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segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Pensando alto sobre o tempo, a História e as crianças


Escrevi a 1a parte desse texto pensando em professores que tive o prazer de conhecer nas últimas semanas e na companhia de quem passei um pedacinho do meu sábado. Obrigada por me ouvirem!

Pensando alto sobre o tempo, a História e as crianças

As crianças trazem para a escola muitas noções de tempo. Isso significa que não somos nós – professores e professoras – que começamos a lhes ensinar o que é o tempo, esse fundamento da História. São os pais, os avôs e avós e as pessoas que cuidam dos meninos e meninas que ensinam o antes e o depois, o enquanto isso, o daqui a pouco, o só amanhã. Nas conversas da cozinha, na olhadela para o cercadinho, nas histórias que contamos à noite[1], antes da mamada, depois..., pela linguagem, as crianças enfrentam o tempo.
Enfrentam-no também na imagem, contemplando fotos, nos celulares, TVs, computadores e nos álbuns de família. Mas a imagem não fala por si, ela é completada por narrativas. Ora, outra vez a conversa, com seus antes e depois, suas simultaneidades, seu tempo longo, curto, imemorial! Portanto, antes de preencherem o calendário da escola, marcarem seus aniversários, tomarem posse da própria agenda, elas sabem muitas coisas sobre esse senhor tão bonito, invisível mais visível de nossas vidas. Falam o tempo, contam-no!


A mulher na foto é Pérola de Paula Sanfelice. A criança que cresce em seu ventre é a Pétala Sanfelice. A Foto é da fotógrafa Dani Starck. Agradeço a gentileza de poder iluminar minhas pobres palavras com essa imagem de plenitude.

Se sabem tantas coisas, o que podem aprender mais? Um universo de possibilidades! Aí começa o trabalho da escola. A escola deve se tornar o laboratório da experimentação. Ela é uma vida fora de casa, mas ainda muito protegida, mesmo quando ela mesma não é protegida pela comunidade ou pelo poder público... Daí, eu ter falado em laboratório e experimentação. Nós, professores e professoras, contemplamos a diversidade de noções sobre o tempo trazidas por nossas crianças e colaboramos para incrementar esse repertório.
A primeira coisa que devemos procurar fazer para colaborar com nossas crianças é desnaturalizar nossas próprias práticas. Se o tempo passa para nós de forma irrefletida, e esse se não é um julgamento, mas uma atenção, é mais fácil repetir, deixar-se cegar. Apresentar o calendário, pintar-lhe os dias, destacar aniversários, o próprio aniversário (do professor ou da professora, afinal parte do grupo!) e colar recados na agenda não podem ser tarefas irrefletidas. São práticas compartilhadas que merecem reflexões.
São ricas as reflexões que podemos fazer a partir de cada prática. Uma das minhas favoritas é a espera. É uma bela aprendizagem a espera! Bela e difícil:

Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!
(“Das Utopias”, Mário Quintana)

As crianças devem esperar pelo recreio, devem esperar para se despedirem de nós com seu até amanhã, devem esperar para vir para a escola outra vez, devem esperar seus responsáveis na porta da escola para irem para casa, devem esperar seu aniversário chegar! Esperar é ansiar pelo futuro! Uma das dimensões mais bonitas do enfrentamento com o tempo é o desejo.
Assim, na escola “herdamos” noções de tempo, incrementamos essas noções até virarem conceitos interdisciplinares e elaboramos a espera, forjadora de futuro. Como podemos compreender essa experiência multidirecional? Podemos sintetizá-la no que foi definido por Jörn Rüsen como aprendizagem histórica. De forma geral, trata-se da “consciência humana relativa ao tempo, experimentando o tempo para ser significativa, adquirindo e desenvolvendo a competência para atribuir significado ao tempo”[2]. A escola promove, assim, a aprendizagem histórica para a construção de sentido ou para a construção de uma experiência muito sofisticada: a consciência histórica. Por consciência histórica, ele entende a “atividade mental da memória histórica, que tem sua representação em uma interpretação da experiência do passado encaminhada de maneira a compreender as atuais condições de vida e a desenvolver perspectivas de futuro na vida prática conforme a experiência”[3]. Destaco memória, essa lembrança afetiva das coisas; interpretação, o pensamento particular sobre o experenciado, a compreensão, o entendimento racional da experiência e a perspectiva de futuro, um direito que pertence às crianças.
Quando eu afirmei que a construção é sofisticada, eu estava interessada em dois sentidos dessa palavra chique (ou afetada...): a sutileza e a originalidade! Para mim, há tempo na sutileza. Então, a consciência histórica é um trabalho no tempo, é um investimento delicado e paulatino, que envolve muitos agentes e muitos saberes. Da originalidade, gosto do que é único, pessoal. A construção da consciência histórica não é um conteúdo da aula de História, mas um investimento da escola. E, a propósito, também é toda a aula de História! É uma construção de cada ano, que acompanha o crescimento de meninos e meninas e sua a experiência de vida, única, e passível de ser compartilhada no dia-a-dia.
Compromisso da escola, rotina da aula de História. Rotina aqui nada tem a ver com coisa sem sabor. Não vejo paradoxo em desnaturalizar o que entendemos por rotina! Essa desnaturalização pode reabilitar os sentidos de caminho que se utiliza normalmente e de conjunto de instruções, o que nos leva ao método.
A consciência histórica vivenciada na rotina escolar e na disciplina histórica enraíza as crianças na sua própria história e as vincula a uma história maior, da qual ela (pode aprender que) é partícipe e autora. Daí a necessidade de trabalhar sem pressa com a ampliação das durações, com a distinção entre contos de fada e realidades de maior distância no tempo[4] e com a consciência de que ser partícipe e autor é ter responsabilidade.
A consciência histórica é uma tomada de consciência do meu estar no mundo e defender a sua relevância na vida dentro e fora da escola é para mim garantir que crianças, jovens e  adultos tenham direito a uma história maior que a sua, decerto, mas que lhe pertence como sua, porque está à sua volta e dentro do seu coração, desde o primeiro antes e o primeiro depois aprendido de um adulto cuidador e contador de histórias.

