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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Sobre o leitor libertado, divagações sobre o volume A prisioneira, 5º de Em busca do tempo perdido de Marcel Proust

O clube do livro começou a leitura de A Fugitiva, 6º volume de Em busca do tempo perdido de Marcel Proust. No final deste mês temos debate! Depois do 5º volume, resolvemos fazer um intervalo de valorização da compreensão da catedral proustiana, que também revelou alguns impasses e desconfortos da leitura de A prisioneira. Esse 5º volume não foi fácil. Nenhum de nós (do clube)curte relações abusivas, sequer no domínio do texto, e o volume encena esse tipo de vínculo com os mesmos requintes textuais que nos encantaram desde 2015..., o que piorou as coisas. Antes de prosseguir, preciso apontar que a sensação de desconforto proveniente da leitura do 5º volume não foi uma “fraqueza” de nossos espíritos sensíveis. Muita gente não gosta desse volume em participar. Anne Carson escreveu um breve livro, The Albertine Workout, sobre seu desconforto e esse opúsculo recebeu uma resenha muito atenta de Adalberto Costa, em que ele revela os engodos que vitimaram a própria Carson[1]. Vale muito a leitura dos dois textos.
O 6º volume, A Fugitiva, começou para mim com a sensação de que a libertação foi do leitor, ao mesmo tempo em que reconheci meu “velho” Proust, mais maduro nas relações, ou seja, mais definitivamente lançado à evidência do fracasso do protagonista. Mas será que de fato se pode pular o 5º volume[2]? Nada presta em A Prisioneira?
Para esse exercício de validação, voltei meus olhos aos grifos e comentários às margens da minha elegante (e algo decadente, do ponto de vista físico) edição de 1954, cuja imagem vai logo abaixo.
O narrador evoca o tempo em que coabitou com Albertine e a narrativa encena a complexificação disso, na apresentação de uma Albertine em camadas: de Balbec (em franca liberdade) a Paris (cativa do protagonista). O cativeiro dessa personagem é um aspecto muito curioso no volume, na medida em que Albertine vai aonde quer, enquanto o protagonista-algoz-guardião da cela, trancado em seu próprio quarto, está sempre a ponto de rebentar ante as suspeitas dos passeios da personagem feminina. Bizarre.
Superada (quase nunca...) a má vontade ou a revolta franca contra as relações abusivas que imperam no 5º volume, a questão do tempo merece toda a atenção do leitor. Esse é um volume visitado por fantasmas. A memória da avó volta em várias páginas. A mãe viva comparece como ectoplasma, entretanto, nas cartas, cheias de citações de Madame de Sevigné (p. 117)... É um volume carregado de lutos difíceis para os leitores da catedral: Bergote e Swann morrem! Como assim??? “A morte de Swann impressionara-me na ocasião profundamente. A morte de Swann! Swann não tem nesta frase o simples papel de um genitivo” (p. 168).
Meu segmento favorito do volume foi a apresentação de Morel em casa da Sra. Verdurin. Essa festa acaba mal..., mas seu “durante” é espetacular. Por quê? Porque a narrativa mergulha em uma simbiose estranha de música e palavra que fascina. Há a relação física, o amplexo do músico com seu instrumento musical; há o exercício materializado na mecha que cai no rosto de Morel, enquanto executa as notas..., coisas mal contadas por mim. A festa gira em torno da apresentação do Septeto de Vinteuil, personagem que conhecemos pelo talento musical e pelas preferências amorosas e eróticas da filha. Para não contar mal outra vez, transcrevo o texto, mas não resisto à tentação de entabular um diálogo entre colchetes:
“Mas no momento em que eu a imaginava assim a esperar-me em casa [o narrador imagina Albertine, à sua espera].... fui afagado de passagem por uma cariciosa frase familiar e doméstica do septeto [agora, a frase musical vai transportar o narrador a lugares imaginados]. É possível, de tal modo tudo se entrelaça e se superpõe em nossa vida interior – que ela tivesse sido inspirada pelo sono de sua filha – da filha, causa hoje de todas as minhas inquietações – quando esse sono envolvia em doçura, nos tranquilos serões, o trabalho do músico [aqui, eu me encontro também, na frase musical muda e na cena tão cotidiana, de alguém que escreve, estuda, trabalha..., velada pelo sono tranquilo de uma filha que repousa logo ao lado. Esse trecho me emociona], essa frase que me acalmou tanto, pelo mesmo macio fundo de silêncio que enche de paz certas rêveries de Schumann, durante as quais, mesmo quando ‘o Poeta fala’, adivinhamos que a ‘criança dorme’” (p. 214)
“A alegria de certas sonoridades” (p. 215)... A palavra persegue o som, tenta traduções impossíveis. Eu não escuto o Septeto, mas compreendo a língua dos sinais que Proust me apresenta.
Há certas ironias nesse volume como quando o narrador recebe uma carta da mãe, “esta carta de minha mãe fez-me cair na realidade” (p. 311), e não posso deixar de sorrir do fato de a realidade ser apresentada por meio da ficção do texto! Mas a ironia mais fina do volume para mim é a autorreferência ao 2º volume da Busca, refiro-me ao “lado Dostoievski de Madame de Sevigné” (citado em À sombra das raparigas em flor, p. 205) sobre o qual já escrevi[3]. Como o narrador retoma o tema? “Confesso que o que eu disse naquela ocasião era uma sandice” (p. 324). Mas ele continua a brincadeira, contradizendo a “sandice” afirmada, com diálogo entre colchetes:
 “Acontece que a Sra. de Sévigné, como Elstir, como Dostoievski [vejam a mistura entre fictícios e reais!], em vez de apresentar as coisas na ordem lógica, isto é, começando pela causa, nos mostra primeiro o efeito, a ilusão que nos impressiona. [depois de falar da “obsessão” de Dostoievski por assassinatos, o narrador prossegue na ironia] Eu não sou romancista; é possível que os criadores sejam tentados por certas formas de vida que não experimentaram pessoalmente.” (p. 325)
É espetacular! Ironia em camadas também: ridiculariza a associação que construíra, mas prova logo em seguida que ela é pertinente e se identifica como um não romancista, enquanto o romance se escreve. Onde essa análise tão sofisticada é realizada? No quarto, com Albertine nos joelhos do narrador.
Sobre as interdisciplinaridades, o historiador que lê a Busca encontra motivos sobejos de animação. Além do caso Dreyfus que atravessa a obra nas considerações do narrador e dos mais diversos personagens, é possível ver em detalhes as mudanças da sociedade parisiense na época, e mesmo o avião vemos sobrevoar a cidade luz, pelo olhar admirado do casal Marcel e Albertine, justamente no 5º volume! Esse volume também vai agradar aos amantes da boa gastronomia, leitores de À mesa com Proust (como eu[4]), pela sinestesia que propõe: “O que eu gosto nesses alimentos apregoados, é que uma coisa ouvida como uma rapsódia muda de natureza às refeições e se dirige ao paladar” (p. 107). Mas atenção, são superficialidades de enredo, menos no caso da sinestesia.
Para terminar, tem mais abuso nesse volume..., o que são as relações entre Morel, a sobrinha de Jupien e o Barão de Charlus?!? A verdade é que não sou imediatista e com esse texto confirmo mais uma vez que, se o leitor tem o direito de abandonar o livro que está a ler (tem sim!!!)a qualquer momento que desejar, uma história da leitura também deve incluir perseverança. Eu já espalhei aos quatro ventos minhas obtusas preferências de ler os finais dos livros. A ansiedade pelo fim não constitui a minha biografia (eu tenho outras...). Saber tranquiliza e garante uma entrega maior ao texto. Opinião pessoal. Eu sabia que depois d’A Prisioneira viria um’A Fugitiva e isso me animou, deu-me esperança.

