quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Tenho uma ou duas palavras a dizer sobre a MP do Ensino Médio

Caros colegas, caros alunos, caros amigos que são pais e mães, caros amigos e amigas que não são,

Eis que no dia 22 de setembro de 2016, o Governo Federal apresentou Medida Provisória para uma reforma substantiva do Ensino Médio. No dia seguinte, a MP saiu publicada em edição extra do DOU. Dia 13 de maio, o presidente Temer assumiu interinamente a presidência do Brasil, já com Mendonça Filho como Ministro da Educação; dia 1º de setembro, Temer tornou-se presidente da República com o afastamento definitivo da Presidenta Dilma Rousseff. O que significa essa sucessão de datas? Que a Reforma do Ensino Médio, implementada como MP, ou é um projeto maduro, entretanto, secreto do novo governo que só esperava oportunidade para lançá-lo, ou é uma ação apressada de um ministério que na verdade não soube construir um diálogo com os educadores brasileiros.
Ontem, dia 4 de outubro, a imprensa noticiou largamente o baixo rendimento dos alunos que se submeteram ao último ENEM. O MEC, por sua vez, aproveitou o ensejo para alardear a urgência da reforma que “legitimaria” a antipática MP:
Os resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2015 por escola reforçam a imperiosa necessidade de se reformar o ensino médio brasileiro. A afirmação foi feita pela presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), Maria Inês Fini, nesta terça-feira, 4, em Brasília[1].
São muitas as críticas que devemos fazer a essa MP. A começar pela própria ideia de MP. Dá trabalho dialogar; dá trabalho fazer consulta pública... Vimos isso na BNCC. Nem o governo Dilma lidou bem como o expediente e a prova é a 2ª versão da Base, que aproveitou muito mal a extraordinária resposta da sociedade ao convite do MEC. Dá trabalho, mas é preciso fazer, se os poderes políticos insistem em afirmar que vivemos uma democracia, a MP lançada em 23 de setembro é fogo amigo do MEC. Como assim? O Ministério que deveria reunir as grandes lideranças da área, com perfil interdisciplinar, virou as costas aos seus maiores colaboradores – professores de todo o país – para lançar uma proposta “autoral” de reforma e assim, “entrar na História”... Coitada da História... Falou-se logo da Filosofia[2], da Sociologia, das Artes e da Educação Física, mas quem leu a MP viu que “só” três disciplinas são realmente obrigatórias ao longo de todo o Ensino Médio: Português, Matemática e Inglês.
Alguém pode lembrar que o teor dessa MP estava já por aí, espalhado, e que o Ministério teve “coragem” para tomar decisões difíceis. Você que diz isso pare e lembre-se de que não há dificuldade alguma quando, tendo poder, você encerra a questão, sem chance à conversa. A real dificuldade é enfrentar a diferença. Que pena para nós, não para o MEC (que não vai sentir dor), que não houve coragem para enfrentá-la.
Essa minha carta, começada e adiada várias vezes, começada com colegas que afinal abandonaram o texto, assoberbados pelo acúmulo de tarefas (outro dia, afirmei, em meu perfil do FB, que o Brasil exaure a gente com suas demandas), quer mesmo falar a respeito de dois assuntos: o desprezo da MP às Artes e à Educação Física e a diferenciação da formação do adolescente por áreas de conhecimento. Há outros temas importantíssimos, mas só posso me referir de fato ao que conheço um pouco mais, por estudo e experiência. 
Outro dia, alguém lembrou muito bem que a Educação Física tornada obrigatória apenas na Educação Infantil e no Ensino Fundamental é uma resposta irônica à realização dos últimos jogos olímpicos no nosso país... Fico a pensar que, em um país que já empurra os jovens talentosos para os clubes (pagos) a fim de que desenvolvam seus talentos em esportes de competição, varrer a Educação Física do EM é sepultar a pequena chance que tinham as escolas de revelarem talentos em jogos interescolares. Vamos falar francamente: quem não pode comprar títulos e pagar mensalidades para pertencer a um clube não vai jogar. Todos conhecemos a força agregadora dos jogos entre os jovens nas escolas (ou porque jogamos ou porque torcemos) e os benefícios de projetos interdisciplinares entre a Biologia, a Educação Física e a Física, por exemplo, para a saúde, para o desempenho, para a promoção da curiosidade científica... Pois bem, outra coisa mais difícil de fazer serão projetos interdisciplinares, simplesmente porque não teremos professores de todas essas áreas nas escolas e tenho dúvidas se os colegas de “notório saber” serão capazes de promover essas experiências.
Sobre as Artes (mas também sobre as humanidades), eu trago para cá um diagnóstico feito por Martha Nussbaum: “no mundo inteiro os cursos de artes e humanidades estão sendo eliminados de todos os níveis curriculares, em favor do desenvolvimento dos cursos técnicos”[3]. Ora, então estamos no Brasil, atualizados com os “avanços” educacionais propostos pelo mundo afora!?! Não...:
“Os educadores que defendem o crescimento econômico não se limitam a ignorar as artes: eles têm medo delas. Pois uma percepção refinada e desenvolvida é um inimigo especialmente perigoso da estupidez, e a estupidez moral é necessária para executar programas de desenvolvimento econômico que ignoram a desigualdade. É mais fácil tratar as pessoas como objetos manipuláveis se você nunca aprendeu outro modo de enxergá-las”[4].
“Aprender a perceber o outro ser humano não como objeto, mas como uma pessoa completa, não é um acontecimento automático, mas uma conquista que exige a superação de muitos obstáculos...”[5]

