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domingo, 26 de dezembro de 2021

A rabanada vegana

 

Para Deise, Raquel e Roberta.

Para a minha mãe.

 

Nesse dezembro, eu já fiz rabanadas três vezes: duas vezes na minha casa (em um pré-Natal e no dia 24 mesmo) e em uma casa amiga (em outro pré-Natal). No dia 24, eu fiz uma parte das rabanadas com eritritol[1]. O Natal para mim começa com rabanadas. Quando criança, eu via a minha mãe fazê-las logo na manhã do dia 24. Eu via a minha mãe encher uma ou duas travessas bonitas – aquelas de casamento – com as fatias douradas e açucaradas. Quando eu me casei e me tornei senhora dos meus próprios Natais e travessas, descobri por que minha mãe fazia questão de prepará-las cedo: as rabanadas sujam louça, fogão e chão de cozinha. Então, é melhor fazer logo, para as louças não se misturarem. A gente lava tudo depois de prepará-las e pode recomeçar os trabalhos do Natal na cozinha limpa. O Natal para mim começa com o cheiro do açúcar e da canela, que envolve esse pão largo sem muita casca, mergulhado em leite, abraçado em ovo e que não tem medo de óleo quente.

Nos pré-Natais desse ano, eu servi minhas rabanadas para pessoas que nunca tinham preparado ou comido esse doce em casa. Segundo apurei, as rabanadas foram aprovadas. Eu fotografo minhas rabanadas, mando para amigos e amigas e, esse ano, uma pessoa queridíssima escreveu em uma foto minha: “as famosas rabanadas da Profa. Marcella”. Fiquei prosa.

Mas esse nunca me devolveu o pensamento sobre diferenças culturais que passam pela mesa e pela boca. Em um dos pré-Natais, eu comi peru assado. O conto do Mário de Andrade bem na minha frente! Estava divino. Foi a segunda vez na minha vida, porque a tradição da minha casa de menina e moça sempre foi o bacalhau; na minha casa de mulher adulta, o bacalhau continuou a reinar absoluto em várias receitas.

Eu encomendo pão de rabanada em uma padaria específica. No pré-Natal vivido na casa amiga, eu improvisei rabanadas com o pão mais parecido (com o de minhas encomendas) que encontrei. Mas já comi rabanada em Portugal feita com pão de forma. Achei bom, mas gostei mais das minhas.

Existem pequenas variações no preparo das rabanadas, isso significa que elas são um bom exemplo de tradições moventes. Algum defensor empedernido e equivocado das “tradições” pode franzir a boca amarga para a colher de leite condensado misturada no leite, para o pão, para o eritritol..., mas é preciso lembrar que não raro quem se arvora em guardião defende um momento específico a que teve acesso de uma tradição. Se conseguir andar um pouco mais para trás na pesquisa pode cair do cavalo segurando a bandeira do imobilismo. Tradições se mantêm porque se adaptam, porque se transformam. Minha experiência tem me mostrado que quem se veste de defensor de tradições, não conhece a dinâmica própria dessa reunião aerada de modos de viver, saberes e técnicas.

Uma amiga minha carioca, ao saber que eu já ia para o preparo da terceira pratada de rabanadas me disse que tinha descoberto uma receita vegana! Minha primeira reação foi bancar o emogi dos olhos arregalados. Depois, encontrada de chofre com a poeira de jumentice dos defensores do imobilismo que sobrou em mim, pensei: deve ser uma coisa tão diferente que só mesmo a importância do batismo para uma busca tão afetiva! As rabanadas reúnem histórias e, quer a gente varie o pão ou o açúcar, elas têm identidade pelo conjunto material e imaterial.

No dia 8 de julho, eu publiquei um texto aqui no blog que intitulei “O gosto das coisas em uma 5ª feira”. Nesse texto eu mencionei os mantecados da D. Francisca, esposa do meu amigo, o saudoso Prof. Jayme Bueno. Pois no dia 24 à tarde minha querida Raquel Bueno, filha do Prof. Jayme, veio aqui em casa para me dar uma caixa de mantecados. Quando me deu, disse acanhada que esperava que estivessem bons, mas duvidava. Senti aquele aperto tão conhecido no peito: a saudade da filha que teve de se despedir de um pai recentemente e de uma mãe mestra dos mantecados... Entrei com a pequena caixa e coloquei ao lado das rabanadas. Fiz café e sentei. Abri a caixa. Cada mantecado estava envolvido no papel vegetal recortado com esmero. Abri aquela delicadeza e lembrei. Lembrei do casal e das visitas na casa que nem é mais minha! Lembrei. Estavam perfeitos, Raquel.

Em 2020, na França eu me apropriei de algumas tradições. Este ano encomendei uma para sentar à mesa com as rabanadas: a Bûche de Noël. Alguém pode perguntar por quê? Eu tenho a resposta na ponta da língua: memória. Na verdade, para mim, é "só" disso que se trata. Ficar quatro horas em pé fazendo uma carne assada que ficaria pronta em meia hora – se eu cometesse a heresia de colocar a panela de pressão na história – é lembrar do meu pai ali, com o pé apoiado na altura do joelho da outra perna, que nem um quatro de 1,80 m, dizendo que aquela carne não era para preguiçosos...

Eu adoro rabanadas e posso fazê-las a hora em que eu quiser, mas não faço. Eu faço duas vezes no ano e no mesmo mês. Eu como e espero. Espero em respeito reverente ao calendário. Ninguém cobra essa reverência, esse respeito... Quando faço, ela acende em mim a memória de anos, de gerações até.

Também respeito a rabanada vegana da minha amiga. Suas escolhas e sua saúde exigem coerência, mas a memória... mesmo que eu ache o gosto diferente, esse batismo me emociona porque imagino que, na casa carioca dela, o dia 24 também começava com açúcar e canela, travessa e panos... e essa memória é tão forte que batizou o clone vegano. O peru de Natal, os mantecados, a Bûche... tradições que se sentam juntas para alimentar o corpo, os afetos e fomentar mais curiosidades. Gosto.

Daqui a pouquinho, eu vou preparar um doce que coloca um sorriso na boca de quem escuta o nome pela primeira vez: aletria. Fazer aletria é esvaziar a caixa de ovos[2] em pura evocação da minha infância. Não deu tempo de fazer para o Natal, mas quando eu cheguei a Cutitiba, alguém me contou que se continua a comemorar o Natal no dia 26! Boa tradição essa que me dá mais tempo...  

Ainda tenho uma pratada de rabanadas para fazer nessa casa antes que o ano acabe. Manhã de açúcar, canela, saudade que antevê a espera por um novo dezembro.

Os mantecados da Raquel, da Dona Francisca e de todas as andaluzas da linhagem da Raquel! Ao fundo, dá para ver o prato de rabanadas com eritritol.

As rabanadas com a convidada francesa Bûche de Noël

Elas...








[1] Um adoçante natural, com o gosto muito próximo ao açúcar refinado.

[2] A minha receita leva 8 gemas...

quinta-feira, 8 de julho de 2021

O gosto das coisas em uma 5ª feira

 

Eu já escrevi aqui no blog que uma amiga despertou em mim o gosto da manga. Foi em 2018, depois que papai se foi e ela me recebeu na casa dela para partilhar a mesa e me abraçar no luto. Diante da mesa farta, preparada por ela com tanto carinho, o amarelo de uma manga – fruta de que nunca gostei! – tão bem cortada me chamou, e hoje a manga é uma das minhas frutas favoritas.

Eu sou uma comilona. Não é que eu coma muito, embora às vezes..., é que gosto da boa mesa, sou formiga, gosto do papo da mesa, da cozinha – quando ela é compartilhada e há música então! Ê Senhora! Batatinha roxa/Coração magoado... – gosto de cozinhar, gosto de ficar lá e até de lavar a louça! Mas eu também gosto muito de provar. Quando eu viajo, uma coisa é certa: vou atrás do gosto das coisas. Eu considero a mesa do lugar tão valiosa quanto o museu que aguça a minha fome de saber, e eu não sou exceção obviamente. Muita gente que conheço coloca essas coisas em pé de igualdade. Comilões se atraem... Eu acrescento ainda a esse gosto o correr pelas ruas do lugar em que me hospedo, bem cedinho. Experiências sensoriais.

Minha gatinha, a Sugar, tem mania de comer flor. Como eu tenho recebido flores ultimamente, ela está meio voraz. A gente tem medo, não sabe bem em que flores ela pode saciar a curiosidade gastronômica. Então é um tal de os vasos se movimentarem pela casa, para enganá-la, que é a maior confusão! Água pelo chão...

Nessa história do gosto das coisas há uma outra experiência que me fascina e sobre a qual eu nunca escrevi: o gosto compartilhado. Essa experiência tem um quê de tara, reconheço. Não raro eu gosto de provar um sabor que sei que é o favorito de quem eu amo. Essa perversão nem sempre tem consequências boas para as minhas papilas gustativas..., afinal mesmo que a gente ame alguém, que tenha grande sintonia com esse alguém, o prato favorito pode ser a exceção. A questão é que, quando o gosto favorito do outro encontra o meu, há um transporte íntimo que me dá uma alegria genuína. Invade e transborda.

Minha filha gosta de chocolate. Eu, nem tanto... Mas sou capaz de me aproximar do gosto dela e envolver tudo isso em um sorriso eterno quando eu compro sorrateira um dos seus favoritos e como um pedacinho...

Hoje, eu vou conversar na TV Kotter com Daniel Osiecki sobre um amigo que temos em comum e que partiu há algumas semanas, o Prof. Jayme Ferreira Bueno. Eu me lembro que, em algumas visitas que ele e D. Francisca me fizeram no Natal, eles me levavam umas bolachinhas que D. Francisca fazia. Bolachinhas muito alvas, que ela envolvia em um papel também muito alvo. Às vezes a embalagem era caseira, com fita guardada, como as que eu tenho aqui também. Eu posso ver! Sentir. Honestamente, nesse dia, em que as memórias dele e dela estão tão vívidas, a memória do gosto dessas bolachinhas é pura saudade, como as de um certo empadão goiano em casa amiga.

Saudades.

Hoje, de manhã, eu saí rapidinho para comprar duas coisas que esqueci de incluir na minha lista de compras do mês, feitas ontem naquele espírito bélico com que temos ido ao mercado. Na volta, entrei em uma padaria que vende um pão de nozes de que gosto muito, mas que tem a preferência de uma pessoa que amo e que está muito longe. Trouxe o pão para casa com o cuidado com que a gente leva aquele filhote de cachorro ou gato com quem sonham os filhos. Depois da higienização dos itens necessários e do banho – acho que a gente nunca foi tão limpo! – eu fui devagar ao pão. Ele é enfeitado de nozes, mas também tem nozes na barriga. Cortei e vi que o que eu tinha escolhido estava particularmente grávido. Junto às nozes, os damascos e as ameixas de que não gosta tanto a pessoa em quem eu pensava. Eu ri disso... Até o não gosto é uma experiência de saudade! A massa mais escura, adivinho farinhas diversas... Como e imediatamente vivo aqueles minutos proustianos que me fascinam desde o tempo que eu não sabia que o escritor os tinha elevado ao sublime.

As bolachas de D. Francisca, o empadão e as nozes em pão grávido de sabor. Tara. Experiência sensível. Saudade.

 

Bom dia para quem gosta de comer, tem memória e sente falta de reunir um povo à mesa!


O pão da saudade


segunda-feira, 28 de agosto de 2017

GLÓRIA - ensaio biográfico de Thaís do Rosário, sobre a escritora peruana (ou brasileira do Peru?) Glória Kirinus

Ao longo desta semana e da próxima, LITERISTÓRIAS tem a alegria de publicar textos de alunos da disciplina "Narrativas biográficas e autobiográficas: práticas e reflexões", ministrada pela criadora do blog, ao longo do 1o semestre de 2017, no PPGHIS-UFPR.
Hoje, o ensaio biográfico "Glória", escrito por Thaís do Rosário, sobre a escritora Glória Kirinus. Agradeço à biógrafa e à biografada por terem concordado em publicar e em ver publicado aqui o texto que segue. Boa leitura! 

GLÓRIA

Por Thais do Rosário[1]

GOLONDRINA

“Mi palabra favorita del español es Golondrina.[1]
La golondrina es un ave migratoria que viaja anunciando la llegada de la estación de las flores. Igual que al ave, Gloria salió de viaje y adonde va anuncia el florecimiento de las palabras. Diferente de la golondrina de Caetano[2], esta amada peregrina no vive errante y angustiada por no residir en su patria, pues hace de cada rincón por donde pasa su hogar, decorándolo con un jardín de versos que nunca morirán bajo los cuidados de los labradores de palabras a los cuales dio vida.

***

Glória Mercedes de Valdivia Kirinus: “palavreira de nascimento”[3]. Sua jornada teve início no inverno de 1949 em Huancayo, uma cidade peruana situada ao leste da cordilheira central dos Andes cujo nome remete ao passado pré-colonial que insiste em resistir entre a arquitetura do colonizador. Os huanca foram um povo guerreiro conquistado pelo Império Inca e quase dizimado pelo Espanhol. Sobreviveram, se não pela fé, pela palavra. Ama sua, ama llulla, ama quella - não seja ladrão, não seja mentiroso, não seja ocioso -, saúdam-se ainda em quechua alguns moradores de pequenas vilas nos arredores da cidade.
Um ano antes, na bucólica Llata, capital da província de Huamálies, casavam-se Otilia Galvez Valdivia e Alfonso Valdivia de Alarcón. Da união,  além de Glória, nasceram Carlos, com quem la hermana mayor passou muitas tardes jogando xadrez, e a caçula Fresia, filha da capital peruana, onde a família passou a residir por conta do trabalho de Alfonso como professor da Gran Unidad Escolar Ricardo Bentín.
Glória herdou da mãe a inquietação que se propaga nas ondas do cabelo, a força exposta nas molduras semelhantes de seus olhos e a elegância esculpida em seu nariz esguio. Do pai, a maestria com as palavras. Sócrates, como foi chamado por seus amigos de juventude, não foi filósofo. Por um triz. Foi poeta. Em seus versos cantou Cotahuasí – “sua Itabira”[4] -,  amores, aprendizados e lugares pelos quais passou. A cidade natal de sua primogênita definiu como “Un paréntesis de eucaliptos señoriales / hamacando su sí pausadamente, / pinceladas que sonríen entre las vértebras del Ande,/ es tal vez la perspectiva de algún embrujado Edén.”[5]
Embora tenha um berço detido pela beleza da cadeia de montanhas, Glória logo foi levada pelos pais para viver a orillla da saída para o mundo pelo Pacífico. Foi em Lima, durante a secundaria, que corresponde ao Ensino Médio no Brasil, que teve a oportunidade de fazer sua primeira viagem internacional quando um concurso literário promovido pela Cruz Vermelha a levou para o Canadá.
Viajar é ir e vir com o coração abarrotado de saudade, ou “cargadito de recuerdos”[6], como traduziria nossa escritora. Recuerdos que despertam nossa consciência para o que nos é alheio e apuram nossa percepção para reparar no que sempre esteve debaixo de nosso nariz. Tomada pelo desejo de conhecer o próximo e conhecer-se pelo próximo, Glória estudou seu primeiro curso superior na Escuela Nacional de Turismo, também na capital peruana, graduando-se em 1971.

CATAVENTO

“Minha palavra favorita do português é catavento.”[7]
O catavento é um utensílio simples que aponta a direção dos ventos que o movem. É também um brinquedo, cujas lâminas em papel colocadas sobre uma vareta se parecem a um ventilador. Como o catavento, Glória deixou-se levar por ventanias de vocábulos, indicando uma direção a outros profissionais da educação e divertindo as crianças com seus jogos palavras.

***

Ainda na década de 1970, os ventos em Lima apontaram em direção ao Brasil. Ao chegar, Glória escutou muitas vezes: “Fulano está com dor de cotovelo.” Eram tantos os Fulanos que se assustou com o que lhe parecia ser uma epidemia e, prontamente, buscou um farmacêutico para dar-lhe as instruções de prevenção. Logo descobriu que se tratava de uma expressão popular. Encantadora! E que a epidemia da qual sofria o país naquele momento era outra.
Sussuravam por aí: “Cuidado! não se pode falar isso.” “Não se pode dizer aquilo.”  O medo sufocante que silenciava era sintoma de um regime militar que repreendia os que ousassem tratar-se. Mas Glória, como boa latino-americana, soube amar nos tempos do cólera. Casou-se com um brasileiro, Gernote Kirinus, teólogo gaúcho de 1948, que se destacou na militância política durante a ditadura brasileira, experiência que resultou na obra “Entre a cruz e a política”.
Na festa de casamento gravada pelo Beta Clube Curitiba, vemos, entre chuviscos de baixa definição e as cascatas de renda que caem sobre o rosto de Glória, sorrisos e olhares trocados com noivo. Após receberem os convidados, o tradicional brinde cruzado e a valsa do casal. Tiveram três filhos curitibanos: Dante, Helmuth e Nanci Kirinus. Deram-lhes netos, para quem Glória cozinha riquísimos platos peruanos nos intervalos entre a Galinha Pintadinha e o som do violão do pequeno Eduardo.
Como “o amor facilita as coisas”[8], Glória rapidamente aprendeu português. Para desenvolvê-lo estudou Letras - Português na Universidade Federal do Paraná de 1983 a 1986.O idioma semelhante despertou-lhe mais interesse em sua língua nativa e de 1987 a 1991 estudou Letras – Espanhol na mesma universidade. Nesses anos, começou a escrever em português, depois em espanhol e, atualmente, grande parte de suas obras são bilíngües.
Aprofundou-se nos estudos literários com um mestrado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e obteve o título de mestra em 1992 através da dissertação “Entre-vivendo a conspiração mito poética da criança na pós modernidade”. O doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo foi concluído com a tese “Meia volta – volta e meia em torno das cantigas de roda de Cecília Meireles e Gabriela Mistral”, que lhe concedeu o título em 1998.
Para Glória, “a escrita tem seu tempo, seu aroma especial, sua alquimia”[9], como os chás. Sua infusão literária já havia começado a esta altura, sua primeira obra publicada foi: “O sapato falador”, em 1985, pela Nórdica. Poemas em português, em um jogo de palavras que promove “a comunhão dos opostos e o clarão de um olhar renovado.”[10] Desde então, lançou mais de 21 livros entre obras literárias “adulto-infanto-juvenil”[11] e livros teóricos, sendo o último “Te conto que me contaram” / “Te cuento que me contaron”, que saiu em 2017 pela Editora Inverso.  
Nossa escritora peruana também é professora e teve como primeira experiência docente o ensino de literatura brasileira em uma faculdade privada de Curitiba. Depois, trabalhou como professora dos cursos de Letras e Secretariado Executivo na PUC-PR campus Curitiba e ministrou aulas de Didática em diversos cursos da UFPR. Trabalhando em cursos de áreas distintas do conhecimento, como a matemática, Glória teve a oportunidade de conviver com pessoas cuja narrativa se apresentava em forma de números. E conseguiu fazê-lo também ao contar uma história unindo os números e as palavras: “Os números primos e seus sobrinhos”.
Além das aulas nas universidades, Glória ministrou diversos cursos e oficinas de escrita em muitas instituições. Atualmente, dedica-se ao seu projeto Lavra-Palavra. Os encontros têm o intuito de fazer com que os participantes reflitam sobre as palavras e as possiblidades de expressão. Para escrever, Glória diz que é preciso ser paciente, contemplar as palavras, pensá-las e então  delirar. Deste projeto saíram muitos escritores, daí o apelido dado por um amigo: “fábrica de poetas”.[12]
Essa fábrica de poetas acredita que, na verdade, todos têm uma sementinha de poesia dentro de si esperando para ser regada. É, portanto, uma espécie de lavradora. E diz que, às vezes, precisa se segurar para não pedir às pessoas com quem conversa: “ei, anota aí, você acabou de dizer dois versos.”[13] Foi assim, sabendo ouvir, que Glória começou a escrever. 
Foi ouvindo outros idiomas, aprendendo-os, que reparou no seu castelhano. Algumas línguas levaram-na. Fizeram-na girar como o catavento. O inglês, sua segunda língua, levou-a ao Canadá.  O francês, à França, para estudar um pós-doutorado em Sociologia na Université Paris Descartes. O português a trouxe. E trouxe-lhe: amor, família e poesia. É sua “língua literária”[14], a língua que poetizou seu castelhano.
Sobre o espanhol Neruda escreveu: “Qué buen idioma el mío, qué buena lengua heredamos de los conquistadores torvos... Estos andaban a zancadas por las tremendas cordilleras, por las Américas encrespadas, buscando patatas, butifarras, frijolitos, tabaco negro, oro, maíz, huevos fritos, con aquel apetito voraz que nunca más se ha visto en el mundo... Todo se lo tragaban, con religiones, pirámides, tribus, idolatrías iguales a las que ellos traían en sus grandes bolsas... Por donde pasaban quedaba arrasada la tierra... Pero a los bárbaros se les caían de las botas, de las barbas, de los yelmos, de las herraduras, como piedrecitas, las palabras luminosas que se quedaron aquí resplandecientes... el idioma. Salimos perdiendo... Salimos ganando... Se llevaron el oro y nos dejaron el oro... Se lo llevaron todo y nos dejaron todo... Nos dejaron las palabras.”[15]
O português é também ouro deixado pelo colonizador. E Glória sabe tratar cada pepita de português e de espanhol com a destreza de um ourives. De un orfebre.  Coincidentemente, nossa “peruana do Brasil e brasileira do Peru”[16] recebeu um nome comum aos dois idiomas. Entre tantas buenas cosas, en portugués y en español, Gloria es: persona que ennoblece o ilustra en gran manera a otra u otras. Glória enobrece a todos que têm a sorte de entrar em contato com seus versos, seja pela palavra escrita ou falada. Así que mi palabra favorita del español es Gloria. Do português, também.

NOTA DA AUTORA

No dia 31 de maio de 2017 durante, a convite da professora Marcella Lopes Guimarães, Glória Kirinus, professora e escritora, e Eleidi Freire Maia, professora aposentada e geneticista, apresentaram-nos suas trajetórias na aula da disciplina de Teoria da História e Historiografia do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná para que pudéssemos escolher alguma delas e biografá-las. Imediatamente após ouvir suas falas, decidi-me por escrever sobre Glória pelo gosto que tenho pela literatura e pela proximidade que senti em nossas experiências com o português e o espanhol.
 Mas se escrever a biografia de alguém é um desafio, como aponta Dosse no título de sua obra estudada na disciplina, escrever a biografia de alguém que lida tão bem com as palavras me pareceu um desafio ainda maior. A tentação de fazer-lhe perguntas e deixar que construa a narrativa, transformando-a quase em uma autobiografia, é grande. Por esse motivo, optei por fazer-lhe apenas duas perguntas cujas respostas seriam os títulos dados as suas fases de vida no Peru e no Brasil. Sim, comecei pelo título.
Essas perguntas foram inspiradas por um projeto realizado pelo Instituto Cervantes em 2011 para celebrar o dia 20 de junho, o Día E, que comemora, desde 2009, o a língua espanhola.[17] Neste projeto, perguntou-se a uma série de falantes da língua conhecidos (Ricardo Darín, Mario Vargas Llosa, Antonio Banderas, Shakira, Margarita Salas, etc.) qual sua palabra favorita do espanhol. Perguntei a Glória sua palavra favorita do espanhol e do português, mas, diferente do projeto, não pedi que as explicasse ou se explicasse.
Nossas coisas preferidas mudam frequentemente, mas no momento da pergunta as palavras favoritas de Glória foram golondrina e catavento. Para escrever assisti e li muitas entrevistas. Nessas, Glória sempre fala de sua trajetória de maneira poética, diz-nos muito de suas sensações, como percebe a vida, porém revela poucos dados de sua vida pessoal. Assim que também precisei investigar seu perfil social do Facebook e servir-me de algumas informações encontradas nos perfis de seus familiares, sobretudo no de seu irmão Carlos.
As notas, optei por deixar ao final para não interromperem a narrativa, pois são somente referências dos lugares de onde vieram e não informações essenciais para compreender o texto no momento da leitura. Coloquei-as também sem preocupar-me com as normas da ABNT, usufruindo da liberdade da proposta do trabalho. As fotos do final têm, igualmente, suas referências.

A biografada Glória Kirinus, no dia 31/05/2017, quando compartilhou com os alunos da turma a sua trajetória. Foto da criadora do blog.

A biógrafa Thaís do Rosário, em fotografia do álbum do FB, de 2016.



NOTAS


[1] Thaís do Rosário é aluna do Mestrado do PPGHIS – UFPR e pesquisadora discente do NEMED (Núcleo de Estudos Mediterrânicos).


[1] Glória respondeu à pergunta: “¿cuál es tu palabra favorita del español?” via Facebook, no dia 29 de junho de 2017.

[2] É a 14ª faixa do CD “Fina estampa”, lançado em 1994.

[3] Glória se define assim em http://gloriakirinus.com.br/

[4] É assim que Glória se refere a Cotahuasí, comparando-a  a Itabira de Carlos Drummond de Andrade, no blog dedicado à memória de seu pai: http://amautadecotahuasi.blogspot.com.br/

[5] O poema também está disponível no blog supracitado.

[6] Essa tradução foi feita no livro “Te conto que me contaram”/ “Te cuento que me contaron”, publicado pela editora Inverso.

[7] Glória respondeu à pergunta: “qual sua palavra favorita do português?”via Facebook, no dia 29 de junho de 2017.

[8] Frase de Glória em apresentação de sua trajetória, a convite da professora Marcella Lopes Guimarães, na disciplina de Teoria da História e Historiografia do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná, no dia 31 de maio de 2017.

[9] Em encontro do Lavra-Palavra gravado e exibido pela TV É Paraná no programa Gente.com, disponível em: https://goo.gl/tco3N2

[10] Descrição do livro em http://gloriakirinus.com.br/

[11] Fala de Glória em sala de aula durante sua apresentação do dia 31 de maio supramencionada.

[12] Informação dada pela entrevistadora, Mira Graçano, no programa Gente.com.
[13] Fala de Glória na entrevista a Mira Graçano.

[14] Dizeres de Glória na mesma entrevista.

[15] Pablo Neruda em sua autobiografia “Confieso que he vivido”.
[16] Também é parte da autodefinição de Glória em seu site.

[17] O projeto está disponível em: https://goo.gl/3LmJVE

segunda-feira, 6 de março de 2017

Memória e demolição

Essa história começou há alguns anos, desde que mudei de trajeto para conduzir a filha à escola. Nenhuma inclinação por novidades me motivou a alterar o trajeto que seguíamos; foi a proibição de conversão em uma das ruas que me fez pensar em alternativas. A alternativa que afinal considerei mais adequada incluía passar diariamente em frente à casa de uma grande amiga, o que seria ótimo, pois, mesmo que eu nunca a visse naquele horário em frente à própria casa, olhar para sua fachada era uma forma de dizer olá. Logo depois de passar por essa casa querida, eu teria de dobrar à esquerda, seguir mais alguns metros, até dobrar novamente, desta vez à direita, contornar uma rotunda e voilà: tchau, filha, boa aula!
Entre a dobrada à esquerda depois da minha amiga e a dobrada à direita, antes da rotunda, descobri uma casa azul. Uma casa toda de madeira, na esquina, pintada de um azulão, entre o meia noite e o safira..., ou seja, um azul corajoso para se ostentar pelo meio da rua. Foi amor à primeira vista.
Todo dia, encontrava novos encantos na casa: quintal com varais repletos de roupas dançantes, o que me fazia pensar na quantidade de gente que devia morar na casa, mas que eu nunca via naquela profusão; mandalas coloridas nas janelas, que me faziam imaginar que a casa era vaidosa por usar aqueles brincos bonitos; árvores, arbustos e flores em adorável liberdade, sem a coerção dos jardineiros contratados; uns tufos de gramíneas no telhado, que davam um aspecto de cabelos curtinhos e cheios de estilo... Uma casa que convidou o tempo de forma muito clara para habitá-la, o que incluía a necessidade de reparos..., mas tão bonita na sua maturidade que me parecida orgulhosa da sua decadência! Eu gostava mais dela por isso, por ser meio decadente e feliz, vestida de azul.
Todo dia, dávamos olá para a casa azul, eu e a filha. Com o passar do tempo, só eu passei a saudá-la, sob o silêncio de uma filha meio envergonhada da brincadeira; uma filha em pré-adolescimento. Mas eu sou determinada, passei até a diminuir a velocidade do carro, ooooláááááááááá, caaaasaa azuuuuuulll! E foi tanto o meu amor pela casa que inventei uma história sobre ela – a história de amigos que se encontram no portão depois de muitos anos... Não, nunca publiquei essa história.
Um dia, a amiga querida a quem eu ainda digo olá quando passo em frente à sua casa me contou que a minha casa azul estava à venda. Enviou mesmo o anúncio para mim. Não demorei a perceber que, embora precisada de cremes anti-idade de última geração ou até de enfrentar uma intervenção mais radical, a casa azul era muita areia para o meu carro popular. Encarei os fatos: a casa estava no meio de um quintal muito grande para aquele bairro, bom para construir...; estava situada em uma esquina pra lá de bem localizada... Era atraente para quem não teria o menor interesse pela sua beleza de tufos no telhado.
Mantive uma esperança de condenado: talvez a casa tivesse outros apaixonados, alguém mais abonado haveria de desposá-la para uma vida de mútuo respeito!!! Minha esperança durou alguns dias, menos do que pensei, levando-se em conta o preço anunciado... Logo, as mandalas sumiram e as janelas se fecharam.
Não descobri sozinha o destino da casa. Em um dia em que não fui levar a filha por qualquer impedimento, recebi a notícia de que pessoas se agitavam no terreno para desmanchá-la. Aquilo me fez tão triste que pedi ao mensageiro que naquele dia fatídico também buscasse a filha. Mas não consegui fugir ao enfrentamento da realidade. Um dia, eu me deparei com a casa sem teto.
Parei o carro. A filha se assustou. Mãe?... Só uma foto; só uma lembrança. Tirei duas fotos. Nos outros dias, acompanhei a demolição. Parei o carro novamente. A casa azul reduzida a uma imensa pilha de tábuas. Falei aqui em casa que queria uma das janelas de recordação, se viessem com os brincos ainda ia gostar mais! Onde você colocaria essa janela, mãe? Eu a colocaria deitada no lugar do corrimão que arranquei, só para poder acariciá-la...
Uma janela que vira corrimão é mesmo coisa da sua imaginação!...
Vi quando o caminhão começou a carregar as tábuas. Nos outros dias, a terra foi aplainada; sumiram até as flores e arbustos livres que faziam companhia aos varais. Um dia, porém, reparei que em um canto, havia uma coisa amarela no terreno sem graça. Mas a pressa me abrigou a seguir em frente. Mãe, estamos atrasadas? Só em cima da hora.
Fiquei intrigada com aquela coisa amarela, ao longo do fim de semana, e na segunda descobri que se tratava de um sofá. Um sofá amarelo-gema-caipira havia sido esquecido ali. Esquecido ou deixado de propósito? Um dos antigos moradores da casa teria deixado o sofá para algum amigo, que, naquele dia, ou no dia seguinte, passaria para pegar o presente? O fato é que se fosse o caso a pessoa demorava e, pela primeira vez, tive vontade de ter um carro maior e me converter ao crime...
 A vontade passou. Fotografei o terreno com o sofá, imaginando se descansariam ali espíritos de antigos moradores depois de um alegre sabá! Ri até da inovação do diabinho anfitrião, que escolheu um sofá amarelo para repousar os foliões dos festejos. Que animação!
Eu já me mudei muitas vezes. A casa em que morei há mais tempo é a casa em moro hoje, uma casa de que gosto muito. Esta casa é a casa da filha, entretanto, que nasceu aqui... Toda vez que pensamos deixá-la, a filha protesta e a gente se cala, em respeito. Ainda que esteja tão bem onde estou, não conheço o sentimento da filha. Meu sentimento pela casa azul defunta também não me parece semelhante ao sentimento da filha. A filha habita essa casa com suas travessuras, malcriações, sonhos e memórias; eu habitei por anos a casa azul com minha imaginação.
Ao longo desta semana, vou esperar que o sofá tenha sobrevivido à chuva do fim de semana e que seja logo resgatado pelo amigo que imaginei acima. Não estive entre os herdeiros nem da janela, nem desse sofá... Só tenho memória inventada e três fotografias: duas da minha casa azul sem o teto, o que me faz cantar a “casa muito engraçada”, e uma do sofá amarelo, que compartilho afinal aqui.

Se vou mudar de trajeto, para não confrontar meu luto com o espírito de seguir adiante, concretizado por uma nova edificação? Vou continuar meu caminho, levando a casa comigo, afinal quem é que me garante que aqui, onde estou, na casa da filha, não se organiza uma rave de espíritos inquietos das antigas edificações sufocadas, quando a gente tira férias e vai viajar, ou quando vai dormir?

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Os esquecidos

Outro dia em minha aula de francês, meu professor nos apresentou a canção “Toi et moi” de Tryo:

Ce matin, 3000 licenciés, greve des sapeurs pompiers,
Embouteillage et pollution pour Paris agglomération (...)

Toda a canção se remete às notícias que nos assomam todas as manhãs: desemprego, mortes nas cidades, crise política, epidemias... No vídeo clip, uma pessoa caminha e só interrompe seu percurso quando o refrão é entoado:

Toi et moi, dans tout ça, on n’apparaît pas,
On se contente d’ être là, on s’aime et puis voilà on s’aime.
Toi et moi, dans le temps, au milieu de nos enfants,
Plus personne, plus de gens,
Plus de vent, on s’aime.

Eu acho o refrão otimista-pé-no-chão. Trata-se de manter uma esperança atenta, como nos lembrou Paolo Rossi e eu mesma no Diálogo sobre o tempo, “sem ceder às ilusões (...) continuar a viver com uma dose suportável de angústia (...), “perseverar em um mundo imperfeito” (ROSSI, p. 110). No dia em que comecei esse texto, tinha sido surpreendida por duas notícias chocantes em sua diferença que me levaram a um estado de espírito bastante contrário a qualquer otimismo[1]..., ou seja, passados alguns dias do impacto ainda faço um esforço homérico para manter essa disciplina sugerida por Rossi. Quando emprego homérico, também afirmo politicamente a minha defesa de uma educação em que os alunos e as alunas compreendam o uso do adjetivo nessa frase.
A canção de Tryo, entretanto, levou-me a pensar nas notícias repetidas, ou seja, na profusão que atrapalha a conservação de imagens em nossa memória. Está claro para mim que não dá para viver como Funes, o memorioso (refiro-me ao personagem do conto homônimo de Borges) e que o poema de Brecht “Elogio ao esquecimento” nos lembra que esquecer também nos habilita a prosseguir:
Bom é o esquecimento!
Senão como se afastaria o filho
Da mãe que o amamentou?
Que lhe deu a força dos membros
E o impede de experimentá-la.
(...)
Como se levantaria pela manhã o homem
Sem o deslembrar da noite que desfaz o rastro?
(...)
A fraqueza da memória
Dá força ao homem.

Eu compreendo tudo isso e acho que, se estamos em plena saúde, nosso cérebro realiza naturalmente as operações químicas que garantem que não vamos morrer como Funes. Não tenho conhecimento para falar desse esquecimento útil, a canção de Tryo e as imagens dispostas no vídeo clip me levaram ao esquecimento deliberado, pois assim como a memória pode ser forjada, o esquecimento pode ser o resultado de uma operação externa à fisiologia.
Em 2011, um caso chocou o Brasil: em Curitiba, um casal, depois de ter realizado um tratamento bem-sucedido de fertilidade, resolveu abandonar uma de suas trigêmeas (já não me lembro se eram todas meninas...). Essas pessoas teriam afirmado às suas famílias ao longo da gestação que só esperavam duas crianças e teriam panejado secretamente encaminhar uma das recém-nascidas à adoção. Seus planos foram revelados pelos profissionais que assistiram ao parto. Esse caso levantou uma série de debates e rapidamente foi enquadrado em segredo de justiça. Consequência ou não dessa decisão, o fato é que eu nunca mais ouvi falar disso e esta manhã, ao pesquisar no google “caso trigêmeos Curitiba 2011”, não obtive nada diferente do que já havia sido publicado em 2011, quando as crianças nasceram. Naquela altura, falou-se que um tio pedira a guarda provisória dos bebês; falou-se que o casal estava arrependido; que a mãe, que teria se recusado a amamentar a criança rejeitada no hospital, não poderia ficar longe dos filhos, justamente para amamentá-los; que afastar pais e filhos era cruel. Desconheço a solução do caso. As crianças têm hoje 5 anos. Eu me lembro bem da minha filha com cinco anos, afinal há dois anos(!), impressionante inteligência e percepção! Só que ela não era diferente de qualquer outra amiguinha ou amiguinho em sua sala de aula, uma surpresa e alegria ambulantes para os pais boquiabertos e bobos...
Eu faria um bem à criança rejeitada escrevendo esse texto? Não seria melhor esquecer e prosseguir? Já conheci mulheres que, ao se descobrirem grávidas, ficaram desesperadas, mas que resolveram levar adiante a gravidez e foram muito autênticas na revelação do seu “não sabia o que fazer” aos seus próprios filhos, que afinal descobriram que suas mães também tiveram medo. Atenção: para mim, minhas amigas e o casal que referi acima são muito diferentes. Minha comparação se funda na necessidade da narrativa.
Embora reconheça (e já tenha escrito nesse blog) que a gente tem muita curiosidade pela vida alheia, eu queria saber o que aconteceu com as crianças que nasceram em 2011 aqui na minha cidade, queria saber se o casal que decidiu rejeitar uma delas já foi julgado pela justiça por abandono e queria conhecer a conclusão do caso. Não usei a palavra perdão, ou perdoado pela justiça, pois não acho que o perdão seja da esfera pública[2] ou que seja “institucionalizável”; ele não deve excluir a vivência de todo o rito da lei. No caso específico do casal de Curitiba, eu não sei se eles puderam se perdoar e confesso que não tenho interesse nisso. Não tenho interesse em ser incluída nesse nível de intimidade.
Vejo minhas amigas, outrora desesperadas, estreitando os filhos em seus braços e afirmando que eles são sua maior surpresa. Afirmam isso para eles e elas! Eu tive de superar dois sentimentos graves para aprender com elas uma coisa importante. Tive de superar minha inveja da sua surpresa quando tentei por anos engravidar e o horror de sentir inveja de quem amo. Felizmente, eu superei ainda antes de me descobrir, com grande admiração também(!), grávida. A coisa importante que elas me ensinaram foi a decisão de não refutar nada em sua biografia e amar os frutos da surpresa com todo o restante heterogêneo de sentimentos: on s’aime et puis voilà, on s’aime. Elas me ensinaram na prática, antes da disciplina histórica, que é saudável não esquecer.
Se a doença não nos surpreender, não corremos o risco de ser como Funes, até porque ele é um personagem de ficção... As misteriosas operações químicas do nosso cérebro vão se encarregar de fazer com que sejamos capazes de prosseguir. Nosso coração, ninguém mais, vai determinar o que é possível perdoar, se valemos mais que nossos atos[3]...  No caso da sociedade, acho como Ricoeur, que ela “não pode estar indefinidamente encolerizada contra si mesma” (p. 507), mas, como Freud, que é preciso evitar a repetição do mesmo, pela memória e pelo reconhecimento.
Jamais soube se o assassino da menina Raquel Genofre, encontrada morta em uma mala, na rodoviária de Curitiba, (no mesmo ano de 2011 dos trigêmeos) foi descoberto... Sei que 48 horas depois do vazamento de graves revelações de Romero Jucá, o personagem havia sido reduzido a duas linhas da primeira página de um certo grande veículo, pronto para ser esquecido. Em uma das cenas do vídeo clip de Tryo, o personagem precisa prosseguir a sua travessia a despeito dos jornais que o ameaçam... Releio essa cena com o repertório de sofrimento da semana, consciente de que a profusão cega tanto quanto a decisão mais leviana de esquecer. Como minhas amigas, eu não acho que dá para varrer a sujeita debaixo do tapete (ou simplesmente se livrar do busto do opressor[4]), porque a casa fica suja do mesmo jeito e ameaça, com a sua “ausência” insidiosa, a saúde de todo mundo que vive dentro dela.

Indicações:
Para ouvir a canção “Toi et moi” de Tryo: https://www.youtube.com/watch?v=tRSBse5oFug

BORGES, Jorge L. Ficções. São Paulo: Globo, 1998.
BRECHT, Bertold. Poemas 1913-1956. Seleção e tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Ed. 34, 2000.
RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas (SP): Ed. da UNICAMP, 2007.
ROSSI, Paulo. Esperanças. Tradução Cristina Sarteschi (1ª ed.). São Paulo: Ed. da UNESP, 2013.







[1] Eu me refiro à visita do ator pornô Alexandre Frota ao Ministro da Educação Mendonça Filho e ao estupro coletivo sucedido em Santa Cruz, no Rio de Janeiro.
[2] Remeto o leitor à pergunta de Klaus M. Kodale, que li no livro A memória, a história, o esquecimento de Paul Ricoeur: “os povos são capazes de perdoar?”. Ricoeur responde: “A resposta é infelizmente negativa” (p. 483).
[3] Estou retomando mais uma vez o livro de Ricoeur na sua parte final, voltada ao “Esquecimento”.
[4] Remeto-me à polêmica que cerca a volta ou não do busto de Flávio Suplicy de Lacerda à Reitoria da UFPR.