Mostrando postagens com marcador Resenha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Resenha. Mostrar todas as postagens

domingo, 16 de julho de 2023

Todo dia é propício para falar de bons livros: Teoria da Narrativa: uma introdução à teoria da narrativa de Gérard Genette (2022), do amigo Otto Leopoldo Winck

  

 

Separei dois livros de amigos para ler nas minhas férias sempre tão disputadas por livros. Um deles é Teoria da Narrativa: uma introdução à teoria da narrativa de Gérard Genette (2022), do amigo Otto Leopoldo Winck, editado pelo Editorial Casa (Curitiba). Otto é romancista premiado, poeta, professor universitário e ministra cursos de escrita muito celebrados na cidade; tive a honra de ter um poema seu em livro meu e ter prefaciado um livro seu, sua excelente tese sobre literatura galega[1]. Otto é um autor literário, um artista, que reflete seriamente sobre a narrativa literária. Todo mundo sabe que tem gente que se pavoneia disso e é publicada por editoras pretensamente vanguardistas. Otto deve ser invejado por esses embusteiros.   

Quando eu manifestei meu interesse por adquirir a obra, ele deve ter estranhado, afinal Gérard Genette (1930-2018) está no grupo dos teóricos que pensam a literatura apartada do mundo a que ela pertence... Mas seu estranhamento deve ter durado dois minutos, porque ele sabe que eu sou uma leitora voraz e haveria de querer saber por que ele enfrentou o desafio de apresentar essa teoria. Eu não me engano com o autor: além de apresentar de forma muito clara, Otto revisa e corrige Genette. Ousadia? Nada disso. O grande Genette não se confunde com a superpopulação de deuses e mitos reles dos nossos tempos, então, se a vida lhe tivesse permitido, haveria de ter gostado do diálogo com Otto.

Teoria da Narrativa: uma introdução à teoria da narrativa de Gérard Genette começa explicando a narratologia: como nasceu essa disciplina, entre nomes e outras disciplinas que afetaram a investigação sobre a narrativa. Trata-se de um capítulo claro e fundamental para os estudantes da área de Letras. Otto vai mostrando sintonias entre pesquisadores e especificidades do pensamento de Genette, mais afeito a “uma pragmática da narrativa” e menos a uma “lógica narrativa” (p. 19).

Otto vai perdoar eu ter colocado “rs” na margem na página 22... É que ele narra uma anedota: a “inveja” sentida por Genette de Auerbach. É a página em que me lembrei de uma sintonia com Genette – não a inveja de Auerbach... -: a paixão por Marcel Proust e o quanto a Recherche haveria de ser objeto da investigação de Genette.

Refutando dicotomias de inspiração formalista, Genette propõe o tripé da narratologia: história (conteúdo narrativo), narrativa (o enunciado) e narração (o ato produtor) (p. 23 e 24) e tira do estudo das relações entre esses elementos três conjuntos de noções sintetizadas a partir da gramática dos verbos, são elas: tempo, modo e voz (p.25). O livro de Otto tem cinco capítulos, três deles são para essas categorias.

Nesses três capítulos, o leitor vai ser testado... Sim, são anacronias, analepses, prolepses, pausas descritivas, perspectivas, focalizações... que podem desesperar. Mas não devem. Todo mundo pode ler e apreciar um texto literário, ignorando por completo o que é uma analepse interna homodiegética completiva. Pode ler o reconhecimento da cicatriz de Ulisses, sem compreender que isso é uma analepse parcial (p. 32), mas como todo campo de conhecimento - e o estudo da narrativa é um campo de conhecimento e de investigação sim! – há a prática da pesquisa que se faz por meio de teorias e abordagens (há diversas), que compreendem, por sua vez, categorias próprias que o estudioso deve procurar estudar e avaliar criticamente. Aqui está o meu real interesse pelo livro e o meu convite aos que trabalham com a narrativa (em diversas áreas), para que leiam o ensaio de Otto.

Eu não acho que a literatura brota de uma realidade suspensa do mundo em que eu habito... não existe um “cérebro extirpado” contemplando o “mundo exterior” (todo mundo reconheceu a importância de Bruno Latour para mim aqui...), a literatura integra o mundo em que os homens e mulheres vivem e escrevem! Tem outro “rs” na margem da página 79, na crítica do meu amado Paul Ricoeur... Então, eu refuto o pensamento de Genette? Claro que não. Eu acho que esses grandes pesquisadores da narrativa mergulharam profundamente na compreensão do texto, desenvolveram categorias operativas, que quem acredita que a literatura habita o mundo deveria também estudar. Então, quem estuda literatura seriamente pode se beneficiar da luz emanada por determinados conceitos pensados por esses teóricos sobre a sua leitura do texto.  

Otto Winck está muito longe de ser um leitor acrítico da teoria que ele apresenta. Ele reconhece trechos confusos e propõe revisões, como a das funções do narrador (p. 110). Ao final, entrevi a sua própria aproximação dessa teoria, na provocação de Genette escolhida para a avaliação do lugar da narratologia: “de que valeria a teoria se não servisse também para inventar a prática?”. Otto pensa e cria com a sua biblioteca.

Meu aplauso para o editorial Casa e para seu editor chefe Valdemir Paiva, por sua ousadia de publicar uma obra necessária, consciente de que ela não encontra um público amplo. A Casa se junta a outras editoras ousadas na cidade de Curitiba – e temos muitas nessa cidade! - que sabem da sua responsabilidade e fazem um trabalho importante e criativo para leitores vorazes dos mais diversos interesses pelo Brasil.

Domingo de manhã


#editorialcasa 

 

 

 



[1] WINCK, Otto Leopoldo. Minha pátria é minha língua: identidade e sistema literário na Galiza. Curitiba: Appris, 2017. 

domingo, 29 de maio de 2022

Alcione em Curitiba – 28 de maio de 2022

 

21:30, no Teatro Positivo: uma mulher envolvida em um brilho lilás (seguindo a letra de Gilberto Gil: quanto mais purpurina melhor) adentra o palco para levar a plateia a um estado de alegria coletiva muito raro, depois de 2 anos. Alcione cantou seus sucessos mais conhecidos acompanhada de sua banda fiel. A maior parte do tempo, cantou sentada. Explicou ao público que vai fazer uma cirurgia na lombar em julho e que tem, em seguida, uma turnê pela Europa. Por isso, era preciso ficar sentada. Primeira coisa que faz pensar: 2 anos longe dos palcos teve repercussão na vida dos artistas. Na vida de artistas que orbitam muito distante da órbita de Alcione, o jejum da plateia foi fatal. Os artistas longe do sol viveram de subsídios, dos amigos, dos parentes, de doações de fãs desconhecidos e de dar nó em pingo. Não raro passaram necessidade, não tinham como pagar as contas básicas, passaram fome. Mas a órbita de Alcione também foi afetada. Imaginamos a quantidade de profissionais que são suas luas e que dependem que ela esteja no seu lugar, no palco. Isso talvez ajude a explicar a necessidade de vir a Curitiba para 1 show e cantar sentada quase todo o tempo e mal conseguir terminá-lo. Alcione sequer apresentou a banda...