A professora Martha Nussbaum (1947), que lecionou em Harvard, Brown, Oxford e atualmente atua na Universidade de Chicago, afirma que a troca de sorrisos entre os bebês e seus pais favorece a percepção do outro e o “prazer do reconhecimento”[6], mas é a atividade lúdica que desenvolve e completa a preocupação dos jovens com o outro. Martha vai buscar em Winnicott a resposta a “como os adultos mantêm a capacidade de brincar após terem deixado para trás o universo das brincadeiras de criança?”. A resposta está nas Artes. Educadores como Winnicott, Froebel e Pestalozzi “perceberam que a contribuição mais importante das artes para a vida depois da escola era fortalecer os recursos emocionais e criativos da personalidade, dando às crianças a capacidade de compreender tanto a si como aos outros, algo que, caso contrário, lhes faltaria”[7].
Além de eu ter gostado demais do livro de Nussbaum, que se chama Sem fins lucrativos. Por que a democracia precisa das humanidades, eu fiz questão de trazer para essa carta um autor que não está “envolvido” com o Brasil, ou seja, um autor cujas pautas não têm a ver com a nossa política, com os partidos, com o impedimento etc, mesmo sabendo que há sobejos intelectuais brasileiros cujas ideias estão em consonância com as de Martha e que eu poderia citar. Eu não sei se a arte nos torna melhores; eu não sei se as leituras que fiz ao longo dessa vida e as que vou ainda fazer, porque  a lista só aumenta...; se os espetáculos que vi; se as canções a que tive acesso; as exposições... tornaram-me melhor, mas certamente deram-me a convicção de que o mundo é grande. Eu nasci no subúrbio do Rio de Janeiro, aos pés do Morro do Alemão, mas andei por São Petersburgo aos 12 anos na companhia de Raskolnikov[8] e nunca mais fui sozinha, pois sou uma Karamazov[9]...
Martha Nussbaum tem um projeto exequível de educação em que as humanidades são o centro e faz referência a uma conversa com professores de administração de empresas nos Estados Unidos, que vale a pena trazer aqui, mesmo correndo o risco de uma citação excessiva de seu pensamento:
“os principais professores (...) dizem que localizam alguns de nossos maiores desastres – o fracasso de determinadas fases do programa da nave espacial da NASA, os fracassos ainda mais desastrosos da Enron e da WorldCom – na cultura da bajulação, na qual a autoridade e a pressão dos iguais cantavam de galo e ideias críticas nunca eram articuladas. (uma confirmação recente dessa ideia é que a pesquisa que Malcolm Gladwell fez da cultura dos pilotos de linhas aéreas, que constata que o respeito à autoridade é um prognosticador importante do comprometimento da segurança)”[10].
Esses fatos aludidos pela autora fortalecem a necessidade de uma pedagogia socrática..., em que sobressaem as discussões promovidas em sala de aula pelos colegas da Filosofia e da Sociologia. Martha menciona a História e menciona muito, mas vou deixar de fora a minha área por enquanto, porque a finalização da BNCC se aproxima. Quem a julgava esquecida (ou vencida) deve se fortalecer para a leitura do vem por aí.
O segundo assunto que gostaria de tratar é a possibilidade de os jovens escolherem entre os eixos definidos pela MP, a saber: I - Linguagens; II - Matemática; III - Ciências da Natureza; IV - Ciências Humanas; e V - Formação Técnica e Profissional. Eu li inclusive gente boa enaltecendo essa possibilidade. Tenho notado muitas vezes (e disse isso em Brasília ao Ministro) que os mais recentes planos concebidos pelo MEC não levam em consideração um aspecto que considero essencial: as crianças e os jovens. Eu acho que os profissionais que têm elaborado as propostas (incluo colegas que construíram as versões da BNCC) esqueceram como são crianças e adolescentes... Só por esquecimento alguém vai jogar sobre uma criança de 10 anos a Mesopotâmia (2ª versão da BNCC) e sobre as costas de um adolescente de 14 anos a responsabilidade de escolher a área de conhecimento que vai encarar no ano seguinte da escola... Mas eu seria injusta se dissesse que o MEC esqueceu completamente deles, afinal está o parágrafo 10 do artigo 36 a admitir que alguém até faça mais, “outro itinerário”, ou tenha mudado de ideia, o que é mais provável...
Pessoas com mais de 15 anos que me leem, você se lembram de vocês aos 14 anos? Eu me lembro de mim!... Eu me lembro inclusive que fiz vestibular para 4 coisas diferentes, aos 17 anos; que comecei a cursar 2 faculdades; que abandonei 1 e que hoje não trabalho com a área em que me formei!!
Pessoas amigas, facilidade não combina com educação..., e essa possibilidade da MP, travestida de promoção da liberdade de escolha, é a derrota de uma conquista que obrigava o poder público, a despeito das diferenças entre as escolas e as regiões do Brasil, a oferecer aos adolescentes o mínimo (note bem!) de formação igualitária para prosseguir. Alguém pode dizer: - Mas são mais de 10 matérias, Marcella, para quê? Volte algumas linhas e veja no breve exemplo de Martha onde o utilitarismo pode nos levar. Os adolescentes não precisam de nossa pena, “por estarem assoberbados”, eles precisam de Língua Portuguesa, Literaturas de Língua Portuguesa, Literatura Mundial, Filosofia, Sociologia, Física, Química, Biologia, Matemática, Geografia, História, Artes, Inglês e Espanhol. Como fazer caber? Pare de pensar em caixas... Volto a dizer que nosso problema é metodológico.
As prefeituras tinham até agora de se virar para conseguirem os professores especialistas de que as crianças e jovens precisam. Com a MP, oferecerão “o que é possível”. Não terão autorizados concursos e não terão professores para fazê-los, afinal outra consequência óbvia da Reforma é o enfraquecimento de áreas consolidadas no Brasil e foi muito sofrido escrever essa frase..., pois temos visto o crescente poder dos semiletrados em nosso país. Agora, a difusão de sua precariedade interpretativa e especulativa[11] sem fundamentado combate será mais eficaz, para o prejuízo da formação dos jovens. O “possível”, na ausência dos professores de Física, Química e Filosofia..., vai matar a escolha dos alunos, pois está claro para mim que nem todas as escolas poderão oferecer todos os eixos à escolha...
No dia 13 de julho de 2016, estive no MEC e ouvi do Secretário da Educação a sua dúvida sobre a capacidade de as crianças do 5º ano de estudarem a poesia, como estava disposto nas versões da BNCC. Ora, desde a poesia medieval sabemos que toda a dificuldade do amor não está em senti-lo, mas em vivê-lo a dois, lição do primeiro trovador conhecido, Guilherme da Aquitânia (1071-1126):
“O nosso amor parece afim
Do espinheiro na ruim
Noite em que treme com o quebranto da chuva e do vento gelado
Mas de manhã vemos com espanto
Esbelto e verde ao sol dourado”[12]

Em tempos de realidades virtuais, a leitura da poesia do velho trovador é uma ousada necessidade..., o outro. Martha Nussbaum, você que nunca ouviu falar de mim, quero que saiba que lhe dou razão.
Escolhi dois assuntos e tenho certeza de que os explorei parcialmente. A MP se refere tantas vezes à BNCC, inacabada até agora, que essa parece ser uma reforma da pele, uma plástica, portanto. Eu não citei os versos de Guilherme da Aquitânia de enfeite. Há toda a questão do Ensino de História que está em banho Maria... Não mencionei o Ensino Técnico, nem o aumento da carga horária. Quantas demandas!
Precisamos também falar a respeito da mobilização política para rediscutir a MP, agora entregue ao congresso. É preciso encarar a necessidade de dialogar e sei que isso vai mexer com pessoas com quem tenho grandes afinidades. Se nos mantivermos na posição de que não discutiremos com esse governo, vamos dar azo às Medidas Provisórias. A dignidade pretendida vai conspurcar a formação das crianças e jovens. Portanto, falemos, escrevamos!, e pelos cotovelos.
Nesta 5ª, dia 6 de outubro, o DEHIS/UFPR e a APP Sindicato abrem uma discussão. Lá estarei para ouvir meus colegas. Falar, se for necessário. Queridos alunos, compareçam; ouçam e falem. Esta carta vai para o MEC. Terei a delicadeza de enviar também o livro de Martha Nussbaum. Sou professora, é o que faço e adoro, formo leitores, mobilizo inconformidades, faço pensar e adoro dar livros de presente. Espero que a obra encontre os leitores do MEC.

