terça-feira, 30 de maio de 2023

Eneida de Heloisa Passos: épico familiar

 

5ª feira, dia 25 de maio de 2023. O PPGHIS da UFPR viveu uma atividade rara: a união de suas Linhas de Pesquisa para uma experiência em comum. Colegas, alunas e alunos, convidados e convidadas reuniram-se no anfiteatro 1100 do Edifício Pedro I da Reitoria para ver o filme Eneida da cineasta Heloisa Passos. A qualidade “rara” teve a ver tanto com o que há de mais funcional na rotina dos dias: os horários diferentes das aulas, quanto com as preocupações acadêmicas: as especificidades de cada seminário de pesquisa e até com a surpresa gerada pelo encontro entre o previsível e o imprevisível. Na 5ª feira, dia 25 de maio de 2023, colegas, alunas e alunos encontraram-se com a protagonista do filme, Eneida Passos (86 anos), para ver com ela um filme em que suas alegrias, conversas e suas dores foram projetados para nossa surpresa e emoção, em uma sala de aula.

Uma atividade assim tem suas “horas de filmagem” invisíveis aos presentes pontuais e que merecem aqui um destaque para as que vivi com a Taturana, distribuidora do documentário, com quem conversei e de quem recebi materiais generosos e muito bem elaborados sobre o filme. Ora, a existência desse conjunto revela que o filme tinha a ambição de extrapolar a experiência de seus minutos visíveis. A exibição começou antes com a leitura do material e se prolongou na conversa depois do filme, em que contamos também com as presenças gentis da produtora Débora Zanatta e da filha mais nova de Eneida Passos, Luciane Passos. Palavras aquecidas com café.

Eneida é um documentário sobre Eneida, a mãe de Heloisa Passos. A cineasta encena a microescala italiana – tão conhecida da historiografia – para “falar” com o público sobre a sua gente, tão nossa... Mãe e filha estão em cena! Eu tive a satisfação de escrever sobre o filme Construindo pontes em 2018 que para mim, tanto quanto Eneida, conta muito sobre o Brasil recente[1]. Mas em Construindo, era o pai que passava pelas telas... Ele volta em Eneida, presença sutil na tela e de grande impacto na trama invisível que é o centro do filme.

Quando o filme começa, Eneida está em Portugal, revisitando suas próprias raízes. Eneida tem 81 anos e vai ao encontro da casa de seu pai. Depois, ela realiza seu épico para religar os ramos todos de que ela é árvore. Eneida vive a separação de uma filha e essa separação reverbera em sua família como afastamento por mais de vinte anos, entre irmãs, netos, primos, tias... sombra e silêncio. Eneida e Heloisa enfrentam a mudez dos anos, sufocada por camadas de desencontro, em busca da filha mais velha da protagonista. Eneida e Heloisa insistem, enfrentam seguranças, porteiros e rabinos. Reviram o sedimento de uma terra inundada pela alga mais tóxica para o amor: o ressentimento.

No material que estudamos sobre o filme, havia três temas disparadores: o cuidado, o envelhecimento e a reconciliação. O filme tem tudo isso. Eu gostaria de acrescentar o ressentimento e o perdão. O ressentimento é a invisibilidade mais opressiva do filme e o perdão... eu volto a Paul Ricoeur, para ele dizer uma coisa muito difícil: “pedir perdão também é manter-se disposto a receber uma palavra negativa: não, não posso, não posso perdoar”[2].

O filme Eneida também é outra coisa, ele encena o que vou buscar outra vez na precisão de Paul Ricoeur: “A fidelidade ao passado não é um dado, mas um voto”[3]. O legado desse filme é um voto. Refuto a ambiguidade desse substantivo, em contexto brasileiro de persistente divisão no almoço de domingo em nome do único sentido que interessa aqui. Na 5ª feira, dia 25 de maio de 2023, foi possível uma mesa comum.

Uma das coisas mais emocionantes para mim foi ver Eneida vendo Eneida... Ela não acredita que sua filha mais velha ou seu círculo viram ou verão o filme da sua epopeia. Eu acho que fica o voto, “o brilho dessa estrela norteadora”[4]...

Marcella Lopes Guimarães

 

***

 

Abaixo, a livre manifestação dos alunos do seminário de Cultura e Poder presentes na sessão de 25 de maio de 2023:

 

I)

Nikita Chrysan

Eneida não é apenas um filme, é uma experiência. É um convite para refletirmos sobre nossas próprias vidas, nossas famílias e amigos, os relacionamentos que vivemos, sejam curtos ou duradouros, assim como nossos medos e esperanças sobre aquilo que o futuro ainda há de nos revelar. A jornada de Dona Eneida em busca do tão sonhado reencontro com sua filha mais velha depois de mais de vinte anos, deixa o espectador ansiando pelo final perfeito que os diversos filmes e histórias fantásticas nos condicionaram a esperar desde a infância. Mas não podemos nos esquecer de que este filme conta uma história de vida, de mulheres que viram o machismo despedaçar importantes laços familiares que o tempo por si só não foi capaz de remendar, quando homens optaram pela discórdia onde o diálogo podia ter oferecido melhores alternativas. Em certo momento do filme, Dona Eneida diz ter vivido uma vida cercada e cerceada pelo machismo, não vendo formas de algum dia se livrar completamente disso, mas aos meus olhos ela já se impõe frente a seus opressores, como mulher, mãe, avó e bisavó, pela coragem e resiliência de buscar a conciliação familiar que foi inviabilizada por homens tantos anos atrás.

Como o próprio material promocional e didático do filme traz, Eneida é uma produção sobre mulheres feita por mulheres, que por meio de diversos temas nos aproxima da vida dessas pessoas, de sua dor, de suas alegrias, memórias e esperanças. Nos lembra que o tempo não espera por ninguém e que há infinitas maneiras de navegarmos por ele, mas que o perdão, o diálogo e a coragem devem ser nossos companheiros e companheiras de caminhada. O filme me fez pensar em minha própria família, tanto nas pessoas que não estão mais fisicamente comigo quanto naquelas que irei reencontrar nas férias que se aproximam depois do término deste semestre letivo, para a qual já tenho a passagem para casa comprada. Para Dona Eneida, sua filha e cineasta Heloisa e todas as mulheres de sua família, desejo toda sorte no caminho que vocês bravamente percorrem, e para minha mãe, minha eterna melhor amiga, deixo aqui meu até logo, na certeza de que este mês que me distancia de seu abraço passará tão rápido quanto o tempo que corre e guarda as memórias de todas nós.

 

II)

Dalton Iathiskoski

 

Eneida é um filme que nos faz refletir sobre as relações familiares, e não somente isso, também perante a sociedade. Assistindo ao filme pensamos sobre as ligações e os rompimentos que vivemos em nossas vidas. O quanto vale a pena uma relação? O quanto vale um rompimento? Pensar nos eventos e suas consequências desafia-nos a olhar para nós mesmos. Pois todos, em sua memória, podem lembrar-se de casos de machismo, injustiça, rejeição e abandono, seja por ouvir ou por presenciar. É impossível passar levianamente por esse filme. Em algum momento você é transportado para alguma vivência que teve e é obrigado a refletir sobre a conduta dos outros, mas também da sua. O que somos? O que nós queremos? Quem está conosco? O que ganhamos e o que perdemos? Por fim, a busca trágica de Eneida... torna-se uma busca por nós mesmos.

