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segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Te conto o que (não só) me contaram: ensaio biográfico sobre Glória Kirinus, por Denise Miotto Mazocco

Fechando o ciclo de publicações dos ensaios biográficos da disciplina "Narrativas biográficas e autobiográficas", Literistórias publica HOJE o texto de uma visitante ilustre, a doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Letras e contista Denise Miotto Mazocco. AMANHÃ, também tem ensaio de aluno da turma, mas não é propriamente um ensaio biográfico... É aguardar!


De modo contrário às biografias cujos autores são fãs e/ou já têm um longo interesse acadêmico ou pessoal pelo biografado e seu trabalho, nesta – que agora escrevo – posso dizer que eu, a autora, conheci antes a biografada do que sua obra, à qual recorri durante o processo de escrita. Isso de forma nenhuma, penso eu, prejudica a escrita deste ensaio biográfico, dado que, em se tratando de uma escritora, o contato imediato com seus personagens pode nos revelar trevos de sua trajetória. Tampouco, o reduzido conhecimento prévio do trabalho da biografada invalida meu curioso olhar sobre ela e minha disposição para a escrita (Permito ao leitor, neste momento, interpretar nas entrelinhas e nos entre parêntesis um traço de mea culpa e de inconformidade – dado o tempo perdido –, por ter lido apenas um livro – logo direi qual – até a data em que a conheci).
     Pois bem, conheci pessoalmente Glória Kirinus em uma aula (no dia 31/05/2017), justamente sobre biografias, em que ela, a convite da Profª Marcella Lopes Guimarães, apresentou aos alunos sua trajetória. Antes, porém, a sabia por referência – Professora de Letras da PUC-PR, lançamento do novo livro de Glória Kirinus, oficina de criação literária com Glória Kirinus –, mas, curiosamente já que desta característica me cabe o extremo oposto, parecia que eu chegava sempre atrasada – aluna depois que ela havia saído da instituição, compromisso no dia do lançamento, perda de prazo de inscrição. Na aula em questão, dessa vez, eu estava lá com meia hora de crédito.
     Glória (Prefiro me referir a ela dessa forma, pois, uma vez linguista, gosto mais da ambiguidade que sustenta o nome, do que da especulação de uma etimologia genealógica para chegar ao sobrenome!) sentou-se e começou a preparar seu power point, como chamou. Sua fisionomia me lembrou um pouco Joan Baez – talvez pelo corte de cabelo quase grisalho, pela estatura, pelo blazer –, com a diferença, é claro, entre a voz doce e suave da escritora e a voz afinadamente impositiva de uma de minhas cantoras favoritas. Desconheço se Glória Kirinus ouve Joan Baez e/ou se Joan Baez lê Glória Kirinus. Optei por não me aprofundar na questão, já que pode se tratar mais de uma saída descritiva minha para a fisionomia da biografada (passível de discordância) do que de uma questão de gosto. Enfim, para apresentar-se, Glória tirou da bolsa uma llama, um caleidoscópio, um galo e uma porção de mar acolhido em uma concha.
     Os objetos dispostos sobre a mesa logo flutuaram minha memória por uma infância expectadora de histórias cujos personagens eram instrumentos, objetos, manipulados pelos contadores. Daí minha primeira impressão: é contadora de histórias! Ela, porém, não personificou aqueles objetos, os tornou, pois, símbolos de partes de sua trajetória – palavra que, segundo Glória, a está perseguindo há tempo. A infância no Peru, a curiosidade pelas fronteiras, a possibilidade do erro, o olhar para o infinito, repectivamente, a simbologia de Glória.
     Mas para além disso a escritora nos deixa também seus mapas em pequenas autobiografias nas orelhas, nos finais e nas contracapas de seus livros.  Foi assim que, juntando as pistas, calcei a llama de Glória. Em seu primeiro livro, O sapato falador, ela conta que, em Huancayo, Peru, onde nasceu, seu primeiro sapato de lã "abrigou cantigas de ninar". Outros sapatos também marcaram sua vida: com sapatos equilibristas e cirandeiras, ela desaprendeu lições de mundo, e com sapatos ciganos passou pelo Canadá, quando aprimorou o "franglês", e chegou ao Brasil, onde, além de pisar, caminhou, e ganhou novos sapatos de lã – três filhos.[1] Em Lima, fez Turismo, talvez para aprender o próprio país, aqui fez Letras (na UFPR), para descobrir a língua portuguesa. Foi neste momento, década de 80, que escreveu O sapato falador, provocado por uma grande enchente que deixou várias pessoas desabrigadas, o que motivou um grande movimento para arrecadar doações. Os sapatos, protagonistas da história, foram doados para um menino que estava em um abrigo. Aproveitando a oportunidade única de falar com sapatos – até então só sabia das botas falantes, do Machado de Assis –, conversei com eles. Tanto o Esquerdo, quanto o Direito, que, embora diferentes, às vezes concordam em determinados pontos, destacaram a importância da Glória, bem como relembraram como foi participar da ocasião da enchente. "Foi por causa da Glória que nós viajamos de helicóptero pela primeira vez. Eu tava achando tudo muito legal. O Direito, pra variar, tava sério.", começou o Esquerdo, o mais falador. O Direito logo se defendeu da provocação do amigo: "Estava apreensivo, na verdade. Nós tínhamos que entregar o bilhete ao menino e calçá-lo. Era uma grande responsabilidade. O Esquerdo achava que também poderia fazer bagunça." "Ah, mas confesse, conseguimos nos divertir com o menino. Com contos, charadas, histórias... Quando ele vinha com aquelas questões, você emendava uma história", disse o Esquerdo dirigindo-se ao Direito. Este logo completou: "Sim, sim... No fim deu tudo certo. Mais do que esperávamos. Calçamos até outras crianças." "Tudo graças à Glória", os dois falaram juntos. Ambos sempre retomam o falatório, quando o livro ganha novas edições.
     Glória sustenta um olhar curioso sobre as línguas e sobre as fronteiras. Quando menina, no Peru, ouvia a narração de futebol no rádio, atrás de novas experiências linguísticas. Já no Brasil, encantou-se com as expressões "fazer arte", "cor de burro quando foge", "dor de cotovelo", embora quando aqui pisou pela primeira vez tenha sido recebida com o desagradável "Ame-o ou deixe-o". Nos seus textos, porém, não se serviu de formas prontas, como poeta reinventou combinações de palavras, de sons e de sentidos – tudo que a língua permite. E nas combinações linguísticas e geográficas, ela se caracteriza "palavreira de nascimento", peruana do Brasil e brasileira do Peru.[2]
     Para as fronteiras, ela tem um caleidoscópio para espiar o outro lado. Basta um movimento que o outro ganha novas cores e novas geometrias. Em Te conto o que me contaram– livro que ela elencou como um dos preferidos, dada a homenagem que faz aos contadores de história –, Glória conta que, em Lima, na ponta dos pés tentava espiar o outro para além das montanhas. Nesse desejo permanente de se sobrepor à geografia, ela constrói histórias, as quais, segundo a escritora, "ignoram montanhas e conversam livres entre si, nutrindo fantasias."[3]
     As histórias de Glória acordam bilíngues. Assim ela ressignifica a expressão fazer arte, no Brasil. Após assistir a um seminário do Ferreira Gullar, contou-lhe sua aflição por sentir-se sem identidade linguística, já que sua língua materna era o espanhol; ao que o poeta sugeriu o aproveitamento da força do espanhol em favor da escrita em português. A escritora seguiu a deixa do hibridismo e avistou a necessidade de traduzir, traduzindo a si mesma, fazendo, assim, arte, ou seja "traduzir uma parte na outra parte". Ao escrever também em espanhol, ela manifesta a harmonia da América bilíngue, dinâmica. O que a poesia de todos os povos faz há muito tempo é a possibilidade "do encontro das mares, da conversa entre as montanhas e de colóquio de nuvens", é, pois, "a criança de todas as idades querendo saber como é seu nome em outra língua."[4] Desenvolveu, então, seu estilo dobrado: "de dia e de noite; em verso e em prosa; para adultos e para crianças; no quente e no frio... E claro, em português e também em espanhol."[5] A escritora manifesta seu amor pelas duas línguas, ao, em sua literatura, deixar espaço para as duas: "Assim, o cravo não sai ferido e nem rosa despedaçada."[6] Dessa forma, Glória afirma sua escrita caleidoscópica pontuando: "Nascemos traduzíveis e prontos para fazer (p)arte do mundo inteiro."
     Glória, contudo, além de gostar de espiar os outros lados das fronteiras, também trafega por uma trajetória acadêmica, o seu outro lado. Em seu Currículo Lattes, que inclui os registros de graduação em Letras (UFPR), mestrado (PUC/RJ), doutorado (USP) e pós-doutorado (Paris V), há os títulos e artigos sobre teoria literária. Não vejo, porém, sua produção acadêmica e literária de modo separado. Os dois lados conversam. Quando, por exemplo, desenvolvia a dissertação de mestrado ("A formiga e a cigarra" e "Isto e Aquilo"), teve como provocação questões referentes à fábula A cigarra e a formiga, que era apresentada nos livros didáticos, elevando a formiga como um modelo a ser seguido. Além de constatar que poemas sobre as cigarras não existem nos livros escolares, indagou-se: "Ao final, para que servem uma cigarra, uma menininha ou um artista? O belo pode ser sério? O saber pode ter sabor? O prazer pode permitir-se apenas ser?"[7] Em paralelo e provocado pelas mesmas questões, nasce o livro Formigarra Cigamiga, em que formiga e cigarra passam por uma transformação e misturam características. Uma das capas nos leva até o centro do livro com a história da primeira, e a outra capa nos leva com a história da segunda. Ambas as personagens conversam no centro. Assim, só sabemos qual é a frente do livro por um capricho editorial da folha de rosto e do código de barras.
     Encontrei com as protagonistas, em uma tarde, e elas falaram de Glória e da amizade. A Formigarra, quem tem forma de formiga e a garra de cigarra cigana, fala sobre a transformação por que passou no livro: "Era como se eu estivesse presa naquele mundo de formiga, entende? Trabalho, casa, juntar comida... Como se eu não soubesse fazer outra coisa. Mas daí a Glória apareceu e foi como se... como seu eu tivesse nascido de novo. Ressuscitado mesmo. Morri de enfarte formigante e ressuscitei Formigarra [risos]. Devo muito à Glória, quem me apresentou de fato a Cigarra, minha amiga." A Cigamiga, que tem cara de cigarra e miga da formiga, por sua vez, conta como venceu a solidão e a pressão social: "Antes de conhecer a Glória, eu era..., assim, muito sozinha, entende? Tipo, me divertia cantando, dançando e tal. Mas, tipo, sentia falta de uma miga mesmo. E, assim, era aquela pressão total, né? Pô, não vai trabalhar? Quando que vai tomar um rumo na vida? Ninguém sobrevive só de música. Daí surgiu a Glória e tal, me apresentou um outro lado da Formiga, curti pra caramba... E agora, tipo, tô dando um gás aí... pipoqueira, engenheira... [risos]". Ambas, agora, são amigas e vivem conversando. "A Formigarra? Workaholic total! A Glória fez benzaço pra ela, sabe. Virou até fogueteira! A gente conversa pra caramba!", contou a Cigamiga quando perguntei o que uma achava da outra.  E a Formigarra acrescentou: "É muito bom conversar com ela, a Cigamiga. A gente se diverte um monte lembrando de quando eu era uma mera formiga e ela uma simples cigarra. A gente agradece que esse tempo passou", brinca. Glória dedica o livro ao seu filho do meio, por espelhar ambas as personagens em diferentes momentos.
     Além das reflexões responsáveis por cruzar os caminhos de sua escrita acadêmica e literária, o modo como classifica sua literatura também tem cheiro de um grande debate da teoria literária. É literatura infantil? Baseada em Bartolomeu Campos de Queirós, Glória chama de adulto-infanto-juvenil, para o desespero de qualquer editor e de funcionário de livraria que tem que organizar as prateleiras.
     E é também da sua ponte acadêmica que Glória traz o neologismo maradigma. Termo cunhado em seu pós-doutorado, é a licença para se olhar o infinito e se questionar os paradigmas. A escritora, desse modo, propõe uma percepção ecopoética do mundo e a transporta naquele pedaço de mar que tirou da própria bolsa.
     A Glória, que escreve, leciona, ministra a oficina Lavra-Palavra e conta histórias, também conversa com a lua. Curiosa sobre essa prosa além-Terra, entrevistei a lua (porém, tive que esperar ela ficar cheia, fato que atrasou um pouco produção desta biografia). Perguntei-lhe sobre a Glória e sobre os principais assuntos de suas prosas. Após um longo tempo de luz pensante, ela disse que Glória lhe conta segredos de amor, elas trocam simpatias para curar dores, jogam xadrez, falam sobre grilos, vagalumes, silêncios e tantos outros encantamentos... Fiquei, entretanto, com uma questão atrás da orelha que me pulou, como uma pulga, da ponta da língua: se Glória, como ela disse na aula a que assisti, escreve literatura das 5h às 7h da manhã – fuso horário do Peru, como brincou –, e para tanto deve dormir cedo, que horas ela fala com a lua? Não obtive resposta. A lua apenas me olhou com um brilho que sinalizava uma cumplicidade a qual eu não poderia ter acesso.                                                                                                                                                     
     Bem, mas claro que a escritora não fica o tempo todo em prosa com a lua. "Em Curitiba, onde moro, cuido do jardim, invento moda, faço sopa de letrinhas e lavro a palavra em diferentes espaços: escolas, universidades, eventos literários."[8] Além disso, brinca com as palavras junto com o neto. "Você gosta de amora? Vou contar pra seu pai que você namora.", ele joga.
     No seu processo de escrita, cujo início é madrugueiro, Glória destaca o prazeroso desafio da reescrita, da reedição, a maturidade para se receber nãos e a conformidade com a possibilidade do erro. Esta última está materializada na miniatura do galo que ela nos apresentou. Memorizado neste objeto, está o livro O galo que cantou por engano (Esse mesmo: o único que eu havia lido.) e o episódio que o motivou. Glória foi convidada para dar uma oficina em uma cidade do Rio Grande do Sul. Na ocasião, teve um eclipse do sol. Passado o eclipse, um galo confuso, que já havia cantado pela manhã, despertou a cidade novamente. Entrei em contato com ele, mas não quis me receber. Apenas respondeu dizendo que o equívoco ainda está em sua memória, porém a narrativa do episódio pelas mãos de Glória lhe está ajudando a lidar com isso, de modo que agora não sente mais vergonha, somente um leve constrangimento. A partir desse acontecimento, a escritora repensou a ideia do erro, tanto que, ela explica, permitir-se errar foi o que a encorajou a escrever em português.  
     Glória também gosta de reeditar seus livros. Para ela, dessa forma, os livros renascem. O contrário, o livro parado é morte súbita. Contudo, além do seu próprio olhar para o mundo, para as fronteiras e para as línguas, que ela transforma em texto literário, há o olhar do outro para a sua própria obra que a transforma em escritora e que lhe revela sua trajetória. Glória, nesse sentido, tem leitores, alunos, filhos e reticências.
     E tempo? Sem o qual não haveria trajetória, muito menos biografia. A resposta está em poesia, bilíngue. "Se tivesse tempo/escreveria num verso/só/somente/soletrando/ o tempo." Faria um desfile de formigas em uma folha em branco. Voltaria à esquina, no cruzamento dos pardais, procurando a palavra perdida que deixou voar. Acompanharia a sombra passo a passo. "Inventaria a arte de desinventar." Sairia pelo mundo a cirandar, com vestido de cigana retirado do velho baú, e viveria mil vidas na palma de cada mão. Aprenderia a tecer com as tecedeiras e a fazer tortas com as doceiras. Vagaria pela noite para sonhar. "Faria estágio no circo da cidade." "Tomaria banho de espuma no chafariz da praça." "Aprenderia a voar demoradamente". Entre essas e outras, Glória também gostaria de mais tempo para "ler e aproveitar a poesia, seja em português ou espanhol."[9]
     Este pequeno ensaio biográfico, por ora, se fez com llama, caleidoscópio, galo, concha, sapatos, cigarra e formiga, formigarra e cigamiga, e lua. Se eu tivesse mais tempo? Conversaria com todos os seus personagens, pediria que Glória me ensinasse quéchua (também sou amante das línguas), estudaria o maradigma e reescreveria este texto quantas vezes fosse necessário, de modo a contribuir para deixar a lâmpada da lua sobre esta trajetória sempre acesa.

Esta é Denise Mazocco, idealizadora do excelente blog Prosa Domingueira: https://prosadomingueira.wordpress.com/
Há mais Denise em Literistórias, afinal ela é autora da 1a resenha de Menina com brinco de folha. Procure aqui!



[1] KIRINUS, G. O sapato falador. São Paulo: Cortez, 2008.
[2] KIRINUS, G. Formigarra Cigamiga. Curitiba: Editora Braga, 1993.
[3] KIRINUS, G. Te conto que me contaram = Te cuento que me contaron. São Paulo: Cortez, 2004.
[4] KIRINUS, G. Se tivesse tempo = Si tuviera tiempo. São Paulo: Larousse do Brasil, 2010.
[5] KIRINUS, G. Te conto que me contaram = Te cuento que me contaron. São Paulo: Cortez, 2004.
[6] KIRINUS, G. Lâmpada de lua = Lámpara de luna. São Paulo: Larousse, 2011.
[7] KIRINUS, G. Formigarra Cigamiga. Curitiba: Editora Braga, 1993.
[8] KIRINUS, G. Lâmpada de lua = Lámpara de luna. São Paulo: Larousse, 2011.
[9] KIRINUS, G. Se tivesse tempo = Si tuviera tiempo. São Paulo: Larousse do Brasil, 2010.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

GLÓRIA - ensaio biográfico de Thaís do Rosário, sobre a escritora peruana (ou brasileira do Peru?) Glória Kirinus

Ao longo desta semana e da próxima, LITERISTÓRIAS tem a alegria de publicar textos de alunos da disciplina "Narrativas biográficas e autobiográficas: práticas e reflexões", ministrada pela criadora do blog, ao longo do 1o semestre de 2017, no PPGHIS-UFPR.
Hoje, o ensaio biográfico "Glória", escrito por Thaís do Rosário, sobre a escritora Glória Kirinus. Agradeço à biógrafa e à biografada por terem concordado em publicar e em ver publicado aqui o texto que segue. Boa leitura! 

GLÓRIA

Por Thais do Rosário[1]

GOLONDRINA

“Mi palabra favorita del español es Golondrina.[1]
La golondrina es un ave migratoria que viaja anunciando la llegada de la estación de las flores. Igual que al ave, Gloria salió de viaje y adonde va anuncia el florecimiento de las palabras. Diferente de la golondrina de Caetano[2], esta amada peregrina no vive errante y angustiada por no residir en su patria, pues hace de cada rincón por donde pasa su hogar, decorándolo con un jardín de versos que nunca morirán bajo los cuidados de los labradores de palabras a los cuales dio vida.

***

Glória Mercedes de Valdivia Kirinus: “palavreira de nascimento”[3]. Sua jornada teve início no inverno de 1949 em Huancayo, uma cidade peruana situada ao leste da cordilheira central dos Andes cujo nome remete ao passado pré-colonial que insiste em resistir entre a arquitetura do colonizador. Os huanca foram um povo guerreiro conquistado pelo Império Inca e quase dizimado pelo Espanhol. Sobreviveram, se não pela fé, pela palavra. Ama sua, ama llulla, ama quella - não seja ladrão, não seja mentiroso, não seja ocioso -, saúdam-se ainda em quechua alguns moradores de pequenas vilas nos arredores da cidade.
Um ano antes, na bucólica Llata, capital da província de Huamálies, casavam-se Otilia Galvez Valdivia e Alfonso Valdivia de Alarcón. Da união,  além de Glória, nasceram Carlos, com quem la hermana mayor passou muitas tardes jogando xadrez, e a caçula Fresia, filha da capital peruana, onde a família passou a residir por conta do trabalho de Alfonso como professor da Gran Unidad Escolar Ricardo Bentín.
Glória herdou da mãe a inquietação que se propaga nas ondas do cabelo, a força exposta nas molduras semelhantes de seus olhos e a elegância esculpida em seu nariz esguio. Do pai, a maestria com as palavras. Sócrates, como foi chamado por seus amigos de juventude, não foi filósofo. Por um triz. Foi poeta. Em seus versos cantou Cotahuasí – “sua Itabira”[4] -,  amores, aprendizados e lugares pelos quais passou. A cidade natal de sua primogênita definiu como “Un paréntesis de eucaliptos señoriales / hamacando su sí pausadamente, / pinceladas que sonríen entre las vértebras del Ande,/ es tal vez la perspectiva de algún embrujado Edén.”[5]
Embora tenha um berço detido pela beleza da cadeia de montanhas, Glória logo foi levada pelos pais para viver a orillla da saída para o mundo pelo Pacífico. Foi em Lima, durante a secundaria, que corresponde ao Ensino Médio no Brasil, que teve a oportunidade de fazer sua primeira viagem internacional quando um concurso literário promovido pela Cruz Vermelha a levou para o Canadá.
Viajar é ir e vir com o coração abarrotado de saudade, ou “cargadito de recuerdos”[6], como traduziria nossa escritora. Recuerdos que despertam nossa consciência para o que nos é alheio e apuram nossa percepção para reparar no que sempre esteve debaixo de nosso nariz. Tomada pelo desejo de conhecer o próximo e conhecer-se pelo próximo, Glória estudou seu primeiro curso superior na Escuela Nacional de Turismo, também na capital peruana, graduando-se em 1971.

CATAVENTO

“Minha palavra favorita do português é catavento.”[7]
O catavento é um utensílio simples que aponta a direção dos ventos que o movem. É também um brinquedo, cujas lâminas em papel colocadas sobre uma vareta se parecem a um ventilador. Como o catavento, Glória deixou-se levar por ventanias de vocábulos, indicando uma direção a outros profissionais da educação e divertindo as crianças com seus jogos palavras.

***

Ainda na década de 1970, os ventos em Lima apontaram em direção ao Brasil. Ao chegar, Glória escutou muitas vezes: “Fulano está com dor de cotovelo.” Eram tantos os Fulanos que se assustou com o que lhe parecia ser uma epidemia e, prontamente, buscou um farmacêutico para dar-lhe as instruções de prevenção. Logo descobriu que se tratava de uma expressão popular. Encantadora! E que a epidemia da qual sofria o país naquele momento era outra.
Sussuravam por aí: “Cuidado! não se pode falar isso.” “Não se pode dizer aquilo.”  O medo sufocante que silenciava era sintoma de um regime militar que repreendia os que ousassem tratar-se. Mas Glória, como boa latino-americana, soube amar nos tempos do cólera. Casou-se com um brasileiro, Gernote Kirinus, teólogo gaúcho de 1948, que se destacou na militância política durante a ditadura brasileira, experiência que resultou na obra “Entre a cruz e a política”.
Na festa de casamento gravada pelo Beta Clube Curitiba, vemos, entre chuviscos de baixa definição e as cascatas de renda que caem sobre o rosto de Glória, sorrisos e olhares trocados com noivo. Após receberem os convidados, o tradicional brinde cruzado e a valsa do casal. Tiveram três filhos curitibanos: Dante, Helmuth e Nanci Kirinus. Deram-lhes netos, para quem Glória cozinha riquísimos platos peruanos nos intervalos entre a Galinha Pintadinha e o som do violão do pequeno Eduardo.
Como “o amor facilita as coisas”[8], Glória rapidamente aprendeu português. Para desenvolvê-lo estudou Letras - Português na Universidade Federal do Paraná de 1983 a 1986.O idioma semelhante despertou-lhe mais interesse em sua língua nativa e de 1987 a 1991 estudou Letras – Espanhol na mesma universidade. Nesses anos, começou a escrever em português, depois em espanhol e, atualmente, grande parte de suas obras são bilíngües.
Aprofundou-se nos estudos literários com um mestrado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e obteve o título de mestra em 1992 através da dissertação “Entre-vivendo a conspiração mito poética da criança na pós modernidade”. O doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo foi concluído com a tese “Meia volta – volta e meia em torno das cantigas de roda de Cecília Meireles e Gabriela Mistral”, que lhe concedeu o título em 1998.
Para Glória, “a escrita tem seu tempo, seu aroma especial, sua alquimia”[9], como os chás. Sua infusão literária já havia começado a esta altura, sua primeira obra publicada foi: “O sapato falador”, em 1985, pela Nórdica. Poemas em português, em um jogo de palavras que promove “a comunhão dos opostos e o clarão de um olhar renovado.”[10] Desde então, lançou mais de 21 livros entre obras literárias “adulto-infanto-juvenil”[11] e livros teóricos, sendo o último “Te conto que me contaram” / “Te cuento que me contaron”, que saiu em 2017 pela Editora Inverso.  
Nossa escritora peruana também é professora e teve como primeira experiência docente o ensino de literatura brasileira em uma faculdade privada de Curitiba. Depois, trabalhou como professora dos cursos de Letras e Secretariado Executivo na PUC-PR campus Curitiba e ministrou aulas de Didática em diversos cursos da UFPR. Trabalhando em cursos de áreas distintas do conhecimento, como a matemática, Glória teve a oportunidade de conviver com pessoas cuja narrativa se apresentava em forma de números. E conseguiu fazê-lo também ao contar uma história unindo os números e as palavras: “Os números primos e seus sobrinhos”.
Além das aulas nas universidades, Glória ministrou diversos cursos e oficinas de escrita em muitas instituições. Atualmente, dedica-se ao seu projeto Lavra-Palavra. Os encontros têm o intuito de fazer com que os participantes reflitam sobre as palavras e as possiblidades de expressão. Para escrever, Glória diz que é preciso ser paciente, contemplar as palavras, pensá-las e então  delirar. Deste projeto saíram muitos escritores, daí o apelido dado por um amigo: “fábrica de poetas”.[12]
Essa fábrica de poetas acredita que, na verdade, todos têm uma sementinha de poesia dentro de si esperando para ser regada. É, portanto, uma espécie de lavradora. E diz que, às vezes, precisa se segurar para não pedir às pessoas com quem conversa: “ei, anota aí, você acabou de dizer dois versos.”[13] Foi assim, sabendo ouvir, que Glória começou a escrever. 
Foi ouvindo outros idiomas, aprendendo-os, que reparou no seu castelhano. Algumas línguas levaram-na. Fizeram-na girar como o catavento. O inglês, sua segunda língua, levou-a ao Canadá.  O francês, à França, para estudar um pós-doutorado em Sociologia na Université Paris Descartes. O português a trouxe. E trouxe-lhe: amor, família e poesia. É sua “língua literária”[14], a língua que poetizou seu castelhano.
Sobre o espanhol Neruda escreveu: “Qué buen idioma el mío, qué buena lengua heredamos de los conquistadores torvos... Estos andaban a zancadas por las tremendas cordilleras, por las Américas encrespadas, buscando patatas, butifarras, frijolitos, tabaco negro, oro, maíz, huevos fritos, con aquel apetito voraz que nunca más se ha visto en el mundo... Todo se lo tragaban, con religiones, pirámides, tribus, idolatrías iguales a las que ellos traían en sus grandes bolsas... Por donde pasaban quedaba arrasada la tierra... Pero a los bárbaros se les caían de las botas, de las barbas, de los yelmos, de las herraduras, como piedrecitas, las palabras luminosas que se quedaron aquí resplandecientes... el idioma. Salimos perdiendo... Salimos ganando... Se llevaron el oro y nos dejaron el oro... Se lo llevaron todo y nos dejaron todo... Nos dejaron las palabras.”[15]
O português é também ouro deixado pelo colonizador. E Glória sabe tratar cada pepita de português e de espanhol com a destreza de um ourives. De un orfebre.  Coincidentemente, nossa “peruana do Brasil e brasileira do Peru”[16] recebeu um nome comum aos dois idiomas. Entre tantas buenas cosas, en portugués y en español, Gloria es: persona que ennoblece o ilustra en gran manera a otra u otras. Glória enobrece a todos que têm a sorte de entrar em contato com seus versos, seja pela palavra escrita ou falada. Así que mi palabra favorita del español es Gloria. Do português, também.

NOTA DA AUTORA

No dia 31 de maio de 2017 durante, a convite da professora Marcella Lopes Guimarães, Glória Kirinus, professora e escritora, e Eleidi Freire Maia, professora aposentada e geneticista, apresentaram-nos suas trajetórias na aula da disciplina de Teoria da História e Historiografia do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná para que pudéssemos escolher alguma delas e biografá-las. Imediatamente após ouvir suas falas, decidi-me por escrever sobre Glória pelo gosto que tenho pela literatura e pela proximidade que senti em nossas experiências com o português e o espanhol.
 Mas se escrever a biografia de alguém é um desafio, como aponta Dosse no título de sua obra estudada na disciplina, escrever a biografia de alguém que lida tão bem com as palavras me pareceu um desafio ainda maior. A tentação de fazer-lhe perguntas e deixar que construa a narrativa, transformando-a quase em uma autobiografia, é grande. Por esse motivo, optei por fazer-lhe apenas duas perguntas cujas respostas seriam os títulos dados as suas fases de vida no Peru e no Brasil. Sim, comecei pelo título.
Essas perguntas foram inspiradas por um projeto realizado pelo Instituto Cervantes em 2011 para celebrar o dia 20 de junho, o Día E, que comemora, desde 2009, o a língua espanhola.[17] Neste projeto, perguntou-se a uma série de falantes da língua conhecidos (Ricardo Darín, Mario Vargas Llosa, Antonio Banderas, Shakira, Margarita Salas, etc.) qual sua palabra favorita do espanhol. Perguntei a Glória sua palavra favorita do espanhol e do português, mas, diferente do projeto, não pedi que as explicasse ou se explicasse.
Nossas coisas preferidas mudam frequentemente, mas no momento da pergunta as palavras favoritas de Glória foram golondrina e catavento. Para escrever assisti e li muitas entrevistas. Nessas, Glória sempre fala de sua trajetória de maneira poética, diz-nos muito de suas sensações, como percebe a vida, porém revela poucos dados de sua vida pessoal. Assim que também precisei investigar seu perfil social do Facebook e servir-me de algumas informações encontradas nos perfis de seus familiares, sobretudo no de seu irmão Carlos.
As notas, optei por deixar ao final para não interromperem a narrativa, pois são somente referências dos lugares de onde vieram e não informações essenciais para compreender o texto no momento da leitura. Coloquei-as também sem preocupar-me com as normas da ABNT, usufruindo da liberdade da proposta do trabalho. As fotos do final têm, igualmente, suas referências.

A biografada Glória Kirinus, no dia 31/05/2017, quando compartilhou com os alunos da turma a sua trajetória. Foto da criadora do blog.

A biógrafa Thaís do Rosário, em fotografia do álbum do FB, de 2016.



NOTAS


[1] Thaís do Rosário é aluna do Mestrado do PPGHIS – UFPR e pesquisadora discente do NEMED (Núcleo de Estudos Mediterrânicos).


[1] Glória respondeu à pergunta: “¿cuál es tu palabra favorita del español?” via Facebook, no dia 29 de junho de 2017.

[2] É a 14ª faixa do CD “Fina estampa”, lançado em 1994.

[3] Glória se define assim em http://gloriakirinus.com.br/

[4] É assim que Glória se refere a Cotahuasí, comparando-a  a Itabira de Carlos Drummond de Andrade, no blog dedicado à memória de seu pai: http://amautadecotahuasi.blogspot.com.br/

[5] O poema também está disponível no blog supracitado.

[6] Essa tradução foi feita no livro “Te conto que me contaram”/ “Te cuento que me contaron”, publicado pela editora Inverso.

[7] Glória respondeu à pergunta: “qual sua palavra favorita do português?”via Facebook, no dia 29 de junho de 2017.

[8] Frase de Glória em apresentação de sua trajetória, a convite da professora Marcella Lopes Guimarães, na disciplina de Teoria da História e Historiografia do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná, no dia 31 de maio de 2017.

[9] Em encontro do Lavra-Palavra gravado e exibido pela TV É Paraná no programa Gente.com, disponível em: https://goo.gl/tco3N2

[10] Descrição do livro em http://gloriakirinus.com.br/

[11] Fala de Glória em sala de aula durante sua apresentação do dia 31 de maio supramencionada.

[12] Informação dada pela entrevistadora, Mira Graçano, no programa Gente.com.
[13] Fala de Glória na entrevista a Mira Graçano.

[14] Dizeres de Glória na mesma entrevista.

[15] Pablo Neruda em sua autobiografia “Confieso que he vivido”.
[16] Também é parte da autodefinição de Glória em seu site.

[17] O projeto está disponível em: https://goo.gl/3LmJVE