedro e Nossa Senhora, da tradição católica.

Tão interessante quanto o conto “Forró no céu”, é “O filho da filha do bicho-preguiça”, cuja graça é toda promovida exatamente pela expectativa da demora do personagem e pela surpresa ao final (que supera a nossa expectativa!), tendo o tempo em sua essência: o pai bicho-preguiça saiu para buscar uma parteira (bicho-preguiça também) para a sua filha, em trabalho de parto. Quando conseguiu voltar com a ajuda, escutou uma barulheira na casa: “Eram os filhos do filho da filha do bicho-preguiça brincando devagarinho no terreiro.”(pág. 19).  

Em relação ao segundo nível de problematização do tempo, gostaria de referir duas obras: Chega de saudade de 1984 (São Paulo: Ed. Moderna, 1984) e Uma velhinha de óculos, chinelos e vestido azul de bolinhas brancas de 1998 (São Paulo: Companhia das Letrinhas, 1998). Na primeira, singularizo o capítulo “Conversa na cama”, todo realizado a partir do discurso direto. Os personagens, irmãos, conversam sobre a avó, sobre mudanças na vida dela: “antes ela era tão legal, fazia biscoito, contava estórias...” (pág. 13), mas parece que tudo mudou depois que o avô morreu. Há considerações interessantes no bate-papo das crianças: “Deve ser chato ser velho... tá louco! Ficar sem fazer nada!” (pág. 14), ao que o outro personagem retruca: “Mas a vovó dá aula na escola” (pág. 14). A sombra da decrepitude sempre volta à baila, como quando o personagem que lamentou o envelhecimento lança a hipótese: “será que gente velha dá aula pior?” (pág. 14). Os cuidados com a avó aparecem também na alusão à recomendação do pai dos personagens: “não deixar vovó subir escada sozinha de jeito nenhum” (pág. 14)... Ligada ao envelhecimento, a morte não é abordada apenas como possibilidade da mudança da avó, mas como possibilidade de adentrar o céu e o inferno. O avô morto dos personagens teria afirmado que o português que morou na casa foi “direitinho pro inferno” (pág. 14). No final do capítulo, os personagens não conseguem ter certeza sobre se a morte do avô fora a razão da mudança da avó, pois um outro namorado é aludido... (pág. 15).

No capítulo seguinte, “Lembranças, lembranças”, lemos a perspectiva da avó. Em um trecho, ela afirma:

“Quando a gente está triste, fica tudo ruim. Parece um beco sem saída. É só parar e lembrar... Vejo que fui feliz assim, assim, assim; fiquei triste por causa disso, disso e disso; resolvi um problema de um jeito; outro, de outro. Agora, o que eu não posso é ver as pessoas me tratarem desse jeito. Só por causa da idade. Sei de velhos que estão mal. Sem memória. Com problemas de saúde. É gente que não se cuidou, foi infeliz, por azar pegou uma doença grave; ou foi miserável, não teve nada, passou fome. Aí é difícil. Quando envelhece, sofre mesmo. Mas eu? Justo eu que me sinto tão bem! Fiz tanta coisa. Lutei para ser feliz. Tive sorte de ter tido casa, comida, carinho. Sentir nos olhos das pessoas aquele ar de pena! Qualquer coisinha, a gente vai passar mal; qualquer ventinho, vai pegar pneumonia. Outro dia, no banho, escorreguei e caí sentada. Não contei a ninguém, senão ia ser um deus-nos-acuda de médico, radiografia... Doeu uns dias e passou. Claro!”(pág. 17). 

Essa obra lança mão de outros gêneros textuais, como cartas trocadas entre os personagens e aborda a redescoberta do amor na maturidade. As cartas trocadas entre filho e mãe – avó das crianças de “Conversa na cama” – revelam expectativas muito diversas. Em uma carta do filho: “Mamãe, será que você não percebe que é loucura? Não tem cabimento. E se você passar mal? E se cair e quebrar a bacia? Como vai ser? Quem vai socorrer? O Araújo?”. Em uma das cartas da avó para a família: “Meus queridos, este mês completa um ano que estamos longe de casa. Não podem imaginar quanta coisa interessante temos visto e vivido esse tempo todo! (...) Estamos tirando fotografias, fazendo gravações e anotações. Vocês vão ver na volta. (...) Casei com o Araújo no mês passado, numa cidadezinha esquecida do mundo...”. A carta dos netos é extraordinária e depois da saudade, das notícias de nascimento de filhotes e pedido de presente, eles perguntam: “vovó, você está grávida? O caramujo virou nosso avô?” (pág. 58).