Tirei a foto desse canto soberbo do site: https://blogdareforma.files.wordpress.com/2012/03/estante-e-janelaelysinin-hayal-dunyasi.jpg Acho que até Djavan aprovaria... rsrs




[2] Sugiro pesquisa sobre o tema no excelente Blog com Jota, cujo criador é o Prof. Dr. de Filosofia da PUCPR Jelson Oliveira: http://blogcomjota.blogspot.com.br//
[3] NUSSBAUM, Martha. Sem fins lucrativos. Por que a democracia precisa das humanidades. São Paulo: Martins Fontes, 2015. p. 23.
[4] Ibidem, p. 24.
[5] Ibidem, p. 96
[6] Ibidem, p. 97.
[7] P. 102.
[8] Protagonista de Crime e Castigo, de Dostoievski.
[9] Alusão à fala de Mítia, no romance Os Irmãos Karamázov de Dostoievski.
[10] Ibidem, p. 53.
[11] Sobre isso sugiro a leitura de: MEDDEB, Abdelwahab. A Doença do Islã. Tradução de Cleonice Paes Barreto Mourão. Editora UFMG, 2003.
[12] GUILHERME IX, Duque da Aquitânia. Poesia. Tradução e introdução de Arnaldo Saraiva. Campinas (SP): Ed. da UNICAMP, 2009. p. 87. Grifo meu.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Três grandes tradutores respondem a duas perguntas diretas sobre o seu ofício

Ao Pedro Plaza Pinto que me fez pensar sobre tudo isso, por causa de seu convite.

Prólogo: No dia 30 de setembro, celebra-se o Dia da Tradução. Foi 6ª passada! A data faz referência à morte de um grande tradutor: São Jerônimo, que traduziu a Bíblia do grego. Na 5ª passada, portanto, na véspera do dia em que os tradutores comemoraram o seu “é possível”, “apesar de tudo”, fui conversar com umas de nossas turmas da Pós sobre a tradução de Froissart et le temps. Enquanto me preparava para o bate-papo, escrevi uma resenha do Sobre a tradução de Paul Ricoeur (confira a resenha publicada aqui, na semana passada) e enviei duas questões a três tradutores que respeito muito:

1. O que traduzir?
2. Qual é o maior desafio da tradução?

Os tradutores para os quais enviei as questões foram três Professores Doutores (confira no epílogo os links dos seus lattes de encher os olhos de admiração!): Caetano Galindo,  vencedor do prêmio Jabuti por sua tradução do Ulysses de James Joyce (2012), dentre outras distinções; Maria Célia Martirani, ficcionista, ensaísta e tradutora, acabou de lançar seus ensaios favoritos na Itália, e Vinícius Nicastro Honesco, meu colega no DEHIS, tem se consagrado à tradução de Giorgio Agamben[1] no Brasil. Além da grande admiração profissional, gosto dessas pessoas inspiradoras! Agradeço o tempo precioso que dedicaram às respostas.

ENTREVISTA

CAETANO GALINDO
1.  O que traduzir?
Há miríades de possibilidades de responder essa pergunta. Eu, por mim, normalmente fico com uma versão mais ou menos "customizada" da definição apresentada pelo grande Paulo Henriques Britto. A tradução (stricto sensu) seria a operação linguística que me permite ler um texto A, escrito em um determinado idioma, e a partir dele escrever um novo texto B, em um outro idioma, com o objetivo de possibilitar que um futuro leitor de B possa dizer, sem mentir e sem necessidade de qualificar demasiadamente a afirmação, que leu A, mesmo que não conheça nem uma letra do alfabeto em que A foi redigido.
Pode parecer simplório, mas na verdade vai na essência de tudo. E cobre, inclusive, vários aspectos da atividade. Desde o "pacto" linguístico/editorial consuetudinário que me permite afirmar sem titubear que "li" o Genji Monogatari sem saber japonês do período Heian até o dado mais complexo, teórico, filosófico mesmo, que prevê a "equivalência" (palavrinha complicada) no mínimo satisfatória (em termos epistemológicos) e no máximo (e com grande frequência nos usos reais de linguagem) plena entre os dois textos.
Isso tudo porque eu tenho uma encrenca com a famosa definição do Umberto Eco que diz que a tradução (o produto, aqui, não a operação: a maioria das definições tende a se concentrar no produto, dado o quanto a gente está longe de entender de fato a operação, em termos estritamente linguísticos) seria "quase a mesma coisa" que o original.
A minha grande pergunta (aguarde, se Darwin mandar bom tempo, livrinho sobre isso) é se a tradução é "cópia imperfeita", como as pessoas tendem a pensar (ou seja, se a tradução do Hamlet está para o Hamlet como a reprodução da Gioconda num livro de arte está para o "original" lá no Louvre), ou se a tradução é "interpretação" (ou seja, se ela está para a obra original como a gravação de Mahan Esfahani das Variações Goldberg está para o "original" da obra de Bach). (E nem te conto o quanto dá pra destruir a ideia de "original" nesse processo.)
Eu acho que já a mera coincidência de termos entre o que fazem os músicos e os tradutores (intérprete, leitura...) podia nos fazer prestar atenção...

 2. Qual é o maior desafio da tradução?
Os desafios envolvem a capacidade de perceber o máximo possível das condições que possibilitem aquela equivalência plena de sentido entre as afirmações do leitor do original e da tradução. Ou seja, não deixar de perceber algo que estava no original e era importante para embasar aquela leitura e, na sequência, claro, ser capaz de reproduzir essas características no texto traduzido, para que aquele hipotético leitor de B possa continuar dizendo sem mentir que leu A.
Ou seja, pra mim é como se o leitor de um texto literário (e que fique claro que é só de tradução literária que eu ouso dar palpite) é como o ouvinte de uma peça complexa para piano. Ele está ali pra aproveitar, pra fruir, pra se deixar levar.
É claro que quanto mais conhecimento ele tiver, maior será essa fruição, mas nada impede que ele se satisfaça razoavelmente apenas com a "superfície" da obra...
Pois bem... o tradutor, por outro lado, está sentado ali do lado dele, no mesmo teatro, mas ele não pode só ouvir e se divertir, ele tem que entender tudo que está acontecendo, como que providenciar uma transcrição completa de todos os movimentos dos dedos do pianista. E, pior, depois ele tem que ir pra casa e "tocar" aquilo também, de novo, do seu jeito, com as inevitáveis marcas das suas limitações, dos seus cacoetes, e também com as desejáveis marcas da sua "interpretação".
Se ele deixou de perceber algo no original, sua interpretação será incompleta.
Se entendeu errado algo do original, sua interpretação será falsa.
Se não conseguir mobilizar os recursos técnicos para "reproduzir" o que ouviu (à sua maneira), sua interpretação será insatisfatória.
E aí sim, e só aí, ela vai ser sucedâneo imperfeito, vai ser "quase a mesma coisa".