***

Ano passado, escrevi um ensaio sobre o tempo na Literatura infanto-juvenil. Compartilho com vocês agora:

Sobre o TEMPO na Literatura Infanto-juvenil

Escrevi sobre o tempo para adultos e para crianças. Para os adultos, no Diálogo sobre o tempo: entre a Filosofia e a História com o filósofo Jelson Oliveira (dentro da coleção “Café com Ideias” da Editora PUCPRess, publicado em 2015); para as crianças na coleção TEMPO: Identidade, Alteridade e Memória, os Livros das coisas para guardar (Ed. Positivo, 2013). No Diálogo, nós escrevemos que “o tempo é nossa dor principal. A saudade ou o lamento do que foi, o transitório do que é, o perigoso do que será” (pág. 21). O tempo está nas flexões de nossos verbos; em expressões denotadoras de intervalos; na relatividade; foi tripartido pelo historiador Fernand Braudel[5]... O fato é que “as concepções de tempo são temporais não apenas na medida de nossos afetos, mas também das possibilidades científicas dos contextos” (pág. 49); “se o tempo existe, as sociedades construíram maneiras diversas de lidarem com a duração” (pág. 53) e com a surpresa das transformações que se operam em nós. A Literatura é certamente uma das formas mais singulares de compreender o tempo à nossa volta e em nós mesmos.

Escolhi dois níveis de discussão do tempo nas narrativas que têm como alvo as crianças: um tempo “perdido”, quase imóvel na sua distância, pelo menos na perspectiva dos meninos e meninas muito pequenos, mas que seus professores e pais podem reconhecer vinculado a tradições antigas, no Brasil: tradições ibéricas medievais, indígenas e africanas, sobretudo; e um tempo que passa dentro da diegese: na sucessão das ações, no envelhecimento dos personagens ou na evidência de sua diferença etária (em relação aos outros personagens e em relação à própria criança leitora). Singularizo esses tempos na obra do autor brasileiro Ricardo Azevedo, também publicado em Portugal. Um dos aspectos da problemática do tempo me levará rapidamente ao meu livro Menina com brinco de folha (Vitória (ES): EDUFES, 2016). Por fim, gostaria de propor uma síntese provisória das pistas que essas obras que têm como público alvo as crianças nos oferecem para a discussão do tempo como tema central da Filosofia e da História.

TEMPOS CONJUGADOS NA OBRA DE RICARDO AZEVEDO

O primeiro nível de discussão – daquele “tempo perdido” – pode nascer da leitura de muitas obras de Ricardo Azevedo, que é também um pesquisador das tradições culturais brasileiras. Dentre essas muitas obras, destaco: A vida e a outra vida de Roberto do Diabo, cujo subtítulo é “versão de um conto popular” (Ed. Scipione, CIDADE, 1988), que por sua vez pertence a uma coleção intitulada “Histórias de encantamento”; o Bazar do folclore: tradição popular (São Paulo: Ática, 2001); os Contos de enganar a morte (São Paulo: Ática, 2003) e os Contos de Bichos do Mato (São Paulo: Ática, 2005). Na conversa com o leitor, que encerra A vida e a outra vida de Roberto do Diabo, Fanny Abramovich escreveu sobre a coleção: “Histórias de encantamento, causos, contos que o povo conta e reconta de jeitos diferentes, atravessando todas as geografias e séculos, mostrando a sua sabedoria, o seu conhecimento enraizado e folhudo (...). Histórias que vêm da tradição oral brasileira, ou europeia, e que foram sendo traduzidas pelo imaginário popular” (“Conversando com o leitor”, pág. 44).

  O Bazar do folclore integrou o projeto Biblioteca da Escola do Ministério da Educação, ou seja, beneficiou as escolas e as crianças com a distribuição gratuita de livros. Na seção final, “Conhecendo melhor o assunto e o autor deste livro”, a editora refere a pesquisa sobre o folclore que Ricardo Azevedo veio a fazer de maneira sistemática a partir de 1986 (A vida e a outra vida de Roberto do Diabo é de 1988). Trata-se de um livro em que coisas diferentes convivem, desde quadrinhas, contos, frases feitas, ditados populares, adivinhas, imagens e até receitas culinárias (como a receita de pão de queijo, de quindim, de bolinho de chuva e de cocadinha). 

Ao final dos Contos de Bichos do Mato, em “Algumas palavras do autor”, Ricardo Azevedo afirma que as narrativas “falam sobre a luta pela sobrevivência (e sobre o amor à vida) e foram criadas e recriadas principalmente por gente do povo, gente humilde vivendo em condições precárias” (pág. 103); sua luta abrigaria a semente do autor chamou de “moral popular” ou “moral ingênua”, que não raro desvela situações de injustiça social. O autor apela ao leitor para que conceba as histórias de Contos de Bichos do Mato “num contexto histórico e social específicos”, antes de taxá-las de “politicamente incorretas” (pág. 104).

Gostaria de referir três contos deste livro, trazidos aqui dentro do enquadramento do tempo “sem tempo” dos contos de fadas, e singularizar o tempo como elemento das narrativas. Em “O macaco e o grão de milho”, há a técnica de acumulação de elementos muito comum na literatura infantil, bem como nas cantigas de roda: o macaco protagonista pede ao pedaço de pau que lhe dê o grãozinho de milho; mas o pedaço de pau não quer dar; então o bicho pede ao machado para cortar o pau; que não quer atender também; o macaco pede ao fogo e por aí vai até chegar ao rato. Este foi o único que aceitou fazer o favor para o macaco. Outro detalhe, é pela vaidade de não ter as suas lindas saias rasgadas e roídas que a mulher do açougueiro despoleta a cadeia que dará o grão de milho ao macaco. Na obra, há muito de fábula em que bichos e humanos se misturam, conversando e interferindo na vida uns dos outros.

Então singularizar a perspectiva do tempo sem tempo, imemorial, na percepção das crianças, nessas obras não significa que na diegese a problemática do tempo não apareça de forma relevante. Assim, em “Forró no céu” (ainda em Contos de Bichos do mato), o sapo protagonista se anima para a festa, mas não tem asas que pudessem conduzi-lo até o céu. Sua tristeza é aguçada pela sucessão de aves que ele encontra, todas que seguiam em direção à festa, mas também pela passagem do tempo...: “passou um tempo, veio a garça”(pág. 15); “passou um tempo, veio a andorinha” (pág. 15). Graças a um estratagema, o sapo consegue ir à festa e a duração é representada na coleção de ações festivas e pelo polissíndeto: “E o sapo caiu no forró e dançou e brincou e sapateou e pererecou e rebolou e cantou e bebeu e comeu e cansou e sentou e deitou e dormiu” (pág. 16). Deu até para sentir saudades de casa... São personagens da trama São Pedro e Nossa Senhora, da tradição católica.

