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sábado, 26 de dezembro de 2020

Um homem morreu no Natal

 Para Vilelma Pereira Passos Homem

 

 

Em todo Natal morre gente. Em 2013, meu sobrinho João Paulo morreu na madrugada de 22 e 23 de dezembro, na estrada, e o Natal daquele ano foi o mais triste de minha vida. A gente está muito acostumado a falar de nascimento, a celebrar o nascimento de um menino em condições tão adversas, mas todo dia vão embora da nossa companhia em situações/condições que poderiam ter sido evitadas pessoas que amamos e vão embora ainda outras em circunstâncias que ultrapassam (e muito) o poder que julgamos ter.

Uma pessoa muito importante na minha vida morreu no dia 24 de dezembro. Foi a primeira pessoa a escancarar o peito para eu habitar nessa cidade, quando cheguei há quase 23 anos. E eu habitei! Montei casa com piscina, instalei sofá confortável, andei descalça, de túnica leve, não penteei o cabelo, espalhei meus livros amados, minhas conversas, deitei minha cabeça no seu colo, no ombro amigo... Eu vivi em paz. Éramos diferentes... a começar pela geração! Mas como sou menina velha, eu gostava de conversar com aquele velho menino. Eram conversas muito engraçadas. Eu gostava de ouvir suas histórias aventurosas. Ele as colecionava! Dia 24, enquanto jantávamos, a memória dessas histórias foi o meu alimento verdadeiro. Cheio de sabor!

Esse homem amou muito: seus filhos, seus amigos, as mulheres, a minha família, a sua igreja, a vida. Mas, um dia, ele perdeu um grande amor e não quis mais viver. Aí todas as divindades dos céus mais diferentes entraram em acordo só para lhe dar um amor para sempre. Essa mulher também abriu seu peito para eu habitar. Tornamo-nos amigas por causa dele, mas depois não, por nossa causa!, e o que eu mais lamentei ontem, quando o corpo físico do seu homem foi encomendado, foi não ter podido abraçá-la longamente, cantar os hinos que aprenderia na hora, enxugar-lhe as lágrimas e dizer-lhe eu estou aqui para sempre e para você.

Esse homem que morreu foi meu padrinho de casamento; fiador da primeira casa que comprei na vida sem me conhecer bem – aquela casa que dá à gente de origem pobre como eu a ilusão de ter finalmente segurança...-; em sua casa escrevi praticamente minha dissertação de mestrado – afinal ou pagava a casa, ou comprava computadores... -; me diverti em festas; debati política – sem querer sair no pau -; dei tanta risada que eu acho que ele conhecia todos os centímetros do meu sorriso! Esse homem foi meu amigo sincero, o amigo que nunca me pediu nada em troca – nem visitas(!) porque compreendia a mulher ocupada -, uma pessoa em quem eu podia confiar, confiar-me.

Depois do jantar e da troca de presentes no dia 24, já havia falado com a família pelas plataformas digitais que nos permitiram ao menos trocar sorrisos (não reclamo delas por isso!), estava sentada e quase desmaiei no meio da sala. Não sei o que me deu. Assustei a minha filha... Senti uma tristeza infinita que me exigiu ficar na cama praticamente todo o dia 25. Na cama. Os mais próximos sabem que isso ou é estar dilacerada de enxaqueca ou à beira da morte. Sabe quem me tirou de lá? O amor para sempre do meu amigo! Ela me lembrou que ele talvez tivesse decidido assim para aproveitar a ceia de Natal junto às pessoas de quem ele sentia tanta saudade nos últimos tempos... Nos últimos tempos, o velho menino estava de fato mais maduro.

Mas meu amigo morreu de Covid-19. Isso não é uma informação vã. Em todo Natal morre gente, é claro. Todo dia vão embora da nossa companhia em situações/condições que poderiam ter sido evitadas pessoas que amamos, eu escrevi acima. Quando a imprudência matou meu sobrinho, ele não tinha vivido o suficiente para querer reencontrar os seus, os seus estão aqui!!, ele foi morto antes de acumular experiência para sentir saudades.

Não estou mais na cama e estou estarrecida com as imagens do despudor universal. Por todo o lado, o desprezo corrompe a nossa humanidade – não provoco quem despreza essa palavra por relacioná-la à parte de uma história, ou seja, a lê-la da mesma maneira seletiva com que já sua cultura foi lida. Eu provoco os que a usam! O desprezo nos palácios, na praia, nas festas clandestinas... o desprezo nosso à mesa, olhando na cara e bem no olho das pessoas que afirmamos amar. Palavras em banho Maria, para seres de consistência de pudim.

A vacina chegou atrasada, meu amigo. O ano fica mais pobre sem um dos meus feriados: seu aniversário! Meu sorriso perde muitos centímetros. Mas obrigada por esses anos em que morei no seu peito, em casa com piscina, sofá confortável, descalça, túnica...  minha cabeça no seu colo. Obrigada.