 

III)

Rennan Negrão

 

Eneida me tocou de maneira especial. Sua história é a história das nossas famílias, das discussões por dinheiro que levantam paredes no meio das salas das nossas casas, das palavras não ditas e que carregam expectativas que não foram cumpridas. Apesar da ruptura com uma das filhas - e com o braço da família que dela descende -, o filme mostra de maneira muito sensível a relação de Eneida com seus netos. Os netos dão aos avós a oportunidade de renovar as relações de afeto. É um amor demonstrado de maneira diferente. Eneida, nesses momentos, é avó. As interações com os netos nos colocam diante de dois problemas que estão dentro das nossas casas. O primeiro é o envelhecimento, e o cuidado que não relega aos idosos da família o lugar de apartamento, reservado às pessoas que, como objetos, vão se tornando obsoletas com o passar do tempo. O segundo problema, que atravessa o filme todo, são as relações de gênero; a vulnerabilidade masculina é apresentada em um único momento, quando a avó está barbeando o neto Bruno. A relação com os netos é o lembrete que, apesar do seu drama, essa é a família que Eneida possui*. O filme também nos relembra da importância daqueles que ficam do lado de cá após a ruptura, daqueles que tentam uma reaproximação, que querem reatar os laços. Novamente, essa é a história das nossas famílias.

 

*Assistimos ao filme na presença de Eneida, a protagonista, e sua filha mais nova. Ao final da apresentação, ambas saíram em direção ao toilette, e eu estava atrás, no corredor. Ao ver a mãe emocionada, a filha a abraça e diz: “Mãe, olhe tudo o que você tem, a gente, seus netos…”.

 

IV)

Danilo Rodrigues Silva

 

O filme na sua parte final expressa aquilo que nós usualmente concebemos como o derradeiro não desejável, aquilo que não esperamos e não queremos em um filme e muito menos nas nossas vidas, talvez por estarmos acostumados com a idealização da vida no cinema, a idealização de tudo aquilo que anelamos mas não encontramos nas nossas relações familiares e sociais. Eneida, obra de excelência em transpassar para além da tela aquilo que nós enquanto grande público não toleramos que nos seja despertado, sem subterfugio de algum clímax dramático da trilha sonora subjacente ás imagens, não faz avivar na consciência necessariamente aquilo que nós queremos; faz avivar o “nós” demasiado humanos, o “nós” sem muitos outros horizontes a não ser aquele da grande dor do passado, aquela que levamos ao futuro. Não se detendo apenas na rigidez da vida, o filme também aviva o “nós” amor, o incansável esperançoso. A obra não é a descrição de uma história com uma conclusão encantada e positiva para depois de um dia de muito trabalho, corrido, que nos retire á consciência para sermos lançados ao mundo das quimeras, não é uma história feita para termos boas emoções e relaxarmos depois do cansaço, ele é expressão cinematográfica das relações humanas como elas são, demasiado humanas, não necessariamente certas ou erradas eticamente, mas indomáveis pelos sentimentos.

 

V)

Raoni Paes Peres

 

A percepção da brevidade que contém toda vida muitas vezes nos traz reflexões aguçadas sobre como nos relacionamos com os que nos são importantes; certamente a força motriz de muitas reconciliações. No entanto, nem sempre temos o poder de mudar o curso de rupturas nas relações interpessoais como gostaríamos, algo com que muito podemos aprender, como demonstrou Eneida. Ao contrário de um mero conformismo, entre intenções materializadas em ações e a dose certa de estoicismo, encontramos também um conforto – o de viver intensamente sem adiar sonhos, convivendo com objetivos que não pudemos atingir, sem transformá-los em uma condição vital. Reconciliar é muito importante, e viver, mais ainda.

 

VI)

Mariana Megel

 

     O que foi Eneida para mim? Uma enorme reconciliação. Sou tecnóloga em gastronomia, estudante de nutrição e mestranda em história, porém, essas três faces do meu eu não andavam ressoando em consonância por aqui. Com essa inquietação, busquei transbordar a narrativa do filme através da alimentação. Enviei uma mensagem e um e-mail para a Heloisa perguntando se haveria alguma comida que fosse cara para a Eneida e a família delas e, para minha felicidade, dias antes do evento do PPGHIS fui presenteada com a receita do bolinho de polvilho da mãe da Eneida. Foram três testes na cozinha da minha casa até conseguir um resultado agradável e que me falasse ainda de boca cheia “é isso”. Reproduzi a receita com a intenção de que no dia 25 de maio de 2023 todas as conversas a mesa da família Passos estivessem presentes no anfiteatro 1100 do Edifício Pedro II. No entanto, não esperava que a partir disso as minhas três faces celebrariam juntas aquele momento. Eu celebrei naquelas 4 horas o fim da minha tripartite e a minha reconciliação. Finalizo dizendo que ainda não encontrei palavras suficientes para agradecer o fenômeno que é Eneida, mas usando da simplicidade, muito obrigada, Eneida.

 

(depoimentos enviados entre 28 e 29 de maio de 2023)

 

***

 

Eneida vendo Eneida, no anfiteatro 1100

 

 

 



[1] http://literistorias.blogspot.com/2018/05/construindo-pontes-de-heloisa-passos-um.html acesso em 29 de maio de 2023.

Achei uma dissertação sobre Construindo Pontes, que não li, defendida em 2021: http://ppgcineav.unespar.edu.br/dissertacoes_defendidas_new/2021/Dissertao_ThaiseJorgeMendona_PPGCINEAV.pdf acesso em 29 de maio de 2023. 

[2] RICOEUR, Paul. A memória, a história e o esquecimento. Campinas: Ed. da Unicamp, 2007. p. 489.

[3] Idem, p. 502.

[4] Idem.

segunda-feira, 24 de abril de 2023

O tempo existe

 

20 de abril de 2023, aula inaugural do Programa de Pós-Graduação em História (PPGHIS) no anfiteatro 100 do edifício Pedro I da Reitoria. Anfi cheio: alunos das quatro Linhas de Pesquisa, alunos da graduação atraídos pelo tema e pela divulgação que fizemos nas redes e professores do Programa. Quando o convidado chegou, o anfi já estava ocupado, a equipe de gravação apostos, texto de apresentação passado. Ele entra, sorri, recebe abraços, abraça. Ele é Sérgio Odilon Nadalin.

O anfiteatro 100 é uma de suas muitas salas de aula, em 6 décadas de ocupação como aluno e professor das salas dos dois Pedros do complexo da Reitoria. Sérgio tinha sido convidado para abrir ou fechar – o que ele quisesse! – o evento dos 50 anos do PPGHIS, mas sua saúde não lhe permitiu aceitar.  On line? Ele queria presença, todos queríamos depois de dois anos de distância. Dia 20 ele voltou ao seu ambiente. Entrou, sorriu, foi abraçado e abraçou.

