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segunda-feira, 10 de junho de 2024

1 ano da meia maratona do Rio

 10 de junho de 2024, hoje faz 1 ano que completei a meia maratona do Rio de Janeiro, ao lado de minha prima Andréia.

Esta manhã, no treino, rememorei o feito para algumas amigas e uma delas, a Clarice, com quem corri a parte final, depois das subidas, me disse: “- E quanta coisa em um ano, heim?!!” Eu não sei se ela falava dela, de mim, de nós duas, do país..., mas a certeza da Clarice me despertou a vontade de reunir uma parte dessa quanta coisa toda. Então, nesse aniversário de 1 ano da meia do Rio, eu me lembro:

  • ·        minha filha completou 15 anos;
  • ·        festejei meus 50 anos em uma casa de fado, ao lado de gente amada;
  • ·        ganhei um jogo de xícaras Fernando Pessoa & heterônimos da Susana!;
  • ·        chegaram os calores, em mais um ano de climatério;
  • ·        comecei a fazer reposição hormonal;
  • ·        mais um ano feliz ao lado de minha amada;
  • ·        em uma segunda-feira, minha filha adentrou desacordada o hospital, ficou na UTI por 3 dias, saiu andando plena do hospital e no sábado subiu ao palco e dançou, diante de nossas lágrimas e soluços;
  • ·        dormi no hospital com mamãe perto do Natal;
  • ·        parei de correr por meses;
  • ·        fiz 20 sessões de fisioterapia;
  • ·        voltei a correr;
  • ·        integrei na minha rotina o cuidado diário com meus pés, aprendido na fisioterapia;
  • ·        comecei a praticar calistenia;
  • ·        voltei a praticar yoga;
  • ·        comecei a meditar;
  • ·        abri minha mente a novos saberes;
  • ·  fui a Portugal, revi amigas, amigos, gente querida, admirável;
  • ·        conheci bibliotecas novas;
  • ·        conheci gente nova;
  • ·        escrevi um projeto de pesquisa novo;
  • ·        meu projeto foi aprovado com bolsa PQ pelo CNPq. É a segunda vez!;
  • ·        uma mesma unidade administrativa no meu trabalho me prejudica uma segunda vez;
  • ·        minha amada lançou seu primeiro romance e eu estava lá, a seu lado;
  • ·        mais um ano ouvindo comentários maldosos sobre mim e minha amada, de dois grupos: 1) gente abertamente preconceituosa e 2) gente pretensamente moderna e pretensamente estudiosa. Detalhe curioso e infeliz: só mulheres desferiram os golpes esse ano;
  • ·        um ano em que estou mais treinada para responder à gente do ponto anterior: pace e conteúdo;
  • ·        um ano em que não desenvolvi nenhuma couraça para essa gente. Minha pele está muito bem, obrigada;
  • ·        publiquei um livro;
  • ·        escrevi 2 livros em coautoria: um literário e outro acadêmico;
  • ·        escrevi resenhas, artigos, prefácio e orelha;
  • ·        um livro meu foi traduzido para o espanhol;
  • ·        tenho dois novos textos em coletâneas Off Flip;
  • ·        fui a vários lançamentos de livros;
  • ·        li livros maravilhosos;
  • ·        o clube do livro continua firme e forte: terminamos Moby Dick e começamos Os Maias;
  • ·        eu e minha amada realizamos um sonho e tem uma araucária plantada nele;
  • ·        sonhei novos sonhos;
  • ·        me decepcionei;
  • ·        me admirei;
  • ·        cultivei meus amigos e minhas amigas;
  • ·        vi gente querida, amiga, se afastar, respeitei;
  • ·        troquei de terapeuta;
  • ·        estou deixando o cabelo crescer outra vez;
  • ·        participei de bancas, comissões, dei aulas;
  • ·        estou em greve e o trabalho me acompanha;
  • ·        experimentei novas receitas e sabores;
  • ·        continuo a (tentar) estudar inglês;
  • ·        dancei em outras festas, com outros pares;
  • ·        ouvi;
  • ·        falei;
  • ·        briguei;
  • ·        chorei;
  • ·        dei gargalhadas;
  • ·        quebrei o tampo de vidro da mesa da sala com uma caneca de café;
  • ·        trouxe mais plantas para a minha vida;
  • ·        comprei um aspirador de pó – como vivi sem ele??!!;
  • ·        conheci outras paisagens;
  • ·        dirigi em novas estradas;
  • ·        tomei banho de rio, em rio gelado;
  • ·        tive paciência.

