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segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

O blog completou 4 anos em 2019 e o presente cheira a Natal: Literistórias entrevistou uma historiadora cheia de talentos - Profa. Miliandre Garcia de Souza. Confira!

Conheci Miliandre em uma banca de qualificação de Doutorado do PPGHIS/UFPR. Tratava-se da banca de José Gustavo Bononi, orientando da colega de DEHIS e PPGHIS Rosane Kaminski[1]. Eu me sentia um pouco o peixe fora d’água, afinal como uma medievalista poderia se sentir em banca sobre o Teatro Oficina, entre 68 e 72?! Só mesmo o imenso carinho de José Gustavo pela velha professora e a confiança inabalável da colega Rosane para explicar isso... Essas bancas fazem a gente estudar muito, ter uma atenção de filatelista e rezar para não falar (muita) bobagem. Miliandre me chamou logo a atenção por um dado que não tinha a ver com a banca. Entrou na sala linda, leve, sorridente e fresca de batom vermelho. Já tive conversas significativas com minha amiga Fabiana sobre essa história de batom vermelho! Eu tento raramente porque sou covarde e, quando vejo uma mulher ficar tão à vontade assim, tendo a gostar dela no ato. Pois não foi diferente. Ainda por cima, falou pelos cotovelos coisas de ajudar muito o José Gustavo. Tendo a gostar muito de quem vai para as bancas de qualificação com mangas arregaçadas para colaborar. Pois não foi diferente também.
E não é que o batom voltou na defesa pública?! José Gustavo foi aprovado e a velha professora espera que esteja feliz, realizando trabalhos que lhe deem muita satisfação intelectual. Um dia, no FB, descobri que aquele batom vermelho bordava e escrevia textos com pensamentos tão próximos dos meus que até admirava! Descobri ainda pessoas em comum, pessoas de quem gosto demais, ainda que nem sempre consiga ver e conversar mais amiúde. Mas confesso que a descoberta do tecer, as imagens dos bordados depois de terminados, os motivos, as cores, a parede da casa que nunca visitei (olha como sou abusada!) iluminaram um mantra que repito por aí: a necessidade de uma vida mais plena, cheia de realizações diversas e descomprometidas com o desempenho que nos constrange nesse mundo em que, se concordarmos com Byung-Chul Han[2], estamos doentes de excesso de positividade. Não é que eu ache que Miliandre está imune a isso, acho mesmo que não. Penso só que, desde o batom, estou diante de uma mulher forte e que exerce a vida plena, com seus bordados, filhos, livros, máquina de costura, alunos, marido, casa e estojo de maquiagem.
Miliandre estuda umas proximidades difíceis da história do Brasil com um disco na vitrola, revirando as coxias, olhando comprido para os figurinos, cores, textos e descobrindo que, em meio a tantas diferenças, grupos, artistas, homens e mulheres não abriram mão de dialogar “em dimensões estéticas e políticas”, no período da Ditadura Militar no Brasil.
Vem livro novo por aí, ela fala dele na entrevista! Ao lado de seu mestre Carlos Fico, reuniu um timão para lidar com um tema importante desde sempre. Miliandre refuta a exclusividade do presente que vivemos. Enquanto o livro não vem, eu a vejo recortando motivos, desenhando em bastidores e lendo uma historinha singela que escrevi. Quem sabe um dia, seus pontos não encontram os pingos dos i(s) dessa narrativa de uma avó emprestada?
Quanto ao batom, desconfio que ela tem vários tons de vermelho!