MARIA CELIA MARTIRANI

 1. O que traduzir?
Gosto muito de pensar, antes de mais nada, no que afirmou Italo Calvino em Mondo scritto e mondo non scritto, ao afirmar que “tradurre è il vero modo di leggere un testo”, “traduzir é a verdadeira maneira de ler um texto”. Porque ser tradutor é, primeiramente, isso: ler em profundidade; ler, reler, tresler; exercer uma leitura crítica, assumindo a responsabilidade pela mesma.
Mas, em minha experiência pessoal, traduzir tem sido, sobretudo, um ato de acolhida (acolher o outro jamais significa reduzi-lo a mim), a partir do reconhecimento de uma diferença, de uma alteridade. É sempre a tomada de consciência de uma distância e, como diria Ricoeur, a aceitação de uma perda: “A felicidade de traduzir é um ganho quando, ligada à perda do absoluto linguístico, ela aceita a distância entre a adequação e a equivalência” (RICOEUR, 2011, p.30[2]). E, ao mesmo tempo, a vontade incomensurável de aproximação, de romper fronteiras, de busca fascinante pelo desvelamento do desconhecido, num exercício atento e silencioso, que me permita ouvir a voz do autor. Para tanto, faz-se necessário um conhecimento profundo, íntimo da língua de chegada, que será o colo a receber o novo visitante. Não por acaso, o professor da USP, Pedro Ghirardi, que recebeu o prêmio Jabuti pela tradução de Orlando Furioso de Ariosto, recomenda ao futuro tradutor de clássicos italianos que se torne leitor assíduo dos clássicos brasileiros e portugueses.
Concordo plenamente, também, com Maurício Santana Dias, um dos maiores tradutores de literatura italiana contemporânea, de quem fui aluna na Pós-Graduação em Italianística da USP, que situa o tradutor numa zona fronteiriça entre o artista e o artesão, o criador e o técnico, porque a tradução – sobretudo a poética – implica um intenso trabalho de criação na língua de chegada, mas, por outro lado, o tradutor cria por meio de uma partitura e, para lê-la e executá-la em outra língua, deve dominar uma série de técnicas e procedimentos, específicos ao seu ofício.
O escritor que mais tenho traduzido, Claudio Magris[3] considera o tradutor um verdadeiro coautor; alguém que sabe unir a dedicação ao outro, ao texto que traduz, com a própria personalidade; que o recria, extraindo-lhe, não apenas os aspectos essenciais e difíceis de descobrir, mas também aspectos inéditos, muitas vezes, desconhecidos pelo próprio autor. Ele afirma que, quando apresenta, em outro país, um livro seu, traduzido naquela língua, começa falando de seu original em Italiano: “este, eu escrevi” e, em seguida, faz questão de mostrar o mesmo livro traduzido: “este, fomos nós que escrevemos”.
A propósito, sobre esse viés criativo do papel do tradutor, cumpre sempre lembrar o posicionamento fundamental dos irmãos Campos, que demonstraram não ser possível dissociar a tradução da criação, pois o tradutor é um recriador, que trai a letra do texto estrangeiro e faz prevalecer o seu espírito, a sua tonalidade. Muito curioso o exemplo que citam sobre o que teria ocorrido com o poeta alemão Hölderlin, retaliado pela crítica, em meados do séc. XVIII, por suas traduções criativas de Sófocles e que só bem mais tarde, reavaliadas, receberam total absolvição e passaram a ser consideradas, justificadamente, como magníficas: “As mesmas traduções que o Oitocentos alemão tachou de monstruosas pela voz de seus escritores mais representativos e reconhecidos, o séc. XX iria ressuscitar como marcos modelares do gênero.” (CAMPOS, 1977, p. 96[4])

2. Qual é o maior desafio da tradução?
Creio não ser possível generalizar, pois cada obra apresenta desafios específicos.
De toda forma, é sempre bom lembrar que, se não fossem os tradutores franceses de Borges, que superaram infinitos obstáculos, talvez as obras do grande escritor argentino não tivessem tido a repercussão e o alcance que tiveram.
Ao levar adiante, por exemplo, a árdua tarefa de traduzir quinhentas páginas de puro ensaísmo literário de um autor como Claudio Magris, deparei-me, primeiramente, com o tom de altíssima erudição desse triestino germanista, que trata, no livro Alfabetos, de uma multiplicidade infinita de autores, não só clássicos, como também modernos e pós-modernos. Ajustar o tom, nesse caso, implica necessariamente, tornar o texto mais fluente na língua de chegada. Para tanto, muitas vezes, abrir parágrafos muito longos, repletos de referências, apostos e orações intercaladas, reorganizando a pontuação, foi fundamental para atingir leveza e fluidez. Isso para libertar o texto do que, em Português, poderiam significar amarras, mas sempre buscando reverberar a voz do autor, preservando-lhe as peculiaridades estilísticas.
O professor Maurício Santana Dias, que já mencionei anteriormente, em suas aulas, costumava citar que, quando estava traduzindo os contos de Primo Levi, teria encontrado um dos “pontos cegos” da tradução: o palíndromo. Um dos personagens do famoso autor tinha o hábito de criar palíndromos e estes exerciam uma função dentro do contexto do conto, que não poderiam ser substituídos pelos já existentes na língua portuguesa. Então, foi necessário recorrer às notas de rodapé, para minimizar o efeito dessa cilada tradutória.
Além disso, há que lembrar que a tradução é sempre um trabalho solitário, com raras exceções, como por exemplo, a das famosas cartas trocadas entre Guimarães Rosa e seu tradutor italiano, Edoardo Bizzarri, tão celebrada pelos estudiosos de tradução e literatura.
Outro desafio concerne à imensa dificuldade para o tradutor, no Brasil, em conseguir uma retribuição à altura de seu empenho. Esta costuma ser uma queixa comum, mesmo entre os que chegam a alcançar algum reconhecimento, a começar pela própria afirmação da coautoria, o que continua a ser problemático.

VINÍCIUS NICASTRO HONESCO:

1. O que traduzir?
Traduzir é, sobretudo, uma arte nas trocas. Uma arte imprecisa, uma arte que lida com o outro. Penso, e sempre me inquieto com isso, que traduzir é uma forma de se expropriar, de se colocar em um lugar que não é o nosso, de avançar por uma franja onde qualquer passo é uma espécie de agressão e, ao mesmo tempo, de afago ao outro. Agressão pois estamos sempre traindo, afago, bem, afago porque também é um gesto de construção de uma tradição, justamente, de uma entrega. Há um tempo venho pensando – claro que inspirado por Benjamin – que a tarefa da tradução é, em certo sentido, a tarefa do pensamento. Pensar é, para dizer com Pessoa, uma experiência de fazer-se outro. Para mim, cada translação feita com a linguagem em torno dos possíveis modos de operar essa entrega (tradição-traição-tradução), cada hesitação diante dos significantes que marcam o papel, cada frase construída nesse espaço de passagem, é uma maneira inequívoca de experimentar a linguagem e, no sentido forte dessa raiz trad-, também de se colocar no vértice em que qualquer pretensão de propriedade de uma língua (de uma identidade) se esvai nesse inesgotável deleite que é a possibilidade de pensar (esta, talvez e em toda sua abrangência, nossa característica especial).

