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segunda-feira, 24 de abril de 2023

O tempo existe

 

20 de abril de 2023, aula inaugural do Programa de Pós-Graduação em História (PPGHIS) no anfiteatro 100 do edifício Pedro I da Reitoria. Anfi cheio: alunos das quatro Linhas de Pesquisa, alunos da graduação atraídos pelo tema e pela divulgação que fizemos nas redes e professores do Programa. Quando o convidado chegou, o anfi já estava ocupado, a equipe de gravação apostos, texto de apresentação passado. Ele entra, sorri, recebe abraços, abraça. Ele é Sérgio Odilon Nadalin.

O anfiteatro 100 é uma de suas muitas salas de aula, em 6 décadas de ocupação como aluno e professor das salas dos dois Pedros do complexo da Reitoria. Sérgio tinha sido convidado para abrir ou fechar – o que ele quisesse! – o evento dos 50 anos do PPGHIS, mas sua saúde não lhe permitiu aceitar.  On line? Ele queria presença, todos queríamos depois de dois anos de distância. Dia 20 ele voltou ao seu ambiente. Entrou, sorriu, foi abraçado e abraçou.

O tema foi sugestão dele – “Memórias: o tempo e a história”, e ele começou com a sua conhecida provocação: “o tempo não existe”. Ele não queria fazer graça, embora tenha conquistado sorrisos e risadas com seu humor elegante. Sérgio falou de suas inquietações ao longo da carreira, de suas pesquisas, de como foi mudando o entendimento desse “O tempo não existe” para o tempo existe… Ele construiu uma aula articulando proposições: o pesquisador, seus interesses, experiências pessoais, profissionais, a UFPR, a Escola de Altos Estudos na França… Sérgio falou da dificuldade de explicar a conjuntura de Braudel a seus alunos, falou dos conceitos basilares de suas pesquisas, explicou geração, ciclo vital, desenhou no quadro… vaga-lumes, pirilampos, estrelas… Deteve-se em geração. Eu haveria de insistir por minha vez, quando o questionei ao final.

Quando ele começou a falar, pediu desculpas pela voz, um pouco rouca, de fato. Talvez menos habituada aos cursos presenciais. Não demorou muito tempo, porém, para as cordas vocais lembrarem de onde estavam: no corpo do Professor Sérgio, o corpo na universidade. Ele falou sem microfone ao longo de noventa minutos para um anfiteatro cheio e sua voz foi plenamente ouvida. Posso provar, estava na penúltima fila, ao lado dos meus alunos.

Coisas delicadas aconteceram na tarde de 20 de abril. Ana Paula Vosne Martins, coordenadora do PPGHIS, sintetizou o currículo de Sérgio na apresentação e deslumbrou os alunos com a leitura de uma trajetória acadêmica exitosa. Sérgio segue sendo pesquisador do CNPq, no nível mais alto, próximo aos 80 anos de idade. Mas Ana fora sua monitora quando cursava História na UFPR, brincou que talvez ele não se lembrasse disso. Ali, sentados lado a lado o tempo se embaralhou, mas não se confundiu: a menina de antes é hoje a historiadora que coordena os trabalhos no Programa em que Sérgio atua. Ora, é sua chefe! Ela não se fez de rogada, fez a última pergunta, provocou-o.

Sérgio foi honrado com debate. Sua colega Marion Brepohl queria ouvi-lo enfrentar Braudel. Ele enfrentou. Reconheceu a importância, declarou redirecionamentos... Deu uma das melhores razões que já ouvi para estudarmos teoria: como toca piano de ouvido há anos, um dia sentiu que lhe faltava técnica para fazer o que queria.

Achei que Sérgio estava comovido e aí não sei se foi a emoção ou o tempo... que me permitiu observar uma outra delicadeza.  Em alguns momentos, Sérgio parou para pensar e continuou as frases sem pressa. Havia preparado um texto, as folhas estavam lá; nitidamente lia e refletia sobre o que tinha escrito, ali diante de nós; lia e falava olhando para nós, explicava; imagino seu cérebro conversando em diferentes níveis: consigo mesmo, imaginando se o que tinha escrito estava claro, estava apropriado e tudo isso fez com que a plateia – vou chamar assim mesmo – compreendesse que a vida desafia o ritmo em sua ambição de intervalo regular de tempo. E aqui não falo como musicista, o que não serei em qualquer tempo, mas como alguém que reverencia os blocos (des)iguais do compasso. O tempo existe e não para.

 

21/04/2023


Sérgio e seus vagalumes, ou pirilampos, ou estrelas... acontecimentos.

 

 

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Um professor de História e Geografia foi degolado na última 6ª feira na França, essa tragédia merece muito mais que 1 minuto de silêncio

O Professor de História e Geografia, Samuel Paty, 47 anos, foi alvo de integristas muçulmanos por ter levado caricaturas à sala de aula, para um debate sobre a liberdade de expressão. O Professor Samuel Paty foi assassinado. As caricaturas em específico foram as caricaturas publicadas no jornal Charlie Hebdo e que já inflamaram outros assassinos. O Professor Paty foi ameaçado em redes sociais, foi ameaçado por famílias na escola em que trabalhava e foi vítima de um crime pensado por manipuladores, criminosos conhecidos na França, e realizado finalmente por um adolescente descartável por esses manipuladores e vazio de qualquer força moral interior. Alguém pode dizer condescendente: mais uma vítima dos manipuladores, Marcella... Eu vou responder: reconheço o velho debate entre os que depositam todas as fichas nos fatores contextuais/coletivos e aqueles que colocam todas as fichas na vontade (interior) do humano. Há muito tempo acho que esse é um dilema que esvazia o debate nas ciências humanas. Minha posição de forma muito sintética: a mão pode ser armada por uma arma comprada/ofertada por outro, as idéias que animam a empunhá-la podem ser uma mistura confusa de equívocos e necessidades que abrasam na hora do embate, mas quem atira, e no caso de Paty quem cortou a carne, foi a mão individual que, três segundos antes de realizar o crime, teve alternativa e mobilizou a sua vontade para o crime. Desculpem, creio demais na juventude para acreditá-la, por sua vez, formada por bonecos infláveis de posto. Não vou prosseguir nesse debate, pois tenho outras coisas a considerar.

As lideranças muçulmanas que pregam a paz e a fé na palavra que segundo a sua crença foi revelada por Deus ao Profeta Maomé vieram a público apontar os manipuladores contra quem essas lideranças já prestaram inúmeras queixas. Fizeram declarações fortes na imprensa. Estão na rua hoje inclusive, correndo o país e dizendo que o Islã não pode ser confundido com a malignidade dos manipuladores em falsas associações e nas redes sociais. Um deles afirmou: professores, vocês são profetas; perdão; Paty é um mártir. É fundamental que as lideranças de fato religiosas e os fieis se posicionem publicamente contra os integristas falsamente identificados com sua fé. É fundamental que se levantem (como Chalghoumi hoje). Sempre levantarei a minha voz simples, eu que estou longe de ser uma liderança, contra os católicos criminosos que cometeram crime contra a criança vítima de violência e que teve a interrupção da gestação autorizada pela lei do Estado brasileiro. Quero docemente que eles e elas encontrem assento no inferno que sonham para os outros. Espero sempre que evangélicos de fato crentes posicionem-se publicamente contra os integristas que tentam mudar a vocação do Estado brasileiro, um Estado laico.

O assassinato do Professor Samuel Paty é um crime que me atinge, que me toca e que me faz sofrer por tudo o que convergiu para a sua execução: as situações específicas da História do seu país; as situações que extrapolam a França e que constrangem os professores pelo mundo; o papel das famílias em vários Estados na sua relação com a escola; a relação do Estado laico com as igrejas e a convivência entre as identidades de reunião[1] em uma república democrática.

Por todo o lado, o magistério é uma profissão de risco. Sim, nos países ricos, a violência contra os professores não é caso isolado. Entre nós... foi até mesmo assumido como decisão institucional. Já são 5 anos do massacre do Centro Cívico, ordenado pelas forças políticas eleitas para servir ao Estado. É arriscado elevar-se contra os constrangimentos familiares, de identidades que acreditam que só elas têm o direito de existir; é arriscado oferecer às crianças e aos jovens os livros e a literatura a quem têm direito para a formação de seu repertório; é arriscado contrapor o negacionismo; é arriscado cobrar do Estado; é arriscado dizer às crianças e aos jovens – e fortalecer sua vida interior – que eles e elas têm escolha e que podem pensar por si mesmos; é arriscado formá-los e educá-los contra suas fantasias perigosas e seus próprios desejos imediatos... O Professor Samuel Paty levou fontes históricas à sala de aula para um debate sobre a liberdade de expressão, seu sacrifício revela tragicamente a escala em que um tema desse precisa ser enfrentado pelo mundo afora.

