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segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

O blog completou 4 anos em 2019 e o presente cheira a Natal: Literistórias entrevistou uma historiadora cheia de talentos - Profa. Miliandre Garcia de Souza. Confira!

Conheci Miliandre em uma banca de qualificação de Doutorado do PPGHIS/UFPR. Tratava-se da banca de José Gustavo Bononi, orientando da colega de DEHIS e PPGHIS Rosane Kaminski[1]. Eu me sentia um pouco o peixe fora d’água, afinal como uma medievalista poderia se sentir em banca sobre o Teatro Oficina, entre 68 e 72?! Só mesmo o imenso carinho de José Gustavo pela velha professora e a confiança inabalável da colega Rosane para explicar isso... Essas bancas fazem a gente estudar muito, ter uma atenção de filatelista e rezar para não falar (muita) bobagem. Miliandre me chamou logo a atenção por um dado que não tinha a ver com a banca. Entrou na sala linda, leve, sorridente e fresca de batom vermelho. Já tive conversas significativas com minha amiga Fabiana sobre essa história de batom vermelho! Eu tento raramente porque sou covarde e, quando vejo uma mulher ficar tão à vontade assim, tendo a gostar dela no ato. Pois não foi diferente. Ainda por cima, falou pelos cotovelos coisas de ajudar muito o José Gustavo. Tendo a gostar muito de quem vai para as bancas de qualificação com mangas arregaçadas para colaborar. Pois não foi diferente também.
E não é que o batom voltou na defesa pública?! José Gustavo foi aprovado e a velha professora espera que esteja feliz, realizando trabalhos que lhe deem muita satisfação intelectual. Um dia, no FB, descobri que aquele batom vermelho bordava e escrevia textos com pensamentos tão próximos dos meus que até admirava! Descobri ainda pessoas em comum, pessoas de quem gosto demais, ainda que nem sempre consiga ver e conversar mais amiúde. Mas confesso que a descoberta do tecer, as imagens dos bordados depois de terminados, os motivos, as cores, a parede da casa que nunca visitei (olha como sou abusada!) iluminaram um mantra que repito por aí: a necessidade de uma vida mais plena, cheia de realizações diversas e descomprometidas com o desempenho que nos constrange nesse mundo em que, se concordarmos com Byung-Chul Han[2], estamos doentes de excesso de positividade. Não é que eu ache que Miliandre está imune a isso, acho mesmo que não. Penso só que, desde o batom, estou diante de uma mulher forte e que exerce a vida plena, com seus bordados, filhos, livros, máquina de costura, alunos, marido, casa e estojo de maquiagem.
Miliandre estuda umas proximidades difíceis da história do Brasil com um disco na vitrola, revirando as coxias, olhando comprido para os figurinos, cores, textos e descobrindo que, em meio a tantas diferenças, grupos, artistas, homens e mulheres não abriram mão de dialogar “em dimensões estéticas e políticas”, no período da Ditadura Militar no Brasil.
Vem livro novo por aí, ela fala dele na entrevista! Ao lado de seu mestre Carlos Fico, reuniu um timão para lidar com um tema importante desde sempre. Miliandre refuta a exclusividade do presente que vivemos. Enquanto o livro não vem, eu a vejo recortando motivos, desenhando em bastidores e lendo uma historinha singela que escrevi. Quem sabe um dia, seus pontos não encontram os pingos dos i(s) dessa narrativa de uma avó emprestada?
Quanto ao batom, desconfio que ela tem vários tons de vermelho!

LITERISTÓRIAS: Miliandre, você é uma historiadora bordadeira! Como é isso? Quando e como o bordado entrou na sua vida?
MILIANDRE: Querida Marcella, é uma grande honra comemorar com você e seus leitores o quarto aniversário de Literistórias.
Bem, o bordado entrou na minha vida há muito tempo, não só o bordado como outras manualidades. Como em muitas famílias, essa atividade foi estimulada desde muito cedo, ainda menina. Minha mãe e minha tia, costureiras, me apresentaram o universo da costura, outra tia me iniciou nos pontos básicos do bordado e mais uma tia me ensinou a tricotar. Nessa época, no entanto, eu era uma menina muito “elétrica” como diziam, hoje talvez me diagnosticassem com “hiperatividade” (risos). Magricela e mais alta que a média das meninas, eu era sempre escalada para as atividades esportivas e gostava muito, fiz ginástica olímpica, rítmica e voleibol com expectativas de profissionalização.
Nada disso nem meus interesses escolares durante o ensino fundamental apontavam para o interesse pela história ou pela literatura, que nasceram por influência direta de professores do ensino médio e do cursinho e por intermédio de um primo que já era estudante de sociologia e fã da Elba Ramalho.
Atarefada, mais correto dizer atordoada com as leituras da graduação, depois com as pesquisas na pós-graduação, protelei durante muito tempo pegar numa agulha ou usar a máquina de costura para fazer qualquer reparo ou pregar um simples botão.
Um detalhe que eu acho importante mencionar: essa máquina de costura que tenho foi o presente mais lindo que minha mãe poderia me dar. Era a sua primeira máquina de costura, da marca Singer, adquirida em 1972, antes do meu nascimento. Para minha surpresa, minha mãe presenteou-me com a nota fiscal, às quais, máquina e nota, eu guardo com muito carinho, registro físico de uma história que atravessou o tempo e gerações e que vestiu muita gente: pai, irmão, prima, primo, tia, tio, vó, vô.
Por algum motivo que não sei precisar, guardei a memória daquele ponto que minha tia havia me ensinado na infância numa visita familiar. Enquanto eu procurava pelo ponto e não encontrava, fiz muitas outras coisas: tricô, tapeçaria, arraiolo, mosaico, sabonete, vela.
Em algum momento, descobri que as atividades manuais eram essenciais para o meu desenvolvimento, minha existência no mundo, como pessoa, como profissional, pois ao praticá-las eu organizava a vida, o trabalho, também me organizava internamente, me dava, me permitia dar o tempo necessário (e nem sempre possível) à introspecção, ocupando com isso mãos e pensamentos simultaneamente.
Um dia, a trabalho, fizemos uma viagem a Portugal. Nas proximidades do Porto, resolvemos visitar a cidade de Amarante. Lá, até que enfim, encontrei o tal ponto, com nome e endereço: se chamava rococó e morava em Amarante. Encontrei outros pontos colegas seus, todos da família do “bordado livre”. De Amarante, trouxemos algumas peças bordadas, de lembrança e na esperança de aprender a técnica e por meio dela reencontrar a menina que eu era, mas que havia crescido e já tinha uma menina também, Alice, e carregava, sem saber, um menino no ventre, Francisco. Coincidentemente, naquele breve passeio, sem saber que estava grávida, visitei o santuário de São Gonçalo do Amarante, o santo mais importante da região, a quem mulheres e homens recorrem para pedir coisas relacionadas à fertilidade e à sexualidade.
Também nessa época, conheci Carol, mãe do Nicolas, na escola da Alice. Carolina Sobreira, xilogravurista, ilustradora, gravadora. “Um balaio de coisas”, como ela gosta de dizer. Nesses encontros entre arte e história, ela cursava artes visuais na UEL e eu fazia parte do departamento de história também da mesma instituição, descobrimos amigos em comum, ficamos amigas. Carol decidiu ter um segundo filho, mas nem tudo ocorreu como planejado. Vicente infelizmente faleceu com poucas semanas de vida. Enquanto passava horas na UTI neonatal, Carolina aprendeu a bordar e bordando encontra-se até hoje. Com ela, fiz uma oficina de bordado e aprendi os pontos básicos. A partir disso comprei livros, vi muitos vídeos, treinei vários pontos e também cá estou desde então, bordando histórias, paixões e afetos, em viagens, salas de espera, reuniões, “nas horas à toa”, quando eu “ando a cismar”, como escreveu aquele “compositor confuso” que me rodeia...