2. Qual é o maior desafio da tradução?
O desafio da tradução é sempre algo da parte do fogo, para dizer com Maurice Blanchot. Por que traduzimos? Como pensar um motivo da tradução para além da questão da utilidade de um texto a outra língua? O desafio da tradução está não apenas nas dimensões operativas da tarefa, mas está no constante apelo para a compreensão do sentido do gesto: traduzimos para sermos inundados pelo outro, mas também para sair do pretenso paraíso (e o avéstico paridaésa tem essa dimensão do jardim murado) da cognoscibilidade pelos iguais. O desafio está, portanto, em não nos esquecermos de que no gesto da tradução estamos, também, nos traindo em nossa entrega (tradição). Em outras palavras, uma tradução nunca é terminada e sempre pode ser lançada ao fogo, sempre pode expor o limite das diferenças e similitudes com a ciência da impossibilidade de expô-lo com qualquer certeza. O desafio da tradução, assim, é algo da ordem da memória: não nos esqueçamos de que o lugar medial em que estamos quando pensamos é uma fragilíssima condição que, no entanto, é talvez nossa única força.    

Epílogo
C. LATTES DE INSPIRAR!

Sâo Jerônimo, de Hendrick van Someren (1615-1685)



[1] Vinícius me deu de presente o ótimo As Categorias Italianas (2014), traduzido por ele, o que me levou a escrever o texto “Cochichos nas margens: sobre as anotações que fazemos em nossos livros”, publicado aqui no blog: http://literistorias.blogspot.com.br/2015/09/cochichos-nas-margens-sobre-as.html
[2] Maria Célia usa a mesma edição de que me servi na semana passada.
[3] Sugiro a excelente tradução de Maria Célia publicada pela Ed. da UFPR: MAGRIS, Claudio. Alfabetos. Ensaios de Literatura. Tradução de Maria Célia Martirani. Curitiba: Ed. da UFPR, 2012.
[4] CAMPOS, H. A arte no horizonte do provável e outros ensaios. 4ª ed. São Paulo: Perspectiva, 1977.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Pequeno livro de grande autor: "Sobre a tradução" de Paul Ricoeur

O convite de um colega muito querido para falar a seus alunos sobre a tradução de Froissart et le temps/Froissart e o tempo, do Prof. Michel Zink, me levou a reler o pequeno livro de Paul Ricoeur, intitulado Sobre a tradução. A obra foi por sua vez traduzida pela Profa. Patrícia Lavelle da PUC-Rio, que assina também um ótimo prefácio. Esta resenha, resultado direto da visita ao livro de Ricoeur, tem dois objetivos: sintetizar as ideias mais importantes dos três ensaios que compõem a obra e destacar um aspecto do pensamento do autor que minha leitura frequente qualifica como coerência positiva.
Antes, porém, vale evocar alguns aspectos que Lavelle chama a atenção no prefácio: a volta ao tema da tradução pelo autor (na medida em que foi uma experiência importante no início de sua carreira, mas que só volta a aparecer, como reflexão detida, no fim); a proposta de substituição do dilema traduzível X intraduzível por fidelidade X traição; a sua “resposta construtiva” (p. 8), fundada nas “correspondências sem adequação” e nas “equivalências sem identidade”; a felicidade de traduzir como aceitação da perda; a tradução como autocompreensão da própria língua e a “construção do comparável”. Avento, por minha vez, uma explicação para o retorno com o qual Lavelle começa: se a tradução é uma compreensão e um trabalho de construção do comparável, vejo sintonia entre a maturidade intelectual do autor e uma compreensão cultural ampla, que para Ricoeur é o ponto de partida da tradução do intraduzível (p.12). No destaque de Lavelle encontro também aquela coerência positiva, naquilo que ela chamou de “resposta construtiva” ao dilema que muito delicadamente Ricoeur buscou substituir e revelar o equívoco: afinal, a tradução existe!
“Desafio e felicidade da tradução” foi proferido em 1997 no Instituto Histórico Alemão. De início, Ricoeur estabelece o parentesco entre a sua reflexão e A prova do estrangeiro de Antoine Berman. A tradução coloca à prova e é submetida a exame. O autor traz ainda Benjamin e Freud para realçar a tradução como tarefa e como renúncia. O tradutor é um mediador em meio às resistências: do leitor e da própria tradução. Como esses aspectos se conjugam? Na renúncia “ao ideal da tradução perfeita” (p. 27), que em Ricoeur é uma renúncia operativa, no sentido de gerar felicidade e até prazer: “a felicidade de traduzir é um ganho quando, ligada à perda do absoluto linguístico, ela aceita a distância entre a adequação e a equivalência, a equivalência sem adequação“ (p. 29).
Em “O paradigma da tradução”, aula inaugural da Faculdade de Teologia Protestante, proferida em 1999, o autor está interessado na tradução como transferência e como interpretação (p. 33). Nesse texto, Ricoeur desenvolve a substituição do dilema traduzível X intraduzível, ou seja, examina as teses da impossibilidade e as da possibilidade (fundadas em duas propostas: de uma língua originária e em códigos a priori, p. 40) e relê o mito de Babel. Para o autor, a tradução “se inscreve na longa litania dos ‘apesar de tudo’” (p. 42) e se fortalece como realidade no fato de que existem, “a despeito dos fratricídios” e da “heterogeneidade dos idiomas”, “bilíngues, poliglotas, intérpretes e tradutores” (p. 42).
Qual é a essência da releitura operada por Ricoeur do mito de Babel? “Existimos, dispersos e confusos (...) para a tradução” (p. 43). O autor vai buscar em dois versos do Gênesis, imediatamente anteriores à narrativa da Torre, a constatação da nossa diversidade não como punição, mas como ponto de partida. Pego a minha própria Bíblia para não me iludir com a tradução que Ricoeur usa na página, ou seja, sirvo-me de outro fato que ele aborda nesse mesmo capítulo, a existência de retraduções (“única maneira de criticar uma tradução (...) é propor outra”, p. 47). Assim, em Gn 10, 31: “Estes são os filhos de Sem, segundo as suas famílias, e as suas línguas, e as suas regiões, e os seus povos”. Ricoeur tem razão, a diversidade é fato, ou seja, a tradução é “coisa a fazer para que a ação humana possa simplesmente continuar” (p. 44).
O autor volta à obra de Antoine Berman (e os leitores de Ricoeur sabem que ele tem as suas preferências e lhes é fiel[1]) para levantar um aspecto que ele não havia abordado no 1º capítulo: o desejo. Sim, porque se a tradução é tarefa e tarefa útil (ela nos deu acesso a Platão e a Dostoievski, uso dois exemplos citados pelo próprio Ricoeur), também guarda “algo mais tenaz, mais profundo, mais escondido: o desejo de traduzir” (p. 45). Esse desejo está voltado a um “alargamento de horizonte de sua própria língua” (p. 46), o que me leva a uma coisa sobre a qual minha amiga e grande tradutora Maria Celia Martirani me alertou um dia, a necessidade do tradutor de ter uma intimidade e uma segurança muito particulares na língua de chegada.
“Uma ‘passagem’. Traduzir o intraduzível” permaneceu inédito até 2004, quando foi reunido aos dois textos anteriores para a edição da Bayard. Esse texto “retraduz” alguns conceitos já trabalhados pelo autor. No capítulo anterior, Ricoeur havia evocado as palavras, frases e textos em um enquadramento a respeito do que mobilizamos para dirigir a palavra ao outro (p. 51). Aqui, esses elementos são sequenciados pelo autor na operação da tradução, ou seja, Ricoeur afirma ser necessário impregnar-se “por vastas leituras do espírito de uma cultura” para ir do texto à frase, da frase à palavra (p. 61). Outra maneira de explicar o dilema proposto por ele, da fidelidade X traição, em substituição ao traduzível X intraduzível, aparece fundado no “comparativismo construtivo” cujo exemplo Ricoeur vai buscar na obra Do tempo, de Jullien. Esse texto que vai na contramão do parentesco cultural (que Ricoeur parece considerar uma armadilha), quando assume a diferença radical, ou “dobra”, entre o chinês e o grego, discutidos em francês! No lugar do conceito de tempo, reelaborado por gerações a propósito do grego, Jullien fala “do que se encontra no lugar do tempo”, ou seja, “constrói comparáveis” (p. 67).
Patrícia Lavelle afirma que a elaboração das “correspondências sem adequação” e “equivalências sem identidade” é uma “resposta construtiva ao desafio representado pela diversidade das línguas” (p. 8). Concordo e entendo dessa forma também a releitura que o autor faz do mito de Babel. Há no pensamento de Paul Ricoeur uma recusa delicada (é a segunda vez que me sirvo do radical) a certa acídia intelectual. Emprego o velho pecado de propósito, robustecendo, porém, seu sentido, para um ser e estar no mundo muito frequente entre os intelectuais que compactuam com versões de uma letargia conveniente. A refutação da impossibilidade de traduzir confirma a postura ativa de Ricoeur. Esse dinamismo tem também certa fé.
No primeiro texto, o autor liga a felicidade de traduzir à ideia de “hospitalidade linguística”, que volta no segundo texto, relacionada à ética: “levar o leitor ao autor. Levar o autor ao leitor” (p. 48), assumindo todos os riscos da tarefa. Está claro que na ideia de hospitalidade achamos acolhimento, achamos uma fraternidade. Isso me toca particularmente no caso de Froissart e o tempo, tanto no que significou fazer a mediação do pensamento de Michel Zink, quanto em acolher as palavras do cronista medieval Jean Froissart na minha língua materna.
Chamo de coerência positiva a confluência entre a fidelidade de Ricoeur a referências que podemos facilmente reconhecer na sua obra e essa fé que o faz bradar, com gentileza: “a despeito dos fratricídios, nós militamos pela fraternidade universal” (p. 42). É por isso que, com o mestre, eu acredito na tradução!