Em Uma velhinha de óculos, chinelos e vestido azul de bolinhas brancas (São Paulo: Companhia das Letrinhas, 1998), são reunidas seis perspectivas sobre uma vizinha, a velhinha do título: escritora de histórias para crianças; bruxa; dona de casa, “casada há quarenta e oito anos”, com cinco filhos (pág. 13); professora de ginástica, que beirando os oitenta anos, com o histórico de uma única doença na vida (caxumba aos 8 anos), corre trinta e cinco voltas no quarteirão, e no fim do dia dá uma andadinha de quinze quilômetros com o marido; velhinha viúva, sozinha, com um filho que mora longe e nunca a visita, e atriz de teatro que, “por causa da idade, prefere representar avós, donas de bar, viúvas, professoras aposentadas, rainhas mães de reis, governantas, madres superioras e tias que vieram de longe e nunca se casaram” (pág. 26). Perspectivas sobre alguém, descoladas de qualquer decisão ou precisão em sua biografia. Esse livro é extraordinário também por isso, por mostrar de forma lúdica que muitas vezes antes dos fatos, há o foco. Para a História, essa ressalva é sumamente importante. Além da questão da evidente diferença etária em relação aos amigos que trocam possibilidades sobre a velhinha, a obra lida com expectativas sobre envelhecimento e o tempo biológico.

Essas últimas obras também dão espaço para a discussão do tema da morte, um tema que está presente na Literatura Infanto-Juvenil contemporânea, na escrita de autores que reconhecem a importância da mobilização dos afetos na sua diferença e intensidade. Em Contos de enganar a morte, a indesejada aparece personificada, reclamando uma tradição artística medieval de convivência e debate. Quando os personagens tentam negociar com a morte, sua diligência acorda em mim a memória do velho romance da morte e do namorado, de tradição ibérica, lindamente cantado por Adolfo Osta em nosso contexto. Já em A Casa do meu avô, há uma avó morta que é presença fantasmagória em um piano que toca sozinho! Aliás, nesse lindo livro, em versos livres, a decrepitude não está ligada à velhice. Não é o avô que degenera, mas o tio do protagonista. Ricardo Azevedo não teme os temas complexos, como a morte e a loucura. Lida com eles de forma lúdica, no caso dos Contos de enganar a morte, e poética, no caso da Casa do meu avô.

Nisso o autor não está isolado na Literatura Brasileira, basta lembrar, em uma vertente, das Sete Histórias para sacudir o esqueleto de Angela Lago (São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2002) e, na outra, de Meu amigo pintor de Lygia Bojunga (20ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003). No caso de Angela Lago, ressalto que, assim como Ricardo, a autora também é responsável pelas ilustrações e projeto gráfico da obra. A forma poética e acessível às crianças, no que há de mais simples, do que não se confunde com o barato, mas se identifica com o único, integral, no trato literário com o tema da morte, também se acha presente na literatura portuguesa, em um de meus preferidos As mais belas coisas do mundo, de Valter Hugo Mãe. Nessa obra, não se escamoteia o sofrimento que a morte pode causar, o sentimento é trazido à cena como experiência necessária.

No meu livro Menina com brinco de folha, acompanhamos as transformações de duas crianças ao longo do seu primeiro ano escolar. Mas no meio da narrativa, o avô do protagonista morre. Esse acontecimento motiva decisões importantes por parte do menino, que dá de presente/oferenda ao avô morto a sua coleção de folhas e, por parte da família, a decisão dos pais de que a avó, mãe da mãe do protagonista, passasse a morar com o núcleo principal. Pelo viés do protagonista, o menino, vemos obras na casa para abrigar a avó e o vemos tornar-se um leitor para uma avó que adormece, quando ele lhe conta uma história pela primeira vez. Vemos também essa avó a precisar de remédios... A narrativa promove, assim, encontro, pois a vida é também convivência entre temporalidades diferentes.

Antes de minha proposta de síntese dos tempos nessas obras, queria destacar a importância de elementos para-textuais nas narrativas que trouxe aqui de Ricardo Azevedo, como entrevistas, conversas com o leitor, explicações..., que completam a leitura das obras. Não quero dizer com isso que o estudo desses segmentos é essencial para a compreensão do que foi escrito antes, do texto literário propriamente dito, mas esses elementos são uma espécie de making off, como o texto final de Uma velhinha de óculos, chinelos e vestido azul de bolinhas brancas, em que o autor refere a sua inspiração e a reformulação pela qual a obra passou.

CONCLUSÕES PARCIAIS

Singularizar o exame do tempo nas narrativas consagradas às crianças, tanto como lugar de memória, de pesquisa, folclore, tradição medieval ibérica, indígena e africana, quanto como elemento da diegese e que afeta a diegese, quer sejam seus personagens quer sejam os acontecimentos, renova a reflexão sobre o tema em um contexto em que o tempo parece que passa depressa, ou mesmo escapa pelos nossos dedos. O “era uma vez” é só um dos gatilhos para o encontro com o tempo das tradições culturais recontadas a cada geração. Na narrativa de Ricardo Azevedo, esse gatilho pode ser apenas: “Era um fazendeiro muito rico”; “Era um jovem rico e viajante”; “Era um reino longe daqui”, muito embora o “era uma vez” também se escreva (exemplos da obra No meio da noite escura tem um pé de maravilha).

As narrativas voltadas às crianças também expressam expectativas sociais em relação às transformações biológicas que a passagem do tempo evidencia em nosso corpo. Nos textos, a convivência faz aflorar o amor, o cuidado, as divergências, o equívoco..., presentes na sociedade que vive mais, adoece mais, tem dificuldade com o cuidar, o compreender e que depende também da colaboração dos mais velhos, quer seja financeira, quer seja do tempo e cuidado com os netos, ambas situações muito frequentes no Brasil. Uma sociedade que empurrou a morte para os hospitais, local em que se morre sozinho, perfurado e monitorado pelos aparelhos. Os textos tecem os fios de uma experiência complexa: de vida e linguagem, para a recriação de outra experiência – a literária, que se completa na leitura, como retorno à vida, à criança e ao adulto.