Tão interessante quanto o conto “Forró no céu”, é “O filho da filha do bicho-preguiça”, cuja graça é toda promovida exatamente pela expectativa da demora do personagem e pela surpresa ao final (que supera a nossa expectativa!), tendo o tempo em sua essência: o pai bicho-preguiça saiu para buscar uma parteira (bicho-preguiça também) para a sua filha, em trabalho de parto. Quando conseguiu voltar com a ajuda, escutou uma barulheira na casa: “Eram os filhos do filho da filha do bicho-preguiça brincando devagarinho no terreiro.”(pág. 19).  

Em relação ao segundo nível de problematização do tempo, gostaria de referir duas obras: Chega de saudade de 1984 (São Paulo: Ed. Moderna, 1984) e Uma velhinha de óculos, chinelos e vestido azul de bolinhas brancas de 1998 (São Paulo: Companhia das Letrinhas, 1998). Na primeira, singularizo o capítulo “Conversa na cama”, todo realizado a partir do discurso direto. Os personagens, irmãos, conversam sobre a avó, sobre mudanças na vida dela: “antes ela era tão legal, fazia biscoito, contava estórias...” (pág. 13), mas parece que tudo mudou depois que o avô morreu. Há considerações interessantes no bate-papo das crianças: “Deve ser chato ser velho... tá louco! Ficar sem fazer nada!” (pág. 14), ao que o outro personagem retruca: “Mas a vovó dá aula na escola” (pág. 14). A sombra da decrepitude sempre volta à baila, como quando o personagem que lamentou o envelhecimento lança a hipótese: “será que gente velha dá aula pior?” (pág. 14). Os cuidados com a avó aparecem também na alusão à recomendação do pai dos personagens: “não deixar vovó subir escada sozinha de jeito nenhum” (pág. 14)... Ligada ao envelhecimento, a morte não é abordada apenas como possibilidade da mudança da avó, mas como possibilidade de adentrar o céu e o inferno. O avô morto dos personagens teria afirmado que o português que morou na casa foi “direitinho pro inferno” (pág. 14). No final do capítulo, os personagens não conseguem ter certeza sobre se a morte do avô fora a razão da mudança da avó, pois um outro namorado é aludido... (pág. 15).

No capítulo seguinte, “Lembranças, lembranças”, lemos a perspectiva da avó. Em um trecho, ela afirma:

“Quando a gente está triste, fica tudo ruim. Parece um beco sem saída. É só parar e lembrar... Vejo que fui feliz assim, assim, assim; fiquei triste por causa disso, disso e disso; resolvi um problema de um jeito; outro, de outro. Agora, o que eu não posso é ver as pessoas me tratarem desse jeito. Só por causa da idade. Sei de velhos que estão mal. Sem memória. Com problemas de saúde. É gente que não se cuidou, foi infeliz, por azar pegou uma doença grave; ou foi miserável, não teve nada, passou fome. Aí é difícil. Quando envelhece, sofre mesmo. Mas eu? Justo eu que me sinto tão bem! Fiz tanta coisa. Lutei para ser feliz. Tive sorte de ter tido casa, comida, carinho. Sentir nos olhos das pessoas aquele ar de pena! Qualquer coisinha, a gente vai passar mal; qualquer ventinho, vai pegar pneumonia. Outro dia, no banho, escorreguei e caí sentada. Não contei a ninguém, senão ia ser um deus-nos-acuda de médico, radiografia... Doeu uns dias e passou. Claro!”(pág. 17). 

Essa obra lança mão de outros gêneros textuais, como cartas trocadas entre os personagens e aborda a redescoberta do amor na maturidade. As cartas trocadas entre filho e mãe – avó das crianças de “Conversa na cama” – revelam expectativas muito diversas. Em uma carta do filho: “Mamãe, será que você não percebe que é loucura? Não tem cabimento. E se você passar mal? E se cair e quebrar a bacia? Como vai ser? Quem vai socorrer? O Araújo?”. Em uma das cartas da avó para a família: “Meus queridos, este mês completa um ano que estamos longe de casa. Não podem imaginar quanta coisa interessante temos visto e vivido esse tempo todo! (...) Estamos tirando fotografias, fazendo gravações e anotações. Vocês vão ver na volta. (...) Casei com o Araújo no mês passado, numa cidadezinha esquecida do mundo...”. A carta dos netos é extraordinária e depois da saudade, das notícias de nascimento de filhotes e pedido de presente, eles perguntam: “vovó, você está grávida? O caramujo virou nosso avô?” (pág. 58).

Em Uma velhinha de óculos, chinelos e vestido azul de bolinhas brancas (São Paulo: Companhia das Letrinhas, 1998), são reunidas seis perspectivas sobre uma vizinha, a velhinha do título: escritora de histórias para crianças; bruxa; dona de casa, “casada há quarenta e oito anos”, com cinco filhos (pág. 13); professora de ginástica, que beirando os oitenta anos, com o histórico de uma única doença na vida (caxumba aos 8 anos), corre trinta e cinco voltas no quarteirão, e no fim do dia dá uma andadinha de quinze quilômetros com o marido; velhinha viúva, sozinha, com um filho que mora longe e nunca a visita, e atriz de teatro que, “por causa da idade, prefere representar avós, donas de bar, viúvas, professoras aposentadas, rainhas mães de reis, governantas, madres superioras e tias que vieram de longe e nunca se casaram” (pág. 26). Perspectivas sobre alguém, descoladas de qualquer decisão ou precisão em sua biografia. Esse livro é extraordinário também por isso, por mostrar de forma lúdica que muitas vezes antes dos fatos, há o foco. Para a História, essa ressalva é sumamente importante. Além da questão da evidente diferença etária em relação aos amigos que trocam possibilidades sobre a velhinha, a obra lida com expectativas sobre envelhecimento e o tempo biológico.

Essas últimas obras também dão espaço para a discussão do tema da morte, um tema que está presente na Literatura Infanto-Juvenil contemporânea, na escrita de autores que reconhecem a importância da mobilização dos afetos na sua diferença e intensidade. Em Contos de enganar a morte, a indesejada aparece personificada, reclamando uma tradição artística medieval de convivência e debate. Quando os personagens tentam negociar com a morte, sua diligência acorda em mim a memória do velho romance da morte e do namorado, de tradição ibérica, lindamente cantado por Adolfo Osta em nosso contexto. Já em A Casa do meu avô, há uma avó morta que é presença fantasmagória em um piano que toca sozinho! Aliás, nesse lindo livro, em versos livres, a decrepitude não está ligada à velhice. Não é o avô que degenera, mas o tio do protagonista. Ricardo Azevedo não teme os temas complexos, como a morte e a loucura. Lida com eles de forma lúdica, no caso dos Contos de enganar a morte, e poética, no caso da Casa do meu avô.

