segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Preguiça ou acídia? Ponderações com o rei de Portugal D. Duarte (1433-1438) – Café Filosófico 2016

Prólogo:
Em fevereiro deste ano, o colega Prof. Wilton Borges dos Santos me convidou para participar de uma sessão do Café Filosófico, uma parceria entre PUCPR, Aliança Francesa e Café Babette. O Café Filosófico de 2016 seria consagrado aos pecados capitais e para mim ficaria o pecado da PREGUIÇA. Assim, na última 6ª feira, dia 7 de outubro de 2016, diante do lotado e charmoso salão do Babette, eu e o colega Prof. Dr. Cauê Krüger, conversamos sobre esse pecado “invejado”... Será?
Abaixo, divido com os leitores do blog os apontamentos que me guiaram. Não publico uma conferência (pois não era essa a proposta), mas notas sobre o que pude pensar do ponto de vista da História Medieval.


Café Babette, 7 de outubro de 2016

Agradecimento ao convite feito pelos organizadores, na pessoa do Professor Wilton Borges, a oportunidade de participar da parceria entre PUCPR, Aliança Francesa e Café Babette.
Agradecimento ao público, que não teve preguiça e teve generosidade.
Minha experiência com o tema dos pecados capitais não é exaustiva, mas é alguma, como medievalista, leitora ocasional de Tomás de Aquino, mas, sobretudo, como alguém que pesquisou uma obra singular, onde encontramos uma discussão importante sobre o tema, na Idade Média. Falo do Leal Conselheiro, escrito pelo rei de Portugal D. Duarte (rei de 1433 a 1438). Em 2004, eu participei do Seminário Internacional Os Pecados Capitais na Idade Média, promovido pela PPG de História da UFRGGS, pelo Departamento de História da mesma instituição e pela Secretaria de Cultura de Porto Alegre. Em 2005, escrevi sobre a soberba e sobre a acídia, justamente[1]. Guardem essa palavra.

Preguiça boa? Pecado leve e pecado duplo.
Ai, ai, que preguiça,
Que preguiça boa!
Passo o dia à toa
Sem me dar notícia.

Só, numa canoa,
Contemplando alturas,
Pensando em branduras,
Nada que me doa...

Páginas futuras,
Ecos do passado,
Nada turve o estado
De calmas doçuras!

‘Stando assim parado
Neste eterno instante
Algo que é intrigante
É-me revelado:

Todo ser pensante,
Tendo assim pensado,
Sofre tanto o fado
De não ser constante,

Que no desagrado
Da verdade dura
Perde a belezura
De ser limitado.

Eis que não me apura
Se tu me caçoas
Porque teço loas
A essa loucura:

Passo o dia à toa
Sem me dar notícia.
Ai, ai, que preguiça,
Que preguiça boa![2]

Aqui, parece que a preguiça é uma coisa positiva que proporciona ao eu poético contemplar alturas, refletir “em branduras” e ter revelação sobre a perda “da belezura”. É uma preguiça muito ativa, afinal!
No livro Pecados, organizado por Eliana Yunes e Maria Clara Lucchetti Bingemer, Bartolomeu Campos Queirós, autor de uma fantástica obra consagrada às crianças, perguntou-se na introdução da resposta ao convite para falar do tema: “Como descobriram que sou preguiçoso?”[3]. Mas, logo depois, esclareceu que não reconhecia a preguiça como um pecado: “Acho que preguiça é uma graça que Deus dá a determinados filhos. É que quando se vive profundamente em preguiça estamos interditados para praticar qualquer outros pecados”[4]. Bartolomeu, entretanto, reconhece qualquer relação entre a preguiça e a depressão: “Muitas vezes, o que nos imobiliza é a dificuldade de justificar o sentido de estar no mundo”[5].
Oswaldo Giacóia Jr que esteve em Ctba ano passado, em junho para falar sobre as políticas do perdão, em iniciativa da PUCPR (estive lá para vê-lo), também falou sobre a preguiça um em café filosófico acontecido em 2014[6]. Começou mencionando a mesma palavra que pedi a vocês para guardarem: a acídia, e abordou o perigo dessa falta nos religiosos, quando liam... Como ele compreende a relação afinal entre acídia e preguiça? A acídia tem como filhas a melancolia (que gera a insatisfação, pela falta de sentido) e a preguiça (que gera a improdutividade). Giacóia vê na Modernidade que a associação da nobreza ao trabalho empurrou a preguiça à marginalidade; eu acrescentaria que, na Modernidade, o que era uma consequência sobrepujou o princípio. Sorrindo, Giacóia compreende o ócio e a preguiça como reações à alienação do utilitarismo (nisso, junta Georges Bataille à discussão), ou à barbárie civilizacional. Menciona a arte e afirma que sua fruição exige sossego.  Contra essa necessidade, há a consciência dos laboriosos e o consumo ininterrupto.
Mas a argumentação de Giacóia, certamente sofisticada e brilhante, revela para o historiador um fenômeno interessante da Modernidade, como certos pecados viraram virtudes. O poupador não é avarento, mas precavido; os gulosos foram redimidos pela  gourmetização da vida; pessoas ostentam em redes sociais sua adesão a políticos que propalam a violência e estão sempre com a expressão de que vão cometer um crime; somos fãs de Cinquenta tons de cinza; perdoamos o colega com autoestima exacerbada; invejamos a preguiça (ora, dois pecados em 1!!!). Fora a maneira como algumas virtudes viraram pecados... Pode ser tema para outro café filosófico... 
Como medievalista, convido vocês à enumeração de Tomás de Aquino dos pecados capitais. São eles, então, vaidade, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e acídia. Cadê a preguiça???? O professor Jean Lauand lembra: “O atual Catecismo da Igreja Católica apresenta como pecados ou vícios capitais: soberba, a avareza, inveja, ira, impureza, gula e preguiça ou acídia”[7]. Opa, ou!  A Modernidade substituiu a acídia pela preguiça. Segundo Lauand, “não há conceito ético mais desvirtuado, mais notoriamente aburguesado na consciência cristã, do que o de acídia.” Mas alguém poderia ver na substituição não um desvirtuamento, mas a reabilitação da pobre tristeza...
Eu deixo por um momento essa reflexão com vocês, para levá-los à Idade Média e a um contexto em que acídia e preguiça comparecem em um comovente relato, sobre a doença de um rei. Esse rei não é personagem de romance, embora pudesse ter sido, ou seja, é um rei cuja existência é fundada na verdade. Acídia e preguiça compararem no trecho mais autobiográfico de uma obra chamada Leal Conselheiro. Seu autor é D. Duarte.