No fim de semana, cidadãos franceses “esqueceram” a Covid-19 e foram às ruas render homenagem ao Professor Paty. As autoridades políticas expressaram o seu horror contra a violência que o atingiu e estão agindo. Uma homenagem nacional lhe será prestada. Não posso falar da eficácia... A morte de um professor brasileiro mobilizaria o presidente do país da sala para o quarto ou para o banheiro. Semana passada foi dia dos professores. O governo eleito por quase 58 milhões de brasileiros despreza os professores. As evidências são inúmeras, inclusive na pasta da Educação. A violência contra nós e o sacrifício de nossa vida são linhas em jornais que as autoridades desprezam, bem como seus eleitores...   

Eu não escrevi #jesuischarlie no passado recente, mas sinto a morte de Paty como já senti a morte de colegas que eu perdi na minha carreira, como chorei... Os colegas que perdi, eu perdi para doenças e para acidentes, eu perdi o Professor Samuel Paty para o integrismo, para a ignorância, para o mal absoluto que manipulou certamente um jovem perigoso e ignorante. Uma família perdeu um pai, um marido. Mas a família do assassino exulta, afinal foi bem sucedida em criar um assassino, a despeito do esforço dos seus professores de transformá-lo em um cidadão... Uma das coisas mais tristes que já escrevi em minha vida.

Semana passada foi dia dos professores no Brasil. Para mim, Paty é um mártir brasileiro também. Não vou escrever #jesuispaty porque gostaria que sua identidade com homem, professor e pai fosse preservada para nos constituir inteira. Eu sou Marcella e a memória de Paty que eu não conheci é parte de mim.

Foto de Betrand GUAY/AFP




[1] Há muito tempo tenho falado dessa ideia que fui buscar na obra de Amin Maalouf.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Pensando alto sobre o tempo, a História e as crianças


Escrevi a 1a parte desse texto pensando em professores que tive o prazer de conhecer nas últimas semanas e na companhia de quem passei um pedacinho do meu sábado. Obrigada por me ouvirem!

Pensando alto sobre o tempo, a História e as crianças

As crianças trazem para a escola muitas noções de tempo. Isso significa que não somos nós – professores e professoras – que começamos a lhes ensinar o que é o tempo, esse fundamento da História. São os pais, os avôs e avós e as pessoas que cuidam dos meninos e meninas que ensinam o antes e o depois, o enquanto isso, o daqui a pouco, o só amanhã. Nas conversas da cozinha, na olhadela para o cercadinho, nas histórias que contamos à noite[1], antes da mamada, depois..., pela linguagem, as crianças enfrentam o tempo.
Enfrentam-no também na imagem, contemplando fotos, nos celulares, TVs, computadores e nos álbuns de família. Mas a imagem não fala por si, ela é completada por narrativas. Ora, outra vez a conversa, com seus antes e depois, suas simultaneidades, seu tempo longo, curto, imemorial! Portanto, antes de preencherem o calendário da escola, marcarem seus aniversários, tomarem posse da própria agenda, elas sabem muitas coisas sobre esse senhor tão bonito, invisível mais visível de nossas vidas. Falam o tempo, contam-no!


A mulher na foto é Pérola de Paula Sanfelice. A criança que cresce em seu ventre é a Pétala Sanfelice. A Foto é da fotógrafa Dani Starck. Agradeço a gentileza de poder iluminar minhas pobres palavras com essa imagem de plenitude.

Se sabem tantas coisas, o que podem aprender mais? Um universo de possibilidades! Aí começa o trabalho da escola. A escola deve se tornar o laboratório da experimentação. Ela é uma vida fora de casa, mas ainda muito protegida, mesmo quando ela mesma não é protegida pela comunidade ou pelo poder público... Daí, eu ter falado em laboratório e experimentação. Nós, professores e professoras, contemplamos a diversidade de noções sobre o tempo trazidas por nossas crianças e colaboramos para incrementar esse repertório.
A primeira coisa que devemos procurar fazer para colaborar com nossas crianças é desnaturalizar nossas próprias práticas. Se o tempo passa para nós de forma irrefletida, e esse se não é um julgamento, mas uma atenção, é mais fácil repetir, deixar-se cegar. Apresentar o calendário, pintar-lhe os dias, destacar aniversários, o próprio aniversário (do professor ou da professora, afinal parte do grupo!) e colar recados na agenda não podem ser tarefas irrefletidas. São práticas compartilhadas que merecem reflexões.
São ricas as reflexões que podemos fazer a partir de cada prática. Uma das minhas favoritas é a espera. É uma bela aprendizagem a espera! Bela e difícil:

Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!
(“Das Utopias”, Mário Quintana)

As crianças devem esperar pelo recreio, devem esperar para se despedirem de nós com seu até amanhã, devem esperar para vir para a escola outra vez, devem esperar seus responsáveis na porta da escola para irem para casa, devem esperar seu aniversário chegar! Esperar é ansiar pelo futuro! Uma das dimensões mais bonitas do enfrentamento com o tempo é o desejo.
Assim, na escola “herdamos” noções de tempo, incrementamos essas noções até virarem conceitos interdisciplinares e elaboramos a espera, forjadora de futuro. Como podemos compreender essa experiência multidirecional? Podemos sintetizá-la no que foi definido por Jörn Rüsen como aprendizagem histórica. De forma geral, trata-se da “consciência humana relativa ao tempo, experimentando o tempo para ser significativa, adquirindo e desenvolvendo a competência para atribuir significado ao tempo”[2]. A escola promove, assim, a aprendizagem histórica para a construção de sentido ou para a construção de uma experiência muito sofisticada: a consciência histórica. Por consciência histórica, ele entende a “atividade mental da memória histórica, que tem sua representação em uma interpretação da experiência do passado encaminhada de maneira a compreender as atuais condições de vida e a desenvolver perspectivas de futuro na vida prática conforme a experiência”[3]. Destaco memória, essa lembrança afetiva das coisas; interpretação, o pensamento particular sobre o experenciado, a compreensão, o entendimento racional da experiência e a perspectiva de futuro, um direito que pertence às crianças.
Quando eu afirmei que a construção é sofisticada, eu estava interessada em dois sentidos dessa palavra chique (ou afetada...): a sutileza e a originalidade! Para mim, há tempo na sutileza. Então, a consciência histórica é um trabalho no tempo, é um investimento delicado e paulatino, que envolve muitos agentes e muitos saberes. Da originalidade, gosto do que é único, pessoal. A construção da consciência histórica não é um conteúdo da aula de História, mas um investimento da escola. E, a propósito, também é toda a aula de História! É uma construção de cada ano, que acompanha o crescimento de meninos e meninas e sua a experiência de vida, única, e passível de ser compartilhada no dia-a-dia.
Compromisso da escola, rotina da aula de História. Rotina aqui nada tem a ver com coisa sem sabor. Não vejo paradoxo em desnaturalizar o que entendemos por rotina! Essa desnaturalização pode reabilitar os sentidos de caminho que se utiliza normalmente e de conjunto de instruções, o que nos leva ao método.
A consciência histórica vivenciada na rotina escolar e na disciplina histórica enraíza as crianças na sua própria história e as vincula a uma história maior, da qual ela (pode aprender que) é partícipe e autora. Daí a necessidade de trabalhar sem pressa com a ampliação das durações, com a distinção entre contos de fada e realidades de maior distância no tempo[4] e com a consciência de que ser partícipe e autor é ter responsabilidade.
A consciência histórica é uma tomada de consciência do meu estar no mundo e defender a sua relevância na vida dentro e fora da escola é para mim garantir que crianças, jovens e  adultos tenham direito a uma história maior que a sua, decerto, mas que lhe pertence como sua, porque está à sua volta e dentro do seu coração, desde o primeiro antes e o primeiro depois aprendido de um adulto cuidador e contador de histórias.

***

Ano passado, escrevi um ensaio sobre o tempo na Literatura infanto-juvenil. Compartilho com vocês agora:

Sobre o TEMPO na Literatura Infanto-juvenil

Escrevi sobre o tempo para adultos e para crianças. Para os adultos, no Diálogo sobre o tempo: entre a Filosofia e a História com o filósofo Jelson Oliveira (dentro da coleção “Café com Ideias” da Editora PUCPRess, publicado em 2015); para as crianças na coleção TEMPO: Identidade, Alteridade e Memória, os Livros das coisas para guardar (Ed. Positivo, 2013). No Diálogo, nós escrevemos que “o tempo é nossa dor principal. A saudade ou o lamento do que foi, o transitório do que é, o perigoso do que será” (pág. 21). O tempo está nas flexões de nossos verbos; em expressões denotadoras de intervalos; na relatividade; foi tripartido pelo historiador Fernand Braudel[5]... O fato é que “as concepções de tempo são temporais não apenas na medida de nossos afetos, mas também das possibilidades científicas dos contextos” (pág. 49); “se o tempo existe, as sociedades construíram maneiras diversas de lidarem com a duração” (pág. 53) e com a surpresa das transformações que se operam em nós. A Literatura é certamente uma das formas mais singulares de compreender o tempo à nossa volta e em nós mesmos.