O tema foi sugestão dele – “Memórias: o tempo e a história”, e ele começou com a sua conhecida provocação: “o tempo não existe”. Ele não queria fazer graça, embora tenha conquistado sorrisos e risadas com seu humor elegante. Sérgio falou de suas inquietações ao longo da carreira, de suas pesquisas, de como foi mudando o entendimento desse “O tempo não existe” para o tempo existe… Ele construiu uma aula articulando proposições: o pesquisador, seus interesses, experiências pessoais, profissionais, a UFPR, a Escola de Altos Estudos na França… Sérgio falou da dificuldade de explicar a conjuntura de Braudel a seus alunos, falou dos conceitos basilares de suas pesquisas, explicou geração, ciclo vital, desenhou no quadro… vaga-lumes, pirilampos, estrelas… Deteve-se em geração. Eu haveria de insistir por minha vez, quando o questionei ao final.

Quando ele começou a falar, pediu desculpas pela voz, um pouco rouca, de fato. Talvez menos habituada aos cursos presenciais. Não demorou muito tempo, porém, para as cordas vocais lembrarem de onde estavam: no corpo do Professor Sérgio, o corpo na universidade. Ele falou sem microfone ao longo de noventa minutos para um anfiteatro cheio e sua voz foi plenamente ouvida. Posso provar, estava na penúltima fila, ao lado dos meus alunos.

Coisas delicadas aconteceram na tarde de 20 de abril. Ana Paula Vosne Martins, coordenadora do PPGHIS, sintetizou o currículo de Sérgio na apresentação e deslumbrou os alunos com a leitura de uma trajetória acadêmica exitosa. Sérgio segue sendo pesquisador do CNPq, no nível mais alto, próximo aos 80 anos de idade. Mas Ana fora sua monitora quando cursava História na UFPR, brincou que talvez ele não se lembrasse disso. Ali, sentados lado a lado o tempo se embaralhou, mas não se confundiu: a menina de antes é hoje a historiadora que coordena os trabalhos no Programa em que Sérgio atua. Ora, é sua chefe! Ela não se fez de rogada, fez a última pergunta, provocou-o.

Sérgio foi honrado com debate. Sua colega Marion Brepohl queria ouvi-lo enfrentar Braudel. Ele enfrentou. Reconheceu a importância, declarou redirecionamentos... Deu uma das melhores razões que já ouvi para estudarmos teoria: como toca piano de ouvido há anos, um dia sentiu que lhe faltava técnica para fazer o que queria.

Achei que Sérgio estava comovido e aí não sei se foi a emoção ou o tempo... que me permitiu observar uma outra delicadeza.  Em alguns momentos, Sérgio parou para pensar e continuou as frases sem pressa. Havia preparado um texto, as folhas estavam lá; nitidamente lia e refletia sobre o que tinha escrito, ali diante de nós; lia e falava olhando para nós, explicava; imagino seu cérebro conversando em diferentes níveis: consigo mesmo, imaginando se o que tinha escrito estava claro, estava apropriado e tudo isso fez com que a plateia – vou chamar assim mesmo – compreendesse que a vida desafia o ritmo em sua ambição de intervalo regular de tempo. E aqui não falo como musicista, o que não serei em qualquer tempo, mas como alguém que reverencia os blocos (des)iguais do compasso. O tempo existe e não para.

 

21/04/2023


Sérgio e seus vagalumes, ou pirilampos, ou estrelas... acontecimentos.

 

 

segunda-feira, 6 de março de 2023

Uma receita que é também um modo de lembrar (5 anos, em 5/3/2023)

 

Há 5 anos, o coração do meu pai parou de bater. O coração ambíguo dos Guimarães: forte na intenção e frágil entre socacos da fisiologia e das escolhas da vida. Meu pai acreditava que adentraria em uma outra vida e eu espero que sua crença tenha encontrado uma resposta ainda mais bonita que a sua esperança. Nesses 5 anos, a memória do seu passamento foi vivenciada por mim e por minha mãe com a tradicional marcação de missa e ponto na Igreja. Este ano isso não me passou pela cabeça. Estou brigada com a igreja em que me criei? Brigada não é palavra precisa, mas o fato é que tive uma outra idéia e, ao encerrar o dia, com uma serenidade rara, acho que acertei, sem acumular dívidas. Esse texto é sobre memória e tempo.

Ao longo da semana, encasquetei de preparar a carne assada dele e, como minha mãe está hospedada em minha casa, recuperando-se (bem) de um problema de saúde, pedi a ela que fizesse no almoço do dia 5 a sobremesa favorita dele: manjar branco. Já preparei a carne assada de meu pai muitas vezes, mas é fato que, desde que ele se foi, não tinha voltado à receita. Bem, voltar à receita talvez seja demasiado..., nunca houve receita em papel. O que sempre houve foi a observação de um modo de fazer.

Papai gostava de cozinhar. Seu repertório era modesto, mas suas poucas especialidades eram de fato únicas em matéria de sabor. Sua carne assada era imbatível e os bifes à milanesa, creioemdeuspai... Ele me ensinou de forma mais detida os bifes à milanesa e sua técnica de congelamento e descongelamento, que utilizo com respeito e confiança. Mas a carne assada..., era mais reparar nele.

Sua carne assada leva 4 horas para ficar pronta. Não 3 horas e meia; não 3 horas e 45 minutos; não 4 horas e 15; 4 horas e fim; e não existia panela de pressão para facilitar. Papai considerava uma concessão (absurda) à preguiça recorrer à pressão. Colocava obviamente o feijão na pressão, mas a sua carne, jamais. Essa carne era meio que o papai. Nunca vi meu pai de preguiça. Acordava cedíssimo, dormia cedíssimo, lia muito, estudava outro tanto. Quando tinha casa com jardim, arrancava matinhos invisíveis. Quando se mudou para o pequeno apartamento de Teresópolis, as paredes eram mais brancas que véu de noiva; a gente não andava por lá, flutuava sob seu olhar vigilante de poeiras impossíveis. Aposentou-se e vivia absorvido por tarefas.

Papai gostava de alcatra e gostava de incluir uma linguiça na peça, bem no meio, e isso sempre deu um gosto muito especial ao prato. A carne dele é uma carne de panela. Papai a preparava em pé, colocava água aos pouquinhos, uma coisa impressionante de paciência de Jó. Jogar um monte de água também não se punha! Coisa de preguiçoso. E ele ficava ali, de pouquinho em pouquinho. No calor, sem camisa, um 4 com as pernas levemente arqueadas. Papai tinha 1,80 m de altura, era um senhor cozinheiro com seus copinhos: o de água para refrescar a sua carne e o de coca/cerveja/vinho para molhar a garganta. Ele falava enquanto preparava. Conversava. Narrava. Conversava quando queria ouvir o público; narrava quando queria apenas ser ouvido. Na última hora da carne, ele incluía batatas. Se eram muito grandes, cortava-as apenas ao meio; se médias, iam inteiras. Virava a carne na metade do tempo do preparo, então só uma vez. Esse é o segredo da integridade de suas batatas.

Papai não gostava de salada nenhuma. Sua carne era a sua maravilha, que admitia a companhia das batatas, do arroz branco e do feijão preto. Nós, de vez em quando.