Um ano sem minha madrinha;

Cinco anos sem o papai;

Onze anos sem João.

 

Há um ano, eu estava bem treinada para a meia do Rio: não tinha faltado a nenhum treino, treinei na chuva (eu nunca faço isso e encarei), fiz musculação em academia, cuidei da alimentação, estava forte e... machucada. Sem saber! Corri machucada, fiz longas caminhadas na sequência, machucada. Precisei parar, tratar e recomeçar. Hoje, minha amiga Audrey me provocou: quando vai ser a próxima? Não sei. Hoje, subidas. O mesmo tênis... Hoje, corri com minhas amigas rápidas, fortes. É puxado para mim. Mas elas me impulsionam. Se algumas mulheres tentaram me fustigar – porque talvez não saibam correr... –, outras mulheres correm ao lado; caminham comigo; uma, de mãos dadas..., e eu reconheço: “- quanta coisa em um ano!”. Bora, Clarice!

em 10/06/2024

10/06/2023

Muitos quilômetros... 






segunda-feira, 6 de março de 2023

Uma receita que é também um modo de lembrar (5 anos, em 5/3/2023)

 

Há 5 anos, o coração do meu pai parou de bater. O coração ambíguo dos Guimarães: forte na intenção e frágil entre socacos da fisiologia e das escolhas da vida. Meu pai acreditava que adentraria em uma outra vida e eu espero que sua crença tenha encontrado uma resposta ainda mais bonita que a sua esperança. Nesses 5 anos, a memória do seu passamento foi vivenciada por mim e por minha mãe com a tradicional marcação de missa e ponto na Igreja. Este ano isso não me passou pela cabeça. Estou brigada com a igreja em que me criei? Brigada não é palavra precisa, mas o fato é que tive uma outra idéia e, ao encerrar o dia, com uma serenidade rara, acho que acertei, sem acumular dívidas. Esse texto é sobre memória e tempo.

Ao longo da semana, encasquetei de preparar a carne assada dele e, como minha mãe está hospedada em minha casa, recuperando-se (bem) de um problema de saúde, pedi a ela que fizesse no almoço do dia 5 a sobremesa favorita dele: manjar branco. Já preparei a carne assada de meu pai muitas vezes, mas é fato que, desde que ele se foi, não tinha voltado à receita. Bem, voltar à receita talvez seja demasiado..., nunca houve receita em papel. O que sempre houve foi a observação de um modo de fazer.

Papai gostava de cozinhar. Seu repertório era modesto, mas suas poucas especialidades eram de fato únicas em matéria de sabor. Sua carne assada era imbatível e os bifes à milanesa, creioemdeuspai... Ele me ensinou de forma mais detida os bifes à milanesa e sua técnica de congelamento e descongelamento, que utilizo com respeito e confiança. Mas a carne assada..., era mais reparar nele.

Sua carne assada leva 4 horas para ficar pronta. Não 3 horas e meia; não 3 horas e 45 minutos; não 4 horas e 15; 4 horas e fim; e não existia panela de pressão para facilitar. Papai considerava uma concessão (absurda) à preguiça recorrer à pressão. Colocava obviamente o feijão na pressão, mas a sua carne, jamais. Essa carne era meio que o papai. Nunca vi meu pai de preguiça. Acordava cedíssimo, dormia cedíssimo, lia muito, estudava outro tanto. Quando tinha casa com jardim, arrancava matinhos invisíveis. Quando se mudou para o pequeno apartamento de Teresópolis, as paredes eram mais brancas que véu de noiva; a gente não andava por lá, flutuava sob seu olhar vigilante de poeiras impossíveis. Aposentou-se e vivia absorvido por tarefas.