Escolhi dois níveis de discussão do tempo nas narrativas que têm como alvo as crianças: um tempo “perdido”, quase imóvel na sua distância, pelo menos na perspectiva dos meninos e meninas muito pequenos, mas que seus professores e pais podem reconhecer vinculado a tradições antigas, no Brasil: tradições ibéricas medievais, indígenas e africanas, sobretudo; e um tempo que passa dentro da diegese: na sucessão das ações, no envelhecimento dos personagens ou na evidência de sua diferença etária (em relação aos outros personagens e em relação à própria criança leitora). Singularizo esses tempos na obra do autor brasileiro Ricardo Azevedo, também publicado em Portugal. Um dos aspectos da problemática do tempo me levará rapidamente ao meu livro Menina com brinco de folha (Vitória (ES): EDUFES, 2016). Por fim, gostaria de propor uma síntese provisória das pistas que essas obras que têm como público alvo as crianças nos oferecem para a discussão do tempo como tema central da Filosofia e da História.

TEMPOS CONJUGADOS NA OBRA DE RICARDO AZEVEDO

O primeiro nível de discussão – daquele “tempo perdido” – pode nascer da leitura de muitas obras de Ricardo Azevedo, que é também um pesquisador das tradições culturais brasileiras. Dentre essas muitas obras, destaco: A vida e a outra vida de Roberto do Diabo, cujo subtítulo é “versão de um conto popular” (Ed. Scipione, CIDADE, 1988), que por sua vez pertence a uma coleção intitulada “Histórias de encantamento”; o Bazar do folclore: tradição popular (São Paulo: Ática, 2001); os Contos de enganar a morte (São Paulo: Ática, 2003) e os Contos de Bichos do Mato (São Paulo: Ática, 2005). Na conversa com o leitor, que encerra A vida e a outra vida de Roberto do Diabo, Fanny Abramovich escreveu sobre a coleção: “Histórias de encantamento, causos, contos que o povo conta e reconta de jeitos diferentes, atravessando todas as geografias e séculos, mostrando a sua sabedoria, o seu conhecimento enraizado e folhudo (...). Histórias que vêm da tradição oral brasileira, ou europeia, e que foram sendo traduzidas pelo imaginário popular” (“Conversando com o leitor”, pág. 44).

  O Bazar do folclore integrou o projeto Biblioteca da Escola do Ministério da Educação, ou seja, beneficiou as escolas e as crianças com a distribuição gratuita de livros. Na seção final, “Conhecendo melhor o assunto e o autor deste livro”, a editora refere a pesquisa sobre o folclore que Ricardo Azevedo veio a fazer de maneira sistemática a partir de 1986 (A vida e a outra vida de Roberto do Diabo é de 1988). Trata-se de um livro em que coisas diferentes convivem, desde quadrinhas, contos, frases feitas, ditados populares, adivinhas, imagens e até receitas culinárias (como a receita de pão de queijo, de quindim, de bolinho de chuva e de cocadinha). 

Ao final dos Contos de Bichos do Mato, em “Algumas palavras do autor”, Ricardo Azevedo afirma que as narrativas “falam sobre a luta pela sobrevivência (e sobre o amor à vida) e foram criadas e recriadas principalmente por gente do povo, gente humilde vivendo em condições precárias” (pág. 103); sua luta abrigaria a semente do autor chamou de “moral popular” ou “moral ingênua”, que não raro desvela situações de injustiça social. O autor apela ao leitor para que conceba as histórias de Contos de Bichos do Mato “num contexto histórico e social específicos”, antes de taxá-las de “politicamente incorretas” (pág. 104).

Gostaria de referir três contos deste livro, trazidos aqui dentro do enquadramento do tempo “sem tempo” dos contos de fadas, e singularizar o tempo como elemento das narrativas. Em “O macaco e o grão de milho”, há a técnica de acumulação de elementos muito comum na literatura infantil, bem como nas cantigas de roda: o macaco protagonista pede ao pedaço de pau que lhe dê o grãozinho de milho; mas o pedaço de pau não quer dar; então o bicho pede ao machado para cortar o pau; que não quer atender também; o macaco pede ao fogo e por aí vai até chegar ao rato. Este foi o único que aceitou fazer o favor para o macaco. Outro detalhe, é pela vaidade de não ter as suas lindas saias rasgadas e roídas que a mulher do açougueiro despoleta a cadeia que dará o grão de milho ao macaco. Na obra, há muito de fábula em que bichos e humanos se misturam, conversando e interferindo na vida uns dos outros.

Então singularizar a perspectiva do tempo sem tempo, imemorial, na percepção das crianças, nessas obras não significa que na diegese a problemática do tempo não apareça de forma relevante. Assim, em “Forró no céu” (ainda em Contos de Bichos do mato), o sapo protagonista se anima para a festa, mas não tem asas que pudessem conduzi-lo até o céu. Sua tristeza é aguçada pela sucessão de aves que ele encontra, todas que seguiam em direção à festa, mas também pela passagem do tempo...: “passou um tempo, veio a garça”(pág. 15); “passou um tempo, veio a andorinha” (pág. 15). Graças a um estratagema, o sapo consegue ir à festa e a duração é representada na coleção de ações festivas e pelo polissíndeto: “E o sapo caiu no forró e dançou e brincou e sapateou e pererecou e rebolou e cantou e bebeu e comeu e cansou e sentou e deitou e dormiu” (pág. 16). Deu até para sentir saudades de casa... São personagens da trama São Pedro e Nossa Senhora, da tradição católica.

Tão interessante quanto o conto “Forró no céu”, é “O filho da filha do bicho-preguiça”, cuja graça é toda promovida exatamente pela expectativa da demora do personagem e pela surpresa ao final (que supera a nossa expectativa!), tendo o tempo em sua essência: o pai bicho-preguiça saiu para buscar uma parteira (bicho-preguiça também) para a sua filha, em trabalho de parto. Quando conseguiu voltar com a ajuda, escutou uma barulheira na casa: “Eram os filhos do filho da filha do bicho-preguiça brincando devagarinho no terreiro.”(pág. 19).  

Em relação ao segundo nível de problematização do tempo, gostaria de referir duas obras: Chega de saudade de 1984 (São Paulo: Ed. Moderna, 1984) e Uma velhinha de óculos, chinelos e vestido azul de bolinhas brancas de 1998 (São Paulo: Companhia das Letrinhas, 1998). Na primeira, singularizo o capítulo “Conversa na cama”, todo realizado a partir do discurso direto. Os personagens, irmãos, conversam sobre a avó, sobre mudanças na vida dela: “antes ela era tão legal, fazia biscoito, contava estórias...” (pág. 13), mas parece que tudo mudou depois que o avô morreu. Há considerações interessantes no bate-papo das crianças: “Deve ser chato ser velho... tá louco! Ficar sem fazer nada!” (pág. 14), ao que o outro personagem retruca: “Mas a vovó dá aula na escola” (pág. 14). A sombra da decrepitude sempre volta à baila, como quando o personagem que lamentou o envelhecimento lança a hipótese: “será que gente velha dá aula pior?” (pág. 14). Os cuidados com a avó aparecem também na alusão à recomendação do pai dos personagens: “não deixar vovó subir escada sozinha de jeito nenhum” (pág. 14)... Ligada ao envelhecimento, a morte não é abordada apenas como possibilidade da mudança da avó, mas como possibilidade de adentrar o céu e o inferno. O avô morto dos personagens teria afirmado que o português que morou na casa foi “direitinho pro inferno” (pág. 14). No final do capítulo, os personagens não conseguem ter certeza sobre se a morte do avô fora a razão da mudança da avó, pois um outro namorado é aludido... (pág. 15).

No capítulo seguinte, “Lembranças, lembranças”, lemos a perspectiva da avó. Em um trecho, ela afirma:

“Quando a gente está triste, fica tudo ruim. Parece um beco sem saída. É só parar e lembrar... Vejo que fui feliz assim, assim, assim; fiquei triste por causa disso, disso e disso; resolvi um problema de um jeito; outro, de outro. Agora, o que eu não posso é ver as pessoas me tratarem desse jeito. Só por causa da idade. Sei de velhos que estão mal. Sem memória. Com problemas de saúde. É gente que não se cuidou, foi infeliz, por azar pegou uma doença grave; ou foi miserável, não teve nada, passou fome. Aí é difícil. Quando envelhece, sofre mesmo. Mas eu? Justo eu que me sinto tão bem! Fiz tanta coisa. Lutei para ser feliz. Tive sorte de ter tido casa, comida, carinho. Sentir nos olhos das pessoas aquele ar de pena! Qualquer coisinha, a gente vai passar mal; qualquer ventinho, vai pegar pneumonia. Outro dia, no banho, escorreguei e caí sentada. Não contei a ninguém, senão ia ser um deus-nos-acuda de médico, radiografia... Doeu uns dias e passou. Claro!”(pág. 17). 