Nunca vi meu pai temperar a carne, sei que o fazia com antecedência. Mas o que colocava? Eu fiz várias tentativas ao longo dos anos com resultados mais ou menos próximos. Este ano pedi ajuda. A ajuda é presente, um futuro que meu pai não teve acesso.

Minha companheira é uma exímia cozinheira e esse ano reuniu mais ajuda para reconstruir a possibilidade de um tempero que ela nunca provou, engajada no desejo de partilhar a minha memória. Fez ligações, escreveu mensagens. Minha sogra entrou em jogo. Sugeriu. Os tempos desencontrados na vida ordinária, mas encontrados na minha vida se juntaram todos para fazer o almoço de hoje. Começamos na véspera, na salmoura, nos temperos da peça de posta vermelha que precisou ser refeita! Constrangido pelo hábito no estabelecimento, o açougueiro temperou... Pedi desculpas, mas esse prazer/tarefa tinha de ser meu, nosso. Sem preguiça.

Minha mãe também começou e terminou na véspera. O manjar precisa descansar na geladeira. Nem todos apreciam ameixa, então tivemos duas caldas. A leve intolerância à lactose de mamãe impôs outros leites. A textura mudou. Papai apreciaria? Eu repeti três vezes a sobremesa.

Às 9:00 de hoje, comecei a carne. Sem coca-coca, sem cerveja, sem vinho, com chimarrão. Quê?! Quando me dei conta, ri. O aroma da erva em contato com os aromas exalados da cebola, da sálvia, do louro, do vinho branco... mudariam o resultado? Trouxe a poesia portuguesa e um ensaio para me fazer companhia, enquanto vivi a paciência de Jó do copinho. O ensaio se intitula Lápide e versão[1]. Achei tão curiosa a minha escolha! Papai não fazia duas coisas ao mesmo tempo; eu faço inúmeras e não tenho orgulho.

4 horas. Comida de 4 horas não se faz pra qualquer um. Em um domingo hesitante ou performático, a depender do juízo de valor que meus raros leitores vão fazer da chuva e do sol ao longo de todo o dia (!), exigi da filha que ao menos trocasse o pijama para o almoço. “Não precisa roupa de sair”, mas eu não sentaria à mesa do almoço de pijamas com meu pai...

Eu servi. Mamãe primeiro. Papai servia. Não rezamos, brindamos à sua memória. Uma parte do tempo à mesa foi conversa, memória; outra, apreciação do quão perto cheguei do sabor original graças à participação de pessoas que só conhecem meu pai por fotografias, pelas ondas no meu cabelo, pela minha risada, pelo (tamanho) do meu nariz.  

A carne assada do meu pai é um modo de falar do meu pai no presente. Ao meu lado direito, entre aérea de sono domingueiro e faminta da carne, estava o futuro dele, meu, o tenro ramo florescente da nossa árvore. Cachos, a negra cabeleira, negros olhos... nariz surpreendente! Um caracacá veio pousar nos seus ombros para desenhar possibilidades imprevistas para mim. Comeu rápido. “Dá licença”. Toda. Um dia, o desejo dela pela memória pode me fazer companhia nessas 4 horas. Ou não.

A carne assada do meu pai é um modo de falar. Um modo do meu pai.


[1] Do meu mestre e amigo Jorge Fernandes da Silveira. O livro é sobre a poeta portuguesa Fiama Hasse Paes Brandão.

Nós três há tanto tempo... 2011! Depois dessa, nunca outra.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Estou com quase 50 anos e não preciso de socorro. Obrigada!

 Estou com quase 50 anos e não preciso de socorro.

 

Fiz 49 anos ontem e estou há meses escrevendo esse texto dentro de mim. Outro dia, entrei no tema a propósito do meu cartão de felicitações a Lula e Janja pelo casamento[1] e saí. Dei uma volta. Alguns dos sentimentos que reúno aqui são, porém, mais antigos, de quando comecei a usar óculos de leitura, por exemplo, aos 44, ou quando começaram a ficar visíveis aos outros os primeiros fios brancos, e eu comecei a ser perguntada sobre quando iria tingi-los. Olhando minhas fotos com 40 anos, cabelos mais curtinhos que agora, eu vejo os fios sutis, lado direito, então foi antes dos óculos!

Mas, sem sombra de dúvida, nos últimos dois anos, sinto um movimento maior de resistência à tranquilidade com que eu resolvi encarar o passar dos anos, sem (por enquanto) investir em cirurgias plásticas, tintura nos cabelos, botox ou outros tratamentos. Antes que você anteveja que eu caí na armadilha dos contrários, ora, se fosse para julgar minhas amigas que fizeram/fazem tudo isso, eu nem perdia o seu tempo de leitura..., leu o meu “por enquanto”? O meu problema – não é só meu, porque não sou exceção – é que a minha tranquilidade e a de outras mulheres “relaxadas” têm incomodado.

Eu sigo duas mulheres da minha geração no instagram – uma psicóloga e outra jornalista – que têm abordado bastante as diversas faces do etarismo. Porque é disso que se trata: do preconceito contra o tempo que passa pelo corpo, deixando marcas visíveis, e pela identidade civil das pessoas. Mas, perdoem, sobretudo pelo corpo e pela identidade civil das mulheres. No caso, relaxada pode não significar estar tranquila...

Como o etarismo tem se mostrado para mim? Nos últimos dois anos as pessoas – de gente muito próxima, família mesmo!, amigos, amigas, até gente que reencontrei depois de um tempo – passaram a me achar mais jovem. Oi?! Sim, elas me dizem: - Você parece mais jovem! (ou) Você rejuvenesceu! A área construída do sorriso delas no próprio rosto me dá certeza de que elas julgam que estão me fazendo um baita elogio. Estou imaginando daqui a surpresa de gente que já me disse/estava pronta para me dizer isso lendo... Está claro para todo mundo que ficar mais jovem não é possível? Pior: que a declaração não é um elogio?... Igualmente esquisito é me lembrar que, quando eu era mais jovem, parecia mais velha, “responsável” demais, olha a relação! Eu e outras mulheres – “maduras na juventude” e “moças na maturidade”, para os outros, é claro... – estamos com o tempo contato!

Mas parece que, quando se quer elogiar uma mulher, essas coisas escorrem da boca. O tempo funesto dela/nela. Não escorre assim quando o alvo são os homens. A gente até pode dizer que ele rejuvenesceu, mas não raro seus cabelos brancos, a firmeza dos traços de expressão, as rugas... tudo isso é um charme! A gente se desvia. Há alguns anos eu escrevi um texto sobre o homem mais bonito do mundo para mim[2]. Hoje, o modelo Paul Mason tem 60 anos e... você quer saber se eu continuo a achá-lo o homem mais bonito do mundo? Gente, o Papai Noel é lindo!

Quando eu comecei a “fugir” da tinta, minhas irmãs combinaram de maneira galhofeira de pintar meus cabelos na marra, ou quando eu estivesse dormindo. Elas desistiram das duas coisas: de me demover e de me obrigar. Semana passada, minha tia querida, que me ama apaixonadamente, me perguntou cheia de carinho, se no dia 6 de fevereiro eu ficaria mais jovem. Piscou o olho. Eu corrigi olhando por cima dos óculos: - Não, tia, mais velha mesmo. Sempre Phina.