Papai gostava de alcatra e gostava de incluir uma linguiça na peça, bem no meio, e isso sempre deu um gosto muito especial ao prato. A carne dele é uma carne de panela. Papai a preparava em pé, colocava água aos pouquinhos, uma coisa impressionante de paciência de Jó. Jogar um monte de água também não se punha! Coisa de preguiçoso. E ele ficava ali, de pouquinho em pouquinho. No calor, sem camisa, um 4 com as pernas levemente arqueadas. Papai tinha 1,80 m de altura, era um senhor cozinheiro com seus copinhos: o de água para refrescar a sua carne e o de coca/cerveja/vinho para molhar a garganta. Ele falava enquanto preparava. Conversava. Narrava. Conversava quando queria ouvir o público; narrava quando queria apenas ser ouvido. Na última hora da carne, ele incluía batatas. Se eram muito grandes, cortava-as apenas ao meio; se médias, iam inteiras. Virava a carne na metade do tempo do preparo, então só uma vez. Esse é o segredo da integridade de suas batatas.

Papai não gostava de salada nenhuma. Sua carne era a sua maravilha, que admitia a companhia das batatas, do arroz branco e do feijão preto. Nós, de vez em quando.

Nunca vi meu pai temperar a carne, sei que o fazia com antecedência. Mas o que colocava? Eu fiz várias tentativas ao longo dos anos com resultados mais ou menos próximos. Este ano pedi ajuda. A ajuda é presente, um futuro que meu pai não teve acesso.

Minha companheira é uma exímia cozinheira e esse ano reuniu mais ajuda para reconstruir a possibilidade de um tempero que ela nunca provou, engajada no desejo de partilhar a minha memória. Fez ligações, escreveu mensagens. Minha sogra entrou em jogo. Sugeriu. Os tempos desencontrados na vida ordinária, mas encontrados na minha vida se juntaram todos para fazer o almoço de hoje. Começamos na véspera, na salmoura, nos temperos da peça de posta vermelha que precisou ser refeita! Constrangido pelo hábito no estabelecimento, o açougueiro temperou... Pedi desculpas, mas esse prazer/tarefa tinha de ser meu, nosso. Sem preguiça.

Minha mãe também começou e terminou na véspera. O manjar precisa descansar na geladeira. Nem todos apreciam ameixa, então tivemos duas caldas. A leve intolerância à lactose de mamãe impôs outros leites. A textura mudou. Papai apreciaria? Eu repeti três vezes a sobremesa.

Às 9:00 de hoje, comecei a carne. Sem coca-coca, sem cerveja, sem vinho, com chimarrão. Quê?! Quando me dei conta, ri. O aroma da erva em contato com os aromas exalados da cebola, da sálvia, do louro, do vinho branco... mudariam o resultado? Trouxe a poesia portuguesa e um ensaio para me fazer companhia, enquanto vivi a paciência de Jó do copinho. O ensaio se intitula Lápide e versão[1]. Achei tão curiosa a minha escolha! Papai não fazia duas coisas ao mesmo tempo; eu faço inúmeras e não tenho orgulho.

4 horas. Comida de 4 horas não se faz pra qualquer um. Em um domingo hesitante ou performático, a depender do juízo de valor que meus raros leitores vão fazer da chuva e do sol ao longo de todo o dia (!), exigi da filha que ao menos trocasse o pijama para o almoço. “Não precisa roupa de sair”, mas eu não sentaria à mesa do almoço de pijamas com meu pai...

Eu servi. Mamãe primeiro. Papai servia. Não rezamos, brindamos à sua memória. Uma parte do tempo à mesa foi conversa, memória; outra, apreciação do quão perto cheguei do sabor original graças à participação de pessoas que só conhecem meu pai por fotografias, pelas ondas no meu cabelo, pela minha risada, pelo (tamanho) do meu nariz.  