O tempo imóvel dos contos de fadas, radicado, por exemplo, na tradição cultural ibérica da “Moura Torta” (recontada por Ana Maria Machado, nas suas Histórias à brasileira), é ressignificado no processo de ampliação do repertório da criança, quando ela reconhece fazer parte de uma História muito maior que ela. Ao fazer contato com esses textos que evocam tempos e tradições que nos constituem, as crianças experimentam a fruição, mas ao longo da sua vida, elas deveriam vivenciar – e nós professores precisamos lutar para garantir que a experiência se complete para a formação de cidadãos conscientes da sua História – um prazer que é o de reconhecer[6]. A História é agente desse reconhecimento e colabora com a Literatura para isso. A Literatura não precisa da História para a fruição, mas pode se beneficiar da sua colaboração que reinsere a criança em uma “linhagem”, de homens e mulheres conhecidos e desconhecidos por ela, que a antecederam e que tomaram decisões que repercutem no seu presente.

Quando Ricardo Azevedo abre o bazar do folclore para as crianças, põe diante de seus olhos um outro tempo, “expõe um mundo de que o leitor se apropria. Esse mundo é um mundo cultural”[7]. A colaboração entre a História e a Literatura promove, assim, a consciência de algo que irmana, ao invés de dividir, o reconhecimento da multiplicidade de quem somos afinal. Ora, se Aristóteles afirmou que a poesia é mais filosófica e universal, enquanto a Historia ficaria reduzida ao particular, é da comunicação entre as duas, na cultura compartilhada, que os indivíduos podem se reconhecer como sujeitos, não como filhos que são devorados pelo tempo, mas como sujeitos que convidam o tempo a habitá-los, em seus corpos, na sua mente, para nosso prazer e experiência de vida.




[1] Após esse breve “pensando alto...”, compartilho um texto que escrevi ano passado sobre o tempo na literatura infanto-juvenil.
[2] RÜSEN, Jörn. Jörn Rüsen e o ensino de História. Organizadores: Maria Auxiliadora Schmidt, Isabel Barca, Estevão de Rezende Martins. Curitiba: Ed. UFPR, 2010. p. 79.
[3] Idem, p. 112.
[4] Já escrevi que acho danoso apresentar temporalidades longas para crianças pequenas. Confira em: http://literistorias.blogspot.com/2016/07/sobre-mesa-redonda-no-mec-em-13-de.html
[5] Em três tempos: o da estrutura, o da conjuntura e do acontecimento.
[6] Tomo a relação de Paul Ricoeur, na sua discussão da Poética de Aristóteles: “O prazer de aprender é portanto o de reconhecer. É o que o espectador faz quando reconhece em Édipo o universal que a intriga gera exclusivamente por sua composição. O prazer do reconhecimento é portanto, ao mesmo tempo, constituído na obra e experimentado pelo espectador” (RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa. 1 A Intriga e a narrativa histórica. São Paulo: Martins Fontes, 2010. p. 88).
[7] Idem, p. 91.


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Te conto o que (não só) me contaram: ensaio biográfico sobre Glória Kirinus, por Denise Miotto Mazocco

Fechando o ciclo de publicações dos ensaios biográficos da disciplina "Narrativas biográficas e autobiográficas", Literistórias publica HOJE o texto de uma visitante ilustre, a doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Letras e contista Denise Miotto Mazocco. AMANHÃ, também tem ensaio de aluno da turma, mas não é propriamente um ensaio biográfico... É aguardar!


