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terça-feira, 30 de maio de 2023

Eneida de Heloisa Passos: épico familiar

 

5ª feira, dia 25 de maio de 2023. O PPGHIS da UFPR viveu uma atividade rara: a união de suas Linhas de Pesquisa para uma experiência em comum. Colegas, alunas e alunos, convidados e convidadas reuniram-se no anfiteatro 1100 do Edifício Pedro I da Reitoria para ver o filme Eneida da cineasta Heloisa Passos. A qualidade “rara” teve a ver tanto com o que há de mais funcional na rotina dos dias: os horários diferentes das aulas, quanto com as preocupações acadêmicas: as especificidades de cada seminário de pesquisa e até com a surpresa gerada pelo encontro entre o previsível e o imprevisível. Na 5ª feira, dia 25 de maio de 2023, colegas, alunas e alunos encontraram-se com a protagonista do filme, Eneida Passos (86 anos), para ver com ela um filme em que suas alegrias, conversas e suas dores foram projetados para nossa surpresa e emoção, em uma sala de aula.

Uma atividade assim tem suas “horas de filmagem” invisíveis aos presentes pontuais e que merecem aqui um destaque para as que vivi com a Taturana, distribuidora do documentário, com quem conversei e de quem recebi materiais generosos e muito bem elaborados sobre o filme. Ora, a existência desse conjunto revela que o filme tinha a ambição de extrapolar a experiência de seus minutos visíveis. A exibição começou antes com a leitura do material e se prolongou na conversa depois do filme, em que contamos também com as presenças gentis da produtora Débora Zanatta e da filha mais nova de Eneida Passos, Luciane Passos. Palavras aquecidas com café.

Eneida é um documentário sobre Eneida, a mãe de Heloisa Passos. A cineasta encena a microescala italiana – tão conhecida da historiografia – para “falar” com o público sobre a sua gente, tão nossa... Mãe e filha estão em cena! Eu tive a satisfação de escrever sobre o filme Construindo pontes em 2018 que para mim, tanto quanto Eneida, conta muito sobre o Brasil recente[1]. Mas em Construindo, era o pai que passava pelas telas... Ele volta em Eneida, presença sutil na tela e de grande impacto na trama invisível que é o centro do filme.

Quando o filme começa, Eneida está em Portugal, revisitando suas próprias raízes. Eneida tem 81 anos e vai ao encontro da casa de seu pai. Depois, ela realiza seu épico para religar os ramos todos de que ela é árvore. Eneida vive a separação de uma filha e essa separação reverbera em sua família como afastamento por mais de vinte anos, entre irmãs, netos, primos, tias... sombra e silêncio. Eneida e Heloisa enfrentam a mudez dos anos, sufocada por camadas de desencontro, em busca da filha mais velha da protagonista. Eneida e Heloisa insistem, enfrentam seguranças, porteiros e rabinos. Reviram o sedimento de uma terra inundada pela alga mais tóxica para o amor: o ressentimento.

No material que estudamos sobre o filme, havia três temas disparadores: o cuidado, o envelhecimento e a reconciliação. O filme tem tudo isso. Eu gostaria de acrescentar o ressentimento e o perdão. O ressentimento é a invisibilidade mais opressiva do filme e o perdão... eu volto a Paul Ricoeur, para ele dizer uma coisa muito difícil: “pedir perdão também é manter-se disposto a receber uma palavra negativa: não, não posso, não posso perdoar”[2].

O filme Eneida também é outra coisa, ele encena o que vou buscar outra vez na precisão de Paul Ricoeur: “A fidelidade ao passado não é um dado, mas um voto”[3]. O legado desse filme é um voto. Refuto a ambiguidade desse substantivo, em contexto brasileiro de persistente divisão no almoço de domingo em nome do único sentido que interessa aqui. Na 5ª feira, dia 25 de maio de 2023, foi possível uma mesa comum.

Uma das coisas mais emocionantes para mim foi ver Eneida vendo Eneida... Ela não acredita que sua filha mais velha ou seu círculo viram ou verão o filme da sua epopeia. Eu acho que fica o voto, “o brilho dessa estrela norteadora”[4]...

Marcella Lopes Guimarães

 

***

 

Abaixo, a livre manifestação dos alunos do seminário de Cultura e Poder presentes na sessão de 25 de maio de 2023:

 

I)

Nikita Chrysan

Eneida não é apenas um filme, é uma experiência. É um convite para refletirmos sobre nossas próprias vidas, nossas famílias e amigos, os relacionamentos que vivemos, sejam curtos ou duradouros, assim como nossos medos e esperanças sobre aquilo que o futuro ainda há de nos revelar. A jornada de Dona Eneida em busca do tão sonhado reencontro com sua filha mais velha depois de mais de vinte anos, deixa o espectador ansiando pelo final perfeito que os diversos filmes e histórias fantásticas nos condicionaram a esperar desde a infância. Mas não podemos nos esquecer de que este filme conta uma história de vida, de mulheres que viram o machismo despedaçar importantes laços familiares que o tempo por si só não foi capaz de remendar, quando homens optaram pela discórdia onde o diálogo podia ter oferecido melhores alternativas. Em certo momento do filme, Dona Eneida diz ter vivido uma vida cercada e cerceada pelo machismo, não vendo formas de algum dia se livrar completamente disso, mas aos meus olhos ela já se impõe frente a seus opressores, como mulher, mãe, avó e bisavó, pela coragem e resiliência de buscar a conciliação familiar que foi inviabilizada por homens tantos anos atrás.

Como o próprio material promocional e didático do filme traz, Eneida é uma produção sobre mulheres feita por mulheres, que por meio de diversos temas nos aproxima da vida dessas pessoas, de sua dor, de suas alegrias, memórias e esperanças. Nos lembra que o tempo não espera por ninguém e que há infinitas maneiras de navegarmos por ele, mas que o perdão, o diálogo e a coragem devem ser nossos companheiros e companheiras de caminhada. O filme me fez pensar em minha própria família, tanto nas pessoas que não estão mais fisicamente comigo quanto naquelas que irei reencontrar nas férias que se aproximam depois do término deste semestre letivo, para a qual já tenho a passagem para casa comprada. Para Dona Eneida, sua filha e cineasta Heloisa e todas as mulheres de sua família, desejo toda sorte no caminho que vocês bravamente percorrem, e para minha mãe, minha eterna melhor amiga, deixo aqui meu até logo, na certeza de que este mês que me distancia de seu abraço passará tão rápido quanto o tempo que corre e guarda as memórias de todas nós.

 

II)

Dalton Iathiskoski

 

Eneida é um filme que nos faz refletir sobre as relações familiares, e não somente isso, também perante a sociedade. Assistindo ao filme pensamos sobre as ligações e os rompimentos que vivemos em nossas vidas. O quanto vale a pena uma relação? O quanto vale um rompimento? Pensar nos eventos e suas consequências desafia-nos a olhar para nós mesmos. Pois todos, em sua memória, podem lembrar-se de casos de machismo, injustiça, rejeição e abandono, seja por ouvir ou por presenciar. É impossível passar levianamente por esse filme. Em algum momento você é transportado para alguma vivência que teve e é obrigado a refletir sobre a conduta dos outros, mas também da sua. O que somos? O que nós queremos? Quem está conosco? O que ganhamos e o que perdemos? Por fim, a busca trágica de Eneida... torna-se uma busca por nós mesmos.

 

III)

Rennan Negrão

 

Eneida me tocou de maneira especial. Sua história é a história das nossas famílias, das discussões por dinheiro que levantam paredes no meio das salas das nossas casas, das palavras não ditas e que carregam expectativas que não foram cumpridas. Apesar da ruptura com uma das filhas - e com o braço da família que dela descende -, o filme mostra de maneira muito sensível a relação de Eneida com seus netos. Os netos dão aos avós a oportunidade de renovar as relações de afeto. É um amor demonstrado de maneira diferente. Eneida, nesses momentos, é avó. As interações com os netos nos colocam diante de dois problemas que estão dentro das nossas casas. O primeiro é o envelhecimento, e o cuidado que não relega aos idosos da família o lugar de apartamento, reservado às pessoas que, como objetos, vão se tornando obsoletas com o passar do tempo. O segundo problema, que atravessa o filme todo, são as relações de gênero; a vulnerabilidade masculina é apresentada em um único momento, quando a avó está barbeando o neto Bruno. A relação com os netos é o lembrete que, apesar do seu drama, essa é a família que Eneida possui*. O filme também nos relembra da importância daqueles que ficam do lado de cá após a ruptura, daqueles que tentam uma reaproximação, que querem reatar os laços. Novamente, essa é a história das nossas famílias.