Para um homem que adorava cruzeiros (quantas histórias!), um barco da Clarinha. Vai com Deus, tio Heres. Tenho certeza de que até Caronte é capaz de rir na sua companhia.


domingo, 19 de abril de 2020

Uma defesa de Tomé, homem apegado aos fatos


Tomé não tem uma fama bacana. Individualista? Incrédulo? Antipático? Só acreditaria nos amigos se visse... Todo mundo já ouviu falar nesse drama. Quando Jesus adentra a casa dos seus, alguém já parou para pensar que os discípulos estavam trancados cheios de medo e Jesus simplesmente “apresenta-se” na sala?! Por onde entrou? O evangelho do dia de hoje – João: 20, 19-31 – lança Tomé no meio de uma história que mexe com a gente. Achei engraçado que hoje justamente a carta escolhida tenha sido uma de Pedro, o que negou, afinal... É uma gente cheia de arestas essa de que Jesus se acercou.
  Mas voltemos à casa de portas trancadas. O evangelho é claro: os discípulos estavam trancados porque estavam com medo. Quando Jesus chega (de onde?), fala “A paz esteja convosco” e nada... O texto também é claro ao dizer que Jesus mostra as mãos e o lado. Aí os amigos se enchem de alegria. Devo lembrar que, quando Madalena confundiu Jesus com o jardineiro (rsrsrs), bastou que ela o ouvisse chamar-lhe para reconhecê-lo... Mas bora retornar a casa. Jesus fala de novo: “A paz esteja convosco...” e insufla-lhes o Espírito Santo.  
Ora, por que esse conjunto de versículos catapulta Tomé? Porque Tomé NÃO estava na casa de portas fechadas! Ué, não é mais amigo dessas pessoas? Ou simplesmente não queria se trancar com medo? Sei que a reposta à primeira pergunta é NÃO, pois esses amigos contam para ele a novidade da visita de Jesus. Ora, se não fosse mais amigo deles, das duas uma: ou os discípulos receosos não lhe contariam a nova pelo perigo ou nem teriam tido a chance de fazê-lo pelo distanciamento. E a segunda questão? Dada a ousadia da frase: «Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado, não acreditarei» jogada na cara dos receosos, eu tenho dúvidas. Minha dúvida quase se apaga quando penso que, alguns dias depois, Jesus reaparece lá naquela casa “de portas fechadas” e sabe quem estava lá?! Tomé! Por onde Jesus entrou mesmo? Eu adoro essas repetições e ao mesmo tempo a falta de explicação do texto bíblico... Eu e Erich Auerbach! Metida.
Jesus conhece bem esses amigos. Depois de saudar a todos com o seu costumeiro “A paz esteja...”, ele vai diretinho para Tomé: “Põe o dedo..., vê...,  aproxima a tua mão...”. Só no fim pede: “Não sejas incrédulo...”. Jesus compreende que Tomé tem necessidade de fatos. Compreende-se também que Jesus conclua “felizes os que acreditam sem terem visto», afinal ele curte narrativas, parábola aqui, parábola acolá. Mas tanto os medrosos da primeira cena quando os medrosos e Tomé da segunda precisaram ver. 
Jesus compreende. Ninguém ouviu Jesus dizer:
- Ei, vem cá! É tu mermo. Pra começá: onde é que tu tava quando eu vim aqui outro dia me arriscando e soprei o Espírito Santo na cara de todo mundo? Por acaso, tu tava na casa de Marta passando pano na cozinha ou lavando os tupperware? (imagino que na hora da exaltação, Jesus teria esquecido as flexões verbais e concordâncias de número, como qualquer pessoa furibunda). Olha aqui, eu morri, ressuscitei três dias depois, tu sabe o que é isso? Olha esses machucados na minha mão, põe teu dedo medroso devagar porque num sarô de todo. Tu entrô na máquina do tempo e foi parar em 2020? Tava de quarentena onde e com quem? Firma esse corpo, homi, ou então vaza de vez.
Nada disso está nos evangelhos.
Tomé ouviu as parábolas, viu, sofreu junto, dispersou-se com medo e depois precisou dar um tempo. Chamado pelos amigos, teve necessidade de mais do que uma história para acreditar. Imagino que Tomé sairia do grupo de whatsapp ou colocaria uns e outros crédulos na soneca. Para mim, ele foi responsável, não descrente. Ora, por que Jesus permitiria a ele o que não havia permitido ainda a ninguém? Certamente achava que ele valia a pena, mesmo que tivesse um zelo muito particular pelos fatos. Aliás, depois dos fatos, Tomé é o mais íntimo: “Meu senhor e meu Deus”.
Esse conjunto de versículos é um primor. Visão, audição, tato... imagino que havia ali naquela casa trancada qualquer coisa para se comer e que cheirava bem. Cadeiras arrastadas, já são horas! Todos querem ficar perto do senhor. Uma nova ceia. Talvez conversassem animados pelo vinho, Jesus teria novo repertório de parábolas fresquinhas de sua experiência excepcional! Ninguém as escreveu... Depois da janta imagino que a louça tenha ficado para Tomé, por causa da má-criação. Todos riem. Ele, sério. Um homem preso aos fatos, não ao blá-blá-clá dos amigos de pouca coragem. Homem que precisa verificar os dados.
Enquanto todos cochilam na sala, Jesus caminha em direção à cozinha. Pega um pano de prato e se põe ao lado de Tomé. Seus braços se tocam na passagem dos pratos molhados.
- Mestre, cuidado para não molhar os machucados.
- Bem que cê pudia tê trazido um merthiolate lá da máquina do tempo, né? Piscou.
Tomé abana a cabeça. Esse mestre adora uma parábola. Pensou.