De modo contrário às biografias cujos autores são fãs e/ou já têm um longo interesse acadêmico ou pessoal pelo biografado e seu trabalho, nesta – que agora escrevo – posso dizer que eu, a autora, conheci antes a biografada do que sua obra, à qual recorri durante o processo de escrita. Isso de forma nenhuma, penso eu, prejudica a escrita deste ensaio biográfico, dado que, em se tratando de uma escritora, o contato imediato com seus personagens pode nos revelar trevos de sua trajetória. Tampouco, o reduzido conhecimento prévio do trabalho da biografada invalida meu curioso olhar sobre ela e minha disposição para a escrita (Permito ao leitor, neste momento, interpretar nas entrelinhas e nos entre parêntesis um traço de mea culpa e de inconformidade – dado o tempo perdido –, por ter lido apenas um livro – logo direi qual – até a data em que a conheci).
     Pois bem, conheci pessoalmente Glória Kirinus em uma aula (no dia 31/05/2017), justamente sobre biografias, em que ela, a convite da Profª Marcella Lopes Guimarães, apresentou aos alunos sua trajetória. Antes, porém, a sabia por referência – Professora de Letras da PUC-PR, lançamento do novo livro de Glória Kirinus, oficina de criação literária com Glória Kirinus –, mas, curiosamente já que desta característica me cabe o extremo oposto, parecia que eu chegava sempre atrasada – aluna depois que ela havia saído da instituição, compromisso no dia do lançamento, perda de prazo de inscrição. Na aula em questão, dessa vez, eu estava lá com meia hora de crédito.
     Glória (Prefiro me referir a ela dessa forma, pois, uma vez linguista, gosto mais da ambiguidade que sustenta o nome, do que da especulação de uma etimologia genealógica para chegar ao sobrenome!) sentou-se e começou a preparar seu power point, como chamou. Sua fisionomia me lembrou um pouco Joan Baez – talvez pelo corte de cabelo quase grisalho, pela estatura, pelo blazer –, com a diferença, é claro, entre a voz doce e suave da escritora e a voz afinadamente impositiva de uma de minhas cantoras favoritas. Desconheço se Glória Kirinus ouve Joan Baez e/ou se Joan Baez lê Glória Kirinus. Optei por não me aprofundar na questão, já que pode se tratar mais de uma saída descritiva minha para a fisionomia da biografada (passível de discordância) do que de uma questão de gosto. Enfim, para apresentar-se, Glória tirou da bolsa uma llama, um caleidoscópio, um galo e uma porção de mar acolhido em uma concha.
     Os objetos dispostos sobre a mesa logo flutuaram minha memória por uma infância expectadora de histórias cujos personagens eram instrumentos, objetos, manipulados pelos contadores. Daí minha primeira impressão: é contadora de histórias! Ela, porém, não personificou aqueles objetos, os tornou, pois, símbolos de partes de sua trajetória – palavra que, segundo Glória, a está perseguindo há tempo. A infância no Peru, a curiosidade pelas fronteiras, a possibilidade do erro, o olhar para o infinito, repectivamente, a simbologia de Glória.
     Mas para além disso a escritora nos deixa também seus mapas em pequenas autobiografias nas orelhas, nos finais e nas contracapas de seus livros.  Foi assim que, juntando as pistas, calcei a llama de Glória. Em seu primeiro livro, O sapato falador, ela conta que, em Huancayo, Peru, onde nasceu, seu primeiro sapato de lã "abrigou cantigas de ninar". Outros sapatos também marcaram sua vida: com sapatos equilibristas e cirandeiras, ela desaprendeu lições de mundo, e com sapatos ciganos passou pelo Canadá, quando aprimorou o "franglês", e chegou ao Brasil, onde, além de pisar, caminhou, e ganhou novos sapatos de lã – três filhos.[1] Em Lima, fez Turismo, talvez para aprender o próprio país, aqui fez Letras (na UFPR), para descobrir a língua portuguesa. Foi neste momento, década de 80, que escreveu O sapato falador, provocado por uma grande enchente que deixou várias pessoas desabrigadas, o que motivou um grande movimento para arrecadar doações. Os sapatos, protagonistas da história, foram doados para um menino que estava em um abrigo. Aproveitando a oportunidade única de falar com sapatos – até então só sabia das botas falantes, do Machado de Assis –, conversei com eles. Tanto o Esquerdo, quanto o Direito, que, embora diferentes, às vezes concordam em determinados pontos, destacaram a importância da Glória, bem como relembraram como foi participar da ocasião da enchente. "Foi por causa da Glória que nós viajamos de helicóptero pela primeira vez. Eu tava achando tudo muito legal. O Direito, pra variar, tava sério.", começou o Esquerdo, o mais falador. O Direito logo se defendeu da provocação do amigo: "Estava apreensivo, na verdade. Nós tínhamos que entregar o bilhete ao menino e calçá-lo. Era uma grande responsabilidade. O Esquerdo achava que também poderia fazer bagunça." "Ah, mas confesse, conseguimos nos divertir com o menino. Com contos, charadas, histórias... Quando ele vinha com aquelas questões, você emendava uma história", disse o Esquerdo dirigindo-se ao Direito. Este logo completou: "Sim, sim... No fim deu tudo certo. Mais do que esperávamos. Calçamos até outras crianças." "Tudo graças à Glória", os dois falaram juntos. Ambos sempre retomam o falatório, quando o livro ganha novas edições.
     Glória sustenta um olhar curioso sobre as línguas e sobre as fronteiras. Quando menina, no Peru, ouvia a narração de futebol no rádio, atrás de novas experiências linguísticas. Já no Brasil, encantou-se com as expressões "fazer arte", "cor de burro quando foge", "dor de cotovelo", embora quando aqui pisou pela primeira vez tenha sido recebida com o desagradável "Ame-o ou deixe-o". Nos seus textos, porém, não se serviu de formas prontas, como poeta reinventou combinações de palavras, de sons e de sentidos – tudo que a língua permite. E nas combinações linguísticas e geográficas, ela se caracteriza "palavreira de nascimento", peruana do Brasil e brasileira do Peru.[2]
     Para as fronteiras, ela tem um caleidoscópio para espiar o outro lado. Basta um movimento que o outro ganha novas cores e novas geometrias. Em Te conto o que me contaram– livro que ela elencou como um dos preferidos, dada a homenagem que faz aos contadores de história –, Glória conta que, em Lima, na ponta dos pés tentava espiar o outro para além das montanhas. Nesse desejo permanente de se sobrepor à geografia, ela constrói histórias, as quais, segundo a escritora, "ignoram montanhas e conversam livres entre si, nutrindo fantasias."[3]
     As histórias de Glória acordam bilíngues. Assim ela ressignifica a expressão fazer arte, no Brasil. Após assistir a um seminário do Ferreira Gullar, contou-lhe sua aflição por sentir-se sem identidade linguística, já que sua língua materna era o espanhol; ao que o poeta sugeriu o aproveitamento da força do espanhol em favor da escrita em português. A escritora seguiu a deixa do hibridismo e avistou a necessidade de traduzir, traduzindo a si mesma, fazendo, assim, arte, ou seja "traduzir uma parte na outra parte". Ao escrever também em espanhol, ela manifesta a harmonia da América bilíngue, dinâmica. O que a poesia de todos os povos faz há muito tempo é a possibilidade "do encontro das mares, da conversa entre as montanhas e de colóquio de nuvens", é, pois, "a criança de todas as idades querendo saber como é seu nome em outra língua."[4] Desenvolveu, então, seu estilo dobrado: "de dia e de noite; em verso e em prosa; para adultos e para crianças; no quente e no frio... E claro, em português e também em espanhol."[5] A escritora manifesta seu amor pelas duas línguas, ao, em sua literatura, deixar espaço para as duas: "Assim, o cravo não sai ferido e nem rosa despedaçada."[6] Dessa forma, Glória afirma sua escrita caleidoscópica pontuando: "Nascemos traduzíveis e prontos para fazer (p)arte do mundo inteiro."