A gente não sabe se Alcione sentia dor. Se sentia, a necessidade de honrar contratos e garantir o sustento de todas as suas luas fez com que ficasse lá, no seu trono branco de rainha, ao lado de uma mesinha, onde jazia seu copo de água e onde era depositada a sua xícara de café quentinho. Se não sentia, imaginamos talvez remédios para aliviar a dor, remédios que talvez tenham consequências no seu ânimo e na mobilidade. Na voz? Duvidamos. A voz era aquela nossa conhecida... e sentada, gesticulava, ia um pouco para trás no trono branco, jogando a cabeça, em algumas canções em que a entrega amorosa é protagonista. O corpo combalido tentava extravasar no limite imposto.

Alcione encantou a gente. Escolheu as músicas a dedo. Todo mundo sabia cantar tudo. Fomos o seu gigante backing vocal. Não dava para levantar e sambar... Outro dia, a gente foi a um show de samba, muito petit comité, ao ar livre, em que era possível sambar e a gente sambou! Mas no Teatro Positivo não era possível. Todo mundo sentadinho, um atrás do outro. Mas... os braços podem dançar! E eles vingaram os pés e os quadris rebolantes. Teve um momento, antecedendo “Ébano”, em que ela perguntou se havia ébanos presentes. Ora, havia... Uma de nós pensou que, se fosse um ébano, teria levantado ali no meio do corredor e teria dançado para ela! Será que eu caí na sua rede, ainda não sei...

Alcione não apresentou nenhum lançamento, nenhuma criação pandêmica (como vemos vários artistas tentando criar numa tentativa também de sobrevivência ao isolamento). Alcione passou por vários sucessos de sua carreira, que todo mundo sabia cantar. Mexeu com nossa memória e fez todos entenderem porque estavam lá naquele show. Na entrada, o brilho cintilante de sua roupa contrastava com os Retalhos de Cetim. Na passagem pelos seus sucessos, Alcione acrescenta um comentário essencial na música O Surdo, que traz a "pancada de amor não dói". "Dói, sim", a cantora finaliza a música marcando sua posição, ao mesmo tempo em que data e documenta a produção de letras machistas na música brasileira. Adendo necessário haja vista o público que a acompanha há anos e os novos ouvintes de uma geração em que a violência contra mulher não deveria mais existir. No meio do show, o ponto de beleza exuberante e esperançosa: Juízo final! Ah... esse sol que há de brilhar mais uma vez. Os raios luminosos irradiavam na plateia enquanto misturávamos a esperança nesse (re)nascer com a memória da saudosa Clara Nunes! Quando estávamos prontas para gritar o tão significativo "Meu vício é você", o show foi encerrado. Não teve nem BIS... E, não sabemos muito bem por quê, o público não se animou a pedir. Compreensão sobre o estado da cantora, talvez, necessidade de sair rápido do teatro para não aglomerar, tanto tempo sem ir a shows que se esqueceram até de como pedir BIS... Não sabemos.

Sobre o público, uma de nós escreveu em 2016, um texto sobre o comportamento do respeitável público em um balé infantil[1]. Remetemos nossos leitores a essa memória edificante... Mas o que havia de novo? Pouco, afinal, quase todo mundo ali estava sem máscara. Quê?! Sim, um público diverso, pintado de idades diferentes, gente de 20, de 30, 40, que passou dos 70 há um tempo, dos 80... e sem máscara. Enquanto isso, os veículos de comunicação noticiam o rebote da covid-19. A gente tirou a máscara 2 vezes para fazer 2 fotinhos e foi isso. No uber da ida e no da volta, máscaras. Só a gente, pois os 2 profissionais dispensaram. A gente aprendeu a sorrir de felicidade com os olhos, enquanto há perigo. Mas foi mesmo impressionante a despreocupação.

Os atrasos, o levanta e incomoda a fila inteira 1, 2, 3 vezes para ir sei lá onde, quando o 2º sinal já tocou... No texto de 2016, uma de nós falava da ausência da etiqueta de plateia. Se você tem implicância com a palavra etiqueta, pode trocar por respeito que vai servir. Serviu para uns, umas e outros, outras, no show de Alcione. No balé de 2016, uma de nós tocou no problema do salto na escada, e fica aqui prometido um texto sobre escada... O fato é que a gente tem de ter clareza sobre os limites do nosso corpo, para se sentir mais confortável, à vontade e se divertir.

Mas, então, por que ir ao show? Alguém pode alegar o não ineditismo do repertório e a disposição de todas as músicas nas plataformas digitais como justificativa para não ir. Respeitamos. Entretanto, a ida ao show é um pedido de presença. Sim, a presença da artista, a presença da música, cujos únicos intermediários do som até o público são os microfones e a mesa de som. O som "limpo", sem paradas para empresas mandando a gente comprar alguma coisa (parênteses apenas para uma reclamação sobre as propagandas ensurdecedores que antecederam o show. Mas só antecederam!) O show é a troca de presença entre artista e expectador; é a busca pela sinestesia que só a arte consegue produzir! A sinestesia que é um dos nossos trajetos para o sensível, a sensibilização, tão necessária e um dos caminhos de esperança para o sol que há de brilhar mais uma vez. Nós cantamos alto, dançamos, ficamos emocionadas. Um show revigorante para artista, a retomada da presença pelo público mesmo com incerteza... E a companhia especial, que realça a cintilância (Gil de novo) do sensível. Alcione, volte mais vezes para Curitiba. Há duas pessoas aqui esperando os próximos shows!

 

Deusa e banda

(Respeitável público, use máscara!)

Denise Miotto Mazocco

Marcella Lopes Guimarães

Em 29 de maio de 2022



[1] “Procura-se o respeitável público” <http://literistorias.blogspot.com/2016/12/procura-se-o-respeitavel-publico.html>