A minha elegante edição de 1954!



[1] http://rascunho.com.br/tese-banal/ (acesso em 14 de outubro de 2017)
[2] Sugestão que aparece apontada no livro de Anne Carson.
[4] Procure aqui no blog minhas considerações sobre esse livro de fazer a gente comer com os olhos. 

segunda-feira, 22 de maio de 2017

A intimidade de Marcel Proust por Céleste Albaret

Monsieur Proust foi recebido com uma profusão de sentimentos (contraditórios) quando foi lançado em 1973[1]. Em minhas mãos tenho exatamente essa edição, embora saiba que a obra foi reeditada em 2014. Hesitei bastante na compreensão desse texto complexo: trata-se de um testemunho dado a Georges Belmont por Céleste Albaret. É a reunião feita por ele de cerca de 70 horas (5 meses) de entrevistas realizadas com a mulher que trabalhou para o escritor Marcel Proust ao longo dos  últimos 8 anos da vida dele; que viveu ao pé do autor; para ele; sacrificando a sua juventude, sua vida particular, sua vida conjugal, na consciência absoluta de que serviu (o verbo é esse mesmo) a um gênio.
Georges Belmont sabe da importância e da complexidade da obra que realizou. Escreve uma introdução, em que contextualiza o testemunho de Céleste. Ela tem já 82 anos e, depois de cerca de 50 em silêncio, resolveu falar. Belmont teme essa voz tardia, afirma que submeteu as declarações de Céleste a repetições e também pôde aferir essa impressão tão certa quanto difícil de explicar: a franqueza. Mas por que afinal Céleste rompeu o silêncio? Não é uma coisa estranha pensar que, algumas pessoas quando alcançam certa idade julgam-se capazes de falar tudo... Nesse tudo, incluem as mágoas e impropérios que a decrepitude desculpa (será?)... O livro Monsieur Proust. Souvenirs recueillis par Georges Belmont é feito de respostas.
Alguém pode redarguir: mas as obras não são sempre respostas, nosso desafio é saber fazer as perguntas?! Essa réplica é certa. Mas, quando afirmo que o livro é uma coleção de respostas, quero dizer que Céleste responde a outra coleção de equívocos que a fama de Proust, sua obra, sua larga epistolografia, sua reclusão e o próprio silêncio de Céleste... só fizeram crescer, após a morte do autor. Meu exemplar de Monsieur Proust está repleto da palavra “resposta” nas margens. Já no final da narrativa, essa síntese:
“Mas hoje, antes de deixar o mundo na minha hora, a ideia de que possa subsistir uma dúvida ou uma mentira sobre tudo o que eu vi e que é a verdade tornou-se me tão intolerável que eu quis que fosse dito, de uma vez por todas, que as páginas que se seguem são a minha memória exata e que eu reexaminei suficientemente, controlei e verifiquei os fatos de minhas lembranças para ter a certeza da minha fidelidade absoluta à realidade do que foi. É um testamento o que eu escrevo aqui, não um testemunho.” (pág. 412).
O livro é dividido em 30 capítulos, tem excelentes documentos fotográficos e, ao final, consigna transcrições de alguns poucos (mas relevantes) telegramas enviados pelo autor a pessoas do círculo de Céleste Albaret, conjunto em que fica evidente a atenção de Proust para com as pessoas a quem se dirigia e a sua tocante gentileza. O livro é linear, foi organizado dessa forma por Georges Belmont, ainda que aqui e ali haja antecipações ou retomadas de algumas ideias. Belmont resolveu realizar uma narrativa em primeira pessoa, é Céleste quem fala. Aqui está a essência da hesitação que referia acima: não seria esta uma biografia dupla? Biografia e autobiografia misturadas? Depois de muito refletir, cheguei a uma compreensão que compartilho, não sem antes ressaltar que a obra está inscrita na coleção “Vécu”. Trata-se, portanto, da memória do vivido; a memória de alguém sobre outro alguém com quem a voz que narra e revoca conviveu. Biografia escrita em primeira pessoa. Não seria mais fácil compreender o texto realizado por Belmont como uma autobiografia em que Marcel Proust é o personagem mais brilhante? Não..., porque toda a vida de Céleste só aparece no texto para fazer viver Marcel Proust e às vezes literalmente, levando-se em conta a narração de seus cuidados para com o autor de Em busca do tempo perdido.
Céleste “nasce” no texto praticamente casada com Odilon Albaret. É Odilon que coloca a esposa em contato com o autor. Importa destacar que, assim como Céleste foi devotada a Proust ao longo de 8 anos, seu marido o foi desde antes, pois servira como chauffer ao autor, na sua época mais mundana. O começo do texto está cheio da conversa de cozinha, entre os empregados de Proust e, talvez tenha sido esse disse-me-disse um dos elementos da má vontade com que a obra foi recebida em alguns meios. Parece que os primeiros leitores da memória de Céleste tiveram dificuldade em compreender seu deus em uma casa em que os criados tinham ciúmes uns dos outros e disputavam a primazia do serviço ao autor... Ora, eu fiquei a pensar nas pessoas que disputavam para serem recebidas por Proust! Vejo uma grande diferença entre os grupos: os palacetes e contas bancárias.
Céleste começa a trabalhar para Marcel Proust logo depois de seu casamento. Ela tem 22 anos, veio do campo, está só em Paris e se entristece. É Proust quem analisa esse abatimento em uma conversa com seu chauffer (sim, o autor da Recherche era atento a tudo e a todos) e sugere a Odilon ocupá-la em seus correios. A princípio, não há compromisso, é um passatempo. Mas o tempo de fato corre e Odilon é rapidamente mobilizado para a guerra. Trata-se da Primeira Guerra Mundial. A experiência da guerra muda a vida de todos no livro e, sobretudo, a do autor, de quem ela fala. Quando o valet Nicolas Cottin deixa o serviço da casa, Céleste assume tudo. Ela já aprendera a estrita rotina do autor, desde o preparo do café (super detalhado na obra, o que a princípio parece um exagero de texto) até o arejamento do quarto, passando pela troca da roupa, pela espera do chamado para levar o café e os horários, de quem levantava depois do meio dia e costumada tomar o café da manhã às 16:00!
O preparo do café e outros mil detalhes na verdade são muito importantes na obra. Eles conferem grande credibilidade à narrativa de Céleste, porque ela deixa muito claro o que de fato viu. Essas miudezas que desagradaram a alguns são a riqueza da obra! A experiência de Céleste compreende o que ninguém a não ser ela poderia contar sobre Proust. Não são, portanto, pormenores desimportantes, mas a vida “real”, com seu café, croissant e leite... Durante esses 8 anos, e apenas interrompido por algumas encomendas, foi tudo o que constituiu a dieta do autor. Céleste não conjectura sobre o que e se ele comia fora, ela se limita (e insiste nisso) em recontar o que viu.
A minha leitura de uma rotina tão rigorosa como a de Marcel Proust me fez pensar em uma coreografia muito bem ensaiada. Não acho que Céleste ou Belmont desaprovariam a metáfora, porque ela me foi sugerida pela observação da própria Céleste dos gestos do autor: delicados e precisos. A linguagem do corpo tão bem observada pela governanta, a imitação de alguns no início das madrugadas depois de animados saraus, os dedos a enquadrar bochecha e queixo, em uma das imagens mais conhecidas..., tudo isso constituía um verdadeiro ballet! Mas para que a primeira bailarina dançasse, um corpo de baile se matava para garantir seu sucesso... Ora, o capítulo 18 se chama justamente “Tyrannique et méfiant” e nos faz pensar que por muito menos que o que está lá, uma décima parte talvez, umas vinte Célestes teriam abandonado aquela casa do Boulevard Haussmann.