 

*Assistimos ao filme na presença de Eneida, a protagonista, e sua filha mais nova. Ao final da apresentação, ambas saíram em direção ao toilette, e eu estava atrás, no corredor. Ao ver a mãe emocionada, a filha a abraça e diz: “Mãe, olhe tudo o que você tem, a gente, seus netos…”.

 

IV)

Danilo Rodrigues Silva

 

O filme na sua parte final expressa aquilo que nós usualmente concebemos como o derradeiro não desejável, aquilo que não esperamos e não queremos em um filme e muito menos nas nossas vidas, talvez por estarmos acostumados com a idealização da vida no cinema, a idealização de tudo aquilo que anelamos mas não encontramos nas nossas relações familiares e sociais. Eneida, obra de excelência em transpassar para além da tela aquilo que nós enquanto grande público não toleramos que nos seja despertado, sem subterfugio de algum clímax dramático da trilha sonora subjacente ás imagens, não faz avivar na consciência necessariamente aquilo que nós queremos; faz avivar o “nós” demasiado humanos, o “nós” sem muitos outros horizontes a não ser aquele da grande dor do passado, aquela que levamos ao futuro. Não se detendo apenas na rigidez da vida, o filme também aviva o “nós” amor, o incansável esperançoso. A obra não é a descrição de uma história com uma conclusão encantada e positiva para depois de um dia de muito trabalho, corrido, que nos retire á consciência para sermos lançados ao mundo das quimeras, não é uma história feita para termos boas emoções e relaxarmos depois do cansaço, ele é expressão cinematográfica das relações humanas como elas são, demasiado humanas, não necessariamente certas ou erradas eticamente, mas indomáveis pelos sentimentos.

 

V)

Raoni Paes Peres

 

A percepção da brevidade que contém toda vida muitas vezes nos traz reflexões aguçadas sobre como nos relacionamos com os que nos são importantes; certamente a força motriz de muitas reconciliações. No entanto, nem sempre temos o poder de mudar o curso de rupturas nas relações interpessoais como gostaríamos, algo com que muito podemos aprender, como demonstrou Eneida. Ao contrário de um mero conformismo, entre intenções materializadas em ações e a dose certa de estoicismo, encontramos também um conforto – o de viver intensamente sem adiar sonhos, convivendo com objetivos que não pudemos atingir, sem transformá-los em uma condição vital. Reconciliar é muito importante, e viver, mais ainda.

 

VI)

Mariana Megel

 

     O que foi Eneida para mim? Uma enorme reconciliação. Sou tecnóloga em gastronomia, estudante de nutrição e mestranda em história, porém, essas três faces do meu eu não andavam ressoando em consonância por aqui. Com essa inquietação, busquei transbordar a narrativa do filme através da alimentação. Enviei uma mensagem e um e-mail para a Heloisa perguntando se haveria alguma comida que fosse cara para a Eneida e a família delas e, para minha felicidade, dias antes do evento do PPGHIS fui presenteada com a receita do bolinho de polvilho da mãe da Eneida. Foram três testes na cozinha da minha casa até conseguir um resultado agradável e que me falasse ainda de boca cheia “é isso”. Reproduzi a receita com a intenção de que no dia 25 de maio de 2023 todas as conversas a mesa da família Passos estivessem presentes no anfiteatro 1100 do Edifício Pedro II. No entanto, não esperava que a partir disso as minhas três faces celebrariam juntas aquele momento. Eu celebrei naquelas 4 horas o fim da minha tripartite e a minha reconciliação. Finalizo dizendo que ainda não encontrei palavras suficientes para agradecer o fenômeno que é Eneida, mas usando da simplicidade, muito obrigada, Eneida.

 

(depoimentos enviados entre 28 e 29 de maio de 2023)

 

***

 

Eneida vendo Eneida, no anfiteatro 1100

 

 

 



[1] http://literistorias.blogspot.com/2018/05/construindo-pontes-de-heloisa-passos-um.html acesso em 29 de maio de 2023.

Achei uma dissertação sobre Construindo Pontes, que não li, defendida em 2021: http://ppgcineav.unespar.edu.br/dissertacoes_defendidas_new/2021/Dissertao_ThaiseJorgeMendona_PPGCINEAV.pdf acesso em 29 de maio de 2023. 

[2] RICOEUR, Paul. A memória, a história e o esquecimento. Campinas: Ed. da Unicamp, 2007. p. 489.

[3] Idem, p. 502.

[4] Idem.

domingo, 14 de junho de 2020

A França desconfina amanhã, o que temos com isso?


Quando cheguei à França, encontrei meus amigos chateados com o presidente Emmanuel Macron. Um país na rua por diferentes razões. Mas o coronavírus atravessou essa rua e mandou todos e todas para casa..., até o presidente. Estou nesse país com os franceses e as francesas desde então e vi a chegada do vírus, a despreocupação, o desprezo do risco, a falta de conhecimento... Mas não vi um líder que se escusou da responsabilidade. Tardou? Talvez. Mas outros países igualmente “irmãos” europeus também tardaram e outros, “irmãos” até outro dia, riram. Dia 16 de março, Emmanuel Macron trancou o país em casa e dentro das suas fronteiras. Ele trancou a minha filha, que voltaria a seu país em abril. A Europa redescobriu as fronteiras? Ora, algum dia tinha de fato esquecido delas?... Se todos pararam? Claro que não. Continuou havendo trabalho dentro e fora de casa: nenhum lixo deixou de ser recolhido aqui da minha porta, o caixa de supermercado estava lá para eu comprar o arroz, o médico no hospital e, de dentro de casa, os professores continuaram a enviar tarefas à minha filha. Em todo país, houve gente que teve de estar fora de casa trabalhando e outros puderam desenvolver seu ofício em casa, reinventando-se, enquanto acompanhavam os filhos, cozinhavam e assistiam a reuniões intermináveis... Franceses e francesas, chateados ou não com esse presidente que elegeram, respeitaram as decisões que foram tomadas em nome de sua proteção física. Respeitaram sem subserviência, cobraram as máscaras que não chegavam, dentre outras providências. Um conselho científico foi constituído pelo governo para estabelecer um protocolo sanitário e para colaborar com as decisões do executivo. Daqui a pouco, esse conselho encerrará as atividades. Cumpriu seu dever. O desconfinamento total começa amanhã.
Os líderes constroem sua respeitabilidade. Outro dia, essa França ardeu, fez rassemblement sem autorização... O presidente engoliu e hoje reconheceu o óbvio para muitos de nós: uma democracia não pode compactuar com o racismo, nem com outros (des)valores e porcarias. Hoje, ele falou de diferença, de particularidade, de um modo de viver francês, diferente dos EUA, da China e da “desordem” por aí (citou assim mesmo)... Minha filha desviou a cabeça do tablet e me olhou. Juro que não estou fazendo jogo de cena! Ela disse: “Por que não podemos ter gente decente como presidente em todo lugar, mãe?” Minha vontade foi de chorar, abraçá-la, assumir o meu desespero... Mas, tirando coragem não sei de onde disse: “Precisamos lutar por isso, filha”.
Eu sou uma professora luso-brasileira obscura nessa França. Preciso assumir minha identidade de reunião, porque estou aqui como cidadã européia. Mas me dirijo a meus compatriotas no Brasil: nosso país está acéfalo. Cometemos um erro histórico. Nenhum presidente assumiu a gestão da crise, para que venhamos a levantar discórdia. É preciso haver qualquer coisa para a gente dizer que é contra, não? Não há nada. Ou melhor... há crimes em sequência. Há um ser abjeto distante quilômetros da honra de governar a nossa nação.
Em Curitiba, minha terra de adoção, o prefeito em quem não votei volta atrás e pede, talvez suplique: voltem para casa. Não tomem chopinho falando nos cangotes de homens e mulheres a quem desejam. Voltemos... Parem de comprar blusinha que não vão usar. Deixem o cabelo crescer, a barba. Aprendam a se depilar, a pintar as unhas vocês mesmos por enquanto. Por enquanto... Façam um sacrifício, para que possamos tourner la page. Se haverá gente trabalhando na rua? É claro que sim! Desde o início da crise, meu marido trabalha em hospital público, não teve 1 só dia de teletrabalho. Meu cunhado está dentro de uma UTI trabalhando também, enquanto minha irmã embala temerosa seu recém nascido prematuro nos braços... Eles dois não tiveram teletrabalho para que outras pessoas possam ter! Quem puder! Quanto mais obedecermos e confiarmos, mais e melhor poderemos beijar e abraçar; falar bobagem nos cangotes; tomar chopinho; comprar blusinha; aparar as pontinhas... Vocês querem? Então aguentem. O Brasil está perto da lotação da capacidade de reanimação em vários lugares. Não invadam hospitais... Não aceitem convite vindo do NADA. Voltem. Quem puder volte, para viver mais e melhor.
Toda a minha repulsa, ódio mesmo ao NADA que nunca assumiu a tarefa gloriosa que recebeu das urnas. Pelo impedimento do erro histórico cometido pelo país.
Quem puder, volte para casa. Quem não puder, obrigada, coragem e cuide-se. 
Poitiers, 14 de junho de 2020   


