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segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Ler os pares: uma reflexão sobre o diálogo que acontece nas referências bibliográficas

Há algumas semanas, estive envolvida com a leitura do livro Os dois lados do balcão: armazéns e cotidiano em Irati/PR (1907-1970) de Neli Maria Teleginski. Eu incluí o livro de Neli na minha disciplina de História e Cultura da Alimentação e programei com os alunos do CAN (Centro Acadêmico de Nutrição) uma tarde consagrada à reflexão sobre a obra e sobre a História da Alimentação no Paraná, com a presença de Neli! Ela veio de Guarapuava e compartilhou conosco suas pesquisas e sua paixão pelo tema. O primeiro slide que mostrou emocionou-me particularmente, pois lá estava o grande mestre Prof. Dr. Carlos Antunes, que se consagrou ao campo da História da Alimentação no Brasil e que formou tantos quadros no PPGHIS-UFPR: colegas que têm se destacado na área. Neli foi orientanda de Carlos Antunes no Mestrado e de Karina Belloti no Doutorado. Ler o livro de Neli me fez pensar no universo que ela abraçou obviamente, mas me levou a outros lugares.
Os dois lados do balcão: armazéns e cotidiano em Irati/PR (1907-1970) foi prefaciado pelo querido colega Euclides Marchi e é resultado da dissertação de mestrado de Neli. A pesquisadora partiu da emancipação política de Irati (1907) e terminou seu exame com a chegada dos supermercados no município (anos 70), que segundo ela, mudaram as relações com os ambientes plurais com quem trabalhou: as bodegas. A obra de Neli compartilha com os leitores documentos fotográficos ricos, que não comparecem ao texto como ilustrações, mas como fontes; testemunhos; peças de publicidade e quadros muito elucidativos. Há um universo diverso (adoro essa rima, desculpem...), entre os quais ela se agita sem fazer esvoaçar a diversidade na bagunça, é justo o contrário: Neli areja a documentação, espanta o mofo e “se senta” para escutar as respostas com abertura, com acolhimento. Por que ressalto isso? Porque não há nada mais chato para mim que ler uma “pesquisa” que vai aos documentos apenas para confirmar as respostas que o pesquisador já possuía antes de ter ido lá. Se não tem surpresa; se não somos obrigados a refazer trajetórias e a repensar caminhos... qual é a graça?! Qual é a relevância? Isso não significa que a gente não tenha as nossas hipóteses! Claro que temos e elas podem ser confirmadas obviamente, mas e o tanto que se descortina a nossos olhos? Se não temos disposição para a surpresa, a pesquisa não deslumbra, não vislumbra. Os três leitores fieis do blog vão dizer que sou romântica. Terão acertado, mas também posso escrever de forma mais impessoal: se vamos aos documentos apenas para confirmar as hipóteses, a pesquisa não agregará elementos novos ao estudo do tema. Ficou bom?
O primeiro desafio de Neli foi verificar que o tal termo bodega não aparecia na documentação. Ela se inibiu? Buscou outras palavras? Não, foi em busca de entender por que a palavra que designava a realidade em questão era preterida. Descobriu associações que inibiam os comerciantes. Bodega é coisa suspeita, negócio de vender bebida... Então, bora preferir armazéns e secos e molhados, na hora de pedir alvarás!
“Com relação ao abastecimento, até o início do século XIX não havia se estabelecido no Paraná uma estrutura voltada para suprir as necessidades alimentares da população” (pág. 107). É aí que entram em cena as bodegas! Ainda que Neli se identifique como pesquisadora da História da Alimentação, sua obra trata muito de economia e de abastecimento, que obviamente completam o seu campo de eleição. Neli aborda ciclos econômicos e está todo tempo entre o geral (Paraná e Brasil) e o particular, Irati. O que quero dizer é que Neli não isola Irati, o município é parte de um conjunto de relações políticas, sociais e econômicas em movimento no Paraná desde o século XIX. Nisso, sentimos a inspiração da obra História da Alimentação no Paraná[1] de seu mestre Antunes. Mas Neli tem uma relação saudável com seu orientador e em alguns momentos vai além das conclusões dele. Tenho certeza de que Carlos apreciou isso.
As bodegas haveriam de ser o abastecimento possível em um Paraná que teve de lidar com ondas de crise nesse campo, resultantes do protagonismo da cultura do mate e da pecuária. Mas esses ambientes favoreceram outras experiências além do provimento necessário à manutenção da vida das famílias. As bodegas disseminavam informações; eram palco de uma convivência mais amena, regada a “líquidos espirituosos” (gente, que expressão!); oportunizavam escoamento de produção local; viabilizavam as condições para melhorias dos núcleos urbanos e até trabalho (trabalhadores engajados em melhorias trocavam seu suor por produtos nas bodegas). Neli nos fala ainda dos imigrantes e da logística do abastecimento e da construção da ferrovia.