     Glória, contudo, além de gostar de espiar os outros lados das fronteiras, também trafega por uma trajetória acadêmica, o seu outro lado. Em seu Currículo Lattes, que inclui os registros de graduação em Letras (UFPR), mestrado (PUC/RJ), doutorado (USP) e pós-doutorado (Paris V), há os títulos e artigos sobre teoria literária. Não vejo, porém, sua produção acadêmica e literária de modo separado. Os dois lados conversam. Quando, por exemplo, desenvolvia a dissertação de mestrado ("A formiga e a cigarra" e "Isto e Aquilo"), teve como provocação questões referentes à fábula A cigarra e a formiga, que era apresentada nos livros didáticos, elevando a formiga como um modelo a ser seguido. Além de constatar que poemas sobre as cigarras não existem nos livros escolares, indagou-se: "Ao final, para que servem uma cigarra, uma menininha ou um artista? O belo pode ser sério? O saber pode ter sabor? O prazer pode permitir-se apenas ser?"[7] Em paralelo e provocado pelas mesmas questões, nasce o livro Formigarra Cigamiga, em que formiga e cigarra passam por uma transformação e misturam características. Uma das capas nos leva até o centro do livro com a história da primeira, e a outra capa nos leva com a história da segunda. Ambas as personagens conversam no centro. Assim, só sabemos qual é a frente do livro por um capricho editorial da folha de rosto e do código de barras.
     Encontrei com as protagonistas, em uma tarde, e elas falaram de Glória e da amizade. A Formigarra, quem tem forma de formiga e a garra de cigarra cigana, fala sobre a transformação por que passou no livro: "Era como se eu estivesse presa naquele mundo de formiga, entende? Trabalho, casa, juntar comida... Como se eu não soubesse fazer outra coisa. Mas daí a Glória apareceu e foi como se... como seu eu tivesse nascido de novo. Ressuscitado mesmo. Morri de enfarte formigante e ressuscitei Formigarra [risos]. Devo muito à Glória, quem me apresentou de fato a Cigarra, minha amiga." A Cigamiga, que tem cara de cigarra e miga da formiga, por sua vez, conta como venceu a solidão e a pressão social: "Antes de conhecer a Glória, eu era..., assim, muito sozinha, entende? Tipo, me divertia cantando, dançando e tal. Mas, tipo, sentia falta de uma miga mesmo. E, assim, era aquela pressão total, né? Pô, não vai trabalhar? Quando que vai tomar um rumo na vida? Ninguém sobrevive só de música. Daí surgiu a Glória e tal, me apresentou um outro lado da Formiga, curti pra caramba... E agora, tipo, tô dando um gás aí... pipoqueira, engenheira... [risos]". Ambas, agora, são amigas e vivem conversando. "A Formigarra? Workaholic total! A Glória fez benzaço pra ela, sabe. Virou até fogueteira! A gente conversa pra caramba!", contou a Cigamiga quando perguntei o que uma achava da outra.  E a Formigarra acrescentou: "É muito bom conversar com ela, a Cigamiga. A gente se diverte um monte lembrando de quando eu era uma mera formiga e ela uma simples cigarra. A gente agradece que esse tempo passou", brinca. Glória dedica o livro ao seu filho do meio, por espelhar ambas as personagens em diferentes momentos.
     Além das reflexões responsáveis por cruzar os caminhos de sua escrita acadêmica e literária, o modo como classifica sua literatura também tem cheiro de um grande debate da teoria literária. É literatura infantil? Baseada em Bartolomeu Campos de Queirós, Glória chama de adulto-infanto-juvenil, para o desespero de qualquer editor e de funcionário de livraria que tem que organizar as prateleiras.
     E é também da sua ponte acadêmica que Glória traz o neologismo maradigma. Termo cunhado em seu pós-doutorado, é a licença para se olhar o infinito e se questionar os paradigmas. A escritora, desse modo, propõe uma percepção ecopoética do mundo e a transporta naquele pedaço de mar que tirou da própria bolsa.
     A Glória, que escreve, leciona, ministra a oficina Lavra-Palavra e conta histórias, também conversa com a lua. Curiosa sobre essa prosa além-Terra, entrevistei a lua (porém, tive que esperar ela ficar cheia, fato que atrasou um pouco produção desta biografia). Perguntei-lhe sobre a Glória e sobre os principais assuntos de suas prosas. Após um longo tempo de luz pensante, ela disse que Glória lhe conta segredos de amor, elas trocam simpatias para curar dores, jogam xadrez, falam sobre grilos, vagalumes, silêncios e tantos outros encantamentos... Fiquei, entretanto, com uma questão atrás da orelha que me pulou, como uma pulga, da ponta da língua: se Glória, como ela disse na aula a que assisti, escreve literatura das 5h às 7h da manhã – fuso horário do Peru, como brincou –, e para tanto deve dormir cedo, que horas ela fala com a lua? Não obtive resposta. A lua apenas me olhou com um brilho que sinalizava uma cumplicidade a qual eu não poderia ter acesso.                                                                                                                                                     
     Bem, mas claro que a escritora não fica o tempo todo em prosa com a lua. "Em Curitiba, onde moro, cuido do jardim, invento moda, faço sopa de letrinhas e lavro a palavra em diferentes espaços: escolas, universidades, eventos literários."[8] Além disso, brinca com as palavras junto com o neto. "Você gosta de amora? Vou contar pra seu pai que você namora.", ele joga.
     No seu processo de escrita, cujo início é madrugueiro, Glória destaca o prazeroso desafio da reescrita, da reedição, a maturidade para se receber nãos e a conformidade com a possibilidade do erro. Esta última está materializada na miniatura do galo que ela nos apresentou. Memorizado neste objeto, está o livro O galo que cantou por engano (Esse mesmo: o único que eu havia lido.) e o episódio que o motivou. Glória foi convidada para dar uma oficina em uma cidade do Rio Grande do Sul. Na ocasião, teve um eclipse do sol. Passado o eclipse, um galo confuso, que já havia cantado pela manhã, despertou a cidade novamente. Entrei em contato com ele, mas não quis me receber. Apenas respondeu dizendo que o equívoco ainda está em sua memória, porém a narrativa do episódio pelas mãos de Glória lhe está ajudando a lidar com isso, de modo que agora não sente mais vergonha, somente um leve constrangimento. A partir desse acontecimento, a escritora repensou a ideia do erro, tanto que, ela explica, permitir-se errar foi o que a encorajou a escrever em português.  
     Glória também gosta de reeditar seus livros. Para ela, dessa forma, os livros renascem. O contrário, o livro parado é morte súbita. Contudo, além do seu próprio olhar para o mundo, para as fronteiras e para as línguas, que ela transforma em texto literário, há o olhar do outro para a sua própria obra que a transforma em escritora e que lhe revela sua trajetória. Glória, nesse sentido, tem leitores, alunos, filhos e reticências.
     E tempo? Sem o qual não haveria trajetória, muito menos biografia. A resposta está em poesia, bilíngue. "Se tivesse tempo/escreveria num verso/só/somente/soletrando/ o tempo." Faria um desfile de formigas em uma folha em branco. Voltaria à esquina, no cruzamento dos pardais, procurando a palavra perdida que deixou voar. Acompanharia a sombra passo a passo. "Inventaria a arte de desinventar." Sairia pelo mundo a cirandar, com vestido de cigana retirado do velho baú, e viveria mil vidas na palma de cada mão. Aprenderia a tecer com as tecedeiras e a fazer tortas com as doceiras. Vagaria pela noite para sonhar. "Faria estágio no circo da cidade." "Tomaria banho de espuma no chafariz da praça." "Aprenderia a voar demoradamente". Entre essas e outras, Glória também gostaria de mais tempo para "ler e aproveitar a poesia, seja em português ou espanhol."[9]
     Este pequeno ensaio biográfico, por ora, se fez com llama, caleidoscópio, galo, concha, sapatos, cigarra e formiga, formigarra e cigamiga, e lua. Se eu tivesse mais tempo? Conversaria com todos os seus personagens, pediria que Glória me ensinasse quéchua (também sou amante das línguas), estudaria o maradigma e reescreveria este texto quantas vezes fosse necessário, de modo a contribuir para deixar a lâmpada da lua sobre esta trajetória sempre acesa.