Quando Céleste passou ao serviço de Proust, o “temps du camélia à la boutonnière” terminara... Mesmo assim, ela teve acesso à memória que o autor conservou do período. Nessa rememoração da rememoração, um aspecto se revela em conformidade com a franqueza que comoveu Georges Belmont. Céleste não tem o menor problema de revelar nomes e opiniões que alguns poderiam/puderam considerar chocantes sobre pessoas “admiráveis”, mesmo dos amigos mais próximos e devotados do autor. Trata-se em grande parte de ciúmes, invejas e incompreensão...
Ligado à identificação de pessoas muito reais, que visitam manuais de Literatura, Pintura, Música, bem como têm seu nome na capa de várias publicações de prestígio (o que ela nos entrega de André Gide não é pouca coisa[2]...), vemos os “modelos” do autor: uma coleção de pessoas que emprestaram traços a seus personagens mais conhecidos e fascinantes. Devorei as páginas escritas sobre o conde Robert de Montesquiou, modelo do fantástico Barão de Charlus!!!! A princípio, não sabemos quem é mais estranho: se o modelo ou o personagem. Proust chega a prevenir Céleste para o caso de Montesquiou mandar entregar qualquer caixa de chocolates... O autor não esconde o receio de que estivessem envenenados (pág. 315). Depois de ser informado da morte do conde, Proust revela a Céleste que havia momentos em que achava que Montesquiou ainda vivia: “ele é perfeitamente capaz de se fazer passar por morto e de tomar um outro nome, por curiosidade de seu ‘pós’” (p. 315). O final do capítulo é muito bonito. Céleste afirma que, depois de algum tempo, ela achava que o conde Montesquiou deixou de existir no espírito de Proust: “A verdadeira realidade, era Charlus” (p. 315). O personagem lhes sobreviveu a todos.
Ainda que a sinceridade de Céleste possa ter sido algo indigesta para uns e outros, o desconforto veio primeiro da leitura da obra enquanto o autor ainda vivia! Isso é muito interessante. Alguns “modelos” se insurgiram contra Proust! O conde Robert de Montesquiou foi um deles... Isso exigia que Marcel Proust empregasse muitos recursos retóricos para defender a sua obra aos olhos de pessoas que se reconheciam nela. A verdade é que mesmo tendo modelos bem nítidos e saindo à noite para fazer prospecções, o autor reuniu traços de diversas pessoas. O fato de algumas delas se reconhecerem talvez advenha da convivência que experimentaram com Proust ou... do fato de termos sim a certeza de que ele escreveu para nós.
Muito já se escreveu sobre a homossexualidade de Marcel Proust. O fato é que Céleste nada afirma sobre isso e não devemos pensar que se tratou de “proteção” ao autor em um contexto em que as paixões de um homem como Montesquiou ou como o personagem Charlus eram tabu. Céleste nada pode revelar porque só tem duas fontes: o que viu e o que Proust lhe relatou. Segundo ela mesma declara, o autor era de um pudor imenso. No fim da vida, extremamente debilitado, para se levantar da cama, onde estava todo vestido, pediu à Céleste que se virasse e, quase inconsciente, deve ter sofrido mais por ter percebido sua coberta ser levantada para uma injeção que pela injeção em si (mesmo levando em conta que ele tinha horror a picadas). Ainda que ela tenha afirmado que ele lhe confiava tudo, havia limites decerto.
Há dois capítulos sobre os amores de Marcel Proust. No capítulo 15, as mulheres que ele admirou, cujo charme lhe marcou (elemento muito valorizado por ele!), pelas quais se interessou ou se apaixonou. Entre os documentos fotográficos, encontramos algumas delas: a atriz Louisa de Mornand, o amor adolescente Marie de Benardaky... Lemos a sua desistência de casar-se. No início do capítulo 16, “’d’autres’ amours” (pág. 227), Céleste afirma que embora achasse que Proust tivesse capacidade para amar, não acredita que jamais tenha realmente se apaixonado. Ela cita diversos nomes de homens, para desfazer equívocos de encontros no Boulevard Haussmann. Novamente ressalto que ela só pode se reportar ao que viu ou dele ouviu. Nos seus limites, não se escusa de mencionar, por exemplo, um nome que segundo ela mesma fez correr tinta: Alfred Agostinelli, que serviu Proust como chauffer. Mas Agostinelli haveria de morrer em 1914, quando Céleste havia recém entrado a serviço do autor! Outro nome citado foi o do “modelo” de Jupien: Le Cuziat, que era proprietário de um bordel. Nada sobre Reynaldo Hahn nesse enquadramento... Embora esse amigo fiel apareça muito ao longo da obra e tenha mesmo velado o corpo de Proust junto a Céleste e ao irmão do autor. Apenas os três na companhia de 2 religiosas (pág. 432). Hahn tem mais desenvolvimento no capítulo das amizades (capítulo 19), junto a Mme Strauss, Robert de Billy, os irmãos Bibesco e Frédéric de Madrazo.
Na memória de Céleste, Marcel Proust fez todas as concessões (im)possíveis para a sua obra e só as fez por ela. Ao colocar um fim no livro, mesmo que ainda houvesse muito a corrigir (entre os documentos fotográficos, vemos como os originais voltavam de suas correções...), seu corpo entrou em colapso. As concessões ignoravam os cuidados para preservar a frágil saúde. Mas há uma cena interessante em que se misturam pesquisa e frequentação ao bordel de Cuziat, poderíamos compreendê-la no quadro das concessões? Na volta, Marcel Proust relata uma cena masoquista à Céleste. O diálogo seguinte à narração é extraordinário:
- Senhor, isso não é possível, não pode existir!
- Mas existe, eu não inventei.
- Mas, Senhor, como pôde olhar para isso?
- Justamente, Céleste, porque eu não posso inventá-lo. (pág. 240)
Trata-se de um pequeno capítulo das relações entre ficção e realidade...
Apenas uma visão muito parcial da catedral[3] proustiana, ou mesmo a ignorância completa do texto, travestida de escolha por textos mais “engajados”, explicariam a falta de reconhecimento do extraordinário desvelamento literário de um mundo prestes a sucumbir. Proust foi um leitor voraz e, durante a construção de sua catedral, lia variados jornais e se interessava pela política, pela bolsa de valores, pelas artes, pela literatura e pela crítica. Tinha suas preferências políticas e manifesta na sua obra um evento que lhe tocou particularmente: o caso Dreyfus[4]. Céleste não busca explicar a crença de Proust na inocência de Alfred Dreyfus a partir da sua ascendência materna (a mãe de Proust era judia), mas pelo seu amor à verdade e à justiça.
Céleste nos conta algumas coisas muito difíceis, como a queima dos cadernos pretos de notas; a verdade (com provas materiais rsrsrs) de que André Gide, o “falso monge” (pág. 353), sequer teria lido o célebre manuscrito recusado; a mudança do Boulevard Haussmann, não sem desfazer os equívocos dessa mudança de endereço, para a rua Hamelin, onde o autor haveria de morrer, e a sua agonia. Proust recursou todos os tratamentos médicos que estavam à sua disposição, e estavam à sua disposição o que de melhor havia em seu contexto! É nesse momento que nem Céleste lhe pôde obedecer..., mesmo tendo se remoído de remorsos. Mas quem não lutaria mesmo contra quem ama para salvar-lhe a vida?
Marcel Proust morreu no dia 18 de novembro de 1922. Era um sábado. Logo, um cortejo de amigos viria até a rua Hamelin para despedir-se dele. Ele só seria enterrado na quarta feita, dia 22 de novembro. Depois disso, a vida de Céleste passa depressa no texto e em poucas páginas a vemos ter uma filha, sua única filha; vemos Odilon morrer; ela vender lembranças de Proust em razão da doença de Odile; vemo-la no Museu Ravel. Sua última lembrança na narrativa é ainda Marcel Proust, em uma pequena joia que ele lhe deixara.