Aqui na minha rua está localizado um dos maiores perigos dessa França! Uma calçada que imita a vida: a gente está condenado a prosseguir sem saber quase nada do que vem logo depois... Bom amanhã para todos e todas.

sábado, 5 de maio de 2018

“Construindo pontes”, de Heloísa Passos. Um filme-documentário-biografia-combinada de Álvaro, de sua família e do Brasil recente.


No último dia 16 de abril, eu e a filha fomos ver o filme de Heloísa Passos “Construindo pontes”. Tratava-se da estreia, no Shopping Crystal em Curitiba. É difícil de caracterizar essa obra, daí a profusão de elementos que incluí no título da resenha. Eu não sabia praticamente nada do filme, quem me convidou foi uma pessoa com quem trabalhei por alguns anos e há muitos, Tina Hardy, que integra a equipe do filme. Recebi os ingressos por e-mail e achei que era uma boa chance de rever gente amiga, com a qual eu e Tina havíamos trabalhado. Rever a própria Tina, inclusive! Intuição correta. Antes da exibição do filme, Heloisa chamou a equipe, revelou-se emocionada de estrear em sua cidade, afirmou o desejo de um Brasil mais plural, onde o desaparecimento de uma mulher que lutava pelos direitos humanos: Mariele presente!, não pode passar despercebido, nem ser esquecido, chamou Álvaro. Foi ovacionada.
A princípio, achei curioso que Heloísa Passos tivesse espantado o mal estar diante do gerúndio, que passou a ser quase uma forma desagradável desde que a sintaxe inglesa meteu-se naquilo que era tão bonito em Camões, que gostava do gerúndio! Fiquei intrigada. Por que Heloísa não preferira um belo substantivo: “A construção de pontes” ou “A construção das pontes”. Eu sabia que depois da exibição, haveria debate, mas como estava acompanhada da filha, em plena 2ª feira, sabia também que a necessidade de obedecer à hora de dormir não permitiria que a gente explorasse essa e outras questões. Heloísa espantou o medo, preferindo o gerúndio. Que nem eu. Heloísa pareceu preferir o inacabado. A construção não terminou. Está em curso.
Há muitas coisas dissonantes no filme, a começar pela relação de Heloísa, que atua no filme, e Álvaro, seu pai, também “ator”. Seus desentendimentos parecem inviabilizar qualquer ponte. Para Álvaro, houve um tempo em que no Brasil havia um projeto de país, um projeto de progresso, de desbravamento, melhorias... que ele identifica com “os tempos da revolução”. É outra a semântica de Heloísa, que afirma que todo esse tempo era a ditadura e que esse projeto de país nunca foi o único projeto e que ele tinha desdobramentos, que Álvaro minimiza... Minimiza com jeito. É Heloísa que fala alto, exalta-se, não aceita. O pai se cala, pede que não se exalte, não é para tanto.
Logo no início há um momento que arrancou risadas da plateia. Pai e filha discutem e ela afirma: não é isso o meu filme, vou desligar o som e desliga. Há uns segundos de respeitosa porta fechada depois daquele duelo entre os dois. A plateia fica de fora. Quantos de nós já não batemos a porta de casa para terminar uma discussão?
Heloísa ausculta a memória da família. Filmes e fotografias antigas mostram viagens divertidas e caras do núcleo feminino. Onde estava o pai? No trabalho. Às vezes levava-as aos destinos, ficava uns dias e voltava apressado. Mapas são abertos na mesa da sala de jantar e Heloísa pede ao pai que localize as suas obras. São inúmeras. Álvaro fala das dificuldades, de onde morou provisoriamente e sem a família, fala do constrangimento dos prazos fixados pelos militares.
Muitas vezes a palavra final é de Álvaro, mas deixado só, no meio da sala, depois de um confronto. Heloisa deixa o aposento, passa; ele quase fala para si mesmo, tinha total lembrança na câmera ligada no meio da sala? É Heloisa quem narra. Eu não gostava de mim quando estava com ele. É uma das frases mais difíceis do filme; ela ribombou dentro de mim.
E não é que Heloísa e Álvaro se metem em um carro para empreender uma viagem a dois mesmo com toda essa dissonância??!! Quantas viagens a dois fiz com meu pai, morto em 5/3/2018? Muitas. A última foi para a França em 2014, quando ele foi morar “para sempre” na Europa e voltou 11 dias depois. É Heloísa quem dirige, o pai dá uns palpites (ora, como não?! É um pai!!!). São parados para uma pesquisa, o pai responde algumas vezes; parecem perdidos em alguns caminhos. Onde estaria a tal ponte que Heloísa queria tanto ver/mostrar?
Há um momento em que ela para diante de um sítio que motivou todo o filme para ela. Sua intenção? Deslanchar a epifania. Heloísa faz a tomada 3 vezes; é ela que conta. Fala as mesmas frases. Vemos que o sol vai se ponto. Nada de revelação em Álvaro. Não há qualquer impressão sensível. E se Heloísa tivesse levado umas madalenas proustianas? Não há madalenas no carro... Há, porém, um momento em que ele parece tentar agradá-la: é bonito. A plateia ri do esforço do pai, do seu equívoco. Heloísa não entrega.
Mas como todo destino das viagens é chegar, a deles também chega a termo. O termo era uma ponte, pela qual trafegam trens. É difícil chegar até lá. Fazem uma manobra na estrada. Estacionam. Os dois sobrem uma escadinha sofrida. Há um detalhe lindo dessa subida. Lindo e arriscado. Ah, como a beleza é perigosa! Heloísa é mais jovem, sobe sem esforço. Álvaro é um senhor e preocupa-lhe a lepidez da filha, cuidado, mas é ele quem resvala e é a filha que o sustém. Emoção forte em mim. O pai nos seus braços. Cuidado, pai. Não tenha medo.
Conversam. E não é que o trem vem?! Heloísa é uma menina de novo. Talvez não esperasse, ri-se, está perto demais, afasta-se. O sol já se pôs, quase não se vê mais nada; ouve-se o barulho.
“Construindo pontes” é um filme lançado em momento propício. Como a narrativa foi se fazendo (olha o gerúndio novamente!), talvez ela tenha sido atravessada mais facilmente pelos acontecimentos da nossa história recente. Há um momento em que há uma discussão de concepção de narrativa: Álvaro diz: mas você precisa planejar e depois filmar; Heloísa não quer isso, quer o oposto: que a captação das imagens motivem a sua “escrita”. Embora eu particularmente fizesse como Álvaro, mas nem eu nem ele somos cineastas..., acho que o resultado levou o expectador a uma urgência. A explicação dessa urgência me leva a uma digressão.
Temos visto e celebrado a afirmação de identidades que por anos, séculos!, foram caladas. Hoje, um mesmo indivíduo se identifica de formas múltiplas. Entretanto, de uns tempos para cá eu, muito atenta às redes sociais, porque participo delas como “personagem” e como analista do comportamento das pessoas (até das que não me interessam), tenho visto que não raro temos reduzido os nossos campos. As nossas “novas” identidades nos fizeram adentrar em grupos pequenos, quase sociedades secretas. Exemplifico: outro dia li o texto de uma aluna muito boa no FB que afirmava seu orgulho de ser uma jovem pesquisadora, historiadora, mulher e desprezava a sua identificação como brasileira... Eu sei por quê. Porque a extrema direita tem sequestrado os símbolos mais evidentes da nossa identificação e talvez a afirmação e o orgulho de ser brasileira, em meio ao golpe e a seus desdobramentos, pareçam à minha aluna um alto risco. O fato é que eu não pretendo deixar a extrema direita sequestrar nem um centímetro do que sou. Então ser uma mulher, intelectual, historiadora, escritora, mãe convivem com minha atenção constante ao Brasil. Convivem com minha luta. Convivem com meu amor.
O fato de afirmar novas identidades, dizê-las em voz alta, exibi-las orgulhosamente têm-nos feito abandonar pontes muito precisadas de reparo. Volto à Heloísa. É por isso que acho que seu filme é lançado em momento propício. Não sei se Heloísa tem a ambição de propor reparos, mas é filha de engenheiro, sabe da necessidade disso! Coisas podem ruir de vez se a gente não cuida, se a gente não se interessa, se não vai aferir com muito jeito o que é preciso fazer para evitar desmoronamento.
Tenho visto muita ameaça de desmoronamento por aí e de divisão – a divisão na família de Heloísa é a redução da escala de uma crise que se instalou fortemente entre nós nas últimas eleições, dividindo a mesa de jantar da casa da gente. Mas Heloísa não se encolhe, ela enfrenta a diferença e convida o pai para viajar com ela! Isso é tão bonito... Estão confinados no carro para o dissenso e o amor. E a maior surpresa é que a “rebelde” Heloísa é que a engenheira construtora de pontes. O filme acerta na mosca; eita precisão matemática! Heloísa tem novo diploma.

