segunda-feira, 28 de novembro de 2022

De volta à nave

Dia 20 de novembro de 2022 fui contemplada com um lugar na plateia para ver o espetáculo Nave mãe, dirigido por Vanessa Corina, da companhia de teatro curitibana Pé no Palco. O espetáculo teve entradas gratuitas, bastava enviar mensagem e aguardar a confirmação para sábado ou domingo. Há muitos anos eu não entrava no espaço Pé no Palco! Eu tive a felicidade de fazer alguns cursos de teatro oferecidos pela companhia – que além do teatro profissional, tem uma vocação formativa e engajamento em projetos sociais –, destaco um deles: sobre Beltold Brecht, que me marcou. Na ocasião, o Pé no Palco recebeu a diretora Dedé Pacheco e, ao longo de uma semana, os interessados e as interessadas – eu! – mergulharam no universo das peças didáticas. Inesquecível. Além dos cursos, tive uma experiência de “público insistente”, que costumo ostentar por aí: eu assisti a umas cinco apresentações da peça O conto da ilha desconhecida, texto de José Saramago, encenada pelo grupo. Meu número não é hipérbole, eu desconfio até que é eufemismo, porque eu fui ver essa peça com todo mundo. Na época eu trabalhava na rede privada, ensino superior e ensino fundamental, e eu levei todas as minhas turmas! Também levei a família, amigos... Eu fui. Um dia, deixei de ir. É impressionante como a gente deixa de fazer as coisas que considera cintilantes e vive anos a fio esquecida do brilho delas sobre a própria vida.

Uma das primeiras experiências de reencontro foi ser reconhecida pela produtora da companhia, a Giselle Lima, depois de tantos anos e da máscara phitta! Adentrei, reconheci. O público esperou o espetáculo entre a exposição “Ela em mim” da artista Laiz Zotovici Martins, que preparou o espírito para as histórias mãe & filha, e o café, que eu não conhecia. Mas a gente não esperou muito. Logo, as atrizes e os atores vieram nos buscar e eu devia desconfiar que, nesse reencontro tão aguardado entre público e os atores e atrizes privados da intimidade pela crise sanitária, eles e elas haveriam de “inventar”. Chamaram a gente com música e com olho no olho. Eu me lembrei do exercício do enfrentamento de plateia. Não se tratou de encarar, mas de voltar a olhar, sorrir, estar perto, já dentro do espetáculo, porque afinal eles e elas já estavam maquiados, vestidos com seus figurinos, e nos envolveram como um grande elenco. Adentramos, reconheci. Uma das coisas de que eu me lembrava com mais afeto – talvez da experiência de público insistente de O conto da ilha desconhecida – era esse teatro muito afetivo, de público pequeno, próximo. Poucos. Não selecionados, mas interessados.

Da programação de A Nave mãe: “a peça se desdobra em três camadas: dos depoimentos autorais, na presença da música como texto/melodia e/nos momentos de necessários protestos”. É uma informação precisa e eu vou apenas completá-la. Os depoimentos autorais incluem o público pela identificação. Há uma magia – e eu emprego essa palavra porque ela revela a minha própria surpresa com a arte – que faz com que o mais particular da experiência do outro de repente se revele tão meu! Ouvir Vanessa Corina, além de mitigar saudades, foi me ver bem no meio do palco. “Eu sou free, sou free demais!!!”, Sempre Livre! Menudo... Eu ri de nervosa. Cada biografia dramática emanava uma possibilidade nova de se ver/de nos ver. As músicas foram texto amigo, complementar e também paralelo, que se impôs algumas vezes, um coro para despertar o público: olha, estamos no teatro, olhe para cá, desvie seu olhar da identificação, cante com a gente! Acho que foi a música que funcionou como mediação para esse processo de “desidentificação” que nos jogou em outra escala: do particular para o mais amplo, para o que irmana diferente, como compromisso cidadão. Lembranças de Brecht... O espetáculo cresce.

O teatro é o agora e a surpresa. Tem ensaio, tem repetição, tem técnica, concentração... e tem aquela magia lá. A silhueta de Fátima que se mistura a de Pedro, seus braços, que formam uma estranha criatura, de novo um só ser. As silhuetas que a iluminação foi revelando, molhadas por uma chuva portátil. De repente, o silêncio, um longo olhar. Sim, porque mesmo um espetáculo com música, com barulhão, teve silêncio, teve pausa. Pausa antes, no convite dos atores: desligue-se; pausa dentro: vamos olhar, vamos pensar.

Nave mãe é um espetáculo bonito, bem construído, pensado, múltiplo e que não abre mão da magia. Dias depois de ter adentrado essa nave, atravessada pelo dia a dia de experiências menos cintilantes, guardo em mim a experiência dessa viagem tão amorosa.

Obrigada, nautas!




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