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segunda-feira, 10 de junho de 2024

1 ano da meia maratona do Rio

 10 de junho de 2024, hoje faz 1 ano que completei a meia maratona do Rio de Janeiro, ao lado de minha prima Andréia.

Esta manhã, no treino, rememorei o feito para algumas amigas e uma delas, a Clarice, com quem corri a parte final, depois das subidas, me disse: “- E quanta coisa em um ano, heim?!!” Eu não sei se ela falava dela, de mim, de nós duas, do país..., mas a certeza da Clarice me despertou a vontade de reunir uma parte dessa quanta coisa toda. Então, nesse aniversário de 1 ano da meia do Rio, eu me lembro:

  • ·        minha filha completou 15 anos;
  • ·        festejei meus 50 anos em uma casa de fado, ao lado de gente amada;
  • ·        ganhei um jogo de xícaras Fernando Pessoa & heterônimos da Susana!;
  • ·        chegaram os calores, em mais um ano de climatério;
  • ·        comecei a fazer reposição hormonal;
  • ·        mais um ano feliz ao lado de minha amada;
  • ·        em uma segunda-feira, minha filha adentrou desacordada o hospital, ficou na UTI por 3 dias, saiu andando plena do hospital e no sábado subiu ao palco e dançou, diante de nossas lágrimas e soluços;
  • ·        dormi no hospital com mamãe perto do Natal;
  • ·        parei de correr por meses;
  • ·        fiz 20 sessões de fisioterapia;
  • ·        voltei a correr;
  • ·        integrei na minha rotina o cuidado diário com meus pés, aprendido na fisioterapia;
  • ·        comecei a praticar calistenia;
  • ·        voltei a praticar yoga;
  • ·        comecei a meditar;
  • ·        abri minha mente a novos saberes;
  • ·  fui a Portugal, revi amigas, amigos, gente querida, admirável;
  • ·        conheci bibliotecas novas;
  • ·        conheci gente nova;
  • ·        escrevi um projeto de pesquisa novo;
  • ·        meu projeto foi aprovado com bolsa PQ pelo CNPq. É a segunda vez!;
  • ·        uma mesma unidade administrativa no meu trabalho me prejudica uma segunda vez;
  • ·        minha amada lançou seu primeiro romance e eu estava lá, a seu lado;
  • ·        mais um ano ouvindo comentários maldosos sobre mim e minha amada, de dois grupos: 1) gente abertamente preconceituosa e 2) gente pretensamente moderna e pretensamente estudiosa. Detalhe curioso e infeliz: só mulheres desferiram os golpes esse ano;
  • ·        um ano em que estou mais treinada para responder à gente do ponto anterior: pace e conteúdo;
  • ·        um ano em que não desenvolvi nenhuma couraça para essa gente. Minha pele está muito bem, obrigada;
  • ·        publiquei um livro;
  • ·        escrevi 2 livros em coautoria: um literário e outro acadêmico;
  • ·        escrevi resenhas, artigos, prefácio e orelha;
  • ·        um livro meu foi traduzido para o espanhol;
  • ·        tenho dois novos textos em coletâneas Off Flip;
  • ·        fui a vários lançamentos de livros;
  • ·        li livros maravilhosos;
  • ·        o clube do livro continua firme e forte: terminamos Moby Dick e começamos Os Maias;
  • ·        eu e minha amada realizamos um sonho e tem uma araucária plantada nele;
  • ·        sonhei novos sonhos;
  • ·        me decepcionei;
  • ·        me admirei;
  • ·        cultivei meus amigos e minhas amigas;
  • ·        vi gente querida, amiga, se afastar, respeitei;
  • ·        troquei de terapeuta;
  • ·        estou deixando o cabelo crescer outra vez;
  • ·        participei de bancas, comissões, dei aulas;
  • ·        estou em greve e o trabalho me acompanha;
  • ·        experimentei novas receitas e sabores;
  • ·        continuo a (tentar) estudar inglês;
  • ·        dancei em outras festas, com outros pares;
  • ·        ouvi;
  • ·        falei;
  • ·        briguei;
  • ·        chorei;
  • ·        dei gargalhadas;
  • ·        quebrei o tampo de vidro da mesa da sala com uma caneca de café;
  • ·        trouxe mais plantas para a minha vida;
  • ·        comprei um aspirador de pó – como vivi sem ele??!!;
  • ·        conheci outras paisagens;
  • ·        dirigi em novas estradas;
  • ·        tomei banho de rio, em rio gelado;
  • ·        tive paciência.

Um ano sem minha madrinha;

Cinco anos sem o papai;

Onze anos sem João.

 

Há um ano, eu estava bem treinada para a meia do Rio: não tinha faltado a nenhum treino, treinei na chuva (eu nunca faço isso e encarei), fiz musculação em academia, cuidei da alimentação, estava forte e... machucada. Sem saber! Corri machucada, fiz longas caminhadas na sequência, machucada. Precisei parar, tratar e recomeçar. Hoje, minha amiga Audrey me provocou: quando vai ser a próxima? Não sei. Hoje, subidas. O mesmo tênis... Hoje, corri com minhas amigas rápidas, fortes. É puxado para mim. Mas elas me impulsionam. Se algumas mulheres tentaram me fustigar – porque talvez não saibam correr... –, outras mulheres correm ao lado; caminham comigo; uma, de mãos dadas..., e eu reconheço: “- quanta coisa em um ano!”. Bora, Clarice!

em 10/06/2024

10/06/2023

Muitos quilômetros... 






quarta-feira, 18 de agosto de 2021

GORDA!

 

Hoje, quando começávamos nosso treino no parque São Lourenço, com o grupo ainda mais junto, um homem passou por nós de bicicleta irregularmente – afinal, há avisos de que não é possível ainda trafegar de bicicleta no parque – e gritou: - Gorda! Outro dia, ainda durante as olimpíadas, um senhor passou por nós e disse: - Atletas olímpicas! Já ouvimos: - Que lindas! Mas é mais comum a gente dizer para nossos companheiros desconhecidos de parque e ouvir deles e delas: - Bom dia!

Um homem levantou pela manhã, fez xixi, ou não; escovou os dentes, ou não; tomou banho, ou não; tomou café, ou não; beijou a mãe, ou ela já morreu de desgosto; vestiu uma roupa decente, ou não; chaveou a casa, ou não; pegou a bicicleta com intenção de ir e vir e resolveu vasculhar o pouco léxico que coube à sua capacidade, para adentrar o parque irregularmente e desferir o vocativo: Gorda!

Eu não faço ideia de contra quem ele desferiu o golpe, mas reivindico. Foi pra mim! É pra mim! Sou eu, orgulhosamente! Eu engordei 17 quilos na gravidez e me senti a mulher mais espetacular que pisou essa Terra, nunca mais consegui recuperar aquela alta/autoestima rsrsrs Sobraram nesse corpo que levo para correr e que está hipertenso 4 quilos. Nunca retoquei meu corpo (mesmo!), não pinto o cabelo, mas atenção: Não imponho meus princípios a ninguém. O dia em que eu quiser me livrar da barriga de coabitação com Maria Clara, desafiar a gravidade (e a idade) recompondo os peitos da adolescente que eu fui ou pintar as madeixas cacheadas e, agora, compridas como há muito tempo eu mesma não via, farei! Eu posso harmonizar os princípios que me guiam hoje, de respeito ao corpo de 47 anos que pariu, com desejos que ainda não possuo. Por que não?

O homem passou tão rápido que não vi, poderia ter machucado alguém com sua bicicleta irregular. Desejei-lhe mal. Desejei que se arrebentasse, que se ralasse todo...  Agora, fria de banho e de ódio, todo o meu desejo de mal se encerra nesse texto. Quando eu colocar o ponto final, ele terá sumido – o homem ou o ódio, você escolhe o referente – e sobrará o que vou fazer com o seu grito daqui adiante: a opulência e a abundância... da força que leva um grupo de mulheres de idades diferentes, histórias, corpos a treinarem juntas; a partilharem vontades, planos para o dia, para o ano, as dificuldades com lesões, com as crianças, com os maridos, com os chefes...

Antes de chegar ao parque, eu tive a grata surpresa de acompanhar uns minutos a participação do meu colega Clóvis Gruner no programa de Maria Rafart e ele falava, nesse minutos, sobre o Talibã. Referia um texto que ele leu em que se noticiava como os professores de Cabul já começaram a se despedir de suas alunas... Eu me imaginei me despedindo dele, de minhas aulas, de minhas alunas, nós todas saindo, servidoras, nossa vice-reitora... Ele, que é ateu confesso, reclamou um princípio que infelizmente gente religiosa não segue, foi mais ou menos assim: nenhuma religião prega entre seus princípios a indignidade. Eu não sei se o homem que nos golpeou é de amém, se grita em templo até Jesus perder a audição, se batuca, se incensa.

O Afeganistão não é aqui, que ninguém ofenda (ainda mais) as afegãs, mas os duros golpes contra o corpo das mulheres doem por todo lugar em que teimamos ser.

47 anos de malcriação, né, mãe?