Referência: ALBARET, Céleste. Monsieur Proust. Souvenirs recueillis par Georges Belmont. Paris: Éditions Robert Laffond, 1973.

Epílogo:
Quando terminei de ler a obra, dia 15 de maio de 2017, tinha o rosto lavado em lágrimas. Precisei ser consolada. 95 anos depois de Marcel Proust ter morrido, eu chorava a sua morte! Desde setembro de 2015, ele tem sido uma companhia constante: o intervalo de minha vida, cheia de linhas preenchidas em agendas cujo tamanho das páginas fica maior a cada ano... É difícil achar tempo para um intervalo tão exigente: 7 volumes! Até para ser lido, ele é o tirano que Céleste e seus grandes amigos deixaram que reinasse em suas vidas. Em nossas vidas.

Amigos, as traduções realizadas no texto são de minha inteira responsabilidade.




[2] “Entre os que gravitaram em torno de [M. Proust] (...) é preciso que eu me detenha sobre André Gide, a princípio porque, ainda uma vez, ele foi o único e grande responsável pela recusa do manuscrito de Swann na [editora] Gallimard, e [porque] depois da morte de M. Proust, nasceu um equívoco sobre uma pretendida intimidade e relacionamento entre eles – equívoco que foi expressamente criado e alimentado por André Gide” (pág. 355)
[3] Céleste emprega essa mesma metáfora no seu relato.
[4] Sobre esse tema, mas não só, recomendo a tese de doutorado do Prof. Alex Neundorf (PUCPR), disponível em: http://www.humanas.ufpr.br/portal/historiapos/files/2013/05/Alex.pdf (acesso em 15 de maio de 2017).

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Literistórias entrevista o poeta marabense AIRTON SOUZA. Confira!

Airton Souza nasceu em Marabá, no Pará, em 23 de março de 1982. É um ano mais novo que minha irmã caçula e por 3 dias não é do signo de peixes, igual à minha mana. Poeta e professor, possui 27 livros publicados. A formação de Airton está entre a História e as Letras. É licenciado em História, pós-graduado em Metodologia do Ensino de História, licenciado em Letras – Língua portuguesa, pela UNIFESPA – Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará e Mestrando em Literatura pela UNIFESSPA. É membro de diversas academias de Letras e instituições literárias, entre elas a ALSSP – Academia de Letras do Sul e Sudeste Paraense, cadeira nº 15, patrono o poeta Max Martins. Possui uma intensa atividade voltada à promoção do livro e da leitura, como a realização de saraus e encontros literários entre escritores e leitores.  Já venceu prêmios literários importantes, entre os quais se destacam: menção honrosa no Prêmio Proex de Literatura, Prêmio Cannon de Poesia, menção honrosa no Prêmio LiteraCidade, com o livro Face dos disfarces, primeiro lugar no Prêmio Dalcídio Jurandir de 2014, um dos mais importantes da Estado do Pará, com o livro de poemas Ser não sendo, um dos vencedores do IV Prêmio Proex de Arte e Cultura, com o livro de poemas manhã cerzida, em 2015 venceu prêmios literários importantes, entres eles o III Prêmio de Literatura da UFES, promovido pela Universidade Federal do Espírito Santo, com o livro de poemas Cortejo & outras begônias e o Prêmio Nacional Machado de Assis, promovido pelo Canal 6 Editora, de São Paulo.
Airton é casado com Leonice Souza e pai de Leonardo Souza. A imagem que escolhi para esse post foi feita por Leonardo, que captou o pai em entrevista concedida ao grupo RBA, afiliada a Band, sobre a fundação da Academia de Letras do Brasil e sua importância para a região do Sul e Sudeste do Pará. Eu tenho particular afeição pelas imagens que minha filha faz de mim... e como Airton me deixou escolher, acho que vai aprovar a minha escolha!