Nisso o autor não está isolado na Literatura Brasileira, basta lembrar, em uma vertente, das Sete Histórias para sacudir o esqueleto de Angela Lago (São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2002) e, na outra, de Meu amigo pintor de Lygia Bojunga (20ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003). No caso de Angela Lago, ressalto que, assim como Ricardo, a autora também é responsável pelas ilustrações e projeto gráfico da obra. A forma poética e acessível às crianças, no que há de mais simples, do que não se confunde com o barato, mas se identifica com o único, integral, no trato literário com o tema da morte, também se acha presente na literatura portuguesa, em um de meus preferidos As mais belas coisas do mundo, de Valter Hugo Mãe. Nessa obra, não se escamoteia o sofrimento que a morte pode causar, o sentimento é trazido à cena como experiência necessária.

No meu livro Menina com brinco de folha, acompanhamos as transformações de duas crianças ao longo do seu primeiro ano escolar. Mas no meio da narrativa, o avô do protagonista morre. Esse acontecimento motiva decisões importantes por parte do menino, que dá de presente/oferenda ao avô morto a sua coleção de folhas e, por parte da família, a decisão dos pais de que a avó, mãe da mãe do protagonista, passasse a morar com o núcleo principal. Pelo viés do protagonista, o menino, vemos obras na casa para abrigar a avó e o vemos tornar-se um leitor para uma avó que adormece, quando ele lhe conta uma história pela primeira vez. Vemos também essa avó a precisar de remédios... A narrativa promove, assim, encontro, pois a vida é também convivência entre temporalidades diferentes.

Antes de minha proposta de síntese dos tempos nessas obras, queria destacar a importância de elementos para-textuais nas narrativas que trouxe aqui de Ricardo Azevedo, como entrevistas, conversas com o leitor, explicações..., que completam a leitura das obras. Não quero dizer com isso que o estudo desses segmentos é essencial para a compreensão do que foi escrito antes, do texto literário propriamente dito, mas esses elementos são uma espécie de making off, como o texto final de Uma velhinha de óculos, chinelos e vestido azul de bolinhas brancas, em que o autor refere a sua inspiração e a reformulação pela qual a obra passou.

CONCLUSÕES PARCIAIS

Singularizar o exame do tempo nas narrativas consagradas às crianças, tanto como lugar de memória, de pesquisa, folclore, tradição medieval ibérica, indígena e africana, quanto como elemento da diegese e que afeta a diegese, quer sejam seus personagens quer sejam os acontecimentos, renova a reflexão sobre o tema em um contexto em que o tempo parece que passa depressa, ou mesmo escapa pelos nossos dedos. O “era uma vez” é só um dos gatilhos para o encontro com o tempo das tradições culturais recontadas a cada geração. Na narrativa de Ricardo Azevedo, esse gatilho pode ser apenas: “Era um fazendeiro muito rico”; “Era um jovem rico e viajante”; “Era um reino longe daqui”, muito embora o “era uma vez” também se escreva (exemplos da obra No meio da noite escura tem um pé de maravilha).

As narrativas voltadas às crianças também expressam expectativas sociais em relação às transformações biológicas que a passagem do tempo evidencia em nosso corpo. Nos textos, a convivência faz aflorar o amor, o cuidado, as divergências, o equívoco..., presentes na sociedade que vive mais, adoece mais, tem dificuldade com o cuidar, o compreender e que depende também da colaboração dos mais velhos, quer seja financeira, quer seja do tempo e cuidado com os netos, ambas situações muito frequentes no Brasil. Uma sociedade que empurrou a morte para os hospitais, local em que se morre sozinho, perfurado e monitorado pelos aparelhos. Os textos tecem os fios de uma experiência complexa: de vida e linguagem, para a recriação de outra experiência – a literária, que se completa na leitura, como retorno à vida, à criança e ao adulto.

O tempo imóvel dos contos de fadas, radicado, por exemplo, na tradição cultural ibérica da “Moura Torta” (recontada por Ana Maria Machado, nas suas Histórias à brasileira), é ressignificado no processo de ampliação do repertório da criança, quando ela reconhece fazer parte de uma História muito maior que ela. Ao fazer contato com esses textos que evocam tempos e tradições que nos constituem, as crianças experimentam a fruição, mas ao longo da sua vida, elas deveriam vivenciar – e nós professores precisamos lutar para garantir que a experiência se complete para a formação de cidadãos conscientes da sua História – um prazer que é o de reconhecer[6]. A História é agente desse reconhecimento e colabora com a Literatura para isso. A Literatura não precisa da História para a fruição, mas pode se beneficiar da sua colaboração que reinsere a criança em uma “linhagem”, de homens e mulheres conhecidos e desconhecidos por ela, que a antecederam e que tomaram decisões que repercutem no seu presente.

Quando Ricardo Azevedo abre o bazar do folclore para as crianças, põe diante de seus olhos um outro tempo, “expõe um mundo de que o leitor se apropria. Esse mundo é um mundo cultural”[7]. A colaboração entre a História e a Literatura promove, assim, a consciência de algo que irmana, ao invés de dividir, o reconhecimento da multiplicidade de quem somos afinal. Ora, se Aristóteles afirmou que a poesia é mais filosófica e universal, enquanto a Historia ficaria reduzida ao particular, é da comunicação entre as duas, na cultura compartilhada, que os indivíduos podem se reconhecer como sujeitos, não como filhos que são devorados pelo tempo, mas como sujeitos que convidam o tempo a habitá-los, em seus corpos, na sua mente, para nosso prazer e experiência de vida.




[1] Após esse breve “pensando alto...”, compartilho um texto que escrevi ano passado sobre o tempo na literatura infanto-juvenil.
[2] RÜSEN, Jörn. Jörn Rüsen e o ensino de História. Organizadores: Maria Auxiliadora Schmidt, Isabel Barca, Estevão de Rezende Martins. Curitiba: Ed. UFPR, 2010. p. 79.
[3] Idem, p. 112.
[4] Já escrevi que acho danoso apresentar temporalidades longas para crianças pequenas. Confira em: http://literistorias.blogspot.com/2016/07/sobre-mesa-redonda-no-mec-em-13-de.html
[5] Em três tempos: o da estrutura, o da conjuntura e do acontecimento.
[6] Tomo a relação de Paul Ricoeur, na sua discussão da Poética de Aristóteles: “O prazer de aprender é portanto o de reconhecer. É o que o espectador faz quando reconhece em Édipo o universal que a intriga gera exclusivamente por sua composição. O prazer do reconhecimento é portanto, ao mesmo tempo, constituído na obra e experimentado pelo espectador” (RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa. 1 A Intriga e a narrativa histórica. São Paulo: Martins Fontes, 2010. p. 88).
[7] Idem, p. 91.


