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sábado, 19 de dezembro de 2020

Que apego é esse? Sobre a morte dos mestres

 Para Daniel Osiecki

 

No início do mês[1], acordei com a notícia da morte de Eduardo Lourenço. Morreu velhinho, “viveu”, disse uma amiga. “Viveu”, é claro, amou, foi amado, reconhecido, convidado, bajulado, LIDO... e eu, triste (?!).  Por que tristeza, então, para uma vida que se cumpriu rica, plena? O fato é que, mesmo sem ter tido tempo para pensar a tristeza, assoberbada como sempre, eu a senti... e voltei ao sentimento no convite de meu amigo Daniel Osiecki para conversar sobre sua obra. Fui olhar os meus Lourenços e me lembrar da pessoa que fui quando eu conheci cada um deles. Felizmente, as margens dos livros me ajudaram a resgatar a “nossa relação”. Não, eu nunca apertei a mão do mestre, mas o Georges Duby já nos salvou da imprescindibilidade dessas necessidades físicas, ao dizer que se sentia discípulo de Marc Bloch porque o tinha lido. Se ele disse... Então, porque discípula, eu podia sentir tristeza e até um sentimento de injustiça, afinal, nenhum de meus mestres recebeu autorização para morrer, já aviso.

Quando a gente admira alguém, saber que essa pessoa – mesmo debilitada – vive e vive até a despeito do seu desejo de morrer em alguns casos... dá a nós uma calma egoísta de participamos à distância do milagre da existência dela. A gente abre um livro, lê um parágrafo e imagina-se respondendo a uma coisa que essa pessoa perguntou em 1978, em 1999, em 2013... e vai acumulando desejos, expectativas de encontros, porque participamos do milagre de a nossa existência nesse mundo coincidir com a presença da pessoa admirada!

Quando o Saramago morreu, já estava muito debilitado, eu fiquei arrasada e apavorada, pensando na minha Mestra e Amiga Teresa Cerdeira, amiga de Saramago. Temi que ela adoecesse; temi que adoecêssemos sem ele, sem sua presença já em cadeira de rodas...

O fato é que a morte de pessoas como José Saramago (em 2010) e Eduardo Lourenço (em 2020) – bem vividos na sua vida plena, decerto – planta em nós uma tristeza de perder a possibilidade de ler a novidade e de se atrever a continuar a respondê-los, naquele diálogo imaginado que preenche o coração dos leitores/discípulos fieis.

Acabo de reler o 1º texto de Lourenço que li em minha vida, sobre o Antero de Quental, que adoro. Eu devia ter 19 anos quando li esse texto. Trata-se de umas fotocópias tiradas de livro que pertence à minha Teresa Cerdeira, em que é nítido (por causa de sua letra linda) o comentário final: “belíssimo”. Minhas anotações se misturam às dela, conversamos nessas páginas e a Marcella que sou hoje ainda achou espaço para interpor um grifo, de repente mudo... Uma tristeza me invade nessa injustiça de não sabê-lo imortal para as dúvidas de todas as Marcellas que eu espero ser, na companhia de sua obra! Essa companhia é hoje todo o meu atrevimento.


Confira o bate-apo sobre Eduardo Lourenço em: LUSOFONIA E POLÍTICA - Marcos Pamplona conversa com Marcella Lopes Guimarães e Daniel Osiecki 

 

Do site: https://www.eduardolourenco.com/index.html



[1] 1º de dezembro de 2020.


segunda-feira, 23 de julho de 2018

LITERISTÓRIAS completou 3 anos ONTEM, dia 22/7! De presente, uma entrevista com um fenômeno: uma professora brasileira de Literatura Portuguesa cujo discurso em uma formatura viralizou na internet e emocionou seus alunos e pessoas que nunca estiveram em suas salas de aula. Trata-se da Profa. Dra. Mônica Figueiredo (UFRJ), uma das maiores especialistas da obra de Eça de Queirós.


