segunda-feira, 25 de abril de 2016

“Ah, sim, a senhora lê Madame de Sévigné!” (parte 1)

“Esforçava-me por emigrar para pensamentos eternos” (Marcel Proust)

No segundo volume de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust: À sombra das raparigas em flor, o narrador-protagonista sai de casa. Ainda é uma saída tímida, viaja com a avó e uma empregada da família até Balbec (cidade ficcional). Viaja com o coração partido, mas disciplinado: “Em Paris, eu me tornara cada vez mais indiferente a Gilberte, graças ao Hábito. A mudança de hábito, isto é, a cessação momentânea do Hábito, terminou a obra do Hábito quando parti para Balbec” (p. 196). O coração partido, então, não tem a ver com Gilberte, mas com a própria mãe: “Pela vez primeira tive a sensação de que minha mãe podia viver sem mim, dedicada a outra coisa, com outra vida diferente” (p. 200). No primeiro volume, seu sofrimento ante a demora da mãe para o beijo noturno é de cortar o coração. Para consolar o neto, a avó afirma: “– Minha filha, estou a ver-te que nem Madame de Sévigné, com um mapa sempre diante dos olhos e sem deixar um instante de pensar em nós” (p. 201). Essa referência me despertou.
Eu não me lembrei imediatamente onde havia lido esse nome, mas com pouco esforço cheguei à fonte. Eu tinha conhecido Madame de Sévigné na excelente tese de Beatriz Polidori Zechlinski, que tive o prazer de examinar, em 2012. Beatriz não distinguiu a obra da autora, mas a referiu no âmbito das relações literárias da França do século XVII. Então, lá fui eu recuperar essas referências. A pesquisadora destacou a importância da obra epistolar de Madame de Sévigné para elucidar práticas de leitura da época, para aclarar as relações de amizade estabelecidas por ela e indicar a sua recepção e a de seus amigos de livros publicados no contexto. Esses elementos, certamente muito importantes para quem se dedica a estudar as preciosas e os salões literários, não me informavam, porém, acerca da presença de Madame de Sévigné no romance de Proust. Minha ignorância completa da obra epistolar da autora não me dava elementos para pensar também sobre intertextualidade:

“Esse termo designa ao mesmo tempo uma propriedade constitutiva de qualquer texto e o conjunto das relações explícitas ou implícitas que um texto ou um grupo de textos determinado mantém com outros textos” (CHARAUDEAU, Patrick, MAINGUENEAU Dominique. Dicionário de Análise do Discurso. São Paulo: Contexto, 2008. p. 288).

Proust, entretanto, mais uma vez me valeu e, enquanto eu devorava as sua páginas, descobri que a avó do narrador era uma leitora voraz de Madame de Sévigné, esta se tornara sua companheira de viagens!: “Minha avó, porém, havia chegado a Madame de Sévigné por dentro, pelo amor que tinha aos seus e à Natureza, e ensinou-me a apreciar suas belezas, que são muito diversas das mencionadas” (p.205). O narrador refere, em seguida, a coincidência de um encontro com um parente de Madame de Sévigné, um pintor, e alude a uma sintonia entre o método da autora e esse seu parente: “Em Balbec, dei-me conta de que a Sévigné nos apresenta as coisas da mesma forma que o pintor, isto é relacionadas com a ordem de nossas percepções e não explicando-as primeiro pela sua causa” (p. 205). Nesse momento, achei que era hora de ir atrás de uma carta de Madame de Sévigné e de conhecê-la melhor.
Fui à obra Les Grands auteurs français de Lagarde e Michard:

“Nascida em Paris em 1626, Marie de Rabutin-Chantal, neta de Santa Joana de Chantal, ficou órfã aos 7 anos. Seu tio, Christophe de Coulanges, deu-lhe os mais eminentes mestres, que lhe ensinaram o italiano, o espanhol e o latim.
Em 1644, ela foi desposada pelo marquês de Sévigné, que, entretanto, foi morto em um duelo em 1651. Viúva aos 25 anos, com dois filhos, ela se retirou para o castelo de Rochers, próximos a Vitré. Depois, voltou a Paris onde passou a frequentar os salões preciosos.
Tendo se recusado a tornar a se casar, ela se consagrou à educação de seus filhos. Investiu sobre eles, sobre a filha principalmente, os mais ricos sentimentos. Sua filha se casou em 1669 com o Conde de Grignan, um alto oficial da região da Provença, e foi juntar-se a ele, no seu posto, em 1671. A separação foi cruel para Madame de Sévigné. Assim, ela escreve à filha para reencontrá-la, apesar de todas as léguas que as separavam. É junto à filha que morre em 1696, no castelo de Grignan, para onde tinha ido encontrá-la.
As Cartas de Madame de Sévigné não contém apenas o testemunho desse amor maternal. Elas constituem também uma crônica do seu tempo. Sobretudo, o que faz o charme, sempre sensível dessas Cartas, é a mistura do artístico e do natural que também caracteriza a maneira de La Fontaine: como ele, é à força de seu talento que Madame de Sévigné  nos dá a impressão de uma perfeita espontaneidade. Expressão de um temperamento muito rico, sua arte imprime na literatura do século XVII uma nota certamente original.”[1] (LAGARDE, André,  MICHARD, Laurent. Les Grands auteurs français. Textes et littérature du Moyen Âge au XXe siècle, avec la collaboration de Jacques Monférier. Paris, Bruxelles, Montréal: Bordas, 1971.)