Uma das coisas mais interessantes da obra é a vida que pulsa nela: com a identificação das gentes, das bodegas e das querelas municipais! Os caderninhos de fiado, o prego, as padarias que se aborreciam com as bodegas que vendiam pão, a câmara que queria taxar os estabelecimentos segundo a diversidade dos produtos comercializados (a “fome” do município...), o esforço para garantir um matadouro com regras mais “modernas”, quando todas as pessoas matavam os bichos no fundo do quintal para fazer os cobiçados embutidos! Ai que vontade de conhecer Irati! Mas “a Irati de Neli” não é a Irati que eu vou conhecer se dirigir até lá... Na Irati que vou ver há supermercados. O livro de Neli chega ao fim.
A obra Os dois lados do balcão dialoga com um monte de gente. Eu descobri uma série de pesquisadores brasileiros que trabalham com bodegas em diferentes recortes históricos, espaços... Neli também buscou referências internacionais e as encontrou. Sua dissertação (lembra que eu falei no início que Os dois lados do balcão é resultado de sua dissertação?) é quase uma tese e, ainda que se diga na área que isso não é elogio que se faça, eu acho que é. Será que ignoro que dissertação e tese são gêneros acadêmicos diferentes? Eu não ignoro. Mas confio no potencial dos alunos e sei que eles nos chegam diversos na experiência de vida e repertório de leitura. Daí que o pesquisador discente pode estar maduro para vislumbrar muito mais do que apontou quando escreveu o projeto! E mais: pode dar conta disso! Ora, temos institucionalmente casos de pesquisadores que do Mestrado são alçados ao Doutorado direto, não?
Essa realidade me leva a outra. Eu fui testemunha de um entendimento muito significativo do que tem sido chamado de internacionalização entre nós. Parece que a área se volta à consideração da capacidade dos pesquisadores dos Programas de Pós de entabularem um diálogo com referências internacionais e atuais sobre os temas pesquisados. Isso se revelaria em produtos, como dissertações e teses. Eu acho esse entendimento muito bom. Não sei se as pesquisas de antiquistas e medievalistas brasileiros foram a inspiração para isso (!!), mas de fato desde que “nascemos” somos criados no diálogo com os le goffs, os dubys dessa nossa vida...; somos criados a aprender o francês, o alemão, o espanhol, o italiano, o latim, o grego...  
Na verdade, muito por causa dessa agenda que nos leva, como medievalistas consagrados a Portugal medieval, por exemplo, a ler todos os portugueses que ainda nos ignoram (desculpem-me, colegas portugueses que não nos ignoram, nós sabemos que vocês existem também!!), todos mesmo!, temos feito no Brasil um movimento muito significativo de nos conhecer melhor. Esse movimento tem animado o diálogo entre os grupos e tem nos dado a convicção de que construímos um campo que não é um apêndice da área de História no nosso país. Quando afirmo que tenho orgulho de fazer História Medieval no Brasil, não estou gritando uma bravata, mas reconhecendo que trabalho em/com campo maduro que me permite citar especialistas em bom português do Brasil. Foi o que fiz muito simplesmente quando fui professora visitante na Universidade de Poitiers (França) em 2014.
Eu já critiquei (e elogiei, preciso ressaltar) um belíssimo livro de medievalista brasileira por quem tenho grande respeito (que felizmente não guardou mágoa acadêmica de mim), em cuja bibliografia quase não havia os pares brasileiros, e hoje fico a pensar que o entendimento da área, mesmo sem ler o livro (que eu li inteirinho e cito!), mas só por folhear a bibliografia, haveria de considerá-lo extraordinário pela sua internacionalização!
O diálogo com a mais completa e diversa bibliografia que pudermos ter acesso nos permite ir mais longe, porque pesquisa que se preze é feita no encontro. Mais uma vez, repiso minha tristeza com a desvalorização dos resultados dos eventos propiciadores de tantas trocas, o assassinato dos anais[2]... Mas o entendimento equivocado da internacionalização (conceito sumamente valorizado hoje) pode nos fazer perder o que conquistamos, em termos de valorização do conhecimento produzido entre nós. Essa é uma questão política séria. Que tenhamos equilíbrio!
Neli Maria Teleginski estudou armazéns de secos e molhados franceses e argentinos, a partir de bibliografia internacional; leu especialistas da História da Alimentação brasileiros e estrangeiros; a bibliografia da sua dissertação de Mestrado é vastíssima! Se eu tivesse tido o prazer de integrar a sua banca, teria feito o elogio “torto” de que sua dissertação é quase uma tese, ela teria sorrido; eu teria ressaltado o equilíbrio entre as partes e uma dezena de outras coisas que não escrevi aqui; teria elogiado o fato de ela conhecer seu campo, os seus e lhe teria dito que se tornou também minha referência bibliográfica.
De onde saíram esses pares para posar para a foto, há mais, nas áreas de História, Literatura e Filosofia. (Colega, se vc não está na foto, é só porque não caberia todo mundo, vc está no coração e nas referências!!!)