LITERISTÓRIAS: Miliandre, sua pesquisa atual relaciona música e teatro[3]. O que só a arte responde ao historiador?
MILIANDRE: Marcella, penso que só a arte é capaz de acessar certos lugares que nenhum outro meio de comunicação, área do conhecimento consegue. A arte cria universos que nos auxiliam a enfrentar estados nem sempre tangíveis, realidades nem sempre favoráveis, sejam elas históricas, sociais, econômicas ou até mesmo existenciais. A arte conecta seres humanos e os conecta naquilo que se tem de mais humano. A arte emociona, desestabiliza, desconcerta, faz pensar, também faz rir, mexe com sentimentos, preconceitos e certezas. O diálogo entre arte e história é um daqueles encontros mais que perfeito, posto que se complementam no que tem de diferente, não de igual. Nosso papel, como historiador que trabalha com arte, teatro, música, cinema, literatura talvez seja o de tornar tangível ou próximo disto aquilo que nem sempre tem tradução, não plena. É um desafio permanente, cujo resultado (suponho) é e sempre será incompleto, porém muito necessário.

LITERISTÓRIAS: Miliandre, quem você lê com paixão?
MILIANDRE: Leio com paixão até mesmo as leituras mais técnicas. Sempre penso, ao menos espero tirar dali algo que me motive de alguma maneira, que estimule a minha curiosidade para além do texto, que me faça buscar em outros lugares coisas que possam vir a se juntar àquela leitura. Mas sonho mesmo ter, criar tempo para me dedicar às leituras que sinto que estou em débito, àquelas leituras que, como disse um amigo sobre o disco de João Gilberto & Stan Getz, “formam caráter”, aquela lista de clássicos que o Calvino nos indica fazer, ler por prazer e quem sabe conseguir inspirar essa paixão em outras pessoas (estudantes ou não) como você faz tão bem. Como disse Ana Maria Machado, “a leitura é um hábito que se cria pelo exemplo” e nisto você é mais que exemplar.

LITERISTÓRIAS: Miliandre, queria que você explicasse a importância do lançamento da coletânea CENSURA NO BRASIL REPUBLICANO organizada por você e por Carlos Fico no Brasil de hoje.
MILIANDRE: A censura é uma prática autoritária que não está restrita a um lugar nem a um tempo histórico, ela atravessa temporalidades e espaços geográficos. É ressignificada de várias maneiras, mas sempre que governos, autoridades, políticos a julgam necessária para conter, controlar, coibir, inibir algum tipo de ação ou comportamento, individuais e coletivos.
No Brasil, a censura esteve presente desde os momentos fundadores, isso se considerarmos que também a Inquisição exerceu algum tipo de censura. Foi institucionalizada e amplamente utilizada pelo governo imperial e atravessou praticamente todo o período republicano até 1988. Esteve presente em regimes ditatoriais como o Estado Novo e a ditadura militar, mas também em períodos considerados democráticos ou de transição democrática. O fato de ter sido extinta da última Constituição brasileira não significa que estejamos plenamente livres desse recurso, dessa ferramenta, desse mecanismo que mais limita que constrói, quem mais cerceia que cria condições de desenvolvimento, muito menos quando imposta à literatura, ao teatro, ao cinema, à música, às artes em geral e às manifestações do pensamento.
Ao contrário, desde que ela foi extinta da Constituição em 1988 não deixamos de vivenciar situações bastante embaraçosas envolvendo algum tipo de controle, eventualmente classificado como censura. Principalmente no contexto atual no qual o Estado já não mais se responsabiliza por ela, mas o governo impõe formas escamoteadas ou declaradas de censura, como também estimula entidades de representação e até mesmo indivíduos a exercê-la indiretamente, a perseguir artistas, intelectuais, jornalistas, humoristas e professores e inviabilizar a produção artístico-cultural no Brasil seja pelo boicote, seja pela ofensiva direta, incitando o público, as pessoas de modo geral, a interferir direta e muitas vezes violentamente num evento, numa apresentação, numa exposição. Isso é tão ou mais grave que criar um órgão com censores credenciados, concursados para realizá-la como aconteceu em outros momentos da história recente brasileira.
Saber que ela existiu e entender como foi praticada, sob quais argumentos, com que propósitos, por quem, em que governos e regimes, que setores da sociedade a apoiaram ou mesmo requisitaram maior rigor, penso ser um passo em tantos outros a serem dados nesse “longo caminho” de construção da cidadania no Brasil.
Se “é preciso estar atento e forte” e o “caminho se faz ao caminhar”, como já disseram dois gigantes, essa coletânea Censura no Brasil republicano, a ser publicada em dois volumes pela editora Sagga em 2020, é nossa contribuição à sociedade. Buscamos com ela ultrapassar o caráter opinativo que tem permeado o debate público no Brasil e analisá-la a partir de experiências concretas no Brasil e no mundo. Como não haveria de ser diferente, buscamos estar ao lado da “cultura, contra a censura” e estabelecer um pacto social amplo e consciente de rejeição da censura como mecanismo de controle e cerceamento de ideias. A tarefa não é fácil, não tem sido, mas assumimos esse compromisso como profissionais e cidadãos.