O fragmento do manual me fez entender a declaração de consolo da avó do narrador de Proust e o seu desconforto diante da surpresa da Sra. de Villeparisis de que a filha (mãe do narrador) lhe escreveria todos os dias. Logo depois, a Sra. de Villeparisis descobre ser a avó do protagonista uma leitora de Madame de Sévigné e pergunta de maneira imprudente rsrsrs: “Não acha um pouco exagerada essa preocupação constante com a filha?” (p. 242). A avó desiste de qualquer debate.
 Ao ler os excertos das cartas de Madame de Sévigné que encontrei, percebi que, mais que uma citação, as relações entre o texto de Proust e da autora do século XVII são relações muito “por dentro”, elas têm a ver com a admiração de uma personagem, no caso, a avó, mas têm completa sintonia com a maneira como o narrador vai desvendando Balbec para nós, os leitores. É uma afinidade “metodológica”, cuja essência está contida no fragmento que já transcrevi, da forma como a avó do narrador conhecia o texto da autora que admirava. Isso me parece muito engenhoso. Por meio de uma avó leitora, o personagem vai aprendendo a perceber o mundo nos seus detalhes, na experiência de uma primeira liberdade (parcial, decerto), e o narrador nos entrega o resultado desse foco, o texto, de maneira muito afetiva:

“Eu sabia, quando estava com minha avó, que o meu penar, por maior que fosse, seria acolhido numa piedade ainda mais vasta; que tudo o que era meu, meus cuidados, meu querer, seria, em minha avó, absorvido num desejo de conservação e acréscimo de minha própria vida muito mais forte do que aquele que eu mesmo tinha” (p. 217)

Tudo o que escrevi aqui acontece em um pedaço do segundo volume. Não tenho como garantir que Madame de Sévigné continuará conosco, comigo..., afinal, o volume não terminou e ainda me faltam 5!... No entanto, fiquei particularmente encantada com o modo como a sua obra comparece, para além da citação direta e/ou integral (que minha descoberta recente não permite cotejar), em um nível íntimo, de braço dado com uma avó.

Na próxima semana, algumas traduções muito livres de Madame de Sévigné!



Indicações:
·         A Tese de Beatriz Polidori Zechlinski está disponível em: http://www.humanas.ufpr.br/portal/arquivos/BEATRIZZECHLINSKI.pdf (acesso em 13 de abril de 2016)
·         A edição de À sombra das raparigas em flor que utilizo foi traduzida pelo Mário Quintana (São Paulo: Globo, 1996).




[1] Tradução minha.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Pequena história com final feliz

Passou o dia limpando o rastro de vida espalhado pela casa. Catou sapato e brinquedo; achou meia solteira no corredor; descartou papelzinho com número velho de telefone. Deu um encontrão no marido; desviou-se dele na entrada do quarto; desistiu de entrar na cozinha, repleta da sua presença. Quando não dava mais para se afastar daquela existência obsessiva por todos os cantos em que tinha necessidade de transitar, deixou escapar da boca nervosa uma acusação: - Está me perseguindo? Ouviu: - Estou e todo dia.
Não teve medo do encontrão, tomou-lhe o rosto sem desvio e depositou um beijo repleto da necessidade de obrigada por não perder o meu rastro.

PS.: A imagem é de Rubens Gerchman. Sobre a sua obra, conferir: http://www.institutorubensgerchman.org.br/index.html

segunda-feira, 4 de abril de 2016

O grande silêncio, mais que um convite!