O rei D. Duarte (1433-1438) não é uma individualidade esquecida pelos estudos históricos; os estudos literários e os filosóficos também não o ignoram. Todos esses campos parecem concordar que o período exíguo de seu reinado não ensombrou a sua obra, quer seja doutrinal, quer seja a do exercício efetivo do poder, ainda no reinado de seu pai, D. João I. Primeiro rei da nova dinastia que não precisou mais lutar pela sua legitimidade, beneficiado pelas lutas e longevidade do pai, D. Duarte pode dar-lhe continuidade e se entregar a outras realizações que não apenas o monte, a caça e o poder. Desde muito cedo, associado pelo pai à governação, quando foi alçado à condição de rei, sabia tudo do “emprego”. Foi o rei que nomeou Fernão Lopes (1385-1460) para um ofício novo no reino, o de cronista régio, e é possível que a escrita da história de forma direta, ou seja, a cargo de seu próprio ditar, não estivesse excluída de seus projetos pessoais. A nomeação de Fernão Lopes pode significar a impossibilidade de se dedicar ao ofício em meio às obrigações principescas e régias. D. Duarte foi um rei legislador, ainda que a energia tenha sido maior enquanto infante. Teve seu curto reinado atravessado pelo desastre de Tânger (1437), que haveria de ser fatal para o infante D. Fernando, seu irmão mais novo, e também para a própria construção da memória do monarca, negativa e ironicamente tecida a partir de um labor que criou em Portugal, o de cronista. Refiro-me à sua detração narrativa realizada pelo cronista Rui de Pina[8]. Entre as muitas coisas que Pina não poderia negar, porém, destaco a formação “de alto nível”[9] do rei, bem a como de seus irmãos.[10]