Esta é Denise Mazocco, idealizadora do excelente blog Prosa Domingueira: https://prosadomingueira.wordpress.com/
Há mais Denise em Literistórias, afinal ela é autora da 1a resenha de Menina com brinco de folha. Procure aqui!



[1] KIRINUS, G. O sapato falador. São Paulo: Cortez, 2008.
[2] KIRINUS, G. Formigarra Cigamiga. Curitiba: Editora Braga, 1993.
[3] KIRINUS, G. Te conto que me contaram = Te cuento que me contaron. São Paulo: Cortez, 2004.
[4] KIRINUS, G. Se tivesse tempo = Si tuviera tiempo. São Paulo: Larousse do Brasil, 2010.
[5] KIRINUS, G. Te conto que me contaram = Te cuento que me contaron. São Paulo: Cortez, 2004.
[6] KIRINUS, G. Lâmpada de lua = Lámpara de luna. São Paulo: Larousse, 2011.
[7] KIRINUS, G. Formigarra Cigamiga. Curitiba: Editora Braga, 1993.
[8] KIRINUS, G. Lâmpada de lua = Lámpara de luna. São Paulo: Larousse, 2011.
[9] KIRINUS, G. Se tivesse tempo = Si tuviera tiempo. São Paulo: Larousse do Brasil, 2010.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Literistórias entrevista o poeta marabense AIRTON SOUZA. Confira!