Referências:
1. A edição da Bíblia que tenho mais à mão é aquela das Paulinas. São Paulo, 1980.
2. Outra resenha da mesma obra, escrita por Andréia Guerini e Andréia Riconi pode ser lida em:  https://periodicos.ufsc.br/index.php/traducao/article/view/2175-7968.2014v1n33p343/27678
3. RICOEUR, Paul. Sobre a tradução. Tradução e prefácio patrícia Lavelle. Belo Horizonte (MG): Ed. da UFMG, 2011.
4. ZINK, Michel. Froissart e o tempo. Tradução: Carmem Lúcia Druciak e Marcella Lopes Guimarães. Curitiba (PR): Ed. da UFPR, 2016.





[1] Uma dessas preferências é Freud que volta no capítulo, na relação entre trabalho de tradução, trabalho de rememoração e trabalho de luto (p. 48). Todos sabemos como o autor é importante em Memória, História e Esquecimento.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

A rainha “é mais forte que o rei”... - resenha de um filme lindo (La Joueuse)!

(CONTÉM ALTAS DOSES DE SPOILERS)
Outro dia, xeretando os filmes da minha escola de francês durante o intervalo da aula, achei La Joueuse (2009) e peguei emprestado, muito despretensiosamente. Confesso que fui atraída pela presença de Kevin Kline.
O filme é estrelado pelo ator americano, que fala francês o tempo todo, exceto quando recita o poema “The Tyger” de Willian Blake, e pela excelente Sandrine Bonnaire, que eu mal conhecia e que agora considero muito intensa. O filme é dirigido por Caroline Bottaro, a quem enviei convite de amizade pelo Fb rsrsrs (ela ainda não aceitou).
La Joueuse vai agradar em cheio às pessoas que adoram histórias em que aprender transforma por completo. Sandrine Bonnaire é Hélène, que vive na Córsega, é casada com Ange (Francis Renaud) e mãe da jovem Lisa (Alexandra Gentil). Ela trabalha como arrumadeira em um hotel e como diarista na casa do americano excêntrico e mal educado (até um pedaço do filme), o senhor Kröger, ninguém menos que Kline. Um dia, tendo batido à porta de um dos quartos que tinha por tarefa arrumar, Hélène surpreende um casal que jogava xadrez na varanda do quarto. Pede desculpas por ter ferido a intimidade dos hóspedes, mas recebe consentimento deles para continuar o trabalho. Entre um alisar de lençol aqui, um arejar de travesseiro ali, ela entrevê pela cortina transparente a mulher, interpretada pela atriz americana Jennifer Beals. Beals está linda, de camisola, mexe nos cabelos, parece distraída, sedutora e ... vence a partida, afinal a rainha “é mais forte que o rei” (Hélène).
O jogo de sedução dos amantes anima Hélène, que vai surpreender o marido no trabalho. Seu gesto, entretanto, naufraga em incompreensão. À noite, no jantar, uma briga dele com a filha, o ressentimento desta pela “pobreza” da família (uma pobreza quase irreconhecível como tal a nós...) e a revelação dos temores dele de cortes no trabalho devolvem a personagem à sua “vida real”... Ele lhe sugere pedir um aumento de salário ao americano.
No dia seguinte, o casal que jogara xadrez deixa o hotel. Seu jogo fica no quarto, bem como a camisola de Beals. No aniversário do marido, Hélène não duvida: dá-lhe um jogo de xadrez eletrônico e veste a camisola. Mais uma vez, naufraga na tentativa de reencontro com ele, mas não desanima e passa a, vestida com a camisola, estudar o jogo. Volta a fumar.
A dificuldade de avançar jogando consigo mesma encoraja Hélène a propor ao Senhor Kröger que lhe ensinasse a jogar. Dias antes, ela havia descoberto um belo tabuleiro na casa, dias depois fora surpreendida pelo patrão dormindo no sofá, como tabuleiro ao colo. Ante a negativa dele, ela propõe a troca das lições pelo serviço doméstico. Ele aceita. O filme engrena!
A princípio, as lições acontecem às 3as à tarde, depois simplesmente são a razão da presença de Hélène na casa. Pessoas completamente diferentes desenvolvem um interesse comum, interesse uma pela outra; de certa forma, salvam-se. Hélène tarda a chegar a sua casa, bebe vinho com o patrão, perde os ônibus... Logo, a pequena vila começa a murmurar suspeitas de adultério. O marido a segue e olha pela janela a infidelidade: sua mulher em frente a um homem; sua mulher enfrenta um homem; há um tabuleiro entre eles; peças brancas e pretas que lutam. No final da noite, o parceiro pergunta se a parceira gosta de ler. Ela folheia o Martin Eden de Jack London; Kröger permite que ela leve a obra. É uma noite intensa, em que a maior intimidade física é o toque no cabelo.
A “descoberta” de Ange empurra Hélène a uma decisão difícil. O Senhor Kröger percebe, porém, o particular talento dela para o jogo. A personagem encontra-se assim em um daqueles momentos em que deve decidir se o mesmo ainda lhe convém sendo outra, ou se arrisca. Hélène hesita (quem não?) e aceita participar de um torneio amador.
Eu fiquei muito emocionada com a relação de Hélène e Kröger. Há muita intensidade em seu combate; há ali a verdadeira amizade, que me lembrou demais o que Jelson escreveu sobre o tema em nosso Diálogo sobre o tempo: aquela arena de Nietzsche! Talvez alguém vá achar que se trata de paixão, há uma cena em que parece que os personagens se beijam na boca, mas eu desconfio. Hélène sabe amar Ange, com toda a diferença que descobre haver entre eles, afinal. Descobrimos que ele a ama também, admira-a. Também me lembrei de Fazes-me falta de Inês Pedrosa, esse extraordinário romance da amizade intensa! Todo mundo que leu o Diálogo sobre o tempo lembra que eu comecei meu capítulo sobre o tema com esse romance.