Essa obra lança mão de outros gêneros textuais, como cartas trocadas entre os personagens e aborda a redescoberta do amor na maturidade. As cartas trocadas entre filho e mãe – avó das crianças de “Conversa na cama” – revelam expectativas muito diversas. Em uma carta do filho: “Mamãe, será que você não percebe que é loucura? Não tem cabimento. E se você passar mal? E se cair e quebrar a bacia? Como vai ser? Quem vai socorrer? O Araújo?”. Em uma das cartas da avó para a família: “Meus queridos, este mês completa um ano que estamos longe de casa. Não podem imaginar quanta coisa interessante temos visto e vivido esse tempo todo! (...) Estamos tirando fotografias, fazendo gravações e anotações. Vocês vão ver na volta. (...) Casei com o Araújo no mês passado, numa cidadezinha esquecida do mundo...”. A carta dos netos é extraordinária e depois da saudade, das notícias de nascimento de filhotes e pedido de presente, eles perguntam: “vovó, você está grávida? O caramujo virou nosso avô?” (pág. 58).

Em Uma velhinha de óculos, chinelos e vestido azul de bolinhas brancas (São Paulo: Companhia das Letrinhas, 1998), são reunidas seis perspectivas sobre uma vizinha, a velhinha do título: escritora de histórias para crianças; bruxa; dona de casa, “casada há quarenta e oito anos”, com cinco filhos (pág. 13); professora de ginástica, que beirando os oitenta anos, com o histórico de uma única doença na vida (caxumba aos 8 anos), corre trinta e cinco voltas no quarteirão, e no fim do dia dá uma andadinha de quinze quilômetros com o marido; velhinha viúva, sozinha, com um filho que mora longe e nunca a visita, e atriz de teatro que, “por causa da idade, prefere representar avós, donas de bar, viúvas, professoras aposentadas, rainhas mães de reis, governantas, madres superioras e tias que vieram de longe e nunca se casaram” (pág. 26). Perspectivas sobre alguém, descoladas de qualquer decisão ou precisão em sua biografia. Esse livro é extraordinário também por isso, por mostrar de forma lúdica que muitas vezes antes dos fatos, há o foco. Para a História, essa ressalva é sumamente importante. Além da questão da evidente diferença etária em relação aos amigos que trocam possibilidades sobre a velhinha, a obra lida com expectativas sobre envelhecimento e o tempo biológico.

Essas últimas obras também dão espaço para a discussão do tema da morte, um tema que está presente na Literatura Infanto-Juvenil contemporânea, na escrita de autores que reconhecem a importância da mobilização dos afetos na sua diferença e intensidade. Em Contos de enganar a morte, a indesejada aparece personificada, reclamando uma tradição artística medieval de convivência e debate. Quando os personagens tentam negociar com a morte, sua diligência acorda em mim a memória do velho romance da morte e do namorado, de tradição ibérica, lindamente cantado por Adolfo Osta em nosso contexto. Já em A Casa do meu avô, há uma avó morta que é presença fantasmagória em um piano que toca sozinho! Aliás, nesse lindo livro, em versos livres, a decrepitude não está ligada à velhice. Não é o avô que degenera, mas o tio do protagonista. Ricardo Azevedo não teme os temas complexos, como a morte e a loucura. Lida com eles de forma lúdica, no caso dos Contos de enganar a morte, e poética, no caso da Casa do meu avô.

Nisso o autor não está isolado na Literatura Brasileira, basta lembrar, em uma vertente, das Sete Histórias para sacudir o esqueleto de Angela Lago (São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2002) e, na outra, de Meu amigo pintor de Lygia Bojunga (20ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003). No caso de Angela Lago, ressalto que, assim como Ricardo, a autora também é responsável pelas ilustrações e projeto gráfico da obra. A forma poética e acessível às crianças, no que há de mais simples, do que não se confunde com o barato, mas se identifica com o único, integral, no trato literário com o tema da morte, também se acha presente na literatura portuguesa, em um de meus preferidos As mais belas coisas do mundo, de Valter Hugo Mãe. Nessa obra, não se escamoteia o sofrimento que a morte pode causar, o sentimento é trazido à cena como experiência necessária.

No meu livro Menina com brinco de folha, acompanhamos as transformações de duas crianças ao longo do seu primeiro ano escolar. Mas no meio da narrativa, o avô do protagonista morre. Esse acontecimento motiva decisões importantes por parte do menino, que dá de presente/oferenda ao avô morto a sua coleção de folhas e, por parte da família, a decisão dos pais de que a avó, mãe da mãe do protagonista, passasse a morar com o núcleo principal. Pelo viés do protagonista, o menino, vemos obras na casa para abrigar a avó e o vemos tornar-se um leitor para uma avó que adormece, quando ele lhe conta uma história pela primeira vez. Vemos também essa avó a precisar de remédios... A narrativa promove, assim, encontro, pois a vida é também convivência entre temporalidades diferentes.

Antes de minha proposta de síntese dos tempos nessas obras, queria destacar a importância de elementos para-textuais nas narrativas que trouxe aqui de Ricardo Azevedo, como entrevistas, conversas com o leitor, explicações..., que completam a leitura das obras. Não quero dizer com isso que o estudo desses segmentos é essencial para a compreensão do que foi escrito antes, do texto literário propriamente dito, mas esses elementos são uma espécie de making off, como o texto final de Uma velhinha de óculos, chinelos e vestido azul de bolinhas brancas, em que o autor refere a sua inspiração e a reformulação pela qual a obra passou.

CONCLUSÕES PARCIAIS

Singularizar o exame do tempo nas narrativas consagradas às crianças, tanto como lugar de memória, de pesquisa, folclore, tradição medieval ibérica, indígena e africana, quanto como elemento da diegese e que afeta a diegese, quer sejam seus personagens quer sejam os acontecimentos, renova a reflexão sobre o tema em um contexto em que o tempo parece que passa depressa, ou mesmo escapa pelos nossos dedos. O “era uma vez” é só um dos gatilhos para o encontro com o tempo das tradições culturais recontadas a cada geração. Na narrativa de Ricardo Azevedo, esse gatilho pode ser apenas: “Era um fazendeiro muito rico”; “Era um jovem rico e viajante”; “Era um reino longe daqui”, muito embora o “era uma vez” também se escreva (exemplos da obra No meio da noite escura tem um pé de maravilha).

As narrativas voltadas às crianças também expressam expectativas sociais em relação às transformações biológicas que a passagem do tempo evidencia em nosso corpo. Nos textos, a convivência faz aflorar o amor, o cuidado, as divergências, o equívoco..., presentes na sociedade que vive mais, adoece mais, tem dificuldade com o cuidar, o compreender e que depende também da colaboração dos mais velhos, quer seja financeira, quer seja do tempo e cuidado com os netos, ambas situações muito frequentes no Brasil. Uma sociedade que empurrou a morte para os hospitais, local em que se morre sozinho, perfurado e monitorado pelos aparelhos. Os textos tecem os fios de uma experiência complexa: de vida e linguagem, para a recriação de outra experiência – a literária, que se completa na leitura, como retorno à vida, à criança e ao adulto.

O tempo imóvel dos contos de fadas, radicado, por exemplo, na tradição cultural ibérica da “Moura Torta” (recontada por Ana Maria Machado, nas suas Histórias à brasileira), é ressignificado no processo de ampliação do repertório da criança, quando ela reconhece fazer parte de uma História muito maior que ela. Ao fazer contato com esses textos que evocam tempos e tradições que nos constituem, as crianças experimentam a fruição, mas ao longo da sua vida, elas deveriam vivenciar – e nós professores precisamos lutar para garantir que a experiência se complete para a formação de cidadãos conscientes da sua História – um prazer que é o de reconhecer[6]. A História é agente desse reconhecimento e colabora com a Literatura para isso. A Literatura não precisa da História para a fruição, mas pode se beneficiar da sua colaboração que reinsere a criança em uma “linhagem”, de homens e mulheres conhecidos e desconhecidos por ela, que a antecederam e que tomaram decisões que repercutem no seu presente.

Quando Ricardo Azevedo abre o bazar do folclore para as crianças, põe diante de seus olhos um outro tempo, “expõe um mundo de que o leitor se apropria. Esse mundo é um mundo cultural”[7]. A colaboração entre a História e a Literatura promove, assim, a consciência de algo que irmana, ao invés de dividir, o reconhecimento da multiplicidade de quem somos afinal. Ora, se Aristóteles afirmou que a poesia é mais filosófica e universal, enquanto a Historia ficaria reduzida ao particular, é da comunicação entre as duas, na cultura compartilhada, que os indivíduos podem se reconhecer como sujeitos, não como filhos que são devorados pelo tempo, mas como sujeitos que convidam o tempo a habitá-los, em seus corpos, na sua mente, para nosso prazer e experiência de vida.




