segunda-feira, 1 de maio de 2017

O Joaquim (2017) de Marcelo Gomes é um herói desiludido

Sábado, dia 29 de abril, fui ver o filme brasileiro Joaquim (2017), de Marcelo Gomes e estrelado por Júlio Machado, no papel título. Ele me fora recomendado por duas amigas. Como eu não sou uma historiadora consagrada à pesquisa das relações entre História e Cinema, nem sou uma historiadora que pesquisa História do Brasil, esses comentários são naturalmente pouco científicos. Vi o filme como documento do presente é claro e como experiência estética.
Eu tinha a expectativa de ver uma cinebiografia de Tiradentes radicada no Brasil triste em que vivemos, e assisti decerto a um filme biográfico, que relê a trajetória do herói antes dos eventos que haveriam de transformá-lo em feriado republicano, compreendido em um feixe de relações cuja singularidade não é sacrificada pela ambição de perscrutar uma individualidade específica. O que eu mais gostei no filme (e eu gostei do filme) é que os personagens têm história, às vezes pequena, às vezes mais robusta, mas sempre deles próprios. Ninguém ali precisa de Tiradentes para viver.
No início do filme, a narração post mortem meio didática e talvez desnecessária, da cabeça fincada num pau, identifica o personagem. Essa introdução pode ter a intenção de aproximar-se da expectativa do público (e minha!), para na sequência surpreender com outro caminho. Depois da narração, vemos o alferes: cabeludo, piolhento, a dividir a comida com os companheiros e “permitir” ao pequeno índio partilhar aquele pouco (prenúncio do herói?), rechaçado nas sucessivas promoções dos outros para tenente... Ao seu lado, Januário, que sonha ser alferes; Benedito da venda; Zua, mulher que Joaquim deseja, mas que se liberta a si mesma (inclusive dele); João, pai de família que vive na condição de escravo de Joaquim; Matias, o português que vem da corte e integra uma expedição por ouro... É interessante que intendentes e governadores, cujo exercício de poder ressuma a corrupção e empáfia, não têm história própria. É uma “vingança” da narrativa que aprovamos.
Joaquim tem dois sonhos: a princípio quer ser tenente. Mas depois que Zua esfaqueia Benedito, que a obriga a sujeitar-se às sevícias sexuais do intendente, Joaquim deseja reencontrá-la. Já no sertão proibido, embriagado com os companheiros, afirma que o ouro que tanto buscava seria o recurso para conquistar a promoção e Preta. Então o ouro é caminho, não fim. Detalhe importante: só sabemos que Preta é Zua, quando ela está no quilombo e é uma cena de fazer a gente gritar no cinema. Algo assim: Meu nome não é Preta; Preta é cor; meu nome é Zua. Arrepio. Depois ela dança, é uma mulher, é uma guerreira. Novo arrepio. Cena bonita mesmo. Mas sabe o que eu achei brilhante? Foi Zua libertar Joaquim. A mulher que libertou a si foi também a que libertou o herói. Ponto para Marcelo Gomes.
Nessa noite de embriaguez, cada homem fala sobre seus desejos. É uma cena triste e bonita. Joaquim, Januário e Matias...; mas ali perto João e o indígena que guiava a expedição conversam também, só não podemos compreender. O diretor nega a tradução. Eu gostei disso. De manhã, uma das minhas cenas do filme: o guia indígena e João cantam, cada um no seu ritmo e idioma, enquanto os militares dormem, roncam, Joaquim abre os olhos... Quando o canto é silenciado, a câmera para no rosto de João. Joaquim observa deitado, um detalhe no canto da cena. É um quadro. A minha outra cena também é protagonizada por João.
Joaquim empreende uma busca infundada por ouro. Na volta, vencido, detém-se em uma propriedade onde descobre umas pedras que pressupõe serem valiosas. Já havia tirado um dente de Benedito e nessa propriedade acaba por ajudar uma das esposas do proprietário (as terras brasis são cheias de relações reconfiguradas...). Ora, é o Tiradentes!
Joaquim leva essas pedras para o governador e, na vila, aproxima-se das pessoas, livros e ideias que haveriam de transformá-lo no feriado nacional. É importante perceber, porém, que a escolha de Marcelo Gomes é compreender essa aproximação como fruto da solidão e da desilusão. Nisso, o filme firma seu pacto com o presente. As pessoas, os livros e as ideias não libertam Joaquim, abrem-lhe certamente possibilidades, é preciso continuar a viver, mas o herói de Marcelo age porque seus sonhos morreram... Como é difícil escrever isso.
Minha segunda cena no filme tem a ver com a solidão do herói e com a reivindicação de um homem, pai e marido. Na vila, João vai visitar a mulher e as filhas. Conta a Joaquim que a esposa havia juntado o dinheiro necessário para comprá-lo... A princípio, Joaquim refuta a transação. Diz mais ou menos o seguinte: você também vai me deixar sozinho? João olha nos olhos do senhor, fala que as filhas estavam crescendo, que precisava cuidar da família. Se Joaquim não tem ninguém, João tem família. O herói diz: você tem direito. Marcelo Gomes põe na boca do seu Joaquim o reconhecimento do direito de um homem (e de uma mulher, afinal Zua havia antecipado esse embate) de ser livre, que João vai buscar do jeito que encontra para isso naquele contexto. É um jogo temporal interessante. Presente e passado se encontram na narrativa, na História do Brasil.

Epílogo
O filme estreou em nosso país na altura do dia de Tiradentes, 21 de abril, e pouco antes do dia 28 de abril, dia da greve nacional. Não posso deixar de apontar essa sintonia, que agrega mais sentidos à narrativa fílmica. Eu não esperava um filme comemorativo, mas me surpreendi com a solução de Marcelo para mover o herói: ao mesmo tempo, a desilusão; ao mesmo tempo a necessidade. Nisso, Joaquim parece um homem de 2017. E ele parece tanto que a narrativa post mortem do início pode não ser exatamente didática como a princípio a compreendi. Vendo Joaquim é possível confundir-se com ele hoje; ou ver nele nosso próximo[1] mais aguerrido, meio desbocado e violento, entre desiludido e triste, entretanto não abatido, no Brasil que temos.






[1] No sentido como o compreende Paul Ricoeur, em Memória, história e esquecimento, e eu no capítulo “Amizade” de Diálogo sobre o tempo: entre a Filosofia e a História.

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