Epílogo:
Escrevi esse texto em aeroportos. Comecei no dia 20 de abril no Recife, quando viajava para Cabo Verde (África) e terminei dia 27, no aeroporto de Lisboa, no meio da volta para casa: a Curitiba de Heloísa e minha! O que fui fazer lá? Construir pontes! O filme me preparou, acordou a engenheira na professora. Eu me esforcei para deixar fundações sólidas lá. Será que Álvaro aprovaria minhas técnicas? Como deixei lá contatos, e-mails, promessas..., vou fazer como esse pai e essa filha: refutar belos substantivos e dizer que voltei construindo.   




segunda-feira, 1 de maio de 2017

O Joaquim (2017) de Marcelo Gomes é um herói desiludido

Sábado, dia 29 de abril, fui ver o filme brasileiro Joaquim (2017), de Marcelo Gomes e estrelado por Júlio Machado, no papel título. Ele me fora recomendado por duas amigas. Como eu não sou uma historiadora consagrada à pesquisa das relações entre História e Cinema, nem sou uma historiadora que pesquisa História do Brasil, esses comentários são naturalmente pouco científicos. Vi o filme como documento do presente é claro e como experiência estética.
Eu tinha a expectativa de ver uma cinebiografia de Tiradentes radicada no Brasil triste em que vivemos, e assisti decerto a um filme biográfico, que relê a trajetória do herói antes dos eventos que haveriam de transformá-lo em feriado republicano, compreendido em um feixe de relações cuja singularidade não é sacrificada pela ambição de perscrutar uma individualidade específica. O que eu mais gostei no filme (e eu gostei do filme) é que os personagens têm história, às vezes pequena, às vezes mais robusta, mas sempre deles próprios. Ninguém ali precisa de Tiradentes para viver.
No início do filme, a narração post mortem meio didática e talvez desnecessária, da cabeça fincada num pau, identifica o personagem. Essa introdução pode ter a intenção de aproximar-se da expectativa do público (e minha!), para na sequência surpreender com outro caminho. Depois da narração, vemos o alferes: cabeludo, piolhento, a dividir a comida com os companheiros e “permitir” ao pequeno índio partilhar aquele pouco (prenúncio do herói?), rechaçado nas sucessivas promoções dos outros para tenente... Ao seu lado, Januário, que sonha ser alferes; Benedito da venda; Zua, mulher que Joaquim deseja, mas que se liberta a si mesma (inclusive dele); João, pai de família que vive na condição de escravo de Joaquim; Matias, o português que vem da corte e integra uma expedição por ouro... É interessante que intendentes e governadores, cujo exercício de poder ressuma a corrupção e empáfia, não têm história própria. É uma “vingança” da narrativa que aprovamos.
Joaquim tem dois sonhos: a princípio quer ser tenente. Mas depois que Zua esfaqueia Benedito, que a obriga a sujeitar-se às sevícias sexuais do intendente, Joaquim deseja reencontrá-la. Já no sertão proibido, embriagado com os companheiros, afirma que o ouro que tanto buscava seria o recurso para conquistar a promoção e Preta. Então o ouro é caminho, não fim. Detalhe importante: só sabemos que Preta é Zua, quando ela está no quilombo e é uma cena de fazer a gente gritar no cinema. Algo assim: Meu nome não é Preta; Preta é cor; meu nome é Zua. Arrepio. Depois ela dança, é uma mulher, é uma guerreira. Novo arrepio. Cena bonita mesmo. Mas sabe o que eu achei brilhante? Foi Zua libertar Joaquim. A mulher que libertou a si foi também a que libertou o herói. Ponto para Marcelo Gomes.
Nessa noite de embriaguez, cada homem fala sobre seus desejos. É uma cena triste e bonita. Joaquim, Januário e Matias...; mas ali perto João e o indígena que guiava a expedição conversam também, só não podemos compreender. O diretor nega a tradução. Eu gostei disso. De manhã, uma das minhas cenas do filme: o guia indígena e João cantam, cada um no seu ritmo e idioma, enquanto os militares dormem, roncam, Joaquim abre os olhos... Quando o canto é silenciado, a câmera para no rosto de João. Joaquim observa deitado, um detalhe no canto da cena. É um quadro. A minha outra cena também é protagonizada por João.
Joaquim empreende uma busca infundada por ouro. Na volta, vencido, detém-se em uma propriedade onde descobre umas pedras que pressupõe serem valiosas. Já havia tirado um dente de Benedito e nessa propriedade acaba por ajudar uma das esposas do proprietário (as terras brasis são cheias de relações reconfiguradas...). Ora, é o Tiradentes!
Joaquim leva essas pedras para o governador e, na vila, aproxima-se das pessoas, livros e ideias que haveriam de transformá-lo no feriado nacional. É importante perceber, porém, que a escolha de Marcelo Gomes é compreender essa aproximação como fruto da solidão e da desilusão. Nisso, o filme firma seu pacto com o presente. As pessoas, os livros e as ideias não libertam Joaquim, abrem-lhe certamente possibilidades, é preciso continuar a viver, mas o herói de Marcelo age porque seus sonhos morreram... Como é difícil escrever isso.
Minha segunda cena no filme tem a ver com a solidão do herói e com a reivindicação de um homem, pai e marido. Na vila, João vai visitar a mulher e as filhas. Conta a Joaquim que a esposa havia juntado o dinheiro necessário para comprá-lo... A princípio, Joaquim refuta a transação. Diz mais ou menos o seguinte: você também vai me deixar sozinho? João olha nos olhos do senhor, fala que as filhas estavam crescendo, que precisava cuidar da família. Se Joaquim não tem ninguém, João tem família. O herói diz: você tem direito. Marcelo Gomes põe na boca do seu Joaquim o reconhecimento do direito de um homem (e de uma mulher, afinal Zua havia antecipado esse embate) de ser livre, que João vai buscar do jeito que encontra para isso naquele contexto. É um jogo temporal interessante. Presente e passado se encontram na narrativa, na História do Brasil.

Epílogo
O filme estreou em nosso país na altura do dia de Tiradentes, 21 de abril, e pouco antes do dia 28 de abril, dia da greve nacional. Não posso deixar de apontar essa sintonia, que agrega mais sentidos à narrativa fílmica. Eu não esperava um filme comemorativo, mas me surpreendi com a solução de Marcelo para mover o herói: ao mesmo tempo, a desilusão; ao mesmo tempo a necessidade. Nisso, Joaquim parece um homem de 2017. E ele parece tanto que a narrativa post mortem do início pode não ser exatamente didática como a princípio a compreendi. Vendo Joaquim é possível confundir-se com ele hoje; ou ver nele nosso próximo[1] mais aguerrido, meio desbocado e violento, entre desiludido e triste, entretanto não abatido, no Brasil que temos.