Se a tranquilidade incomoda e desperta desejos galhofeiros nas irmãs, sob o olhar cúmplice das mães, isso não é (quase nada) até a relaxada decidir namorar ou casar de novo e... com alguém mais jovem! Grita! Amiga relaxada, não importa se você vai casar com um homem (ou talvez...) ou com uma mulher. Hoje, isso é o de menos (quando já foi de mais, eu sei!). Mas... você não será perdoada, de qualquer jeito.

Vamos para a família: ninguém vai te cumprimentar, todo mundo vai “ficar preocupado/a”. Afinal, do lado de lá: você é a sedutora; do lado de cá: você é a incauta. Vamos para os amigos: 1) felicidade aturdida, não sabem se estão alegres ou confusos; 2) revolta calada ou esbravejante; 3) carinho e compreensão (raros, todavia poderosos!). Vamos para os conhecidos: - que é que tá acontecendo?! As pessoas da rua: - É sua mãe? (ninguém pergunta para um homem se ele é o pai da mulher..., mas uma mulher mais velha sempre será a mãe dos outros, ou a tia!). As pessoas vão usar muitos formatos para a própria confusão: as mais delicadas vão abordar todas as diferenças do repertório particular e vão evitar a palavra idade; as indelicadas vão te fustigar com os próprios traumas. Porque se é uma coisa que, mais cedo ou mais tarde, a gente descobre no divã é que não é com a gente. Só que, é claro, é a gente que recebe todo esse conteúdo edificante! Uma das bordoadas a que tive acesso em minhas pesquisas sobre o tema trazia uma (única) frase sobre o alvo, interrompida pelo fluxo de consciência à Virginia Woolf! Você provoca: e isso fez sofrer alguém? Pára com crítica literária, amiga, é a vida. Fez sofrer muito.

Sempre pode piorar. E se você quiser ter um filho? Olha para a Claudia Raia! Vai redarguir que ela escondeu o tratamento, e eu também achei desnecessário. Acho que perdemos a chance de falar sobre outro drama que fustiga nosso coração e nossos corpos (e bolsos!): os tratamentos para engravidar. Todo mundo tem uma opinião (péssima) para dar. No caso de Cláudia, sobre o que mais se falou? Que ela tem 55 anos e vai ter um bebê. Não pode... O corpo das mulheres.

O corpo das mulheres é um terreno de disputas. Parece frase que alguém escreveu antes de mim. Talvez. Talvez eu tenha aberto uma gaveta, ou percorrido os escaninhos da memória e a tenha lido lá, entre um volume e outro de Paul Ricoeur. O fato é que, quer minha amiga tenha decidido investir na cirurgia plástica depois de um parto difícil, quer porque acha importante por uma razão toda sua, quer eu esteja calma com os “bigodes de chinês” – que expressão é essa, meu Deus?!?! –, quer você tenha se apaixonado e esteja sendo correspondida, respingando alegria por todos os lados e queimando a cara dos outros, quer acalente o sonho de gerar um filho (ou mais um!), todo mundo vai achar que tem de dar uma opinião e eu, que tenho ouvido opiniões travestidas de elogios, ouvido/lido os fluxos de consciência, as ameaças aos cabelos... vou achar que continuamos a fustigar muito nossas irmãs.

O conteúdo “edificante” é partilhado por homens aturdidos também. Estão tão acostumados aos sacrifícios das mulheres que não compreendem o próprio tesão pelas relaxadas, elas precisam ser contidas! Seus pelos no corpo, o cheiro natural de quem vive, o sorriso sem batom, o cabelo sem escova, que voa (!), inaceitáveis. Mas nossas irmãs partilham conteúdos e, não raro, com mais requinte. De crueldade, claro. Sabe o “é sua mãe?”. As mulheres miram essa jugular.

Tenho me perguntado/me preocupado/me consagrado de maneira incessante a um plano imenso: como educar a minha filha para não fustigar, para não aceitar ser fustigada, para não aceitar que fustiguem suas amigas e para cicatrizar depressa, se por acaso – como eu muitas vezes... – estiver distraída? Tenho conversado com mulheres. Eu ouço as mulheres e somos muitas interessadas em parar de machucar as outras. Somos muitas interessadas em não permitir que outros machuquem.

Precisamos retirar o etarismo travestido de elogio do meio da sala. Se quer elogiar, seja mais ousado/ousada ou mais inteligente. Repare. Se não quer e estiver morrendo de vontade de ser desagradável, corra atrás do próprio rabo. Busque ajuda.

No meu grupo de corrida, uma das mulheres mais fortes é a mais velha. Não tenho o seu pique. Sou sincera. Mas sempre que posso tento treinar com ela. Eu reverencio meus mestres e a cada ano saúdo o tempo que compartilho com eles e elas. Presente. Presente é o oxigênio que entra pelos mesmos corpos de todas as idades, em todas as partes do mundo. O tempo é uma companhia. Não há bicicleta sem marca no joelho, não há sopro de velas em bolo de aniversário (ou levitando no bolo, novidades da crise sanitária...) sem careta, boca franzida, não há ódio sem aperto no olho, gargalhada sem festa na cara, marca... eu digo e ela (não) acredita: ela é bonita demais.  




[2] Texto publicado aqui no blog em 12 de dezembro de 2016. Disponível em: <http://literistorias.blogspot.com/search/label/Paul%20Mason

6/2/2023, foi bom demais!

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Filmes românticos de Natal... Outra vez?! Tem novidade aqui

 

No final de 2019, eu escrevi um texto sobre filmes românticos de Natal[1]. Lá, conceituei a apreciadora e o apreciador do gênero; fiz uma lista do “corpus pesquisado”; falei sobre as personagens femininas, sobre as crianças e sobre o crush; falei também sobre cenário e sobre o figurino; abordei os enredos pudicos, os beijos só ao final, as famílias de mamãe e papai, poucos divorciados, maioria de viúvos (para os casos de recasamento) e fiz algumas observações sobre as expectativas que temos ao ver esses filmes (assumindo que quem vê é mesmo fã do gênero), sobre o direito da protagonista ao amor, depois de ter dado a volta ao mundo (e às vezes o amor estava bem pertinho desde sempre). Retomo os elementos que me chamaram a atenção naquele “distante” dezembro de 2019. Ao final do outro texto, lancei um desafio até aos descolados: para verem escondidos os filmes românticos de Natal. Possivelmente outras pessoas já haviam escrito sobre o tema, mas eu não tinha lido nada a respeito. O texto de 2019 continua a ser bastante visitado aqui no blog. Depois dele, eu passei os olhos por várias linhas por aí.   

O fato é que eu também dei a minha volta ao mundo e, neste dezembro de 2022, encarei um retorno ao gênero. O canal que me ofereceu as fontes de 2019 oferece este ano oito semanas de filmes românticos de Natal!!! Vamos até o Dia de Reis. Primeiro dado relevante: o período de exibição dos filmes cresceu. Descobri outro canal que exibe um festival e percebi que plataformas pagas de filmes investiram pesado na exibição do gênero, o que corrobora para minha certeza de que os apreciadores e as apreciadoras são muito numerosos/as, quer sejam românticos declarados, quer sejam enrustidos.