Airton Souza nasceu em Marabá, no Pará, em 23 de março de 1982. É um ano mais novo que minha irmã caçula e por 3 dias não é do signo de peixes, igual à minha mana. Poeta e professor, possui 27 livros publicados. A formação de Airton está entre a História e as Letras. É licenciado em História, pós-graduado em Metodologia do Ensino de História, licenciado em Letras – Língua portuguesa, pela UNIFESPA – Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará e Mestrando em Literatura pela UNIFESSPA. É membro de diversas academias de Letras e instituições literárias, entre elas a ALSSP – Academia de Letras do Sul e Sudeste Paraense, cadeira nº 15, patrono o poeta Max Martins. Possui uma intensa atividade voltada à promoção do livro e da leitura, como a realização de saraus e encontros literários entre escritores e leitores.  Já venceu prêmios literários importantes, entre os quais se destacam: menção honrosa no Prêmio Proex de Literatura, Prêmio Cannon de Poesia, menção honrosa no Prêmio LiteraCidade, com o livro Face dos disfarces, primeiro lugar no Prêmio Dalcídio Jurandir de 2014, um dos mais importantes da Estado do Pará, com o livro de poemas Ser não sendo, um dos vencedores do IV Prêmio Proex de Arte e Cultura, com o livro de poemas manhã cerzida, em 2015 venceu prêmios literários importantes, entres eles o III Prêmio de Literatura da UFES, promovido pela Universidade Federal do Espírito Santo, com o livro de poemas Cortejo & outras begônias e o Prêmio Nacional Machado de Assis, promovido pelo Canal 6 Editora, de São Paulo.
Airton é casado com Leonice Souza e pai de Leonardo Souza. A imagem que escolhi para esse post foi feita por Leonardo, que captou o pai em entrevista concedida ao grupo RBA, afiliada a Band, sobre a fundação da Academia de Letras do Brasil e sua importância para a região do Sul e Sudeste do Pará. Eu tenho particular afeição pelas imagens que minha filha faz de mim... e como Airton me deixou escolher, acho que vai aprovar a minha escolha!

LITERISTÓRIAS: Airton, o que é a Barraca Literária?
Airton: Bem, a Barraca Literária nasceu como Tenda do Escritor Marabaense, que visava integrar uma rede de autores de Marabá, para em uma tenda nas praças públicas da cidade expor seus livros e, sobretudo, promover a venda desses livros. A ideia não funcionou porque os autores não participaram ativamente da Tenda. Desse projeto, surgiu então a ideia de criar a Barraca Literária, que já vai completar dois anos em atividade. Trata-se de uma barraca onde exponho todos os livros que publiquei para vender nas praças de Marabá aos domingos e feriados. Apesar de cumprir uma função mais comercial, não deixa de ser um espaço para mostrar a produção literária de mais de 16 anos de publicações, que resultou hoje em mais de 26 livros publicados e diversas antologias organizadas.
Existem outros projetos que coordeno, entre eles está o Projeto Tocaiunas que é hoje o maior projeto de literatura independente da Amazônia. Já conseguimos publicar mais de 45 autores, com a tiragem dos livros que ultrapassou os 16 mil exemplares. Livros que são comercializados a R$ 5 e que têm o formato bolso. Tudo pensado para incentivar a produção literária e principalmente a leitura, por meio do livro acessível, de baixo custo.

LITERISTÓRIAS: Airton, fale um pouco sobre a poesia de Marabá. Existe uma poesia “de Marabá”? Fale um pouco sobre o seu trabalho como organizador de antologias.
Airton: Na verdade o que estamos criando por aqui, por meio de diversos projetos é um coletivo, que visa além de valorizar a produção dos autores de Marabá, buscar mostrar que Marabá é um espaço onde existe literatura. Nossa terra ficou muito conhecida pelo alto índice de violência, principalmente na década de 80 em diante, devido aos fortes ciclos econômicos existentes por aqui. Na década de 80, por exemplo, tínhamos em nossa geografia a maior jazida de ouro a céu aberto do mundo, o Garimpo de Serra Pelada.
Se fôssemos mapear a literatura marabaense e aferir quantos autores estão publicando, acho que hoje estaríamos com certeza com um número que chegaria a ultrapassar cem, o que é um número expressivo levando em consideração diversos aspectos, entre eles: as condições culturais e econômicas, ou seja, grande parte das publicações é independente, custeada pelos próprios autores, pois não há incentivo algum, por se tratar de um espaço em que a violência ainda é muito latente, além de estarmos em um espaço periférico do país e onde a leitura, por parte do poder público, nem de longe parece ser prioridade.
Como organizador de antologias, eu criei um projeto anual que denominamos de Anuário da Poesia Paraense, que tenta publicar um grande número de poetas paraenses; a antologia Mandala que é uma publicação nacional, aberta para poetas do país inteiro e diversas antologias resultantes das oficinas que de vez em quando ministro em escolas públicas da cidade de Marabá.