A incredulidade de Tomé, de Caravaggio (pintado entre 1601 e 1603)


terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Filmes românticos de Natal para os românticos incuráveis

Abandone as redes sociais e estique-se no sofá por 90 minutinhos. Um certo canal de TV por assinatura anunciou “24 dias cheios de Natal”, ou seja, 24 horas de filmes românticos de Natal em 24 dias. Um prato cheio para os cinéfilos românticos. Presente! Como eu passei metade do mês fazendo de tudo um pouco, raramente consegui ver os filmes todos de uma vez. Mas o canal não prometeu 24 horas de filmes inéditos, então eu me beneficiei das inumeráveis repetições e posso anunciar com certo orgulho que, em 16 dias loucos de tarefas, consegui ver 12 filmes românticos de Natal!!!!!
Um cinéfilo romântico é só um romântico incurável que ama filmes do gênero: alguém que quer avisar o casal quando o equívoco se apresenta; que torce por eles; que não perdoa quem atravessa a cena do primeiro beijo; que suspira internamente quando o ambiente é hostil, ou seja, quando há outras pessoas na sala... Junte tudo isso ao Natal e parece que os problemas, as crises, as decepções são lavados pela neve ininterrupta na tela: neve que eu ou você de fato nunca sentimos no rosto.
O mês de dezembro na nossa Curitiba tem nos dado dias frios: convidativos para um casaquinho e uma coberta. O verão degenerado predispõe o corpo para sentar diante da TV. A filha aprendeu a fazer cookies e eu senti vontade até de preparar chocolate quente! A filha (ainda) detesta os filmes românticos de Natal, pode ser que nunca aprecie ou pode ser só a timidez da pré-adolescência. Na minha, eu escondia bem, mas aos 45 já saí do armário faz tempo!
O melhor de assumir a cafonice é saber que a gente também não abre mão de achar sumamente tosco o rapaz estar pensando na vida ou na morte da bezerra, no meio da rua, debaixo de uma nevasca, com o presentinho que ganhou da moça, e encontrar o patrão para quem ele mentiu metade do filme e que lhe dá, entretanto, uma promoção! Trata-se de “Aplicativo para o Natal”, um tinder para solteiros e solteiras que precisam de companhia em eventos, sem que isso implique romance ou sexo. Ah, antes que você se assanhe, devo esclarecer que não há sexo em filmes românticos de Natal. Temos direito a apenas um beijo no final, no máximo 2: beijinho ou beijinhos muito corretos.
Tem singeleza exagerada nos filmes românticos de Natal, mas isso não refreia o cinéfilo romântico. Na verdade, a gente acha até bonitinho..., é como ter um pinguim bebê na geladeira. Esse texto não julga as (inúmeras) arestas do gênero. Na verdade, enquanto via esses filmes curtinhos (em média 90 min.) e feitos para TV, comecei a pensar nas várias coisas que eles me diziam e achei que isso merecia duas ou três considerações. Se ao final do texto, você não julgar que elas bastam ao menos para um bate papo antes da ceia, pode ao menos não julgar repulsivo alguém que se senta uns 15 minutos (ou mais...) para assistir com o coração na mão a confissão de Candace para a cidade toda, de ter duas mãos esquerdas, enquanto sua mãe é uma espécie de Martha Stewart!!!
 Em 11 dos 12 filmes que vi, encontrei mulheres assoberbadas: comissárias de bordo (Conexão de Natal), escritoras (Uma viagem de Natal), arquitetas (Flores de Natal), empresárias (Um Natal de Cinderela, Aplicativo para o Natal, À Procura de um Papai Noel), atrizes de sucesso (Natal fora de casa), produtoras de TV (Estrada para o Natal), atendentes (12 dias de presentes) e decoradoras (De repente noiva). Decoradoras me lembram Doris Day em “Confidências à meia noite”, filme que eu adorava ver nos finais dos anos com o meu pai. Essas mulheres são boas filhas, superaram em muito as expectativas de suas famílias e, ainda que algumas vezes tenham dúvidas sobre isso, o pai, ou a mãe ou um amigo muito próximo vai esclarecer que elas são demais! Obrigada, roteiristas amáveis.
Essas mulheres – na maior parte dos filmes são elas as protagonistas – não estão procurando um namorado. Elas estão cheias de planos não românticos, elas conhecem o mundo, têm fotos de vários lugares em que já estiveram, mas o amor atravessa a sua vida e ele faz com que elas achem o caminho de volta. Ulisses de saias! Também acham um jeito de acolher o amor na sua vida ocupada. Homens e mulheres se encontram. Eles se veem, reparam nas singularidades um do outro, eles se apaixonam.
Em 11 dos 12 dos filmes, há crianças. Elas têm entre 7 e 10 anos. São meninas e meninos, sobrinhos e sobrinhas, filhas e filhos de viúvos, uma viúva e um divorciado. As crianças são fundamentais, elas mobilizam o “espírito de Natal”. Elas creem em Papai Noel, fazem questão da decoração, espalham a sua pureza pelos quatro cantos onde se agitam adultos engajados nas festividades. Não raro as crianças colaboram para o namoro dos pais: “Conexão de Natal”, “Natal fora de casa”, “12 dias de presentes” e “Uma viagem de Natal”. Em “Um Romance de Natal”, trata-se do romance do tio da criança.