***
Quando LITERISTÓRIAS completou 2 anos, eu ofereci aos leitores uma entrevista com a amiga Maria Cristina Pereira  (USP), um sucesso de visualizações e orientações para jovens historiadores da arte. Quando Literistórias completou 3, quem brilhou foi a amiga Mônica Figueiredo (UFRJ), grande especialista da obra de Eça de Queirós no Brasil e autora de um discurso de formatura que viralizou nas redes sociais (turma Marielle Franco, de 2018). Se quiser matar as saudades, procure abaixo em “entrevistas”. 


Miliandre Garcia, seu filho Francisco e os bordados, na casa da historiadora.



[2] Sociedade do Cansaço (Petrópolis (RJ): Vozes, 2017).
[3] Pesquisa atual: “Entre o palco e a canção: afinidades eletivas entre a Música Popular Brasileira (MPB) e o teatro engajado na década de 1970”.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Normas “bizantinas” e outras improbidades históricas e linguísticas


Há alguns dias, o presidente anunciou a redução de 90% das Normas Regulamentadoras, as conhecidas NRs: “elaboradas por comissão tripartite incluindo governo, empregados e empregadores, e publicadas pelo Ministério do Trabalho e do emprego. São em número de 32” (hoje, 37)[1]. Os profissionais da Segurança do Trabalho se preocuparam, afinal vivemos uma triste distinção internacional: somos campeões em acidentes... Como entre tantas reações às originalidades deste governo inclui-se o humor, eu mesma vi um meme sobre a NR 10 – Segurança em instalações e serviços em eletricidade:

“10.1 – Cuidado para não tomar choque aí, tá ok?”

A pessoa que compartilhou esse meme comigo sorriu tristemente. Afinal, trata-se de uma norma complexa e vasta.
Na explicação sobre como essa normativa é elaborada, sobressai o esforço conjunto de 3 agentes, mas na “análise” que encerra a promessa do presidente sobressai 1 agente sensível: ”há custos absurdos [para as empresas] em função de uma normatização absolutamente bizantina, anacrônica e hostil”[2].
O uso do adjetivo “bizantina” não me passou despercebido. São 3 também as acepções do adjetivo no Dicionário eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa:

1     relativo à cidade de Bizâncio (atual Istambul, na Turquia) ou o seu natural ou habitante; bizâncio
2    relativo ao Império Romano do Oriente (tb. dito Império Bizantino, 330-1453 d.C.), às manifestações da civilização e da cultura desse império, ou quem nele nasceu ou habitou; bizâncio

n adjetivo
3    Derivação: sentido figurado. Uso: pejorativo.
que tem caráter de bizantinismo ('tendência', 'ato'); frívolo, inútil, pretensioso
Ex.: discussão b.

O sentido pejorativo do adjetivo está previsto no dicionário.
É possível que alguém que estudou história medieval seriamente se pergunte como esse sentido afinal entrou no nosso uso corrente. Fui buscar a resposta em Antônio Geraldo da Cunha, que documenta a palavra entre os falantes do Português no século XIX[3]. Isso é bem interessante.
Sabemos que contrariamente aos iluministas, os românticos gostavam da Idade Média, mas a compreenderam à sua moda. Aliás, o conjunto de particularidades do seu olhar sobre o medievo é uma fonte importantíssima mais sobre os próprios românticos que sobre o medievo! Além disso, a Idade Média que visaram foi quase sempre a da tradição latina. Tradições orientais (incluídas aí as helênicas) estiveram presentes, mas, segundo vários autores já desvendaram, como um “lugar de romance”[4]. Tenho particular encantamento pelos contos fantásticos de Théophile Gautier[5], em que tudo o que é misterioso, terrível, mágico... vem do Oriente! Há outros muitos exemplos para além desse meu gosto particular.
Do lugar “feiticeiro” e politicamente “traiçoeiro” (que rima significativa!), mesmo a identidade cultural de um império, radicado na admirada tradição clássica que soube vigiar e atualizar, haveria de receber a sua demão de desprezo no século dos amantes da Idade Média. Essa história é mais antiga, eu sei, por isso usei o substantivo demão: entre os “inventores” da Idade Média nasceu o desprezo aos sábios bizantinos[6], diminuídos no seu papel fundamental de promotores do Renascimento. Desde o século XV e durante o século XIX, esse desprezo é fortalecido por um desdém de acréscimo: por quem arrasou Bizâncio, os otomanos! A partir do século XIX as próprias relações entre a Turquia e a Europa (que há muito estava “liberta” da consciência do papel cultural da tradição bizantina) tiveram seu papel para a história da transformação do sentido do adjetivo.
Então, o desprezo na fala do presidente tem explicação histórica e palmilhar o rumo dessa explicação é enriquecer o sentido do vivido. No seu esforço de simplificar uma construção plural – a normativa, que deve ser, de fato, sempre revisada pelos agentes, e reduzi-la a 10% do que é hoje, o presidente se serviu do menosprezo histórico a uma tradição cultural que pode lhe ser felizmente explicada pelos “idiotas úteis” ou pelos “espertalhões” do dia 15 de maio de 2019.
Ora, poucos dias depois da “norma bizantina”, seguro pela distância física do país e poucos meses depois da vitória democrática nas urnas, o presidente feriu com ofensa parte significativa do povo brasileiro: a uns chamou de “idiotas úteis” e “massa de manobra”, a outros, “minoria espertalhona” radicada nas “universidades federais do Brasil”, em dia de manifestação democrática.
São muitas ofensas... Elas se coadunam à escolha lexical da inspiração declarada e dos seus sequazes. Idiota é tolo, mas também aquele que outrora preferia não participar da vida pública da polis[7]; ao atrelar a ofensa à expressão “massa de manobra”, o presidente propõe a participação que o uso de idiota não previa no equívoco, e isso tudo a serviço de uma pequena parte de gente de natureza desonesta.
Dia 15 de maio de 2019, levei a minha filha à Praça Santos Andrade no centro de Curitiba para que ela visse como se manifesta democraticamente pela defesa do ensino público e gratuito. Fomos até o Centro Cívico depois e lá assistimos, sobretudo, a jovens que falavam e cantavam. Ela viu que, quando os homens eleitos e suas equipes ameaçam instituições, eles e elas devem ser questionados pelo povo, e que a rua e a praça pertencem a esse povo para exprimir sua opinião e para lembrar que a atuação dos eleitos no curto espaço de tempo de seus mandatos onera gerações... A rua mostra um povo vigilante.
Michael McCormick escreveu sobre o imperador bizantino que:

Quando, ao acordar, os cidadãos de Constantinopla avistavam a espada e os escudo do imperador suspensos dos portões do Palácio imperial, sabiam que a guerra era eminente e que o basileus conduziria o exército na batalha.[8]    

Bizâncio estabeleceu um modo muito particular de se comunicar, e estudar essa e outras formas antigas de comunicação não significa colecionar curiosidades, mas compreender as trocas em sociedades políticas diversas. A púrpura era a cor imperial; o quarto dos partos “batizava” os príncipes em porfirogênitos no império em que o sentido de nobreza era meio supérfluo; os mosaicos não eram arte (como a entendemos), mas uma forma de escrita que se pretendia divina... Existe todo um quadro de particularidades que ilumina as nossas pelas diferenças gritantes! Nem melhor, como os nostálgicos gostariam; nem pior, como os apocalípticos... Diversa. No centro, queria destacar, estão formas de comunicação.
Na voz do presidente, o adjetivo bizantino ganhou o sentido de “hostil” pela associação realizada na enumeração. Novidade. Mais uma nota para a transformação das palavras segundo o desejo de detração das gerações que perderam (de propósito ou por falta de estudo) o ponto de partida! O oriente sedutor, feiticeiro, traiçoeiro, hostil... – cujo vestígio convocado na voz, mereceu, entretanto, ser condenado – pode ser revisto pela explicação histórica, menos interessada na ofensa dos agentes e mais engajada na iluminação fundamentada dos modos de viver de mulheres, homens, crianças e jovens que com sua luta, expressão e sentimentos no tempo são os agentes da História. Uma atividade de honestidade no tempo. 

***

Epílogo:
Imperadores de Bizâncio foram grandes legisladores e a revisão das normativas esteva na sua pauta, na verdade na dos maiores dentre eles.
A família imperial era bem importante em Bizâncio e a transmissão dinástica de poder aconteceu sim, mas... na narrativa desse império de pouco mais de 1000 anos há uma porção de casos de mutilação e afastamento violento da púrpura. Teve até mãe que mandou cegar filho! Drama familiar. Vou deixar uma tarefa: por que será que o apelido de Basílio II é Bulgaróctono?  Sabe, gente, essas metáforas transtemporais escondem umas coisas esquisitas à beça. Se eu fosse crédula, evitava algumas.


Ícone de Basílio II
(Taí uma pessoa morta de que tenho medo...)




[1] ARAÚJO, Giovanni Moraes de. Normas regulamentadoras comentadas. Legislação de segurança e saúde no Trabalho. Colaboradores Juarez Benito e Carlos Roberto de Sousa. 6ª Ed. revisada, ampliada, atualizada e ilustrada. Rio de Janeiro: Gerenciamento Verde Editora e Livraria Virtual, 2007. p. 32.  
Esse dado deve ser atualizado, são 37 normas e 36 em funcionamento.
[3] Dicionário Etimológico Nova Fronteira. (2ª ed. e 5ª impr). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992. p. 113.
[4] Uso expressão de Edward Said em O Orientalismo.
[5] GAUTIER, Théophile. Contes et récits fantastiques. Librairie Générale Française, 1990. Col. Le Livre de Poche. 

[6] Conferir aqui no blog o texto: “Renascimento e tradição bizantina, tradução do artigo “Les Grecs sans Byzance” de Christian Förstel”.

[7] Há alguns vídeos no youtube protagonizados pelo Mário Cortela com explicação clara e didática. Vai lá.
[8] McCORMICK, Michael. “O Imperador” in CAVALLLO, Guglielmo (Dir.). O homem bizantino. Lisboa: Presença, 1998. p. 222.
Detalhes: 1. O tradutor de McCormick empregou mesmo eminente e não iminente... e 2. Basileus é imperador. 

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Pequeno tutorial para os congressistas de primeira viagem (entenda-se por congressista no caso aquele que participa de congressos acadêmicos)