O rei é autor do Leal Conselheiro, obra que me interessa hoje aqui, mas também do Livro da Ensinança de bem cavalgar toda sela e do Livro dos Conselhos. O que é essa obra, Leal Conselheiro? Um tratado para o bom regimento das consciências e vontades. Escrito por requerimento da esposa do rei, a rainha D. Leonor, a partir da observação da vida, para elevação das virtudes, daí ser necessário abordar os pecados... O que é mais espetacular nesse livro, e eu me junto a muitos autores que ressaltam isso, é a maneira como a experiência pessoal do rei comparece. Portanto, depois de conceituar a tristeza a partir dos sábios autorizados, o rei revela como foi doente do humor menencórico.
No capítulo 18 da obra, há um aspecto que eu também desejaria que guardassem: D. Duarte reconhece que a tristeza pode advir do desejo de perfeição e por isso esse tipo de tristeza seria “bom”... Por outro lado, como falta, ela nasce do medo da morte; da sanha não vingada; do desejo não realizado; do nojo da perda; da saudade; da doença (caso do humor menencórico); da insistência em uma conversação triste; no cuidado exagerado e na desesperança. Destaco que D. Duarte reconhece que a depressão é uma doença.
D. Duarte afirma ter ficado três anos doente; desejou escrever para que sua experiência (o que inclui a experiência da cura) pudesse ser exemplo e dar esperança. Lembremo-nos que a desesperança é uma das causa da tristeza e agravamento a doença.
Por que D. Duarte ficou doente? Porque fez coisas demais; assumiu muitas tarefas; era muito jovem; não estava preparado... Quando o pai lhe passou os encargos, não soube equilibrar o que tinha a fazer ao necessário desenfado. A situação foi agravada por outros fatores externos, como a ciência de que a peste atingia pessoas próximas (sua própria mãe). Um primeiro sinal da doença foi uma dor na perna; depois, um medo agudo de morrer (possivelmente, ataques de pânico).
No minucioso relato do rei, há, porém, confiança. D. Duarte afirma ter se curado. Como o fez? Não se afastou das formas de seu viver; cuidou pessoalmente da mãe e achou que se Deus dava tanta pena a seu coração era para corrigi-lo dos seus pecados. Para a cura, é preciso esforço, paciência e virtude. D. Duarte tem confiança. O Leal Conselheiro é uma obra comovente pelo desvelamento detalhado da doença, a partir do próprio doente, e pela esperança consumada na cura. O rei menciona também o conselho dos médicos. Preocupa-se com o corpo, sua coleção de mezinhas no Livro dos Conselhos é prova disso.
D. Duarte é um especialista da tristeza e, sobretudo, do sentido de enfermidade... Como traz a preguiça ao debate? Um dos elementos de cura do humor menencórico é o desenfado, ou seja, a distração necessária ao corpo e à alma. Ora, alguém poderia confundir isso com preguiça. Mas o rei afirma que só há pecado se deixamos de fazer o que é preciso, ou seja, desenfadar-se, distrair-se é necessário, mas é preciso cumprir as tarefas que nos cabem. Afirma que da preguiça vem começar, continuar e acabar as coisas mal, tarde ou fracamente, quando bem e cedo elas deveriam ser feitas. São seis as suas causas: fraqueza; querer uma vida sem trabalhos; postergar as coisas; ser distraído e se entregar a obras sem proveito ou a fantasias; esquecer o que há para fazer e ser desleixado (Capítulo 26). A preguiça ainda facilitaria outros pecados, como a cobiça, ou seja, se alguém tem preguiça de fazer seu trabalho – o rei exemplifica com o trabalho nos campos – pode roubar e mentir para se satisfazer e para se satisfazer de forma desordenada.
D. Duarte tem muito cuidado em definir desenfados... e cita a leitura como uma atividade de saudável proveito. Mas se refere a uma leitura especial, como a dos “livros de ensinamentos” e sutilmente levanta a questão de alguém achar que ele se dedicava demais a isso... Menciona a atividade de escrita como outro bom emprego do tempo – quase um metatexto, na medida em que O Leal Conselheiro é um livro de ensinamentos... O rei se põe em uma linhagem de reis autores (alça seu irmão Pedro, o Duque de Coimbra, ao patamar de comparação com Salomão...) que se preocuparam com o conhecimento e com o conselho.
Se o desenfado é necessário, estar assoberbado, portanto, não é virtude. O rei cita o exemplo de Marta (sobre quem já escrevi no blog, um texto chamado “Papo entre amigos – sobre um fragmento de Lucas”), que estava ocupada com diversas tarefas, quando uma só era necessária.
D. Duarte nos cobra, portanto, equilíbrio e foco. Entende a tristeza como um pecado que até pode nascer da virtude, mas sempre tira a força do coração; a depressão como doença e a preguiça como desvio das obrigações. Não constrange ninguém com a sugestão de que só devemos trabalhar; demonstrou com a sua experiência que esse desequilíbrio pode virar doença e recomenda o desenfado, a diversão (não a preguiça) como dieta saudável. Em tudo isso, seu Leal Conselheiro continua a ser fiel ao futuro, ou seja, a nosso presente de leitura.
Compreendo a fidelidade dessa obra em relação tanto ao que leio no poema de André Ricardo de Sousa quanto ao que Giacóia faz menção. No poema, estar à toa faz pensar e, de quebra, favorece a escrita, afinal o poema é feito! Na mesma direção, quando o filósofo afirma a necessidade do sossego para fruir a arte, estaria eu incorrendo em indelicadeza estendendo perigosamente sua orientação à leitura? Os livros de ensinamentos da época de D. Duarte corresponderiam à filosofia em nossos dias? A escrita também precisa de sossego. Mais extensão... Creio que na contemporaneidade, há uma imprecisão favorecida pela duplicidade do pecado a partir da própria lista do Vaticano. Tristeza e preguiça são coisas diferentes e, quando as abordamos em relação, sobram equívocos, que nos fazem ter espanto em pensar que a tristeza possa ter sido algum dia um pecado e revolta contra a preguiça boa...

Epílogo:
Quando eu já havia terminado meus apontamentos, eis que recebo meu jornal Rascunho em casa, com um texto de José Castello intitulado “A Potência da preguiça”. Castello afirma que a poesia precisa de intervalo, de preguiça..., de uma vivência não utilitária. Não foi Jean Cocteau que afirmou “A poesia é indispensável. Se eu ao menos soubesse para quê...”? Então, o útil/ o indispensável precisa de tempo, que ele chamou de intervalo ou preguiça. Eu continuo a achar que nos perdemos em equívocos conceituais, travestidos de reação (necessária!) aos utilitarismos...
Com tristeza, acho que vivemos também um presente pouco poético, sobretudo em nosso país, que tem nos apresentado tantas demandas. D. Duarte me “contou” que quando temos um trabalho importante é preciso encará-lo. Talvez haja momentos em que podemos ser mais preguiçosos, não vivemos em um desses, mas saibamos incluir o desenfado como ousadia e cura para prosseguir!