As famílias são todas de mamãe, papai, vovô, vovó, filhos e filhas. Não há duas mães ou dois pais sob o mesmo teto. O rapaz de “Aplicativo para o Natal” é bonitão, mas, se eu fosse a moça, voltava ao aplicativo numa boa e deixaria ele se descobrir. Match.
Os viúvos, a viúva e o único divorciado não namoram há muito tempo. Estão concentrados no trabalho e na criação dos filhos. Na sua agenda, não cabe nem uma quarta-feira com os amigos; na sua memória, não há noitadas ou bebedeiras. São pais sérios e decentes. É a noiva chata de “12 dias de presentes” que sai de casa e deixa o caminho livre para o fofo protagonista! Sim, há mulheres e homens chatos, mas há gente bacana à beça. Maioria. E todos lindos! Oh, glória!        
Em todos os filmes, há amigos. Amigos verdadeiros! Eles podem ser os irmãos e as irmãs, mas há também vizinhos, amigos de infância, do trabalho... Não há canalhas. Obrigada, obrigada! Eles são o ombro amigo, a palavra que falta, a consciência vigilante e o estímulo necessário. O casal precisa deles, do seu empurrão!
Os enfeites enchem nossos olhos e até causam confusão: “Um Natal muito, muito louco”. Há metros de anéis de papel vermelho e verde feitos em casa! Esses filmes devastaram florestas inteiras em busca da árvore ideal. Quem diria que pudessem ameaçar o meio ambiente?! Há muita gemada. Em “À procura de um papai Noel”, a receita! Há sempre muita comida, muito biscoito de gengibre. Se a revista de Liz Livingstone existisse, eu era capaz de fazer assinatura! E a neve? Muita: bonecos de neve, jogos na neve, bolas de neve atiradas carinhosamente, risos de neve.
Os suéteres são ridículos e fofinhos, com aquelas renas, estrelas, trenós... Ninguém pode querer enlaçar de maneira mais ousada uma rena desses, mesmo que envolva um belo talhe ou mesmo quando há um empurrão do roteiro: a protagonista cai nos braços do rapaz, no momento em que ela está colocando um enfeite no mais alto da árvore! Se a memória não me falha, duas protagonistas caíram nos braços dos amados. Mas não tem clima, gente. Rena, trenó, Papai Noel de narizinho vermelho... O vermelho é a cor das mulheres e do Noel! Em “Aplicativo para o Natal”, quando a atriz está vestida de vermelho na cena, ninguém mais está. Mas é vermelho Natal, não paixão, mesmo que sejam bem parecidos...
  Engraçado, esses filmes tão pudicos são muito recentes. Estamos falando de filmes de 2016, 2017 e 2018, sobretudo. Em dois deles, as coadjuvantes esperam seus maridos militares que estão em manobra e chegam para o Natal. Em “Flores de Natal”, o casal espera um novo bebê, ele ainda não sabe... Como assim? Rsrsrs Em “Um Romance de Natal”, é o vídeo da filha pedindo ajuda para organizar uma festa de volta para o pai militar que espoleta os acontecimentos. Suspeito gostos republicanos.   
Há uma coisa que me interessa muito: a oportunidade encontrada pelas mulheres para amar. A comissária de “Conexão de Natal” viu o mundo. Suas fotos encantam a filha do seu amado, um jornalista preso à cidade de Chicago. Ela é uma mulher feliz, realizada e capaz também de estar à vontade entre os membros daquela família que a acolhe no feriado. Compartilha com o pai da menina um enigma: gostaria de saber como os pais de conheceram na cidade de Chicago em que ela mesma nasceu, mas foi embora pequena. Ele é jornalista e está disposto (e interessado...) em ajudar. No Natal, entretanto, ela tem de voar. Lá pelas tantas, escolhe dar meia volta. Atenção: não largar tudo, mas se dar a oportunidade de ficar algumas vezes. O beijo, finalmente! Caso parecido com “Natal fora de casa”, espécie de Um Lugar Chamado Notting Hill. A atriz não larga tudo, ela se dá uma chance e, um ano depois, a gente sabe que ela continua a fazer sucesso e está ainda ao lado do namorado não ator, todos felizes. De todos, ele é o meu favorito. Hummmm...
De uma forma singela, esses filmes cheios de biscoitos, famílias de mamãe e papai, bonecos de neve, árvores cortadas, dizem a nós mulheres – sem dúvida, somos os seus alvos – que dá para ganhar o globo de ouro e ficar com dono do charmoso lodge; que podemos tocar a empresa de eventos do nosso tio e casar com o “príncipe”. Mas esses filmes dizem mais: que no mundo narcisista das selfies, as pessoas podem olhar umas para as outras sem pressa, elas podem se conhecer com calma, podem confiar na possibilidade de uma nova chance, ouvindo os amigos, olhando as crianças e, sem afobação, podem esperar uma nova chance para beijar. Dá-lhe, Pepeu!
Até 24/12, sobraram alguns dias para os filmes românticos de Natal. Os românticos incuráveis nem precisam de convite! Mas os descolados e conceituais também estão autorizados a fazer uma paradinha secreta para rir das pouco lapidadas situações, para sofrer com o equívoco ridículo que nos separa de quem amamos, para se dar a chance de pensar sobre o amor como possibilidade que acolhe e não exclui. Os filmes de Natal estão cheios de tradições inventadas para dar sentido a essa vida cheia de problemas... “Sua honestidade é revigorante” afirmou uma personagem que eu acho que só apareceu em uma cena de filme que ainda não consegui terminar. É uma coisa bonita de dizer, né? Me dá vontade de sonhar com um mundo de figurantes assim!