[1] Após esse breve “pensando alto...”, compartilho um texto que escrevi ano passado sobre o tempo na literatura infanto-juvenil.
[2] RÜSEN, Jörn. Jörn Rüsen e o ensino de História. Organizadores: Maria Auxiliadora Schmidt, Isabel Barca, Estevão de Rezende Martins. Curitiba: Ed. UFPR, 2010. p. 79.
[3] Idem, p. 112.
[4] Já escrevi que acho danoso apresentar temporalidades longas para crianças pequenas. Confira em: http://literistorias.blogspot.com/2016/07/sobre-mesa-redonda-no-mec-em-13-de.html
[5] Em três tempos: o da estrutura, o da conjuntura e do acontecimento.
[6] Tomo a relação de Paul Ricoeur, na sua discussão da Poética de Aristóteles: “O prazer de aprender é portanto o de reconhecer. É o que o espectador faz quando reconhece em Édipo o universal que a intriga gera exclusivamente por sua composição. O prazer do reconhecimento é portanto, ao mesmo tempo, constituído na obra e experimentado pelo espectador” (RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa. 1 A Intriga e a narrativa histórica. São Paulo: Martins Fontes, 2010. p. 88).
[7] Idem, p. 91.


segunda-feira, 30 de abril de 2018

Três DESAFIOS propostos ao PROFESSOR: Conferência proferida no Instituto Internacional da Língua Portuguesa da Cidade da Praia em Cabo Verde (África), dia 26 de abril de 2018.

Obs.: As imagens indicadas no texto foram mostradas em PowerPoints, mas não serão trazidas para cá.

Três DESAFIOS propostos ao PROFESSOR

Em 2015, depois que a jovem Malala Yousafzai conclamou os países membros da ONU na própria sede da organização a firmarem uma promessa de que cada criança tenha direito à educação livre e de qualidade, fotógrafos da agência internacional de notícias Reuters reuniram imagens de salas de aula de várias partes do mundo em uma galeria. Esse conjunto de imagens difundiu-se de forma exitosa nas redes sociais e ratificou o que já sabemos há décadas: que há uma enorme disparidade de condições oferecidas pelos países e pelas instituições de ensino para que crianças pelo mundo afora realizem seus estudos.

Escolhi algumas imagens da galeria, quase sem critério. (Imagens). O que há nesse conjunto de fotos escolhidas por mim da galeria[1]?

·        Mobiliário (mas nem sempre...)

·        Materiais

·        Salas pequenas e lotadas; amplas e lotadas; amplas e esvaziadas

·        Paredes (mas nem sempre...)

·        Murais com trabalhos, recados

·        Atitudes/proximidade

·        Meninos e meninas, um professor, professoras

(Planisfério)

O que há em todas essas imagens? Meninas, meninos, um professor e professoras.

(Imagens da Antiguidade e da Idade Média)

O que há nessas imagens? Alunos e professores.

O tempo mudou a forma do livro, do rolo para o códice; do códice para o ipad..., mas alunos e professores estão em todas as fontes que trouxe aqui.

Entretanto, em 2016, o jornal da USP publicou uma matéria intitulada: “Robô professor ensina geometria a adolescentes”[2]. Segundo a matéria:

Entrar em uma sala de aula e ser recebido por um robô humanoide que ensina geometria. Como será que adolescentes reagem a esse novo professor e a suas diferentes formas de ensinar? Esse é o foco de diversas pesquisas que estão sendo realizadas no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos.
Entre os trabalhos relacionados ao tema está um projeto de mestrado que utilizou o Robô NAO para ensinar geometria a 62 adolescentes entre 13 e 14 anos de escolas públicas e particulares de São Carlos. Por meio de um sistema de visão computacional, o robô foi programado para reconhecer figuras geométricas planas.
(...)
No final das atividades, [o pesquisador Adam Moreira] aplicou um questionário sobre figuras geométricas aos jovens e os estudantes que participaram das aulas com o NAO tiveram um desempenho melhor (84.61% de acertos) em relação aos que não tiveram contato com o robô (60% de acertos). “Os pesquisadores da área da educação estão buscando novas ferramentas de ensino com a inserção de tecnologia em sala de aula. Hoje em dia, nota-se que a simples exposição de conteúdo na lousa não atrai toda a atenção dos alunos e a robótica pode tornar a aula mais atrativa”, afirma Roseli Romero, professora do ICMC e orientadora do trabalho. (...) Ela ressalta, ainda, que a inclusão do robô em sala de aula não visa a substituir o professor, e sim propor novas alternativas de trabalho.

 

Existem muitas outras matérias e artigos que já vaticinam a ausência do professor em sala de aula. Ora, ausência física do professor em muitas salas de aula já é realidade em cursos de educação à distância! Mesmo bancas de defesa de mestrado e doutorado já são feitas sem a presença física do avaliador, que está distante, em sua casa muitas vezes, e realiza a arguição por vídeo conferência, Skype, FB ou outros meios similares. No caso da matéria do jornal da USP, a frase: “[Roseli Romero] ressalta que a inclusão do robô em sala de aula não visa a substituir o professor, e sim propor novas alternativas de trabalho” é uma das últimas e no caput se lê: Robô professor ensina geometria a adolescentes”. Por um lado, parece que a ausência física do professor em sala não inviabiliza a aula ou os exames; no segundo caso, há uma confusão entre recurso pedagógico e o desaparecimento de uma carreira. Um professor que, distante 800 km, 1500 km... de uma turma, leciona e responde a questões com auxílio da tecnologia pode garantir a um bom número de alunos uma formação de qualidade, sem que esses alunos ou municípios/estados tenham de despender recursos em passagens e hospedagem. No caso do robe NAO, ele foi desenvolvido por uma equipe formada por alunos e professores humanos, para garantir a crianças humanas outras maneiras de aprender. O professor de matemática de uma sala em que NAO está presente deve, por sua vez, aprender a explorar o máximo de possibilidades que esse recurso pode oferecer aos seus alunos.

No mundo em que se questiona, propõe-se ou se antevê mudanças radicais na carreira de professor, eu também gostaria de apresentar algumas respostas, decerto provisórias, como todas as respostas, mas necessárias, segundo minha perspectiva. Para mim, são três os desafios propostos a nós professores pelo contexto em que vivemos: 1) educação para a pesquisa; 2) educação para a salvaguarda do planeta e 3) educação para a paz.

 

1)      Educação para a pesquisa

(Página de livro[3])

Há duas demandas nessas páginas: origem e função dos objetos. Ao final, pede-se que a criança registre sua fonte de pesquisa. Compreender esses objetos como recursos técnicos desenvolvidos por civilizações antigas e melhorados por outras, compreender sua aplicação para ajudar homens e mulheres a resolver problemas, a lidar com limitações em suas vidas são aprendizagens preciosas, colaboram para a consciência história, no sentido apontado por Jörn Rüsen, ou seja: “como a atividade mental da memória histórica, que tem sua representação em uma interpretação da experiência do passado encaminhada de maneira a compreender as atuais condições de vida e a desenvolver perspectivas de futuro na vida prática conforme a experiência”[4]. Ao final, é importante que a criança registre na página onde encontrou as informações solicitadas.

Sobre esse registro final, as primeiras perguntas que a criança pode fazer são por que e para quê. Se ela encontrou as respostas, para que deve revelar quem lhes segredou? O professor vai responder que registrar onde encontramos o que fomos buscar é prova de honestidade intelectual, ou seja, não devemos simplesmente nos apropriar do que foi pensado pelo outro antes de nós, respondido, escrito, sem identificar a fonte. Portanto, preencher o espaço do livro com a referência da pesquisa obedece a um princípio ético, que também é tema de ensino. Compreender a responsabilidade desse gesto reverbera em outras áreas da vida.

Registrar as respostas e as fontes não são, porém, a totalidade do que chamo de educação para pesquisa. Entre essas operações, há o essencial: pesquisar efetivamente. Como o livro didático não refere procedimentos, não indica modos de fazer..., é preciso voltar-se a quem consolida e extrapola a relação da obra com os estudantes, ou seja, o professor. Como ele, começa a educação para a pesquisa.

A educação para a pesquisa precisa levar em conta três aspectos: o conhecimento do pesquisador em formação (no caso, as crianças, os adolescentes, os jovens e os adultos), os recursos à disposição dos pesquisadores e o conhecimento das fontes, pois não basta dizer aos alunos: pesquisem quem inventou o astrolábio e para que ele serve. O verbo pesquisar não está investido de uma magia que garante a quem o conjuga a ciência de como fazer... A ação de pesquisar contém procedimentos.

Antes, uma breve e necessária digressão. No mundo do fácil acesso a inúmeras e diversas fontes de pesquisa impressas ou digitais, faz sentido preocupar-se com a elaboração de tutoriais ou com a explicação de procedimentos? A digitação de um tema no google não abre imediatamente possibilidades que muito ultrapassam as nossas mais presunçosas capacidades de leitura?! Abre possibilidades decerto, mas a infinidade não tem gerado amplitude, tem mesmo encurtado nosso campo de visão, pela comodidade. Uma criança que é convidada a fazer uma “pesquisa” sobre o astrolábio e que digita a palavra no google, vai encontrar aproximadamente 339.000 resultados. Ela precisa de um mapa.