Eu e Cauê Krüger

Público excelente





[1] GUIMARÃES, Marcella Lopes. “A ensinança de evitar o pecado na prosa de D. João I e D. Duarte” in Revista de História da UPIS. Brasília. Vol. 1. 2005.
[2] O poema é da autoria do Prof. Dr. André Ricardo de Souza (UNESPAR – Bacharelado e Licenciatura em Música e Teatro), a quem agradeço por ter concordado com a leitura pública e com a publicação no blog.
[3] YUNES, BINGEMER (orgs). Pecados. Rio de Janeiro: São Paulo, Ed. da PUC-Rio, Edições Loyola, 2001. p. 148.
[4] Ibidem, p. 148.
[5] Ibidem, p. 149.
[7]“O pecado capital da acídia na análise de Tomás de Aquino” disponível em:  http://www.hottopos.com/videtur28/ljacidia.htm (acesso em 26 de setembro de 2016).
[8] Como observa Luís Miguel Duarte, ao longo de toda a sua biografia consagrada a D. Duarte: DUARTE, Luís Miguel. D. Duarte. Lisboa, Círculo de Leitores, 2007.
[9] Ibidem, p. 47.
[10] Todo o trecho em destaque é aproveitado do meu artigo “O corpo do rei: capítulos sobre saúde e doença em D. Duarte (1433-1438)”, que será proximamente publicado na Revista Locus.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Tenho uma ou duas palavras a dizer sobre a MP do Ensino Médio

Caros colegas, caros alunos, caros amigos que são pais e mães, caros amigos e amigas que não são,

Eis que no dia 22 de setembro de 2016, o Governo Federal apresentou Medida Provisória para uma reforma substantiva do Ensino Médio. No dia seguinte, a MP saiu publicada em edição extra do DOU. Dia 13 de maio, o presidente Temer assumiu interinamente a presidência do Brasil, já com Mendonça Filho como Ministro da Educação; dia 1º de setembro, Temer tornou-se presidente da República com o afastamento definitivo da Presidenta Dilma Rousseff. O que significa essa sucessão de datas? Que a Reforma do Ensino Médio, implementada como MP, ou é um projeto maduro, entretanto, secreto do novo governo que só esperava oportunidade para lançá-lo, ou é uma ação apressada de um ministério que na verdade não soube construir um diálogo com os educadores brasileiros.
Ontem, dia 4 de outubro, a imprensa noticiou largamente o baixo rendimento dos alunos que se submeteram ao último ENEM. O MEC, por sua vez, aproveitou o ensejo para alardear a urgência da reforma que “legitimaria” a antipática MP:
Os resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2015 por escola reforçam a imperiosa necessidade de se reformar o ensino médio brasileiro. A afirmação foi feita pela presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), Maria Inês Fini, nesta terça-feira, 4, em Brasília[1].
São muitas as críticas que devemos fazer a essa MP. A começar pela própria ideia de MP. Dá trabalho dialogar; dá trabalho fazer consulta pública... Vimos isso na BNCC. Nem o governo Dilma lidou bem como o expediente e a prova é a 2ª versão da Base, que aproveitou muito mal a extraordinária resposta da sociedade ao convite do MEC. Dá trabalho, mas é preciso fazer, se os poderes políticos insistem em afirmar que vivemos uma democracia, a MP lançada em 23 de setembro é fogo amigo do MEC. Como assim? O Ministério que deveria reunir as grandes lideranças da área, com perfil interdisciplinar, virou as costas aos seus maiores colaboradores – professores de todo o país – para lançar uma proposta “autoral” de reforma e assim, “entrar na História”... Coitada da História... Falou-se logo da Filosofia[2], da Sociologia, das Artes e da Educação Física, mas quem leu a MP viu que “só” três disciplinas são realmente obrigatórias ao longo de todo o Ensino Médio: Português, Matemática e Inglês.
Alguém pode lembrar que o teor dessa MP estava já por aí, espalhado, e que o Ministério teve “coragem” para tomar decisões difíceis. Você que diz isso pare e lembre-se de que não há dificuldade alguma quando, tendo poder, você encerra a questão, sem chance à conversa. A real dificuldade é enfrentar a diferença. Que pena para nós, não para o MEC (que não vai sentir dor), que não houve coragem para enfrentá-la.
Essa minha carta, começada e adiada várias vezes, começada com colegas que afinal abandonaram o texto, assoberbados pelo acúmulo de tarefas (outro dia, afirmei, em meu perfil do FB, que o Brasil exaure a gente com suas demandas), quer mesmo falar a respeito de dois assuntos: o desprezo da MP às Artes e à Educação Física e a diferenciação da formação do adolescente por áreas de conhecimento. Há outros temas importantíssimos, mas só posso me referir de fato ao que conheço um pouco mais, por estudo e experiência. 
Outro dia, alguém lembrou muito bem que a Educação Física tornada obrigatória apenas na Educação Infantil e no Ensino Fundamental é uma resposta irônica à realização dos últimos jogos olímpicos no nosso país... Fico a pensar que, em um país que já empurra os jovens talentosos para os clubes (pagos) a fim de que desenvolvam seus talentos em esportes de competição, varrer a Educação Física do EM é sepultar a pequena chance que tinham as escolas de revelarem talentos em jogos interescolares. Vamos falar francamente: quem não pode comprar títulos e pagar mensalidades para pertencer a um clube não vai jogar. Todos conhecemos a força agregadora dos jogos entre os jovens nas escolas (ou porque jogamos ou porque torcemos) e os benefícios de projetos interdisciplinares entre a Biologia, a Educação Física e a Física, por exemplo, para a saúde, para o desempenho, para a promoção da curiosidade científica... Pois bem, outra coisa mais difícil de fazer serão projetos interdisciplinares, simplesmente porque não teremos professores de todas essas áreas nas escolas e tenho dúvidas se os colegas de “notório saber” serão capazes de promover essas experiências.
Sobre as Artes (mas também sobre as humanidades), eu trago para cá um diagnóstico feito por Martha Nussbaum: “no mundo inteiro os cursos de artes e humanidades estão sendo eliminados de todos os níveis curriculares, em favor do desenvolvimento dos cursos técnicos”[3]. Ora, então estamos no Brasil, atualizados com os “avanços” educacionais propostos pelo mundo afora!?! Não...:
“Os educadores que defendem o crescimento econômico não se limitam a ignorar as artes: eles têm medo delas. Pois uma percepção refinada e desenvolvida é um inimigo especialmente perigoso da estupidez, e a estupidez moral é necessária para executar programas de desenvolvimento econômico que ignoram a desigualdade. É mais fácil tratar as pessoas como objetos manipuláveis se você nunca aprendeu outro modo de enxergá-las”[4].
“Aprender a perceber o outro ser humano não como objeto, mas como uma pessoa completa, não é um acontecimento automático, mas uma conquista que exige a superação de muitos obstáculos...”[5]