Em 1984, o cineasta Philip Gröning pediu autorização para filmar na Grande Cartuxa de Grenoble (França), disseram para ele que era cedo, talvez dentro de 10 ou 13 anos. 16 anos depois, ele obteve autorização e realizou o documentário O Grande Silêncio (2005). Esse filme imenso (162 minutos), lento e silencioso... ganhou o prêmio de melhor documentário europeu no ano seguinte a seu lançamento. Eu devo ao amigo, Prof. Saul António Gomes, o meu encontro com o documentário. Desde então, tenho recomendado, visto e conversado com meus alunos e amigos a respeito, sempre com grande entusiasmo meu e de quem convenço e venço a resistência por um filme tão “diferente”.
Esse filme mostra uma versão da “vida no deserto”. Escrevo isso ainda impactada pelo desaparecimento do Prof. José María Blázquez Martínez, no último dia 27 de março, referência em cristianismo primitivo. Seu texto “Orígenes del monacato Cristiano” sempre me acompanha nas aulas. Por que afirmei ser o documentário uma versão da vida no deserto, em plena França? Porque o monacato foi na sua origem uma escolha de afastamento e, no contexto específico de seu nascimento, no Egito, isso significou literalmente ir para o deserto, ou seja, partir para uma forma de viver apartada da agitação econômica e política dos centros urbanos, como Alexandria. Ora, a Cartuxa já é uma casa medieval e ela buscou congregar duas formas de viver que, na Antiguidade Tardia, foram um desafio a mais para a Igreja na sua tentativa de definir a ortodoxia. As formas a que me refiro são: a vida solitária, dos eremitas, e a forma coletiva, dos cenobitas. A Cartuxa propôs a seus adeptos ser eremita em grupo (!?!). Quem vê o filme entende perfeitamente como isso é possível.
Se a princípio o silêncio é opressor, sobretudo no acúmulo de barulho que compreende a nossa vida, rápido e com paciência, a gente vai descobrindo os sons que o microfone capta: o zumbido de uma mosca; o barulho dos corpos em movimento, quando sobem e descem escadas, quando cortam uma fruta, quando se ajoelham ou se levantam; o som dos instrumentos de trabalho, da tesoura que corta os panos, de portas... Na verdade, nossa audição é despertada. Há vozes, há promessas, cantos, conversas e até papo furado sobre outras casas cartuxas, fofocas entre monges..., há quantos anos determinado monge não lavava as mãos?
O dia, dividido em tarefas e orações, parece passar devagar. Devagar parece estar o avião no céu, sobre a Cartuxa, mas ele está muito rápido (!), a comprovar que não estamos na Idade Média. Há também uma máquina elétrica de cortar cabelo! Definitivamente, não estamos no medievo... O filme dá uma colher de chá para os medievalistas, porém: a contemplação de um antifonário e a apreciação do cantochão! Gestos repetidos, temporalidades superpostas. O tempo também é cíclico, surpreendemos as estações, e mesmo o frio não interrompe o que precisa ser feito para a vida em comunidade.
Há uma coisa que me encanta no documentário: o close nos monges. São rostos tão diferentes, idades e cores diversas! Algo em comum? Eu poderia dizer que há paz em seu olhar, mas seria inventar, eu não sei o que vai no interior do humano. No meu, o turbilhão sempre desafia! Por que eles seriam diferentes de mim? Não abdicaram do sentimento, apenas partilham uma forma de viver.  Há um pouco de pudor, um pouco de desafio, um pouco de dúvida a respeito da câmera invasora em seu olhar... E a câmera me parece muito respeitosa!
Muitos gestos só se dão a conhecer por uma nesga de porta. Passa alguém, mas depois esse alguém some e só fica a mesa, desde quando?! A impressão que tenho é que não dá para mover a mesa, ela está ali desde sempre, criou raiz. Mas sempre é muito tempo e é também só a minha imaginação.
Quando o filme começa, o monge alfaiate prepara uma nova roupa e, logo, descobrimos por que aquela necessidade precisava ser satisfeita. A Cartuxa vai receber noviços. Entre o abade e os recém-chegados se estabelece a entrega ritual: é de plena vontade... Para os que se apressam no julgamento de uma vida apartada do século e de seus “grandes prazeres” (!), opressora(?), acho importante “voltar a fita”: - É de plena vontade? – É de plena vontade... Eles se ajoelham, são abraçados e erguidos pelos seus novos irmãos, tornaram-se iguais, uma versão da entrega vassálica desfila pela tela.
Um velho monge cego concede uma entrevista. Pare já quem pensa ver uma versão bem real do Venerável Jorge de O Nome da Rosa (dirigido por Jean-Jacques Annaud)!!! Só podemos imaginar as perguntas pelas respostas que ele dá. Não, não tem medo da morte; por que teria?; ninguém deve temer a morte, ao contrário; o passado e o presente são humanos; Deus não tem passado; quando Deus nos olha, olha toda a nossa vida... Ele fez bem à minha vida ao fazer-me cego; o mundo perdeu o sentido de Deus; para que viver? Não perco meu tempo julgando os valores desse homem, porque confesso que parei mesmo nesse Agostinho que reconheço em suas palavras e nessa frase tão forte: quando Deus nos olha, olha toda a nossa vida.
 Há cenas muito bonitas e delicadas nesse filme. Eu rio dos monges na neve. Eles brincam, caem, rolam e perdem os sapatos. Eu não contenho as lágrimas diante dos closes alternados do velho monge, que já tem o olhar parado, que respira mal, em cujo corpo, cenas antes, um remédio fora passado – aliviaria a sua dor?, e de um dos noviços, tão lindo!, de olhar decidido. Em minha imaginação, Agostinho tem aquele rosto. Esses closes em especial me falam sobre a vida toda, sobre seus limites; sobre estar sozinho em meio a todo mundo; sobre morrer nos braços de quem se ama e ser erguido para uma vida nova por quem é nosso igual.
O grande silêncio é um filme sobre uma forma de viver. Para quem encontra alento na diversidade das escolhas da vida; para quem exalta a lembrança de possibilidades que nunca imaginou para si mesmo; para quem não tem medo de olhar nos olhos, nem de silêncio... esse filme é um convite.



Destaques:
Dá para ver o filme no youtube!!! https://www.youtube.com/watch?v=tY45g8trFMY (as legendas estão um pouco adiantadas...)


Logo, teremos em mãos o novo livro do Professor Renan Frighetto sobre o movimento monástico. Aguardem!



segunda-feira, 28 de março de 2016

Papo entre amigos - sobre um fragmento de Lucas

Esses tempos pascais me remetem a uma dupla de que gosto muito nos evangelhos, trata-se das irmãs Marta e Maria. Lá estão elas no Evangelho de Lucas, capítulo 10, versículos de 38 a 42:

E aconteceu que, indo em viagem, [Jesus] entrou em uma certa aldeia; e uma mulher, por nome Marta, o recebeu em sua casa. E esta tinha uma irmã, chamada Maria, a qual sentada aos pés do Senhor, ouvia a sua palavra.