[1] No sentido como o compreende Paul Ricoeur, em Memória, história e esquecimento, e eu no capítulo “Amizade” de Diálogo sobre o tempo: entre a Filosofia e a História.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Uma medievalista espiando o Brasil Império: minhas impressões do excelente As memórias da Viscondessa de Mariana Muaze

Há alguns meses, minha amiga Cíntia Régia Rodrigues me emprestou o livro As memórias da Viscondessa: família e poder no Brasil Império (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008), sabedora de que eu tenho o célebre sonho (é célebre só porque eu propalo bastante...) de percorrer as antigas fazendas do café do Vale do Paraíba. Pois bem, não foi desta vez que realizei o sonho, mas a leitura do livro de Mariana Muaze me aproximou do intento, pela qualidade do trabalho, pelo que entrevi que ainda pode ser feito e pela riqueza dos documentos, dos quais destaco a epistolografia e as fotos a que a pesquisadora teve acesso.
Mariana me fisgou desde o início quando, na introdução, compartilha com os leitores os caminhos de sua pesquisa, ou seja, suas intenções iniciais e decisões efetivas (incluindo redirecionamentos), o que valorizo enormemente; define a partir de que fontes construiu seu exame e vincula a investigação à micro-história. Cumpre todas as suas promessas. Talvez por isso e pelas conclusões a que chegou, duas delas de grande impacto para o estudo do Brasil Império, tenha obtido menção honrosa da Jorge Zahar.
O livro de Mariana tem três partes, mas na verdade tem duas... e preciso dizer que o título é uma falsa pista ou um ardil. Espero que ela não se chateie. Na parte 1 e 2, conhecemos as famílias reunidas em casamento, ou seja: a família do marido da viscondessa do título, família Ribeiro de Avellar, e a família da viscondessa, os Velho da Silva. Mariana nos conta como o enlace foi urdido, com todo o cuidado, pois se tratava de unir dois núcleos que não tinham relações. Embora o patrimônio dos Ribeiro de Avellar fosse diversificado, e seria ainda mais na descendência que Mariana examina, a essência era proveniente da Fazenda Pau Grande. Obviamente que já descobri que a fazenda está em pé e já a incluí em meu roteiro daquele sonho dourado! E os Velho da Silva? Tudo gente urbana e cortesã, do Rio de Janeiro.
Como um fazendeiro rico decerto, mas sem nobreza, conseguiria desposar para seu filho uma moça que frequentava os imperiais?? Mariana descortina os caminhos para essa conquista, que passaram pela aquisição do título de barão por parte do patriarca Joaquim Ribeiro de Avellar, no qual se destacou a labuta do comissário Domingos Alves da Silva Porto. Foram necessários cinco anos para a elevação de Joaquim a barão de Capivary. Quilômetros foram encurtados nas tratativas do casamento entre o filho do barão, de mesmo nome do pai, e da jovem Mariana Velho da Silva, a futura viscondessa do título da historiadora Mariana. Adoro gente que estuda os parentes! Meus cronistas Fernão LOPES e Pero LOPEZ de Ayala confirmam que também tenho esses hábitos... É brincadeira, Mariana Muaze.
O Barão do Capivary jamais se casou, portanto a origem do filho é um tema que merece reflexão da historiadora. O certo é que esse filho foi legitimado como herdeiro e finamente educado para suceder e superar o pai. Novamente o comissário Domingos se destaca na tarefa. Mariana compila as cartas em que as necessidades do rapaz são mencionadas.  
O casamento do filho do Barão do Capivary e de Mariana Velho da Silva faz jorrar sobre nós uma série de novos hábitos que Mariana Muaze enquadra nas novas modas cortesãs. Isso é um dos pouquíssimos temas da obra cujo desenvolvimento não me satisfez, o que me faria propor algumas questões à historiadora em uma roda de conversa. Mariana Muaze está preocupada em não isolar a família constituída dos Ribeiro de Avellar (com os Velho da Silva), ou seja, em não destacá-los do contexto. Não foge da sua micro-história, mas algumas vezes parece que sufoca as idiossincrasias para acomodar as suas excelentes conclusões em velhas fórmulas...
Joaquim Ribeiro de Avellar Jr não era um moço de fazenda qualquer, estudou na Europa, casou-se com moça carioca, cheia de necessidades de vestidos e de vida cultural. Mariana não esconde que ele diversificou enormemente o patrimônio da família. A sua visão é bastante moderna (no sentido baudelairiano, ok?). Será que todos esses filhos de barões eram assim?... Alguém vai me lembrar que Mariana se alinha à micro-história. Ok. Mas de fato a ampliação da perspectiva favoreceria a distinção entre o que é partilhado por aquele grupo e o que lhe é idiossincrático. Mas não implico com a micro-história e reconheço que o exame de Mariana permite a gente contemplar o golpe que ela desfere contra um dos muitos mitos do ciclo do café no Paraíba. Mariana mostra com sobejas fontes que é redutor afirmar a decadência geral do vale do Paraíba na segunda metade do século XIX. Essa é uma das conclusões de alto impacto que aludi acima.
Mas cadê a viscondessa?... Pois é. Na parte 1 e 2, que para mim constituem a 1ª parte da obra, temos o mundo dos homens, entre a economia, a política e a busca de prestígio social. Na parte 3, para mim a real 2ª parte, vemos a viscondessa e toda uma série de elementos lançados na primeira parte é costurada aqui, no conceito de família, historicamente construído.
Mariana Muaze teve em mãos uma epistolografia formidável, que ela afirma ter sido reunida pela viscondessa (algumas cartas foram mesmo recuperadas por esta), e pode contemplar os álbuns de fotografia dessa personagem. Aqui, a viscondessa dá título à obra de verdade, como artífice da memória familiar! Mas novamente Mariana teme destacá-la demais e a enquadra no que era esperado e “possível” às mulheres daquele contexto. E outra vez sobram dúvidas em mim. Reconheço que no jogo entre o particular e o mais amplo, é muito difícil equilibrar os sentidos.
Nas cartas compiladas, a historiadora teve de lidar com relações muito complexas no que se refere “aos afetos na vida privada da sociedade escravista” (pág. 134) e faz isso de forma brilhante, acadêmica. Eu fiquei imaginando o quanto essas cartas fizeram-na refletir!
No livro, os leitores têm a satisfação de contemplar algumas das fotografias que Mariana Muaze analisou. Essa é uma experiência muito bacana, de lição de análise e de entrega ao leitor, para que ele experimente ensaiar leituras também. A História é uma ciência muito carnal e essas fotos trazem as pessoas à nossa frente, mais um acerto de Mariana! 
O fato é que a obra As memórias da Viscondessa: família e poder no Brasil Império faz a gente querer saber mais. Uma filha dos Ribeiro de Avellar, Mariquinhas, acompanhou a família real no exílio. No livro, há uma foto bem linda da moça ao lado da princesa Isabel. Mariana Muaze poderia escrever a biografia dessa personagem! Só uma sugestão... No comecinho do livro, há também um dado que some depois: o fato de o pai do Barão do Capivary ter sido interrogado na Devassa. É depois disso que se estabelece na Fazenda Pau Grande. Como sou uma historiadora que trabalha com o poder, fiquei sedenta de mais detalhes... Afinal, essa é uma reorientação importante. Mas Mariana não dá bola para isso. Faltariam documentos? É possível.
Além de abalar o mito da decadência geral do Vale do Paraíba na segunda metade do século XIX, Mariana Muaze conclui que a “criança foi a personagem social que sofreu maior valorização no que concerne aos papéis sociais no interior desse grupo” (pág. 206). As cartas e as fotografias levaram-na a essa conclusão. Os Ribeiro de Avellar tinham forte preocupação com a educação dos filhos e destacavam suas individualidades nos relatos e fotografias. Ao estudar essa família, a historiadora afirma o “triunfo da família oitocentista” (pág. 206).
As memórias da Viscondessa foi uma de minhas leituras de férias e esta é uma obra que pode ser lida assim, como leitura de férias de uma medievalista rsrsrs, mas seria item relevante nos programas de Brasil Império. É muito bem escrita e não tem medo de revelar limites do trabalho do historiador. Aborda-os mesmo francamente. Nesse sentido e pelo cuidado com a interpretação dos diferentes documentos, é uma excelente leitura para Teoria da História!
Pelas páginas de Mariana Muaze, realizei um pedaço do meu sonho de andarilha e ainda matei as saudades do trabalho com álbuns de família[1]. Livro excelente, que dá gosto de ler!