LITERISTÓRIAS: Airton, você é um poeta premiado. Qual é a importância dos prêmios literários, em geral, e para você, em particular?
Airton: Eu sempre procuro enxergar o lado bom dos prêmios literários. Só para constar, antes de vencer um dos principais prêmios de literatura do Estado do Pará, que é o Prêmio Dalcídio Jurandir, diversos poetas nunca tinham falado comigo. Ao vencer o prêmio, até essa relação mudou. Mas, para falar a verdade, eu encaro os prêmios literários por duas ópticas, que são elas: resistência e oportunidade. Entendo sempre os prêmios literários como o nosso espaço de resistir e existir e como uma grande oportunidade de colocar nosso trabalho à prova de outros olhos e sentimentos.
Quando eu chego a vencer um prêmio literário eu sempre coloco entre meu nome o de minha terra. É sempre uma vitória minha, em particular, e de minha cidade, que acaba também por ganhar uma notoriedade. Também os prêmios literários, às vezes me fazem acreditar que somos capazes de algo. Não que seja para mim o essencial, vencer prêmios, pois, por incrível que pareça, nunca me inscrevi em um prêmio literário confiante de que seria vencedor, sempre penso no pior (muitos risos).
Mas eu estou convicto de minha literatura. Gosto do que estou escrevendo nesse momento. Por isso, nenhum prêmio literário me fará mudar o caminho ou me motivará a escrever fora de minhas convicções literárias.

LITERISTÓRIAS: Airton, você é um leitor voraz. Quais são os seus poetas?
Airton: Eu vivi uma história triste com a leitura. Uma das mais tristes histórias que se possa imaginar. Só para ser ter uma ideia, no tempo em que eu estudei, isso até o segundo grau, nem mesmo meus professores tinham livros didáticos para trabalhar. Lembro que lá no ensino fundamental, por exemplo, grande parte de meus professores tinha os assuntos escritos em cadernos, tipo brochuras, e olha que nem sou tão velho assim. Mas, foram tempos difíceis, em que meus pais não tinham a possibilidade de escolher entre comprar ou não livros para nós. O que ganhavam trabalhando compravam milharinas para fazer cuscuz para as jantas e café da manhã e carne, feijão, farrinha e arroz para o almoço.
A minha história com os livros e essa postura que me possibilitou a tornar-me um leitor só seu deu perto de meus 30 anos de idade e, por isso agora o que faço com a leitura é pelo menos tentar correr atrás do prejuízo pelos longos dias sem ter a oportunidade de ler. Por isso mesmo, leio cerca de três a quatro livros de uma vez. Eu reconheço que preciso correr atrás desse prejuízo. E, não só por isso, mas principalmente porque a leitura hoje é um vício em minha vida.
Quando você me pergunta quais são os meus poetas, eu preciso responder que são todos, assim como são todos os romancistas, os contistas, os escritores de livros infantis, o livro de um modo geral. Eu procuro tirar de minhas leituras coisas para os dias de minha vida. Procuro aplicar o que leio em minha vivência no mundo. Na leitura encontro as respostas de que necessito para viver.

LITERISTÓRIAS: Airton, complete esse desafio: fazer poesia no Brasil é ...
Airton: Eu costumo dizer que a poesia se tornou, na história da literatura brasileira, uma espécie de margem, isso em relação aos demais gêneros. Já ouvi professores de língua portuguesa dizerem que não gostam de ler poesias, pelo simples motivo de não entender nada. Acho que eles não aprenderam a lição essencial para quem quer realmente ler poesia: não é no sentido que está o segredo, mas no sentir. Até mesmo na repulsa ao ler qualquer poema está a verdadeira chave do sentido da poesia.
Penso que fazer poesia no país envolve uma questão tão complexa, porque quem escreve sabe o quanto ela é essencial na/para a vida das pessoas. Essa complexidade de fazer a poesia no Brasil envolve uma série de questões que não consigo explicar exatamente. O certo é que a poesia sempre será feita por aqui, aconteça o que acontecer. Isso sim, eu tenho certeza.
“(...)
atravessar
é sempre tragicômico
ainda mais quando
não se tem uma mão
a que segurar
para o gesto da ida” (pág. 33)

“(...)
lança-te sem medo
é preciso encorajar
tua pele para o desconhecido” (pág. 56)

“(...)
enrijecido sustenta passados
medita sobre o presente
tem pelo futuro
um pasmo assombroso
que alimenta o escuro

te inquieta muro
o mundo não arfa baldrames.” (pág. 61)



(Alguns de meus versos favoritos de Cortejo & outras begônias, vencedor do III Prêmio EDUFES de Literatura na categoria poesia. Esse prêmio me deu muitas coisas, deu-me a possibilidade de publicar Menina com brinco de folha!, e uma dos mais significativos presentes foi conhecer a obra de Airton Souza! Escolhi fragmentos e poucos, pois não pedi ao poeta licença para publicar poemas inteiros).