A professora Martha Nussbaum (1947), que lecionou em Harvard, Brown, Oxford e atualmente atua na Universidade de Chicago, afirma que a troca de sorrisos entre os bebês e seus pais favorece a percepção do outro e o “prazer do reconhecimento”[6], mas é a atividade lúdica que desenvolve e completa a preocupação dos jovens com o outro. Martha vai buscar em Winnicott a resposta a “como os adultos mantêm a capacidade de brincar após terem deixado para trás o universo das brincadeiras de criança?”. A resposta está nas Artes. Educadores como Winnicott, Froebel e Pestalozzi “perceberam que a contribuição mais importante das artes para a vida depois da escola era fortalecer os recursos emocionais e criativos da personalidade, dando às crianças a capacidade de compreender tanto a si como aos outros, algo que, caso contrário, lhes faltaria”[7].
Além de eu ter gostado demais do livro de Nussbaum, que se chama Sem fins lucrativos. Por que a democracia precisa das humanidades, eu fiz questão de trazer para essa carta um autor que não está “envolvido” com o Brasil, ou seja, um autor cujas pautas não têm a ver com a nossa política, com os partidos, com o impedimento etc, mesmo sabendo que há sobejos intelectuais brasileiros cujas ideias estão em consonância com as de Martha e que eu poderia citar. Eu não sei se a arte nos torna melhores; eu não sei se as leituras que fiz ao longo dessa vida e as que vou ainda fazer, porque  a lista só aumenta...; se os espetáculos que vi; se as canções a que tive acesso; as exposições... tornaram-me melhor, mas certamente deram-me a convicção de que o mundo é grande. Eu nasci no subúrbio do Rio de Janeiro, aos pés do Morro do Alemão, mas andei por São Petersburgo aos 12 anos na companhia de Raskolnikov[8] e nunca mais fui sozinha, pois sou uma Karamazov[9]...
Martha Nussbaum tem um projeto exequível de educação em que as humanidades são o centro e faz referência a uma conversa com professores de administração de empresas nos Estados Unidos, que vale a pena trazer aqui, mesmo correndo o risco de uma citação excessiva de seu pensamento:
“os principais professores (...) dizem que localizam alguns de nossos maiores desastres – o fracasso de determinadas fases do programa da nave espacial da NASA, os fracassos ainda mais desastrosos da Enron e da WorldCom – na cultura da bajulação, na qual a autoridade e a pressão dos iguais cantavam de galo e ideias críticas nunca eram articuladas. (uma confirmação recente dessa ideia é que a pesquisa que Malcolm Gladwell fez da cultura dos pilotos de linhas aéreas, que constata que o respeito à autoridade é um prognosticador importante do comprometimento da segurança)”[10].
Esses fatos aludidos pela autora fortalecem a necessidade de uma pedagogia socrática..., em que sobressaem as discussões promovidas em sala de aula pelos colegas da Filosofia e da Sociologia. Martha menciona a História e menciona muito, mas vou deixar de fora a minha área por enquanto, porque a finalização da BNCC se aproxima. Quem a julgava esquecida (ou vencida) deve se fortalecer para a leitura do vem por aí.
O segundo assunto que gostaria de tratar é a possibilidade de os jovens escolherem entre os eixos definidos pela MP, a saber: I - Linguagens; II - Matemática; III - Ciências da Natureza; IV - Ciências Humanas; e V - Formação Técnica e Profissional. Eu li inclusive gente boa enaltecendo essa possibilidade. Tenho notado muitas vezes (e disse isso em Brasília ao Ministro) que os mais recentes planos concebidos pelo MEC não levam em consideração um aspecto que considero essencial: as crianças e os jovens. Eu acho que os profissionais que têm elaborado as propostas (incluo colegas que construíram as versões da BNCC) esqueceram como são crianças e adolescentes... Só por esquecimento alguém vai jogar sobre uma criança de 10 anos a Mesopotâmia (2ª versão da BNCC) e sobre as costas de um adolescente de 14 anos a responsabilidade de escolher a área de conhecimento que vai encarar no ano seguinte da escola... Mas eu seria injusta se dissesse que o MEC esqueceu completamente deles, afinal está o parágrafo 10 do artigo 36 a admitir que alguém até faça mais, “outro itinerário”, ou tenha mudado de ideia, o que é mais provável...
Pessoas com mais de 15 anos que me leem, você se lembram de vocês aos 14 anos? Eu me lembro de mim!... Eu me lembro inclusive que fiz vestibular para 4 coisas diferentes, aos 17 anos; que comecei a cursar 2 faculdades; que abandonei 1 e que hoje não trabalho com a área em que me formei!!
Pessoas amigas, facilidade não combina com educação..., e essa possibilidade da MP, travestida de promoção da liberdade de escolha, é a derrota de uma conquista que obrigava o poder público, a despeito das diferenças entre as escolas e as regiões do Brasil, a oferecer aos adolescentes o mínimo (note bem!) de formação igualitária para prosseguir. Alguém pode dizer: - Mas são mais de 10 matérias, Marcella, para quê? Volte algumas linhas e veja no breve exemplo de Martha onde o utilitarismo pode nos levar. Os adolescentes não precisam de nossa pena, “por estarem assoberbados”, eles precisam de Língua Portuguesa, Literaturas de Língua Portuguesa, Literatura Mundial, Filosofia, Sociologia, Física, Química, Biologia, Matemática, Geografia, História, Artes, Inglês e Espanhol. Como fazer caber? Pare de pensar em caixas... Volto a dizer que nosso problema é metodológico.
As prefeituras tinham até agora de se virar para conseguirem os professores especialistas de que as crianças e jovens precisam. Com a MP, oferecerão “o que é possível”. Não terão autorizados concursos e não terão professores para fazê-los, afinal outra consequência óbvia da Reforma é o enfraquecimento de áreas consolidadas no Brasil e foi muito sofrido escrever essa frase..., pois temos visto o crescente poder dos semiletrados em nosso país. Agora, a difusão de sua precariedade interpretativa e especulativa[11] sem fundamentado combate será mais eficaz, para o prejuízo da formação dos jovens. O “possível”, na ausência dos professores de Física, Química e Filosofia..., vai matar a escolha dos alunos, pois está claro para mim que nem todas as escolas poderão oferecer todos os eixos à escolha...
No dia 13 de julho de 2016, estive no MEC e ouvi do Secretário da Educação a sua dúvida sobre a capacidade de as crianças do 5º ano de estudarem a poesia, como estava disposto nas versões da BNCC. Ora, desde a poesia medieval sabemos que toda a dificuldade do amor não está em senti-lo, mas em vivê-lo a dois, lição do primeiro trovador conhecido, Guilherme da Aquitânia (1071-1126):
“O nosso amor parece afim
Do espinheiro na ruim
Noite em que treme com o quebranto da chuva e do vento gelado
Mas de manhã vemos com espanto
Esbelto e verde ao sol dourado”[12]