LITERISTÓRIAS: Airton, o que é a Barraca Literária?
Airton: Bem, a Barraca Literária nasceu como Tenda do Escritor Marabaense, que visava integrar uma rede de autores de Marabá, para em uma tenda nas praças públicas da cidade expor seus livros e, sobretudo, promover a venda desses livros. A ideia não funcionou porque os autores não participaram ativamente da Tenda. Desse projeto, surgiu então a ideia de criar a Barraca Literária, que já vai completar dois anos em atividade. Trata-se de uma barraca onde exponho todos os livros que publiquei para vender nas praças de Marabá aos domingos e feriados. Apesar de cumprir uma função mais comercial, não deixa de ser um espaço para mostrar a produção literária de mais de 16 anos de publicações, que resultou hoje em mais de 26 livros publicados e diversas antologias organizadas.
Existem outros projetos que coordeno, entre eles está o Projeto Tocaiunas que é hoje o maior projeto de literatura independente da Amazônia. Já conseguimos publicar mais de 45 autores, com a tiragem dos livros que ultrapassou os 16 mil exemplares. Livros que são comercializados a R$ 5 e que têm o formato bolso. Tudo pensado para incentivar a produção literária e principalmente a leitura, por meio do livro acessível, de baixo custo.

LITERISTÓRIAS: Airton, fale um pouco sobre a poesia de Marabá. Existe uma poesia “de Marabá”? Fale um pouco sobre o seu trabalho como organizador de antologias.
Airton: Na verdade o que estamos criando por aqui, por meio de diversos projetos é um coletivo, que visa além de valorizar a produção dos autores de Marabá, buscar mostrar que Marabá é um espaço onde existe literatura. Nossa terra ficou muito conhecida pelo alto índice de violência, principalmente na década de 80 em diante, devido aos fortes ciclos econômicos existentes por aqui. Na década de 80, por exemplo, tínhamos em nossa geografia a maior jazida de ouro a céu aberto do mundo, o Garimpo de Serra Pelada.
Se fôssemos mapear a literatura marabaense e aferir quantos autores estão publicando, acho que hoje estaríamos com certeza com um número que chegaria a ultrapassar cem, o que é um número expressivo levando em consideração diversos aspectos, entre eles: as condições culturais e econômicas, ou seja, grande parte das publicações é independente, custeada pelos próprios autores, pois não há incentivo algum, por se tratar de um espaço em que a violência ainda é muito latente, além de estarmos em um espaço periférico do país e onde a leitura, por parte do poder público, nem de longe parece ser prioridade.
Como organizador de antologias, eu criei um projeto anual que denominamos de Anuário da Poesia Paraense, que tenta publicar um grande número de poetas paraenses; a antologia Mandala que é uma publicação nacional, aberta para poetas do país inteiro e diversas antologias resultantes das oficinas que de vez em quando ministro em escolas públicas da cidade de Marabá.

LITERISTÓRIAS: Airton, você é um poeta premiado. Qual é a importância dos prêmios literários, em geral, e para você, em particular?
Airton: Eu sempre procuro enxergar o lado bom dos prêmios literários. Só para constar, antes de vencer um dos principais prêmios de literatura do Estado do Pará, que é o Prêmio Dalcídio Jurandir, diversos poetas nunca tinham falado comigo. Ao vencer o prêmio, até essa relação mudou. Mas, para falar a verdade, eu encaro os prêmios literários por duas ópticas, que são elas: resistência e oportunidade. Entendo sempre os prêmios literários como o nosso espaço de resistir e existir e como uma grande oportunidade de colocar nosso trabalho à prova de outros olhos e sentimentos.
Quando eu chego a vencer um prêmio literário eu sempre coloco entre meu nome o de minha terra. É sempre uma vitória minha, em particular, e de minha cidade, que acaba também por ganhar uma notoriedade. Também os prêmios literários, às vezes me fazem acreditar que somos capazes de algo. Não que seja para mim o essencial, vencer prêmios, pois, por incrível que pareça, nunca me inscrevi em um prêmio literário confiante de que seria vencedor, sempre penso no pior (muitos risos).
Mas eu estou convicto de minha literatura. Gosto do que estou escrevendo nesse momento. Por isso, nenhum prêmio literário me fará mudar o caminho ou me motivará a escrever fora de minhas convicções literárias.

LITERISTÓRIAS: Airton, você é um leitor voraz. Quais são os seus poetas?
Airton: Eu vivi uma história triste com a leitura. Uma das mais tristes histórias que se possa imaginar. Só para ser ter uma ideia, no tempo em que eu estudei, isso até o segundo grau, nem mesmo meus professores tinham livros didáticos para trabalhar. Lembro que lá no ensino fundamental, por exemplo, grande parte de meus professores tinha os assuntos escritos em cadernos, tipo brochuras, e olha que nem sou tão velho assim. Mas, foram tempos difíceis, em que meus pais não tinham a possibilidade de escolher entre comprar ou não livros para nós. O que ganhavam trabalhando compravam milharinas para fazer cuscuz para as jantas e café da manhã e carne, feijão, farrinha e arroz para o almoço.
A minha história com os livros e essa postura que me possibilitou a tornar-me um leitor só seu deu perto de meus 30 anos de idade e, por isso agora o que faço com a leitura é pelo menos tentar correr atrás do prejuízo pelos longos dias sem ter a oportunidade de ler. Por isso mesmo, leio cerca de três a quatro livros de uma vez. Eu reconheço que preciso correr atrás desse prejuízo. E, não só por isso, mas principalmente porque a leitura hoje é um vício em minha vida.
Quando você me pergunta quais são os meus poetas, eu preciso responder que são todos, assim como são todos os romancistas, os contistas, os escritores de livros infantis, o livro de um modo geral. Eu procuro tirar de minhas leituras coisas para os dias de minha vida. Procuro aplicar o que leio em minha vivência no mundo. Na leitura encontro as respostas de que necessito para viver.

LITERISTÓRIAS: Airton, complete esse desafio: fazer poesia no Brasil é ...
Airton: Eu costumo dizer que a poesia se tornou, na história da literatura brasileira, uma espécie de margem, isso em relação aos demais gêneros. Já ouvi professores de língua portuguesa dizerem que não gostam de ler poesias, pelo simples motivo de não entender nada. Acho que eles não aprenderam a lição essencial para quem quer realmente ler poesia: não é no sentido que está o segredo, mas no sentir. Até mesmo na repulsa ao ler qualquer poema está a verdadeira chave do sentido da poesia.
Penso que fazer poesia no país envolve uma questão tão complexa, porque quem escreve sabe o quanto ela é essencial na/para a vida das pessoas. Essa complexidade de fazer a poesia no Brasil envolve uma série de questões que não consigo explicar exatamente. O certo é que a poesia sempre será feita por aqui, aconteça o que acontecer. Isso sim, eu tenho certeza.
“(...)
atravessar
é sempre tragicômico
ainda mais quando
não se tem uma mão
a que segurar
para o gesto da ida” (pág. 33)

“(...)
lança-te sem medo
é preciso encorajar
tua pele para o desconhecido” (pág. 56)

“(...)
enrijecido sustenta passados
medita sobre o presente
tem pelo futuro
um pasmo assombroso
que alimenta o escuro

te inquieta muro
o mundo não arfa baldrames.” (pág. 61)



(Alguns de meus versos favoritos de Cortejo & outras begônias, vencedor do III Prêmio EDUFES de Literatura na categoria poesia. Esse prêmio me deu muitas coisas, deu-me a possibilidade de publicar Menina com brinco de folha!, e uma dos mais significativos presentes foi conhecer a obra de Airton Souza! Escolhi fragmentos e poucos, pois não pedi ao poeta licença para publicar poemas inteiros).


segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Hum... Nasce uma estrela!