Eu empreguei aspas para falar do distante 2019..., porque muito embora só tenham se passado três anos, foram três anos cheios de eventos: o mais importante, a epidemia de covid-19, que matou e mata no planeta. Mas suportávamos o governo de Donald Trump, assistíamos às movimentações da extrema direita pelo mundo, o governo bolsonaro e uma guerra foi deflagrada; ela prossegue, enquanto outras continuaram seu projeto de morte longe da mera curiosidade dos veículos de (des)informação, compradores apenas das manchetes das grandes agências... Nos filmes que pesquisei em 2019, notei a presença dos militares. Eles são apegados às suas famílias e, ao final, “quebram” a resistência das heroínas (que não querem enviuvar, é claro).

Será que os filmes contariam uma história diferente, depois de três anos sofridos? Quando comecei a movimentar meus dedos pelo controle remoto e os olhos pela tela, percebi que os filmes de 2019 continuam a ser exibidos, mas percebi tantos lançamentos e não só de realizações do estúdio Hallmark[2], o campeão do gênero. A Netflix exibiu, mas foi fazer filme romântico de Natal na Polônia! A Amazon exibiu e procurou também não perder o bonde da produção. Esses canais pagos de filmes exibiram e fizeram filmes românticos de Natal.

Eu não cheguei perto da exploração de um corpus como o de 2019. Vi poucos filmes inteiros; a lista ao final é pobre, mas vi trechos relevantes de vários, que abandonei, entre impaciente, ocupada, ou distraída. Procurei especialmente filmes de 2020, 2021 e de 2022. Não vi alusão à covid... Vejam bem, meu corpus foi pequeno, então, não posso generalizar uma conclusão sobre essa ausência.

Eu me volto aos personagens, esse elemento que dá vida aos enredos literalmente. 1ª Surpresa: a presença LG (BTQIA+ ainda não). Os filmes românticos de Natal ampliaram o seu escopo de formas de amar e de gente que ama. O estúdio Hallmark e seus congêneres descobriram que lésbicas e gays existem. Vi um trecho de filme que acabei não levando adiante, protagonizado por um rapaz gay que no começo do filme namora um idiota que o engana. O protagonista vai passar as festas de fim de ano junto à família, sozinho..., mas lá onde a família mora descobre um rapaz – creioemdeuspai, que lindo! – que é tudo de bom. Aleluia! Não sei se casaram, não cheguei ao fim. Em outro filme, um casal de mulheres dá três beijos – lembremo-nos que os beijos dos filmes românticos de Natal são muito contados -. Casais de mulheres e casais de homens aparecem nesses filmes completamente integrados e integradas em famílias gentis, respeitosas, vestidas de suéteres ridículos e adoráveis; elas e eles são bem vindos, decoram as árvores, fazem biscoitos, ouvem música coladinhos/as e têm uma porção de amigos e amigas. Não raro esses amigos e amigas – protagonistas ou não – precisam de seu apoio e conselho para encontrar a felicidade.        

Em 2019, não tinha visto nenhum filme com mulheres que se amam e são respeitadas, ou com homens que se amam e são respeitados por suas famílias e próximos. O que aconteceu? Não tenhamos pressa... Há dois elementos aqui: por um lado, é espetacular que o gênero tenha integrado nas narrativas a diversidade da vida; por outro, não esqueçamos por um minuto sequer que se trata de uma indústria rentável e que muitos homens românticos e muitas mulheres românticas estavam de fora da identificação com os enredos. Então, tratou-se de incluí-los! Não recuando um centímetro da compreensão de que há interesse comercial nessa inclusão, ela, entretanto, cumpre um papel junto ao público que consome essas histórias de gentileza, amizade, neve, bolachinhas coloridas e finais felizes.

Eu falei acima da rigorosa contabilidade dos beijos e fiquei “chocada” com um filme em que, digamos assim, há intercurso..., no meio do filme!!! Cheguei a ficar sem palavras e todo mundo sabe que isso é raro. Nesse filme, cheio de reviravolta, há investigação sobre a origem da protagonista. Ela fora adotada e queria conhecer um pouco mais sobre a genitora, então empreende a busca. Nessa viagem, encontra o herói, um escritor... – belíssimo, claro! (Ah, não se espante: mas vi também um filme com um herói feíssimo, outra inovação!) – que colabora com a busca. Aliás, sua própria família está imbricada na origem da mulher pela qual ele se apaixona. Lembra do texto de 2019, em que deixei claro que as protagonistas femininas têm excelentes CVs? Ora, a protagonista desse filme #românticodenataldeinvestigaçãodeorigens fala quatro idiomas! Depois de 2019, elevamos ainda mais o sarrafo.

Você ficou curiosa ou curioso sobre o herói feio?... Bem, talvez não concorde comigo (duvido...), ele é meio maluco e por duas vezes a heroína berra no taxi. Temos ganas de dizer: Foge dele! Ao lado dela, está a melhor amiga. Isso não mudou um centímetro: filmes românticos de Natal têm os melhores amigos da vida. Mas voltemos aos berros. Ela é super crítica do lado comercial do Natal, e ele é um entusiasta (emprego eufemismo...) do Natal – primeiro berro; ela é uma mãe divorciada (sim, agora, temos mais divorciados. Quem bom que os estúdios compreenderam que não precisam matar nossos ex para recasarmos), com filha pequena e pai ausente. Vive o dilema: conto ou não conto sobre o Papai Noel? Pois o namorado/herói acredita em Papai Noel. Você pensa que é brincadeira? Metáfora? Ele realmente acredita em Papai Noel. É o segundo berro no taxi.

 O melhor desse filme é o melhor amigo do herói. Trata-se de um jovem muçulmano e ele é perfeito nas conversas com a protagonista. Eu adorei isso. Não, não é o politicamente correto elementar, é correto decerto e é suave, bonito. Haver um amigo muçulmano chamado a colaborar com o herói trazendo para essa colaboração a sua identidade é uma coisa que não se via por aí. Ele comemora o Natal? Ora, gente, meus amigos muçulmanos comemoram e dão presentes. A conversa que ele tem com a protagonista – junto ao amor que ela sente pelo herói feio amalucado, claro... – define as coisas. Esse personagem é essencial.

Alguém vai se lembrar que a diversidade racial dos filmes românticos de Natal ficava nos coadjuvantes e figurantes. Pois bem, vi um filme muito fofo com um protagonista negro. Vi outros filmes cheios de casais inter-raciais. Esse filme em especial tem um viúvo, ora... e uma heroína (branca) que tem um namorado (branco) péssimo. Ele a pede em casamento usando um anel que não comprou, mas roubou do herói!!! Estou gritando aqui. O protagonista tem uma filha adorável. Isso não mudou, gente, as crianças continuam adoráveis. A ex do herói é uma mulher preta maravilhosa e muito bacana.