Em tempos de realidades virtuais, a leitura da poesia do velho trovador é uma ousada necessidade..., o outro. Martha Nussbaum, você que nunca ouviu falar de mim, quero que saiba que lhe dou razão.
Escolhi dois assuntos e tenho certeza de que os explorei parcialmente. A MP se refere tantas vezes à BNCC, inacabada até agora, que essa parece ser uma reforma da pele, uma plástica, portanto. Eu não citei os versos de Guilherme da Aquitânia de enfeite. Há toda a questão do Ensino de História que está em banho Maria... Não mencionei o Ensino Técnico, nem o aumento da carga horária. Quantas demandas!
Precisamos também falar a respeito da mobilização política para rediscutir a MP, agora entregue ao congresso. É preciso encarar a necessidade de dialogar e sei que isso vai mexer com pessoas com quem tenho grandes afinidades. Se nos mantivermos na posição de que não discutiremos com esse governo, vamos dar azo às Medidas Provisórias. A dignidade pretendida vai conspurcar a formação das crianças e jovens. Portanto, falemos, escrevamos!, e pelos cotovelos.
Nesta 5ª, dia 6 de outubro, o DEHIS/UFPR e a APP Sindicato abrem uma discussão. Lá estarei para ouvir meus colegas. Falar, se for necessário. Queridos alunos, compareçam; ouçam e falem. Esta carta vai para o MEC. Terei a delicadeza de enviar também o livro de Martha Nussbaum. Sou professora, é o que faço e adoro, formo leitores, mobilizo inconformidades, faço pensar e adoro dar livros de presente. Espero que a obra encontre os leitores do MEC.

Tirei a foto desse canto soberbo do site: https://blogdareforma.files.wordpress.com/2012/03/estante-e-janelaelysinin-hayal-dunyasi.jpg Acho que até Djavan aprovaria... rsrs




[2] Sugiro pesquisa sobre o tema no excelente Blog com Jota, cujo criador é o Prof. Dr. de Filosofia da PUCPR Jelson Oliveira: http://blogcomjota.blogspot.com.br//
[3] NUSSBAUM, Martha. Sem fins lucrativos. Por que a democracia precisa das humanidades. São Paulo: Martins Fontes, 2015. p. 23.
[4] Ibidem, p. 24.
[5] Ibidem, p. 96
[6] Ibidem, p. 97.
[7] P. 102.
[8] Protagonista de Crime e Castigo, de Dostoievski.
[9] Alusão à fala de Mítia, no romance Os Irmãos Karamázov de Dostoievski.
[10] Ibidem, p. 53.
[11] Sobre isso sugiro a leitura de: MEDDEB, Abdelwahab. A Doença do Islã. Tradução de Cleonice Paes Barreto Mourão. Editora UFMG, 2003.
[12] GUILHERME IX, Duque da Aquitânia. Poesia. Tradução e introdução de Arnaldo Saraiva. Campinas (SP): Ed. da UNICAMP, 2009. p. 87. Grifo meu.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Três grandes tradutores respondem a duas perguntas diretas sobre o seu ofício

Ao Pedro Plaza Pinto que me fez pensar sobre tudo isso, por causa de seu convite.