Voltando aos aspectos, pesquisar começa muito cedo, antes da escola. Mas na escola a ação é elaborada e deve sê-lo em etapas, foi o que chamei de “conhecer o pesquisador em formação”. Uma criança muito pequena que ainda não foi alfabetizada ou que não o foi completamente pode pesquisar, ela deve começar! Como professor pode guiá-la? Reunindo questões sobre um tema e conversando com meninos e meninas sobre fontes possíveis. Se ela não domina a escrita, pode se voltar ao testemunho: pode inquirir seus pais e avós; pode recorrer a imagens e à cultura material. Se houver recursos, essa inquirição pode ser gravada e compartilhada em sala de aula; se não houver, a descoberta mais significativa pode ser registrada na forma de um desenho ou de uma série de desenhos.

Se as crianças são maiores, se dominam a escrita, é preciso construir um tutorial. Quando dominei a escrita, voltei-me às bibliotecas para realizar as minhas pesquisas. Com a internet, não esqueci a frequentação às bibliotecas físicas, eu ampliei as minhas possibilidades. As crianças de hoje muitas vezes começam pela internet e ignoram que os livros de casa (se há livros em casa...); os livros que estão na biblioteca da escola, do bairro ou do município são também fontes de pesquisa. Em minhas conversas com crianças, descobri que quando elas não ignoram o fato de que os livros são fontes de pesquisa, muitas delas imaginam que eles trazem informações ultrapassadas e que por isso o que está na internet é melhor, pela novidade. É preciso educá-las para uma apreciação mais plural do que pode ser encontrado na biblioteca. Essa educação começa com a visita à biblioteca (!); com o passeio pelos seus corredores; com uma conversa sobre as formas de catalogação das obras; com a exploração dos formatos de livros disponíveis; com esquecer-se nesses espaços; com o convite a um escritor; com aprender a buscar o que se deseja; com perder-se e se surpreender. Se hoje as bibliotecas estão muito diferentes e têm a ambição de se tonarem espaços de convivência e cultura; em certos lugares, elas são ainda o único refúgio de um patrimônio cultural e científico dos quais homens e mulheres têm direito em uma comunidade.

Bibliotecas sempre foram um lugar de atividade pública. Em Alexandria, supomos que estudiosos iam e vinham, reuniam-se para discutir os mais variados assuntos, certamente havia recitais e conferências, quem sabe até um lugar para consultas práticas do dia a dia. Em Viagem ao centro da Terra, de Júlio Verne, quando os exploradores observam que há poucos livros nas estantes de uma biblioteca pública de Reykjavik, o bibliotecário diz:

“Ah, senhor Lidenbrock! Estes livros percorrem constantemente o país. Em nossa pobre ilha de gelo há um grande entusiasmo pelos estudos! Não há pescador ou agricultor que não saiba ler, e todos leem. Acreditamos que os livros, em vez de ficarem embolorando em uma estante, longe dos olhares dos curiosos, foram escritos e impressos para que todo mundo os leia. Por isso os de vossa biblioteca passam de mão em mão, são lidos uma e cem vezes, e demoram com frequência um ou dois anos para retornar às suas respectivas estantes”. Este é um verdadeiro “espaço de convivência”. [5]

Educar para a pesquisa é também valorizar as bibliotecas. Um professor deve ser um frequentador desses espaços e deve saber o que há nelas sobre a sua área. Mas o ideal é que transcenda a sua área...

No caso da internet, levando em conta crianças que dominam a escrita e são capazes de ler de forma autônoma, é preciso fornecer-lhes indicações de sites fiáveis, para que aprendam a ler e a selecionar as informações relevantes nesses sítios. Se a escola tiver condições, o professor pode fazer um ensaio em sala de aula. As crianças podem selecionar frases, construir fichamentos (com a indicação sempre de onde as informações saíram) e o professor pode com esses dados construir com toda a classe um texto coletivo em que cada criança reconheça a sua busca. Assim, ela será capaz de perceber, de um lado, o que constitui o rol de elementos encontrados na rede e, de outro, como eles podem virar outra coisa: a formulação de uma resposta autoral das suas perguntas.

A educação para a pesquisa é um dos maiores empreendimentos da escola e da universidade. No ambiente universitário, não é possível imaginar que os alunos chegaram prontos... Se assim o estivessem, para que a universidade? E ela é fundamental para os alunos e para a sociedade. Neste caso, o professor também deve construir um mapa. Eu compartilho elementos do tutorial que elaborei este ano para meus alunos recém ingressos no curso de História, Memória e Imagem da UFPR, disciplina de História Medieval. Elementos extraídos do tutorial:

ü  O que são atas de congressos e seu potencial para a pesquisa;

ü  Como sites e blogs podem ser úteis; que cuidados devem ser tomados na navegação por esses ambientes;

ü  Lista de revistas, consagradas ao medievo especificamente;

ü  O que é o qualis periódicos da Capes;

ü  Qual a importância das bases dos Programas de Pós-Graduação, que contêm dissertações e teses defendidas.

A maior parte dos estudantes que eu tenho diante de mim nunca participou de um congresso sobre História Medieval; nunca leu uma das revistas listadas no tutorial; desconhecia o qualis; ignorava que teses e dissertações estão disponíveis na rede... É tarefa do professor que deseja dar continuidade ao empreendimento da pesquisa fornecer subsídios para a formação dos seus alunos. Explicar o potencial de cada elemento sintetizado acima.

Antes de passar para o próximo desafio, é preciso lembrar que bibliotecas e a rede por mais amplos que sejam não são os ambientes exclusivos das pesquisas. Os testemunhos, as histórias contadas pelas pessoas, as rodas de conversa, o universo surpreendente da cultura material em casa e nos museus são fontes de pesquisa! O mais importante é avaliar o potencial de cada fonte para responder às questões que orientam a pesquisa. O professor deve ser agente dessa avaliação.

 

2) Educação para a salvaguarda do planeta

Não tenho dúvida de que os mais diversos livros de ciências trabalham (com maior ou menor qualidade) para a conscientização dos alunos a respeito dos problemas ambientais criados por gerações de habitantes do planeta. Há vasta bibliografia que deve ser pesquisada e que deve ser tema de debate em sala de aula. A educação para a pesquisa é aliada da educação para a salvaguarda do planeta. Mas nesse segmento do meu texto, gostaria de abordar questões talvez “pequenas”, mas que são tão importantes quanto as mais eruditas rodas de conversa sobre o meio ambiente.

Não há texto didático, por mais completo que seja, capaz de combater sozinho os danos causados pela inexistência de um programa de gerenciamento de resíduos sólidos em uma escola. Se a escola não discute coletivamente o que fazer com seu lixo, ou seja, se não reúne quem a anima – alunos, professores e funcionários – em um projeto exequível, realista e ambicioso ao mesmo tempo, vamos dizer às crianças que os extraordinários textos que elas leem em seus livros lindamente editados são letra morta no dia-a-dia. Vamos dizer que a ciência está apartada da vida. Seremos mais uma geração a falhar.

Os planos de gerenciamento de resíduos sólidos são uma exigência institucional em muitos países, estados e municípios. Caso determinadas empresas não construam esse plano, podem ser punidas. Mas a realidade é muito diversa nesse campo e eu não falo de uma exigência que, se não cumprida, pode implicar uma multa. Minha experiência tem me mostrado que quando se reúnem as pessoas que vão participar de um projeto para que elas compartilhem suas dúvidas e propostas, e para que elas compreendam a importância de uma iniciativa, temos mais chance de fazer o projeto dar certo. Falar sobre lixo não é elegante, mas é estratégico.

Não é preciso um grande investimento para construir um programa dessa natureza em uma escola. As crianças geram uma imensa quantidade de resíduos e os profissionais que limpam e reúnem esse material precisam compreender muito bem o que fazer com ele e precisam ser empoderados em seu papel de agentes do processo. Se a escola não se preocupa com a formação desses funcionários, se consente que eles estejam alijados do que constitui a identidade de uma instituição educacional, ela precisa rever seus princípios... A escola tem a ciência para animar ações transformadoras.

Alguém pode redarguir: mais uma tarefa para os assoberbados professores? Na verdade, construir um programa dessa natureza na escola não pode ser encarado como mais uma “coisa”, um trabalho a mais; deve ser compreendido como oportunidade de aprendizado coletivo. A salvaguarda do planeta tem muitos personagens, papeis, atribuições, responsabilidades e, como a educação para a pesquisa, é trabalho contínuo. As crianças devem se envolver gradativamente, no mesma proporção de seu crescimento e maturidade.