A carne assada do meu pai é um modo de falar do meu pai no presente. Ao meu lado direito, entre aérea de sono domingueiro e faminta da carne, estava o futuro dele, meu, o tenro ramo florescente da nossa árvore. Cachos, a negra cabeleira, negros olhos... nariz surpreendente! Um caracacá veio pousar nos seus ombros para desenhar possibilidades imprevistas para mim. Comeu rápido. “Dá licença”. Toda. Um dia, o desejo dela pela memória pode me fazer companhia nessas 4 horas. Ou não.

A carne assada do meu pai é um modo de falar. Um modo do meu pai.


[1] Do meu mestre e amigo Jorge Fernandes da Silveira. O livro é sobre a poeta portuguesa Fiama Hasse Paes Brandão.

Nós três há tanto tempo... 2011! Depois dessa, nunca outra.


domingo, 26 de dezembro de 2021

A rabanada vegana

 

Para Deise, Raquel e Roberta.

Para a minha mãe.

 

Nesse dezembro, eu já fiz rabanadas três vezes: duas vezes na minha casa (em um pré-Natal e no dia 24 mesmo) e em uma casa amiga (em outro pré-Natal). No dia 24, eu fiz uma parte das rabanadas com eritritol[1]. O Natal para mim começa com rabanadas. Quando criança, eu via a minha mãe fazê-las logo na manhã do dia 24. Eu via a minha mãe encher uma ou duas travessas bonitas – aquelas de casamento – com as fatias douradas e açucaradas. Quando eu me casei e me tornei senhora dos meus próprios Natais e travessas, descobri por que minha mãe fazia questão de prepará-las cedo: as rabanadas sujam louça, fogão e chão de cozinha. Então, é melhor fazer logo, para as louças não se misturarem. A gente lava tudo depois de prepará-las e pode recomeçar os trabalhos do Natal na cozinha limpa. O Natal para mim começa com o cheiro do açúcar e da canela, que envolve esse pão largo sem muita casca, mergulhado em leite, abraçado em ovo e que não tem medo de óleo quente.

Nos pré-Natais desse ano, eu servi minhas rabanadas para pessoas que nunca tinham preparado ou comido esse doce em casa. Segundo apurei, as rabanadas foram aprovadas. Eu fotografo minhas rabanadas, mando para amigos e amigas e, esse ano, uma pessoa queridíssima escreveu em uma foto minha: “as famosas rabanadas da Profa. Marcella”. Fiquei prosa.

Mas esse nunca me devolveu o pensamento sobre diferenças culturais que passam pela mesa e pela boca. Em um dos pré-Natais, eu comi peru assado. O conto do Mário de Andrade bem na minha frente! Estava divino. Foi a segunda vez na minha vida, porque a tradição da minha casa de menina e moça sempre foi o bacalhau; na minha casa de mulher adulta, o bacalhau continuou a reinar absoluto em várias receitas.

Eu encomendo pão de rabanada em uma padaria específica. No pré-Natal vivido na casa amiga, eu improvisei rabanadas com o pão mais parecido (com o de minhas encomendas) que encontrei. Mas já comi rabanada em Portugal feita com pão de forma. Achei bom, mas gostei mais das minhas.

Existem pequenas variações no preparo das rabanadas, isso significa que elas são um bom exemplo de tradições moventes. Algum defensor empedernido e equivocado das “tradições” pode franzir a boca amarga para a colher de leite condensado misturada no leite, para o pão, para o eritritol..., mas é preciso lembrar que não raro quem se arvora em guardião defende um momento específico a que teve acesso de uma tradição. Se conseguir andar um pouco mais para trás na pesquisa pode cair do cavalo segurando a bandeira do imobilismo. Tradições se mantêm porque se adaptam, porque se transformam. Minha experiência tem me mostrado que quem se veste de defensor de tradições, não conhece a dinâmica própria dessa reunião aerada de modos de viver, saberes e técnicas.

Uma amiga minha carioca, ao saber que eu já ia para o preparo da terceira pratada de rabanadas me disse que tinha descoberto uma receita vegana! Minha primeira reação foi bancar o emogi dos olhos arregalados. Depois, encontrada de chofre com a poeira de jumentice dos defensores do imobilismo que sobrou em mim, pensei: deve ser uma coisa tão diferente que só mesmo a importância do batismo para uma busca tão afetiva! As rabanadas reúnem histórias e, quer a gente varie o pão ou o açúcar, elas têm identidade pelo conjunto material e imaterial.

No dia 8 de julho, eu publiquei um texto aqui no blog que intitulei “O gosto das coisas em uma 5ª feira”. Nesse texto eu mencionei os mantecados da D. Francisca, esposa do meu amigo, o saudoso Prof. Jayme Bueno. Pois no dia 24 à tarde minha querida Raquel Bueno, filha do Prof. Jayme, veio aqui em casa para me dar uma caixa de mantecados. Quando me deu, disse acanhada que esperava que estivessem bons, mas duvidava. Senti aquele aperto tão conhecido no peito: a saudade da filha que teve de se despedir de um pai recentemente e de uma mãe mestra dos mantecados... Entrei com a pequena caixa e coloquei ao lado das rabanadas. Fiz café e sentei. Abri a caixa. Cada mantecado estava envolvido no papel vegetal recortado com esmero. Abri aquela delicadeza e lembrei. Lembrei do casal e das visitas na casa que nem é mais minha! Lembrei. Estavam perfeitos, Raquel.

Em 2020, na França eu me apropriei de algumas tradições. Este ano encomendei uma para sentar à mesa com as rabanadas: a Bûche de Noël. Alguém pode perguntar por quê? Eu tenho a resposta na ponta da língua: memória. Na verdade, para mim, é "só" disso que se trata. Ficar quatro horas em pé fazendo uma carne assada que ficaria pronta em meia hora – se eu cometesse a heresia de colocar a panela de pressão na história – é lembrar do meu pai ali, com o pé apoiado na altura do joelho da outra perna, que nem um quatro de 1,80 m, dizendo que aquela carne não era para preguiçosos...

Eu adoro rabanadas e posso fazê-las a hora em que eu quiser, mas não faço. Eu faço duas vezes no ano e no mesmo mês. Eu como e espero. Espero em respeito reverente ao calendário. Ninguém cobra essa reverência, esse respeito... Quando faço, ela acende em mim a memória de anos, de gerações até.

Também respeito a rabanada vegana da minha amiga. Suas escolhas e sua saúde exigem coerência, mas a memória... mesmo que eu ache o gosto diferente, esse batismo me emociona porque imagino que, na casa carioca dela, o dia 24 também começava com açúcar e canela, travessa e panos... e essa memória é tão forte que batizou o clone vegano. O peru de Natal, os mantecados, a Bûche... tradições que se sentam juntas para alimentar o corpo, os afetos e fomentar mais curiosidades. Gosto.

Daqui a pouquinho, eu vou preparar um doce que coloca um sorriso na boca de quem escuta o nome pela primeira vez: aletria. Fazer aletria é esvaziar a caixa de ovos[2] em pura evocação da minha infância. Não deu tempo de fazer para o Natal, mas quando eu cheguei a Cutitiba, alguém me contou que se continua a comemorar o Natal no dia 26! Boa tradição essa que me dá mais tempo...  

Ainda tenho uma pratada de rabanadas para fazer nessa casa antes que o ano acabe. Manhã de açúcar, canela, saudade que antevê a espera por um novo dezembro.

Os mantecados da Raquel, da Dona Francisca e de todas as andaluzas da linhagem da Raquel! Ao fundo, dá para ver o prato de rabanadas com eritritol.

As rabanadas com a convidada francesa Bûche de Noël

Elas...








[1] Um adoçante natural, com o gosto muito próximo ao açúcar refinado.

[2] A minha receita leva 8 gemas...

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

GORDA!

 

Hoje, quando começávamos nosso treino no parque São Lourenço, com o grupo ainda mais junto, um homem passou por nós de bicicleta irregularmente – afinal, há avisos de que não é possível ainda trafegar de bicicleta no parque – e gritou: - Gorda! Outro dia, ainda durante as olimpíadas, um senhor passou por nós e disse: - Atletas olímpicas! Já ouvimos: - Que lindas! Mas é mais comum a gente dizer para nossos companheiros desconhecidos de parque e ouvir deles e delas: - Bom dia!

Um homem levantou pela manhã, fez xixi, ou não; escovou os dentes, ou não; tomou banho, ou não; tomou café, ou não; beijou a mãe, ou ela já morreu de desgosto; vestiu uma roupa decente, ou não; chaveou a casa, ou não; pegou a bicicleta com intenção de ir e vir e resolveu vasculhar o pouco léxico que coube à sua capacidade, para adentrar o parque irregularmente e desferir o vocativo: Gorda!

Eu não faço ideia de contra quem ele desferiu o golpe, mas reivindico. Foi pra mim! É pra mim! Sou eu, orgulhosamente! Eu engordei 17 quilos na gravidez e me senti a mulher mais espetacular que pisou essa Terra, nunca mais consegui recuperar aquela alta/autoestima rsrsrs Sobraram nesse corpo que levo para correr e que está hipertenso 4 quilos. Nunca retoquei meu corpo (mesmo!), não pinto o cabelo, mas atenção: Não imponho meus princípios a ninguém. O dia em que eu quiser me livrar da barriga de coabitação com Maria Clara, desafiar a gravidade (e a idade) recompondo os peitos da adolescente que eu fui ou pintar as madeixas cacheadas e, agora, compridas como há muito tempo eu mesma não via, farei! Eu posso harmonizar os princípios que me guiam hoje, de respeito ao corpo de 47 anos que pariu, com desejos que ainda não possuo. Por que não?

O homem passou tão rápido que não vi, poderia ter machucado alguém com sua bicicleta irregular. Desejei-lhe mal. Desejei que se arrebentasse, que se ralasse todo...  Agora, fria de banho e de ódio, todo o meu desejo de mal se encerra nesse texto. Quando eu colocar o ponto final, ele terá sumido – o homem ou o ódio, você escolhe o referente – e sobrará o que vou fazer com o seu grito daqui adiante: a opulência e a abundância... da força que leva um grupo de mulheres de idades diferentes, histórias, corpos a treinarem juntas; a partilharem vontades, planos para o dia, para o ano, as dificuldades com lesões, com as crianças, com os maridos, com os chefes...

Antes de chegar ao parque, eu tive a grata surpresa de acompanhar uns minutos a participação do meu colega Clóvis Gruner no programa de Maria Rafart e ele falava, nesse minutos, sobre o Talibã. Referia um texto que ele leu em que se noticiava como os professores de Cabul já começaram a se despedir de suas alunas... Eu me imaginei me despedindo dele, de minhas aulas, de minhas alunas, nós todas saindo, servidoras, nossa vice-reitora... Ele, que é ateu confesso, reclamou um princípio que infelizmente gente religiosa não segue, foi mais ou menos assim: nenhuma religião prega entre seus princípios a indignidade. Eu não sei se o homem que nos golpeou é de amém, se grita em templo até Jesus perder a audição, se batuca, se incensa.

O Afeganistão não é aqui, que ninguém ofenda (ainda mais) as afegãs, mas os duros golpes contra o corpo das mulheres doem por todo lugar em que teimamos ser.

47 anos de malcriação, né, mãe?


quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Um MAPA para se deter

 

Tirei só um braço da manga e abri três botões da camisa. – Não, abre tudo. – Tá bom? – Tá ótimo. Ela cortou um pedaço razoável do rolo branco e enlaçou na minha cintura. – Tá apertado? – Não. – Agora eu vou envolver o seu braço com isso aqui. – Mas e se eu suar? – Não tem problema, eu vou deixar firme. Pode suar. Riu. Pronto, eu tinha 22 horas pela frente na companhia do MAPA da pressão[1]: uma espécie de celular velhíssimo que nem para ligações serve. Que dirá fotos?! – Quando apitar, você deve parar tudo o que estiver fazendo e aguardar a braçadeira inflar e desinflar. – Mas eu vim dirigindo... – Tira a mão do volante, coloca sobre a coxa, segura só com uma e, se puder, para. – A cada quanto essa braçadeira vai inflar? – Ela vai inflar de 15 em 15 minutos. À noite, de meia em meia hora. – Alguma sugestão para o banho? – Nenhuma, porque não pode tomar.

Saí esquecida das diversas durações de 15 minutos. Fui comprar pão. No caixa, a braçadeira. A pessoa que estava me atendendo levou um susto. – Quer uma cadeira? – Não..., disse baixinho, - É que eu estou com o mapa da pressão... – Ahhhh... Paguei e saí. Carro. No caminho, a braçadeira. Opa, dá para parar. Olho à minha volta. Acalmo. Será que dá para ver quanto tá a pressão? Não enxergo. Sol. Óculos de leitura na bolsa. Bora chegar à minha casa antes de nova inflada!

– É mais fácil parar em casa, disse confiante para mim mesma. – Ainda mais porque estou de férias!, sorri. Almoço, filha, vassoura, orientando atrasado que vai infartar, pressão?, minhas leituras de férias essenciais!

Achei umas paradas bem engraçadas: contemplar na paz do Senhor o bife que ameaça queimar da frigideira, ouvir malcriação de filha sem revidar com palestra, interromper um abraço com o sorriso das margens plácidas, curvar-se à lei da gravidade quando o lençol de elástico estava quase dobrado, parar a frase na confiança beneditina de que a memória vai ajudar a retomar, congelar a escovação de dentes espumando de falsa raiva, substituir a gargalhada pelo sorriso sereno.

A cada 15 minutos eu fui obrigada a parar. Detestei. Detestei porque, a cada vez, era uma parada nervosa. Eu parei só de fachada. Eu não decidi. O celular de outras eras decidiu por mim. Eu tive de me dobrar às suas exigências para fazer dar certo cada medição.

Quando o meu grupo de corrida treinava velocidade nas quadras de areia do parque, eu tinha dificuldades em parar perto da divisória de arame entre as quadras. Não raro me jogava no arame, rindo a valer.

Eu escrevi uma coleção de livros que incluiu um conceito de parada muito interessante. A ideia não foi minha, foi da minha parceira de escrita, pessoa sensível e sagaz. E eu achei espetacular! Desde então, tenho me perguntado qual é o lugar da pausa, da parada, do instante de contemplação serena na minha vida... Eu que adoro correr, em vários sentidos. Eu que adoro me jogar no arame, esquecida do perigo que é a gente se jogar em matéria com tanto potencial de corte, de ferir.

O mapa da pressão é aparelho decerto, mas a sigla sugere uma cartografia nova para as vidas de todos os que têm de pendurá-lo à cintura como eu tive de fazer. A maior parte das vezes em que ele me constrangeu a parar, eu busquei combater a minha contrariedade com um sorriso – calmo ou derrotado. Às vezes, as pausas das braçadeiras infladas tiveram para mim uma duração maior que os 15 minutos de intervalo...

Quando a braçadeira infla, ela faz pressão no nosso braço e, como o mapa é automático, ele faz uma pressão ignorante do sofrimento de quem o recebe. Muitas vezes, eu tive pena do meu braço e isso me ensinou tanto quanto os números que meu cardiologista desfraldou diante de mim. Pressão que dói, avermelha, que obriga a parar.


Hoje, um dos exercícios do meu treino era parar e mudar o sentido. Achei curioso.

Não é busto, cintura ou quadril, mas são medidas reais...




[1] MAPA é uma sigla para o aparelho de Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial

quinta-feira, 8 de julho de 2021

O gosto das coisas em uma 5ª feira

 

Eu já escrevi aqui no blog que uma amiga despertou em mim o gosto da manga. Foi em 2018, depois que papai se foi e ela me recebeu na casa dela para partilhar a mesa e me abraçar no luto. Diante da mesa farta, preparada por ela com tanto carinho, o amarelo de uma manga – fruta de que nunca gostei! – tão bem cortada me chamou, e hoje a manga é uma das minhas frutas favoritas.