Nesse outubro que finda hoje, nos dias 18, no Rio de Janeiro, e 25, em Curitiba, o Diretor da Hum Publicações FRANCISCO SOUSA nos deu a conhecer a sua coleção Mediações. Trata-se de sete livros entre 50 e 80 páginas em que a leitura é a estrela principal. Assinam as sete obras especialistas nessa astronomia: Eliana Yunes (Professor leitor: uma aprendizagem e seus prazeres); Alessandro Rocha (Formação de mediadores de leitura: o sentido entre o texto e seu leitor); Maria Clara Cavalcanti (Formação do leitor: uma questão de jardinagem); Gilda Maria Richa de Carvalho e Thatty Castello Branco (Leitura no trabalho: destravando línguas, olhares, pensamentos); Rosana Kohl Bines (Que histórias contar para os filhos); Rubén Pérez-Buendía (Roteiros de leitura na escola: da biblioteca escolar à sala de aula) e Marta Morais da Costa (Hoje se lê o espetáculo? Lê, sim, senhor!). Dia 25 de outubro, estive no charmoso Marbô Bakery para abraçar bem apertado o meu querido Francisco, ex-aluno e página de um dos meus livros[1], e minha amiga, Profa. Marta Morais da Costa, que há muitos anos atrás me deu um emprego que larguei depois. Deixei o emprego, mas ela... Comprei minha coleção, ganhei autógrafo e comprei um volume em separado para dar de presente à Professora da Clarinha. De quebra, abracei meus queridos Jeferson Freitas, Juliana Sanson, Júlio Röcker, Jurema Ortiz, em ordem alfabética para não despertar ciúmes – minha biografia é cheia de Js! – e Luiz Lucena.
Passei a semana envolvida com muitas leituras, mas não resisti ao convite de dois volumes em especial: o de Rosana Bines, pelo título atraente, e o da amiga Profa. Marta, pelas razões do coração.
Que histórias contar para os filhos? se abre com um aparente paradoxo: “não importa tanto o livro que se tem em mãos” (p. 10), mas quer falar mesmo das histórias que enfeitiçam pelo seu potencial sonoro. A experiência da autora no Instituto Benjamin Constant é evocada desde a dedicatória, parece ter sido a sua inspiração. O livro está organizado em faixas (como em um disco) e para uma historiadora que reflete sempre a respeito da apresentação da pesquisa histórica, achei genial a sintonia! Sobre o aparente paradoxo, ele é desmontado na alusão à cena de leitura e quem lê para as crianças em casa sabe o quanto a cena é importante: o aconchego, o tom da voz, o ritmo, o encadeamento entre uma história e outra... Eu confesso, porém, que quando li esse “não importa tanto”, lembrei de imediato (e com graça) de quando a Clarinha era bem pequena e eu às vezes lia os textos historiográficos e filosóficos de minha necessidade para ela, como quem conta Fada Cisco quase nada[2]... Estou imaginando o “horror” dos que me leem agora: eu, a mãe absurda, a impor à minha pobre criança os densos conteúdos da falsafa, das cruzadas, da peste negra, na hora de ninar!!!!! A verdade é que eu tenho sempre muito a ler e tenho sempre muito de estar com ela, portanto: “Com nossos filhos por perto, como não fazer deles o alvo de nossos afagos e afetos?” (p. 30). Mas um dia, ela começou a entender que, em algumas noites em que eu parecia ainda mais atarefada, o enredo lido não tinha nada a ver com as aventuras de Babel e Pepe[3], aí eu tirei o Averróis de seu quarto.
Rosana Kohl Bines compartilha com os leitores a seleção que mora em sua bolsa amarela[4], fundada do potencial sonoro das histórias e isso faz com que a obra seja muito generosa para professores que acreditam nesse potencial e gostariam de ampliar o próprio repertório. Algumas dessas histórias eu conhecia e outras eu experimentei com a Maria Clara na semana que passou, nós duas pela primeira vez. Hum..., uma delícia!
Há um momento muito especial do texto em que a autora afirma: “E nunca é demais lembrar que quem lê em voz alta é também ouvinte das histórias que conta e habitante das paisagens sonoras que delas emanam” (p. 61). O que Rosana quer dizer com isso? Que o prazer visado (o desejo de afetar as crianças) se engrandece no inesperado contentamento de ouvir a própria voz contadora. O movimento de dar e receber é sempre a essência da felicidade no amor.
Em Hoje se lê o espetáculo? Lê, sim, senhor!, Marta Morais da Costa não dá bola para a dificuldade (que, entretanto, reconhece existir)de se propor a leitura do texto dramático aos leitores aprendizes, isto porque no exercício do magistério constatou que, superada a falta de familiaridade inicial, a sensação de vitória – “Ah, agora entendi!” (p. 10) compensava todo o resto. Mas qual é o sentido dessa vitória? A conquista de um prêmio pontual?
A tarefa da leitura decodificadora do texto dramático é, portanto, mais atribulada e de maior exigência das capacidades do leitor: para que a interpretação possa se formar com qualidade, ele deverá construir e acionar imagens mentais complexas. Ele precisa criar um espetáculo mental, uma representação teatral ao mesmo tempo em que procede, como na leitura dos demais gêneros textuais, às ações de previsão, de relação, de confrontação, de ajuste, de confirmação ou de alteração de seu horizonte de expectativas (p. 22). 

A leitura do texto dramático, portanto, colabora de forma muito particular para o amadurecimento do leitor e um ótimo exemplo vem quatro páginas depois do trecho acima citado, quando a autora pede aos seus leitores que “embarquem” na proposta de colocar-se na posição de testemunha de uma cena de amor, de um acidente ou de uma aula: “cada um dos participantes tem sua fala, sua dose de emoção, seu ponto de vista” (p. 26). Há um saber muito importante, profundo e necessário que mora entre a consciência dos múltiplos pontos de vista e tudo o que o texto dramático proporciona: a possibilidade de experimentar ver a vida de vários ângulos diferentes ou de colocar-se “simplesmente” no lugar dos outros, como preferirem!
Os planos simultâneos que o texto dramático descortina, ou seja, “ao mesmo tempo[5] alguns personagens jogam cartas, outros duelam e outros, ainda, namoram” (p. 32), fortalecem de forma lúdica a empatia. Enquanto eu lia esse trecho, evocava outra Martha(minha vida é cheia delas!), a Nussbaum, de Sem fins lucrativos[6]:
As escolas são apenas uma das influências sobre a mente e o coração em formação da criança. Grande parte da tarefa de superar o narcisismo e desenvolver a preocupação com os outros tem de ser feita dentro da família; além disso, os relacionamentos no interior da cultura de iguais também desempenham um papel influente. (NUSSBAUM, p. 45).

Precisamos ler mais textos dramáticos em casa. Envolver as crianças nessa multiplicidade de planos simultâneos para a fruição decerto e sobretudo, mas também para ver mais e melhor os outros. Cada um pode ser um personagem, depois trocamos e experimentamos ser outros, em casa com os nossos!
Marta Morais da Costa afirma que no texto dramático, “o personagem é garantia da unidade do relato” (p. 56). Isso significa que para não se perder, é preciso seguir as pegadas dessa pessoa que mora no texto e anima o palco, ter atenção a todos os seus gestos! E sem que eu tivesse temido “forçar a barra”, ela mesma resolveu a minha timidez:
o que sabemos sobre as pessoas? Para conhecê-las é preciso, aos poucos e a partir de atos, conversas e relatos de outras pessoas, construir uma ideia sobre esse ser humano. Mesmo assim, continuará a haver lacunas, falhas e imperfeição no retrato que faremos de alguém (p. 58)

Há muita sintonia entre a obra de Rosana Kohl Bines e Marta Morais da Costa. Nussbaum parece pensar como nós: “As histórias aprendidas na infância tornam-se elementos poderosos do mundo que habitamos como adultos” (NUSSBAUM, p. 36). Levando-se em conta as histórias propriamente ditas, a surpresa da própria voz, a importância das cenas e a vivência da multiplicidade de personagens, essas primeiras meditações que escolhi ler pelo título e pelo coração me fizeram pensar no estranho fenômeno de ter confundido o título da coleção Mediações com Meditações... 

Para quem quiser conhecer a coleção:
·        http://colecaomediacoes.com.br/
·        https://www.facebook.com/hum.publicacoes/


Epílogo: quem leu esse texto na 2a, dia 31/10, percebeu que eu confundi os títulos e que chamei o tempo todo a coleção pelo gênero de "caderno de notas" de Marco Aurélio... Estranhos fenômenos de leitura!



[1] O rosto bonito e franco de Francisco é a página 17 do volume 4 (1º semestre) do Livro das coisas para guardar: Histórias para conhecer, da solução educacional Tempo, assinado por mim e publicado pela Ed. Positivo, em 2013.
[2] De Sylvia Orthof, ilustrado por Eva Furnari.
[3] De Um Gato marinheiro de Roseana Murray, ilustrado por Elisabeth Teixeira.
[4] Referência ao clássico de Lígia Bojunga.
[5] O destaque é do texto de Marta.
[6] Em 5 de outubro de 2016, publiquei aqui no blog um texto sobre a MP do Ensino Médio: http://literistorias.blogspot.com.br/2016/10/tenho-uma-ou-duas-palavras-dizer-sobre.html em que me referi sobejamente à obra de Martha Nussbaum. É um livro que vale muito a pena ler! 

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

A rainha “é mais forte que o rei”... - resenha de um filme lindo (La Joueuse)!

(CONTÉM ALTAS DOSES DE SPOILERS)
Outro dia, xeretando os filmes da minha escola de francês durante o intervalo da aula, achei La Joueuse (2009) e peguei emprestado, muito despretensiosamente. Confesso que fui atraída pela presença de Kevin Kline.
O filme é estrelado pelo ator americano, que fala francês o tempo todo, exceto quando recita o poema “The Tyger” de Willian Blake, e pela excelente Sandrine Bonnaire, que eu mal conhecia e que agora considero muito intensa. O filme é dirigido por Caroline Bottaro, a quem enviei convite de amizade pelo Fb rsrsrs (ela ainda não aceitou).
La Joueuse vai agradar em cheio às pessoas que adoram histórias em que aprender transforma por completo. Sandrine Bonnaire é Hélène, que vive na Córsega, é casada com Ange (Francis Renaud) e mãe da jovem Lisa (Alexandra Gentil). Ela trabalha como arrumadeira em um hotel e como diarista na casa do americano excêntrico e mal educado (até um pedaço do filme), o senhor Kröger, ninguém menos que Kline. Um dia, tendo batido à porta de um dos quartos que tinha por tarefa arrumar, Hélène surpreende um casal que jogava xadrez na varanda do quarto. Pede desculpas por ter ferido a intimidade dos hóspedes, mas recebe consentimento deles para continuar o trabalho. Entre um alisar de lençol aqui, um arejar de travesseiro ali, ela entrevê pela cortina transparente a mulher, interpretada pela atriz americana Jennifer Beals. Beals está linda, de camisola, mexe nos cabelos, parece distraída, sedutora e ... vence a partida, afinal a rainha “é mais forte que o rei” (Hélène).
O jogo de sedução dos amantes anima Hélène, que vai surpreender o marido no trabalho. Seu gesto, entretanto, naufraga em incompreensão. À noite, no jantar, uma briga dele com a filha, o ressentimento desta pela “pobreza” da família (uma pobreza quase irreconhecível como tal a nós...) e a revelação dos temores dele de cortes no trabalho devolvem a personagem à sua “vida real”... Ele lhe sugere pedir um aumento de salário ao americano.
No dia seguinte, o casal que jogara xadrez deixa o hotel. Seu jogo fica no quarto, bem como a camisola de Beals. No aniversário do marido, Hélène não duvida: dá-lhe um jogo de xadrez eletrônico e veste a camisola. Mais uma vez, naufraga na tentativa de reencontro com ele, mas não desanima e passa a, vestida com a camisola, estudar o jogo. Volta a fumar.
A dificuldade de avançar jogando consigo mesma encoraja Hélène a propor ao Senhor Kröger que lhe ensinasse a jogar. Dias antes, ela havia descoberto um belo tabuleiro na casa, dias depois fora surpreendida pelo patrão dormindo no sofá, como tabuleiro ao colo. Ante a negativa dele, ela propõe a troca das lições pelo serviço doméstico. Ele aceita. O filme engrena!
A princípio, as lições acontecem às 3as à tarde, depois simplesmente são a razão da presença de Hélène na casa. Pessoas completamente diferentes desenvolvem um interesse comum, interesse uma pela outra; de certa forma, salvam-se. Hélène tarda a chegar a sua casa, bebe vinho com o patrão, perde os ônibus... Logo, a pequena vila começa a murmurar suspeitas de adultério. O marido a segue e olha pela janela a infidelidade: sua mulher em frente a um homem; sua mulher enfrenta um homem; há um tabuleiro entre eles; peças brancas e pretas que lutam. No final da noite, o parceiro pergunta se a parceira gosta de ler. Ela folheia o Martin Eden de Jack London; Kröger permite que ela leve a obra. É uma noite intensa, em que a maior intimidade física é o toque no cabelo.
A “descoberta” de Ange empurra Hélène a uma decisão difícil. O Senhor Kröger percebe, porém, o particular talento dela para o jogo. A personagem encontra-se assim em um daqueles momentos em que deve decidir se o mesmo ainda lhe convém sendo outra, ou se arrisca. Hélène hesita (quem não?) e aceita participar de um torneio amador.
Eu fiquei muito emocionada com a relação de Hélène e Kröger. Há muita intensidade em seu combate; há ali a verdadeira amizade, que me lembrou demais o que Jelson escreveu sobre o tema em nosso Diálogo sobre o tempo: aquela arena de Nietzsche! Talvez alguém vá achar que se trata de paixão, há uma cena em que parece que os personagens se beijam na boca, mas eu desconfio. Hélène sabe amar Ange, com toda a diferença que descobre haver entre eles, afinal. Descobrimos que ele a ama também, admira-a. Também me lembrei de Fazes-me falta de Inês Pedrosa, esse extraordinário romance da amizade intensa! Todo mundo que leu o Diálogo sobre o tempo lembra que eu comecei meu capítulo sobre o tema com esse romance.