Por que vemos esses filmes? Este ano tive uma companhia inusitada para ver alguns deles. Tratou-se de uma pessoa que brada não ser fã do gênero. Ora, há muitas razões para ver um filme romântico de Natal, incluindo ser companhia do fã ou da fã! O fato é que esses filmes que dão vontade de vestir casacos vermelhos e verdes e depois assar nas cidades tropicais são fofos e... são capazes de se reinventar! Esse é o segredo para o sucesso das tradições: elas precisam se reinventar. Este ano isso foi tão flagrante para mim que precisei extravasar aqui! Muita coisa se mantém e muita coisa foi incorporada porque se trata de uma indústria esperta, atenta aos sinais. Não esqueçamos, porém, que a narrativa que resulta dessa incorporação volta ao público, mostrando a ele que a diversidade astuciosamente representada é não só tolerada como bem vinda à mesa e isso é para mim o espírito da coisa.

Tenho até o Dia de Reis para continuar minhas férias fílmicas, junto a minhas leituras e passeios. Mas quis escrever logo minhas impressões de um gênero que aprecio destemida e despudoradamente. Eu não vi ninguém de máscara nos filmes..., por que esse dado não foi incorporado? Excesso de realidade? Descobri recentemente que existe filme romântico de outono, com guirlanda de outono e tudo! Filme de fazenda de pêra. Não ria... Vai nascer um gênero novo? O sucesso dos filmes românticos de Natal revela qualquer coisa sobre nós e sobre como os produtores percebem novos/nossos anseios. Parte de mim continua a torcer pelo encontro dos heróis ou das heroínas ao final; parte observa, curiosa, a renovação das tradições. O fato é que esses filmes são também um convite para rirmos juntos e juntas dos suéteres, deitados em sofás com cobertas(?) respeitosas das diferentes temperaturas do Brasil. Nesses momentos de pausa, talvez possamos ser até menos econômicos com nosso carinho, afinal os próprios filmes românticos começaram a inovação!  

     

Feliz 2023, gente cinéfila, romântica e leitora!

#filmesromânticosdeNatal 

 

Filmes vistos integralmente (lista pobrinha, comparada à de 2019):

Ele acredita em Papai Noel (2022)

Muito perto para o Natal (2020)

Natal em Coyote Creek (2021)

O Diário de Noel (2022)

Um Natal na Suíça (2022)

Um Natal no Castelo (2020)

Um presente da Tiffany (2022)



[2] Hallmark é também um canal estadunidense.

Essa foto linda foi cedida por um casal apaixonado em férias na Itália, para iluminar meu texto. Detalhe: ela acaba de ser pedida em casamento... Mais romântico que qualquer filme que vi! 

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

De volta à nave

Dia 20 de novembro de 2022 fui contemplada com um lugar na plateia para ver o espetáculo Nave mãe, dirigido por Vanessa Corina, da companhia de teatro curitibana Pé no Palco. O espetáculo teve entradas gratuitas, bastava enviar mensagem e aguardar a confirmação para sábado ou domingo. Há muitos anos eu não entrava no espaço Pé no Palco! Eu tive a felicidade de fazer alguns cursos de teatro oferecidos pela companhia – que além do teatro profissional, tem uma vocação formativa e engajamento em projetos sociais –, destaco um deles: sobre Beltold Brecht, que me marcou. Na ocasião, o Pé no Palco recebeu a diretora Dedé Pacheco e, ao longo de uma semana, os interessados e as interessadas – eu! – mergulharam no universo das peças didáticas. Inesquecível. Além dos cursos, tive uma experiência de “público insistente”, que costumo ostentar por aí: eu assisti a umas cinco apresentações da peça O conto da ilha desconhecida, texto de José Saramago, encenada pelo grupo. Meu número não é hipérbole, eu desconfio até que é eufemismo, porque eu fui ver essa peça com todo mundo. Na época eu trabalhava na rede privada, ensino superior e ensino fundamental, e eu levei todas as minhas turmas! Também levei a família, amigos... Eu fui. Um dia, deixei de ir. É impressionante como a gente deixa de fazer as coisas que considera cintilantes e vive anos a fio esquecida do brilho delas sobre a própria vida.

Uma das primeiras experiências de reencontro foi ser reconhecida pela produtora da companhia, a Giselle Lima, depois de tantos anos e da máscara phitta! Adentrei, reconheci. O público esperou o espetáculo entre a exposição “Ela em mim” da artista Laiz Zotovici Martins, que preparou o espírito para as histórias mãe & filha, e o café, que eu não conhecia. Mas a gente não esperou muito. Logo, as atrizes e os atores vieram nos buscar e eu devia desconfiar que, nesse reencontro tão aguardado entre público e os atores e atrizes privados da intimidade pela crise sanitária, eles e elas haveriam de “inventar”. Chamaram a gente com música e com olho no olho. Eu me lembrei do exercício do enfrentamento de plateia. Não se tratou de encarar, mas de voltar a olhar, sorrir, estar perto, já dentro do espetáculo, porque afinal eles e elas já estavam maquiados, vestidos com seus figurinos, e nos envolveram como um grande elenco. Adentramos, reconheci. Uma das coisas de que eu me lembrava com mais afeto – talvez da experiência de público insistente de O conto da ilha desconhecida – era esse teatro muito afetivo, de público pequeno, próximo. Poucos. Não selecionados, mas interessados.

Da programação de A Nave mãe: “a peça se desdobra em três camadas: dos depoimentos autorais, na presença da música como texto/melodia e/nos momentos de necessários protestos”. É uma informação precisa e eu vou apenas completá-la. Os depoimentos autorais incluem o público pela identificação. Há uma magia – e eu emprego essa palavra porque ela revela a minha própria surpresa com a arte – que faz com que o mais particular da experiência do outro de repente se revele tão meu! Ouvir Vanessa Corina, além de mitigar saudades, foi me ver bem no meio do palco. “Eu sou free, sou free demais!!!”, Sempre Livre! Menudo... Eu ri de nervosa. Cada biografia dramática emanava uma possibilidade nova de se ver/de nos ver. As músicas foram texto amigo, complementar e também paralelo, que se impôs algumas vezes, um coro para despertar o público: olha, estamos no teatro, olhe para cá, desvie seu olhar da identificação, cante com a gente! Acho que foi a música que funcionou como mediação para esse processo de “desidentificação” que nos jogou em outra escala: do particular para o mais amplo, para o que irmana diferente, como compromisso cidadão. Lembranças de Brecht... O espetáculo cresce.

O teatro é o agora e a surpresa. Tem ensaio, tem repetição, tem técnica, concentração... e tem aquela magia lá. A silhueta de Fátima que se mistura a de Pedro, seus braços, que formam uma estranha criatura, de novo um só ser. As silhuetas que a iluminação foi revelando, molhadas por uma chuva portátil. De repente, o silêncio, um longo olhar. Sim, porque mesmo um espetáculo com música, com barulhão, teve silêncio, teve pausa. Pausa antes, no convite dos atores: desligue-se; pausa dentro: vamos olhar, vamos pensar.

Nave mãe é um espetáculo bonito, bem construído, pensado, múltiplo e que não abre mão da magia. Dias depois de ter adentrado essa nave, atravessada pelo dia a dia de experiências menos cintilantes, guardo em mim a experiência dessa viagem tão amorosa.