[1] Remeto o leitor ao meu livro Capítulos de História: o trabalho com fontes, sobretudo ao 2º capítulo “O que revelam nossos álbuns de família?” (Curitiba: Aymará, 2012).

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O homem mais bonito do mundo é o Papai Noel

Conheci Paul Mason como o Fashion Santa. Não, não estive no Canadá participando de uma de suas campanhas bem sucedidas de arrecadação de fundos para hospitais e fundações. Não tirei uma foto com ele (espero fazê-lo um dia!), consciente de que a única coisa que ele vai me pedir é que nosso encontro seja mais que “tirar uma foto com uma celebridade”. Há uns poucos anos, vi uma imagem de Paul, em um terno vermelho, e isso foi um júbilo para meu sentido da visão.
Paul Mason é um homem de 53 anos. É um homem lindo; modelo profissional de sucesso, com mais de 30 anos de carreira. Há três anos ele perdeu a mãe e não teve pressa de seguir adiante. Viveu seu luto e, sem se preocupar com quantos empregos haveria de perder, deixou a barba crescer. Por que perder empregos? Porque Paul já havia chegado aos 50 em uma carreira que aposenta cedo e, ao desprezar o barbeador, era óbvio que haveria de ostentar no rosto a passagem do tempo. Paul tem uma linda e longa barba branca.
Eu não sei bem como é essa relação dos homens com a sua barba. Sei que o Luiz, quando está em férias, quando nem quer se olhar no espelho, deixa a barba crescer. Por outro lado, sei que a barba tem sido cultivada por homens que se demoram em frente ao espelho.  Acho que não há uma regra, há a relação individual. Não perguntei ao Paul por que ele entregou seu rosto ao tempo, no momento da sua dor. Pelo que li em entrevistas que concedeu, muita gente estranhou a barba. Não sei bem se estranharam ou se temeram por ele; se temeram pelo seu futuro profissional.
Pois não é que a barba branca de Paul atraiu um monte de gente para perto dele?! Há dois anos, o Natal chegou e Paul percebeu que poderia usar a sua fama e o seu novo eu para ajudar as pessoas. Nasceria o Fashion Santa e Paul fez ainda mais sucesso! O Natal passou e a barba permaneceu. Paul desfilou por muitas passarelas com ela. Esteve no Brasil para alegria de muita gente. Não minha, porque Paul preferiu o Rio a Curitiba... Tudo bem, Paul, eu te perdoo.
Este ano, Paul Mason levou um susto. Um dos espaços em que por dois anos os fãs que o adoram tiravam fotos com ele e colaboravam nos projetos sociais sugeridos por ele, achou por bem “escolher” outro Fashion Santa: um modelo de uns 30 anos, acho que com barba e cabelo postiços. Não retive seu nome. Compreendo, porém, que está fazendo seu trabalho, foi contratado para isso. A indignação dos fãs do Paul foi com o “sequestro” do nome e a contratação de alguém para desempenhar o “personagem”.
Eu li entrevistas dos representantes do espaço de comércio e me abismei com a sua cobiça (sim, ainda me abismo, mesmo estando no Brasil! Talvez até Paul ache isso incrível). Eu me abismei com a declaração dos advogados que representam os interesses comerciais desse espaço, de que são donos da “marca” Fashion Santa e cheguei até a visualizar o Papai Noel preso em contratos... Fiquei a pensar nos homens que deixam suas barbas crescerem aqui em meu país e que tiram um trocado nas épocas de Natal, abafados em roupas quentes, em shoppings em que o ar condicionado ou não refresca direito ou deixa nossos olhos irritados, por falta de manutenção. Tenho fotos deles na minha geladeira, abraçados à minha filha sorridente. Uma das coisas que mais me emociona em Paul é que ele redime o esforço desses homens, chamando a atenção para o fato de serem todos homens com história e beleza estampadas no rosto.
Eu me tornei fã de Paul Mason e li algumas das entrevistas que concedeu em diversos meios, com a sua versão dos fatos. Peço aos meus leitores que o façam também e tirem livremente as suas conclusões. Meu texto não é sobre batalhas judiciais, embora eu tivesse de referi-las, pois elas chocaram os fãs este ano e imagino que fizeram Paul sofrer. Mas ele é corajoso. Este mês já esteve nos Estados Unidos para participar de mais uma campanha social, desta vez para o Human Rescue Alliance[1] e foi recebido como se deve[2]! Estava de vermelho... Pois bem!
No Brasil, o governo propôs novas regras para a previdência social e eu gostaria de deixar claro que meu texto não é propaganda da proposta. Paul conhece o nosso país e duvido que ache que sua longevidade na carreira seja comparável ao contexto em que vivemos. Na indústria em que ele ganha a vida, a sua longevidade é ousadia decerto; no dia-a-dia do brasileiro que começou a trabalhar com 14 ou 16 anos (e nem preciso recuar tanto, ora!, pois todos seremos abatidos), o tempo de nossa contribuição será o Tempo grego, devorador dos filhos, sem a possibilidade de haver uma Reia[3] salvadora... Há imensas diferenças entre o Canadá de Paul e o nosso Brasil e estou convencida de que as diferenças institucionais, políticas e econômicas favorecem a longevidade da carreira dele e do seu prazer em dedicar-se a ela. Dedicação como uma possibilidade e um direito, não como constrangimento, como sequestro da vida. Eis a diferença.
Já tão próxima ao Natal, com árvore montada, luzinhas pela casa em ano péssimo..., mas com a exigência clara da filha, meu otimismo saltitante e obstinado, esse texto expressa a minha admiração pessoal por um homem que não teve vergonha de chorar a mãe; que se entregou ao luto; que enfrentou a dor; que não temeu o tempo; que é corajoso por tudo isso e ainda por cima é lindo de viver! Um homem que não é parâmetro também e que não deve ser “usado” para propagandear o trabalho até a morte.
Nunca apertei a mão desse Papai Noel canadense, mas um dia vou passar uma temporada no Canadá e dar-lhe um estalado beijo na bochecha! Até lá é possível que minha mecha branca acima do lado esquerdo da testa esteja mais vasta. Acho que Paul vai me achar bonita... É um segredo nosso o fato de termos um amor em comum.



Levei mais tempo para escolher uma foto de Paul Mason que para escrever esse texto... creioemdeuspai! Como falei muito do tempo estampado no seu rosto, optei por essa e não pelas clássicas com terninho vermelho ou quadriculado.



[3] A Terra, que conseguiu salvar alguns de seus filhos tidos com o Tempo, Cronos. Um dos quais seria justamente Júpiter.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Sobre a mesa redonda no MEC, em 13 de julho de 2016

Preâmbulo
No dia 12 de julho, saí de Curitiba em direção a Brasília. Cumprido o primeiro trecho da viagem (em São Paulo), enquanto esperava o próximo voo, recebi um telefonema do Gabinete do Ministro Mendonça Filho, avisando que a mesa redonda precisaria ser atrasada em meia hora (das 14:30 passaria às 15:00) e que mais 2 colegas seriam recebidos, ou seja, seríamos, AO TODO, 3 professores. Essa informação, recebida, portanto, na véspera, concretizou para mim a possibilidade (que eu imaginava remota) de me dirigir efetivamente ao Ministro, ou seja, ter mais que aqueles 30 segundos que achava quase exorbitantes... Eu tinha me preparado para não ter a chance de falar, levava um dossiê com 5 textos que escrevi e/ou colaborei, o primeiro deles o documento do NEMED (publicado em nossa página) que para mim continua a ser uma reflexão bem equilibrada, entre a crítica e a colaboração. Na abertura do conjunto, incluí uma carta de 4 páginas em que contextualizava a minha militância acadêmica pela BNCC. Diante da possibilidade de falar, comecei a esboçar mentalmente aspectos do tema no segundo trecho, de São Paulo até Brasília. Eu terminaria essa pauta já devidamente instalada, depois do banho e do jantar.