Eu as reconheço no Evangelho de João (11, 1-46), são as irmãs de Lázaro, que choram a sua doença, a sua morte e mandam chamar Jesus, pois aquele que ele amava estava enfermo; logo depois o evangelista corrige que Jesus amava os três irmãos. Ele também nos lembra de que Maria era aquela que “ungiu o Senhor com bálsamo e lhe enxugou os pés com os seus cabelos” (Jo, 11, 2). Ora, no evangelho de João fica mais claro, portanto, porque passando por uma aldeia qualquer, Jesus se digna a ser recebido na casa justamente de Marta e Maria. Elas são suas amigas.
Retorno ao evangelho sinóptico. Na casa das irmãs, Jesus é chamado a opinar sobre um assunto doméstico e isso para mim é o encanto do quadro. O Evangelho de João certamente exibe “vigorosa originalidade”, tanto do ponto de vista da apresentação dos acontecimentos, quando da inspiração (SIMON, BENOIT. Judaísmo e Cristianismo antigo – de Antíoco Epifânio até Constantino. São Paulo: EDUSP, 1987. p.85), mas estou interessada mesmo na cena doméstica narrada em Lucas. Muita gente conhece o problema: a chegada de Jesus distrai Maria, que fica ao pé do amigo ouvindo as suas palavras. Entendamos: trata-se de um homem interessante e com um bom papo! Marta, entretanto, está atarefada e, pior, sobrecarregada, afinal Maria não mais a ajudava. Manifestando total intimidade com Jesus, Marta pede a sua intercessão, não sem antes sutilmente apontar aquela disparidade e até provocar, se a situação não o incomodava a ele!?! É uma cobrança entre pessoas que podem dizer tudo umas às outras. Marta recebe um amigo, pois bem, mas não esquece as suas obrigações. Maria, por outro lado, acha que a visita era motivo para interromper a rotina e “jogar conversa fora”. Vejo Marta com vassouras, panos, comida que ameaça queimar e Maria entregue à doçura e ao privilégio de receber na sua casa um homem em quem podia confiar. Lázaro não está em cena, as mulheres estão sozinhas com um homem que não é de sua família.
O que faz o amigo? Aconselha! Aconselha Marta, que está cansada e inquieta, a priorizar o que realmente interessa. Talvez Jesus quisesse a presença e a atenção de Marta também! Na entrega de Maria, todavia, no seu desejo de não controlar tudo, ela teria ficado com a melhor parte.
Esses pares complementares, do dever e do prazer, são tão explorados que qualquer um de nós preencheria a sua própria lista com lembranças excelentes! Parece que, em diferentes contextos e segundo outras mais diversas necessidades, temos nos dividido entre a vontade de largar as vassouras e a necessidade de tirar o pó dos móveis...
 Eu imagino muitas reações de Marta depois que Jesus endossou o comportamento de Maria: imagino Marta virando os olhos, malcriada; desviando o rosto, enquanto Jesus e Maria riem baixinho; imagino Jesus sacudindo de leve o braço da amiga atarefada, conduzindo-a à roda da conversa; imagino Maria pegando o pano da mão da preocupada irmã e dizendo: depois a gente continua, juntas... Imagino coisas de muita cumplicidade e esta cena tem a ver com prazer e dever, como apontei, mas tem mais a ver com isso: com confiança e liberdade. Confiança no juízo do outro e na entrega; liberdade para falar e para escolher.
Eu imagino coisas nessa cena porque o narrador me dá a chance. Ele se atém ao essencial e o essencial é o drama, ou seja, a ação. Todos os dados de vassouras, panos e panelas são meus. Foi João que nos contou que a casa dos irmãos ficava em Betânia. Nem isso o narrador de Lucas nos dá! Também não sabemos o que fala Jesus e que desperta tanto interesse em Maria. Marta é mesmo a senhora da cena, da casa... Confronta Jesus, provoca e pede ajuda. Foi no duplo vocativo de Jesus: “Marta, Marta, tu afadigas-te...” que vi Jesus menear a cabeça, mas só eu vi. Quando ele afirma que “uma só coisa é necessária”, também não explica. Qual seria a “melhor parte” escolhida por Maria? Jesus ainda afirma que esta não lhe seria tirada. O fragmento acaba. São cinco versículos.
Essa atenção ao essencial e a ausência de exteriorização me lembram muito o capítulo “A cicatriz de Ulisses” de Auerbach (Mímesis). A simplicidade do quadro, a falta de explicações por parte de Jesus, o silêncio de Maria (!) e o de Marta ao final sempre me encantam e me despertam. Sei que a ressurreição de Lázaro é monumental, é uma porta escancarada! Mas eu vejo a casa de Maria e Marta por uma nesga. Por esse entreaberto, sou convidada pelo narrador de Lucas a testemunhar um duelo verbal, uma reivindicação e a apreciar a confiança, a liberdade e o mistério.

Jesus afirma que muita coisa inquietava Marta. Outra vez não alude a especificidades. Teria Marta problemas financeiros? Onde é que andava Lázaro, que deixara as irmãs sozinhas? Nada... Fica claro, porém, que Jesus sabe de quais coisas se tratava.  Eu vejo muita amizade nessa cena, em que Jesus chega sem avisar (não parece precisar), desvia a atenção de uma amiga, exaspera a outra e dá razão a quem esquece a obrigação! Teria Jesus, ao final do dia, ungido com bálsamo as mãos cansadas da sua inquieta amiga Marta? Gosto de pensar que sim.