Prólogo: No dia 30 de setembro, celebra-se o Dia da Tradução. Foi 6ª passada! A data faz referência à morte de um grande tradutor: São Jerônimo, que traduziu a Bíblia do grego. Na 5ª passada, portanto, na véspera do dia em que os tradutores comemoraram o seu “é possível”, “apesar de tudo”, fui conversar com umas de nossas turmas da Pós sobre a tradução de Froissart et le temps. Enquanto me preparava para o bate-papo, escrevi uma resenha do Sobre a tradução de Paul Ricoeur (confira a resenha publicada aqui, na semana passada) e enviei duas questões a três tradutores que respeito muito:

1. O que traduzir?
2. Qual é o maior desafio da tradução?

Os tradutores para os quais enviei as questões foram três Professores Doutores (confira no epílogo os links dos seus lattes de encher os olhos de admiração!): Caetano Galindo,  vencedor do prêmio Jabuti por sua tradução do Ulysses de James Joyce (2012), dentre outras distinções; Maria Célia Martirani, ficcionista, ensaísta e tradutora, acabou de lançar seus ensaios favoritos na Itália, e Vinícius Nicastro Honesco, meu colega no DEHIS, tem se consagrado à tradução de Giorgio Agamben[1] no Brasil. Além da grande admiração profissional, gosto dessas pessoas inspiradoras! Agradeço o tempo precioso que dedicaram às respostas.

ENTREVISTA

CAETANO GALINDO
1.  O que traduzir?
Há miríades de possibilidades de responder essa pergunta. Eu, por mim, normalmente fico com uma versão mais ou menos "customizada" da definição apresentada pelo grande Paulo Henriques Britto. A tradução (stricto sensu) seria a operação linguística que me permite ler um texto A, escrito em um determinado idioma, e a partir dele escrever um novo texto B, em um outro idioma, com o objetivo de possibilitar que um futuro leitor de B possa dizer, sem mentir e sem necessidade de qualificar demasiadamente a afirmação, que leu A, mesmo que não conheça nem uma letra do alfabeto em que A foi redigido.
Pode parecer simplório, mas na verdade vai na essência de tudo. E cobre, inclusive, vários aspectos da atividade. Desde o "pacto" linguístico/editorial consuetudinário que me permite afirmar sem titubear que "li" o Genji Monogatari sem saber japonês do período Heian até o dado mais complexo, teórico, filosófico mesmo, que prevê a "equivalência" (palavrinha complicada) no mínimo satisfatória (em termos epistemológicos) e no máximo (e com grande frequência nos usos reais de linguagem) plena entre os dois textos.
Isso tudo porque eu tenho uma encrenca com a famosa definição do Umberto Eco que diz que a tradução (o produto, aqui, não a operação: a maioria das definições tende a se concentrar no produto, dado o quanto a gente está longe de entender de fato a operação, em termos estritamente linguísticos) seria "quase a mesma coisa" que o original.
A minha grande pergunta (aguarde, se Darwin mandar bom tempo, livrinho sobre isso) é se a tradução é "cópia imperfeita", como as pessoas tendem a pensar (ou seja, se a tradução do Hamlet está para o Hamlet como a reprodução da Gioconda num livro de arte está para o "original" lá no Louvre), ou se a tradução é "interpretação" (ou seja, se ela está para a obra original como a gravação de Mahan Esfahani das Variações Goldberg está para o "original" da obra de Bach). (E nem te conto o quanto dá pra destruir a ideia de "original" nesse processo.)
Eu acho que já a mera coincidência de termos entre o que fazem os músicos e os tradutores (intérprete, leitura...) podia nos fazer prestar atenção...

 2. Qual é o maior desafio da tradução?
Os desafios envolvem a capacidade de perceber o máximo possível das condições que possibilitem aquela equivalência plena de sentido entre as afirmações do leitor do original e da tradução. Ou seja, não deixar de perceber algo que estava no original e era importante para embasar aquela leitura e, na sequência, claro, ser capaz de reproduzir essas características no texto traduzido, para que aquele hipotético leitor de B possa continuar dizendo sem mentir que leu A.
Ou seja, pra mim é como se o leitor de um texto literário (e que fique claro que é só de tradução literária que eu ouso dar palpite) é como o ouvinte de uma peça complexa para piano. Ele está ali pra aproveitar, pra fruir, pra se deixar levar.
É claro que quanto mais conhecimento ele tiver, maior será essa fruição, mas nada impede que ele se satisfaça razoavelmente apenas com a "superfície" da obra...
Pois bem... o tradutor, por outro lado, está sentado ali do lado dele, no mesmo teatro, mas ele não pode só ouvir e se divertir, ele tem que entender tudo que está acontecendo, como que providenciar uma transcrição completa de todos os movimentos dos dedos do pianista. E, pior, depois ele tem que ir pra casa e "tocar" aquilo também, de novo, do seu jeito, com as inevitáveis marcas das suas limitações, dos seus cacoetes, e também com as desejáveis marcas da sua "interpretação".
Se ele deixou de perceber algo no original, sua interpretação será incompleta.
Se entendeu errado algo do original, sua interpretação será falsa.
Se não conseguir mobilizar os recursos técnicos para "reproduzir" o que ouviu (à sua maneira), sua interpretação será insatisfatória.
E aí sim, e só aí, ela vai ser sucedâneo imperfeito, vai ser "quase a mesma coisa".