Relatório[1]
Cheguei ao Ministério da Educação às 14:30 e, logo depois, conheci meus colegas de mesa: Felipe Ferreira (Professor do CEFET/Rio de Janeiro – área de Letras) e Roberto Gomes (Professor da rede particular de São Paulo – área de Geografia). Conversamos um pouco sobre o que nos levara a Brasília e compartilhamos as pautas. Às 15:30 fomos chamados ao Gabinete do Ministro Mendonça Filho, que nos cumprimentou na entrada, perguntando nossos nomes e instituições de origem. No gabinete, estavam ainda presentes: a Sra. Nádia Ferreira, Assessoria Especial, e o Sr. Rossieli Soares da Silva, Secretário de Educação Básica. Foi-nos perguntado se autorizávamos a realização de fotos e nós 3 autorizamos. Depois, o Ministro perguntou se autorizávamos a realização de vídeo (em que a nossa conversa não seria veiculada) e nós também autorizamos. Nenhum de nós estava ali em segredo. Todo esse material está aqui no blog.
Meus colegas Felipe Ferreira e Roberto Gomes foram os primeiros a tomar a palavra, agradeceram o espaço, expressaram seus lugares de fala, apresentaram de forma rápida suas pautas, certamente confiantes em que, depois que cada um introduzisse um tema, a rodada seguinte permitiria um maior aprofundamento. Na minha vez, falei direto. As pessoas ansiosas temem não haver outra chance...
Agradeci também. Falei que muitas pautas levariam intelectuais de inclinações diferentes ao Ministério da Educação, que eu subscrevia uma série delas, mas que estava ali por uma única razão: a BNCC. Falei do meu dossiê. Pedi que ele fosse lido e ponderado; afirmei que sabia perfeitamente que tudo o que eu tinha escrito e reunido ali, havia sido escrito antes da nomeação do Sr. Mendonça Filho como Ministro e que, muito embora ele não tivesse tomado parte nem na elaboração da 1ª versão da Base; nem na sua publicação; não tivesse organizado a agenda da consulta pública e não fosse sequer ministro quando a 2ª versão foi publicada; ele herdara a tarefa de finalizá-la e que era por isso que eu estava ali, porque a 2ª versão contém problemas, equívocos. Disse a ele que milito pela colaboração à Base desde outubro de 2015 e que escrevi textos que tentam equilibrar crítica científica e propostas efetivas. Disse claramente que não me oferecia para o emprego, pois já tenho um e gosto dele.
 Lembrei ao Ministro que a consulta pública terminou no dia 15 de março e que a 2ª versão da BNCC foi publicada no início de maio, mas que o documento que pode ser lido no site do MEC tem como data abril (?!). Fiz um primeiro questionamento: como o Ministério teria lidado com mais de 10 milhões de colaborações; só na área de História, mais de 1 milhão, em pouco mais de 1 mês? Manifestei minha preocupação com essa pressa e pedi que déssemos mais tempo à elaboração dessa Base. Diagnostiquei a presença destacada dos secretários de educação e dos dirigentes municipais nessa versão, e a pálida participação das associações, dos núcleos de pesquisa, das universidades (na sua diversidade e abrangência nacional) e das grandes áreas... Referi que a ANPUH aparece, a meu ver (assumo a leitura) palidamente entre os agradecimentos, quando as ANPUHs regionais e a ANPUH nacional organizaram fóruns e produziram documentos muitos importantes e que parece (outra vez, assumo a leitura) que não foram consultados. Mencionei que entre os agradecimentos dirigidos a professores em específico, a área de História não é mencionada (pág. 19), embora o sejam seus professores. Quem lê o documento, pensa que eles são da área de Física... O MEC tem à sua disposição os maiores especialistas nas grandes áreas, servidores públicos inclusive, e por que os convocou tão pouco?
Sobre os equívocos e problemas, pedi licença para mencionar 2 exemplos. Mencionei que, no 3º ano (as crianças têm 8 anos), elas estudam as diferenças entre espaços públicos e o espaço doméstico, dentre outros assuntos. 2 anos depois, aos 10 anos, são confrontadas com o estudo da Ásia e a África: com a Mesopotâmia, a Pérsia, o Egito faraônico, os povos núbios e hebreus! São também confrontadas com cosmologias e teogonias e eu afirmei que temo que essas narrativas sejam identificadas a “contos de fadas” e não a narrativas de explicação, agregadoras e identitárias. Afirmei que não acho que as crianças estão prontas e isso não é falta de confiança nelas... Na pág. 298 da 2ª versão, a promessa era que o quadro ficasse mais abrangente a partir do 6º ano, ora como se viu não é bem assim, mas vamos lá: no 6º ano o professor de História deve ir da Grécia antiga, passando pelos romanos, aos muçulmanos, ao feudalismo, às universidades, à “primazia” da Igreja Católica (?) e um dia deve chegar aos otomanos. Mais de 2000 anos em 1 ano... No 6º ano, meninos e meninas têm 11 anos.
 Outro exemplo: no 2º ano do Ensino Médio, os adolescentes devem estudar o nacionalismo árabe, mas depois nunca mais veem os árabes... Onde está o estudo dos grandes movimentos populacionais que impactam a história contemporânea? Que impactam o Brasil? Na 2ª versão, os adolescentes estudam o Brasil no 3º ano do Ensino Médio; atenção: só o Brasil; de novo: exclusivamente. Nada saberão da formação dos integrismos... Não saberão, por exemplo, que o wahhabismo que alimenta grupos como a al-qaeda e o daesh vão buscar inspiração no pensamento de Hanbal (século XI) e Taymiyya (século XIV)..., portanto na Idade Média. O wahhabismo vai ler a seu modo as ideias desses pensadores do Islã medieval. É importante convidar os jovens a apreciarem a transformação das ideias e a entenderem exatamente como elas são formadas e forjadas. O Brasil não está fora do perímetro de recrutamento e integração voluntária ao daesh. Não vejo outra forma de proteger os jovens que com conhecimento fundado em perspectiva o mais ampla possível, em atenção a cada etapa de seu desenvolvimento individual.
Fiz questão de não basear meus exemplos em uma perspectiva “eurocêntrica”. Antes de devolver a palavra a meus colegas, afirmei que, como falava a um ministro oriundo do Recife, a compreensão do Projeto Armorial em sua magnitude radica no reconhecimento da importância do estudo da Península Ibérica medieval!
Em todo o tempo em que falei, não fui interrompida. O ministro não me fez perguntas, nem fez anotações, mas me ouviu com atenção. Percebi, porém, que o Secretário da Educação Básica fez apontamentos.
O colega Roberto Gomes manifestou sua preocupação com a formação dos professores, abordou questões relacionadas ao bacharelado e à licenciatura. Falou, sobretudo, da atuação dos colegas de ciências sociais, geografia e filosofia, em defesa da especificidade das áreas e não de improvisos que prejudicam a formação dos jovens, que têm aulas de geografia ou filosofia com profissionais que não são necessariamente formados na área.
O colega Felipe Ferreira retomou o incômodo que a recepção do ator Alexandre Frota no MEC causou no meio acadêmico, mas prosseguiu abordando a especificidade de sua pauta, ligada à educação profissional e a alguns questionamentos diretos. Fez duas perguntas importantes que cobraram do ministro respostas. Felipe perguntou claramente como o ministro se posiciona sobre o grupo escola sem partido e questionou se ele pretende dar continuidade a projetos já avaliados como exitosos para a formação dos professores. Felipe mencionou a sua experiência no exterior, essencial para a sua atuação hoje, como professor do CEFET-RJ, com financiamento do governo federal, em um convênio entre o governo brasileiro e o norte-americano.
O ministro começou a responder pelo caso Frota e disse que, tanto quanto a nossa presença é possível em seu gabinete, assim foi com a do ator; que tem procurado receber a quem o tem procurado e que tem buscado ouvir as pautas. Sobre a escola sem partido, disse que é ministro da educação, que não lhe cabe ser contra ou a favor de grupos específicos[2] e, no caso dos projetos de formação e qualificação de professores, ainda precisa avaliar alguns deles. Mencionou gastos e resultados acadêmico-científicos ainda não avaliados. Disse que não é um professor, mas um gestor; citou números incompreensíveis para mim. Não conheço essas fontes, mas gostaria de passar os olhos sobre elas.
O ministro afirmou que, mesmo em um pequeno núcleo familiar, é necessária gestão, especialmente a financeira, para que as outras coisas se equilibrem.  Felipe rebateu, sem confrontar, apontando que o aspecto empresarial não se encaixa bem com o ambiente escolar. Mencionou o exemplo da SEEDUC do Rio, vivenciado por ele, e tentou destacar que acreditava na importância da gestão, mas que ela deve se coadunar ao perfil do núcleo gerido, ou seja, gestão escolar com jeito de escola.
Nos 2 segundos de silêncio subsequentes ao posicionamento sobre a escola sem partido, peguei carona para dizer que, desde o ponto de partida há equívoco, na medida em que os autores dessa iniciativa parecem não conhecer bem as crianças e os jovens, pois não lhes dão crédito algum, acham-nas e acham-nos massa de manobra... e isso é só o começo. Já no que foi referido sobre o papel de gestor, eu pontuei também que no caso do Ministério da Educação, nós esperamos a liderança acadêmica e científica do ministro da pasta.
 O relógio revelou que já estávamos ali há 1 hora... e o ministro nos disse que havia reservado meia hora para nós. Ainda receberia outras pessoas. Entreguei o dossiê, guardei os objetos que espalhei na mesa ministerial. O Sr. Rossieli Soares da Silva pediu a palavra para comentar alguns temas e deu-me o maior alento da visita: que a BNCC não tem data fixa para ficar pronta; sua colaboração não pode se arrastar indefinidamente, mas o Ministério quer mais tempo para finalizá-la. Eu disse que achava correta a abordagem.