Jan Vermeer - "Cristo em casa de Maria e Marta", séc. XVII.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Sempre em movimento..., não reescrevi minha resenha da autobiografia de Oliver Sacks!

Eu gosto muito de caminhar, mas nem sempre foi assim. Eu me lembro, e escrevi uma história sobre isso, que odiava ir à feira com minha avó Geninha, porque para minhas pernas minúsculas aquilo era percorrer a rota da seda, desprovida da condição de liberdade. A avó adulta, eu pequena, puxada pela mão. Mas ela não queria nem saber e ia distribuindo bons dias e comprando laranjas para meu suco. O fato é que, lá no céu das avós, ela deve estar feliz, pois virei uma andarilha e gosto muito de feira!
Tudo começou quando a filha nasceu. Minhas costas travaram. Os médicos disseram que tinha sido o colo que decidi lhe dar a vida toda. Há 7 anos, o corpo não estava costumado e sentiu. Durante a gestação, o joelho esquerdo, em uma casa cheia de escadas; depois de ver seus olhos, costas e costas... Encarei que precisava me mover mais, só que não dava para deixar a filha e me encaixar em aparelhos de ginástica por aí; não dava para voltar ao yôga; também não dava para contratar um personal... Que fiz eu? Comprei uma esteira! Só que eu odiava esteira. Logo descobri, porém, que eu podia tentar gostar, fazer um esforço para o meu bem. Coloquei um tapetão com brinquedos ao lado da esteira e fiz novas viagens pela rota da seda, ao lado da filha que dava os primeiros passos. A esteira nunca virou cabide; a esteira já se pagou muitas vezes. Eu cuido dela e ela de mim.
Com o passar do tempo, com a independência cada vez maior da filha (ai, meu Deus!), o sol me convidou aos passeios pelo bairro. A esteira nem chega a sofrer, afinal eu moro em Curitiba, ou seja, o sol... Mas ele também existe e eu vou. Vou só? Vou com meus pensamentos. Podem crer que vou com uma legião.
As caminhadas são quase diárias: cinco vezes por semana, uns 40 minutos, pouco mais de 3 Km. Tranquilo. Uma vez por semana, encaro um trajeto de 1 hora, que eu vou construindo mentalmente nos outros dias. Com meu MP4, músicas em volume bem mais baixo que quando estou na esteira (é por causa do filme A delicadeza do amor...), eu vou por aí. Para esse trajeto de 1 hora, meu próprio “longão”, eu me inspirei na prática da amiga Lígia Mara Coimbra, blogueira do “Mães comadres” (http://maescomadres.com.br/), a pessoa que para mim cunhou o termo “longão”. Não gasto um centavo. Nunca acreditei na desculpa dos outros, de não fazem atividade física porque estão sem dinheiro.
Eu descobri que andar organiza meus pensamentos e passei até a colocar um papelzinho e um lápis na pochete. Sim, vou de pochete... Andar também lubrifica meus olhos. Eu vejo melhor dentro e fora de mim. Eu dou bom dia às pessoas e elas respondem (a maioria rsrsrs); eu pego lixo dos outros e coloco na lixeira; eu brinco com cachorros e sou cortejada pelas borboletas; eu descubro pequenos comércios; entro e faço pesquisa de campo. Paro nas academias ao ar livre para remar por rios invisíveis e me penduro para alongar, pensando em cipós que saem de árvores poderosas. Eu penso nas pessoas que estão longe, com quem adoraria caminhar!
Às vezes, quando eu conto sobre esse prazer de desbravar o conhecido, sempre diverso para mim, as pessoas lamentam eu não ter conseguido voltar até hoje para o yôga de que eu tanto gostava... Elas me ouviram? Eu não lamento, eu respeito o tempo, ele é um senhor poderoso. Eu acho que caminhar pelo meu bairro tem muito de aventura selvagem e, para provar que não tomei tanto sol assim na moleira, fiz duas fotos que vão abaixo, no meu último longão.
Reconheço outros andarilhos de bairro em minhas travessias. Eu saúdo sua coragem. Inclinamos a nossa majestade. O movimento que me faz dar bom dia a desconhecidos, pegar lixo dos outros, brincar com os cães, flertar com borboletas, descobrir empórios e me fingir de Marco Polo me lembra de que há vida fora do escritório, das minhas salas de aula, do gabinete, das minhas ideias preconcebidas... A mulher que vai pela rua é só alguém em legging, pochete, MP4, chapéu de palha e um sorriso. Hiii, eu não tinha mencionado o chapéu!

Eu vou aos parques também e caminho ao lado de gente que não conheço, ora compartilho uma direção, ora vou na contramão. Em meu país, hoje, as ruas e avenidas estão ocupadas por ideias, agendas, cores e ritmos diversos. Em dias diferentes, gente desconhecida e da mesma família caminha como irmão. É uma espécie de rodízio, só não queria que fosse para a razão! Confesso que essa rima saiu assim sem pensar, como quem diz até logo, gente de casa, que eu vou por aí (eu sei que você queria que eu escrevesse caminhar, mas...) e já volto!