Obrigada, nautas!




domingo, 29 de maio de 2022

Alcione em Curitiba – 28 de maio de 2022

 

21:30, no Teatro Positivo: uma mulher envolvida em um brilho lilás (seguindo a letra de Gilberto Gil: quanto mais purpurina melhor) adentra o palco para levar a plateia a um estado de alegria coletiva muito raro, depois de 2 anos. Alcione cantou seus sucessos mais conhecidos acompanhada de sua banda fiel. A maior parte do tempo, cantou sentada. Explicou ao público que vai fazer uma cirurgia na lombar em julho e que tem, em seguida, uma turnê pela Europa. Por isso, era preciso ficar sentada. Primeira coisa que faz pensar: 2 anos longe dos palcos teve repercussão na vida dos artistas. Na vida de artistas que orbitam muito distante da órbita de Alcione, o jejum da plateia foi fatal. Os artistas longe do sol viveram de subsídios, dos amigos, dos parentes, de doações de fãs desconhecidos e de dar nó em pingo. Não raro passaram necessidade, não tinham como pagar as contas básicas, passaram fome. Mas a órbita de Alcione também foi afetada. Imaginamos a quantidade de profissionais que são suas luas e que dependem que ela esteja no seu lugar, no palco. Isso talvez ajude a explicar a necessidade de vir a Curitiba para 1 show e cantar sentada quase todo o tempo e mal conseguir terminá-lo. Alcione sequer apresentou a banda...

A gente não sabe se Alcione sentia dor. Se sentia, a necessidade de honrar contratos e garantir o sustento de todas as suas luas fez com que ficasse lá, no seu trono branco de rainha, ao lado de uma mesinha, onde jazia seu copo de água e onde era depositada a sua xícara de café quentinho. Se não sentia, imaginamos talvez remédios para aliviar a dor, remédios que talvez tenham consequências no seu ânimo e na mobilidade. Na voz? Duvidamos. A voz era aquela nossa conhecida... e sentada, gesticulava, ia um pouco para trás no trono branco, jogando a cabeça, em algumas canções em que a entrega amorosa é protagonista. O corpo combalido tentava extravasar no limite imposto.

Alcione encantou a gente. Escolheu as músicas a dedo. Todo mundo sabia cantar tudo. Fomos o seu gigante backing vocal. Não dava para levantar e sambar... Outro dia, a gente foi a um show de samba, muito petit comité, ao ar livre, em que era possível sambar e a gente sambou! Mas no Teatro Positivo não era possível. Todo mundo sentadinho, um atrás do outro. Mas... os braços podem dançar! E eles vingaram os pés e os quadris rebolantes. Teve um momento, antecedendo “Ébano”, em que ela perguntou se havia ébanos presentes. Ora, havia... Uma de nós pensou que, se fosse um ébano, teria levantado ali no meio do corredor e teria dançado para ela! Será que eu caí na sua rede, ainda não sei...

Alcione não apresentou nenhum lançamento, nenhuma criação pandêmica (como vemos vários artistas tentando criar numa tentativa também de sobrevivência ao isolamento). Alcione passou por vários sucessos de sua carreira, que todo mundo sabia cantar. Mexeu com nossa memória e fez todos entenderem porque estavam lá naquele show. Na entrada, o brilho cintilante de sua roupa contrastava com os Retalhos de Cetim. Na passagem pelos seus sucessos, Alcione acrescenta um comentário essencial na música O Surdo, que traz a "pancada de amor não dói". "Dói, sim", a cantora finaliza a música marcando sua posição, ao mesmo tempo em que data e documenta a produção de letras machistas na música brasileira. Adendo necessário haja vista o público que a acompanha há anos e os novos ouvintes de uma geração em que a violência contra mulher não deveria mais existir. No meio do show, o ponto de beleza exuberante e esperançosa: Juízo final! Ah... esse sol que há de brilhar mais uma vez. Os raios luminosos irradiavam na plateia enquanto misturávamos a esperança nesse (re)nascer com a memória da saudosa Clara Nunes! Quando estávamos prontas para gritar o tão significativo "Meu vício é você", o show foi encerrado. Não teve nem BIS... E, não sabemos muito bem por quê, o público não se animou a pedir. Compreensão sobre o estado da cantora, talvez, necessidade de sair rápido do teatro para não aglomerar, tanto tempo sem ir a shows que se esqueceram até de como pedir BIS... Não sabemos.

Sobre o público, uma de nós escreveu em 2016, um texto sobre o comportamento do respeitável público em um balé infantil[1]. Remetemos nossos leitores a essa memória edificante... Mas o que havia de novo? Pouco, afinal, quase todo mundo ali estava sem máscara. Quê?! Sim, um público diverso, pintado de idades diferentes, gente de 20, de 30, 40, que passou dos 70 há um tempo, dos 80... e sem máscara. Enquanto isso, os veículos de comunicação noticiam o rebote da covid-19. A gente tirou a máscara 2 vezes para fazer 2 fotinhos e foi isso. No uber da ida e no da volta, máscaras. Só a gente, pois os 2 profissionais dispensaram. A gente aprendeu a sorrir de felicidade com os olhos, enquanto há perigo. Mas foi mesmo impressionante a despreocupação.

Os atrasos, o levanta e incomoda a fila inteira 1, 2, 3 vezes para ir sei lá onde, quando o 2º sinal já tocou... No texto de 2016, uma de nós falava da ausência da etiqueta de plateia. Se você tem implicância com a palavra etiqueta, pode trocar por respeito que vai servir. Serviu para uns, umas e outros, outras, no show de Alcione. No balé de 2016, uma de nós tocou no problema do salto na escada, e fica aqui prometido um texto sobre escada... O fato é que a gente tem de ter clareza sobre os limites do nosso corpo, para se sentir mais confortável, à vontade e se divertir.

Mas, então, por que ir ao show? Alguém pode alegar o não ineditismo do repertório e a disposição de todas as músicas nas plataformas digitais como justificativa para não ir. Respeitamos. Entretanto, a ida ao show é um pedido de presença. Sim, a presença da artista, a presença da música, cujos únicos intermediários do som até o público são os microfones e a mesa de som. O som "limpo", sem paradas para empresas mandando a gente comprar alguma coisa (parênteses apenas para uma reclamação sobre as propagandas ensurdecedores que antecederam o show. Mas só antecederam!) O show é a troca de presença entre artista e expectador; é a busca pela sinestesia que só a arte consegue produzir! A sinestesia que é um dos nossos trajetos para o sensível, a sensibilização, tão necessária e um dos caminhos de esperança para o sol que há de brilhar mais uma vez. Nós cantamos alto, dançamos, ficamos emocionadas. Um show revigorante para artista, a retomada da presença pelo público mesmo com incerteza... E a companhia especial, que realça a cintilância (Gil de novo) do sensível. Alcione, volte mais vezes para Curitiba. Há duas pessoas aqui esperando os próximos shows!

 

Deusa e banda

(Respeitável público, use máscara!)

Denise Miotto Mazocco

Marcella Lopes Guimarães

Em 29 de maio de 2022



[1] “Procura-se o respeitável público” <http://literistorias.blogspot.com/2016/12/procura-se-o-respeitavel-publico.html>


Fãs à espera da Deusa
Fãs à espera da Deusa e agindo certo