Conheço MÔNICA FIGUEIREDO há muitos anos. Eu ainda morava no Rio de Janeiro, estava no fim de minha graduação em Letras na UFRJ, quando dividimos uma mesa em um evento. Ela brilhava, notei logo. Depois, eu já no Mestrado, ela no Doutorado, cursamos uma disciplina com o Professor Helder Macedo, disciplina que haveria de mudar a minha vida, aproximando-me de Fernão Lopes e da História. Mônica brilhava: inteligentíssima, alegre, linda, colega que todo mundo quer para si no recreio, nos trabalhos da faculdade e pela vida afora. Eu e Mônica temos muito em comum e talvez o mais importante seja nossa alma mater, Teresa Cerdeira. Ainda bem que o coração dela é grande e que nós – eu e Mônica – não somos ciumentas (talvez só um pouquinho... rsrsrs). Ela tem o privilégio de convier com nossa mestra e eu, o privilégio de tê-las na minha biografia.

Minha amiga Mônica é Professora de Literatura Portuguesa na UFRJ. É licenciada e bacharel em Português-Literaturas pela nossa UFRJ; Mestra em Literatura Portuguesa (Letras Vernáculas) pela UFRJ (1994) – até aí, nossa trajetória é igual! – e doutora em Literatura Portuguesa (Letras Vernáculas) pela mesma UFRJ (2002) – nossa diferença. Fez estágio pós-doutoral na Universidade de Coimbra, onde desenvolveu o projeto de pesquisa: "E[ç]as Mulheres: um estudo da presença feminina na narrativa de Eça de Queirós". Esse projeto foi premiado pela Cátedra Jorge de Sena/Fundação Calouste Gulbenkian (2005); pela Fundação Universitária José Bonifácio, através do Programa Antônio Luís Vianna (2004); e recebeu Bolsa de Pós-Doutorado no Exterior pelo CNPq. Em 2006, o seu projeto de pesquisa foi novamente premiado pela Fundação Universitária José Bonifácio, através do Prêmio Antônio Luís Vianna. Em 2010, finalizou o projeto que discutia as relações estabelecidas entre o romance realista brasileiro e o português, através das personagens masculinas construídas pela ficção de Machado de Assis e Eça de Queirós: "De vencedores vencidos: Bento Santiago e Carlos da Maia. Algumas considerações sobre o romance luso-brasileiro oitocentista". O referido projeto foi agraciado com Bolsa de Pesquisa da Fundação Biblioteca Nacional do Brasil em 2007/2008. Em 2013, Mônica se tornou Bolsista de Produtividade do CNPq. Em 2016, iniciou seu novo projeto de pesquisa, intitulado: "Atlas do romance queirosiano: (des)caminhos viajantes da estética realista", agraciado com Bolsa de Estágio Sênior pela CAPES, em 2017-2018, realizado na Universidade do Porto/ILCML.

Recentemente Mônica viveu a experiência de ser quase uma “youtuber”, por causa de um discurso de formatura, um dos muitos que ela já proferiu, porque seus alunos são apaixonados por ela, o que ajuda a explicar a coleção de homenagens que ela merece na carreira. Eu era menina e moça quando conheci Mônica, ela, Oriana, sem par, porque incomparável[1].

LITERISTÓRIAS: Mônica Figueiredo, você foi patronesse da turma Marielle Franco, da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro em 14 de abril deste ano e na ocasião fez um discurso que viralizou na internet! Em sua opinião, a que se deveu o fenômeno?