Na foto em que se vê um singelo Orelhão, foi a construção do mercado Condor que causou esse caos na calçada. Espero que o Condor conserte tudo depois. Na outra foto, com a plaquinha amarela ao fundo, o matagal não é culpa do Condor.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Vikings no Brasil - Johnni Langer e o estudo da Escandinária Medieval

Johnni Langer é Professor do curso de Graduação em Ciências das Religiões e do Programa de Pós Graduação em Ciências das Religiões da UFPB. Seu nome está ligado no Brasil à pesquisa sobre a Escandinávia Medieval e sobre os Vikings, ainda que tenha trabalhado no Mestrado e no Doutorado com História do Brasil (na UFPR). Na entrevista, ele tem a chance de falar a respeito disso. Acho que ele nem imagina, mas quando fui professora de História do Brasil e Memória, gostava de indicar um texto seu, muitíssimo interessante, chamado “A cidade perdida da Bahia, ciência, território e mito no Brasil setecentista” (2007). Aliás, no subtítulo desse artigo, vemos interesses que permanecem na vida do pesquisador, a despeito de uma inflexão na carreira. Johnni coordena um grupo de pesquisa bastante ativo, com relações que ultrapassam o nosso país, o NEVE (Núcleo de estudos Vikings e Escandinavos), mas também é pesquisador de outro grupo pujante, o VIVARIUM, núcleo Nordeste.

Johnni Langer tem uma produção científica invejável, com quase cem artigos publicados em periódicos, livros (destaco seu Dicionário de Mitologia Nórdica: símbolos, mitos e ritos, publicado pela editora Hedra, ano passado), mas queria render uma homenagem especial à sua preocupação com a divulgação científica, na forma de artigos publicados em jornais, minicursos, entrevistas concedidas e resenhas, que, como todo mundo sabe, considero um trabalho de generosidade científica.  Com essa diversidade, Johnni conversa com seus pares, com seus alunos e com a sociedade, fomentando interesse e pesquisa.

Johnni Langer é praticante de Artes Marciais, gosta de rock, quadrinhos e já iniciou seus filhos, Isolda e Thor, nessas paixões. É casado com a pesquisadora Luciana Campos, sua parceira também na vida acadêmica.


Destaque:


LITERISTÓRIAS – O interesse pela Escandinávia medieval tem crescido no Brasil. Faça um balanço dos desafios que cercaram a criação do NEVE (Núcleo de Estudos Vikings e Escandinavos) e dos desafios que o núcleo já consolidado enfrenta hoje.

Johnni – Certamente, a grande dificuldade dos estudos nórdicos brasileiros durante o início dos anos 2000 foi a falta de unidade entre os pesquisadores, espalhados por várias regiões, sem maiores contatos ou intercâmbio. Também existia pouco interesse em grande parte das universidades pela pesquisa na área, sendo muito difícil a realização de monografias e dissertações, em razão da escassez de medievalistas que tivessem afinidade com a temática. A bibliografia em língua portuguesa era incipiente. O panorama atual é muito mais promissor, com diversos pesquisadores realizando desde estudos monográficos até estágios de pós-doutorado. A quantidade de publicações triplicou. Mas ainda existe muito a ser feito. O principal desafio do NEVE atualmente é promover a inserção dos membros nas problemáticas investigativas mundiais (centros de estudos nórdicos existem do Canadá ao Japão), trazendo para o medievalismo brasileiro novos parâmetros temáticos e metodológicos. E, é claro, procurar inserir ainda mais seus membros nas mais diversas instituições, eventos, grupos e debates. Outro grande desafio é que, na Escandinavística brasileira atual, os campos da História e das Ciências das Religiões estão muito mais desenvolvidos do que outros, como os estudos de Literatura Nórdica Medieval - ainda estão praticamente inexistentes em programa de pós-graduação de Letras no Brasil, por exemplo, bem ao contrário do panorama internacional.

 

LITERISTÓRIAS – Johnni, você desenvolveu uma dissertação e uma tese sobre Brasil império. Quando o estudo da Escandinávia medieval passou a ser a escolha profissional e científica que identificam você no cenário acadêmico brasileiro?

Johnni – Quando iniciei meu doutorado em 1997 na UFPR, enfocando mitos arqueológicos no Império, me deparei com diversas fontes até então inéditas, a respeito de teorias sobre a presença nórdica no Brasil pré-cabralino. Com o tempo, elas se constituíram no âmago dessa pesquisa: os arqueólogos e historiadores cariocas do período, devido ao contato com escandinavistas dinamarqueses (como Carl Rafn, P. Claussen e Peter Lund), utilizaram essas hipóteses (hoje consideradas fantasiosas) para respaldar uma ideia de nação brasileira. O Brasil teria sido “fundado” simbolicamente ainda na Idade Média, no momento em que navegadores escandinavos supostamente aportaram em nosso litoral. Com o final da tese, em 2000, aprofundei a pesquisa sobre a construção da imagem oitocentista dos vikings, especialmente influenciado pela historiografia francesa sobre o imaginário (Régis Boyer, Jacques Le Goff, Claude Lecouteux). Através do rico acervo da biblioteca da Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP), consegui ter acesso a uma vasta iconografia europeia sobre o tema e,após algum tempo, a pesquisa foi transformada em meu artigo com maior repercussão internacional até hoje. Foi traduzido ao inglês (The origins of the imaginary Viking, In: Viking Heritage 4, 2002) e francês (Rêver son passé, In: L´Europe des Vikings, 2004), sendo citado em várias teses, artigos e livros de línguas estrangeiras. O estudo da iconografia e imaginário acabou me levando ao conhecimento das fontes primárias sobre a mitologia nórdica, tema da maior parte de minha produção bibliográfica dos últimos quinze anos, especialmente procurando compreender a relação entre texto e imagem medieval. Ainda seguindo essa proposta, em 2006 iniciei meu estágio de Pós-doutorado em História na USP, com bolsa da Fapesp, supervisionado pelo professor Dr. Hilário Franco Júnior. Ao tratar do mito do dragão nórdico essencialmente por meio de fontes visuais da Era Viking, amadureci minhas opções teórico-metodológicas. Esse percurso inverso da maioria dos medievalistas, indo de um recorte contemporâneo ao medieval, fez diferença também em algumas de minhas preocupações sobre os usos do passado, como refletirei mais adiante na entrevista.