Um programa de gerenciamento de resíduos sólidos em uma escola pode começar mesmo ao final de um recreio, no estudo do descarte. Quando as crianças são muito pequenas, geralmente lancham em sala de aula, o lixo gerado pode ser estudado em pequena escala. No caso de crianças maiores ou adolescentes, é possível propor a ampliação da escala também de forma paulatina; é possível criar grupos por ambientes na escola; ações políticas, como o convite a autoridades para um debate; a adoção de uma praça próxima à escola; o estudo da qualidade da água em um rio próximo... Estou convencida de que um bom programa dessa natureza ultrapassa a escola e vai para casa e estou convencida de que o engajamento nesse programa promove a saudável reflexão sobre outro aspecto essencial para a educação para a salvaguarda do planeta: o consumo. O estudo do descarte certamente vai revelar desperdício, escolhas equivocadas na alimentação das crianças e desdém pelo ambiente...

Ao longo de minha experiência como professora de crianças e adolescentes[6], participei de iniciativas exitosas de reflexão sobre o consumo; dentre elas, destaco uma das mais lúdicas: a feira da troca[7]. Sou uma entusiasta das feiras da troca e das tardes do desapego. Já frequentei e já organizei esses eventos.

(página do meu livro[8])

Uma feira da troca é um momento em que adultos e crianças se reúnem com objetos que não lhes são mais úteis para trocá-los por outros. Um conjunto de xícaras por um livro; gibis por uma almofada; um CD por óculos de sol e por aí vai. Não há dinheiro em uma feira da troca; sequer para lanchar, pois eu posso trocar pedaços do bolo que preparei para o evento por sucos, ou por um sanduíche. Quase todo mundo sai feliz de uma feira da troca, com seus novos presentes! As feiras da troca são inciativas facilmente realizáveis fora da escola: em condomínios, em bairros e nas famílias.

No ambiente escolar, é possível refinar a experiência com uma preparação para o evento. Os professores podem promover diferentes ações de preparação, tais como: debates sobre necessidade, vontade, desejo; a elaboração de listas prévias afixadas nos murais; simulados a partir de seus próprios objetos; reflexão sobre equivalência, valor etc. Novamente os professores são chamados a construir a experiência e a investi-la de oportunidade interdisciplinar de aprendizado. As feiras da troca devem ser calendarizadas, a comunidade escolar deve se preparar para vivenciá-la.

Todavia, refletir sobre o consumo não cabe inteiro na feira da troca. Essa iniciativa é um capítulo, que pode ser muito bem sucedido, mas é um evento. Mesmo a preparação não dá conta de reunir tudo o que podemos pensar e fazer a respeito no ambiente escolar. O consumo está por toda a parte: desde a lista de materiais que a escola pede aos pais, até o que as crianças pedem e julgam essencial: como canetas, mochilas, lápis de cor... Um exemplo: por que a cada ano é preciso pedir uma caixa de 12 lápis de cor a todas as crianças? Algumas cores favoritas efetivamente acabam ao final de um ano..., mas sobram outras, a maior parte! Então, ao invés de pedir, a escola deveria consignar na sua lista de exigências a reposição de materiais e estimular o reaproveitamento. Folhas que sobram em cadernos em um ano devem virar outros cadernos no ano seguinte.

A internet tem favorecido, à revelia da escola, trocas e reaproveitamentos organizados pelos pais. À revelia da escola, decerto, pois muitas vezes escolas particulares se beneficiam financeiramente das taxas de materiais... Há diversos grupos de desapegos de livros e uniformes escolares no FB. O maior estímulo para isso no Brasil tem sido as crises que vivemos e o desemprego. Essa motivação não pode ser escamoteada e é legítima. Mas podemos trazer mais significados para a iniciativa. A escola não precisa fingir que não vê, só porque a iniciativa não a beneficia financeiramente. As instituições de ensino podem repensar a sua gestão e seu próprio consumo para promover aquilo que propalam, ou que propalam no ambiente protegido dos livros didáticos que adotam... Tenho visto que a escola pode ser um espaço eivado de contradições, mas podemos mudar isso promovendo esse ambiente de aprendizagem em ambiente colaborativo. Experiências nesse sentido já são realidade, porém podem ser mais plurais que simplesmente chamar os pais a fazer reparos ou a pintar os muros da escola[9]...

No centro desse 2º desafio está a palavra “salvaguarda”, que contém duas ações óbvias: salvar e guardar. Outras palavras poderiam ter sido trazidas a esse desafio, mas creio que as que se unem para a criação desta unicidade levam consigo ações contundentes que começam em nós. Não é possível esperar pelas autoridades, é necessário movê-las; não é possível imaginar que as crianças só possam ter uma compreensão “acadêmica” dos problemas ambientais, ou seja, uma preocupação que se limita à leitura de textos e a debates dentro de sala de aula; é preciso dar sentido prático aos conteúdos dos livros e das pesquisas realizadas; é preciso construir coletivamente formas de potenciar a comunidade escolar. Os professores são os fomentadores naturais desse processo, como pesquisadores e propositores.

 

3) Educação para a paz

Gostaria de começar esse segmento enfrentando a possibilidade de ironia.

(fotografias do massacre de 29 de abril de 2015, promovido pelo governo do Paraná contra professores e estudantes e da professora Márcia Friggi, agredida por um aluno de 15 anos, depois de tê-lo expulsado de sala por comportamento inadequado, em Santa Catarina)

É possível falar de paz? É possível falar em capacidade de educar para a paz, nesse cenário?

Não é só possível como urgente.

Escrevi esse texto impactada pela execução da vereadora carioca Marielle Franco no dia 14 de março de 2018, emboscada junto ao seu motorista Anderson Pedro Gomes, também vítima da execução, no centro da cidade Rio de Janeiro, quando retornavam ambos de um evento. Logo depois da divulgação do crime, uma autoridade do poder judiciário e um membro da câmara federal do Brasil espalharam por suas redes sociais informações falsas sobre a vereadora. Essas informações foram compartilhadas por seguidores e deram origem a uma onda de comentários violentos, em meio aos quais se “celebrava” a execução de uma socióloga que foi eleita com expressiva votação para o cargo de vereadora e em cuja pauta estava a defesa do direito das mulheres em específico e dos direitos humanos em geral. São muitos os aspectos a serem destacados nesse caso, mas escolho dois: o fenômeno do “fake news” e a violência que se dissemina nas redes.

O fenômeno da geração de notícias falsas se relaciona ao primeiro desafio que trouxe aqui: a educação para a pesquisa. Se meus exemplos no segmento foram acadêmicos, a ambição do desafio é mais ampla, ou seja, instrumentalizar crianças, adolescentes, jovens e adultos a perseguirem respostas às suas questões através de fontes fiáveis.

No post do deputado, há uma sucessão de mentiras que logo depois foram facilmente refutadas[10]. De forma quase absurda, a refutação caminhou paralelamente à continuidade do compartilhamento da mentira. Ao ser confrontado pela imprensa, entretanto, o político afirmou que não verificou as informações divulgadas por ele, mas que não se arrependeu de tê-las difundido...

Ora, o que aconteceu com as milhares de pessoas que compartilharam o post do deputado, alavancado, por sua vez, pela rede de um movimento de extrema direita no  Brasil e de grandes ambições dentro da escola[11]? Esses milhares de pessoas – mães, pais, profissionais liberais, pessoas de todos os níveis de escolaridade – abriram mão de realizar uma simples averiguação, ou seja, tomaram as afirmações de um deputado, de uma desembargadora e o que um movimento agressivo, na esteira desses dois primeiros, repisou, como verdades absolutas. Uma criança que não foi iniciada na educação para a pesquisa e que copia em seu livro o primeiro dos 339.000 resultados sobre o que é um astrolábio, só porque é o primeiro e porque está publicado na rede (!), pode se tornar (nunca necessariamente, devo ressalvar) um desses adultos compartilhadores de “fake news”, orgulhosos de sua ignorância, como o deputado, promotores e comentadores da violência em ambiente virtual contra pessoas reais.

Professores são vítimas de violência, como vimos nas imagens e haveria muitas outras infelizmente a serem trazidas aqui. Somos agredidos nas redes sociais por nossas convicções políticas, por nossas propostas pedagógicas, pela nossa necessidade de planos de carreira, pela duração de nossas férias, pelos locais que escolhemos para gozá-las (!)...; vitimados também pela disseminação de mentiras. Do outro lado, protegidos pelas telas, muitas vezes, estão nossos alunos, suas famílias, ou pessoas que desconhecemos. O cerco desanima, desespera e é causa de adoecimento e de afastamento de sala de aula. Ninguém disse para nós ao longo dos nossos cursos que seria tão difícil; ninguém nos preveniu de que, porque amamos ler; realizar cálculos, pensar sobre o universo, questionar sobre como viveram homens e mulheres antes de nós, refletir sobre nossa saúde, doenças, sobre o planeta..., nossas paixões e desejos de saber nos arrastariam a enfrentamentos tais!... Mas corajosamente vou enfrentar a ironia, afirmando o contrário do que nos choca.