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Sobre essa experiência intensa que é ler Elena Ferrante – A Tetralogia

Para minhas amigas geniais

Comecei a ler a tetralogia de Elena Ferrante (A amiga genial; História do novo sobrenome; História de quem foge e de quem fica; História da menina perdida. Trad. de Maurício Santana Dias. São Paulo: Biblioteca Azul, 2015-2017) dentro do clube do livro consagrado a Marcel Proust. Um dos membros, Raphael Lautenschlager, em um café da manhã do clube, contou-nos a história do primeiro livro e eu fiquei fascinada. Poucas semanas depois, duas amigas minhas faziam aniversário. Achei que oferecer A amiga genial era uma boa chance de garantir que, depois que a primeira das duas terminasse, eu pudesse também ler a obra e discuti-la com elas. Dei os volumes, mas não aguentei esperar e em um fim de domingo corri ao shopping atrás do livro. Ler o primeiro volume ao mesmo tempo em que lia Proust foi uma experiência maravilhosa e só confirmou (não que o fato precisasse) o quão benéfico é ler várias coisas ao mesmo tempo! Acho que, desde que me tornei uma leitora, eu leio vários textos ao mesmo tempo. Mas ler Proust e Ferrante juntos foi confrontar ritmos diferentes até o paroxismo e me fascinar com essa diferença gritante. A princípio, pensei que, enquanto em Proust às vezes nada acontece ao longo de várias páginas que nos arrebatam entretanto, em Ferrante, os acontecimentos nos envolvem em um ritmo alucinado. Mas isso era uma falsa pista e depois descobri que os acontecimentos, eles são sim abundantes no texto dela, não são exatamente a diferença, mas sim a forma da sua exteriorização. Em Proust, os mais importantes eventos são o seu impacto sobre o narrador e a sua reflexão sobre eles, sentamos à frente de Marcel (sim, o narrador também é Marcel...) para ele nos explicar e ele nos explica bem; em Ferrante, é como se adentrássemos os palácios de Menelau[1], se ele tivesse habitado algum dia a Nápoles pobre e violenta onde nasceram Lila, Lenu, Enzo, Nino, Antonio, Stephano, Alfonso... Não piscamos. A narradora Lenu tem uma câmera no ombro; seu texto é urgente, pois enquanto “caminha” as cenas se sucedem. Ela não usa perífrases (mesmo levando em conta a robustez dos volumes), sua sintaxe é direta; suas frases são curtas. Quase não há circunlóquios e como tudo é urgente, às vezes não sobra muito tempo para um real empenho de compreensão.
Mas fora do texto – de Ferrante e de Proust – aconteceu um fenômeno interessante enquanto eu lia. À medida que eu relatava nas redes sociais meus percalços de leitora/de leitura, eu descobria outras pessoas tomadas pelo texto de Ferrante. Eu usei o verbo tomar, mas poderia ter usado possuir, pois em alguns momentos fui possuída pelo texto e pressenti que mais gente se sentia assim. Eu li a tetralogia vorazmente, mas houve dois momentos em que precisei parar. Precisei parar, porque a minha personagem adorada (acho que de todo mundo: Lila) começou a sofrer coisas desmedidas que, por conta do texto e da sua possessão, me trouxeram um sofrimento muito real. A segunda parada durou oito dias. Nesse intervalo, entreguei-me a Marcel Proust e à corrente que conheço bem, há quase dois anos lendo os volumes de Em busca do tempo perdido.
 ***
A tetralogia de Elena Ferrante vai agradar aos leitores que gostam de textos em que julgam que a História e a Literatura estão imbricadas. Emprego “julgam” porque a História sempre está na Literatura, a despeito dos formalismos, e ela está na sugestão, na relação de ideias única, nas metáforas e em tudo aquilo que é tão sutil e miúdo que sobrepuja, entretanto, qualquer alusão explícita aos acontecimentos de uma determinada época. No caso da tetralogia, a relação entre História e Literatura deve ser buscada muito além das datações explícitas e da referência a fatos sucedidos (que existem para o deleite dos que valorizam isso), e deve ser encontrada na maneira como essa narrativa é construída, a partir da narradora feminina. A voz do texto é muito contemporânea. A maneira como afirma e o que afirma foram conquistas difíceis: a conquista de afirmar. Quando a narradora declara:

“Por mais que agora eu escrevesse e falasse a torto e a direito de autonomia feminina, não sabia prescindir de seu corpo [do corpo de Nino], de sua voz, de sua inteligência. Foi terrível ter de confessá-lo, mas eu continuava gostando dele, e o amava mais que a minhas próprias filhas” (História da menina perdida, pág. 91).

O que está escrito aí é que uma mulher que escrevia e palestrava sobre o feminismo não podia deixar a cama de um homem que fora amante de sua melhor amiga e que colaborou para o desespero, e quase ruína, desta. O que está escrito aí é que uma mulher podia viver sem as filhas e periodicamente até as esquecia, na cama desse homem. A tetralogia não é recomendada a quem tem estômago fraco ou a quem se apressa em julgar a literatura segundo as suas “superiores” formas de viver. O que há nesse texto de extraordinário – e estamos falando de literatura! – é a coragem de afirmar. Isso é uma conquista estética e histórica.
São quase cinquenta anos na paisagem, na vida e no corpo das personagens. Das meninas com suas bonecas favoritas, passamos às transformações da puberdade, o crescimento dos seios, a menarca, a descoberta do desejo; ao amor; aos casamentos; aos estudos; à gravidez, os filhos; aos choques matrimoniais, as separações, reconfigurações afetivas, à maturidade, ao envelhecimento. Mas Ferrante não separa o público do privado. Está tudo misturado na vida de Lila e Lenu. O poder de D. Achille e dos criminosos Solara é enfrentado por Lila desde a infância: na demanda pelas bonecas Tina e Nu e na reação contra o assédio dos irmãos Marcello e Michele. Enquanto Lenu se afastava do bairro, ampliava seu próprio mundo, as mulheres percorriam com ela um caminho de possibilidades mais largas no contexto. Ela é parte disso. Mas Lila fica, porque as oportunidades estão muito longe de serem democráticas naquela Itália dos anos 50 e 60...
Na vida adulta, o início da era da informática em que estamos, da extraordinária transformação que os computadores operaram em pequena e grande escala abarcando toda a nossa vida, também afeta o bairro! É Lila quem aprende a lidar com eles, que monta mesmo uma empresa e ganha dinheiro, sem ter jamais concluído o 5º fundamental... Ela que escreveu um livro na infância, que abismou a professora com sua inteligência(!), só não conseguiu mover-lhe a generosidade. Essa professora Oliviero... Há uns professores desagradáveis na tetralogia.
A corrupção atravessa a obra. A grande corrupção do Estado, as falcatruas, desvios de verbas que comprometem personagens que vimos crescer, como Nino, ou personagens que julgávamos ilibados, como o Prof. Airota, sogro de Lenu. A corrupção também está no bairro, nas relações e crimes dos Solara. Está na fábrica de embutidos de Bruno Soccavo, constrange as mulheres assediadas pelo patrão, pelos colegas, Lila...
Em meio a tudo isso, não esperem de Ferrante o encômio das esquerdas. Não sabemos jamais se o marceneiro comunista Alfredo Peluso realmente matou D. Achille, nem por que o teria feito; mas vemos seu filho Pasqualle assumir a luta armada, envolver-se com a esquerda letrada na pessoa de Nadia Galiani e ser por ela finalmente traído, depois que ambos são presos. Fica claro que Nadia vai se livrar, com uma lista de delações, que implica mesmo esse personagem que admirei tanto, Enzo. Mas Pasquale não sai elogiado, ele se perde no texto.
A Itália de Ferrante me pareceu tão próxima de repente...:

“Mas depois a situação se complicou. Uma corrupção de longuíssima data – comumente praticada e comumente sofrida em todos os níveis como norma não escrita, mas sempre vigente e das mais respeitadas – veio à tona graças a uma repentina inflexão da magistratura. Os meliantes de alto coturno, que a princípio pareciam poucos e ineptos que foram flagrados com as mãos nas arcas, se multiplicaram a ponto de se tornarem a verdadeira face da coisa pública.” (História da menina perdida, pá. 432).


Ferrante, é mesmo a sua Itália literária?
A violência é grande na tetralogia. O sangue. Falei que quem tem estômago fraco não deve ler. Pessoal, no primeiro volume, Fernando Cerullo, o pai de Lila, arremessa a filha pela janela!! Nenhum agente do juizado de menores vai bater à sua porta... As surras, tapas, feridas, violência sexual doem em nossos olhos. O que é noite de núpcias de Lila?... Ou mesmo de Lenu (embora muito mais branda)? Compreendo que a dedicação ao corpo das mulheres em que se destaca Nino tenha virado a cabeça dessas amigas... Compreendo, amigas. Ainda que, cá entre nós, eu tenha odiado esse personagem com toda a minha energia de leitora e mulher.
Há, portanto, uma profunda e bem realizada conexão entre o público e o privado nessa obra, graças à narração. Lenu é uma escritora de sucesso e é ela quem “escreve” a história! Sim, toda a tetralogia é um empreendimento de escrita e compreensão de um fenômeno, Lila, e da profunda e visceral amizade entre as duas. Já escrevi muito sobre como a amizade é para mim o verdadeiro amor[2], e a obra de Ferrante revela isso. Algumas das cenas mais bonitas, e há uma abundância de coisas muito feias nessa tetralogia, são as vezes em que há proximidade física entre as duas. O que é o banho que Lenu dá em Lila para o casamento desta (A amiga genial, pág. 313)? É uma cena linda! Um batismo entre mulheres. O corpo da corajosa Lila sempre precisa de cuidados na catedral[3] de Ferrante...
Há uma grande mistura entre as suas vidas. Porém, uma mistura muito singular. Às vezes em que parecia que Lila vivenciava uma situação mais favorável, Lenu não estava bem, e quando Lenu despontava, Lila se acabava na fábrica de Bruno Soccavo. O segundo volume, História do novo sobrenome, é particularmente difícil, do ponto de vista de seus acontecimentos; é um volume de grandes transformações e decepções. Ele é a prova da contra-festa (iniciada ainda no fim do primeiro), em que a temporada em Ischia representa o ponto culminante. O terceiro volume, História de quem foge e de quem fica, por outro lado, consolida essas transformações.
Quando terminei o primeiro volume, escrevi pelo twitter para a escritora portuguesa Inês Pedrosa que me sentia próxima do seu romance Fazes-me falta, em que a amizade é vivida de forma igualmente intensa[4], ainda que a composição da narrativa seja tão diferente! Mas, quando falo de amizade, falo de complexidade, de uma profusão de sentimentos que estão muito longe dos tons pasteis, falo de odiar. Estou convencida de que Lila e Lenu se odiaram muito.
Lenu escreve para combater a “desmarginação” de Lila, um conceito inventado por esta: “o contorno das coisas e pessoas era delicado, (...) se desmanchava como fio de algodão. (...) uma coisa se desmarginava e se precipitava sobre outra, era tudo uma dissolução de matérias heterogêneas, uma confusão, uma mistura.” (História da menina perdida, pág. 168). Lenu escreve para combater o desaparecimento de Lila. A escrita é a sua maior subversão contra a decisão da amiga genial, de perder os contornos, desmarginar-se. E a escrita é isso mesmo, desde quando alguém teve essa ideia. Foi sempre uma decisão tão poderosa, que sociedades já cinzelaram nomes de indivíduos para condená-los ao esquecimento. A “escrita” de Lenu constrói, revitaliza, mas ela nos devolve o paradoxo: sem abandonar o desejo, é impossível, entretanto, abarcar o que nos abisma.
A tetralogia encena ainda uma relação com outros livros. Desde Mulherzinhas de Louisa May Alcott, esse livro tão desejado pelas amigas, passando pela Fada azul de Raffaella Cerullo, a Lila, até os livros lidos e escritos por Elena Greco, a Lenu; é sobre amar os livros, bebê-los e precisar deles. É sobre a escrita de si, do outro. Aborda aquilo que pode ser mesmo o combate entre o sujeito que escreve e as palavras, expõe a luta para encontrar a melhor maneira de dizer, fadada ao fracasso; revela a insegurança, o desejo de querer ser lido, reconhecido. Para Lenu converge tudo isso e ainda o fantasma de Lila: referência, inspiração e desafio.
Eu devorei a tetralogia e a odiei por vezes. Eu achei algumas bobagens, lugares-comuns, por exemplo, no quarto volume. Cansaço? Mas não me recuperei do que Ferrante fez com Tina... e acho que nunca vou. Seguramente esse livro me fez pensar muito. Eu vi minhas amigas geniais em suas páginas, eu me vi. Ao final, ao lado da constatação que é só de amizade que fala a tetralogia, que ela se eleva soberana no texto, eu fiquei pensando na paixão.
Outro dia, no consultório da dentista, li em uma revista de uns quatro anos atrás um texto que afirmava que ninguém mais se apaixona perdidamente. Em uma das raras vezes em que Lila consente em falar por inteiro de Nino à Lenu, ela afirma que ele padecia de um grande mal: a superficialidade. Fiquei pensando no seguinte: o lugar da amizade na Literatura contemporânea (eu falei sobre Fazes-me falta de Inês Pedrosa, mas há outros livros e poderia estender ao cinema!) é uma resposta à paixão rala que mal nos têm prendido aos homens e mulheres que, entretanto, temos “amado” por aí? Ralos, eles e elas? Ralos, nós?... Naquele texto da revista, a autora dizia que nunca mais tinha sido surpreendida por um telefonema desesperado, a altas horas, de uma amiga em soluços, destroçada por uma paixão não correspondida ou por uma desilusão. É só uma hipótese, mas acho que a resposta da Literatura, sua crença na amizade como um amor, é de uma beleza e esperança que, ainda que não me faça perdoar Ferrante por causa de Tina, me comove verdadeiramente.
Por outro lado, a que corresponde essa abundância de Ninos na nossa vida? Talvez aos nossos estômagos fracos. Então, recomendo esse arsênico literário que é a Tetralogia, para estragar de vez a digestão dos estômagos veganos, do ponto de vista literário tão somente, é claro...

Essa foto linda foi tirada por uma de minhas amigas geniais!
Nós estamos na foto, meio desmarginadas, meio divertidas.
Portugal (Leiria) - 2017.





[1] Estou aqui fazendo uma relação direta com o capítulo “A cicatriz de Ulisses” de Mimesis, de Auerbach.
[2] Entre vários textos, remeto o leitor ao Diálogo sobre o tempo: entre a Filosofia e a História. Curitiba: PUCPRess, 2015.
[3] Uso a metáfora que geralmente é empregada para a obra de Proust.
[4] Escrevi a respeito em: GUIMARÃES, Marcella L. “O ‘lugar sem lugar’ da palavra em Fazes-me falta, de Inês Pedrosa”. Anais do XIX Encontro Brasileiro de Professores de Literatura Portuguesa. Curitiba, 2003.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

A rainha “é mais forte que o rei”... - resenha de um filme lindo (La Joueuse)!

(CONTÉM ALTAS DOSES DE SPOILERS)
Outro dia, xeretando os filmes da minha escola de francês durante o intervalo da aula, achei La Joueuse (2009) e peguei emprestado, muito despretensiosamente. Confesso que fui atraída pela presença de Kevin Kline.
O filme é estrelado pelo ator americano, que fala francês o tempo todo, exceto quando recita o poema “The Tyger” de Willian Blake, e pela excelente Sandrine Bonnaire, que eu mal conhecia e que agora considero muito intensa. O filme é dirigido por Caroline Bottaro, a quem enviei convite de amizade pelo Fb rsrsrs (ela ainda não aceitou).
La Joueuse vai agradar em cheio às pessoas que adoram histórias em que aprender transforma por completo. Sandrine Bonnaire é Hélène, que vive na Córsega, é casada com Ange (Francis Renaud) e mãe da jovem Lisa (Alexandra Gentil). Ela trabalha como arrumadeira em um hotel e como diarista na casa do americano excêntrico e mal educado (até um pedaço do filme), o senhor Kröger, ninguém menos que Kline. Um dia, tendo batido à porta de um dos quartos que tinha por tarefa arrumar, Hélène surpreende um casal que jogava xadrez na varanda do quarto. Pede desculpas por ter ferido a intimidade dos hóspedes, mas recebe consentimento deles para continuar o trabalho. Entre um alisar de lençol aqui, um arejar de travesseiro ali, ela entrevê pela cortina transparente a mulher, interpretada pela atriz americana Jennifer Beals. Beals está linda, de camisola, mexe nos cabelos, parece distraída, sedutora e ... vence a partida, afinal a rainha “é mais forte que o rei” (Hélène).
O jogo de sedução dos amantes anima Hélène, que vai surpreender o marido no trabalho. Seu gesto, entretanto, naufraga em incompreensão. À noite, no jantar, uma briga dele com a filha, o ressentimento desta pela “pobreza” da família (uma pobreza quase irreconhecível como tal a nós...) e a revelação dos temores dele de cortes no trabalho devolvem a personagem à sua “vida real”... Ele lhe sugere pedir um aumento de salário ao americano.
No dia seguinte, o casal que jogara xadrez deixa o hotel. Seu jogo fica no quarto, bem como a camisola de Beals. No aniversário do marido, Hélène não duvida: dá-lhe um jogo de xadrez eletrônico e veste a camisola. Mais uma vez, naufraga na tentativa de reencontro com ele, mas não desanima e passa a, vestida com a camisola, estudar o jogo. Volta a fumar.
A dificuldade de avançar jogando consigo mesma encoraja Hélène a propor ao Senhor Kröger que lhe ensinasse a jogar. Dias antes, ela havia descoberto um belo tabuleiro na casa, dias depois fora surpreendida pelo patrão dormindo no sofá, como tabuleiro ao colo. Ante a negativa dele, ela propõe a troca das lições pelo serviço doméstico. Ele aceita. O filme engrena!
A princípio, as lições acontecem às 3as à tarde, depois simplesmente são a razão da presença de Hélène na casa. Pessoas completamente diferentes desenvolvem um interesse comum, interesse uma pela outra; de certa forma, salvam-se. Hélène tarda a chegar a sua casa, bebe vinho com o patrão, perde os ônibus... Logo, a pequena vila começa a murmurar suspeitas de adultério. O marido a segue e olha pela janela a infidelidade: sua mulher em frente a um homem; sua mulher enfrenta um homem; há um tabuleiro entre eles; peças brancas e pretas que lutam. No final da noite, o parceiro pergunta se a parceira gosta de ler. Ela folheia o Martin Eden de Jack London; Kröger permite que ela leve a obra. É uma noite intensa, em que a maior intimidade física é o toque no cabelo.
A “descoberta” de Ange empurra Hélène a uma decisão difícil. O Senhor Kröger percebe, porém, o particular talento dela para o jogo. A personagem encontra-se assim em um daqueles momentos em que deve decidir se o mesmo ainda lhe convém sendo outra, ou se arrisca. Hélène hesita (quem não?) e aceita participar de um torneio amador.
Eu fiquei muito emocionada com a relação de Hélène e Kröger. Há muita intensidade em seu combate; há ali a verdadeira amizade, que me lembrou demais o que Jelson escreveu sobre o tema em nosso Diálogo sobre o tempo: aquela arena de Nietzsche! Talvez alguém vá achar que se trata de paixão, há uma cena em que parece que os personagens se beijam na boca, mas eu desconfio. Hélène sabe amar Ange, com toda a diferença que descobre haver entre eles, afinal. Descobrimos que ele a ama também, admira-a. Também me lembrei de Fazes-me falta de Inês Pedrosa, esse extraordinário romance da amizade intensa! Todo mundo que leu o Diálogo sobre o tempo lembra que eu comecei meu capítulo sobre o tema com esse romance.

La Joueuse é um filme sobre aprender decerto, mas... Hélène não deixa de ser arrumadeira porque venceu o torceio (Hiiii, contei!), não se torna amante de Kröger, não se separa de Ange, não foge à noite dando um beijo culpado na filha... Aprender, não necessariamente vencer (embora também...), faz com quem Hélène torne-se mais Hélène e isso eu simplesmente adorei!


segunda-feira, 8 de agosto de 2016

A primeira resenha do romance Menina com brinco de folha

Prólogo:
Outro dia, recebi por e-mail uma leitura muito afetiva do meu livro Menina com brinco de folha. Pedi à autora do texto para publicar aqui no blog. Ela deixou!

Menina com brinco de folha

     Engana-se quem pensa que folhas caem! Elas deslizam no ar buscando um repouso, ora perdido já que a árvore as libertou. As folhas podem se acomodar no chão e, então, serem contempladas pelos que admiram suas mudanças de tons, ou pisoteadas pelas crianças que se divertem com os ruídos das folhas secas, que soltam gar-galhadas. Às vezes, porém, são varridas, sem graça nenhuma. Outras folhas, também, podem virar livros, brincos e coleção. E foram essas que deslizaram sob meus olhos quando li Menina com brinco de folha, de Marcella Lopes Guimarães.
     O livro me conquistou criança. Criança que tem curiosidade sobre as pessoas, sobre as palavras, sobre as formas. Criança que descobre o que é a saudade, o que é a perda, o que é a leitura. E é nessa dança entre curiosidade e descoberta que o personagem menino – cujo nome a autora deixa a cargo do leitor, o qual, distraidamente, nem sente sua falta e, em um primeiro momento, pode considerar qualquer menino, mas diante do “o” consegue enxergá-lo como o personagem do livro sem perdê-lo narrativa adentro – encontra nas folhas o caminho da amizade e, consequentemente, da saudade da menina – também sem nome, mas com a propriedade “com brinco de folha” que a destaca como a amiga especial, dentre os colegas do menino.                                                                                                 
     Também me conquistou adulta. Adulta que, por vezes, busca o ponto de vista da criança para lembrar-se de suas memórias. As reflexões do menino sobre a perda e a saudade, embaladas na voz do narrador, são para nós um acalanto. Compreendemos muito bem o que é voltar a ser menina, após um abraço de vó. Lembramo-nos do que é ficar triste quando chegam as férias – algo que hoje, para nós, é um alívio esperado. Voltamos a prestar atenção em coisas que, por vezes, nós varremos, sem graça nenhuma. Enfim, por isso, Menina com brinco de folha também é um livro para adultos, uma vez que nos provoca a ver o mundo de outra forma, aquela que deixou um rastro que guardamos e, às vezes, esquecemos e precisa ser recuperado com um livro.
     Entretanto, sobretudo, o livro me encantou linguista. A autora brinca com a descoberta dos significados das palavras pelas crianças. Mas não só com essa descoberta como também com a capacidade das crianças as ressignificarem. Basta observar o que o menino faz com a inspiração e com a ciência (não contarei aqui para não interferir na leitura). Em alguns momentos, o jogo com as palavras vira estratégia de retomada de referentes destacados da história e, dessa forma, de condução da narrativa. E é isso que destaca a obra, entre outras produzidas para crianças. Marcella não segue a tendência de adaptar a linguagem para “ensinar” a criança-leitora, mas sim busca diferentes formas para provocá-la, em outras palavras, para mostrar à criança do que a linguagem é capaz e o que nós, falantes, somos capazes de fazer com a linguagem.
     Menina com brinco de folha é o primeiro livro infantil publicado pela autora. Embora já tenha publicado tantos outros, é com este que Marcella acrescenta ao conjunto de sua obra, que lhe faz historiadora, medievalista, crítica literária, professora, contista (esqueci algum?), a graça da mãe e da menina – que recebeu o prêmio da editora EDUFES com o mesmo entusiasmo e surpresa que o menino, quando encontrou a menina na praia durante as férias.
     E é com esses encantos que, no livro, Marcella trata da amizade, do amor, da história, do futuro, do tempo. Ops! Já li isso em algum lugar... No Diálogo sobre o tempo, a autora debate sobre esses temas, enquanto aqui ela os coloca numa narrativa infantil. E (provocando-te, Marcella), embora o livro anterior tenha sido um diálogo, Menina com brinco de folha está mais vivo! Depois dessa, vocês podem pensar que conheço Marcella de perto. Engano. A conheço de verbo (ou de inspiração). Logo, recomendo: a leitura das duas obras. São pontos de vistas diferentes, sensações diferentes, sobre os temas mencionados. Nesse sentido, não me admiraria encontrar o livro da menina, que leitores criteriosos premiaram como livro infantil, numa prateleira de livros para adultos. Ou sem classificação alguma. Afinal, o tempo e as folhas pairam e repousam sobre todas as idades.
Denise Mazocco


Epílogo:
Quem é Denise Mazocco?
Denise Miotto Mazocco é formada em Letras (PUCPR) e em História (UFPR); é Mestra em Letras (UFPR) e faz Doutorado na mesma área (UFPR). Foi minha aluna na UFPR, brilhante aluna! É já uma contista de mão cheia e toca o blog prosadomingueira, em que compartilha mostras do seu talento: https://prosadomingueira.wordpress.com/
Participa do clube do livro, consagrado à leitura de Em busca do tempo perdido de Marcel Proust, e atua como Professora de Língua Portuguesa na UTFPR.


Ainda não fizemos o lançamento do livro em Curitiba... Mas quem não puder esperar rsrsrsrs, pode adquirir o livro pelo site da editora (como Denise Mazocco fez!): http://www.edufes.ufes.br/items/show/382

Denise Mazocco sendo menina com brinco de folha...