 

LITERISTÓRIAS – O NEVE tem colaboradores de todas as regiões do Brasil e estrangeiros. Como é o diálogo entre os pesquisadores brasileiros e os núcleos dedicados ao estudo da Escandinávia medieval no exterior?

Johnni – O contato com pesquisadores estrangeiros é uma necessidade de qualquer escandinavista com um nível mais avançado de pesquisa e isso foi uma característica de muitos membros do NEVE desde o seu início, seja para trocas de informações bibliográficas, esclarecimento e auxílios para obtenção de fontes primárias, seja para material inacessível por aqui. Alguns desses contatos acabaram rendendo parcerias mais fixas, como os diversos colaboradores internacionais registrados pelo CNPQ (como Neil Price, Terry Gunnell, Teodoro Antón). Certos membros do NEVE também fazem parte de grupos estrangeiros, como o Valland (Groupe francophone d'études norroises) e outros. Devido a suas pesquisas europeias, mantiveram (ou mantêm) intercâmbio direto com instituições das mais diversas (como o Instituto Norueguês em Roma, o Arquivo Real da Noruega, Universidades de Lund, Letônia, Toronto, Islândia, Uppsala, entre outras). Também existem membros do NEVE atuando em Portugal, compensando certo descompasso acadêmico deste país em relação aos estudos nórdicos da Espanha e Brasil.

 

LITERISTÓRIAS – Uma das linhas de pesquisa do NEVE reflete sobre os usos do passado medieval. Fale um pouco sobre a importância dessa reflexão para a educação histórica.

Johnni – A Escandinávia Medieval, especialmente a Era Viking, vem sendo ressignificada de diversos modos pelo Ocidente, desde óperas do Oitocentos até séries televisivas da atualidade. Não há como estudar a cultura dos nórdicos sem entender suas facetas imaginárias criadas nos tempos modernos, desde as reapropriações de seus mitos e suas características religiosas até as suas empreitadas históricas, entre outras características. E isso é altamente aplicável no ensino - utilizar, por exemplo, manifestações artísticas atuais com temática escandinava aproxima muito os alunos do nível Fundamental e Médio tanto do debate quanto da reflexão histórica. Assim, alguns membros do NEVE já produziram diversos estudos baseados em experiências empíricas de ensino, envolvendo cinema, televisão, quadrinhos, música e literatura. Na minha experiência pessoal, tenho observado (especialmente quando ministro cursos em eventos) que muitos dos interessados em iniciar pesquisas acadêmicas se aproximaram do tema justamente devido a sua interface com algum tipo de entretenimento, mantido ainda em sua formação inicial. Ainda assim, o campo do ensino de História tem muitos desafios. Em 2002, publiquei um estudo sobre o tema dos inúmeros estereótipos e equívocos sobre os vikings em livros didáticos (História e Ensino 8), ao mesmo tempo em que observo que a quantidade de bons livros paradidáticos traduzidos sobre a Era Viking tem aumentado no Brasil mais recentemente. Um descompasso. Então, temos de um lado os profissionais de ensino básico e seus desafios; de outro, os pesquisadores que tendem a entrar no ensino superior e lançar as bases de conteúdos reflexivos - e de maior qualidade -  sobre os nórdicos medievais, tanto nos livros didáticos quanto em manuais e literatura voltados para a educação.

 

 Johnni em congresso (2014).

 

 



segunda-feira, 7 de março de 2016

Sobre a Base Comum da Formação Docente - Suporte fluido com vocação de desmoronamento...