Parte dessa violência pode ser combatida por nós, com os instrumentos que temos: nossas paixões e vontades de saber. Os desafios que proponho nesse texto perpassam todas as áreas em que nossas curiosidades foram historicamente compartimentadas: línguas, matemática, geografia, história, ciências... É com a nossa formação, que deve ser continuamente elaborada (desafio de acréscimo, não acessório), que podemos trabalhar pela educação para a paz. A pesquisa pode revelar que não é de hoje que confrontamos os desafios da natureza, a difamação e o consumo: “quem obedece à natureza e não às vãs opiniões a si próprio se basta em todos os casos. Com efeito, para o que é suficiente por natureza, toda a aquisição é riqueza, mas, por comparação com o infinito dos desejos, até a maior riqueza é pobreza” (Epicuro, séc. IV e III a.C.). Isso significa que temos sido os mesmos? De jeito nenhum. Se continuamos a temer a morte, aqueles que desconhecemos, a violência[12]... ao longo de séculos, nossas maneiras de reagir têm sido diversas e estudá-las anima a descoberta de novas soluções.

Estudá-las... Não se contentar com afirmações que ninguém verificou, destituir mentiras com a verdade e interromper a reprodução de hábitos que ferem o planeta, ou seja, a nós mesmos, são essenciais para a paz. Nós, professores, devemos instrumentalizar nossos alunos para esse enfrentamento. E eles correspondem ao apelo pela paz, mesmo e inclusive, lutando pelo que acreditam! No Brasil, estudantes secundaristas ocuparam suas escolas em 2016, cuidaram delas, para em paz manifestarem sua oposição às reformas do Ensino Médio; nos Estados Unidos, estudantes secundaristas marcharam em paz neste ano de 2018, contra a facilidade de adquirir armas de fogo.

 

Conclusão ou outros desafios?

Ninguém disse para nós ao longo dos nossos cursos que seria tão difícil... Talvez porque em diversos lugares do mundo e notadamente no Brasil não tenhamos conseguido combater uma surdez deliberada ante o concerto de nossas reflexões sobre as consequências de escolhas equivocadas das políticas educacionais, orquestradas pelos Estados que se transformaram em testas de ferro de interesses transnacionais, interessados, por sua vez, no enfraquecimento dos próprios Estados, por mais paradoxal que isso seja (!)...

Em seu livro Sem fins lucrativos. Por que a democracia precisa das humanidades[13], Martha Nussbaum afirmou que ainda não enfrentamos a crise mundial da educação, mas creio (e essa é minha única discordância da autora) que temo-la enfrentado. O problema é o fazemos contra ouvidos moucos. A autora aborda “mudanças radicais” no que tem sido proposto às crianças e jovens na escola e eu subscrevo:

Que mudanças são essas? Tanto no ensino fundamental e médio como no ensino superior, as humanidades e as artes estão sendo eliminadas em quase todos os países do mundo. Consideradas pelos administradores públicos como enfeites inúteis, num momento em que as nações precisam eliminar todos os elementos inúteis para se manterem competitivas no mercado global, elas estão perdendo rapidamente seu lugar nos currículos e, além, disso nas mentes e nos corações dos pais e dos filhos[14].

 

A denúncia feita pela autora aponta para escolhas que têm desfavorecido um conhecimento formador de seres humanos para o raciocínio crítico e para a imaginação criativa. Falo das humanidades e das artes. Os desafios que propus ao longo dessas páginas têm por objetivo promover o desenvolvimento humano para o respeito pelo patrimônio cultural, ambiental e para a salvaguarda da vida. Na educação para a pesquisa, falamos que o testemunho é fonte: o conjunto de histórias que as gerações contam umas para as outras fortalecem os laços em uma comunidade; ler essas histórias também promove os vínculos. Buscar a verdade e reconhecer o esforço de pesquisa do outro, na sua identificação, promovem o desenvolvimento cientifico e a ética. Proteger o meio, questionar o consumo e apreciar as diversas formas com que homens e mulheres se relacionaram com o ambiente mobilizam a consciência histórica e potencializam a capacidade de crianças e jovens de criarem propostas e soluções. Na educação para a paz não consigo ver maior tributo à importância das artes! Até que nos provem ao contrário, só temos esta vida para viver, entretanto, a Literatura nos oferece a oportunidade de sermos muitos outros, de vivermos em países desconhecidos, em épocas inacessíveis, oferece-nos a oportunidade de experimentarmos emoções e sentimentos vários: amor, ciúme, amizade, empatia... e de enxergar o direito dos outros a tudo isso.

A supressão de um repertório de conhecimento e experiência é lida por Martha Nussbaum como resposta às pressões da competitividade do mercado. Mas não estamos diante de uma engrenagem que se move sozinha. Quem insufla e engendra as políticas de empobrecimento da formação das crianças e jovens em nome da dieta lucrativa é gente – homens e mulheres que “esqueceram” a sua própria formação... Talvez esse seja um dos aspectos mais duros a serem evocados no fenômeno que Martha Nussbaum refere: o fato de os poderosos deliberadamente “esquecidos” de si decidirem o apequenamento do futuro.

As “mudanças radicais” estão situadas no tempo presente, a 1ª edição do livro de Martha é de 2010, ou seja, estamos falando de um fenômeno que certamente já dera passos importantes em um passado recente, a supressão do ensino das línguas clássicas é exemplo das “novas” escolhas realizadas nesse passado tão acessível. Agora, entretanto, o conjunto de propostas é apresentado de forma muito clara, sem qualquer acanhamento ou mesmo embaraço diante da oposição sistemática que os educadores têm feito. No Brasil, a reforma do Ensino Médico e a publicação da Base Nacional Comum Curricular são dois exemplos de mudanças impostas a alunos e professores, que por sua vez têm denunciado as perdas que vão se abater sobre as gerações futuras e os interesses de fundações particulares famintas de recursos públicos.

Como homens e mulheres que tiveram em sua formação um repertório de comparecimento das humanidades e das artes passaram a considerar esse conjunto como dispêndio? A primeira resposta pode apontar para o fracasso dos seus mestres... Mas ninguém pode ser eternamente responsabilizado pelas decisões das crianças sob sua responsabilidade que já se tornaram adultas há muito tempo... É muita arrogância a nossa – dos professores – considerar que tudo pode ser controlado por nós. Nós devemos nos esforçar para educar crianças e jovens para serem adultos responsáveis: averiguadores de informações, salvadores e guardiões dos recursos naturais e incansáveis defensores da paz. Porém, homens e mulheres crescidos e que já estiveram diante de nós nas salas de aula da vida podem fazer (já o fizeram!) escolhas diferentes das que nos esforçamos por lhes apresentar. É por isso que nossa tarefa se renova a cada geração, como obstinação e como atenção às mudanças.

Podemos reagir à decepção pelo que não conseguimos realizar com desânimo, abandono, com delírio, esperança ou revolução. Podemos também imaginar que os adultos esquecidos do que nós lhes ensinamos podem ser lembrados pelos filhos, ou seja, pelas crianças que temos agora, sob nossa responsabilidade. Podemos reagir, impondo a nós mesmos novos desafios, o que tentei fazer ao longo dessas páginas. Eu também sou adulta esquecida de muita coisa importante..., mas gosto de achar que meus alunos me educam para a responsabilidade que me cabe e que cabe a tantos de nós, na NOSSA formação humana. 

Obrigada.

 

Escrito em Curitiba, entre março e abril de 2018.

Lido em Praia, em 26 de abril de 2018

 




[3] RIBEIRO, Diavan Adelino. História do 5º ano do ensino fundamental: livro do estudante. Curitiba: Editora Bom Jesus, 2014. p. 41 e 42.
[4] RÜSEN, Jörn. Jörn Rüsen e o ensino de História. Organizadores: Maria Auxiliadora Schmidt, Isabel Barca, Estevão de Rezende Martins. Curitiba: Ed. UFPR, 2010. p. 112.

[5] Entrevista com Alberto Manguel: http://www.candido.bpp.pr.gov.br/modules/noticias/article.php?storyid=172 acesso em 16 de março de 2018.
[6] Na escola Palmares, hoje Projeto 21: http://www.escolaprojeto21.com.br/ (acesso em 18 de março de 2018).
[7] Foi com Yara Amaral, fundadora da escola Projeto 21, que aprendi como uma feira da troca é uma experiência formidável!
[8] GUIMARÃES, Marcella Lopes. O Livro das coisas para guardar. Desejos de criança. Curitiba: Ed. Positivo, 2013. p. 48.
[9] Uma das iniciativas plurais foi realizada pelo Colégio Bom Pastor em Curitiba: http://www.gazetadopovo.com.br/curitiba/alunos-e-familiares-se-unem-para-revitalizar-e-evitar-fechamento-de-escola-em-curitiba-ekxju32ec39tskv61mfjmivpk (acesso em 18 de março de 2018). A escola sofreu com o desvio de verbas e quase teve suas portas fechadas.
[11] Refiro-me ao MBL.
[12] Como o historiador Georges Duby reconheceu em Ano 1000 ano 2000 na pista de nossos medos.
[13] NUSSBAUM, Martha. Sem fins lucrativos. Porque a democracia precisa das humanidades. São Paulo: Martins Fontes, 2015.
[14] Idem, p. 4.