Eu sou uma comilona. Não é que eu coma muito, embora às vezes..., é que gosto da boa mesa, sou formiga, gosto do papo da mesa, da cozinha – quando ela é compartilhada e há música então! Ê Senhora! Batatinha roxa/Coração magoado... – gosto de cozinhar, gosto de ficar lá e até de lavar a louça! Mas eu também gosto muito de provar. Quando eu viajo, uma coisa é certa: vou atrás do gosto das coisas. Eu considero a mesa do lugar tão valiosa quanto o museu que aguça a minha fome de saber, e eu não sou exceção obviamente. Muita gente que conheço coloca essas coisas em pé de igualdade. Comilões se atraem... Eu acrescento ainda a esse gosto o correr pelas ruas do lugar em que me hospedo, bem cedinho. Experiências sensoriais.

Minha gatinha, a Sugar, tem mania de comer flor. Como eu tenho recebido flores ultimamente, ela está meio voraz. A gente tem medo, não sabe bem em que flores ela pode saciar a curiosidade gastronômica. Então é um tal de os vasos se movimentarem pela casa, para enganá-la, que é a maior confusão! Água pelo chão...

Nessa história do gosto das coisas há uma outra experiência que me fascina e sobre a qual eu nunca escrevi: o gosto compartilhado. Essa experiência tem um quê de tara, reconheço. Não raro eu gosto de provar um sabor que sei que é o favorito de quem eu amo. Essa perversão nem sempre tem consequências boas para as minhas papilas gustativas..., afinal mesmo que a gente ame alguém, que tenha grande sintonia com esse alguém, o prato favorito pode ser a exceção. A questão é que, quando o gosto favorito do outro encontra o meu, há um transporte íntimo que me dá uma alegria genuína. Invade e transborda.

Minha filha gosta de chocolate. Eu, nem tanto... Mas sou capaz de me aproximar do gosto dela e envolver tudo isso em um sorriso eterno quando eu compro sorrateira um dos seus favoritos e como um pedacinho...

Hoje, eu vou conversar na TV Kotter com Daniel Osiecki sobre um amigo que temos em comum e que partiu há algumas semanas, o Prof. Jayme Ferreira Bueno. Eu me lembro que, em algumas visitas que ele e D. Francisca me fizeram no Natal, eles me levavam umas bolachinhas que D. Francisca fazia. Bolachinhas muito alvas, que ela envolvia em um papel também muito alvo. Às vezes a embalagem era caseira, com fita guardada, como as que eu tenho aqui também. Eu posso ver! Sentir. Honestamente, nesse dia, em que as memórias dele e dela estão tão vívidas, a memória do gosto dessas bolachinhas é pura saudade, como as de um certo empadão goiano em casa amiga.

Saudades.

Hoje, de manhã, eu saí rapidinho para comprar duas coisas que esqueci de incluir na minha lista de compras do mês, feitas ontem naquele espírito bélico com que temos ido ao mercado. Na volta, entrei em uma padaria que vende um pão de nozes de que gosto muito, mas que tem a preferência de uma pessoa que amo e que está muito longe. Trouxe o pão para casa com o cuidado com que a gente leva aquele filhote de cachorro ou gato com quem sonham os filhos. Depois da higienização dos itens necessários e do banho – acho que a gente nunca foi tão limpo! – eu fui devagar ao pão. Ele é enfeitado de nozes, mas também tem nozes na barriga. Cortei e vi que o que eu tinha escolhido estava particularmente grávido. Junto às nozes, os damascos e as ameixas de que não gosta tanto a pessoa em quem eu pensava. Eu ri disso... Até o não gosto é uma experiência de saudade! A massa mais escura, adivinho farinhas diversas... Como e imediatamente vivo aqueles minutos proustianos que me fascinam desde o tempo que eu não sabia que o escritor os tinha elevado ao sublime.

As bolachas de D. Francisca, o empadão e as nozes em pão grávido de sabor. Tara. Experiência sensível. Saudade.

 

Bom dia para quem gosta de comer, tem memória e sente falta de reunir um povo à mesa!


O pão da saudade