Fãs à espera da Deusa
Fãs à espera da Deusa e agindo certo











segunda-feira, 29 de junho de 2020

Nossas noites, de Kent Haruf: uma atrevida singeleza

Em maio deste ano, o Rascunho publicou a resenha escrita por Miguel Sanches Neto do romance Bênção do escritor estadunidense Kent Haruf (1943-2014). Fiquei intrigada: com a percepção de Sanches Neto, de estar diante de algo muito diferente dos padrões e modas hodiernas, e com o enredo do romance em si. Fui rápido ao Kindle para ver se estava disponível na loja. Achei em inglês e tive preguiça, mas logo fui compensada por outra tradução realizada por Sônia Moreira, do último romance do autor: Nossas noites. Li em três dias. Leria em um, se não fossem as outras leituras de trabalho. Trata-se de um pequeno romance.
Na resenha de Bênção, Sanches Neto escreveu: “O literário não advém daquilo que o autor faz com a linguagem, mas do que a linguagem faz com o leitor. Este é o caso de Bênção.” Depois de conviver com Addie e Louis, em Nossas noites, eu acrescentaria o poder de uma história bem contada. É verdade que os enredos não são exatamente infinitos e que um bom número de histórias que amamos os tem bem chinfrins, mas há uma encantatória sintonia entre nós – humanos – e as histórias que nos são contadas por gerações que o fato de elas nos enredarem, a despeito das firulas e modas literárias, é mais uma prova (não que precisássemos...) de que necessitamos de narrativas e de que a nossa vida parece mais rica quando mais uma passa a habitar as prateleiras da nossa biblioteca íntima. A minha está mais rica depois dessa história simples: do amor contrariado, de um casal que soma 140 anos de idade!
Um dia, Addie Moore visita Louis Waters e lhe faz uma proposta inusitada. Os dois se conheciam há muitos anos, não eram exatamente amigos, mas conhecidos, vizinhos de bairro. “O que você acharia da ideia de ir à minha casa de vez em quando para dormir comigo?”. Depois da surpresa dele, um adendo: “Não estou falando de sexo.”. Ora, do que essa senhora estaria falando? “Estou falando de ter uma companhia para atravessar a noite, para esquentar a cama. De nós nos deitarmos na cama juntos e você ficar para passar a noite. As noites são a pior parte. Você não acha?”. Ambos, viúvos, com filhos crescidos, fora de casa já há um tempo; filhos com pouca agenda para visitá-los... Teoricamente, dois velhos livres.
O diálogo continua, ambos compartilham a insônia e a necessidade de remédio para dormir. O que Addie Moore propõe a Louis Waters é intimidade. Louis interpõe um fraco pudor: “E se eu roncar?”; “Se roncar, roncou; ou vai aprender a parar”. Para mim, tudo o que se passa a partir da proposta dessa senhora e do confronto com o outro, a quem ela propõe uma partilha, é gigante. O livro não entrega, mas pude vê-la pensar no assunto, escolher uma roupa, hesitar, pentear os cabelos, andar pelo bairro, tocar a campainha... e sugerir, propor. Coragem mora ali.
No dia seguinte, ele vai ao barbeiro, prepara-se e telefona: “Eu gostaria de ir para a sua casa esta noite, se a proposta ainda estiver de pé.”. É claro que está. Ele bate a porta dos fundos, ela se admira! Ora, para quem tinha atravessado anos de convenções, a porta dos fundos era inconcebível e ele promete que, da próxima vez, virá pela porta da frente. Felizmente, para nós, haverá muitas próximas vezes!
Há descobertas: ele prefere cerveja, ela vinho; ela mostra a casa, para que ele saiba onde está; ele vê fotografias, veste o pijama... Depois da primeira noite, uma contrariedade, a vida é feita de equívocos... Ele liga para dizer que não irá, ela pensa que ele havia desistido, na verdade ele tinha ficado doente. Na retomada das noites, a permissão para deixar o pijama e a escova de dentes.
Na verdade, Louis e os leitores têm uma dúvida: por que Addie o escolheu? “Foi porque eu acho que você é um homem bom. Um homem gentil (...). E sempre pensei em você como alguém de quem eu poderia gostar e com quem poderia conversar”. Precisa de mais? A sinceridade nos arrebata; a simplicidade enleva. Não há catacreses reinventadas, sujeitos entrecortados pela angústia e violência das grandes cidades, a ginástica da focalização múltipla, narradores céticos, cínicos... Addie e Louis são pessoas de papel do bem e o narrador não quer brilhar mais que eles, quer simplesmente (e isso é muito!) deixá-los viver. Por isso, o discurso direto prevalece.
O bairro descobre, o casal se descobre: “Cresci em Lincoln, Nebraska...”; “Ela era casada (...). Seu nome era Tamara...”; “Dezessete de agosto. Um dia quente de verão, de céu azul e límpido”. Origem dela; paixão dele, por quem deixara a própria casa, para voltar, entretanto, 2 semanas depois; a morte da filha dela. A morte de Connie entroniza no romance o personagem de Gene, o filho mais novo de Addie. Amargurado pela culpa que não teve na morte da irmã e pelo desprezo do pai, Gene é o antagonista de tudo de bonito que esse romance entrega, de forma tão singela.
Na verdade, a filha de Louis, Holly, também ensaia oposição, ele é sincero com Addie: “Acho que rumores sobre nós dois chegaram aos ouvidos dela. Imagino que ela queira que eu me comporte”. A conversa com a filha é quase dura, mas Louis consegue se impor ao “constrangimento” dela. Todavia, o episódio com Holly é a antessala para o confronto com Gene.
O que torna o confronto com Gene mais delicado e sofrido é o personagem Jamie, neto de Addie. Falido e com o casamento em ruínas, Gene apela à mãe para ficar alguns dias com o neto. Ela aceita imediatamente. Louis teme o fim do arranjo entre eles, mas Addie joga com a sua experiência e pede paciência para os ajustes. A cena de despedida, do carro que se vai, com a criança que chora enquanto a avó tenta segurá-la, para que ele não fosse atrás do automóvel, é uma daquelas que a gente espera não viver em nenhum dos papeis...
A presença de Jamie, entretanto, é mais uma delicadeza para essa história. Louis e Addie redescobrem a convivência com uma criança em uma altura de suas vidas em que seu papel como educadores e criadores já havia cessado, para o bem e para o mal. A criança fica com a avó, com o avô emprestado, viaja com o casal, acampa, ganha uma cadela para amar e cuidar, enquanto seus pais tentam recompor a vida que estragaram sozinhos.
Gene haverá de tentar estragar mais a vida em torno... Suas razões são da óptica do desamor: “Se você se casar com ele, ele vai ficar com metade de tudo, não vai? Eu não vou poder fazer nada.” Esquece o filho páginas a fio até que um dia para o carro e o leva embora, para seu arremedo de concórdia conjugal. Obviamente que recuperar o filho é abrir uma janela a uma intimidade incompreensível: a de sua mãe com outro homem, que não o pai. As crianças falam... e as suas  narrativas inocentes serão relidas por ele segundo os parâmetros possíveis a um homem com limitadas capacidades de ousar, de perdoar e de amar.
E esse homem execrável – sim, eu odiei o personagem -, falhado na capacidade de mobilizar afeição – tem dificuldade de acariciar a cadelinha do filho! –, pede à mãe que renuncie e, não satisfeito, transfere-a a um lar de idosos. Eu odeio, tu odeias, ele odeia, nós... Já sei o que vão me perguntar os três leitores de minha resenha: Ué, Marcella, cadê a coragem da Addie? Para, gente, Jamie e Gene eram a única família que tinha restado a essa senhora de 70 anos... Ter convivido com o neto mobilizou sentimentos de outro tipo de esperança em um coração cheio de amor como o de Addie! Mas, calma, o amor sempre vai encontrar uma saída...
Antevejo uma última questão (a de natureza maliciosa): Marcella, tudo bem, mas a cama de Nossas Noites é visitada por um Eros maduro? Ora, é visitada desde a primeira noite! Mas se você está se referindo a desempenho sexual, terá de ter paciência com esse casal de 70 anos e aguardar sem pressa o reencontro com um jovem Eros. Eros é sempre juvenil, ainda que velhíssimo... 
Leitura para fazer bem ao coração e para convidar a olhar nossos velhos de forma diferente.    
  




HARUF, Kent. Nossas noites (Tradução de Sônia Moreira). São Paulo: Editora Schwarcz, 2017.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Correr e ler sobre corrida!


Às mulheres com que corro toda semana e aos professores que me orientam e impulsionam,
o meu amor e a minha gratidão.
Com vocês, eu vou mais longe!

Prólogo:

Há alguns meses, eu me juntei a um grupo de mulheres[1] que correm juntas em parques, em ciclovias, pela rua e que recebe orientação de professores de educação física especializados em corrida. Foi uma revolução na minha vida.

Eu já tinha visto do que a corrida era capaz. Vi o que ela havia feito na vida de uma de minhas melhores amigas, a minha prima Andréia. Mas a beleza não me bastou, infelizmente a decisão ficou com a tragédia mesmo. Quando descobri que no peito do meu pai, homem gigante e apaixonado pela vida, batia um coração reduzido a 16% de sua capacidade, eu resolvi. O escritor e corredor Haruki Murakami afirmou que “A maioria dos corredores corre não porque queira viver mais, mas porque quer viver a vida ao máximo”. Vou dar-lhe metade da razão. Eu quero um coração forte.

Como é da minha natureza pesquisar sobre tudo aquilo que me dá prazer e buscar nos livros respostas, a corrida me levou à leitura de duas obras (sugestões de minha prima): Correr. O exercício, a cidade e o desafio da maratona do médico Drauzio Varella e Do que eu falo quando eu falo de corrida: um relato pessoal do romancista Haruki Murakami. Reuni apontamentos e publico hoje, no dia seguinte à minha segunda prova. Recomendo a leitura e... a corrida!

·        VARELLA, Drauzio. Correr. O exercício, a cidade e o desafio da maratona. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
·        MURAKAMI, Haruki. Do que eu falo quando eu falo de corrida: um relato pessoal. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.

***

Acho que o Dr. Drauzio Varella é o nosso Oliver Sacks (ambos médicos), pela forma como ciência e escrita se harmonizam para chegar aos não especialistas, sem sacrifício de nenhuma das duas, nem do leitor, aliás.
O que é Correr? Um livro sobre uma decisão: “provar que a decadência não começaria aos cinquenta” (p. 16 e 17). Aos 50, Dr. Drauzio, que não fumava havia 13 anos, decidiu preparar-se para correr a Maratona de Nova York. Dali em diante, são mais de 20 anos de maratonas!
Engana-se quem pensa que, porque o autor é médico, só se encontre na obra a palavra douta (embora haja). O que se lê é a narrativa de um médico narrador, que não tem vergonha de mostrar que o corredor comete erros. Mas esses erros não acendem as vinganças do sedentário, porque a narrativa dos ganhos, do prazer e das vitórias do corpo em movimento[2] é emocionante!
Sobre a experiência do médico, o livro está cheio de dicas excelentes para o corredor observar seu próprio corpo antes e depois das maratonas. O livro também segreda o investimento do autor em compreender essa prática. Realiza uma contextualização recente do fenômeno das corridas e, mais recuada, até a Grécia. Nesse momento, eu me senti muito comparsa do Dr. Drauzio, porque cheguei a seu livro também para compreender uma decisão.
O capítulo “Chigaco, 2009” me emocionou particularmente, afinal trata-se da maratona realizada entre o pai e a filha:
“Na história da humanidade, a quantos pais de 66 anos foi concedido o privilégio de correr 42 quilômetros com a filha 32 anos mais nova?” (p. 84). É, Dr. Dráuzio, eu estou na luta como mãe, mas foi como filha que eu me emocionei. O pai olha a paisagem, mas a filha cansa. Nesse momento, o pai se veste inteiro de guerreiro: “você vai conseguir”. Alguém tem de pesquisar o milagre dessa frase!
“Fomos assim, diminuindo gradativamente a velocidade, até a reta final, quando emparelhamos com uma senhora de cabelos brancos e rosto vincado que aparentava mais de oitenta anos, correndo em passos miúdos porém decididos. Nessa hora, sugeri que fôssemos mais depressa para não aparecer na foto da linha de chegada ao lado de uma corredora de tanta idade. Mais tarde ficaria difícil aguentar a gozação dos amigos sedentários” (p. 85).
Ri muito.
“Nos últimos metros, Letícia segurou minha mão esquerda. Cruzamos a linha de mãos dadas, erguidas para o alto. Completamos a prova em cinco horas exatas; eu nunca havia corrido tantas horas consecutivas. Demos mais alguns passos e nos abraçamos. Se um pai disser que não chorou numa hora dessas, é desalmado ou mentiroso” (p. 86)
Dr. Drauzio, eu chorei daqui.

Haruki Murakami é um escritor. No final do seu Do que eu falo quando eu falo de corrida: um relato pessoal – todo mundo sabe que eu dou spoiler!!!! – ele propõe um baita epitáfio para si mesmo: “pelo menos ele nunca caminhou” (p. 145). Até agora, eu também não!
Murakami não tem uma relação sempre harmoniosa com a corrida. Sofre nas maratonas. Sente o corpo fraco, quase desfalecer: “Nada no mundo real é tão belo quanto as ilusões de uma pessoa prestes a perder a consciência.” (pág. 61). Bom narrador, a alma do leitor dói junto. Murakami deixou de correr em uma época. Voltou.
No prefácio da obra, “Sofrer é opcional”, encontramos essa declaração: “este é um livro sobre correr, não um tratado sobre como ser uma pessoa saudável” (p. 7), ou seja, mesmo que o livro do Dr. Dráuzio não seja também um tratado, o médico comparece lá. Aqui, obviamente não. O livro de Murakami é uma coleção de “pensamentos sobre o que correr significou para [ele] como pessoa” (p. 7). Ora, trata-se de um romancista, então é a relação com a escrita que comparece o tempo todo: “Paro todo dia bem no momento em que sinto que posso escrever mais. Feito isso, o dia de trabalho seguinte transcorre surpreendentemente” (pág. 12). Os amigos sabem que eu faço a mesma coisa...
Mesmo que Murakami afirme: “ocasionalmente, muito difícil, sério, tenho uma ideia para usar em um romance. Mas na verdade quando corro não penso em quase nada que seja digno de mencionar” (pág. 21), as relações são por demais indisfarçáveis. Com 33 anos, o autor tornou-se um corredor e um romancista! Começou a correr em 1982, e, em agosto de 2007, marco do encerramento da obra, já contava 23 anos de corrida.
A trajetória de Murakami como ficcionista me interessou muito. Eu ainda sou uma escritora que “rouba” tempo para escrever. Murakami teve um bar, viveu do negócio. Um dia, resolveu escrever. Conheceu reconhecimento por essa obra nascida na clandestinidade do tempo surrupiado. Mas não bastou... Comunicou à mulher que queria mais. A família julgou-o louco. Deu-se uma chance e acertou em cheio. Mas ele não faz a apologia generalizada da sua audácia. Cada atrevimento é do tamanho que a gente se permite e a consequência, única e imprevista, desde origem...    
A primeira corrida de rua de Murakami foi em 1983. Como eu, completou no début 5 km. A primeira maratona foi percorrida em 2005. Eu marquei a minha para daqui a 6 anos. Nos meus 50. Se eu conseguir, estarei adiantada em relação ao Dr. Drauzio e a ele!
Tomei nota das qualidades para um romancista: talento, concentração e perseverança (p. 68 e 69). As duas últimas se parecem com treinamento muscular, segundo Murakami (p. 70). Isso me lembra uma coisa que sempre falo a meus alunos, que escrever bem é como fazer abdominais:
“Escrever romances, para mim, é basicamente um tipo de trabalho braçal. Escrever, em si mesmo, é um trabalho mental, mas terminar um livro está mais próximo do trabalho braçal” (p. 70).
Murakami me deu uma esperança danada, afinal “A maior parte do que sei sobre escrever, aprendi correndo todos os dias” (p. 72). Ora, estou em busca de tantas coisas que passam por esse coração forte a que aspiro: narrativas, personagens, parágrafos inteiros teimosos de terminar, saúde e prazer.
Do que eu falo quando eu falo de corrida: um relato pessoal demorou 10 anos para ficar pronto. Maratona verbal. A obra é dedicada a todos os corredores que ele encontrou, “sem todos vocês, eu nunca teria continuado a correr” (p. 150).

***

Epílogo:
Há um poder imenso quando a gente corre. Há um poder imenso quando a gente corre com alguém que nos esforça, que acredita na nossa capacidade, que não tem medo do abraço e que não se importa com o suor. É lindo o concerto da nossa respiração ofegante. Mas paradoxalmente, correr é meditar. Ao meu lado, vão iogues, sufis!, eu sou dervixe também. Eu vou mais longe em variadas distâncias. Fora, já corri 8 km; dentro, perdi a conta...




[1] Trata-se do grupo The running moms: https://pt-br.facebook.com/pages/category/Coach/The-Running-Moms-1427712367475449/
[2] Remeto o meu leitor à resenha que publiquei no blog da autobiografia de Oliver Sacks, intitulada Sempre em movimento. Role a barra!


Em 25/11/2018, depois de minha 2a prova. Já em casa, cheirosa e feliz!

sábado, 5 de maio de 2018

“Construindo pontes”, de Heloísa Passos. Um filme-documentário-biografia-combinada de Álvaro, de sua família e do Brasil recente.


No último dia 16 de abril, eu e a filha fomos ver o filme de Heloísa Passos “Construindo pontes”. Tratava-se da estreia, no Shopping Crystal em Curitiba. É difícil de caracterizar essa obra, daí a profusão de elementos que incluí no título da resenha. Eu não sabia praticamente nada do filme, quem me convidou foi uma pessoa com quem trabalhei por alguns anos e há muitos, Tina Hardy, que integra a equipe do filme. Recebi os ingressos por e-mail e achei que era uma boa chance de rever gente amiga, com a qual eu e Tina havíamos trabalhado. Rever a própria Tina, inclusive! Intuição correta. Antes da exibição do filme, Heloisa chamou a equipe, revelou-se emocionada de estrear em sua cidade, afirmou o desejo de um Brasil mais plural, onde o desaparecimento de uma mulher que lutava pelos direitos humanos: Mariele presente!, não pode passar despercebido, nem ser esquecido, chamou Álvaro. Foi ovacionada.
A princípio, achei curioso que Heloísa Passos tivesse espantado o mal estar diante do gerúndio, que passou a ser quase uma forma desagradável desde que a sintaxe inglesa meteu-se naquilo que era tão bonito em Camões, que gostava do gerúndio! Fiquei intrigada. Por que Heloísa não preferira um belo substantivo: “A construção de pontes” ou “A construção das pontes”. Eu sabia que depois da exibição, haveria debate, mas como estava acompanhada da filha, em plena 2ª feira, sabia também que a necessidade de obedecer à hora de dormir não permitiria que a gente explorasse essa e outras questões. Heloísa espantou o medo, preferindo o gerúndio. Que nem eu. Heloísa pareceu preferir o inacabado. A construção não terminou. Está em curso.
Há muitas coisas dissonantes no filme, a começar pela relação de Heloísa, que atua no filme, e Álvaro, seu pai, também “ator”. Seus desentendimentos parecem inviabilizar qualquer ponte. Para Álvaro, houve um tempo em que no Brasil havia um projeto de país, um projeto de progresso, de desbravamento, melhorias... que ele identifica com “os tempos da revolução”. É outra a semântica de Heloísa, que afirma que todo esse tempo era a ditadura e que esse projeto de país nunca foi o único projeto e que ele tinha desdobramentos, que Álvaro minimiza... Minimiza com jeito. É Heloísa que fala alto, exalta-se, não aceita. O pai se cala, pede que não se exalte, não é para tanto.
Logo no início há um momento que arrancou risadas da plateia. Pai e filha discutem e ela afirma: não é isso o meu filme, vou desligar o som e desliga. Há uns segundos de respeitosa porta fechada depois daquele duelo entre os dois. A plateia fica de fora. Quantos de nós já não batemos a porta de casa para terminar uma discussão?
Heloísa ausculta a memória da família. Filmes e fotografias antigas mostram viagens divertidas e caras do núcleo feminino. Onde estava o pai? No trabalho. Às vezes levava-as aos destinos, ficava uns dias e voltava apressado. Mapas são abertos na mesa da sala de jantar e Heloísa pede ao pai que localize as suas obras. São inúmeras. Álvaro fala das dificuldades, de onde morou provisoriamente e sem a família, fala do constrangimento dos prazos fixados pelos militares.
Muitas vezes a palavra final é de Álvaro, mas deixado só, no meio da sala, depois de um confronto. Heloisa deixa o aposento, passa; ele quase fala para si mesmo, tinha total lembrança na câmera ligada no meio da sala? É Heloisa quem narra. Eu não gostava de mim quando estava com ele. É uma das frases mais difíceis do filme; ela ribombou dentro de mim.
E não é que Heloísa e Álvaro se metem em um carro para empreender uma viagem a dois mesmo com toda essa dissonância??!! Quantas viagens a dois fiz com meu pai, morto em 5/3/2018? Muitas. A última foi para a França em 2014, quando ele foi morar “para sempre” na Europa e voltou 11 dias depois. É Heloísa quem dirige, o pai dá uns palpites (ora, como não?! É um pai!!!). São parados para uma pesquisa, o pai responde algumas vezes; parecem perdidos em alguns caminhos. Onde estaria a tal ponte que Heloísa queria tanto ver/mostrar?
Há um momento em que ela para diante de um sítio que motivou todo o filme para ela. Sua intenção? Deslanchar a epifania. Heloísa faz a tomada 3 vezes; é ela que conta. Fala as mesmas frases. Vemos que o sol vai se ponto. Nada de revelação em Álvaro. Não há qualquer impressão sensível. E se Heloísa tivesse levado umas madalenas proustianas? Não há madalenas no carro... Há, porém, um momento em que ele parece tentar agradá-la: é bonito. A plateia ri do esforço do pai, do seu equívoco. Heloísa não entrega.
Mas como todo destino das viagens é chegar, a deles também chega a termo. O termo era uma ponte, pela qual trafegam trens. É difícil chegar até lá. Fazem uma manobra na estrada. Estacionam. Os dois sobrem uma escadinha sofrida. Há um detalhe lindo dessa subida. Lindo e arriscado. Ah, como a beleza é perigosa! Heloísa é mais jovem, sobe sem esforço. Álvaro é um senhor e preocupa-lhe a lepidez da filha, cuidado, mas é ele quem resvala e é a filha que o sustém. Emoção forte em mim. O pai nos seus braços. Cuidado, pai. Não tenha medo.
Conversam. E não é que o trem vem?! Heloísa é uma menina de novo. Talvez não esperasse, ri-se, está perto demais, afasta-se. O sol já se pôs, quase não se vê mais nada; ouve-se o barulho.
“Construindo pontes” é um filme lançado em momento propício. Como a narrativa foi se fazendo (olha o gerúndio novamente!), talvez ela tenha sido atravessada mais facilmente pelos acontecimentos da nossa história recente. Há um momento em que há uma discussão de concepção de narrativa: Álvaro diz: mas você precisa planejar e depois filmar; Heloísa não quer isso, quer o oposto: que a captação das imagens motivem a sua “escrita”. Embora eu particularmente fizesse como Álvaro, mas nem eu nem ele somos cineastas..., acho que o resultado levou o expectador a uma urgência. A explicação dessa urgência me leva a uma digressão.
Temos visto e celebrado a afirmação de identidades que por anos, séculos!, foram caladas. Hoje, um mesmo indivíduo se identifica de formas múltiplas. Entretanto, de uns tempos para cá eu, muito atenta às redes sociais, porque participo delas como “personagem” e como analista do comportamento das pessoas (até das que não me interessam), tenho visto que não raro temos reduzido os nossos campos. As nossas “novas” identidades nos fizeram adentrar em grupos pequenos, quase sociedades secretas. Exemplifico: outro dia li o texto de uma aluna muito boa no FB que afirmava seu orgulho de ser uma jovem pesquisadora, historiadora, mulher e desprezava a sua identificação como brasileira... Eu sei por quê. Porque a extrema direita tem sequestrado os símbolos mais evidentes da nossa identificação e talvez a afirmação e o orgulho de ser brasileira, em meio ao golpe e a seus desdobramentos, pareçam à minha aluna um alto risco. O fato é que eu não pretendo deixar a extrema direita sequestrar nem um centímetro do que sou. Então ser uma mulher, intelectual, historiadora, escritora, mãe convivem com minha atenção constante ao Brasil. Convivem com minha luta. Convivem com meu amor.
O fato de afirmar novas identidades, dizê-las em voz alta, exibi-las orgulhosamente têm-nos feito abandonar pontes muito precisadas de reparo. Volto à Heloísa. É por isso que acho que seu filme é lançado em momento propício. Não sei se Heloísa tem a ambição de propor reparos, mas é filha de engenheiro, sabe da necessidade disso! Coisas podem ruir de vez se a gente não cuida, se a gente não se interessa, se não vai aferir com muito jeito o que é preciso fazer para evitar desmoronamento.
Tenho visto muita ameaça de desmoronamento por aí e de divisão – a divisão na família de Heloísa é a redução da escala de uma crise que se instalou fortemente entre nós nas últimas eleições, dividindo a mesa de jantar da casa da gente. Mas Heloísa não se encolhe, ela enfrenta a diferença e convida o pai para viajar com ela! Isso é tão bonito... Estão confinados no carro para o dissenso e o amor. E a maior surpresa é que a “rebelde” Heloísa é que a engenheira construtora de pontes. O filme acerta na mosca; eita precisão matemática! Heloísa tem novo diploma.

Epílogo:
Escrevi esse texto em aeroportos. Comecei no dia 20 de abril no Recife, quando viajava para Cabo Verde (África) e terminei dia 27, no aeroporto de Lisboa, no meio da volta para casa: a Curitiba de Heloísa e minha! O que fui fazer lá? Construir pontes! O filme me preparou, acordou a engenheira na professora. Eu me esforcei para deixar fundações sólidas lá. Será que Álvaro aprovaria minhas técnicas? Como deixei lá contatos, e-mails, promessas..., vou fazer como esse pai e essa filha: refutar belos substantivos e dizer que voltei construindo.   




segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Ler os pares: uma reflexão sobre o diálogo que acontece nas referências bibliográficas

Há algumas semanas, estive envolvida com a leitura do livro Os dois lados do balcão: armazéns e cotidiano em Irati/PR (1907-1970) de Neli Maria Teleginski. Eu incluí o livro de Neli na minha disciplina de História e Cultura da Alimentação e programei com os alunos do CAN (Centro Acadêmico de Nutrição) uma tarde consagrada à reflexão sobre a obra e sobre a História da Alimentação no Paraná, com a presença de Neli! Ela veio de Guarapuava e compartilhou conosco suas pesquisas e sua paixão pelo tema. O primeiro slide que mostrou emocionou-me particularmente, pois lá estava o grande mestre Prof. Dr. Carlos Antunes, que se consagrou ao campo da História da Alimentação no Brasil e que formou tantos quadros no PPGHIS-UFPR: colegas que têm se destacado na área. Neli foi orientanda de Carlos Antunes no Mestrado e de Karina Belloti no Doutorado. Ler o livro de Neli me fez pensar no universo que ela abraçou obviamente, mas me levou a outros lugares.
Os dois lados do balcão: armazéns e cotidiano em Irati/PR (1907-1970) foi prefaciado pelo querido colega Euclides Marchi e é resultado da dissertação de mestrado de Neli. A pesquisadora partiu da emancipação política de Irati (1907) e terminou seu exame com a chegada dos supermercados no município (anos 70), que segundo ela, mudaram as relações com os ambientes plurais com quem trabalhou: as bodegas. A obra de Neli compartilha com os leitores documentos fotográficos ricos, que não comparecem ao texto como ilustrações, mas como fontes; testemunhos; peças de publicidade e quadros muito elucidativos. Há um universo diverso (adoro essa rima, desculpem...), entre os quais ela se agita sem fazer esvoaçar a diversidade na bagunça, é justo o contrário: Neli areja a documentação, espanta o mofo e “se senta” para escutar as respostas com abertura, com acolhimento. Por que ressalto isso? Porque não há nada mais chato para mim que ler uma “pesquisa” que vai aos documentos apenas para confirmar as respostas que o pesquisador já possuía antes de ter ido lá. Se não tem surpresa; se não somos obrigados a refazer trajetórias e a repensar caminhos... qual é a graça?! Qual é a relevância? Isso não significa que a gente não tenha as nossas hipóteses! Claro que temos e elas podem ser confirmadas obviamente, mas e o tanto que se descortina a nossos olhos? Se não temos disposição para a surpresa, a pesquisa não deslumbra, não vislumbra. Os três leitores fieis do blog vão dizer que sou romântica. Terão acertado, mas também posso escrever de forma mais impessoal: se vamos aos documentos apenas para confirmar as hipóteses, a pesquisa não agregará elementos novos ao estudo do tema. Ficou bom?
O primeiro desafio de Neli foi verificar que o tal termo bodega não aparecia na documentação. Ela se inibiu? Buscou outras palavras? Não, foi em busca de entender por que a palavra que designava a realidade em questão era preterida. Descobriu associações que inibiam os comerciantes. Bodega é coisa suspeita, negócio de vender bebida... Então, bora preferir armazéns e secos e molhados, na hora de pedir alvarás!
“Com relação ao abastecimento, até o início do século XIX não havia se estabelecido no Paraná uma estrutura voltada para suprir as necessidades alimentares da população” (pág. 107). É aí que entram em cena as bodegas! Ainda que Neli se identifique como pesquisadora da História da Alimentação, sua obra trata muito de economia e de abastecimento, que obviamente completam o seu campo de eleição. Neli aborda ciclos econômicos e está todo tempo entre o geral (Paraná e Brasil) e o particular, Irati. O que quero dizer é que Neli não isola Irati, o município é parte de um conjunto de relações políticas, sociais e econômicas em movimento no Paraná desde o século XIX. Nisso, sentimos a inspiração da obra História da Alimentação no Paraná[1] de seu mestre Antunes. Mas Neli tem uma relação saudável com seu orientador e em alguns momentos vai além das conclusões dele. Tenho certeza de que Carlos apreciou isso.
As bodegas haveriam de ser o abastecimento possível em um Paraná que teve de lidar com ondas de crise nesse campo, resultantes do protagonismo da cultura do mate e da pecuária. Mas esses ambientes favoreceram outras experiências além do provimento necessário à manutenção da vida das famílias. As bodegas disseminavam informações; eram palco de uma convivência mais amena, regada a “líquidos espirituosos” (gente, que expressão!); oportunizavam escoamento de produção local; viabilizavam as condições para melhorias dos núcleos urbanos e até trabalho (trabalhadores engajados em melhorias trocavam seu suor por produtos nas bodegas). Neli nos fala ainda dos imigrantes e da logística do abastecimento e da construção da ferrovia.
Uma das coisas mais interessantes da obra é a vida que pulsa nela: com a identificação das gentes, das bodegas e das querelas municipais! Os caderninhos de fiado, o prego, as padarias que se aborreciam com as bodegas que vendiam pão, a câmara que queria taxar os estabelecimentos segundo a diversidade dos produtos comercializados (a “fome” do município...), o esforço para garantir um matadouro com regras mais “modernas”, quando todas as pessoas matavam os bichos no fundo do quintal para fazer os cobiçados embutidos! Ai que vontade de conhecer Irati! Mas “a Irati de Neli” não é a Irati que eu vou conhecer se dirigir até lá... Na Irati que vou ver há supermercados. O livro de Neli chega ao fim.
A obra Os dois lados do balcão dialoga com um monte de gente. Eu descobri uma série de pesquisadores brasileiros que trabalham com bodegas em diferentes recortes históricos, espaços... Neli também buscou referências internacionais e as encontrou. Sua dissertação (lembra que eu falei no início que Os dois lados do balcão é resultado de sua dissertação?) é quase uma tese e, ainda que se diga na área que isso não é elogio que se faça, eu acho que é. Será que ignoro que dissertação e tese são gêneros acadêmicos diferentes? Eu não ignoro. Mas confio no potencial dos alunos e sei que eles nos chegam diversos na experiência de vida e repertório de leitura. Daí que o pesquisador discente pode estar maduro para vislumbrar muito mais do que apontou quando escreveu o projeto! E mais: pode dar conta disso! Ora, temos institucionalmente casos de pesquisadores que do Mestrado são alçados ao Doutorado direto, não?
Essa realidade me leva a outra. Eu fui testemunha de um entendimento muito significativo do que tem sido chamado de internacionalização entre nós. Parece que a área se volta à consideração da capacidade dos pesquisadores dos Programas de Pós de entabularem um diálogo com referências internacionais e atuais sobre os temas pesquisados. Isso se revelaria em produtos, como dissertações e teses. Eu acho esse entendimento muito bom. Não sei se as pesquisas de antiquistas e medievalistas brasileiros foram a inspiração para isso (!!), mas de fato desde que “nascemos” somos criados no diálogo com os le goffs, os dubys dessa nossa vida...; somos criados a aprender o francês, o alemão, o espanhol, o italiano, o latim, o grego...  
Na verdade, muito por causa dessa agenda que nos leva, como medievalistas consagrados a Portugal medieval, por exemplo, a ler todos os portugueses que ainda nos ignoram (desculpem-me, colegas portugueses que não nos ignoram, nós sabemos que vocês existem também!!), todos mesmo!, temos feito no Brasil um movimento muito significativo de nos conhecer melhor. Esse movimento tem animado o diálogo entre os grupos e tem nos dado a convicção de que construímos um campo que não é um apêndice da área de História no nosso país. Quando afirmo que tenho orgulho de fazer História Medieval no Brasil, não estou gritando uma bravata, mas reconhecendo que trabalho em/com campo maduro que me permite citar especialistas em bom português do Brasil. Foi o que fiz muito simplesmente quando fui professora visitante na Universidade de Poitiers (França) em 2014.
Eu já critiquei (e elogiei, preciso ressaltar) um belíssimo livro de medievalista brasileira por quem tenho grande respeito (que felizmente não guardou mágoa acadêmica de mim), em cuja bibliografia quase não havia os pares brasileiros, e hoje fico a pensar que o entendimento da área, mesmo sem ler o livro (que eu li inteirinho e cito!), mas só por folhear a bibliografia, haveria de considerá-lo extraordinário pela sua internacionalização!
O diálogo com a mais completa e diversa bibliografia que pudermos ter acesso nos permite ir mais longe, porque pesquisa que se preze é feita no encontro. Mais uma vez, repiso minha tristeza com a desvalorização dos resultados dos eventos propiciadores de tantas trocas, o assassinato dos anais[2]... Mas o entendimento equivocado da internacionalização (conceito sumamente valorizado hoje) pode nos fazer perder o que conquistamos, em termos de valorização do conhecimento produzido entre nós. Essa é uma questão política séria. Que tenhamos equilíbrio!
Neli Maria Teleginski estudou armazéns de secos e molhados franceses e argentinos, a partir de bibliografia internacional; leu especialistas da História da Alimentação brasileiros e estrangeiros; a bibliografia da sua dissertação de Mestrado é vastíssima! Se eu tivesse tido o prazer de integrar a sua banca, teria feito o elogio “torto” de que sua dissertação é quase uma tese, ela teria sorrido; eu teria ressaltado o equilíbrio entre as partes e uma dezena de outras coisas que não escrevi aqui; teria elogiado o fato de ela conhecer seu campo, os seus e lhe teria dito que se tornou também minha referência bibliográfica.
De onde saíram esses pares para posar para a foto, há mais, nas áreas de História, Literatura e Filosofia. (Colega, se vc não está na foto, é só porque não caberia todo mundo, vc está no coração e nas referências!!!)



[1] SANTOS, Carlos R. Antunes dos.  História da Alimentação no Paraná. Curitiba: Fundação Cultural, 1995. (Há uma nova edição da Ed. Juruá, de 2010).