MÔNICA: Gostaria de começar por agradecer a lembrança de meu nome para esta entrevista e dizer que é um prazer estar de alguma forma perto da Marcella, amiga de longa data e de jornadas que unem História e Literatura. Em relação a esta cerimônia de formatura, há mesmo coisas que fazem pensar. Ao longo destes anos, tenho tido sorte de ser regularmente homenageada por sucessivas turmas na Faculdade de Letras da UFRJ, ora sendo convidada para patronesse, ora paraninfa, ou ainda como professora homenageada. Creio que em todas as vezes procurei fazer de minhas palavras um depoimento comovido, que fosse capaz de unir o meu coração ao de meus alunos, na tentativa – de todo vã – de vencer o tempo e de ficar na memória afetiva de cada um deles. Se a circunstância nada tinha de nova e se a professora era a mesma, creio que a diferença estava no entorno, ou como diria um escritor realista, o problema estava no real. O discurso de formatura de uma professora de literatura (não partidária politicamente e sem religião) obter mais de 1.350.000 visualizações e incontáveis compartilhamentos, num país indiferente à sua ignorância cultural e polarizado por extremismo político, é mesmo fato que causa espanto. Ouso arriscar que a explicação desse “sucesso” reside no respeito que procurei ter com as várias fraturas que hoje aleijam o corpo nacional. Creio que aliado à ideia de respeito, há em meu texto um apelo ao bom senso e ao equilíbrio, coisas tão em falta neste estado de barbárie em que vivemos. Há também uma boa dose de reconhecimento que une, num país cheio de injustiças, uma legião de humilhados. Por último, (e o que gosto de acreditar que foi mesmo definitivo!), há ainda quem queira ouvir falar de tolerância e compaixão.

LITERISTÓRIAS: Mônica, parte importante de sua carreira é dedicada à pesquisa da obra de Eça de Queirós, quais são as mais recentes tendências da crítica sobre o autor português do século XIX?

MÔNICA: Como você deve imaginar, o número de estudiosos da literatura oitocentista não pode ser considerado uma multidão. Em tempos de pós-modernismos, por muita ignorância e consequente preconceito, o século burguês foi paulatinamente emoldurado como um século artisticamente conservador apesar de tudo o que foi capaz de gerar de mudança e de inovação. A crítica queirosiana na atualidade continua bem representada por aqueles que podemos considerar os “leitores clássicos”, ou seja: Carlos Reis e a coordenação da edição crítica da obra do autor que segue com muitos volumes já publicados; Elsa Miné, que se dedica atualmente ao estudo de outros grandes representantes da Geração de 70; e Isabel Pires de Lima que dá atenção a várias formas de releitura que a obra de Eça vem recebendo da literatura e de outras formas de artes contemporâneas (teatro, cinema, pintura, etc). Há ainda muitos estudos que se dedicam ao “último Eça” e seu Fradique Mendes ligado agora à fundação da questão da heteronímia, antes mesmo de Fernando Pessoa; estudos que averiguam o homoerotismo na obra do autor de “Os Maias”; e, no meu caso específico – depois de uma longa pesquisa que se debruçou sobre a questão do feminino e da consequente revisão crítica da suposta misoginia queirosiana -, cada vez mais insisto no trabalho comparativo da obra de Eça com outros autores de seu tempo e com outras disciplinas, sendo a História e a Geografia os diálogos que mais gosto de privilegiar.

LITERISTÓRIAS: Mônica, você é uma professora apaixonada. O que lê com paixão hoje? Valem clássicos e novidades.

MÔNICA: Cada vez mais gosto de reler, e gosto de reler porque gosto de ver como somos míopes, o quanto nos escapa, o quanto os olhos nos enganam e insistem em deixar “para trás”. Tenho atualmente uma obsessão indisfarçada sobre os estudos históricos sobre a sociedade vitoriana, pois guardo sempre a sensação de que, ao ler a História, estou lendo uma forma de ficção já que, de fato, sou capaz de me transportar no tempo, experiência que chega às vezes a me assustar! É o que acontece quando estou diante do trabalho de Peter Gay, por exemplo! Paralelo a isto, há em mim uma necessidade cada vez mais emergente de reler a ficção do Brasil do fim do Segundo Império e do início da Primeira República, aquele mesmo período que foi conhecido como o da Belle Époque que, convenhamos, historicamente de bela não teve nada! Compreender a composição de uma cidade injusta e injustiçada como foi a construção do Rio de Janeiro tem me deixado hipnotizada e, para tanto, as narrativas de João do Rio, Lima Barreto e, se recuarmos um pouco mais, a prosa de Coelho Neto e de Aluísio Azevedo vêm mesmo ocupando as minhas retinas. Indubitavelmente, literatura e cidade são para mim um tema avassalador.