Na semana passada, participei do VII Ciclo Internacional de Estudos Antigos e Medievais (CEAN) do Núcleo de Estudos Antigos e Medievais da UNESP – Assis/Franca – Brasil, que aconteceu este ano em Franca. O título do evento foi “História e Arqueologia nos laços culturais entre a Antiguidade e a Idade Média” e o subtítulo foi “Homenagem aos nossos ex-alunos e demais amigos”. O evento começou na 2ª, dia 18/9, e terminou na 6ª, dia 22/9. Eu cheguei a Franca dia 19, mas só tive condições físicas de participar dos trabalhos a partir da 4ª, dia 20, dia mesmo em que falei.
Queria apontar 2 aspectos essenciais na experiência de que vivi de 4ª a 6ª feira: a reunião de antiquistas e medievalistas e o subtítulo do evento. Em relação ao primeiro, o ciclo me permitiu aprender à beça. Eu adoro aprender e os temas foram os mais variados: desde festas e festivais, até vidas de santos ou hagiografias, modelos imperiais e anti-modelos, cultura material (o que foi aquela coluna romana no castelo cruzado???! Spolia[1]!); experimentei ampliar o que eu mesma julgava saber sobre o vinho[2]; sobre as continuidades e descontinuidades semânticas de vocábulos medievais; animou a necessidade que devemos nos impor de voltar às fontes e interromper a cadeia de citação sistemática dos erros de intérpretes de prestígio; ampliei minhas referências; refleti sobre respostas dadas pelas sociedades do passado a problemas que parecem próximos aos que vivemos... Minhas anotações foram mais robustas para a aquilo que preciso estudar mais ou que ignoro. Tive de pedir um bloquinho novo...
Em reação ao subtítulo, foi com forte emoção que me vi entre os “demais amigos” e disse, antes de proferir a minha palestra na 4ª feira que estava feliz não por receber homenagens, mas por estar bem acompanhada e foi assim que estive sempre em Franca! Revi pessoas que respeito muito, por quem tenho grande afeto, amizade, algumas que eu conhecia há um certo tempo, mas exclusivamente no ambiente virtual (tendo mesmo participado de suas bancas por skype!!!). Vi o carinho com que os ex-alunos, ex-alunas, alunos e alunas da Profa. Margarida Maria de Carvalho que me convidou para o evento a tratam. São algumas dessas pessoas professoras doutoras de instituições de prestígio, pesquisadoras jovens de muita expressão! Eu reparei e fiquei comovida com seu desvelo [Digressão rapidinha: quando eu estava no Mestrado, esperava na porta da Faculdade de Letras até ver D. Cléo chegar, dirigindo o seu automóvel Santana e lá ia eu, apostando corrida com meu amigo José Elias Néder Jr[3], até o estacionamento para pegar a mala, Os Lusíadas, as folhas, ou o que quer que ela quisesse me entregar. Às vezes, ele pegava mais livros, era muito sedutor!, e eu lhe tinha ódio mortal! Fizemos essas coisas para o querido Ronaldo Lima Lins. Também carreguei com gosto bolsas de Teresa Cristina e, em Franca, tive meu revival, quase empurrando os ex-alunos, para ter o privilégio de carregar a pasta preta da colega Margarida Maria de Carvalho rsrsrsrs. Para quem nunca admirou de verdade os seus mestres e percebeu que eram só humanos envergando com o peso desgraçado de suas pastas e mochilas, essa digressão, já meio (muito) longa ressoa à pura puxação de saco... Desolée! Sqn...]
Eu vi muito jovens pesquisadores, alunos de graduação, mestrado e doutorado; havia mesmo os nossos jovens, da UFPR! Fotografei todo mundo, esses jovens e os colegas de Antiga e Medieval em suas mesas. Coloquei-os todos em minha TL do FB, pois se escolhi permanecer nessa rede social, a despeito de minhas vontades semanais de abandoná-la, é para fazer a difusão em grande medida do que me afeta. A pesquisa me anima!
Li comentários diversos dessas fotos, que eu publicava com o título da mesa ou do simpósio. Li de colegas o desejo de ler os textos apresentados e lamento sinceramente que minha área tenha destruído os anais como resultados desses grandes encontros científicos. Eu tenho em meu escritório anais estrangeiros recentes e brasileiros (até o início dos anos 2000) onde ainda colho referências. [Outra digressão rapidinha: eu sou fã de atas de congressos (babo nas minhas atas da Société des Historiens Médiévistes de l’Enseignement Supérieur Public, sociedade de que faço parte na França) e me incomodo muito com as explicações de gente que respeito para aprovar a sua destruição em nosso meio. Eles me dizem: Mas, Marcella, publicava-se tudo sem avaliação... Ora, sempre? Não é verdade. Portanto, é só mais um caso da vitória da prática desprezível sobre uma iniciativa legal. Para que serve um conselho, meu povo? Vou lamentar muito não ler os textos dos colegas que apresentaram pesquisas de muita qualidade no VII CEAN, mas eu compreendo que ninguém vá se esforçar para fazer essas atas, pois também ninguém vai querer publicar nelas e não enobrecer o seu lattes e avaliação quadrienal dos seus Programas de Pós].
Eu não vivo em congressos. Geralmente, escolho um ou dois em um ano, para vivê-lo intensamente. Mas já cheguei a congressos em um dia e voltei no mesmo dia, quando a filha era muito pequena, ainda mamava no peito... Ela ainda é pequena e é custoso para mim enfrentar a separação, mediada pelo avião. Estou convencida, porém, que a gente deve aproveitar essas oportunidades na sua amplitude. A gente aprende muito nessas reuniões, faz contatos importantes!
Porque já fui a muitos eventos e na esperança de ajudar a quem começa a frequentá-los, encerro essa memória de uma experiência recente tão maravilhosa como foi a do VII CEAN cumprindo a proposta do título dessa atualização de Literistórias rsrsrsrsrs.

Pequeno tutorial para os congressistas de primeira viagem
1. Você saiu de casa, conseguiu dinheiro para se deslocar (quer do paitrocínio, da mãetrocínio, do seu Departamento, do Programa de Pós...), para quê? Para ir ao congresso! Não é incrível?!

2. Congressos são experiências amplas! Se nos congressos são previstas pequenas viagens, vá a todas (só se aquela verba do item 1 der, é claro...); se foram incluídas visitas guiadas a acervos e museus, não perca!

3. Congressos são experiências amplas! – parte 2. Se você está em uma cidade totalmente nova até então para você, administre seu tempo para conhecê-la um pouco! Só não se arrisque como bicho solto, nem perca o foco: você foi participar de um congresso.

4. Congressos são experiências amplas! – parte 3. Conheça as pessoas! Aproveite os coffee breaks para conversar com professores e outros alunos. Em princípio, você vai encontrar gente com quem tem muitas afinidades intelectuais! Geralmente os professores que não fogem dos coffee breaks rsrsrsrs gostam de conversar com as pessoas.

5. Não tenha vergonha de fazer perguntas. Eu sei que pode ser uma experiência desagradável, se o palestrante for um ser arrogante. Mas vejo cada vez menos gente que se expõe assim (falo dos palestrantes). Se ficar inibido, tudo bem, aproveite o final da palestra ou o coffee break para conversar.

6. Não tenha vergonha de fazer perguntas. – parte 2. Só não seja o louco da palestra, falando sem objetivo (a não ser o de se exibir) durante o mesmo tempo que o palestrante teve para expor o seu texto e impedindo que outros tenham a sua oportunidade de perguntar também.

7. Faça muitas anotações, não só dos conteúdos das palestras, como dos autores citados pelos palestrantes, seus e-mails, e-mails dos colegas que você fez no congresso e nomes das instituições que se notabilizam nas pesquisas pelas quais você tem interesse.

8. Alimente-se bem, mas seja reservado nas experimentações gastronômicas. Já conheci gente que passou o congresso inteiro trancado no banheiro do hotel e eu mesma já vivi as agruras de uma intoxicação alimentar braba na Espanha (na véspera de minha conferência!). O que disse sobre reserva, vale para outras experimentações.

9. Deixe em casa todas as indicações de sua hospedagem, de onde o congresso vai acontecer, com quem você vai, horários de voos etc. Avise na chegada e faça contato durante o evento. Isso não é dar satisfação de sua recém adquirida liberdade, isso é sério.

10.            Se você vai viajar para um país estrangeiro, faça seguro.

Aproveite o congresso, faça novos amigos e conheça lugares. Isso é viver! No VII CEAN, vivemos em grande estilo!

Escolhi essa foto linda, tirada na 4a, dia 20/9, pois ela ilustra um pouco o que é viver um congresso: estar ao lado dos amigos, alunos e conhecer pesquisadores novos (no caso, a querida Graciela Noemí Gómes de Aso)



[1] De forma muito geral, reutilização de materiais.
[2] Remeto o leitor ao Diálogo sobre a alegria: entre a Filosofia e a História, em que eu e Jelson Oliveira escrevemos sobre “Beber” e, sobretudo, sobre o vinho!
[3] Meu Deus, quantas saudades de você, Zé!

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Te conto o que (não só) me contaram: ensaio biográfico sobre Glória Kirinus, por Denise Miotto Mazocco

Fechando o ciclo de publicações dos ensaios biográficos da disciplina "Narrativas biográficas e autobiográficas", Literistórias publica HOJE o texto de uma visitante ilustre, a doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Letras e contista Denise Miotto Mazocco. AMANHÃ, também tem ensaio de aluno da turma, mas não é propriamente um ensaio biográfico... É aguardar!


De modo contrário às biografias cujos autores são fãs e/ou já têm um longo interesse acadêmico ou pessoal pelo biografado e seu trabalho, nesta – que agora escrevo – posso dizer que eu, a autora, conheci antes a biografada do que sua obra, à qual recorri durante o processo de escrita. Isso de forma nenhuma, penso eu, prejudica a escrita deste ensaio biográfico, dado que, em se tratando de uma escritora, o contato imediato com seus personagens pode nos revelar trevos de sua trajetória. Tampouco, o reduzido conhecimento prévio do trabalho da biografada invalida meu curioso olhar sobre ela e minha disposição para a escrita (Permito ao leitor, neste momento, interpretar nas entrelinhas e nos entre parêntesis um traço de mea culpa e de inconformidade – dado o tempo perdido –, por ter lido apenas um livro – logo direi qual – até a data em que a conheci).
     Pois bem, conheci pessoalmente Glória Kirinus em uma aula (no dia 31/05/2017), justamente sobre biografias, em que ela, a convite da Profª Marcella Lopes Guimarães, apresentou aos alunos sua trajetória. Antes, porém, a sabia por referência – Professora de Letras da PUC-PR, lançamento do novo livro de Glória Kirinus, oficina de criação literária com Glória Kirinus –, mas, curiosamente já que desta característica me cabe o extremo oposto, parecia que eu chegava sempre atrasada – aluna depois que ela havia saído da instituição, compromisso no dia do lançamento, perda de prazo de inscrição. Na aula em questão, dessa vez, eu estava lá com meia hora de crédito.
     Glória (Prefiro me referir a ela dessa forma, pois, uma vez linguista, gosto mais da ambiguidade que sustenta o nome, do que da especulação de uma etimologia genealógica para chegar ao sobrenome!) sentou-se e começou a preparar seu power point, como chamou. Sua fisionomia me lembrou um pouco Joan Baez – talvez pelo corte de cabelo quase grisalho, pela estatura, pelo blazer –, com a diferença, é claro, entre a voz doce e suave da escritora e a voz afinadamente impositiva de uma de minhas cantoras favoritas. Desconheço se Glória Kirinus ouve Joan Baez e/ou se Joan Baez lê Glória Kirinus. Optei por não me aprofundar na questão, já que pode se tratar mais de uma saída descritiva minha para a fisionomia da biografada (passível de discordância) do que de uma questão de gosto. Enfim, para apresentar-se, Glória tirou da bolsa uma llama, um caleidoscópio, um galo e uma porção de mar acolhido em uma concha.
     Os objetos dispostos sobre a mesa logo flutuaram minha memória por uma infância expectadora de histórias cujos personagens eram instrumentos, objetos, manipulados pelos contadores. Daí minha primeira impressão: é contadora de histórias! Ela, porém, não personificou aqueles objetos, os tornou, pois, símbolos de partes de sua trajetória – palavra que, segundo Glória, a está perseguindo há tempo. A infância no Peru, a curiosidade pelas fronteiras, a possibilidade do erro, o olhar para o infinito, repectivamente, a simbologia de Glória.
     Mas para além disso a escritora nos deixa também seus mapas em pequenas autobiografias nas orelhas, nos finais e nas contracapas de seus livros.  Foi assim que, juntando as pistas, calcei a llama de Glória. Em seu primeiro livro, O sapato falador, ela conta que, em Huancayo, Peru, onde nasceu, seu primeiro sapato de lã "abrigou cantigas de ninar". Outros sapatos também marcaram sua vida: com sapatos equilibristas e cirandeiras, ela desaprendeu lições de mundo, e com sapatos ciganos passou pelo Canadá, quando aprimorou o "franglês", e chegou ao Brasil, onde, além de pisar, caminhou, e ganhou novos sapatos de lã – três filhos.[1] Em Lima, fez Turismo, talvez para aprender o próprio país, aqui fez Letras (na UFPR), para descobrir a língua portuguesa. Foi neste momento, década de 80, que escreveu O sapato falador, provocado por uma grande enchente que deixou várias pessoas desabrigadas, o que motivou um grande movimento para arrecadar doações. Os sapatos, protagonistas da história, foram doados para um menino que estava em um abrigo. Aproveitando a oportunidade única de falar com sapatos – até então só sabia das botas falantes, do Machado de Assis –, conversei com eles. Tanto o Esquerdo, quanto o Direito, que, embora diferentes, às vezes concordam em determinados pontos, destacaram a importância da Glória, bem como relembraram como foi participar da ocasião da enchente. "Foi por causa da Glória que nós viajamos de helicóptero pela primeira vez. Eu tava achando tudo muito legal. O Direito, pra variar, tava sério.", começou o Esquerdo, o mais falador. O Direito logo se defendeu da provocação do amigo: "Estava apreensivo, na verdade. Nós tínhamos que entregar o bilhete ao menino e calçá-lo. Era uma grande responsabilidade. O Esquerdo achava que também poderia fazer bagunça." "Ah, mas confesse, conseguimos nos divertir com o menino. Com contos, charadas, histórias... Quando ele vinha com aquelas questões, você emendava uma história", disse o Esquerdo dirigindo-se ao Direito. Este logo completou: "Sim, sim... No fim deu tudo certo. Mais do que esperávamos. Calçamos até outras crianças." "Tudo graças à Glória", os dois falaram juntos. Ambos sempre retomam o falatório, quando o livro ganha novas edições.
     Glória sustenta um olhar curioso sobre as línguas e sobre as fronteiras. Quando menina, no Peru, ouvia a narração de futebol no rádio, atrás de novas experiências linguísticas. Já no Brasil, encantou-se com as expressões "fazer arte", "cor de burro quando foge", "dor de cotovelo", embora quando aqui pisou pela primeira vez tenha sido recebida com o desagradável "Ame-o ou deixe-o". Nos seus textos, porém, não se serviu de formas prontas, como poeta reinventou combinações de palavras, de sons e de sentidos – tudo que a língua permite. E nas combinações linguísticas e geográficas, ela se caracteriza "palavreira de nascimento", peruana do Brasil e brasileira do Peru.[2]
     Para as fronteiras, ela tem um caleidoscópio para espiar o outro lado. Basta um movimento que o outro ganha novas cores e novas geometrias. Em Te conto o que me contaram– livro que ela elencou como um dos preferidos, dada a homenagem que faz aos contadores de história –, Glória conta que, em Lima, na ponta dos pés tentava espiar o outro para além das montanhas. Nesse desejo permanente de se sobrepor à geografia, ela constrói histórias, as quais, segundo a escritora, "ignoram montanhas e conversam livres entre si, nutrindo fantasias."[3]
     As histórias de Glória acordam bilíngues. Assim ela ressignifica a expressão fazer arte, no Brasil. Após assistir a um seminário do Ferreira Gullar, contou-lhe sua aflição por sentir-se sem identidade linguística, já que sua língua materna era o espanhol; ao que o poeta sugeriu o aproveitamento da força do espanhol em favor da escrita em português. A escritora seguiu a deixa do hibridismo e avistou a necessidade de traduzir, traduzindo a si mesma, fazendo, assim, arte, ou seja "traduzir uma parte na outra parte". Ao escrever também em espanhol, ela manifesta a harmonia da América bilíngue, dinâmica. O que a poesia de todos os povos faz há muito tempo é a possibilidade "do encontro das mares, da conversa entre as montanhas e de colóquio de nuvens", é, pois, "a criança de todas as idades querendo saber como é seu nome em outra língua."[4] Desenvolveu, então, seu estilo dobrado: "de dia e de noite; em verso e em prosa; para adultos e para crianças; no quente e no frio... E claro, em português e também em espanhol."[5] A escritora manifesta seu amor pelas duas línguas, ao, em sua literatura, deixar espaço para as duas: "Assim, o cravo não sai ferido e nem rosa despedaçada."[6] Dessa forma, Glória afirma sua escrita caleidoscópica pontuando: "Nascemos traduzíveis e prontos para fazer (p)arte do mundo inteiro."
     Glória, contudo, além de gostar de espiar os outros lados das fronteiras, também trafega por uma trajetória acadêmica, o seu outro lado. Em seu Currículo Lattes, que inclui os registros de graduação em Letras (UFPR), mestrado (PUC/RJ), doutorado (USP) e pós-doutorado (Paris V), há os títulos e artigos sobre teoria literária. Não vejo, porém, sua produção acadêmica e literária de modo separado. Os dois lados conversam. Quando, por exemplo, desenvolvia a dissertação de mestrado ("A formiga e a cigarra" e "Isto e Aquilo"), teve como provocação questões referentes à fábula A cigarra e a formiga, que era apresentada nos livros didáticos, elevando a formiga como um modelo a ser seguido. Além de constatar que poemas sobre as cigarras não existem nos livros escolares, indagou-se: "Ao final, para que servem uma cigarra, uma menininha ou um artista? O belo pode ser sério? O saber pode ter sabor? O prazer pode permitir-se apenas ser?"[7] Em paralelo e provocado pelas mesmas questões, nasce o livro Formigarra Cigamiga, em que formiga e cigarra passam por uma transformação e misturam características. Uma das capas nos leva até o centro do livro com a história da primeira, e a outra capa nos leva com a história da segunda. Ambas as personagens conversam no centro. Assim, só sabemos qual é a frente do livro por um capricho editorial da folha de rosto e do código de barras.
     Encontrei com as protagonistas, em uma tarde, e elas falaram de Glória e da amizade. A Formigarra, quem tem forma de formiga e a garra de cigarra cigana, fala sobre a transformação por que passou no livro: "Era como se eu estivesse presa naquele mundo de formiga, entende? Trabalho, casa, juntar comida... Como se eu não soubesse fazer outra coisa. Mas daí a Glória apareceu e foi como se... como seu eu tivesse nascido de novo. Ressuscitado mesmo. Morri de enfarte formigante e ressuscitei Formigarra [risos]. Devo muito à Glória, quem me apresentou de fato a Cigarra, minha amiga." A Cigamiga, que tem cara de cigarra e miga da formiga, por sua vez, conta como venceu a solidão e a pressão social: "Antes de conhecer a Glória, eu era..., assim, muito sozinha, entende? Tipo, me divertia cantando, dançando e tal. Mas, tipo, sentia falta de uma miga mesmo. E, assim, era aquela pressão total, né? Pô, não vai trabalhar? Quando que vai tomar um rumo na vida? Ninguém sobrevive só de música. Daí surgiu a Glória e tal, me apresentou um outro lado da Formiga, curti pra caramba... E agora, tipo, tô dando um gás aí... pipoqueira, engenheira... [risos]". Ambas, agora, são amigas e vivem conversando. "A Formigarra? Workaholic total! A Glória fez benzaço pra ela, sabe. Virou até fogueteira! A gente conversa pra caramba!", contou a Cigamiga quando perguntei o que uma achava da outra.  E a Formigarra acrescentou: "É muito bom conversar com ela, a Cigamiga. A gente se diverte um monte lembrando de quando eu era uma mera formiga e ela uma simples cigarra. A gente agradece que esse tempo passou", brinca. Glória dedica o livro ao seu filho do meio, por espelhar ambas as personagens em diferentes momentos.
     Além das reflexões responsáveis por cruzar os caminhos de sua escrita acadêmica e literária, o modo como classifica sua literatura também tem cheiro de um grande debate da teoria literária. É literatura infantil? Baseada em Bartolomeu Campos de Queirós, Glória chama de adulto-infanto-juvenil, para o desespero de qualquer editor e de funcionário de livraria que tem que organizar as prateleiras.
     E é também da sua ponte acadêmica que Glória traz o neologismo maradigma. Termo cunhado em seu pós-doutorado, é a licença para se olhar o infinito e se questionar os paradigmas. A escritora, desse modo, propõe uma percepção ecopoética do mundo e a transporta naquele pedaço de mar que tirou da própria bolsa.
     A Glória, que escreve, leciona, ministra a oficina Lavra-Palavra e conta histórias, também conversa com a lua. Curiosa sobre essa prosa além-Terra, entrevistei a lua (porém, tive que esperar ela ficar cheia, fato que atrasou um pouco produção desta biografia). Perguntei-lhe sobre a Glória e sobre os principais assuntos de suas prosas. Após um longo tempo de luz pensante, ela disse que Glória lhe conta segredos de amor, elas trocam simpatias para curar dores, jogam xadrez, falam sobre grilos, vagalumes, silêncios e tantos outros encantamentos... Fiquei, entretanto, com uma questão atrás da orelha que me pulou, como uma pulga, da ponta da língua: se Glória, como ela disse na aula a que assisti, escreve literatura das 5h às 7h da manhã – fuso horário do Peru, como brincou –, e para tanto deve dormir cedo, que horas ela fala com a lua? Não obtive resposta. A lua apenas me olhou com um brilho que sinalizava uma cumplicidade a qual eu não poderia ter acesso.                                                                                                                                                     
     Bem, mas claro que a escritora não fica o tempo todo em prosa com a lua. "Em Curitiba, onde moro, cuido do jardim, invento moda, faço sopa de letrinhas e lavro a palavra em diferentes espaços: escolas, universidades, eventos literários."[8] Além disso, brinca com as palavras junto com o neto. "Você gosta de amora? Vou contar pra seu pai que você namora.", ele joga.
     No seu processo de escrita, cujo início é madrugueiro, Glória destaca o prazeroso desafio da reescrita, da reedição, a maturidade para se receber nãos e a conformidade com a possibilidade do erro. Esta última está materializada na miniatura do galo que ela nos apresentou. Memorizado neste objeto, está o livro O galo que cantou por engano (Esse mesmo: o único que eu havia lido.) e o episódio que o motivou. Glória foi convidada para dar uma oficina em uma cidade do Rio Grande do Sul. Na ocasião, teve um eclipse do sol. Passado o eclipse, um galo confuso, que já havia cantado pela manhã, despertou a cidade novamente. Entrei em contato com ele, mas não quis me receber. Apenas respondeu dizendo que o equívoco ainda está em sua memória, porém a narrativa do episódio pelas mãos de Glória lhe está ajudando a lidar com isso, de modo que agora não sente mais vergonha, somente um leve constrangimento. A partir desse acontecimento, a escritora repensou a ideia do erro, tanto que, ela explica, permitir-se errar foi o que a encorajou a escrever em português.  
     Glória também gosta de reeditar seus livros. Para ela, dessa forma, os livros renascem. O contrário, o livro parado é morte súbita. Contudo, além do seu próprio olhar para o mundo, para as fronteiras e para as línguas, que ela transforma em texto literário, há o olhar do outro para a sua própria obra que a transforma em escritora e que lhe revela sua trajetória. Glória, nesse sentido, tem leitores, alunos, filhos e reticências.
     E tempo? Sem o qual não haveria trajetória, muito menos biografia. A resposta está em poesia, bilíngue. "Se tivesse tempo/escreveria num verso/só/somente/soletrando/ o tempo." Faria um desfile de formigas em uma folha em branco. Voltaria à esquina, no cruzamento dos pardais, procurando a palavra perdida que deixou voar. Acompanharia a sombra passo a passo. "Inventaria a arte de desinventar." Sairia pelo mundo a cirandar, com vestido de cigana retirado do velho baú, e viveria mil vidas na palma de cada mão. Aprenderia a tecer com as tecedeiras e a fazer tortas com as doceiras. Vagaria pela noite para sonhar. "Faria estágio no circo da cidade." "Tomaria banho de espuma no chafariz da praça." "Aprenderia a voar demoradamente". Entre essas e outras, Glória também gostaria de mais tempo para "ler e aproveitar a poesia, seja em português ou espanhol."[9]
     Este pequeno ensaio biográfico, por ora, se fez com llama, caleidoscópio, galo, concha, sapatos, cigarra e formiga, formigarra e cigamiga, e lua. Se eu tivesse mais tempo? Conversaria com todos os seus personagens, pediria que Glória me ensinasse quéchua (também sou amante das línguas), estudaria o maradigma e reescreveria este texto quantas vezes fosse necessário, de modo a contribuir para deixar a lâmpada da lua sobre esta trajetória sempre acesa.

Esta é Denise Mazocco, idealizadora do excelente blog Prosa Domingueira: https://prosadomingueira.wordpress.com/
Há mais Denise em Literistórias, afinal ela é autora da 1a resenha de Menina com brinco de folha. Procure aqui!



[1] KIRINUS, G. O sapato falador. São Paulo: Cortez, 2008.
[2] KIRINUS, G. Formigarra Cigamiga. Curitiba: Editora Braga, 1993.
[3] KIRINUS, G. Te conto que me contaram = Te cuento que me contaron. São Paulo: Cortez, 2004.
[4] KIRINUS, G. Se tivesse tempo = Si tuviera tiempo. São Paulo: Larousse do Brasil, 2010.
[5] KIRINUS, G. Te conto que me contaram = Te cuento que me contaron. São Paulo: Cortez, 2004.
[6] KIRINUS, G. Lâmpada de lua = Lámpara de luna. São Paulo: Larousse, 2011.
[7] KIRINUS, G. Formigarra Cigamiga. Curitiba: Editora Braga, 1993.
[8] KIRINUS, G. Lâmpada de lua = Lámpara de luna. São Paulo: Larousse, 2011.
[9] KIRINUS, G. Se tivesse tempo = Si tuviera tiempo. São Paulo: Larousse do Brasil, 2010.