Semana passada, foi divulgado o documento preliminar da chamada Base Comum da Formação Docente. Eu procurei bastante o texto no site do MEC (até o dia 4/3, às 22:12) e não o encontrei. Achei o documento apenas no “blog do Freitas”: http://avaliacaoeducacional.com/2016/03/01/documento-da-base-comum-da-formacao-docente-e-divulgado/ O primeiro pedido que faço a quem me lê, e que tenha tido mais sucesso que eu, é que me esclareça onde está o documento nos canais oficiais do Ministério da Educação.
Logo que o Prof. Luiz Carlos de Freitas divulgou o texto, ele foi compartilhado por amigos em minha timeline. De saída, eu me surpreendi com a simultaneidade do trabalho e divulgação de procedimentos que deveriam ser consecutivos. Como assim? Em uma primeira etapa, trabalha-se intensamente a BNCC (que ainda está em consulta pública!) e depois são pensadas habilidades e competências dos professores para contemplá-la e ir além dela! Sim, trata-se de Base, ou seja, a parte inferior de alguma coisa, suporte, ...,  e eu me comprometo a formar professores para superá-la todo dia, achando eu que ela tenha ficado bacana, ou achando que naufragamos em nosso objetivo de promover a melhor BASE às crianças e jovens. Em tempo, é importante esclarecer que a proposta declara o desejo de impactar “os cursos de licenciatura em suas propostas formativas, especificamente no que se refere à Didática, às Metodologias e às Práticas de Ensino.” (pág. 3).
Já na apresentação do documento, chama a atenção que
Análises diversas têm mostrado carências nos cursos formadores de professores oferecidos pelas instituições de ensino superior no que se refere à formação dos estudantes mais especificamente nas áreas da atuação pedagógica na educação básica. (pág. 1)
Ou seja, todo o crescimento de formação pedagógica nos currículos das licenciaturas têm resultado em carência qualitativa. Faz pensar. Em meio à transcrição em larga escala de material institucional já conhecido, o documento compreende entre seus propósitos uma “dinamização” da formação dos professores desde o início das licenciaturas...
Na página 2, porém, sobrevém a confirmação de que minha surpresa inicial não era infundada, afinal como os princípios de uma Base cuja elaboração está em curso podem subsidiar outra Base? Suportes fluidos com vocação de desmoronamento...
Qual é o objetivo dessa Base Comum da Formação Docente, em meio às diferenças que compreendem o elenco das licenciaturas? “Sinalizar aspectos relativos aos conhecimentos fundamentais para a construção de currículos convergentes à formação de professores” (pág. 6). No ataque à distância entre teoria e prática, o documento mais uma vez sinaliza o equívoco entre seu desejo de uniformização e a realidade diversa do objeto. 
Entre os pressupostos que ensejam a proposta, apenas 2 pontos elevam a especificidade do elenco das licenciaturas:
5. a formação profissional de professores implica garantir conhecimentos do contexto em que vai atuar e das práticas relevantes nesse contexto; ter formação científica em sua área de atuação, ter conhecimento da área disciplinar para o ensino; e, ter formação humanista de maneira que possa tornar-se um formador de cidadãos, com valores e ética;
8. para o exercício do papel de professor na Educação Básica aponta-se a necessidade de uma compreensão integrada no que se refere: aos conhecimentos acumulados e considerados relevantes socialmente, aos conhecimentos a serem trabalhados, aos meios para levar esse conhecimento às novas gerações, ao conhecimento sobre as crianças e adolescentes, ao conhecimento sobre o contexto sociocultural em que a escola se move, aos conhecimentos sobre a própria escola em sua inserção social e sobre as redes escolares em sua arquitetura e particularidades regionais.
As dimensões formativas dão continuidade à diluição da especificidade. Acho que sobrou descrença na possibilidade de a prática pedagógica ser indissociável dos saberes que estão em jogo, nas aulas de Língua Portuguesa, História, Matemática..., e que essa especificidade se manifesta na forma como tudo acontece em sala de aula! Não existe uma geral atitude investigativa da pratica educacional (pressuposto 7, pág. 8), mas atitudes que convergem ou que gritam sua diferença em projetos que não têm de harmonizar as coisas na marra, mas elevar complementaridades, dissonâncias e até limites! Existe uma maneira de olhar o mundo através da Matemática; de compreendê-lo através da Língua e da História; de cuidar dele com a Geografia; de nós, com as Ciências...
Eu discordo do sentido proposto por meus colegas que elaboraram esse texto (quem são mesmo?): “Didática e das Metodologias de Ensino, como áreas de conhecimento fundamentais para a orientação das ações pedagógicas e a construção de perspectivas e práticas criativas” (pág. 9). Minha discordância está no sentido dessa orientação. Quando o modo de fazer as coisas precedeu o objetivo a que nos propomos? Nossas questões, nossos objetivos, nossos recursos e limites nos ajudam a construir nossos métodos! Diante de um problema, pensamos em formas de resolvê-lo. As formas não precedem os desafios...
O segmento mais interessante do documento preliminar é sem dúvida o dos “Aspectos relativos a aprendizagens relevantes ao trabalho docente”. Mas, nesse item, é antecipado o papel da BNCC (?!). Suportes fluidos...
O texto tem ao todo 15 páginas. É minúsculo, portanto. Precisa de revisão de Língua Portuguesa em duas páginas. Não tem assinatura da equipe que o elaborou. Será submetido à consulta pública? Grandes são as incertezas nesse rascunho de ambições evidentes.

A base é certamente essencial, mas não é o todo. Não imitemos a canção, pois não pode ser engraçada uma casa sem teto, ou nada...


Obs 1) Tentando achar outro lugar em que o documento teria sido publicado, achei um texto que revela o início do trabalho e as expectativas de uma pessoa interessada no tema. Vale a pena uma visita ao “blog da Helena”: http://formacaoprofessor.com/2015/10/12/mec-inicia-base-nacional-curricular-da-formacao/

Obs 2) Outro dia eu me ressenti da falta de divulgação da metodologia de trabalho com as colaborações feitas na consulta pública à BNCC e eis que achei elementos em: