quinta-feira, 8 de julho de 2021

O gosto das coisas em uma 5ª feira

 

Eu já escrevi aqui no blog que uma amiga despertou em mim o gosto da manga. Foi em 2018, depois que papai se foi e ela me recebeu na casa dela para partilhar a mesa e me abraçar no luto. Diante da mesa farta, preparada por ela com tanto carinho, o amarelo de uma manga – fruta de que nunca gostei! – tão bem cortada me chamou, e hoje a manga é uma das minhas frutas favoritas.

Eu sou uma comilona. Não é que eu coma muito, embora às vezes..., é que gosto da boa mesa, sou formiga, gosto do papo da mesa, da cozinha – quando ela é compartilhada e há música então! Ê Senhora! Batatinha roxa/Coração magoado... – gosto de cozinhar, gosto de ficar lá e até de lavar a louça! Mas eu também gosto muito de provar. Quando eu viajo, uma coisa é certa: vou atrás do gosto das coisas. Eu considero a mesa do lugar tão valiosa quanto o museu que aguça a minha fome de saber, e eu não sou exceção obviamente. Muita gente que conheço coloca essas coisas em pé de igualdade. Comilões se atraem... Eu acrescento ainda a esse gosto o correr pelas ruas do lugar em que me hospedo, bem cedinho. Experiências sensoriais.

Minha gatinha, a Sugar, tem mania de comer flor. Como eu tenho recebido flores ultimamente, ela está meio voraz. A gente tem medo, não sabe bem em que flores ela pode saciar a curiosidade gastronômica. Então é um tal de os vasos se movimentarem pela casa, para enganá-la, que é a maior confusão! Água pelo chão...

Nessa história do gosto das coisas há uma outra experiência que me fascina e sobre a qual eu nunca escrevi: o gosto compartilhado. Essa experiência tem um quê de tara, reconheço. Não raro eu gosto de provar um sabor que sei que é o favorito de quem eu amo. Essa perversão nem sempre tem consequências boas para as minhas papilas gustativas..., afinal mesmo que a gente ame alguém, que tenha grande sintonia com esse alguém, o prato favorito pode ser a exceção. A questão é que, quando o gosto favorito do outro encontra o meu, há um transporte íntimo que me dá uma alegria genuína. Invade e transborda.

Minha filha gosta de chocolate. Eu, nem tanto... Mas sou capaz de me aproximar do gosto dela e envolver tudo isso em um sorriso eterno quando eu compro sorrateira um dos seus favoritos e como um pedacinho...

Hoje, eu vou conversar na TV Kotter com Daniel Osiecki sobre um amigo que temos em comum e que partiu há algumas semanas, o Prof. Jayme Ferreira Bueno. Eu me lembro que, em algumas visitas que ele e D. Francisca me fizeram no Natal, eles me levavam umas bolachinhas que D. Francisca fazia. Bolachinhas muito alvas, que ela envolvia em um papel também muito alvo. Às vezes a embalagem era caseira, com fita guardada, como as que eu tenho aqui também. Eu posso ver! Sentir. Honestamente, nesse dia, em que as memórias dele e dela estão tão vívidas, a memória do gosto dessas bolachinhas é pura saudade, como as de um certo empadão goiano em casa amiga.

Saudades.

Hoje, de manhã, eu saí rapidinho para comprar duas coisas que esqueci de incluir na minha lista de compras do mês, feitas ontem naquele espírito bélico com que temos ido ao mercado. Na volta, entrei em uma padaria que vende um pão de nozes de que gosto muito, mas que tem a preferência de uma pessoa que amo e que está muito longe. Trouxe o pão para casa com o cuidado com que a gente leva aquele filhote de cachorro ou gato com quem sonham os filhos. Depois da higienização dos itens necessários e do banho – acho que a gente nunca foi tão limpo! – eu fui devagar ao pão. Ele é enfeitado de nozes, mas também tem nozes na barriga. Cortei e vi que o que eu tinha escolhido estava particularmente grávido. Junto às nozes, os damascos e as ameixas de que não gosta tanto a pessoa em quem eu pensava. Eu ri disso... Até o não gosto é uma experiência de saudade! A massa mais escura, adivinho farinhas diversas... Como e imediatamente vivo aqueles minutos proustianos que me fascinam desde o tempo que eu não sabia que o escritor os tinha elevado ao sublime.

As bolachas de D. Francisca, o empadão e as nozes em pão grávido de sabor. Tara. Experiência sensível. Saudade.

 

Bom dia para quem gosta de comer, tem memória e sente falta de reunir um povo à mesa!


O pão da saudade


sexta-feira, 5 de março de 2021

Encaixotar, transportar, arrumar: eu vou (me) mudar!

 

Eu já me mudei muito. Na infância e na adolescência, colecionei endereços, principalmente de apartamentos. Só me lembro de uma única casa, no distante bairro de Jardim América, moramos lá por pouco tempo. Digo distante só porque minha escola e o emprego da minha mãe ficavam a quilômetros de distância e era muita Av. Brasil todo dia..., acho que por isso ficamos pouco tempo nessa casa. Quando casei, descobri o sobrado, a primeira casa própria da minha vida, comprada por nós com aquela luta dos primeiros anos da vida adulta.

A casa em que (ainda) moro é a casa em que por mais tempo morei na vida. Foi para cá que a minha filha – agora com 12 anos – veio morar quando nasceu. Essa casa, então, é a casa dela; a casa em que instalamos as redes de proteção para a sua segurança; os portões na cozinha, no segundo andar e no terceiro para ela não cair da escada ou se queimar. Nessa casa, ela deu os primeiros passos no dia 25 de dezembro de 2009; foi em frente à casa que a ensinamos a andar de bicicleta; na garagem experimentou os patins; na cozinha fizemos nosso primeiro bolo em 2011 (está anotado no meu caderno de receitas!) e continuamos a fazer outros; na cozinha também ela se aventura em cookies e brownies.

Mexemos um pouco nessa casa: fizemos uma cozinha nova, refizemos o banheiro da suíte, nós a pintamos algumas vezes. O quarto da filha foi o mais mexido. Um pouco antes da sua chegada, o quarto foi preparado com aquele amor dos “convidados” esperados há tantos anos, tinha painéis pintados, um berço branco, cortinas brancas com bandôs verde e rosa, a evocar a escola de samba do coração da família do pai. Tinha uma poltrona de amamentação, em que amamentei, embalei e dormi, velando o sono da dona da casa.

Em frente a essa casa, há um pequeno jardim, o maior jardim de minha vida! Sua área deve ser de 4 m2..., não faltou um zero não; é um jardim 2m X 2m mesmo. Mas nele há um pereira de que sentirei imensas saudades! Ela foi comprada na Lapa (PR) em umas férias e inspirou depois o meu conto “A Pereira”, que integra o livro As Árvores e os frutos. Há um manacá plantado por minha mãe que está sempre florido; há uma pequena estátua de menina que morava no jardim de meu pai, lá em Friburgo (RJ), região serrana do Rio, e que ele trouxe de carro para me fazer companhia. Há outras plantas bonitas e é nesse jardim que meu passarinho poeta Riobaldo está enterrado. Sim, eu tive um passarinho de gaiola que cantava para mim todo dia, que vinha no meu dedo, me dava bicadinhas e que me ditou uma porção de trovas que guardei nesse velho computador companheiro.

Mas uma casa não é só umas paredes com teto em que a gente cumpre o isolamento social. É também um modo de viver. Do meu quarto, se eu me deito de lado (apoiando o ombro direito no colchão), quando abro meus olhos, a primeira coisa que vejo é a minha filha. Talvez tenha sido por isso que tivemos confiança, desde o primeiro dia, de mantê-la em seu próprio quarto. Claro que fizemos cama compartilhada! Mas principalmente quando um de nós estava em viagem.

Para mim, sempre foi uma paz abrir meus olhos e olhar direto, quer para o berço, quer para a caminha de menina pequena, quer para a cama mezanino da adolescente de agora e vê-la! Eu a vi em pé no berço, “dançando” daquele jeito maravilhoso dos bebês que experimentam as pernas. Eu a vi ensaiando sair dele sozinha e pude “salvá-la”. Ufa! Da caminha de menina, eu a vi inúmeras vezes levantar-se, pegar o travesseiro e vir até a nossa cama, jogar o travesseiro em mim e escalar, para dar bom dia!

Nessa casa, para tomar café, é preciso descer. Quando alguém fica chateado, pode realmente mudar de ambiente. O escritório fica ao lado do meu quarto e uma varanda une os dois ambientes. Eu me espalho pela varanda com minhas leituras e é muito fácil me ver de robe de manhã cedo, pendurando as toalhas ao sol no varal de pé. Nessa casa, não dá para cuidar do arroz na cozinha e escrever no escritório. A distância entre os ambientes pode distrair. Então, essa casa não gosta muito de gente multitarefas...

Eu vou me mudar para um apartamento bem menor. A decisão foi tomada em 2019 e os motivos só cresceram desde então. Não há varanda. Talvez essa seja a grande falha de caráter do apartamento novo. Mas da janela da sala, eu vejo um banco muito convidativo às minhas leituras, só vou precisar me disciplinar para não ir até lá de pijamas desencontrados e robe. Das janelas, eu posso ver o prédio onde vive a minha irmã mais nova com seu menino, meu sobrinho tão amado! Estarei bem pertinho de outras pessoas de minha família também. Há muito mais comércio em torno e acho até que, ao longo de vários dias, sou capaz de esquecer que tenho carro. A filha está animadíssima, minha grande surpresa!

O maior desafio que o novo apartamento enfrenta é o acolhimento de meus livros. Como o apartamento tem a sua própria memória, ou seja, a memória que não apaguei, da família que lá morava, eu assumi que não iria desmanchar essa reserva de sentido, traria a minha vida para fazer parte. Então, o quarto que seria obviamente o meu escritório e que é um closet vai ficar assim mesmo, mas vou colocar o velho computador companheiro na pequena mesa. Meu quarto vai receber um estante de “primeiros socorros”, ou seja, livros imediatos. A decisão foi espalhar os livros pela casa. Então, como diz a filha, vou realizar o sonho de morar na minha biblioteca. Minha mãe advertiu: Filha, quando cozinhar, abra bem as janelas para a poesia medieval não ficar com cheiro de tempero de feijão.

Ter os livros pela casa toda – sala, corredor, closet e quarto – vai ser divertido: vai me fazer conceber novos encontros para eles! Mudá-los de posição pode acender sentidos inusitados para mim; perdê-los, achá-los outra vez... Da entrada do apartamento até meu quarto, posso ir colhendo volumes como flores. Posso deixá-los sobre a pequena mesa do closet enquanto tomo banho e, assim, perfumá-los de lavanda para fazê-los esquecer dos temperos.

Eu vou sentir falta de minha casa. Fui muito feliz aqui. Fui infeliz também, mas ora..., como sempre digo, não sou refrigerante para viver borbulhando. Ou, se é pra viver assim, que seja champagne! Tive uma vida plena na sua proteção. Essa casa compreende um modo de viver com seus ambientes, o pequeno jardim, a área de fundos para estender meus lençóis ao sol, a churrasqueira nunca usada para esse fim, mas sim como depósito, a varanda das toalhas e robes, a cozinha com a janela só para lavanderia. Falha de caráter dessa casa... O apartamento novo tem grandes janelas na cozinha para a rua. Disse para mim que é sua pequena vingança. Brigas entre casas, não vou me meter.

As pessoas me perguntam se sinto um frio na barriga só de pensar em encaixotar os livros que me olham assustados... Algumas amigas e amigos já se ofereceram para ajudar. Acho que vou precisar, sou pessoa sem orgulho e sei pedir ajuda! Não sinto frio na barriga por isso, sinto canseira antecipada. Meu frio tem a ver com aquela dúvida sobre se encontrarei o abrigo terno das chateações, frustrações...; se encontrarei a inspiração e a paz para escrever, se poderei ser feliz... Olhem só o que tenho na cabeça?!  

Da minha cama nova, não conseguirei mais ver a cama mezanino da minha filha. Ela terá direito à sua própria intimidade pela primeira vez. Quando eu encostar o ombro direito no colchão, eu verei a mim mesma. Sim, há um espelho que não mandei tirar. No meu apartamento há mais espelhos (para iludir o tamanho) que na casa. Vai ser engraçado ver primeiro a mim mesma logo cedo.

 

Vou mudar.

Quando a filha levantar, ela vai ver...


quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

2020 em leituras

 

Quem ama os livros sabe que eles são grandes companheiros. No ano em que a terra parou por causa da Convi-19, quem ainda tinha dúvidas sobre essa amizade talvez tenha tido um reencontro para sempre. Como muita gente que conheço, eu li muito: li para a pesquisa que desenvolvi e para a qual obtive uma licença, uma bolsa de estudos e a oportunidade de pesquisar em bibliotecas extraordinárias da Universidade de Poitiers, na França[1], e li para conservar a minha saúde mental, para viver as vidas alternativas de que preciso. Descobri muitas coisas bonitas nas escolhas que fiz este ano, lendo livros em papel e livros no meu kindle[2], nos livros que ganhei de presente e nas sugestões de leitura que acolhi prontamente de amigos e amigas. De repente, no fim de um ano tão duro, achei que poderia partilhar essa beleza que me salvou um tanto.

Então, abaixo eu reúno exclusivamente os livros que li sem relação com a minha pesquisa ou com meu trabalho como pesquisadora universitária. São livros lidos por prazer. Alguns ajudaram a minha pesquisa de modo surpreendente para mim (!) e até outros projetos, mas quero deixar claro que eu não os procurei para esses fins mais utilitários. Então, assim como excluí os estudos acadêmicos, eu excluí desse texto o meu eu acadêmico rsrsrs... Trata-se de uma lista animada por descobertas, impressões, paixões, abandono, enfado, desafio e relações que eu fui construindo de forma meio selvagem, livre. Uma mulher com seu amante, o livro[3] (Clarice, Clarice...). Espero que os títulos e a tagarelice convidem os amigos, alunos, ex-alunos, família, visitantes ocasionais do blog a lerem e a investirem nessa amizade que faz a gente viver uma vida mais rica, sem ter necessariamente recebido um aumento de salário.

 

Então, senta que lá vem história!

 

O Sobretudo de Proust: história de uma obsessão literária da jornalista da RAI Lorenza Foschini foi o primeiro livro que li em 2020. Li no meu Kindle recém comprado então. Fiquei fascinada! Todo mundo sabe que eu amo o Marcel Proust, então eu amo seu bigode fino, suas luvas, seu pincenê, seu olhar triste e seu casaco, ora!! Mas esse livro é um trabalho de investigação. Li como um romance policial. Ele documenta a dispersão dos objetos do autor depois de sua morte, fala do ressentimento de familiares, da paixão de um homem (Jacques Guérin) por encontrar e reunir esses objetos e o casaco está no Museu Carnavalet! Planejei ir ao encontro de tudo isso, mas a crise sanitária me tirou a chance.

Logo que comprei o kindle, fiz a assinatura unlimited e fui explorando novidades como criança em loja de brinquedo onde é possível brincar! Depois do casaco do meu amado Marcel, li A menina da neve da americana Eowin Ivey, autora da minha geração. Nunca tinha ouvido falar. Fui atraída pela sinopse. Que livro marcante! Um casal perde um filho e foge do olhar de comiseração da família. Muda-se para os quintos, quase sem vizinhos. De repente, encontra uma criança na floresta (!), mas essa criança é uma criança livre, não pode viver com um papai e uma mamãe numa casa aquecida, não vai à escola, não corresponde ao sonho do filho perdido..., ela é só ela mesma. Fiquei um bom pedaço do livro achando que era uma criança imaginária, mas não era! Chorei horrores, é claro, com minha filha ao pé de mim. A criança cresce, torna-se uma moça, uma mulher, casa... ai, meu coração.

Depois de me emocionar com a narrativa de Eowin Ivey (que foi inclusive finalista do Pulitzer), voltei para um amor conhecido em texto ainda não lido: Anne Brontë e A moradora de Wildfell Hall. Um romance rocambolesco! Fiquei exausta de tanto ir pra lá e para cá. Talvez Anne Brontë não tenha tido tempo de revisá-lo… Narrativa dentro de narrativa, narradores… Mas se trata de um romance de paciência e eu sou alucinada por isso! Quem ama Persuasão de Jane Austen levanta a mão! Enquanto lia o romance, eu conheci o trabalho da socióloga Eva  Illouz e não pude deixar de notar (e de me entristecer) com o quanto a gente tem sido barato no “mercado”, entretanto, aquecido, das relações amorosas. Eu não falo de diamantes, colar de pérolas e carrão, você entendeu, o mercado do amor nos reduziu demais, ficamos desinteressantes, e ler romances de paciência me lembra que na literatura a gente já teve mais valor: que valia a pena lutar por nós!

Em A moradora de Wildfell Hall, há um homem que ama uma mulher que se enganou um dia e foi duramente maltratada pelo traste com quem casou. Ela foge desse traste (Graças!), mas não se sente livre, para tocar a vida amorosa, compreende? O homem que a ama de verdade espera, espera, espera, está louco de amor, é meio biruta rsrsrs e, quando ela fica livre, ele hesita: será que ela ainda se lembra...? Ai, meu coração! É claro que ela lembra!!!!!

Conversando com meu amigo Prof. Martin Aurell em Poitiers, ele me emprestou o seu exemplar de Le portefeuille toulousain, de Michel Zink. Já escrevi sobre a carreira do Prof. Zink e sobre sua aposentadoria no Collège de France[4]; ele é um autor importante para minha pesquisa. Mas eu não sabia que tinha se aventurado na literatura! Um romance leve, gostoso de ler, tem uma ironia fina. Foi meu primeiro romance em papel do ano. De uma tacada, devorei a Primavera de cão de Patrick Modiano, no Kindle; Le roi disait que j’étais le diable, de Clara Dupont-Monod e Aliénor d’Aquitaine, do amigo Prof. Martin Aurell. Papel e papel. Modiano foi um pouco decepcionante... Falei e saí correndo, pois ele ganhou prêmios importantes. O romance de Clara foi uma descoberta em que mais uma vez o amigo Prof. Martin Aurell tem culpa, uma boa culpa. Ela é ótima! Comprei 2 exemplares para dar de presente para dois amigos. Sei o que você vai dizer: mas, Marcella, trata-se de sua adorée..., então seu coração vai pré-disposto. É verdade e eu adorei o livro também!!! Depois, ganhei o livro do Prof. Martin Aurell, com dedicatória fofa. Até sonhei com a minha rainha! Então, eu tinha um romance e uma pequena biografia escrita por um grande historiador. O mundo já estava pegando fogo e eu descobri uma nesga de céu azul.

Ao longo de todo o primeiro semestre, estive envolvida com um projeto que não tinha relação com a pesquisa. Eu fazia coisas concomitantes. Inspirada por esse projeto, quis ler livros que eu tinha deixado pelo caminho e reencontrei um velho amigo. Eu tinha deixado H. G. Wells pelo caminho da vida. Ano passado, lendo com meus alunos um texto de Marc Bloch que o mencionava, me prometi mudar isso e consegui. Encarei A máquina do tempo e O homem invisível. Acho que li os dois em três dias. Simplesmente amei! São livros geniais! Depois eu descobri uma bela tese de doutorado defendida no PPGHIS da UFPR, sobre Wells[5]. Li trechos e pude enriquecer a minha leitura. Logo depois, reencontrei o velho amigo Joaquim Manuel de Macedo e a sua Moreninha. Vivi em Poitiers sonhando visitar Paquetá! Aviso: é para românticos incuráveis. Segura na minha mão e vem. Os três no kindle.

Até então, fora uma suave decepção com Modiano, sempre falando baixinho..., eu tinha gostado de tudo, com destaque para A menina da neve da americana Eowin Ivey! Um dia, li a resenha escrita por Miguel Sanches Neto do livro Benção do americano Kent Haruf. Fiquei interessadíssima. Passei a mão no kindle e... cadê??? Benção só em papel. Mas como, com um oceano no meio?! Encontrei disponível do autor o romance Nossas noites. Esta foi a primeira grande, grande mesmo, descoberta do ano! Fiquei tão encantada que escrevi um texto sobre o romance e publiquei aqui no blog em junho. Dá uma olhada. Não vou me repetir, mas é de uma doçura que eu nem sei se a gente está preparando nesse mundo tão baratinho para o amor... Saber que Haruf morreu em 2014 me corta o coração. Um dia vou ler tudo dele e me sentar meio bêbada no meio fio para chorar não ter mais.

Há um tempo, eu ouvia falar de Carlos Ruiz Zafón. Acho que minha grande amiga e irmã da vida Renata Nascimento leu a obra completa dele e tinha me dado de presente há uns dois anos A sombra do vento. Zafón faleceu este ano, em junho, então a tristeza de seus fãs me despertou: eu tinha de honrar o presente. Fiquei com dois exemplares: no kindle e em papel. Amei! Livro sobre amar os livros!!!! Mistério, Barcelona, personagens para a gente amar, odiar, ter muito medo... Não contente em ler, impus Zafón a uma de minhas irmãs, que está adorando. Mas há outra coisa nesse livro, sobre a qual já falo.

O convite de uma pessoa querida para escrever a orelha de um livro que ela organizou me revelou a obra de uma historiadora que eu não visito na minha pesquisa. Trata-se de Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke. Fiquei muito impressionada com sua carreira e resolvi me dar ao luxo de mergulhar no seu robusto e premiado Gilberto Freyre: um vitoriano dos trópicos. Foi fácil, tem no kindle! Como não estava na minha assinatura, eu comprei com dois toquinhos. Li essa biografia intelectual do Freyre como li os romances anteriores, sem grandes pretensões, mas com pré-admiração pela autora. Que livro maravilhoso! Finíssimo, bem escrito, erudito, sem ser chato ou arrogante, aliás, delicioso! E atenção: delicado... Uma coisa meio rara. Surpresa para mim: ele me ajudou na pesquisa; ele me ajudou a pensar o meu texto.

Outro presente que eu resolvi honrar foi o Par les routes de Sylvain Prudhomme. Foi presente de minha amiga Patrícia Gaspar quando me visitou em Poitiers, antes do pandemônio ou da pandemia (ou antes que pressentíssemos...), o que você preferir. Ele ficou me olhando uns meses. Trata-se da história de dois homens e uma mulher. Os homens são grandes amigos e essa amizade se espraia para a mulher, esposa de um deles. O personagem que motiva o título (tenho dificuldades de compreendê-lo como protagonista) é um homem que deixa a sua casa, a mulher e o filho periodicamente para fazer viagens de carona, pela França. Assim, do nada. Vai sozinho. Não vai em busca de drogas, aventuras sexuais, ainda que... vai porque gosta de estar na estrada. Com o passar do tempo, suas ausências prolongadas fazem com que sua esposa, o amigo e o seu filho pequeno descubram na companhia uns dos outros um milhão de sintonias, o amor compartilhado. Um dia, esse homem que gosta de se evadir some. Agora o clique: eu tenho lido há algum tempo histórias em que os personagens somem, eles se despersonalizam!... E isso desde pelo menos a tetralogia de Elena Ferrante. O que aconteceu com Lila? Em Zafón, a gente também encontra o tema e há outros romances mais abaixo que me fizeram pensar sobre personagens que somem. Não se trata de personagens sequestrados ou mortos, ok? São personagens que decidem sumir, escapar da vida que viveram.

É de Par les routes a epígrafe que escolhi para o livro que compreende parte substancial da pesquisa acadêmica que realizei este ano. Então, sem querer, esse livro me ajudou! Devo dizer, entretanto, que não gostei de uma coisinha mínima (talvez não tão mínima...) nesse romance e a razão vai ficar mais clara daqui a pouco, quando eu abordar a maior decepção do ano.

A Amazon é meio engraçadinha. Além de me oferecer meus próprios livros, de vez em quando planta ofertas, além da assinatura... Na empolgação, comprei Carta a um refém de Antoine de Saint-Exupéry. Amei! Livro sobre amizade. Fofo demais.

A maior decepção do ano foi o romance A noiva jovem de Alessandro Baricco. A sinopse do kindle me enganou. Lembra que eu disse no início que esse texto é um conjunto de impressões não acadêmicas, pessoais etc etc etc? Então, se você tem tese sobre Baricco, pule o parágrafo para não se chatear comigo. Uma jovem, quando chega à idade acertada, vai para a casa do noivo a fim de casar-se com ele. Ele não está. Ela espera. Na casa, acontecem mil coisas. Rapidinho: livros são proibidos nessa casa. Eita... Mas ela consegue clandestinamente um Dom Quixote, opa, estou gostando... É seduzida pela futura sogra, uma mulher muito bonita e misteriosa. A menina esquece o Quixote, putz, era uma falsa pista (!), a sogra se enfada e aí ela vai esperar o noivo em um prostíbulo, único lugar em que Baricco acha que ela é capaz de trabalhar! Talvez esse livro pequeno deixe alguém excitado... Mas sinceramente a cena em que a noiva senta no colo de certo personagem que não queria aquele peso é enfadonha. Você me pergunta: nada presta? O noivo é um personagem de despersonalização também. Ele fica o livro inteiro sumido, sua presença são os presentes obtusos que ele envia. Mas seria ele mesmo? Só que Baricco frustra até nisso, pois o noivo aparece afinal e vai buscar a noiva, coitada, no “escritório”... A coisinha pequena de que não gostei em Par les routes tem relação com esse meu desgosto com Baricco. Em ambos os livros, A noiva jovem e Par les routes, as mulheres estão tão disponíveis que me irritaram. Esses autores homens e suas fantasias...

Minha redenção veio com a segunda maior descoberta do ano: Júlia Lopes de Almeida. Fuçando o kindle, dei-me conta de que tinha à minha disposição vários livros dessa autora brasileira. Mas quem era ela?! Contei parte da minha surpresa em outro texto que publiquei em setembro aqui no blog. Li A Intrusa e fiquei aturdida, fascinada. Um romance que me fez lembrar da Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro, romance perturbador e que eu adoro. Em A Intrusa, um homem viúvo precisa de uma governanta, sabe que isso pode gerar fofoca..., então, para manter-se fiel a uma promessa feita à mulher morta, nem quer olhar a contratada. Trata-se de Alice Galba. Alice é uma sombra no livro, mas vai se personalizando..., o contrário do fenômeno que mencionei antes!!! Argemiro não a vê, mas sente seu perfume, acha um livro seu aberto na sala, deslumbra-se com as flores em um móvel, com o jardim, escuta o farfalhar de sua saia (farfalhar é lindo, não?), encanta-se com tudo em que ela toca na casa, encanta-se com o efeito dela sobre a sua filha! Um dia o véu que cobria o rosto de Alice revela... eu paro. Todo mundo tem de descobrir a Júlia!

Saudosa dos meus clubes do livro, li dois livros em sequência sobre clubes do livro! Ambos viraram filmes e são livros deliciosos. Boas opções para darmos de presente para uma pessoa que não sabemos se é leitora: A sociedade literária e a torta de casca de batata de Mary Ann Shaffer e Annie Barrows e O clube de leitura de Jane Austen de Karen Joy Fowler. Eu gostei mais do primeiro. Ambos, no kindle.

Minha amiga Denise Mazocco tinha lançado seu segundo livro, Peças e pensarias, em julho. Eu que tinha gostado e prefaciado o seu Primeiro voo, logo que pude comprei Peças para ler. Livro bonito, bem escrito, sobre amizade, sobre brincar com as palavras (Denise é uma linguista e para mim convida as pessoas a verem perspectivas menos óbvias na sua formação), sobre fantasia de Carnaval, sobre famílias que se transformam e aí uma delicadeza para abordar um assunto difícil na infância (só na infância?)... Ótima dica de presente para os leitores autônomos. O livro é prefaciado pela professora e pesquisadora Teresa Cristina Wachomicz, pessoa querida da Denise e minha também.

Por falar em Literatura infanto-juvenil, li O homem que não parava de crescer de Marina Colassanti com a Clarinha, a contragosto dela... Quando era pequena, líamos muito para ela. Depois que ficou autônoma, demitiu a gente. Agora, os livros estão meio de lado, eles concorrem com seus desenhos (em papel ou digitais), com suas animações, com suas conversas com as amigas, de quem ela está há tanto tempo longe... Eu continuo tagarelando sobre os livros, quase derrubo-os sobre seu colo (de propósito). Clarinha tem azar: sou mãe experiente, não desisto fácil! O livro de Marina é delicado e fala sobre pais e filhos, fala sobre amadurecimento.

E não é que a minha Júlia Lopes de Almeida escreveu um livro com um de seus filhos?! Ah, Júlia, senta aqui ao meu lado... Trata-se de A Árvore. O texto do blog que referi acima é sobre esse lindo livro! Kindle, kindle... Depois desse, li ainda da Júlia Ânsia eterna, livro de contos que me lembraram demais o Maupassant! Veja o desacerto: conheci o Guy de Maupassant antes da Júlia! Na Ânsia de Júlia, descobri contos fantásticos, contos de terror, histórias mirabolantes, cruéis e tive até medinho... Sinceridade. A Júlia me levou ao livro A alma encantadora das ruas de João do Rio. Eu fui aluna de Luiz Edmundo Bouças Coutinho na UFRJ e acho que ele ficaria feliz em saber dessa minha redescoberta.

Mas, sabe, em uma etapa cabeluda da minha pesquisa, necessitada demais, fui buscar apoio nos braços de Marcel Proust. Na verdade, não foi “do nada”... Ele apareceu em uma curiosa nota de pé de página de um autor que foi se tornando importante para minha compreensão dos trovadores: Charles Baladier. Encarei a miscelânea Contre Saint-Beuve de Proust. O livro foi parar no meu livro sobre trovadores medievais! Há lá uma nota imensa em que eu discuto uma coisa que foi o amado Marcel que me suscitou (e ao Baladier também). Match!

Um dia, minha professora de francês propôs que os trabalhos do clube do livro de francês voltassem. Lemos o badaladíssimo Boujour tristesse de Françoise Sagan. Achei interessante não pelos motivos que eu li por aí, mas por um aspecto da narradora protagonista que já vi em outros livros e na vida: ela me fala sobre o perigo das pessoas superficiais... Eu me lembrei na hora de Elena Ferrante e do personagem Nino Sarratore, um dos personagens que mais odiei nos últimos anos. Escrevi sobre isso aqui no blog, em 2017. Com minha professora, li também o breve e lindo Monsieur Ibrahim et les fleurs du Coran de Eric-Emmanuel Schmitt. Livro de encontros.

Os três próximos livros foram sugestões de uma amiga para um projeto novo, mas eu não li constrangida por isso. Li porque eu quis. Na ordem de leitura: Meus desacontecimentos de Eliane Brum, Ideias para adiar o fim do mundo de Ailton Krenak e O olho da rua de Eliane Brum. Adorei saber mais sobre Elaine Brum e esses dois livros me emocionaram muito: o primeiro uma autobiografia da relação dela com a escrita e o segundo uma reunião de suas reportagens favoritas seguida da autocrítica favorecida pelo tempo. Corajoso. Eu ri e chorei, lendo. O livro de Ailton Krenak me mostrou que eu ainda preciso saber mais sobre ele, estudar. Um convite. Ano que vem, pretendo ler mais esse autor.

O romance L’absence de Jean-Denis Bredin caiu na minha cabeça no escritório desarrumado pela minha ausência. Achei que ele me pedia então. Uma descoberta. Novamente eu me vi com a despersonalização..., com o apagamento do eu como escolha. O livro é dos anos 80, então não dá (ou dá?) para dizer que é uma coisa de agora: Ferrante, Zafón, Baricco, Sylvain Prudhomme... Eu preciso pensar mais. O enigma literário que vou levar para 2021.

Há um tempinho ganhei de uma das muitas pessoas queridas da minha vida O filho de mil homens de Valter Hugo Mãe. Eu conhecia Mãe de textos breves, aqui e ali, e por dois livros que comprei para a Clarinha e para mim: A História do homem calado e As mais belas coisas do mundo. Livros encantadores! Em O filho de mil homens, Isaura e Antonino me fizeram sofrer demais, porém infinitamente menos do que os dois penaram no romance..., mas o Crisóstomo é um desses personagens que nascem de uma esperança imprevista, que escapou do peito do escritor e que o escritor permitiu que vingasse! O livro é dedicado às crianças... Ele me “ensinou” que se a gente se sente inteiro ainda pode ser o dobro! Eu flutuei. No final, ele também me fez pensar em História, em tempo longo e em reconexão com uma história maior que nossa vida pequenina... Temas candentes para mim e que estão em vários textos que escrevi e publiquei. Tenho uma amiga que vai amar esse parágrafo sobre seu deus particular...

Este ano uma pessoa amiga lançou seu primeiro romance por uma editora que me é cara: Adriana Martins lançou Berenice da capadócia: jornada do não herói. Amanhecer, pela editora Máquina de Escrever. Trata-se de um romance histórico e de aventuras, ambientado no século IV de nossa Era. Esse é só o primeiro volume da saga. Eu gostei de como as camadas de tempo se entrelaçam no texto: a pesquisa da autora, seu esforço de ambientação (finíssimo em Adriana, que é historiadora. O livro tem ricas notas) e o tempo que se insinua pela estratégia – no autor modelo. Trata-se de um romance sobre uma moça simples que começa a vida e a narrativa como pastora na Capadócia.  A personalidade de Berenice é em grande parte moldada pelo contador de histórias Matathias, a quem ela salva e que se torna seu melhor amigo. As suas aventuras/agruras são de fato emocionantes. As violências sofridas no palácio da “perfumista” Lewellyn, a amizade com a doce Licínia, o “crime”, a vida junto aos Charmosos Maltrapilhos e depois encontrar o amor junto a Ezana... A vida de Berenice não é fácil e acho que os leitores interessados lerão um capítulo da história das mulheres no tempo, por meio de um romance bem escrito e informado. Já estou à espera dos próximos volumes, Adriana!

Li um romance inédito de uma amiga. Não posso avançar, ela ainda não publicou. Agradeço a confiança da partilha. Espero que ela possa publicá-lo em 21. Sei que é trabalho de anos, em que juntou experiências estéticas e coração.

A Bênção de Kent Harut chegou no Natal. É o último livro desse ano de leituras e peço perdão ao leitor cansado para... um pouco mais. Ainda que tenhamos trocado presentes e celebrado um nascimento à mesa em casa, estávamos machucados pela morte de um amigo bem no dia 24 (role a barra e leia aqui no blog). A leitura foi dura... Bênção é a narrativa do último mês de vida de um homem: Pai Lewis, dono de uma loja de ferragens no condado de Holt (Nebrasca), casado e pai de Lorraine e Frank. Simples, Harut vai devagar. Pai Lewis não via o filho há anos. Filho gay; filha sobrevivente de uma filha morta aos 16 anos. Pai Lewis sobreviveu também: ao antigo funcionário ladrão e depois suicida, casado com uma mulher que ofereceu a Lewis compensação do furto com um sobretudo aberto. Hã?! É isso mesmo. Vizinho de uma senhora que perdeu a filha jovem demais (também) e herdou uma neta criança demais... Amigo de duas mulheres valentes, sozinhas (Willa e Alene)... Vai devagar, Haruf. Ele sabe do ofício. Eu já tinha visto isso em Nossas Noites. Como ele nos arrebata? Vou dizer. Ele descobriu uma saída, ao retirar toda a vaidade do narrador. É como se ele deixasse os personagens na nossa frente e dissesse: conheçam-se, descubram-se, eu já volto. Mas ele está ali, atrás da cortina.

Bênção me emocionou. Talvez não tenha sido o melhor momento... Mas 3 cenas me tiraram da sarjeta literária. 3 banhos! O primeiro, tão bonito quanto o banho que Lenu deu em Lila antes do casamento de Lila (Amiga genial, de Elena Ferrante). Lorraine, Willa, Alene e a pequena Alice fazem piquenique, tomam sol e sentem calor. Há um reservatório logo ali, que bom para refrescar! É Lorraine quem se desnuda primeiro: seu corpo aos 50 anos é bonito, natural. Depois, cada uma, desde a pequena Alice até Willa. Corpos disciplinados, de repente em liberdade. Elas riem surpresas da descoberta da sua nudez. Etapas da vida de uma mulher. Quando Willa mergulha, a água desmancha seu coque de velha em um longo e farto cabelo branco! Choro. Há uma profunda comunhão ali. Não, não há nada erótico. Esquece o Baricco! Lorraine segura a mão pequena de Alice. A água está fria, a menina sente – “Meu Jesus!”. Lorraine diz: “Você tem de gritar”. Eu quero também. A pequena responde: “Filho da puta!”. Todas elas riem. Chorei outra vez. São poucas falas, o que significa que o narrador está ali o tempo todo, mas Kent é tão respeitoso que a gente nem sente o seu voyeurismo. Os outros banhos são os da despedida de Pai Lewis. O primeiro, seu corpo ainda vivo, entregue aos cuidados da mulher amada; o segundo, a filha e a mãe preparam o corpo morto do personagem. Miguel Sanches Neto também ressaltou o banho das mulheres na sua resenha.

Na manhã em que terminei Bênção, eu recebi a notícia da morte de uma outra pessoa: o marido de uma das mulheres mais importantes de minha vida. Eu pedi Bênção como presente de Natal e você pode ler essa frase de outro jeito, tirando o itálico. A leitura ficou entre perdas reais e eu não sei bem se as páginas me fizeram sofrer mais ou se Kent Harut me deu aquilo que Paul Ricoeur anteviu em Soi-même comme un autre sem “resolver” a questão, com aquela delicadeza que era a sua marca intelectual: “Quanto à morte, as narrativas que a literatura faz dela acaso não têm a virtude de embotar o aguilhão da angústia em face do nada desconhecido, dando-lhe imaginariamente o contorno desta ou daquela morte, exemplar por uma razão ou outra?”[6].

Eu abandonei uma dica de leitura de amigo: San-Antonio renvoie la balle... Isso me corta o coração. Li 1/3 da obra e não gostei. É direito do leitor abandonar, eu sei, mas é direito abandonar a dica de um amigo?! Ano que vem, eu tento pagar a dívida do coração.

São 35 livros lidos exclusivamente pelo meu prazer, sem relação com meu projeto de pesquisa. Não é uma lista descomunal. Não dá 3 por mês. Em dois meses, março e agosto, eu quase não li “outras coisas”, ocupadíssima com a pesquisa, com o acesso às bibliotecas, com as reviravoltas do mundo, com meus temores, minha saúde, minha filha – menina demais. Mas 35 livros acompanharam os meus estudos acadêmicos, a tradução que encampei, minha escrita ensaística e a escrita de uma nova história. São livros parceiros de outros, meus parceiros. Livros fuga, livros salvação... Para o próximo ano: meu enigma literário, dois livros começados em 2020 nos dois clubes do livro de que faço parte e para os quais voltei – o Romance da pedra do reino de Ariano Suassuna e La vie devant soi de Romanin Gary – e um terceiro, começado mesmo ontem, sugestão da minha querida Sofia Silva: Torto arado de Itamar Vieira Júnior. Mas esse, vou bem devagar, pois quero esperar uma pessoa. É gostoso isso: romances começados e companheiros para desbravar 2021; juntos: eu, eles e as pessoas queridas com quem os leio ou de quem me lembro em cada página, com quem converso. Livros e gentes. Acho que 2021 pode começar assim logo mais.



Feliz ano novo!





[1] A lista desses livros em particular estará na bibliografia do livro que pretendo lançar no próximo ano

[2] Há alguns anos meu ex-orientando Victor Alvim me falou do Kindle: Profe, você precisa de um! Eu, preguiçosa e burra para as tecnologias, deixei para lá. Ano passado, meu orientando Renato Toledo e minha amiga e ex-aluna Daniele Shorne me convenceram afirmando que minha burrice contumaz não me impediria de dar conta do kindle, além disso eu não podia incluir livros na minha única mala permitida para tantos meses de França... Renato me falou da assinatura e ele tinha razão. Fiz e ela se pagou desde sempre.

[3] Aludo aqui ao conto de Clarice Lispector: “Felicidade clandestina”.

[4] Em 2016: < http://literistorias.blogspot.com/search/label/Michel%20Zink>

[6] RICOEUR, Paul. O si-mesmo como outro (1ª ed.). São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2014. P. 173. Levei essa mesma questão para meu livro sobre os trovadores...

sábado, 26 de dezembro de 2020

Um homem morreu no Natal

 Para Vilelma Pereira Passos Homem

 

 

Em todo Natal morre gente. Em 2013, meu sobrinho João Paulo morreu na madrugada de 22 e 23 de dezembro, na estrada, e o Natal daquele ano foi o mais triste de minha vida. A gente está muito acostumado a falar de nascimento, a celebrar o nascimento de um menino em condições tão adversas, mas todo dia vão embora da nossa companhia em situações/condições que poderiam ter sido evitadas pessoas que amamos e vão embora ainda outras em circunstâncias que ultrapassam (e muito) o poder que julgamos ter.

Uma pessoa muito importante na minha vida morreu no dia 24 de dezembro. Foi a primeira pessoa a escancarar o peito para eu habitar nessa cidade, quando cheguei há quase 23 anos. E eu habitei! Montei casa com piscina, instalei sofá confortável, andei descalça, de túnica leve, não penteei o cabelo, espalhei meus livros amados, minhas conversas, deitei minha cabeça no seu colo, no ombro amigo... Eu vivi em paz. Éramos diferentes... a começar pela geração! Mas como sou menina velha, eu gostava de conversar com aquele velho menino. Eram conversas muito engraçadas. Eu gostava de ouvir suas histórias aventurosas. Ele as colecionava! Dia 24, enquanto jantávamos, a memória dessas histórias foi o meu alimento verdadeiro. Cheio de sabor!

Esse homem amou muito: seus filhos, seus amigos, as mulheres, a minha família, a sua igreja, a vida. Mas, um dia, ele perdeu um grande amor e não quis mais viver. Aí todas as divindades dos céus mais diferentes entraram em acordo só para lhe dar um amor para sempre. Essa mulher também abriu seu peito para eu habitar. Tornamo-nos amigas por causa dele, mas depois não, por nossa causa!, e o que eu mais lamentei ontem, quando o corpo físico do seu homem foi encomendado, foi não ter podido abraçá-la longamente, cantar os hinos que aprenderia na hora, enxugar-lhe as lágrimas e dizer-lhe eu estou aqui para sempre e para você.

Esse homem que morreu foi meu padrinho de casamento; fiador da primeira casa que comprei na vida sem me conhecer bem – aquela casa que dá à gente de origem pobre como eu a ilusão de ter finalmente segurança...-; em sua casa escrevi praticamente minha dissertação de mestrado – afinal ou pagava a casa, ou comprava computadores... -; me diverti em festas; debati política – sem querer sair no pau -; dei tanta risada que eu acho que ele conhecia todos os centímetros do meu sorriso! Esse homem foi meu amigo sincero, o amigo que nunca me pediu nada em troca – nem visitas(!) porque compreendia a mulher ocupada -, uma pessoa em quem eu podia confiar, confiar-me.

Depois do jantar e da troca de presentes no dia 24, já havia falado com a família pelas plataformas digitais que nos permitiram ao menos trocar sorrisos (não reclamo delas por isso!), estava sentada e quase desmaiei no meio da sala. Não sei o que me deu. Assustei a minha filha... Senti uma tristeza infinita que me exigiu ficar na cama praticamente todo o dia 25. Na cama. Os mais próximos sabem que isso ou é estar dilacerada de enxaqueca ou à beira da morte. Sabe quem me tirou de lá? O amor para sempre do meu amigo! Ela me lembrou que ele talvez tivesse decidido assim para aproveitar a ceia de Natal junto às pessoas de quem ele sentia tanta saudade nos últimos tempos... Nos últimos tempos, o velho menino estava de fato mais maduro.

Mas meu amigo morreu de Covid-19. Isso não é uma informação vã. Em todo Natal morre gente, é claro. Todo dia vão embora da nossa companhia em situações/condições que poderiam ter sido evitadas pessoas que amamos, eu escrevi acima. Quando a imprudência matou meu sobrinho, ele não tinha vivido o suficiente para querer reencontrar os seus, os seus estão aqui!!, ele foi morto antes de acumular experiência para sentir saudades.

Não estou mais na cama e estou estarrecida com as imagens do despudor universal. Por todo o lado, o desprezo corrompe a nossa humanidade – não provoco quem despreza essa palavra por relacioná-la à parte de uma história, ou seja, a lê-la da mesma maneira seletiva com que já sua cultura foi lida. Eu provoco os que a usam! O desprezo nos palácios, na praia, nas festas clandestinas... o desprezo nosso à mesa, olhando na cara e bem no olho das pessoas que afirmamos amar. Palavras em banho Maria, para seres de consistência de pudim.

A vacina chegou atrasada, meu amigo. O ano fica mais pobre sem um dos meus feriados: seu aniversário! Meu sorriso perde muitos centímetros. Mas obrigada por esses anos em que morei no seu peito, em casa com piscina, sofá confortável, descalça, túnica...  minha cabeça no seu colo. Obrigada.



Para um homem que adorava cruzeiros (quantas histórias!), um barco da Clarinha. Vai com Deus, tio Heres. Tenho certeza de que até Caronte é capaz de rir na sua companhia.


sábado, 19 de dezembro de 2020

Que apego é esse? Sobre a morte dos mestres

 Para Daniel Osiecki

 

No início do mês[1], acordei com a notícia da morte de Eduardo Lourenço. Morreu velhinho, “viveu”, disse uma amiga. “Viveu”, é claro, amou, foi amado, reconhecido, convidado, bajulado, LIDO... e eu, triste (?!).  Por que tristeza, então, para uma vida que se cumpriu rica, plena? O fato é que, mesmo sem ter tido tempo para pensar a tristeza, assoberbada como sempre, eu a senti... e voltei ao sentimento no convite de meu amigo Daniel Osiecki para conversar sobre sua obra. Fui olhar os meus Lourenços e me lembrar da pessoa que fui quando eu conheci cada um deles. Felizmente, as margens dos livros me ajudaram a resgatar a “nossa relação”. Não, eu nunca apertei a mão do mestre, mas o Georges Duby já nos salvou da imprescindibilidade dessas necessidades físicas, ao dizer que se sentia discípulo de Marc Bloch porque o tinha lido. Se ele disse... Então, porque discípula, eu podia sentir tristeza e até um sentimento de injustiça, afinal, nenhum de meus mestres recebeu autorização para morrer, já aviso.

Quando a gente admira alguém, saber que essa pessoa – mesmo debilitada – vive e vive até a despeito do seu desejo de morrer em alguns casos... dá a nós uma calma egoísta de participamos à distância do milagre da existência dela. A gente abre um livro, lê um parágrafo e imagina-se respondendo a uma coisa que essa pessoa perguntou em 1978, em 1999, em 2013... e vai acumulando desejos, expectativas de encontros, porque participamos do milagre de a nossa existência nesse mundo coincidir com a presença da pessoa admirada!

Quando o Saramago morreu, já estava muito debilitado, eu fiquei arrasada e apavorada, pensando na minha Mestra e Amiga Teresa Cerdeira, amiga de Saramago. Temi que ela adoecesse; temi que adoecêssemos sem ele, sem sua presença já em cadeira de rodas...

O fato é que a morte de pessoas como José Saramago (em 2010) e Eduardo Lourenço (em 2020) – bem vividos na sua vida plena, decerto – planta em nós uma tristeza de perder a possibilidade de ler a novidade e de se atrever a continuar a respondê-los, naquele diálogo imaginado que preenche o coração dos leitores/discípulos fieis.

Acabo de reler o 1º texto de Lourenço que li em minha vida, sobre o Antero de Quental, que adoro. Eu devia ter 19 anos quando li esse texto. Trata-se de umas fotocópias tiradas de livro que pertence à minha Teresa Cerdeira, em que é nítido (por causa de sua letra linda) o comentário final: “belíssimo”. Minhas anotações se misturam às dela, conversamos nessas páginas e a Marcella que sou hoje ainda achou espaço para interpor um grifo, de repente mudo... Uma tristeza me invade nessa injustiça de não sabê-lo imortal para as dúvidas de todas as Marcellas que eu espero ser, na companhia de sua obra! Essa companhia é hoje todo o meu atrevimento.


Confira o bate-apo sobre Eduardo Lourenço em: LUSOFONIA E POLÍTICA - Marcos Pamplona conversa com Marcella Lopes Guimarães e Daniel Osiecki 

 

Do site: https://www.eduardolourenco.com/index.html



[1] 1º de dezembro de 2020.


segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Um professor de História e Geografia foi degolado na última 6ª feira na França, essa tragédia merece muito mais que 1 minuto de silêncio

O Professor de História e Geografia, Samuel Paty, 47 anos, foi alvo de integristas muçulmanos por ter levado caricaturas à sala de aula, para um debate sobre a liberdade de expressão. O Professor Samuel Paty foi assassinado. As caricaturas em específico foram as caricaturas publicadas no jornal Charlie Hebdo e que já inflamaram outros assassinos. O Professor Paty foi ameaçado em redes sociais, foi ameaçado por famílias na escola em que trabalhava e foi vítima de um crime pensado por manipuladores, criminosos conhecidos na França, e realizado finalmente por um adolescente descartável por esses manipuladores e vazio de qualquer força moral interior. Alguém pode dizer condescendente: mais uma vítima dos manipuladores, Marcella... Eu vou responder: reconheço o velho debate entre os que depositam todas as fichas nos fatores contextuais/coletivos e aqueles que colocam todas as fichas na vontade (interior) do humano. Há muito tempo acho que esse é um dilema que esvazia o debate nas ciências humanas. Minha posição de forma muito sintética: a mão pode ser armada por uma arma comprada/ofertada por outro, as idéias que animam a empunhá-la podem ser uma mistura confusa de equívocos e necessidades que abrasam na hora do embate, mas quem atira, e no caso de Paty quem cortou a carne, foi a mão individual que, três segundos antes de realizar o crime, teve alternativa e mobilizou a sua vontade para o crime. Desculpem, creio demais na juventude para acreditá-la, por sua vez, formada por bonecos infláveis de posto. Não vou prosseguir nesse debate, pois tenho outras coisas a considerar.

As lideranças muçulmanas que pregam a paz e a fé na palavra que segundo a sua crença foi revelada por Deus ao Profeta Maomé vieram a público apontar os manipuladores contra quem essas lideranças já prestaram inúmeras queixas. Fizeram declarações fortes na imprensa. Estão na rua hoje inclusive, correndo o país e dizendo que o Islã não pode ser confundido com a malignidade dos manipuladores em falsas associações e nas redes sociais. Um deles afirmou: professores, vocês são profetas; perdão; Paty é um mártir. É fundamental que as lideranças de fato religiosas e os fieis se posicionem publicamente contra os integristas falsamente identificados com sua fé. É fundamental que se levantem (como Chalghoumi hoje). Sempre levantarei a minha voz simples, eu que estou longe de ser uma liderança, contra os católicos criminosos que cometeram crime contra a criança vítima de violência e que teve a interrupção da gestação autorizada pela lei do Estado brasileiro. Quero docemente que eles e elas encontrem assento no inferno que sonham para os outros. Espero sempre que evangélicos de fato crentes posicionem-se publicamente contra os integristas que tentam mudar a vocação do Estado brasileiro, um Estado laico.

O assassinato do Professor Samuel Paty é um crime que me atinge, que me toca e que me faz sofrer por tudo o que convergiu para a sua execução: as situações específicas da História do seu país; as situações que extrapolam a França e que constrangem os professores pelo mundo; o papel das famílias em vários Estados na sua relação com a escola; a relação do Estado laico com as igrejas e a convivência entre as identidades de reunião[1] em uma república democrática.

Por todo o lado, o magistério é uma profissão de risco. Sim, nos países ricos, a violência contra os professores não é caso isolado. Entre nós... foi até mesmo assumido como decisão institucional. Já são 5 anos do massacre do Centro Cívico, ordenado pelas forças políticas eleitas para servir ao Estado. É arriscado elevar-se contra os constrangimentos familiares, de identidades que acreditam que só elas têm o direito de existir; é arriscado oferecer às crianças e aos jovens os livros e a literatura a quem têm direito para a formação de seu repertório; é arriscado contrapor o negacionismo; é arriscado cobrar do Estado; é arriscado dizer às crianças e aos jovens – e fortalecer sua vida interior – que eles e elas têm escolha e que podem pensar por si mesmos; é arriscado formá-los e educá-los contra suas fantasias perigosas e seus próprios desejos imediatos... O Professor Samuel Paty levou fontes históricas à sala de aula para um debate sobre a liberdade de expressão, seu sacrifício revela tragicamente a escala em que um tema desse precisa ser enfrentado pelo mundo afora.

No fim de semana, cidadãos franceses “esqueceram” a Covid-19 e foram às ruas render homenagem ao Professor Paty. As autoridades políticas expressaram o seu horror contra a violência que o atingiu e estão agindo. Uma homenagem nacional lhe será prestada. Não posso falar da eficácia... A morte de um professor brasileiro mobilizaria o presidente do país da sala para o quarto ou para o banheiro. Semana passada foi dia dos professores. O governo eleito por quase 58 milhões de brasileiros despreza os professores. As evidências são inúmeras, inclusive na pasta da Educação. A violência contra nós e o sacrifício de nossa vida são linhas em jornais que as autoridades desprezam, bem como seus eleitores...   

Eu não escrevi #jesuischarlie no passado recente, mas sinto a morte de Paty como já senti a morte de colegas que eu perdi na minha carreira, como chorei... Os colegas que perdi, eu perdi para doenças e para acidentes, eu perdi o Professor Samuel Paty para o integrismo, para a ignorância, para o mal absoluto que manipulou certamente um jovem perigoso e ignorante. Uma família perdeu um pai, um marido. Mas a família do assassino exulta, afinal foi bem sucedida em criar um assassino, a despeito do esforço dos seus professores de transformá-lo em um cidadão... Uma das coisas mais tristes que já escrevi em minha vida.

Semana passada foi dia dos professores no Brasil. Para mim, Paty é um mártir brasileiro também. Não vou escrever #jesuispaty porque gostaria que sua identidade com homem, professor e pai fosse preservada para nos constituir inteira. Eu sou Marcella e a memória de Paty que eu não conheci é parte de mim.

Foto de Betrand GUAY/AFP




[1] Há muito tempo tenho falado dessa ideia que fui buscar na obra de Amin Maalouf.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

No dia da padroeira, nesse particular 12/10/2020, minha oração singela

 

Minha mãezinha Nossa Senhora Aparecida,

 

proteja as crianças do Brasil e do mundo. Proteja a minha filha que arrastei para o epicentro de um furacão este ano. Proteja todos os meninos e meninas dos delírios de seus pais e da sanha dos adultos violentos que os cercam em ruas e nas próprias casas. Proteja as crianças da irresponsabilidade de governantes e gestores.

 

Proteja os velhos e as velhas em contexto em que a morte tem nova aliada, privando o mundo de convívios delicados e da troca de experiência entre gerações. Proteja-os da crueldade de sua vida ser considerada inflacionária dos cofres públicos e dos leitos hospitalares.

 

Proteja-nos, a nós, mulheres e homens que se recusam a abrir mão da sua humanidade, que se recusam a aceitar a ostentação do preconceito, da ignorância e do desrespeito. Blinde a nossa alma contra a indiferença diante do fogo que consome a vida na terra, que se arrasta, que corre, foge e sobrevoa atordoada... a vida que morre de indigestão pelas porcarias jogadas no mar, que vaga, que vaga sem destino por perímetros cada vez mais curtos. Proteja a árvore que dá sombra, fruto, folha, força e revelação do amor.

 

Mãe, proteja-nos das nossas falsas necessidades! Enfraqueça o nosso apetite sensual pelas compras, porque o vírus vai ser embrulhado em tudo de que não precisamos, mas vai matar certeiro os velhos e os frágeis que amamos.

 

Mãe, proteja-nos de qualquer integrismo. Mobilize um sonho ou uma visão (ora, temos longas tradições na matéria!) para que o devoto reze em casa. Quando for seguro, que a gente abrace e beije na paz do Senhor outra vez. Meu irmão, minha irmã, a paz do Senhor, a paz do Senhor...

 

Mãe, proteja o mundo dos presidentes que são indiferentes à morte dos cidadãos que lhes deram o status de que gozam. E eles gozam. Salve-nos da sua reeleição! Proteja o povo das suas mentiras doentias e incontroláveis. Mãe, não permita que a mentira convença mais! Reinstaure a autoridade da voz bem informada. Que o povo reconheça que construiu o Estado, ninguém lhe deu!, e que deve cobrar serviços, dignidade e verdade.

 

Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil doente, fortaleça os fortes e tire a venda dos confundidos. Encoraje o nosso povo, porque o Brasil é grande e tem um papel nesse mundo. Mãe, que nenhum auxílio pontual reverta em mais apoio ao canalha particular que flerta com o mal, falso crente, lascivo da morte, devoto exclusivo da própria genética, esbanjador do sangue alheio.

 

Mãezinha, pelas crianças, pelos velhos, nossos amigos e pela multidão de desconhecidos que não terei o prazer de saber o nome, inflame o nosso peito de ternura, de cuidado, apreço e respeito reverente pelo outro.

 

Estenda seu manto divino sobre nós. Amém.

O Santuário de Aparecida, em janeiro de 2019 (minha 1a vez lá!), quando 2020 era apenas (!) um sonho bom