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Sobre prefaciar livros e projetar leitores

No sábado, dia 6 de maio, estive no lançamento de Minha pátria é minha língua. Identidade e sistema literário na Galiza de Otto Leopoldo Winck (Curitiba: Appris, 2017). Fui até o Mezanino das Artes dar um abraço no amigo e comprar um exemplar para uma amiga. O meu livro estava bem seguro em casa, ele me fora dado pelo autor antes do lançamento. Por quê? Porque eu prefaciei a obra e o autor fez a gentileza de me dar um exemplar de presente.
Foi a segunda vez que escrevi um prefácio para um livro. O primeiro foi para A Comunidade vence o indivíduo: a regra monástica de Isidoro de Sevilha (século VII) de Renan Frighetto (Curitiba: Prismas, 2016). No caso de Otto, Minha pátria é minha língua é essencialmente a sua Tese de Doutorado; no caso de Renan, ele encarou a revisão crítica de sua Dissertação de Mestrado que todo mundo vivia pedindo para que ele publicasse. Então ele resolveu, não sem fazer ajustes. Eu também escrevi um posfácio, para a 2ª edição de Filosofia da Viagem de Jelson Oliveira (Curitiba: Ed. PUCPRess, 2014) e essa história é bem engraçada e muita gente já a conhece. Eu fiz referência ao encontro na introdução do nosso Diálogo sobre o tempo: entre a Filosofia e a História (Curitiba: PUCPRess, 2015).
Por mais que eu tenha gostado muito de dar um abraço no querido Otto, não foi apenas o seu lançamento ou a memória do prefácio que escrevi para Renan Frighetto que me fez parar para pensar sobre esse exercício. Eu estou escrevendo um prefácio no momento. Trata-se do livro A Visibilidade do Sagrado: Relíquias Cristãs na Idade Média da minha amiga Renata Cristina de Sousa Nascimento (UFG/UEG/PUC-GO) e da excelente colega Paula Pinto Costa (Universidade do Porto). Na verdade, foi a convergência entre ver o resultado no caso de Otto, estar no processo de escrita no caso de Renata e Paula, e ter lido um texto que não tem nada a ver com essas coisas, aparentemente...
Eu recebi os 3 convites com muita surpresa. Lembro bem: Mas, Otto, eu sou uma historiadora...; Mas, Renan, por que não pede a alguém melhor que eu?; Renata, tem certeza?. Eles deram explicações que me lisonjearam, sobretudo porque sabem que eu dificilmente me sentiria constrangida a não apontar minhas discordâncias. No caso recente de Otto, cheguei a pedir para tomarmos café, pois eu precisava lhe dizer algumas coisinhas (opiniões divergentes). Tomamos café, eu falei e ele, que é ótimo, disse: Fica à vontade! Não dava para negar o abraço no sábado...
Eu já pedi prefácios. Pedi a quem eu confio de olhos arregalados[1] e a quem não vai me “proteger”, mas que entende a minha mente (eita, dificuldade...), como poucos! Eles e elas corresponderam a todas as minhas expectativas, ou seja, superaram tudo o que eu poderia imaginar que escreveriam.
Escrever um prefácio é realizar um exercício de escrita como primeiro leitor de um texto. Isso é sim uma grande resposabilidade, porque muitas vezes quem procura o livro vai ao sumário e ao prefácio antes de tudo. Nesses lugares, testa a sua necessidade da obra. É também uma grande responsabilidade, porque não há tábuas de salvação, ou seja, não dá para se apoiar em ninguém, afinal ninguém ainda leu! Você está sozinho com o livro e com a expetativa de quem te pediu uma coisa dessas... Vai que a gente não gosta do livro? Vai que o autor que pediu não gosta do que a gente escreveu?! Dilemas...
Ontem, folheando meu Rascunho de maio[2], a 1ª parte do texto de Fernando Monteiro: “Afinal, estamos escrevendo para quem?”, pensei em outro aspecto do exercício de prefaciar. O texto de Monteiro será finalizado apenas na edição de junho e, embora aborde o caso da ficção, o dilema: “mercado ou ralo de fossa” me sugeriu outros dilemas para escrita acadêmica... Confesso que multipliquei as alternativas de Monteiro e cheguei a escrever aqui, mas depois de uma relida, vi que podia reduzir minhas propostas. Ensaio uma questão a partir da sugestão de Fernando Monteiro: os livros acadêmicos são escritos para quem?
Os livros acadêmicos são escritos para os pares, para outros pesquisadores; para os estudantes; para professores de outros segmentos da educação; para interessandos nos temas que nos encantam e que não são especialistas (caso bem raro...) e para os avaliadores de áreas. Quem escreve tem em mente um, dois ou três desses públicos. As tiragens estão relacionadas a esses públicos e o que se faz depois de o livro pronto também revela muito do nosso para quê... Afinal, os escritores acadêmicos trabalham seus livros, falam deles, as obras são submetidas a debates, exames para além do clube do livro das áreas?
Monteiro diz no texto dele, com certa amargura (acho) que: “cada sociedade tem, afinal, a literatura que merece”. Eu fiquei pensando no dilema que ele detectou/propôs e nesse nosso merecimento, no meio acadêmico. Nesse sentido, prefaciar para mim é projetar públicos. É avaliar qual foi o leitor imaginado pelo autor quando escreveu e tentar atrair outros, não de forma ordinária ou desonesta, mas surpreendente para o autor! A tese de Otto foi defendida na área de Estudos Literários e eu comprei o livro para oferecer de presente de aniversário a uma grande medievalista.
Quando se escreve, é importante refletir: para quem? Para quê? Nisso, estou com Fernando Monteiro, até em sua desilusão... Mas como tenho o hábito de arrumar a cama antes de sair de casa ou meia hora antes de deitar, mesmo que isso seja talvez toc, ou talvez démodé, acho que um bom caminho é lermos de verdade uns aos outros. Prefaciar é ler atentamente um outro que nos escolheu e que nos pediu, a despeito de tudo o que podíamos considerar sobre a sua obra prima! Confiança e sinceridade. Taí um tímido binômio que não tem a ambição de superar qualquer dilema..., apenas alisar o lençol. Não sei se Fernando Monteiro concordaria, ou se chegaria a ler esse 100º texto de Literistórias.

Epílogo:
Eis que o blog LITERISTÓRIAS chegou ao 100º texto publicado! Nesse 1 ano e 10 meses, publiquei: crônicas da vida acadêmica, ou seja, textos que nasceram de minha prática docente, como Professora de Literatura que fui (na PUCPR) e de História Medieval que sou (na UFPR), e de minha prática como pesquisadora, junto a um Programa de Pós-Graduação e em um laboratório de pesquisa muito ativo, o NEMED (Núcleo de Estudos Mediterrânicos); contos; traduções; crônicas literárias; colaborações de colegas; resenhas (de filmes, livros e evento); entrevistas; notícias; polêmicas e esclarecimentos. Anunciei a publicação de meus livros, compartilhei imagens (algumas feitas por mim, outras copiadas da internet). Tudo começou porque eu queria escrever sobre coisas que não cabiam nos meus artigos e livros acadêmicos, porque eu gosto de escrever, porque precisava/preciso me manter em exercício constante de escrita... Nesses quase 2 anos, descobri também que esse blog divulga textos, mas encena sobretudo minha história particular de amor pela leitura. É porque leio (muito) que escrevo; é porque adoro ler, que gosto de me esparramar em/com palavras... Agradeço sempre às pessoas (muitas delas são completamente desconhecidas para mim!) que visitam esse blog e compartilham meus textos. Obrigada pela leitura, é bom saber que esse lugar favorece encontros, muito respeitosos, é claro rsrsrs.






[1] Remeto o leitor à minha crônica “Por que confiar cegamente?”: http://literistorias.blogspot.com.br/2017/03/por-que-confiar-cegamente.html   
[2] O texto ainda não está no site. Eu li na versão impressa que recebo em casa. Mas visite o site, para ler outras coisas excelentes: http://rascunho.com.br/