LITERISTÓRIAS: Miliandre, você é uma historiadora bordadeira! Como é isso? Quando e como o bordado entrou na sua vida?
MILIANDRE: Querida Marcella, é uma grande honra comemorar com você e seus leitores o quarto aniversário de Literistórias.
Bem, o bordado entrou na minha vida há muito tempo, não só o bordado como outras manualidades. Como em muitas famílias, essa atividade foi estimulada desde muito cedo, ainda menina. Minha mãe e minha tia, costureiras, me apresentaram o universo da costura, outra tia me iniciou nos pontos básicos do bordado e mais uma tia me ensinou a tricotar. Nessa época, no entanto, eu era uma menina muito “elétrica” como diziam, hoje talvez me diagnosticassem com “hiperatividade” (risos). Magricela e mais alta que a média das meninas, eu era sempre escalada para as atividades esportivas e gostava muito, fiz ginástica olímpica, rítmica e voleibol com expectativas de profissionalização.
Nada disso nem meus interesses escolares durante o ensino fundamental apontavam para o interesse pela história ou pela literatura, que nasceram por influência direta de professores do ensino médio e do cursinho e por intermédio de um primo que já era estudante de sociologia e fã da Elba Ramalho.
Atarefada, mais correto dizer atordoada com as leituras da graduação, depois com as pesquisas na pós-graduação, protelei durante muito tempo pegar numa agulha ou usar a máquina de costura para fazer qualquer reparo ou pregar um simples botão.
Um detalhe que eu acho importante mencionar: essa máquina de costura que tenho foi o presente mais lindo que minha mãe poderia me dar. Era a sua primeira máquina de costura, da marca Singer, adquirida em 1972, antes do meu nascimento. Para minha surpresa, minha mãe presenteou-me com a nota fiscal, às quais, máquina e nota, eu guardo com muito carinho, registro físico de uma história que atravessou o tempo e gerações e que vestiu muita gente: pai, irmão, prima, primo, tia, tio, vó, vô.
Por algum motivo que não sei precisar, guardei a memória daquele ponto que minha tia havia me ensinado na infância numa visita familiar. Enquanto eu procurava pelo ponto e não encontrava, fiz muitas outras coisas: tricô, tapeçaria, arraiolo, mosaico, sabonete, vela.
Em algum momento, descobri que as atividades manuais eram essenciais para o meu desenvolvimento, minha existência no mundo, como pessoa, como profissional, pois ao praticá-las eu organizava a vida, o trabalho, também me organizava internamente, me dava, me permitia dar o tempo necessário (e nem sempre possível) à introspecção, ocupando com isso mãos e pensamentos simultaneamente.
Um dia, a trabalho, fizemos uma viagem a Portugal. Nas proximidades do Porto, resolvemos visitar a cidade de Amarante. Lá, até que enfim, encontrei o tal ponto, com nome e endereço: se chamava rococó e morava em Amarante. Encontrei outros pontos colegas seus, todos da família do “bordado livre”. De Amarante, trouxemos algumas peças bordadas, de lembrança e na esperança de aprender a técnica e por meio dela reencontrar a menina que eu era, mas que havia crescido e já tinha uma menina também, Alice, e carregava, sem saber, um menino no ventre, Francisco. Coincidentemente, naquele breve passeio, sem saber que estava grávida, visitei o santuário de São Gonçalo do Amarante, o santo mais importante da região, a quem mulheres e homens recorrem para pedir coisas relacionadas à fertilidade e à sexualidade.
Também nessa época, conheci Carol, mãe do Nicolas, na escola da Alice. Carolina Sobreira, xilogravurista, ilustradora, gravadora. “Um balaio de coisas”, como ela gosta de dizer. Nesses encontros entre arte e história, ela cursava artes visuais na UEL e eu fazia parte do departamento de história também da mesma instituição, descobrimos amigos em comum, ficamos amigas. Carol decidiu ter um segundo filho, mas nem tudo ocorreu como planejado. Vicente infelizmente faleceu com poucas semanas de vida. Enquanto passava horas na UTI neonatal, Carolina aprendeu a bordar e bordando encontra-se até hoje. Com ela, fiz uma oficina de bordado e aprendi os pontos básicos. A partir disso comprei livros, vi muitos vídeos, treinei vários pontos e também cá estou desde então, bordando histórias, paixões e afetos, em viagens, salas de espera, reuniões, “nas horas à toa”, quando eu “ando a cismar”, como escreveu aquele “compositor confuso” que me rodeia...