[1] SANTOS, Carlos R. Antunes dos.  História da Alimentação no Paraná. Curitiba: Fundação Cultural, 1995. (Há uma nova edição da Ed. Juruá, de 2010).

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Pequeno tutorial para os congressistas de primeira viagem (entenda-se por congressista no caso aquele que participa de congressos acadêmicos)

Na semana passada, participei do VII Ciclo Internacional de Estudos Antigos e Medievais (CEAN) do Núcleo de Estudos Antigos e Medievais da UNESP – Assis/Franca – Brasil, que aconteceu este ano em Franca. O título do evento foi “História e Arqueologia nos laços culturais entre a Antiguidade e a Idade Média” e o subtítulo foi “Homenagem aos nossos ex-alunos e demais amigos”. O evento começou na 2ª, dia 18/9, e terminou na 6ª, dia 22/9. Eu cheguei a Franca dia 19, mas só tive condições físicas de participar dos trabalhos a partir da 4ª, dia 20, dia mesmo em que falei.
Queria apontar 2 aspectos essenciais na experiência de que vivi de 4ª a 6ª feira: a reunião de antiquistas e medievalistas e o subtítulo do evento. Em relação ao primeiro, o ciclo me permitiu aprender à beça. Eu adoro aprender e os temas foram os mais variados: desde festas e festivais, até vidas de santos ou hagiografias, modelos imperiais e anti-modelos, cultura material (o que foi aquela coluna romana no castelo cruzado???! Spolia[1]!); experimentei ampliar o que eu mesma julgava saber sobre o vinho[2]; sobre as continuidades e descontinuidades semânticas de vocábulos medievais; animou a necessidade que devemos nos impor de voltar às fontes e interromper a cadeia de citação sistemática dos erros de intérpretes de prestígio; ampliei minhas referências; refleti sobre respostas dadas pelas sociedades do passado a problemas que parecem próximos aos que vivemos... Minhas anotações foram mais robustas para a aquilo que preciso estudar mais ou que ignoro. Tive de pedir um bloquinho novo...
Em reação ao subtítulo, foi com forte emoção que me vi entre os “demais amigos” e disse, antes de proferir a minha palestra na 4ª feira que estava feliz não por receber homenagens, mas por estar bem acompanhada e foi assim que estive sempre em Franca! Revi pessoas que respeito muito, por quem tenho grande afeto, amizade, algumas que eu conhecia há um certo tempo, mas exclusivamente no ambiente virtual (tendo mesmo participado de suas bancas por skype!!!). Vi o carinho com que os ex-alunos, ex-alunas, alunos e alunas da Profa. Margarida Maria de Carvalho que me convidou para o evento a tratam. São algumas dessas pessoas professoras doutoras de instituições de prestígio, pesquisadoras jovens de muita expressão! Eu reparei e fiquei comovida com seu desvelo [Digressão rapidinha: quando eu estava no Mestrado, esperava na porta da Faculdade de Letras até ver D. Cléo chegar, dirigindo o seu automóvel Santana e lá ia eu, apostando corrida com meu amigo José Elias Néder Jr[3], até o estacionamento para pegar a mala, Os Lusíadas, as folhas, ou o que quer que ela quisesse me entregar. Às vezes, ele pegava mais livros, era muito sedutor!, e eu lhe tinha ódio mortal! Fizemos essas coisas para o querido Ronaldo Lima Lins. Também carreguei com gosto bolsas de Teresa Cristina e, em Franca, tive meu revival, quase empurrando os ex-alunos, para ter o privilégio de carregar a pasta preta da colega Margarida Maria de Carvalho rsrsrsrs. Para quem nunca admirou de verdade os seus mestres e percebeu que eram só humanos envergando com o peso desgraçado de suas pastas e mochilas, essa digressão, já meio (muito) longa ressoa à pura puxação de saco... Desolée! Sqn...]
Eu vi muito jovens pesquisadores, alunos de graduação, mestrado e doutorado; havia mesmo os nossos jovens, da UFPR! Fotografei todo mundo, esses jovens e os colegas de Antiga e Medieval em suas mesas. Coloquei-os todos em minha TL do FB, pois se escolhi permanecer nessa rede social, a despeito de minhas vontades semanais de abandoná-la, é para fazer a difusão em grande medida do que me afeta. A pesquisa me anima!
Li comentários diversos dessas fotos, que eu publicava com o título da mesa ou do simpósio. Li de colegas o desejo de ler os textos apresentados e lamento sinceramente que minha área tenha destruído os anais como resultados desses grandes encontros científicos. Eu tenho em meu escritório anais estrangeiros recentes e brasileiros (até o início dos anos 2000) onde ainda colho referências. [Outra digressão rapidinha: eu sou fã de atas de congressos (babo nas minhas atas da Société des Historiens Médiévistes de l’Enseignement Supérieur Public, sociedade de que faço parte na França) e me incomodo muito com as explicações de gente que respeito para aprovar a sua destruição em nosso meio. Eles me dizem: Mas, Marcella, publicava-se tudo sem avaliação... Ora, sempre? Não é verdade. Portanto, é só mais um caso da vitória da prática desprezível sobre uma iniciativa legal. Para que serve um conselho, meu povo? Vou lamentar muito não ler os textos dos colegas que apresentaram pesquisas de muita qualidade no VII CEAN, mas eu compreendo que ninguém vá se esforçar para fazer essas atas, pois também ninguém vai querer publicar nelas e não enobrecer o seu lattes e avaliação quadrienal dos seus Programas de Pós].
Eu não vivo em congressos. Geralmente, escolho um ou dois em um ano, para vivê-lo intensamente. Mas já cheguei a congressos em um dia e voltei no mesmo dia, quando a filha era muito pequena, ainda mamava no peito... Ela ainda é pequena e é custoso para mim enfrentar a separação, mediada pelo avião. Estou convencida, porém, que a gente deve aproveitar essas oportunidades na sua amplitude. A gente aprende muito nessas reuniões, faz contatos importantes!
Porque já fui a muitos eventos e na esperança de ajudar a quem começa a frequentá-los, encerro essa memória de uma experiência recente tão maravilhosa como foi a do VII CEAN cumprindo a proposta do título dessa atualização de Literistórias rsrsrsrsrs.

Pequeno tutorial para os congressistas de primeira viagem
1. Você saiu de casa, conseguiu dinheiro para se deslocar (quer do paitrocínio, da mãetrocínio, do seu Departamento, do Programa de Pós...), para quê? Para ir ao congresso! Não é incrível?!

2. Congressos são experiências amplas! Se nos congressos são previstas pequenas viagens, vá a todas (só se aquela verba do item 1 der, é claro...); se foram incluídas visitas guiadas a acervos e museus, não perca!

3. Congressos são experiências amplas! – parte 2. Se você está em uma cidade totalmente nova até então para você, administre seu tempo para conhecê-la um pouco! Só não se arrisque como bicho solto, nem perca o foco: você foi participar de um congresso.

4. Congressos são experiências amplas! – parte 3. Conheça as pessoas! Aproveite os coffee breaks para conversar com professores e outros alunos. Em princípio, você vai encontrar gente com quem tem muitas afinidades intelectuais! Geralmente os professores que não fogem dos coffee breaks rsrsrsrs gostam de conversar com as pessoas.

5. Não tenha vergonha de fazer perguntas. Eu sei que pode ser uma experiência desagradável, se o palestrante for um ser arrogante. Mas vejo cada vez menos gente que se expõe assim (falo dos palestrantes). Se ficar inibido, tudo bem, aproveite o final da palestra ou o coffee break para conversar.

6. Não tenha vergonha de fazer perguntas. – parte 2. Só não seja o louco da palestra, falando sem objetivo (a não ser o de se exibir) durante o mesmo tempo que o palestrante teve para expor o seu texto e impedindo que outros tenham a sua oportunidade de perguntar também.

7. Faça muitas anotações, não só dos conteúdos das palestras, como dos autores citados pelos palestrantes, seus e-mails, e-mails dos colegas que você fez no congresso e nomes das instituições que se notabilizam nas pesquisas pelas quais você tem interesse.

8. Alimente-se bem, mas seja reservado nas experimentações gastronômicas. Já conheci gente que passou o congresso inteiro trancado no banheiro do hotel e eu mesma já vivi as agruras de uma intoxicação alimentar braba na Espanha (na véspera de minha conferência!). O que disse sobre reserva, vale para outras experimentações.

9. Deixe em casa todas as indicações de sua hospedagem, de onde o congresso vai acontecer, com quem você vai, horários de voos etc. Avise na chegada e faça contato durante o evento. Isso não é dar satisfação de sua recém adquirida liberdade, isso é sério.

10.            Se você vai viajar para um país estrangeiro, faça seguro.

Aproveite o congresso, faça novos amigos e conheça lugares. Isso é viver! No VII CEAN, vivemos em grande estilo!

Escolhi essa foto linda, tirada na 4a, dia 20/9, pois ela ilustra um pouco o que é viver um congresso: estar ao lado dos amigos, alunos e conhecer pesquisadores novos (no caso, a querida Graciela Noemí Gómes de Aso)



[1] De forma muito geral, reutilização de materiais.
[2] Remeto o leitor ao Diálogo sobre a alegria: entre a Filosofia e a História, em que eu e Jelson Oliveira escrevemos sobre “Beber” e, sobretudo, sobre o vinho!
[3] Meu Deus, quantas saudades de você, Zé!

segunda-feira, 24 de julho de 2017

O blog LITERISTÓRIAS completou 2 anos em 22 de julho e hoje tem presente: uma entrevista com a medievalista Maria Cristina Pereira!

Na apresentação do currículo lattes de Maria Cristina Correia Leandro Pereira, lemos que ela se formou em História pela UFRJ, em 1990, e defendeu o mestrado em História Social pela UFRJ, em 1993. Na época em que Maria Cristina era moça quase mestra, eu entrava na mesma UFRJ, só que para fazer Letras. Depois ela continuou seus estudos fora do Brasil: DEA em História pela Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (1997) e doutorado em História - Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (2001). Eu fiquei no Brasil e acabei por encontrar seu nome na área que me adotou, a área dela!, nossa!, a História. Atualmente ela é professora de História Medieval do Departamento de História da USP e do Programa de Pós-graduação em História Social da mesma universidade. Coordena o Laboratório de Teoria e História da Imagem e da Música Medievais (LATHIMM-USP), sobre o qual ela fala logo abaixo com mais detalhes. Tem pesquisas nas áreas de História, com ênfase em História Medieval e História da Arte, atuando principalmente nos seguintes temas: imagens, arte medieval, arte barroca, arte sacra.

Ano passado, Maria Cristina lançou o livro Pensamento em imagem. Montagens topo-lógicas no claustro de Moissac (São Paulo: Intermeios, 2016. v. 1. 275p). Conheço a sua obra há um tempo e a tenho indicado a meus alunos, sobretudo os textos que estão disponíveis na internet. Mas só conheci Maria Cristina pessoalmente em 2013, no X Encontro da ABREM (Associação Brasileira de Estudos Medievais), em Brasília. Há duas fotos nossas dessa época em meu perfil do FB e nas duas estamos lado a lado. Maria Cristina ama felinos, igual à minha filha Maria Clara, deve ser coisa de marias... rsrs e coleciona fantásticas imagens de grafites que ela compartilha em seu perfil do FB. Para fechar, uma coisinha que não posso deixar passar: adoro os cabelos de Maria Cristina!

Agradeço imensamente a ela o tempo que dedicou a responder às quatro perguntas que lhe enviei para essa edição de aniversário dos 2 anos de LITERISTÓRIAS! Esse caderno de notas virtual começou tão despretensioso e já entrevistou colegas importantes!!, que eu penso que Literistórias está se sentindo com o rei na barriga nesse seu aniversário... Obrigada a todos os colegas que entrevistei!

LITERISTÓRIAS: Maria Cristina, você é uma medievalista dedicada à pesquisa dos ornamentos e outras imagens nos manuscritos medievais. Que tipo de respostas o pesquisador pode obter ao voltar seus olhos e as suas questões a esse tipo de documentação?

MARIA CRISTINA: As imagens são uma fonte muito rica para os medievalistas – menos por seu caráter “arqueológico” (ou seja, de permitir a obtenção de conhecimentos concretos sobre a sociedade medieval através de representações mais realistas) e mais por seu caráter “teórico” (ao permitir conhecer mais sobre a cultura e o pensamento medieval). As imagens têm distintos usos e funções, que vão muito além da tão falada função didática, possuem modos de funcionamento complexos e a elas são atribuídos poderes de várias ordens. Um aspecto importante e que diz respeito a todos esses âmbitos é a ornamentação: as imagens, mesmo as mais figurativas, podem ornar objetos (roupas, livros, armas etc) e lugares (igrejas, claustros etc), colocando-os em destaque, embelezando-os ou mesmo trabalhando para seu bom funcionamento. A concepção medieval de ornamento é bastante afastada da atual, que o associa a algo supérfluo. Cito um exemplo, para ficar mais claro: em um manuscrito iluminado, muitas das letras iniciais podem ser ornamentadas, tanto com motivos não-figurativos, como folhagens, quanto figurativos, ou mesmo simplesmente com uma cor diferente do resto do texto. Essa ornamentação não apenas contribui para o embelezamento da obra e para torná-la um objeto de mais prestígio (digno de ser dado de presente a um grande senhor), mas também ajuda a organizar as divisões internas do livro e pode inclusive servir de suporte para comentários visuais ao texto.

LITERISTÓRIAS: Fale um pouco sobre a diversidade de trabalhos congregados no LATHIMM-USP?

MARIA CRISTINA: O Lathimm, que recentemente foi rebatizado como “Laboratório de Teoria e História das Mídias Medievais”, tem três eixos distintos de interesse: a imagem, a música e o texto escrito (e o novo nome busca justamente sublinhar as possibilidades dessas diferentes mídias). Cada um deles é coordenado por um pesquisador diferente, que pode ou não congregar outros pesquisadores. Assim, no caso do eixo da música, trata-se das pesquisas realizadas individualmente pelo Prof. Dr. Eduardo Henrik Aubert, fellow researcher da Universidade de Cambridge, na área de musicologia histórica; no eixo dos textos, seu coordenador, o Prof. Dr. Gabriel Castanho, da UFRJ, trabalha com seus orientandos de graduação e pós-graduação, que desenvolvem diferentes pesquisas sobre as práticas escritas, a retórica, os discursos e a semântica na documentação medieval; e no eixo das imagens, que coordeno, há pesquisas individuais dos membros da equipe (graduandos e pós-graduandos) sobre temas tão diversos como manuscritos medievais, iconoclastia na Península Ibérica do início dos tempos modernos, claustros românicos e mosaicos bizantinos, além da pesquisa coletiva sobre imagens nas margens dos manuscritos. Todos os anos organizamos um congresso onde são apresentadas não só as pesquisas realizadas nos três eixos mas também trabalhos de outros pesquisadores sobre as imagens medievais.

LITERISTÓRIAS: Maria Cristina, fale um pouco sobre o projeto “Escritos sobre os novos mundos: uma história da construção de valores morais em língua portuguesa”. Como ele se relaciona à sua trajetória vocacionada às imagens?

MARIA CRISTINA: Minha participação nesse projeto se insere no eixo medieval, estando relacionada à problemática da construção do passado através de escritos e imagens. Mais especificamente, busco entender o modo de funcionamento de um tipo de imagens relativamente frequentes nos manuscritos medievais do século XIII ao XV: as que se encontram nas margens. Estudo, portanto, os discursos propostos por essas imagens – que têm muitas vezes um viés moralizante, mesmo quando se trata de imagens satíricas, pois eram norteadas por um humor profundamente moralizante.

LITERISTÓRIAS: Pensando no jovem pesquisador, que desde a sua IC se encanta com as imagens medievais (como não se encantar?!), que saberes esse interessado ou interessada precisaria reunir para começar a trabalhar com essa documentação? Como você começou?

A quem quer entrar nesse campo de pesquisas riquíssimo e ainda relativamente pouco explorado no nosso país, eu daria alguns conselhos, sobretudo de ordem prática. Em primeiro lugar, o investimento no domínio de línguas estrangeiras: o francês e o inglês, necessariamente, além do alemão e do italiano ou de outra língua específica, e também do latim. Também aconselharia a buscar uma formação em paleografia, caso o interesse seja por manuscritos (porque não se pode estudar imagens descoladas dos textos). E, por fim, a construção do repertório de imagens mais amplo possível, o que só se consegue com a frequentação das imagens (por meio de bancos de imagens, por exemplo).
No meu caso, quando comecei a me interessar por imagens, depois do Mestrado, busquei um tema que tivesse relação com minhas pesquisas de IC e de Mestrado, que foram sobre o monaquismo beneditino: a arte escultórica cluniacense. O primeiro passo foi o estabelecimento do recorte, através da consulta a livros e catálogos com imagens de claustros de mosteiros cluniacenses (a inexistência da internet na época certamente dificultou muito a tarefa), até definir um objeto preciso, o claustro de Moissac. Paralelamente a isso, efetuava leituras teóricas sobre imagens medievais. Essa primeira e breve etapa de formação mais autodidata, por assim dizer, foi completada pela orientação que tive de um dos maiores especialistas na área, Jean-Claude Schmitt, e da participação no grupo de pesquisa que ele coordenava no então GAHOM (Groupe d’Anthropologie Historique de l’Occident Médiéval), na EHESS, onde pude também receber orientações de outros especialistas, como Jean-Claude Bonne, Jérôme Baschet e Michel Pastoureau.

MARIA CRISTINA: (se quiser pode superar as 200 palavras. Maria Cristina, aqui você poderia evocar algumas dificuldades e como fez/faz para vencê-las)

A maior dificuldade que enfrento é o acesso à bibliografia e aos próprios objetos de estudo. Certamente, nos últimos 10 ou 12 anos, com a expansão da internet e dos bancos digitalizados de textos e de imagens, essas dificuldades estão sendo cada vez menores. Mas ainda assim, é necessário passar temporadas na Europa para completar o acesso a esse material, o que torna a pesquisa nessa área de conhecimento muito dependente dos órgãos de financiamento.

Antes de terminar:

Quem quiser comprar o livro Pensamento em imagens... de Maria Cristina, deve visitar o site da editora Intermeios: http://redeintermeios.com/livros-intermeios/151-pensamento-em-imagens-montagens-topo-logicas-no-claustro-de-moissac-9788584990511.html

Quem quiser ler Maria Cristina, no que há disponível na rede, pode consultar seu perfil em Academia.edu: https://usp-br.academia.edu/MariaCCLPereira


    segunda-feira, 10 de outubro de 2016

    Preguiça ou acídia? Ponderações com o rei de Portugal D. Duarte (1433-1438) – Café Filosófico 2016

    Prólogo:
    Em fevereiro deste ano, o colega Prof. Wilton Borges dos Santos me convidou para participar de uma sessão do Café Filosófico, uma parceria entre PUCPR, Aliança Francesa e Café Babette. O Café Filosófico de 2016 seria consagrado aos pecados capitais e para mim ficaria o pecado da PREGUIÇA. Assim, na última 6ª feira, dia 7 de outubro de 2016, diante do lotado e charmoso salão do Babette, eu e o colega Prof. Dr. Cauê Krüger, conversamos sobre esse pecado “invejado”... Será?
    Abaixo, divido com os leitores do blog os apontamentos que me guiaram. Não publico uma conferência (pois não era essa a proposta), mas notas sobre o que pude pensar do ponto de vista da História Medieval.


    Café Babette, 7 de outubro de 2016

    Agradecimento ao convite feito pelos organizadores, na pessoa do Professor Wilton Borges, a oportunidade de participar da parceria entre PUCPR, Aliança Francesa e Café Babette.
    Agradecimento ao público, que não teve preguiça e teve generosidade.
    Minha experiência com o tema dos pecados capitais não é exaustiva, mas é alguma, como medievalista, leitora ocasional de Tomás de Aquino, mas, sobretudo, como alguém que pesquisou uma obra singular, onde encontramos uma discussão importante sobre o tema, na Idade Média. Falo do Leal Conselheiro, escrito pelo rei de Portugal D. Duarte (rei de 1433 a 1438). Em 2004, eu participei do Seminário Internacional Os Pecados Capitais na Idade Média, promovido pela PPG de História da UFRGGS, pelo Departamento de História da mesma instituição e pela Secretaria de Cultura de Porto Alegre. Em 2005, escrevi sobre a soberba e sobre a acídia, justamente[1]. Guardem essa palavra.

    Preguiça boa? Pecado leve e pecado duplo.
    Ai, ai, que preguiça,
    Que preguiça boa!
    Passo o dia à toa
    Sem me dar notícia.

    Só, numa canoa,
    Contemplando alturas,
    Pensando em branduras,
    Nada que me doa...

    Páginas futuras,
    Ecos do passado,
    Nada turve o estado
    De calmas doçuras!

    ‘Stando assim parado
    Neste eterno instante
    Algo que é intrigante
    É-me revelado:

    Todo ser pensante,
    Tendo assim pensado,
    Sofre tanto o fado
    De não ser constante,

    Que no desagrado
    Da verdade dura
    Perde a belezura
    De ser limitado.

    Eis que não me apura
    Se tu me caçoas
    Porque teço loas
    A essa loucura:

    Passo o dia à toa
    Sem me dar notícia.
    Ai, ai, que preguiça,
    Que preguiça boa![2]

    Aqui, parece que a preguiça é uma coisa positiva que proporciona ao eu poético contemplar alturas, refletir “em branduras” e ter revelação sobre a perda “da belezura”. É uma preguiça muito ativa, afinal!
    No livro Pecados, organizado por Eliana Yunes e Maria Clara Lucchetti Bingemer, Bartolomeu Campos Queirós, autor de uma fantástica obra consagrada às crianças, perguntou-se na introdução da resposta ao convite para falar do tema: “Como descobriram que sou preguiçoso?”[3]. Mas, logo depois, esclareceu que não reconhecia a preguiça como um pecado: “Acho que preguiça é uma graça que Deus dá a determinados filhos. É que quando se vive profundamente em preguiça estamos interditados para praticar qualquer outros pecados”[4]. Bartolomeu, entretanto, reconhece qualquer relação entre a preguiça e a depressão: “Muitas vezes, o que nos imobiliza é a dificuldade de justificar o sentido de estar no mundo”[5].
    Oswaldo Giacóia Jr que esteve em Ctba ano passado, em junho para falar sobre as políticas do perdão, em iniciativa da PUCPR (estive lá para vê-lo), também falou sobre a preguiça um em café filosófico acontecido em 2014[6]. Começou mencionando a mesma palavra que pedi a vocês para guardarem: a acídia, e abordou o perigo dessa falta nos religiosos, quando liam... Como ele compreende a relação afinal entre acídia e preguiça? A acídia tem como filhas a melancolia (que gera a insatisfação, pela falta de sentido) e a preguiça (que gera a improdutividade). Giacóia vê na Modernidade que a associação da nobreza ao trabalho empurrou a preguiça à marginalidade; eu acrescentaria que, na Modernidade, o que era uma consequência sobrepujou o princípio. Sorrindo, Giacóia compreende o ócio e a preguiça como reações à alienação do utilitarismo (nisso, junta Georges Bataille à discussão), ou à barbárie civilizacional. Menciona a arte e afirma que sua fruição exige sossego.  Contra essa necessidade, há a consciência dos laboriosos e o consumo ininterrupto.
    Mas a argumentação de Giacóia, certamente sofisticada e brilhante, revela para o historiador um fenômeno interessante da Modernidade, como certos pecados viraram virtudes. O poupador não é avarento, mas precavido; os gulosos foram redimidos pela  gourmetização da vida; pessoas ostentam em redes sociais sua adesão a políticos que propalam a violência e estão sempre com a expressão de que vão cometer um crime; somos fãs de Cinquenta tons de cinza; perdoamos o colega com autoestima exacerbada; invejamos a preguiça (ora, dois pecados em 1!!!). Fora a maneira como algumas virtudes viraram pecados... Pode ser tema para outro café filosófico... 
    Como medievalista, convido vocês à enumeração de Tomás de Aquino dos pecados capitais. São eles, então, vaidade, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e acídia. Cadê a preguiça???? O professor Jean Lauand lembra: “O atual Catecismo da Igreja Católica apresenta como pecados ou vícios capitais: soberba, a avareza, inveja, ira, impureza, gula e preguiça ou acídia”[7]. Opa, ou!  A Modernidade substituiu a acídia pela preguiça. Segundo Lauand, não há conceito ético mais desvirtuado, mais notoriamente aburguesado na consciência cristã, do que o de acídia.” Mas alguém poderia ver na substituição não um desvirtuamento, mas a reabilitação da pobre tristeza...
    Eu deixo por um momento essa reflexão com vocês, para levá-los à Idade Média e a um contexto em que acídia e preguiça comparecem em um comovente relato, sobre a doença de um rei. Esse rei não é personagem de romance, embora pudesse ter sido, ou seja, é um rei cuja existência é fundada na verdade. Acídia e preguiça compararem no trecho mais autobiográfico de uma obra chamada Leal Conselheiro. Seu autor é D. Duarte.

    O rei D. Duarte (1433-1438) não é uma individualidade esquecida pelos estudos históricos; os estudos literários e os filosóficos também não o ignoram. Todos esses campos parecem concordar que o período exíguo de seu reinado não ensombrou a sua obra, quer seja doutrinal, quer seja a do exercício efetivo do poder, ainda no reinado de seu pai, D. João I. Primeiro rei da nova dinastia que não precisou mais lutar pela sua legitimidade, beneficiado pelas lutas e longevidade do pai, D. Duarte pode dar-lhe continuidade e se entregar a outras realizações que não apenas o monte, a caça e o poder. Desde muito cedo, associado pelo pai à governação, quando foi alçado à condição de rei, sabia tudo do “emprego”. Foi o rei que nomeou Fernão Lopes (1385-1460) para um ofício novo no reino, o de cronista régio, e é possível que a escrita da história de forma direta, ou seja, a cargo de seu próprio ditar, não estivesse excluída de seus projetos pessoais. A nomeação de Fernão Lopes pode significar a impossibilidade de se dedicar ao ofício em meio às obrigações principescas e régias. D. Duarte foi um rei legislador, ainda que a energia tenha sido maior enquanto infante. Teve seu curto reinado atravessado pelo desastre de Tânger (1437), que haveria de ser fatal para o infante D. Fernando, seu irmão mais novo, e também para a própria construção da memória do monarca, negativa e ironicamente tecida a partir de um labor que criou em Portugal, o de cronista. Refiro-me à sua detração narrativa realizada pelo cronista Rui de Pina[8]. Entre as muitas coisas que Pina não poderia negar, porém, destaco a formação “de alto nível”[9] do rei, bem a como de seus irmãos.[10]

    O rei é autor do Leal Conselheiro, obra que me interessa hoje aqui, mas também do Livro da Ensinança de bem cavalgar toda sela e do Livro dos Conselhos. O que é essa obra, Leal Conselheiro? Um tratado para o bom regimento das consciências e vontades. Escrito por requerimento da esposa do rei, a rainha D. Leonor, a partir da observação da vida, para elevação das virtudes, daí ser necessário abordar os pecados... O que é mais espetacular nesse livro, e eu me junto a muitos autores que ressaltam isso, é a maneira como a experiência pessoal do rei comparece. Portanto, depois de conceituar a tristeza a partir dos sábios autorizados, o rei revela como foi doente do humor menencórico.
    No capítulo 18 da obra, há um aspecto que eu também desejaria que guardassem: D. Duarte reconhece que a tristeza pode advir do desejo de perfeição e por isso esse tipo de tristeza seria “bom”... Por outro lado, como falta, ela nasce do medo da morte; da sanha não vingada; do desejo não realizado; do nojo da perda; da saudade; da doença (caso do humor menencórico); da insistência em uma conversação triste; no cuidado exagerado e na desesperança. Destaco que D. Duarte reconhece que a depressão é uma doença.
    D. Duarte afirma ter ficado três anos doente; desejou escrever para que sua experiência (o que inclui a experiência da cura) pudesse ser exemplo e dar esperança. Lembremo-nos que a desesperança é uma das causa da tristeza e agravamento a doença.
    Por que D. Duarte ficou doente? Porque fez coisas demais; assumiu muitas tarefas; era muito jovem; não estava preparado... Quando o pai lhe passou os encargos, não soube equilibrar o que tinha a fazer ao necessário desenfado. A situação foi agravada por outros fatores externos, como a ciência de que a peste atingia pessoas próximas (sua própria mãe). Um primeiro sinal da doença foi uma dor na perna; depois, um medo agudo de morrer (possivelmente, ataques de pânico).
    No minucioso relato do rei, há, porém, confiança. D. Duarte afirma ter se curado. Como o fez? Não se afastou das formas de seu viver; cuidou pessoalmente da mãe e achou que se Deus dava tanta pena a seu coração era para corrigi-lo dos seus pecados. Para a cura, é preciso esforço, paciência e virtude. D. Duarte tem confiança. O Leal Conselheiro é uma obra comovente pelo desvelamento detalhado da doença, a partir do próprio doente, e pela esperança consumada na cura. O rei menciona também o conselho dos médicos. Preocupa-se com o corpo, sua coleção de mezinhas no Livro dos Conselhos é prova disso.
    D. Duarte é um especialista da tristeza e, sobretudo, do sentido de enfermidade... Como traz a preguiça ao debate? Um dos elementos de cura do humor menencórico é o desenfado, ou seja, a distração necessária ao corpo e à alma. Ora, alguém poderia confundir isso com preguiça. Mas o rei afirma que só há pecado se deixamos de fazer o que é preciso, ou seja, desenfadar-se, distrair-se é necessário, mas é preciso cumprir as tarefas que nos cabem. Afirma que da preguiça vem começar, continuar e acabar as coisas mal, tarde ou fracamente, quando bem e cedo elas deveriam ser feitas. São seis as suas causas: fraqueza; querer uma vida sem trabalhos; postergar as coisas; ser distraído e se entregar a obras sem proveito ou a fantasias; esquecer o que há para fazer e ser desleixado (Capítulo 26). A preguiça ainda facilitaria outros pecados, como a cobiça, ou seja, se alguém tem preguiça de fazer seu trabalho – o rei exemplifica com o trabalho nos campos – pode roubar e mentir para se satisfazer e para se satisfazer de forma desordenada.
    D. Duarte tem muito cuidado em definir desenfados... e cita a leitura como uma atividade de saudável proveito. Mas se refere a uma leitura especial, como a dos “livros de ensinamentos” e sutilmente levanta a questão de alguém achar que ele se dedicava demais a isso... Menciona a atividade de escrita como outro bom emprego do tempo – quase um metatexto, na medida em que O Leal Conselheiro é um livro de ensinamentos... O rei se põe em uma linhagem de reis autores (alça seu irmão Pedro, o Duque de Coimbra, ao patamar de comparação com Salomão...) que se preocuparam com o conhecimento e com o conselho.
    Se o desenfado é necessário, estar assoberbado, portanto, não é virtude. O rei cita o exemplo de Marta (sobre quem já escrevi no blog, um texto chamado “Papo entre amigos – sobre um fragmento de Lucas”), que estava ocupada com diversas tarefas, quando uma só era necessária.
    D. Duarte nos cobra, portanto, equilíbrio e foco. Entende a tristeza como um pecado que até pode nascer da virtude, mas sempre tira a força do coração; a depressão como doença e a preguiça como desvio das obrigações. Não constrange ninguém com a sugestão de que só devemos trabalhar; demonstrou com a sua experiência que esse desequilíbrio pode virar doença e recomenda o desenfado, a diversão (não a preguiça) como dieta saudável. Em tudo isso, seu Leal Conselheiro continua a ser fiel ao futuro, ou seja, a nosso presente de leitura.
    Compreendo a fidelidade dessa obra em relação tanto ao que leio no poema de André Ricardo de Sousa quanto ao que Giacóia faz menção. No poema, estar à toa faz pensar e, de quebra, favorece a escrita, afinal o poema é feito! Na mesma direção, quando o filósofo afirma a necessidade do sossego para fruir a arte, estaria eu incorrendo em indelicadeza estendendo perigosamente sua orientação à leitura? Os livros de ensinamentos da época de D. Duarte corresponderiam à filosofia em nossos dias? A escrita também precisa de sossego. Mais extensão... Creio que na contemporaneidade, há uma imprecisão favorecida pela duplicidade do pecado a partir da própria lista do Vaticano. Tristeza e preguiça são coisas diferentes e, quando as abordamos em relação, sobram equívocos, que nos fazem ter espanto em pensar que a tristeza possa ter sido algum dia um pecado e revolta contra a preguiça boa...

    Epílogo:
    Quando eu já havia terminado meus apontamentos, eis que recebo meu jornal Rascunho em casa, com um texto de José Castello intitulado “A Potência da preguiça”. Castello afirma que a poesia precisa de intervalo, de preguiça..., de uma vivência não utilitária. Não foi Jean Cocteau que afirmou “A poesia é indispensável. Se eu ao menos soubesse para quê...”? Então, o útil/ o indispensável precisa de tempo, que ele chamou de intervalo ou preguiça. Eu continuo a achar que nos perdemos em equívocos conceituais, travestidos de reação (necessária!) aos utilitarismos...
    Com tristeza, acho que vivemos também um presente pouco poético, sobretudo em nosso país, que tem nos apresentado tantas demandas. D. Duarte me “contou” que quando temos um trabalho importante é preciso encará-lo. Talvez haja momentos em que podemos ser mais preguiçosos, não vivemos em um desses, mas saibamos incluir o desenfado como ousadia e cura para prosseguir!

    Eu e Cauê Krüger

    Público excelente





    [1] GUIMARÃES, Marcella Lopes. “A ensinança de evitar o pecado na prosa de D. João I e D. Duarte” in Revista de História da UPIS. Brasília. Vol. 1. 2005.
    [2] O poema é da autoria do Prof. Dr. André Ricardo de Souza (UNESPAR – Bacharelado e Licenciatura em Música e Teatro), a quem agradeço por ter concordado com a leitura pública e com a publicação no blog.
    [3] YUNES, BINGEMER (orgs). Pecados. Rio de Janeiro: São Paulo, Ed. da PUC-Rio, Edições Loyola, 2001. p. 148.
    [4] Ibidem, p. 148.
    [5] Ibidem, p. 149.
    [7]“O pecado capital da acídia na análise de Tomás de Aquino” disponível em:  http://www.hottopos.com/videtur28/ljacidia.htm (acesso em 26 de setembro de 2016).
    [8] Como observa Luís Miguel Duarte, ao longo de toda a sua biografia consagrada a D. Duarte: DUARTE, Luís Miguel. D. Duarte. Lisboa, Círculo de Leitores, 2007.
    [9] Ibidem, p. 47.
    [10] Todo o trecho em destaque é aproveitado do meu artigo “O corpo do rei: capítulos sobre saúde e doença em D. Duarte (1433-1438)”, que será proximamente publicado na Revista Locus.