Feliz Natal, gente romântica, cinéfila e leitora!

Filmes citados e vistos:
1. 12 dias de presentes (12 Days of Giving , 2017)
2. À procura de um papai Noel (Finding Santa, 2017)
3. Aplicativo para o Natal (Mingle All the Way, 2018)
4. Conexão de Natal (Christmas Connection, 2017)
5. De repente noiva (A December Bride, 2016)
6. Estrada para o Natal (Road to Christmas, 2018)
7. Flores de Natal (Poinsettias for Chritmas,2018)
8. Natal fora de casa (Christmas in Homestead, 2016)
9. Um Natal de Cinderela (A Cinderella Christmas, 2016)
10.    Um Natal muito, muito louco (Christmas with the Kranks, 2004) – o mais fora da curva, mais para comédia que romântico de Natal
11.    Um Romance de Natal (Entertaining Christmas, 2018)
12.    Uma viagem de Natal (Christmas Getaway, 2017)

Não é filme de Natal, mas Confidências à meia noite (Pillow Talk, 1969), com Doris Day e Rock Hudson, é simplesmente imbatível! You are my inspiration, Eileen, Marie...  Y¯, para todos os Natais da nossa vida.


Uma pausa

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Correr e ler sobre corrida!


Às mulheres com que corro toda semana e aos professores que me orientam e impulsionam,
o meu amor e a minha gratidão.
Com vocês, eu vou mais longe!

Prólogo:

Há alguns meses, eu me juntei a um grupo de mulheres[1] que correm juntas em parques, em ciclovias, pela rua e que recebe orientação de professores de educação física especializados em corrida. Foi uma revolução na minha vida.

Eu já tinha visto do que a corrida era capaz. Vi o que ela havia feito na vida de uma de minhas melhores amigas, a minha prima Andréia. Mas a beleza não me bastou, infelizmente a decisão ficou com a tragédia mesmo. Quando descobri que no peito do meu pai, homem gigante e apaixonado pela vida, batia um coração reduzido a 16% de sua capacidade, eu resolvi. O escritor e corredor Haruki Murakami afirmou que “A maioria dos corredores corre não porque queira viver mais, mas porque quer viver a vida ao máximo”. Vou dar-lhe metade da razão. Eu quero um coração forte.