LITERISTÓRIAS: Mônica, você é professora de Literatura Portuguesa no Brasil. Em contexto de aprovação da BNCC e do novo Ensino Médio, o que tem a dizer ao professor de Literatura do futuro?

MÔNICA: Minha querida Marcella, creia que só não estou mais deprimida porque é chegada a hora da aposentadoria que poderia adiar, mas que não o farei por uma questão de sanidade mental. A verdade é que as chamadas “humanidades” nunca interessaram a um país como o nosso, que desde muito cedo teve como modelo de desenvolvimento nações com potencialidades técnico-científicas e, por isso, aprendeu a se envergonhar de sua cultura, como se uma coisa estivesse atrelada a outra. Um país assim “projetado” não conseguiria – a não ser com muita vontade política – superar seu sentimento de subdesenvolvimento intelectual sem um projeto sério que livrasse nosso povo da ignorância a que sistematicamente foi submetido. A literatura é perigosa, liberta porque faz pensar, mas não produz capital, apenas mentes iluminadas que são capazes de perguntar por quais caminhos tortuosos passam esse capital? Num país em que o analfabetismo funcional já é uma epidemia, o “extermínio oficial” de disciplinas como literatura, história, sociologia, filosofia torna-se uma consequência natural, porque afinal não fazem falta a quase ninguém. Porém, o que mais me dói é intuir que antes mesmo dos governos acabarem com a literatura, serão os professores de literatura que acabarão com ela ao substituírem, cada vez mais de forma inescrupulosa e digo mesmo imbecializante, o texto literário por outros objetos de estudo que, se merecem atenção, não é a dos professores ligados à área de Letras. Precisamos desesperadamente daqueles professores que ainda saibam ler e ensinar Eça de Queirós ou Machado de Assis. Creio firmemente que os alunos brasileiros têm direito a isto!

Para quem quiser conferir o discurso que (viralizou!!!!) emocionou todo mundo:

Quando LITERISTÓRIAS completou 2 anos, eu ofereci aos amigos que me visitam uma entrevista riquíssima com a amiga Maria Cristina Pereira (USP), um sucesso de visualizações e orientações para jovens historiadores da arte. Role a barra e mate as saudades, pesquisando em “entrevista”.



[1] Brincadeira de leitores, com o romance de Bernardim Ribeiro Menina e Moça e com o Amadis de Gaula...


Mônica Figueiredo no lançamento de um de seus livros 


segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Sobre RESENHA, o texto mais generoso do mundo!

A resenha é um texto que realiza a mediação crítica de um objeto. Esse objeto pode ser um livro, um filme, uma peça de teatro, uma partida de futebol, um congresso, uma exposição etc. Ela não é exaustiva, é uma síntese; ninguém deve se sentir instado a reescrever tudo o que leu ou viu com outras palavras (vai perder para o original, experiência única!), mas fazer uma seleção de aspectos que considerou relevantes. A resenha é um texto em que o autor se revela na mediação e na seleção. Por que afirmo que é o texto mais generoso do mundo? Porque pensa no outro, no leitor, o tempo todo, ou deveria...
Eu gosto de escrever resenhas, já escrevi muitas, mesmo que elas não tenham muito valor para as pontuações da Pós-Graduação. Duas resenhas minhas recentes podem ser encontradas no meu perfil do Academia.edu: uma sobre a obra Atlantique comme pont (2012) e outra sobre a obra intitulada Les Troubadours (2013). Outro dia, publiquei aqui no blog uma resenha da obra A Tela da Dama, ensaios de Literatura, escrita por Teresa Cerdeira. Essa experiência me trouxe aqui: a um texto de reflexão sobre o tema.
Por que fazemos resenhas? Nós as escrevemos porque achamos que aquele objeto, vou me deter nos livros doravante, pode interessar a outras pessoas. Nós não chegamos à obra também sem algumas razões e, mesmo que a resenha nos tenha sido encomendada por um editor para um projeto específico, há razões para o volume ter sido encaminhado a nós. A mais forte pode ser nosso repertório. Então, o livro nos encontra e julgamos que ele pode interessar a mais gente. As nossas razões e as que antevemos nos outros convergem para revelar afinal se, em nossa avaliação, aquela obra cumpre ou não o que promete.
Uma resenha deve apresentar o livro. Se se trata de uma tradução e o tradutor é alguém que se dedica à obra daquele autor de forma continuada, como a minha amiga Maria Célia Martirani à obra de Cláudio Magris, vale a pena dispensar duas palavras sobre o trabalho realizado por esse grande mediador, que é o tradutor! No primeiro parágrafo de minha resenha de A Tela da Dama, eu me preocupo em identificar Teresa Cerdeira como ensaísta: falo de sua experiência e redefino o livro, como uma História da Leitura de categorias portuguesas. Aqui, já começo a minha mediação crítica.
Refiro as duas partes da obra e sintetizo seus capítulos. O interessado em Literatura Portuguesa que recorre à resenha que escrevi deve ser esclarecido a respeito do que vai encontrar na obra de Teresa. Se esse leitor pesquisa o século XVIII em Portugal, provavelmente não vai comprar A Tela da Dama por minha causa. Mas um estudioso da Literatura Portuguesa produzida no século XX precisa encontrar no meu texto as razões que o levarão à Teresa. O resenhista poupa tempo e dinheiro ao pesquisador/leitor! Porém, tão importante quanto apresentar o “conteúdo” da obra, foi para mim abordar a poética da autora. Com isso, esclareço ao leitor interessado que Teresa não é uma compiladora, mas uma ensaísta exigente e muito confiável. Afinal, se ela conhece todas as ideias gerais que podem ser pensadas sobre seus autores, ao seu convite: vamos um pouco mais longe?, só cabe o sim.
O gosto por essa poética de Teresa me levou a citá-la muito na minha resenha. Talvez demais... A explicação é que eu quis que o meu leitor experimentasse o texto, mas devo apontar que a citação do objeto deve ser feita com parcimônia. Eu costumo citar os textos quando gosto particularmente deles e quando resenho obras que ainda não foram publicadas no Brasil. Eu penso na angústia de quem acha que precisa de um livro que está distante: “essa angústia que há em sentir a criatura a quem se ama em um lugar de festa onde a gente não está, e aonde não pode ir vê-la” (Em busca do tempo perdido). Ah, esse Proust me adivinha... Para os angustiados, um refresco de esperança, uma frase que pode mudar tudo, danar o cartão de crédito ou salvar as nossas finanças, com um alívio: não era bem aquilo...
Critico o tamanho de minhas resenhas sempre que as termino. Volto e não corto nada... Vou explicar a verborragia com uma razão simples e uma constatação: em primeiro lugar, eu gosto de escrever, isso me leva a permanecer com as palavras e me gastar com elas, não agastar..., e demorar em amorosa visitação. A constatação é que as últimas resenhas que escrevi referem-se a livros que não foram publicados no Brasil. Isso me levou ao esforço de prover ao máximo o meu leitor com informações. A minha enorme resenha de Les Troubadours ainda tem outra razão: eu amei o livro! Esse negócio de amar leva um tempo delicado só para imaginar as declarações.
O leitor da minha resenha de A Tela da Dama descobre rápido que eu conheço a obra de Teresa. Como publiquei a resenha em meu blog, poderia até ter escrito que ela foi minha professora quando eu tinha 17 anos e que foi minha primeira orientadora. No blog, isso é possível! Mas se eu quisesse propor a minha resenha a uma revista qualificada, essas referências pessoais teriam de ficar de fora, pois comprometeriam a avaliação cega, ao identificar-me. Agora, veja bem, conhecer a obra do autor não é identificar-se, é mobilizar o próprio repertório e isso é eficaz em uma resenha. É eficaz e elegante também trazer outras referências ao texto, desde que não seja para se pavonear, afinal outros textos propõem possibilidades de relações inéditas do próprio objeto. Detalhe pseudozoológico: pavões não resenham bem, pois querem que o leitor só enxerguem as suas próprias penas.
Eu sou editora de uma revista e, muitas vezes, leio “resenhas” que na verdade são bons resumos a que o autor juntou um parágrafo final de avaliação crítica. Para mim, a diferença entre esses dois gêneros textuais primos é que a resenha é mais seletiva e crítica que o resumo, que só quer saber de descrever/sintetizar o conteúdo dos objetos. A resenha precisa ter mediação crítica do início ao fim e isso é muito mais abrangente que expressar gostei ou não gostei. Até porque, no pacto de generosidade para com o leitor que o autor da resenha deve firmar, precisa estar escrito que aquilo que não me serve pode servir a alguém. Mas é claro que o gostei ou não gostei também tem seu valor...
A resenha pode enaltecer ou derrubar uma obra, que por sua vez pode ser apreciada de formas tão diferentes quanto o número de seus leitores. A resenha é um texto fundamentado, mas pessoal, no sentido de que os juízos que ela tece partem de formações, repertórios e trajetórias diversas. Essa subjetividade bem informada impõe ao texto (e a seu autor!) uma grande responsabilidade e exige, para a sua realização, uma leitura acurada do objeto, onde análise – decomposição do objeto em partes – e síntese – recomposição da essência – são conjugadas.
Eu falei acima que a resenha vale pouco para as pontuações dos Programas de Pós... Está claro que não concordo com isso e continuo a fazê-las porque elas são importantes. Estimulo as pessoas a escrevê-las. Eu sou uma leitora de resenhas, elas poupam meu tempo na seleção do que me interessa: ajudam-me a comprar, a devassar bibliotecas e a indicar livros. Tenho um grande respeito por quem se sentou lá na sua solidão para escrever sobre um livro que pode mudar tudo o que eu achava que sabia, ou simplesmente confirmar que estou no caminho.

Se eu já li resenhas que me enganaram? Já quis mandar a conta do cartão de crédito! Mas desanimei. Afinal toda conversa guarda a possibilidade daquele equívoco do telefone sem fio da nossa infância.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Para os que querem dominar a arte de ler entranhas, uma resenha de "A Tela da Dama" de Teresa Cerdeira (Lisboa: Editorial Presença, 2014).

A Tela da Dama, Ensaios de Literatura é uma obra em que o exercício da crítica; a experiência da pesquisa, não como “falar do não sabido” (pág. 217), como a autora provoca; da docência e a arte de escrever se conjugam para revelar escolhas que são fundadas na leitura. Muita coisa?! Então talvez A Tela da Dama de Teresa Cerdeira, Professora de Literatura Portuguesa da UFRJ, seja mesmo uma História da Leitura de “categorias portuguesas”, em paráfrase recriadora do projeto de Giorgio Agamben que li outro dia (refiro-me às suas Categorias Italianas, estudos de poética e literatura). Mas, então, como História da leitura, esse conjunto de ensaios é uma experiência ainda maior! A “Introdução à parte I: Contrabandos da cultura: a Babel feliz” é prova; um pequeno (só em tamanho) manifesto pela leitura.
O livro é dividido em duas partes. A segunda é dedicada ao “labor poético”, mas na primeira não reina a prosa, como esperado... Logo, aprenderemos que, com Teresa, trata-se de desconfiar sempre do esperado, explico assim a docência do primeiro parágrafo, que tem forte ressonância em sua poética, como ainda farei menção. A importação do substantivo “contrabandos” como essência da primeira parte esclarece que Teresa está interessada em revelar os trânsitos e transferências, mas que prefere o vocabulário do delito para expressar o que não cabe nas regras, nas licitudes... Quem são os implicados nesse crime de que somos todos leitores, ou melhor, cúmplices? São os autores que, ao longo dos 25 anos de pesquisa referidos no agradecimento ao CNPq, estão nas prateleiras de acesso mais fácil em seu escritório, aqueles que têm mais cores de marca-texto nas páginas, aqueles cujos nomes figuram na capa dos códices de mais continuadas visitações. São predominantemente autores portugueses do século XX e XXI: David Mourão Ferreira, Fernando Pessoa, Helder Macedo, Herberto Helder, Jorge de Sena, José Saramago, Miguel Torga e Sophia de Mello Breyner Andresen. A exceção medieval de Estêvão Coelho é responsável pela não exclusividade da Literatura Contemporânea. Para o poeta e romancista Helder Macedo, os maiores ensaios das duas partes da obra e os maiores riscos.
Quem conhece Teresa Cerdeira sabe bem que Helder é seu amigo, no sentido mais duardino do conceito (refiro-me, é claro, ao disposto por D. Duarte no Leal Conselheiro). Ao vincular o conceito à precisão que lhe dá o rei medieval, rechaço a camaradagem do tapinha nas costas que exime o outro da crítica, bem como a possibilidade de invasão no universo da crítica literária de informações que só a proximidade dá acesso. Teresa antevê o risco e define “Vamos, portanto, partir do universo da leitura de Helder Macedo para encontrar ali as perguntas a serem feias sobre a sua bagagem de viajante” (pág. 23). Com isso, convida seu próprio leitor a um caminho mais cheio de bifurcações, em que, entretanto, a vida orgânica e completa, vez por outra se apresenta. Teresa se detém nos romances Partes de África, Pedro e Paula, Vícios e Virtudes, Sem nome e Natália e vai esclarecendo o mosaico, em que participa também a obra ensaística de Helder Macedo. No primeiro texto, o conceito de Ekphrasis se apresenta e colabora para fundamentar a ideia de contrabando.
Na Tela de Teresa figura José Saramago obviamente. Afinal, até onde sei, a sua tese de Doutorado foi a primeira no Brasil a se dedicar à obra do Prêmio Nobel. No capítulo, como em outros, Teresa revê as suas conclusões, revisita seu diálogo fecundo com a História, ilumina os intertextos e refuta influências. Para uma orientanda de Georges Duby como ela o foi, a evocação de fragmento do Cerco de Lisboa sobre as diferenças que mais importam (pág. 83) parece quase homenagem ao medievalista francês, ainda que não declarada... (lembremo-nos que, em Ano 1000 ano 2000, na pista de nossos medos, o mestre afirmou que são as diferenças que mais nos ensinam), mas nesse caso é também uma medievalista que lê Teresa...
Jorge de Sena merece dois artigos na primeira parte, um em que está acompanhado de Miguel Torga e outro em que Teresa volta a evocar a Ekphrasis. No primeiro caso, a autora está interessada em como os dois enfrentam o discurso bíblico, um discurso fundador (pág. 101). Já na sua leitura de “Teorema” de Herberto Helder, Teresa propõe não a celebração da vingança, mas do amor (pág. 130), “o júbilo erótico de uma experiência a três” (pág. 131), em que contracenam o rei Pedro I de Portugal, a dama Inês de Castro e um de seus algozes, Pero Coelho.
Nos capítulos dedicados a Saramago e a Herberto Helder fica mais evidente um traço dos mais instigantes da poética de Teresa. Chamo o seu fazer ensaístico de poética: repleto de conexões surpreendentes, de referências marcantes e do incentivo (ou provocação?) a abandonar o senso comum. É bem verdade que, no último caso, não se trata bem de senso comum. Teresa publica ensaios sobre Literatura Portuguesa contemporânea em editora portuguesa e fala, sobretudo, aos estudantes e leitores brasileiros cultos. Isso chega para forjar um senso comum? Teresa não quer saber, provoca-nos: “De forma redutora a veríamos se a ela impuséssemos tão somente (...). A questão é certamente maior do que essa” (pág. 84), no caso da Jangada de Pedra de José Saramago ou “o exigente conto de Herberto Helder reclama mais” (pág. 126), “esse conto vai, na verdade, na contramão das expectativas de leitura” e “Não se trata, no entanto, de mergulhar no maravilhoso ou no fantástico que seriam as estratégias facilitadoras e reguladoras da dissensão. O conto, ao contrário, mantém até certo ponto as suas balizas claramente realistas, e é de dentro delas que se constrói a perversão do realismo, quer por efeitos de inadequação temporal, ou espacial, ou actancial (pág. 128), essas três últimas observações concernentes ao conto “Teorema” de Herberto Helder. Teresa nos afirma, com isso, que o caminho fácil não é mesmo o mais sedutor.
A discussão da obra de Helder Macedo (de Viagem de Inverno) também abre a segunda parte da Tela de Teresa, em texto que considero essencial para a poética da autora, ou seja, em que o como é o modo mais singular de o saber se revelar. Eu já escrevi sobre Viagem de Inverno e lendo Teresa me pergunto se eu li mesmo os poemas que compõem essa obra de Helder, tal a maneira como a ensaísta me instiga a pensar por outros vieses, entre a música e a literatura de viagens (pág. 139). Novamente, Teresa desafia: “A digressão, benévolo leitor, é consequente” (pág. 157). A piscada de olho não a faz soltar a nossa mão, mas com a outra ela borda, verbo caro à sua obra (Refiro-me ao seu muito conhecido O avesso do bordado. Lisboa: Caminho, 2000) caminhos novos. No caso da obra de Helder, a demarcação das “estações de uma caminhada” (pág. 174).
Teresa volta a Jorge de Sena, traz David Mourão Ferreira e não se despede de Helder Macedo quando propõe em um capítulo a superação da melancolia do ser português pela via erótica, que a obra dos autores lhe descortina. Teresa os aproxima na vida empírica também, recusando-se a virar as costas àquele todo orgânico de que falei acima, que compõe o sujeito que escreve e paga contas. A obra Navegações de Sophia de Mello Breyner Andresen é revisitada em um texto interessantíssimo sobre História e futuro. De Pessoa, que Teresa alcança via Alberto Caeiro, ela salta séculos para terminar a Tela na Idade Média, com um texto que revela seu trabalho crítico, sua poética e a sua amorosa história da leitura: “no exercício da crítica há que devorar as entranhas do texto, há que ter também olhos agudos para ler o que está além da sua aparente simplicidade, para além da evidência da superfície, para além da externalidade previsível, de modo a deixar-se surpreender não pela profundidade (...) mas pelo que a trama dessa superfície projeta como pluralidade de significações” (pág. 216). Nesse fim que é experiência mágica de ler entranhas, Teresa completa a cena da cantiga do trovador Estêvão Coelho, em que a dama tece e é “autora do canto formoso” que o eu poético escuta maravilhado. Esse texto de Teresa foi também publicado na Revista Diálogos Mediterrânicos 4: (http://www.dialogosmediterranicos.com.br/index.php/RevistaDM/article/view/70/88). Os cancioneiros galego-portugueses não identificaram autorias femininas, mas Teresa “prediz” o passado (!), ao apontar que na cantiga a referência ao canto da mulher prova a sua possibilidade.

Na Tela da Dama leio Categorias portuguesas que não se importam de conviver, entretanto, com outras referências que são essenciais para Teresa Cerdeira. Ela fala de bagagem de viajantes e podemos achar na sua de mão, ou seja, naquela valise que salvamos da possibilidade de extravio, também os mestres Roland Barthes, Georges Bataille e Marcel Proust. No “manifesto” que abre esses Ensaios de Literatura (Na “introdução à Parte I”), Teresa afirma que a “leitura que obseda é a grande condutora do desejo de escrita” (pág. 18), da sua escrita, está claro, mas também da minha, aqui e agora.
 PS.: é possível ler uma outra resenha desta mesma obra em: http://www.nosrevista.com.br/2014/03/18/teresa-cerdeira-aborda-a-critica-literaria-em-%C2%ABa-tela-da-dama%C2%BB/