La Joueuse é um filme sobre aprender decerto, mas... Hélène não deixa de ser arrumadeira porque venceu o torceio (Hiiii, contei!), não se torna amante de Kröger, não se separa de Ange, não foge à noite dando um beijo culpado na filha... Aprender, não necessariamente vencer (embora também...), faz com quem Hélène torne-se mais Hélène e isso eu simplesmente adorei!


segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A 3a visão ou sobre como emprestar livros pode ser surpreendente!

Como muitos da minha geração, também li essa obra que foi best-seller nos anos 70 em Portugal e que dava pelo nome de A 3ª Visão. Da autoria de um real, ou ficcionado, monge tibetano refugiado no Ocidente, de nome Lobsang Rampa.
Esta obra, juntamente com outras, como Viagem ao Mundo da Droga, Siddartha, A Erva do Diabo, O Despertar dos Mágicos e História Desconhecida dos Homens fazia parte do conjunto de obras míticas de referência dos adolescentes de então, e que quase ritualmente os liam, comentavam, discutiam e faziam circular. E que, de alguma forma, também contribuíam para enformar as suas visões do mundo envolvente.
Li esse livro pela primeira vez por empréstimo de algum amigo, e só mais tarde vim a adquiri-lo.
Mas por causa desse tácito acordo de empréstimos que fazia circular os livros, a obra não ficou comigo por muito tempo. Emprestei-o. O amigo a quem o emprestara foi, algum tempo depois, visitar uns conhecidos seus, e acabou por lá deixar o livro por uns dias para que o lessem, e da próxima vez que lá voltasse, trá-lo-ia.
Só que essas pessoas acabaram por se ausentar por largo período para o estrangeiro, e perdeu-se o rasto do livro.
Era esse geralmente o destino dos livros. Eu juntei várias obras que me tinham chegado por empréstimo ou cadeias de empréstimos sucessivos, assim como perdi outros quantos pelo mesmo processo.
Há pouco tempo, estando a minha mulher a arrumar umas malas de coisas suas em que já não mexia havia muito, encontrou um saco com livros dos quais estava a pensar desfazer-se, pois já não lhe interessavam.
Encontrei-a nessa tarefa, e descobri, entre os livros que lá tinha, um exemplar d’ A 3ª Visão.
Contou-me que o tinha havia anos, embora nunca o tivesse lido. Tinha-o emprestado várias vezes, mas sempre se preocupara que lho devolvessem, nunca se tendo desfeito dele. Ali estava ele, na minha mão, a provar esse zelo sem nenhuma razão consciente.
Folheava-o, enquanto ela me contava toda essa sua relação inconsciente com aquele livro, quando, chegando à última página, por uma lista escrita a lápis nessa mesma página, descubro que aquele livro era o MEU LIVRO, perdido há quase vinte anos.
Depois de eu ter contado como o perdera, e de ela ter referido onde e como o encontrara, demos com o ponto de ligação: ela fora viver para a casa de onde tinham saído as pessoas conhecidas do meu amigo que tinham ido para o estrangeiro. O livro, abandonado ou esquecido, lá ficara. A rapariga que depois veio a ser minha esposa recolheu-o e não mais se separou dele.
Sem ela mesmo saber porquê. Até ele voltar à minha mão.

Terá havido em tudo isto, 3ª visão ?


António Rei

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Áureo Lustosa, mestre em Cultura Literária na Europa e estrela da Dança dos famosos: entrevista

Prólogo:
Áureo Lustosa Guérios Neto é formado em Letras pela UFPR (Português – Italiano) e fez mestrado em Cultura Literária Europeia e Italianística na Europa (ele explica na entrevista o que é Mestrado Triplo). Na Graduação, cursou História Medieval como disciplina eletiva e foi nessa ocasião que nos conhecemos. Fui sua professora e ele, um aluno brilhante! Quando decidiu ir para a Itália dar continuidade a seus estudos me procurou para que eu lhe desse uma carta de recomendação. Depois que realizou de maneira muito exitosa a sua pesquisa, Áureo voltou ao Brasil. Aqui, começou a se dedicar, entre outras coisas, à dança! E não é que achou um jeito de ser brilhante também como dançarino?!
Áureo estreou ontem na Rede Globo, na “Dança dos famosos” e arrasou! Quando o apresentador do programa falou dele, disse que Áureo é professor de dança, balé, ok... Essa entrevista não faz jus a seu diversificado currículo (!), mas lembra que Áureo é um intelectual que dança ou um dançarino intelectual, as duas coisas ou o que ele quiser. Tenho muito orgulho do meu ex-aluno, que confirma a minha certeza de que é preciso buscar uma vida plena.

1.      Áureo, você tem uma experiência rica de estudos no exterior. Fale um pouco sobre o que é mestrado triplo e sobre o trabalho que desenvolveu na Itália.