Como é da minha natureza pesquisar sobre tudo aquilo que me dá prazer e buscar nos livros respostas, a corrida me levou à leitura de duas obras (sugestões de minha prima): Correr. O exercício, a cidade e o desafio da maratona do médico Drauzio Varella e Do que eu falo quando eu falo de corrida: um relato pessoal do romancista Haruki Murakami. Reuni apontamentos e publico hoje, no dia seguinte à minha segunda prova. Recomendo a leitura e... a corrida!

·        VARELLA, Drauzio. Correr. O exercício, a cidade e o desafio da maratona. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
·        MURAKAMI, Haruki. Do que eu falo quando eu falo de corrida: um relato pessoal. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.

***

Acho que o Dr. Drauzio Varella é o nosso Oliver Sacks (ambos médicos), pela forma como ciência e escrita se harmonizam para chegar aos não especialistas, sem sacrifício de nenhuma das duas, nem do leitor, aliás.
O que é Correr? Um livro sobre uma decisão: “provar que a decadência não começaria aos cinquenta” (p. 16 e 17). Aos 50, Dr. Drauzio, que não fumava havia 13 anos, decidiu preparar-se para correr a Maratona de Nova York. Dali em diante, são mais de 20 anos de maratonas!
Engana-se quem pensa que, porque o autor é médico, só se encontre na obra a palavra douta (embora haja). O que se lê é a narrativa de um médico narrador, que não tem vergonha de mostrar que o corredor comete erros. Mas esses erros não acendem as vinganças do sedentário, porque a narrativa dos ganhos, do prazer e das vitórias do corpo em movimento[2] é emocionante!
Sobre a experiência do médico, o livro está cheio de dicas excelentes para o corredor observar seu próprio corpo antes e depois das maratonas. O livro também segreda o investimento do autor em compreender essa prática. Realiza uma contextualização recente do fenômeno das corridas e, mais recuada, até a Grécia. Nesse momento, eu me senti muito comparsa do Dr. Drauzio, porque cheguei a seu livro também para compreender uma decisão.
O capítulo “Chigaco, 2009” me emocionou particularmente, afinal trata-se da maratona realizada entre o pai e a filha:
“Na história da humanidade, a quantos pais de 66 anos foi concedido o privilégio de correr 42 quilômetros com a filha 32 anos mais nova?” (p. 84). É, Dr. Dráuzio, eu estou na luta como mãe, mas foi como filha que eu me emocionei. O pai olha a paisagem, mas a filha cansa. Nesse momento, o pai se veste inteiro de guerreiro: “você vai conseguir”. Alguém tem de pesquisar o milagre dessa frase!
“Fomos assim, diminuindo gradativamente a velocidade, até a reta final, quando emparelhamos com uma senhora de cabelos brancos e rosto vincado que aparentava mais de oitenta anos, correndo em passos miúdos porém decididos. Nessa hora, sugeri que fôssemos mais depressa para não aparecer na foto da linha de chegada ao lado de uma corredora de tanta idade. Mais tarde ficaria difícil aguentar a gozação dos amigos sedentários” (p. 85).
Ri muito.
“Nos últimos metros, Letícia segurou minha mão esquerda. Cruzamos a linha de mãos dadas, erguidas para o alto. Completamos a prova em cinco horas exatas; eu nunca havia corrido tantas horas consecutivas. Demos mais alguns passos e nos abraçamos. Se um pai disser que não chorou numa hora dessas, é desalmado ou mentiroso” (p. 86)
Dr. Drauzio, eu chorei daqui.