LITERISTÓRIAS: Miliandre, sua pesquisa atual relaciona música e teatro[3]. O que só a arte responde ao historiador?
MILIANDRE: Marcella, penso que só a arte é capaz de acessar certos lugares que nenhum outro meio de comunicação, área do conhecimento consegue. A arte cria universos que nos auxiliam a enfrentar estados nem sempre tangíveis, realidades nem sempre favoráveis, sejam elas históricas, sociais, econômicas ou até mesmo existenciais. A arte conecta seres humanos e os conecta naquilo que se tem de mais humano. A arte emociona, desestabiliza, desconcerta, faz pensar, também faz rir, mexe com sentimentos, preconceitos e certezas. O diálogo entre arte e história é um daqueles encontros mais que perfeito, posto que se complementam no que tem de diferente, não de igual. Nosso papel, como historiador que trabalha com arte, teatro, música, cinema, literatura talvez seja o de tornar tangível ou próximo disto aquilo que nem sempre tem tradução, não plena. É um desafio permanente, cujo resultado (suponho) é e sempre será incompleto, porém muito necessário.

LITERISTÓRIAS: Miliandre, quem você lê com paixão?
MILIANDRE: Leio com paixão até mesmo as leituras mais técnicas. Sempre penso, ao menos espero tirar dali algo que me motive de alguma maneira, que estimule a minha curiosidade para além do texto, que me faça buscar em outros lugares coisas que possam vir a se juntar àquela leitura. Mas sonho mesmo ter, criar tempo para me dedicar às leituras que sinto que estou em débito, àquelas leituras que, como disse um amigo sobre o disco de João Gilberto & Stan Getz, “formam caráter”, aquela lista de clássicos que o Calvino nos indica fazer, ler por prazer e quem sabe conseguir inspirar essa paixão em outras pessoas (estudantes ou não) como você faz tão bem. Como disse Ana Maria Machado, “a leitura é um hábito que se cria pelo exemplo” e nisto você é mais que exemplar.

LITERISTÓRIAS: Miliandre, queria que você explicasse a importância do lançamento da coletânea CENSURA NO BRASIL REPUBLICANO organizada por você e por Carlos Fico no Brasil de hoje.
MILIANDRE: A censura é uma prática autoritária que não está restrita a um lugar nem a um tempo histórico, ela atravessa temporalidades e espaços geográficos. É ressignificada de várias maneiras, mas sempre que governos, autoridades, políticos a julgam necessária para conter, controlar, coibir, inibir algum tipo de ação ou comportamento, individuais e coletivos.
No Brasil, a censura esteve presente desde os momentos fundadores, isso se considerarmos que também a Inquisição exerceu algum tipo de censura. Foi institucionalizada e amplamente utilizada pelo governo imperial e atravessou praticamente todo o período republicano até 1988. Esteve presente em regimes ditatoriais como o Estado Novo e a ditadura militar, mas também em períodos considerados democráticos ou de transição democrática. O fato de ter sido extinta da última Constituição brasileira não significa que estejamos plenamente livres desse recurso, dessa ferramenta, desse mecanismo que mais limita que constrói, quem mais cerceia que cria condições de desenvolvimento, muito menos quando imposta à literatura, ao teatro, ao cinema, à música, às artes em geral e às manifestações do pensamento.
Ao contrário, desde que ela foi extinta da Constituição em 1988 não deixamos de vivenciar situações bastante embaraçosas envolvendo algum tipo de controle, eventualmente classificado como censura. Principalmente no contexto atual no qual o Estado já não mais se responsabiliza por ela, mas o governo impõe formas escamoteadas ou declaradas de censura, como também estimula entidades de representação e até mesmo indivíduos a exercê-la indiretamente, a perseguir artistas, intelectuais, jornalistas, humoristas e professores e inviabilizar a produção artístico-cultural no Brasil seja pelo boicote, seja pela ofensiva direta, incitando o público, as pessoas de modo geral, a interferir direta e muitas vezes violentamente num evento, numa apresentação, numa exposição. Isso é tão ou mais grave que criar um órgão com censores credenciados, concursados para realizá-la como aconteceu em outros momentos da história recente brasileira.
Saber que ela existiu e entender como foi praticada, sob quais argumentos, com que propósitos, por quem, em que governos e regimes, que setores da sociedade a apoiaram ou mesmo requisitaram maior rigor, penso ser um passo em tantos outros a serem dados nesse “longo caminho” de construção da cidadania no Brasil.
Se “é preciso estar atento e forte” e o “caminho se faz ao caminhar”, como já disseram dois gigantes, essa coletânea Censura no Brasil republicano, a ser publicada em dois volumes pela editora Sagga em 2020, é nossa contribuição à sociedade. Buscamos com ela ultrapassar o caráter opinativo que tem permeado o debate público no Brasil e analisá-la a partir de experiências concretas no Brasil e no mundo. Como não haveria de ser diferente, buscamos estar ao lado da “cultura, contra a censura” e estabelecer um pacto social amplo e consciente de rejeição da censura como mecanismo de controle e cerceamento de ideias. A tarefa não é fácil, não tem sido, mas assumimos esse compromisso como profissionais e cidadãos.

***
Quando LITERISTÓRIAS completou 2 anos, eu ofereci aos leitores uma entrevista com a amiga Maria Cristina Pereira  (USP), um sucesso de visualizações e orientações para jovens historiadores da arte. Quando Literistórias completou 3, quem brilhou foi a amiga Mônica Figueiredo (UFRJ), grande especialista da obra de Eça de Queirós no Brasil e autora de um discurso de formatura que viralizou nas redes sociais (turma Marielle Franco, de 2018). Se quiser matar as saudades, procure abaixo em “entrevistas”. 


Miliandre Garcia, seu filho Francisco e os bordados, na casa da historiadora.



[2] Sociedade do Cansaço (Petrópolis (RJ): Vozes, 2017).
[3] Pesquisa atual: “Entre o palco e a canção: afinidades eletivas entre a Música Popular Brasileira (MPB) e o teatro engajado na década de 1970”.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Pequeno livro de grande autor: "Sobre a tradução" de Paul Ricoeur

O convite de um colega muito querido para falar a seus alunos sobre a tradução de Froissart et le temps/Froissart e o tempo, do Prof. Michel Zink, me levou a reler o pequeno livro de Paul Ricoeur, intitulado Sobre a tradução. A obra foi por sua vez traduzida pela Profa. Patrícia Lavelle da PUC-Rio, que assina também um ótimo prefácio. Esta resenha, resultado direto da visita ao livro de Ricoeur, tem dois objetivos: sintetizar as ideias mais importantes dos três ensaios que compõem a obra e destacar um aspecto do pensamento do autor que minha leitura frequente qualifica como coerência positiva.
Antes, porém, vale evocar alguns aspectos que Lavelle chama a atenção no prefácio: a volta ao tema da tradução pelo autor (na medida em que foi uma experiência importante no início de sua carreira, mas que só volta a aparecer, como reflexão detida, no fim); a proposta de substituição do dilema traduzível X intraduzível por fidelidade X traição; a sua “resposta construtiva” (p. 8), fundada nas “correspondências sem adequação” e nas “equivalências sem identidade”; a felicidade de traduzir como aceitação da perda; a tradução como autocompreensão da própria língua e a “construção do comparável”. Avento, por minha vez, uma explicação para o retorno com o qual Lavelle começa: se a tradução é uma compreensão e um trabalho de construção do comparável, vejo sintonia entre a maturidade intelectual do autor e uma compreensão cultural ampla, que para Ricoeur é o ponto de partida da tradução do intraduzível (p.12). No destaque de Lavelle encontro também aquela coerência positiva, naquilo que ela chamou de “resposta construtiva” ao dilema que muito delicadamente Ricoeur buscou substituir e revelar o equívoco: afinal, a tradução existe!
“Desafio e felicidade da tradução” foi proferido em 1997 no Instituto Histórico Alemão. De início, Ricoeur estabelece o parentesco entre a sua reflexão e A prova do estrangeiro de Antoine Berman. A tradução coloca à prova e é submetida a exame. O autor traz ainda Benjamin e Freud para realçar a tradução como tarefa e como renúncia. O tradutor é um mediador em meio às resistências: do leitor e da própria tradução. Como esses aspectos se conjugam? Na renúncia “ao ideal da tradução perfeita” (p. 27), que em Ricoeur é uma renúncia operativa, no sentido de gerar felicidade e até prazer: “a felicidade de traduzir é um ganho quando, ligada à perda do absoluto linguístico, ela aceita a distância entre a adequação e a equivalência, a equivalência sem adequação“ (p. 29).
Em “O paradigma da tradução”, aula inaugural da Faculdade de Teologia Protestante, proferida em 1999, o autor está interessado na tradução como transferência e como interpretação (p. 33). Nesse texto, Ricoeur desenvolve a substituição do dilema traduzível X intraduzível, ou seja, examina as teses da impossibilidade e as da possibilidade (fundadas em duas propostas: de uma língua originária e em códigos a priori, p. 40) e relê o mito de Babel. Para o autor, a tradução “se inscreve na longa litania dos ‘apesar de tudo’” (p. 42) e se fortalece como realidade no fato de que existem, “a despeito dos fratricídios” e da “heterogeneidade dos idiomas”, “bilíngues, poliglotas, intérpretes e tradutores” (p. 42).
Qual é a essência da releitura operada por Ricoeur do mito de Babel? “Existimos, dispersos e confusos (...) para a tradução” (p. 43). O autor vai buscar em dois versos do Gênesis, imediatamente anteriores à narrativa da Torre, a constatação da nossa diversidade não como punição, mas como ponto de partida. Pego a minha própria Bíblia para não me iludir com a tradução que Ricoeur usa na página, ou seja, sirvo-me de outro fato que ele aborda nesse mesmo capítulo, a existência de retraduções (“única maneira de criticar uma tradução (...) é propor outra”, p. 47). Assim, em Gn 10, 31: “Estes são os filhos de Sem, segundo as suas famílias, e as suas línguas, e as suas regiões, e os seus povos”. Ricoeur tem razão, a diversidade é fato, ou seja, a tradução é “coisa a fazer para que a ação humana possa simplesmente continuar” (p. 44).
O autor volta à obra de Antoine Berman (e os leitores de Ricoeur sabem que ele tem as suas preferências e lhes é fiel[1]) para levantar um aspecto que ele não havia abordado no 1º capítulo: o desejo. Sim, porque se a tradução é tarefa e tarefa útil (ela nos deu acesso a Platão e a Dostoievski, uso dois exemplos citados pelo próprio Ricoeur), também guarda “algo mais tenaz, mais profundo, mais escondido: o desejo de traduzir” (p. 45). Esse desejo está voltado a um “alargamento de horizonte de sua própria língua” (p. 46), o que me leva a uma coisa sobre a qual minha amiga e grande tradutora Maria Celia Martirani me alertou um dia, a necessidade do tradutor de ter uma intimidade e uma segurança muito particulares na língua de chegada.
“Uma ‘passagem’. Traduzir o intraduzível” permaneceu inédito até 2004, quando foi reunido aos dois textos anteriores para a edição da Bayard. Esse texto “retraduz” alguns conceitos já trabalhados pelo autor. No capítulo anterior, Ricoeur havia evocado as palavras, frases e textos em um enquadramento a respeito do que mobilizamos para dirigir a palavra ao outro (p. 51). Aqui, esses elementos são sequenciados pelo autor na operação da tradução, ou seja, Ricoeur afirma ser necessário impregnar-se “por vastas leituras do espírito de uma cultura” para ir do texto à frase, da frase à palavra (p. 61). Outra maneira de explicar o dilema proposto por ele, da fidelidade X traição, em substituição ao traduzível X intraduzível, aparece fundado no “comparativismo construtivo” cujo exemplo Ricoeur vai buscar na obra Do tempo, de Jullien. Esse texto que vai na contramão do parentesco cultural (que Ricoeur parece considerar uma armadilha), quando assume a diferença radical, ou “dobra”, entre o chinês e o grego, discutidos em francês! No lugar do conceito de tempo, reelaborado por gerações a propósito do grego, Jullien fala “do que se encontra no lugar do tempo”, ou seja, “constrói comparáveis” (p. 67).
Patrícia Lavelle afirma que a elaboração das “correspondências sem adequação” e “equivalências sem identidade” é uma “resposta construtiva ao desafio representado pela diversidade das línguas” (p. 8). Concordo e entendo dessa forma também a releitura que o autor faz do mito de Babel. Há no pensamento de Paul Ricoeur uma recusa delicada (é a segunda vez que me sirvo do radical) a certa acídia intelectual. Emprego o velho pecado de propósito, robustecendo, porém, seu sentido, para um ser e estar no mundo muito frequente entre os intelectuais que compactuam com versões de uma letargia conveniente. A refutação da impossibilidade de traduzir confirma a postura ativa de Ricoeur. Esse dinamismo tem também certa fé.
No primeiro texto, o autor liga a felicidade de traduzir à ideia de “hospitalidade linguística”, que volta no segundo texto, relacionada à ética: “levar o leitor ao autor. Levar o autor ao leitor” (p. 48), assumindo todos os riscos da tarefa. Está claro que na ideia de hospitalidade achamos acolhimento, achamos uma fraternidade. Isso me toca particularmente no caso de Froissart e o tempo, tanto no que significou fazer a mediação do pensamento de Michel Zink, quanto em acolher as palavras do cronista medieval Jean Froissart na minha língua materna.
Chamo de coerência positiva a confluência entre a fidelidade de Ricoeur a referências que podemos facilmente reconhecer na sua obra e essa fé que o faz bradar, com gentileza: “a despeito dos fratricídios, nós militamos pela fraternidade universal” (p. 42). É por isso que, com o mestre, eu acredito na tradução!

Referências:
1. A edição da Bíblia que tenho mais à mão é aquela das Paulinas. São Paulo, 1980.
2. Outra resenha da mesma obra, escrita por Andréia Guerini e Andréia Riconi pode ser lida em:  https://periodicos.ufsc.br/index.php/traducao/article/view/2175-7968.2014v1n33p343/27678
3. RICOEUR, Paul. Sobre a tradução. Tradução e prefácio patrícia Lavelle. Belo Horizonte (MG): Ed. da UFMG, 2011.
4. ZINK, Michel. Froissart e o tempo. Tradução: Carmem Lúcia Druciak e Marcella Lopes Guimarães. Curitiba (PR): Ed. da UFPR, 2016.





[1] Uma dessas preferências é Freud que volta no capítulo, na relação entre trabalho de tradução, trabalho de rememoração e trabalho de luto (p. 48). Todos sabemos como o autor é importante em Memória, História e Esquecimento.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Diálogo sobre o tempo - LANÇAMENTO!

Com muita alegria, convido-os para o lançamento do meu novo livro, escrito com o amigo, o filósofo Jelson Oliveira. Escrevemos sobre o Tempo, sobre a História, sobre a Morte, sobre a Amizade e sobre o Futuro. Não se trata de uma Historiadora e de um Filósofo que abordam temas a partir dos seus lugares de eleição, mas de textos que conversam e extravasam, até para as margens da folha... Nova feição do Diálogo e da Epistolografia? Talvez... Uma conversa entre amigos, pessoas tagarelas... entre a Filosofia e História!

Prefácios de Željko Loparić e Fátima Regina Fernandes.



Dia 4/12, a partir das 18:30, na Livraria da Vila (Shopping Pátio Batel). Para abrir a noite, Mateus Sokolowski e seus amigos, a quem agradeço de coração.