Áureo: Cursei um programa de Mestrado em Cultura Literária Europeia (CLE), oferecido por um conglomerado de universidades presididas pela Universidade de Bolonha. Em 2014, quando defendi a dissertação, o conglomerado era formado por quatro universidades: Bolonha (Itália), Thessaloniki (Grécia), Moulhouse e Strasbourg (França). Hoje, as universidades de Dakar (Senegal), Lisboa (Portugal) e Moscou (Rússia) também fazem parte da parceria. O programa busca criar mobilidade acadêmica e, por isso, os estudantes devem estudar em pelo menos duas línguas e duas sedes, e não podem escrever a dissertação em sua língua materna. Durante esse período, o conglomerado tinha à sua disposição algumas bolsas do programa Erasmus Mundus da União Europeia e tive a sorte de ser agraciado com uma delas. Mais informações sobre o CLE (http://www.cle.unibo.it/site/en/home/) e sobre as bolsas Erasmus Mundus (http://eacea.ec.europa.eu/erasmus_mundus/funding/scholarships_students_academics_en.php).
No meu caso, cursei o primeiro ano na Universidade de Bolonha, um semestre na Universidade de Estrasburgo e um semestre na Universidade de Thessaloniki, onde escrevi também minha dissertação. Como estudei em três sedes, tive por coordenadora a Profa. Gabriella Macrì, do departamento de italianística da Universidade de Thessaloniki, e dois co-coordenadores, Giuseppe Ledda (UniBo) e Cutinella-Rondini (UniStras).
Minha graduação na UFPR é em Letras Italiano e decidi continuar na mesma linha no mestrado. Dante e a Commedia sempre foram minha paixão literária. A Commedia, na verdade, é o motivo que me fez escolher Letras Italiano ao invés de alemão ou francês. Como estudei Dante, escrevi e defendi minha dissertação em italiano, e, como somos obrigados a conhecer as línguas de todas as sedes em que estudamos, respondi as perguntas da banca em francês e grego.
Meu trabalho se intitula Il rapporto fra docente e discente e gli appelli al lettore nella Commedia (disponível em http://ikee.lib.auth.gr/record/135912/files/GRI-2015-13854.pdf).
Estudei a rede de relações entre professores e alunos na Divina Comédia, dividindo-a em duas partes. Na primeira, propus uma análise da relação didática que se cria entre os muitos mestres da narrativa e seu único discípulo, o Dante personagem. Para isso usei uma teoria que adoro, o Close reading. Em seguida, tentei demonstrar como essa ideologia pedagógica é transposta aos leitores, de modo que Dante se comporta então como um mestre e ao leitor cabe comportar-se como um aluno. A Divina Comédia é uma obra estranha, única, e as regras habituais de leitura não se aplicam a ela. A Commedia vê a si própria como o Novíssimo Testamento e, portanto, ordena que o leitor use métodos adequados ao seu status, ou seja, o método de exegese bíblica. Dante tem a pretensão de que seus leitores reaprendam a ler e, por isso, inseriu o Manual de Instruções dentro da própria narrativa.

2.      Áureo, entre a temporada em que viveu na Europa e a sua volta, o Brasil passou por grandes mudanças... O que um italiano médio sabe do Brasil?

Áureo: Difícil responder... Há um enorme interesse pelo Brasil. Há um interesse cultural muito grande: dança, futebol, praias paradisíacas, favelas e Amazônia. E acho que esse interesse é intensificado pelo fato de que eles estudam muito pouco da história da América Latina. Mesmo pessoas cultas, que talvez conheçam bastante do Brasil de hoje, tendem a ignorar quase que completamente a história do Brasil e das colônias espanholas. Na minha opinião, isso cria uma certa aura de mistério e exotismo. Às vezes eu tinha a impressão de que eles nos viam mais ou menos com o mesmo tipo de caricatura com que nós vemos a Índia ou o mundo árabe. 
Além disso, cheguei à Europa no momento em que eles ainda se recuperavam da crise econômica e o Brasil crescia economicamente. Assim, me deparei com um grande interesse econômico no Brasil. Não foram poucos os italianos que me disseram que “pretendiam emigrar ao Brasil porque lá é que se encontram os empregos e as bolsas de estudo”. Sempre me diverti com isso.
Para além disso, a Itália e o mundo olham para o Brasil como um grande exemplo de sociedade multicultural bem-sucedida. Quando eu morava em Singapura, sempre me chamou a atenção o fato de que eles são uma sociedade multiétnica e multicultural. Lá, indianos falam tamil, comem comida indiana, vestem roupas tradicionais indianas, praticam religiões indianas e moram em Little India. Já os malaios, falam bahasa malayu, se vestem com roupas malaias, comem comida malaia, são muçulmanos e moram em Malay Village. Ou seja, em Singapura, se alguém é etnicamente diferente, ele provavelmente tem pouquíssimo em comum comigo. No mundo, normalmente multiétnico quer dizer multicultural e, com frequência, multilinguístico. Acho que por isso, quando os europeus olham para o Brasil, eles se maravilham em ver um país multiétnico que eles acreditam ser multicultural, mas, ao mesmo tempo, culturalmente coeso. E aí é que está o pulo do gato. O Brasil é multiétnico, mas de um certo modo dividimos uma monocultura. Nunca conheci, por exemplo, um brasileiro que não falasse português como língua mãe. Em Singapura, 50% da população fala mandarim como língua materna, 32% o inglês, 12% o malaio e 3% o tamil. Comparando um e outro, tenho a impressão de que não somos o mosaico cultural que eles imaginam que somos.

3.      Áureo, você é um intelectual que dança... A dança é um hobby ou ela te constitui, como a Literatura?

Áureo: Mais uma pergunta difícil... Comecei a dançar por acidente. Eu andava trabalhando muito, queria desestressar, e então aceitei acompanhar uma colega em um curso de dança de salão. Foi amor à primeira vista. Desde então não parei. Continuei por um bom tempo nas danças de salão, principalmente na salsa. Na Europa, comecei a estudar danças cubanas e afrocubanas. Depois me interessei pelo balé. No futuro, quero aprender break e me especializar em afrobrasileiro. Hoje em dia, entre balé, samba, dança de salão e dança afro, emprego pelo menos três horas de treinos diariamente. Às vezes chego a oito horas. É quase um vício... E se fico dois dias sem dançar, entro em parafuso.
A dança me é caríssima, certamente define quem eu sou e o que quero para a minha vida. Mas não sei se ela ocupa o mesmo espaço da literatura. São atividades ao mesmo tempo complementares e mutualmente enriquecedoras, mas de natureza muito diferente. Uma essencialmente física e outra cerebral. Uma criadora e outra interpretativa.
São nos estudos literários que pretendo desenvolver minha carreira. Pretendo começar meu doutorado no futuro próximo e gostaria de dar aulas no ensino superior. Nesse sentido a dança é sim um hobby. Quero ser um dançarino completo, exímio, mas não necessariamente busco isso pensando em uma carreira ou remuneração. É só uma aposta comigo mesmo, porque ser um grande dançarino me parece melhor do que não ser um grande dançarino... haha   

4.      Que história é essa de “Dança dos famosos”?

Áureo: Pois é... tudo isso é muito novo. Desde que voltei para o Brasil, no início de 2015, tenho me envolvido bastante no meio da dança de salão de Curitiba. Há alguns meses, fiquei sabendo que fariam uma audição para a Dança dos Famosos e resolvi participar, mais para ver como as coisas funcionam, porque não sabia muito o que esperar. Em nenhum momento me passou pela cabeça que eu realmente pudesse ser chamado... E acho que foi justamente isso que fez a diferença. Cheguei lá muito tranquilo, calmo, quase que participando de uma brincadeira. Quando me ligaram confirmando minha participação não acreditei e não sabia o que dizer. Pedi uma hora pra pensar. No fim das contas, resolvi encarar o desafio... Será um percurso novo, completamente diferente de tudo o que já fiz até hoje. Espero crescer como dançarino, sair da minha zona de conforto, quem sabe abrir novas portas. Veremos. De um modo geral, o apoio e a empolgação das pessoas que me circundam foram tão grandes que já me bastam como prêmio. Fora que nunca mais vou ter que justificar para ninguém porque faço aula de balé! haha   


Epílogo
Recadinho do Áureo: "Obrigado pela oportunidade e para quem quiser acompanhar as minhas peripécias no mundo e na Dança dos Famosos, sigam-me no Instagram, @mundoaureo, ou no Facebook, Aureo Lustosa."