La Joueuse é um filme sobre aprender decerto, mas... Hélène não deixa de ser arrumadeira porque venceu o torceio (Hiiii, contei!), não se torna amante de Kröger, não se separa de Ange, não foge à noite dando um beijo culpado na filha... Aprender, não necessariamente vencer (embora também...), faz com quem Hélène torne-se mais Hélène e isso eu simplesmente adorei!


segunda-feira, 8 de agosto de 2016

A primeira resenha do romance Menina com brinco de folha

Prólogo:
Outro dia, recebi por e-mail uma leitura muito afetiva do meu livro Menina com brinco de folha. Pedi à autora do texto para publicar aqui no blog. Ela deixou!

Menina com brinco de folha

     Engana-se quem pensa que folhas caem! Elas deslizam no ar buscando um repouso, ora perdido já que a árvore as libertou. As folhas podem se acomodar no chão e, então, serem contempladas pelos que admiram suas mudanças de tons, ou pisoteadas pelas crianças que se divertem com os ruídos das folhas secas, que soltam gar-galhadas. Às vezes, porém, são varridas, sem graça nenhuma. Outras folhas, também, podem virar livros, brincos e coleção. E foram essas que deslizaram sob meus olhos quando li Menina com brinco de folha, de Marcella Lopes Guimarães.
     O livro me conquistou criança. Criança que tem curiosidade sobre as pessoas, sobre as palavras, sobre as formas. Criança que descobre o que é a saudade, o que é a perda, o que é a leitura. E é nessa dança entre curiosidade e descoberta que o personagem menino – cujo nome a autora deixa a cargo do leitor, o qual, distraidamente, nem sente sua falta e, em um primeiro momento, pode considerar qualquer menino, mas diante do “o” consegue enxergá-lo como o personagem do livro sem perdê-lo narrativa adentro – encontra nas folhas o caminho da amizade e, consequentemente, da saudade da menina – também sem nome, mas com a propriedade “com brinco de folha” que a destaca como a amiga especial, dentre os colegas do menino.                                                                                                 
     Também me conquistou adulta. Adulta que, por vezes, busca o ponto de vista da criança para lembrar-se de suas memórias. As reflexões do menino sobre a perda e a saudade, embaladas na voz do narrador, são para nós um acalanto. Compreendemos muito bem o que é voltar a ser menina, após um abraço de vó. Lembramo-nos do que é ficar triste quando chegam as férias – algo que hoje, para nós, é um alívio esperado. Voltamos a prestar atenção em coisas que, por vezes, nós varremos, sem graça nenhuma. Enfim, por isso, Menina com brinco de folha também é um livro para adultos, uma vez que nos provoca a ver o mundo de outra forma, aquela que deixou um rastro que guardamos e, às vezes, esquecemos e precisa ser recuperado com um livro.
     Entretanto, sobretudo, o livro me encantou linguista. A autora brinca com a descoberta dos significados das palavras pelas crianças. Mas não só com essa descoberta como também com a capacidade das crianças as ressignificarem. Basta observar o que o menino faz com a inspiração e com a ciência (não contarei aqui para não interferir na leitura). Em alguns momentos, o jogo com as palavras vira estratégia de retomada de referentes destacados da história e, dessa forma, de condução da narrativa. E é isso que destaca a obra, entre outras produzidas para crianças. Marcella não segue a tendência de adaptar a linguagem para “ensinar” a criança-leitora, mas sim busca diferentes formas para provocá-la, em outras palavras, para mostrar à criança do que a linguagem é capaz e o que nós, falantes, somos capazes de fazer com a linguagem.
     Menina com brinco de folha é o primeiro livro infantil publicado pela autora. Embora já tenha publicado tantos outros, é com este que Marcella acrescenta ao conjunto de sua obra, que lhe faz historiadora, medievalista, crítica literária, professora, contista (esqueci algum?), a graça da mãe e da menina – que recebeu o prêmio da editora EDUFES com o mesmo entusiasmo e surpresa que o menino, quando encontrou a menina na praia durante as férias.
     E é com esses encantos que, no livro, Marcella trata da amizade, do amor, da história, do futuro, do tempo. Ops! Já li isso em algum lugar... No Diálogo sobre o tempo, a autora debate sobre esses temas, enquanto aqui ela os coloca numa narrativa infantil. E (provocando-te, Marcella), embora o livro anterior tenha sido um diálogo, Menina com brinco de folha está mais vivo! Depois dessa, vocês podem pensar que conheço Marcella de perto. Engano. A conheço de verbo (ou de inspiração). Logo, recomendo: a leitura das duas obras. São pontos de vistas diferentes, sensações diferentes, sobre os temas mencionados. Nesse sentido, não me admiraria encontrar o livro da menina, que leitores criteriosos premiaram como livro infantil, numa prateleira de livros para adultos. Ou sem classificação alguma. Afinal, o tempo e as folhas pairam e repousam sobre todas as idades.
Denise Mazocco


Epílogo:
Quem é Denise Mazocco?
Denise Miotto Mazocco é formada em Letras (PUCPR) e em História (UFPR); é Mestra em Letras (UFPR) e faz Doutorado na mesma área (UFPR). Foi minha aluna na UFPR, brilhante aluna! É já uma contista de mão cheia e toca o blog prosadomingueira, em que compartilha mostras do seu talento: https://prosadomingueira.wordpress.com/
Participa do clube do livro, consagrado à leitura de Em busca do tempo perdido de Marcel Proust, e atua como Professora de Língua Portuguesa na UTFPR.


Ainda não fizemos o lançamento do livro em Curitiba... Mas quem não puder esperar rsrsrsrs, pode adquirir o livro pelo site da editora (como Denise Mazocco fez!): http://www.edufes.ufes.br/items/show/382

Denise Mazocco sendo menina com brinco de folha...