Haruki Murakami é um escritor. No final do seu Do que eu falo quando eu falo de corrida: um relato pessoal – todo mundo sabe que eu dou spoiler!!!! – ele propõe um baita epitáfio para si mesmo: “pelo menos ele nunca caminhou” (p. 145). Até agora, eu também não!
Murakami não tem uma relação sempre harmoniosa com a corrida. Sofre nas maratonas. Sente o corpo fraco, quase desfalecer: “Nada no mundo real é tão belo quanto as ilusões de uma pessoa prestes a perder a consciência.” (pág. 61). Bom narrador, a alma do leitor dói junto. Murakami deixou de correr em uma época. Voltou.
No prefácio da obra, “Sofrer é opcional”, encontramos essa declaração: “este é um livro sobre correr, não um tratado sobre como ser uma pessoa saudável” (p. 7), ou seja, mesmo que o livro do Dr. Dráuzio não seja também um tratado, o médico comparece lá. Aqui, obviamente não. O livro de Murakami é uma coleção de “pensamentos sobre o que correr significou para [ele] como pessoa” (p. 7). Ora, trata-se de um romancista, então é a relação com a escrita que comparece o tempo todo: “Paro todo dia bem no momento em que sinto que posso escrever mais. Feito isso, o dia de trabalho seguinte transcorre surpreendentemente” (pág. 12). Os amigos sabem que eu faço a mesma coisa...
Mesmo que Murakami afirme: “ocasionalmente, muito difícil, sério, tenho uma ideia para usar em um romance. Mas na verdade quando corro não penso em quase nada que seja digno de mencionar” (pág. 21), as relações são por demais indisfarçáveis. Com 33 anos, o autor tornou-se um corredor e um romancista! Começou a correr em 1982, e, em agosto de 2007, marco do encerramento da obra, já contava 23 anos de corrida.
A trajetória de Murakami como ficcionista me interessou muito. Eu ainda sou uma escritora que “rouba” tempo para escrever. Murakami teve um bar, viveu do negócio. Um dia, resolveu escrever. Conheceu reconhecimento por essa obra nascida na clandestinidade do tempo surrupiado. Mas não bastou... Comunicou à mulher que queria mais. A família julgou-o louco. Deu-se uma chance e acertou em cheio. Mas ele não faz a apologia generalizada da sua audácia. Cada atrevimento é do tamanho que a gente se permite e a consequência, única e imprevista, desde origem...    
A primeira corrida de rua de Murakami foi em 1983. Como eu, completou no début 5 km. A primeira maratona foi percorrida em 2005. Eu marquei a minha para daqui a 6 anos. Nos meus 50. Se eu conseguir, estarei adiantada em relação ao Dr. Drauzio e a ele!
Tomei nota das qualidades para um romancista: talento, concentração e perseverança (p. 68 e 69). As duas últimas se parecem com treinamento muscular, segundo Murakami (p. 70). Isso me lembra uma coisa que sempre falo a meus alunos, que escrever bem é como fazer abdominais:
“Escrever romances, para mim, é basicamente um tipo de trabalho braçal. Escrever, em si mesmo, é um trabalho mental, mas terminar um livro está mais próximo do trabalho braçal” (p. 70).
Murakami me deu uma esperança danada, afinal “A maior parte do que sei sobre escrever, aprendi correndo todos os dias” (p. 72). Ora, estou em busca de tantas coisas que passam por esse coração forte a que aspiro: narrativas, personagens, parágrafos inteiros teimosos de terminar, saúde e prazer.
Do que eu falo quando eu falo de corrida: um relato pessoal demorou 10 anos para ficar pronto. Maratona verbal. A obra é dedicada a todos os corredores que ele encontrou, “sem todos vocês, eu nunca teria continuado a correr” (p. 150).

***

Epílogo:
Há um poder imenso quando a gente corre. Há um poder imenso quando a gente corre com alguém que nos esforça, que acredita na nossa capacidade, que não tem medo do abraço e que não se importa com o suor. É lindo o concerto da nossa respiração ofegante. Mas paradoxalmente, correr é meditar. Ao meu lado, vão iogues, sufis!, eu sou dervixe também. Eu vou mais longe em variadas distâncias. Fora, já corri 8 km; dentro, perdi a conta...




[1] Trata-se do grupo The running moms: https://pt-br.facebook.com/pages/category/Coach/The-Running-Moms-1427712367475449/
[2] Remeto o meu leitor à resenha que publiquei no blog da autobiografia de Oliver Sacks, intitulada Sempre em movimento. Role a barra!


Em 25/11/2018, depois de minha 2a prova. Já em casa, cheirosa e feliz!

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

O gosto da manga


Eu nunca gostei de manga. Antes que alguém levante a voz, sim, eu provei e não gostei. Esse fato era tão inaceitável para uma amiga minha que ela dizia que era minha falha de caráter. Mas, ainda que eu não gostasse da fruta, havia qualquer coisa que me fazia olhar para ela nos mercados. Variados tipos, tamanhos, cores; opulenta, tímida, absoluta em meio às outras... Enfim, mesmo não apreciando o gosto e os fiapos, ela não me era indiferente no campo da visão. Eu como com os olhos.
Depois da perda de papai, em março, quando voltei para casa, duas amigas - Marta Morais da Costa e Priscila Grahl – fizeram absoluta questão de tomar café comigo para conversar sobre tudo. Veja, recebi muito amor da minha família, suporte essencial dos meus primos Andréia e Marcelo no Rio, ajuda de minha mãe; no retorno, o apoio técnico da prima Tatiana, no inventário, o afeto de amigas e amigos em situações as mais variadas; recebi mensagens de colegas queridas e queridos, de alunas e alunos, e até de pessoas de quem estou muito longe de ser próxima. Mensagens comoventes. Uma surpresa delicada. Então, esse texto não é uma cobrança. É um causo ou uma revelação.
Minha amiga Priscila me perguntou qual seria o melhor momento para conversarmos e eu, atolada do trabalho indiferente ao meu luto, cansada, propus um café da manhã à insistência dela. A filha na escola... Teríamos mais tempo para conversar. Mas e o filhinho dela?! Ela me disse que não me preocupasse. Marcamos.
Quando cheguei à sua casa, fui recebia com um abração. Minha amiga é uma mulher alta, então eu (nanica) fui aninhada em seus longos braços e fiquei ali. Não falamos nada. Depois, ela me guiou pela porta adentro. Logo que pisei na sala, percebi a mesa. Era um café da manhã para umas seis pessoas, mas só estávamos nós! - Cadê o Luquinhas? - Está na minha mãe. Ela havia se livrado do filho para me dar atenção total. Agradeci e sentei. Ela, não. Foi buscar café, água quente, suco, leite... Acho que teria até champagne para me contentar. Sentou.- Quero café.
Falei. Ela fez um comentário aqui e ali, mas não queria falar. Eu não sei se meus quatro leitores avaliam bem o quanto a oferta de tempo e de escuta são evidências de um amor incondicional no mundo em que vivemos. Contei as agruras, as histórias surpreendentes que entremearam a minha perda, como a da encomenda de D. Josefina, sobre a qual já escrevi[1], o espargimento das cinzas pela serra – eu, minha mãe, meus primos, meus padrinhos, a natureza, para a qual reconduzi meu pai... Ela atenta. – Um pedaço de bolo?
Bolo feito por ela, de maçã. Comi dois pedaços. Foi quando vi a manga. Não era a manga inteira. Ela estava cortadinha em pedaços, disposta em um prato claro de porcelana, bem no meio da mesa. Eu nunca tinha informado à Priscila a minha falta de apreço pela fruta. A manga resplandecia de amarelo. – Vou pegar um pedaço. Minha amiga, naturalmente, passou uma água no prato para tirar as migalhas e me devolveu. Peguei um pedaço e esqueci completamente do que eu estava falando. – Posso pegar mais?Claro!
Eu acho que depois falamos de nós. Ela me contou o que tem feito, seus estudos, seus planos, falou do Lucas, resplandeceu! Reparei no mapa com muitos pontos marcados, de suas viagens. Que ideia bacana! Falou de férias, de praia, de pilates. Eu, um pouco mais também.
Acho que deixei uns três pedacinhos de manga no prato de porcelana, para não parecer morta de fome. Afinal depois de café, chá, pão, dois pedaços de bolo e uns cinco da manga, resolvi pensar que um dia haveria de almoçar. Contei para ela timidamente que não gostava muito de manga, menti..., mas que aquela estava divina, falei a verdade.
Caí nos braços dela outra vez, na despedida. Passei uma mensagem ao Luiz – Eu gosto de manga. Imaginei a cara dele no trabalho e fui rindo até a minha casa. Naquele mesmo dia, comprei uma singela manga, depositei-a no cesto de frutas, confortavelmente. Afastei as bananas fofoqueiras, as maças vermelhudas, as perinhas meigas... Ela ficou lá, uma noiva à espera do dia seguinte.
As mangas chegam faceiras à minha casa agora que são bem-vindas. Mergulhei em seus tipos: espada, carlotinha (minha boca sempre fica franzida quando falo com voz infantil manga carlotinha, a filha ri), tommy, rosa... Descobri que não gosto das fibrosas. A manga que Priscila me serviu não tinha fiapos, era lisinha, tinha uma consistência de gelatina mais substanciosa, escorregadia e brincalhona. Descobri ainda – na minha constante inclinação por compreender mais profundamente tudo aquilo de que eu gosto de verdade – que a manga é cheia de elementos que promovem a saúde na gente! Ela faz bem ao coração, é antioxidante, fortalece o sistema imunológico[2]... e é uma delícia!
Já escrevi um conto em que o protagonista devora uma maga e se lambuza. Ainda não estou preparada. Eu a descasco com carinho e a corto em pedaços parecidos com os que Priscila me serviu. É assim, em um pratinho de vidro ou de porcelana clara que eu como. Imito o cuidado da minha amiga comigo.
Eu acho que aquela minha outra amiga, que dizia que minha falha de caráter era não gostar de manga, tinha razão. Mas eu precisava aprender, abandonar uma impressão e seguir adiante, e não há maneira mais eficaz para ser bem sucedido nisso que ter um bom professor e, sim, alguma disposição para o que ele quer ensinar... Ela preparou a manga, mas eu precisava ter coragem.
Assim como eu imito o jeito de preparar a manga que aprendi com Priscila, eu penso nela, no seu carinho e na nossa conversa, não em seus temas exatamente, mas na escuta, nas trocas; na compreensão e no tempo que ela me ofereceu, maior que o tempo em que fiquei lá. Imagino-a indo dormir tarde para fazer o bolo, indo à feira antes com o filho pequeno, para comprar frutas... Nosso café foi imensurável.
Quando a gente perde alguém, é preciso equilibrar experiência e memória; a gente não vai ter novidades para guardar, vai ter lembranças e as sensações que elas provocam ao serem revocadas. Eu tenho um gosto novo para recomeçar.

Uma fruta absoluta!