Epílogo

Na saída, a Sra. Nádia Ferreira pegou nossos contatos com a promessa de que estaríamos em diálogo no futuro. Agradecemos o esforço dela para organizar o encontro. Já no elevador, agradeci também a presença de meus colegas que, ali, naquele momento, foram os meus parceiros! Não vou negar que esse encontro teria sido mais brilhante para a discussão da BNCC especificamente com a presença de outros medievalistas, mas eu tenho respeito por suas escolhas. Declaro ainda que acolhi suas críticas respeitosas, as abertas e as sutis (incluindo a dos antiquistas). Devo apontar, entretanto, que recebi muito mais apoio de colegas, alunos e ex-alunos, em mensagens discretas in box, em e-mails pessoais e em muitos recados publicados no meu perfil do FB.
Na mesa redonda, fiz referência a um esboço de programa em que venho pensando nesses meses e que tenta levar em conta a construção do conceito de tempo e espaço (e seus congêneres...) pelas crianças e jovens. Minha experiência como autora me valeu um pouco. Eu adoraria que tivéssemos condições de completá-lo, de alterá-lo e melhorá-lo! Publico aqui – é esboço mesmo! – na esperança de animar alguém.

·        1º ano: a história pessoal da criança – uma temporalidade concreta, a partir de fontes como certidão de nascimento, carteirinhas de batizado, de vacina, álbuns de família (em que o tempo metabólico é uma realidade muito clara);
·        2º ano: a criança se inclui como personagem na história de sua gente, amplia-se o tempo: os pais, os avós... Cresce também o universo de fontes: mais cultura material;
·        3º ano: apropriação do espaço: da rua de casa e da rua da escola. Na rua da escola, há a padaria, há o açougue... Esses estabelecimentos têm a sua história e convivem com a escola; mais personagens, seus ofícios, sonhos e interesses são agregados à narrativa;
·        4º ano: primeira grande ampliação da temporalidade e da espacialidade. É hora de investigar a história de moradores do bairro, da cidade e dos municípios vizinhos. Vou dar um exemplo bem específico: as crianças de Curitiba podem visitar as colônias que circundam a cidade (colônia Mergulhão, Muricy... Se houver condições, devem ir até Witmarsum, atrás das histórias das pessoas que estão hoje lá[3]. Lembro ainda que próximo a Witmarsum, há um quilombo). No 4º ano, a Base pode convidar o professor a investir fortemente na valorização das diferenças regionais, fincar a criança na terra;
·        Depois da ampliação proposta no 4º ano, é hora de juntar as diferenças regionais do país, dedicando esses dois anos – o 5º e o 6º - ao estudo dos fundamentos da História do Brasil;
·        Só que o Brasil não é uma “bolha”. Impacta e é impactado por tradições culturais que devem ser estudadas. É hora também de estudar temporalidades em que sobressaem diferenças, na segunda grande ampliação da temporalidade e da espacialidade. Assim, no 7º, no 8º e no 9º anos, ou seja, com 12, 13 e 14 anos, os adolescentes estão mais prontos para o estudo que exige uma abstração maior: da História Antiga e Medieval, em uma perspectiva plural, que aborde Ásia, África, Europa... Vejo aqui a necessidade da nossa presença (dos medievalistas) e dos antiquistas, para definirmos com tempo e qualidade temas, objetivos e métodos de trabalho;
·        Nesse esboço, entrevejo um 1º ano do Ensino Médio dedicado ao estudo da Época Moderna e imagino muitos projetos interdisciplinares com Filosofia e Literatura, mas não vejo só aqui... No 2º e no 3º anos do Ensino Médio, vejo a necessidade de um estudo profundo da História Contemporânea e, em toda a etapa, o Brasil participa dinamicamente dos encontros e desencontros culturais, políticos e econômicos.

Sou uma admiradora da pedagogia de (Célestian) Freinet, já trabalhei com ateliês, portanto, acho que esse esboço pode se beneficiar muito da discussão com nossos colegas da Educação.
Voltei de Brasília no dia seguinte à mesa – 5ª feira, dia 14 de julho de 2016. Fui direto para a UFPR, onde me esperavam os companheiros do clube do livro, iniciativa que animo desde setembro do ano passado e que congrega alunos e ex-alunos da instituição. Nada a ver com História Medieval, lemos Proust! Logo depois, ministrei provas finais. Na 6ª feira, preenchi o formulário de prestação de contas e entreguei na UFPR. Terminei de ler a dissertação do Renato e já comecei a tese do Rodrigo... Enquanto lia, pensava que fui a Brasília para que eles tenham espaço, uma área e que possam transpor didaticamente as respostas que encontraram em suas pesquisas para crianças, jovens e adultos, e que essa transposição é importante! Ressalto que em ambos os casos, o Brasil investiu nos dois em forma de bolsas e que acho um contrassenso não permitir a eles a possibilidade de futuro profissional e de contraparte à sociedade, no exercício do magistério.
Não fui porta-voz de ninguém a não ser de mim e de meu núcleo de pesquisa, o NEMED, de quem recebi carta branca e a quem agradeço a confiança. Colegas de trabalho e melhores amigos dessa vida! Agradeço a meus colegas do Departamento de História que afinal autorizaram em plenária o meu deslocamento e à UFPR que me deu recursos para isso. Não representei os medievalistas brasileiros, embora seja uma medievalista brasileira. Gostaria, por fim, de reenquadrar a experiência na sua dimensão exata: fiquei 1 hora no gabinete do Ministro da Educação, com mais 2 colegas que conheci na saleta de espera. Falei, entreguei papeis, ouvi os colegas, o ministro e dei palpite quando falaram. Não mudei o contexto político do Brasil, nem um milímetro da história da educação no país, não me ofereci para trabalho algum, mas expressei meu interesse, minha crítica e minha atenção; achei que Brasília valia bem uma missa[4], mas não me converti (acho que me faço entender). Não me abstive de lá ir depois de eu mesma ter me convidado. Se continuo a acreditar nos motivos que me levaram à capital federal e que expus semana passada? Sim e fortemente.

Agradeço ao colega Felipe Ferreira, que leu essa memória e a corrigiu para a compreensão de nossa visita ao MEC.


Realmente estive no MEC:









Indicações:

·        2ª versão da BNCC:
·        Rápida explicação do Prof. Jacyntho Lins Brandão sobre o mito, que tem relação com o que disse acima. De forma tão simples e extraordinária (só os grandes mesmo...), o professor afirma: “o mito é o lugar comum de uma cultura (...) que permite a comunicação”:




[1] A totalidade desse relatório será enviada ao Ministro da Educação, como ata de nosso encontro.
[2] Muito embora o Ministro tenha se posicionado desta forma, acho FUNDAMENTAL os educadores, mães, pais e demais responsáveis pelas crianças e jovens se posicionarem contra esse retrocesso que tramita no senado e pode sim integrar as leis que regem a educação em nosso país. Vá até: http://www12.senado.leg.br/ecidadania/visualizacaomateria?id=125666 Até o dia 17 de julho, às 9:20, o número a favor era superior ao contra..., mas as cifras são ínfimas considerada a matéria e o interesse nacional.
[3] Lembro-me de ter folheado o álbum de família da querida Evelyn Hamm, cuja família veio do Turcomenistão!
[4] Henrique IV de França teria dito: “Paris vale bem uma missa!”, depois de ter se convertido ao catolicismo.