MARIA CELIA MARTIRANI

 1. O que traduzir?
Gosto muito de pensar, antes de mais nada, no que afirmou Italo Calvino em Mondo scritto e mondo non scritto, ao afirmar que “tradurre è il vero modo di leggere un testo”, “traduzir é a verdadeira maneira de ler um texto”. Porque ser tradutor é, primeiramente, isso: ler em profundidade; ler, reler, tresler; exercer uma leitura crítica, assumindo a responsabilidade pela mesma.
Mas, em minha experiência pessoal, traduzir tem sido, sobretudo, um ato de acolhida (acolher o outro jamais significa reduzi-lo a mim), a partir do reconhecimento de uma diferença, de uma alteridade. É sempre a tomada de consciência de uma distância e, como diria Ricoeur, a aceitação de uma perda: “A felicidade de traduzir é um ganho quando, ligada à perda do absoluto linguístico, ela aceita a distância entre a adequação e a equivalência” (RICOEUR, 2011, p.30[2]). E, ao mesmo tempo, a vontade incomensurável de aproximação, de romper fronteiras, de busca fascinante pelo desvelamento do desconhecido, num exercício atento e silencioso, que me permita ouvir a voz do autor. Para tanto, faz-se necessário um conhecimento profundo, íntimo da língua de chegada, que será o colo a receber o novo visitante. Não por acaso, o professor da USP, Pedro Ghirardi, que recebeu o prêmio Jabuti pela tradução de Orlando Furioso de Ariosto, recomenda ao futuro tradutor de clássicos italianos que se torne leitor assíduo dos clássicos brasileiros e portugueses.
Concordo plenamente, também, com Maurício Santana Dias, um dos maiores tradutores de literatura italiana contemporânea, de quem fui aluna na Pós-Graduação em Italianística da USP, que situa o tradutor numa zona fronteiriça entre o artista e o artesão, o criador e o técnico, porque a tradução – sobretudo a poética – implica um intenso trabalho de criação na língua de chegada, mas, por outro lado, o tradutor cria por meio de uma partitura e, para lê-la e executá-la em outra língua, deve dominar uma série de técnicas e procedimentos, específicos ao seu ofício.
O escritor que mais tenho traduzido, Claudio Magris[3] considera o tradutor um verdadeiro coautor; alguém que sabe unir a dedicação ao outro, ao texto que traduz, com a própria personalidade; que o recria, extraindo-lhe, não apenas os aspectos essenciais e difíceis de descobrir, mas também aspectos inéditos, muitas vezes, desconhecidos pelo próprio autor. Ele afirma que, quando apresenta, em outro país, um livro seu, traduzido naquela língua, começa falando de seu original em Italiano: “este, eu escrevi” e, em seguida, faz questão de mostrar o mesmo livro traduzido: “este, fomos nós que escrevemos”.
A propósito, sobre esse viés criativo do papel do tradutor, cumpre sempre lembrar o posicionamento fundamental dos irmãos Campos, que demonstraram não ser possível dissociar a tradução da criação, pois o tradutor é um recriador, que trai a letra do texto estrangeiro e faz prevalecer o seu espírito, a sua tonalidade. Muito curioso o exemplo que citam sobre o que teria ocorrido com o poeta alemão Hölderlin, retaliado pela crítica, em meados do séc. XVIII, por suas traduções criativas de Sófocles e que só bem mais tarde, reavaliadas, receberam total absolvição e passaram a ser consideradas, justificadamente, como magníficas: “As mesmas traduções que o Oitocentos alemão tachou de monstruosas pela voz de seus escritores mais representativos e reconhecidos, o séc. XX iria ressuscitar como marcos modelares do gênero.” (CAMPOS, 1977, p. 96[4])

2. Qual é o maior desafio da tradução?
Creio não ser possível generalizar, pois cada obra apresenta desafios específicos.
De toda forma, é sempre bom lembrar que, se não fossem os tradutores franceses de Borges, que superaram infinitos obstáculos, talvez as obras do grande escritor argentino não tivessem tido a repercussão e o alcance que tiveram.
Ao levar adiante, por exemplo, a árdua tarefa de traduzir quinhentas páginas de puro ensaísmo literário de um autor como Claudio Magris, deparei-me, primeiramente, com o tom de altíssima erudição desse triestino germanista, que trata, no livro Alfabetos, de uma multiplicidade infinita de autores, não só clássicos, como também modernos e pós-modernos. Ajustar o tom, nesse caso, implica necessariamente, tornar o texto mais fluente na língua de chegada. Para tanto, muitas vezes, abrir parágrafos muito longos, repletos de referências, apostos e orações intercaladas, reorganizando a pontuação, foi fundamental para atingir leveza e fluidez. Isso para libertar o texto do que, em Português, poderiam significar amarras, mas sempre buscando reverberar a voz do autor, preservando-lhe as peculiaridades estilísticas.
O professor Maurício Santana Dias, que já mencionei anteriormente, em suas aulas, costumava citar que, quando estava traduzindo os contos de Primo Levi, teria encontrado um dos “pontos cegos” da tradução: o palíndromo. Um dos personagens do famoso autor tinha o hábito de criar palíndromos e estes exerciam uma função dentro do contexto do conto, que não poderiam ser substituídos pelos já existentes na língua portuguesa. Então, foi necessário recorrer às notas de rodapé, para minimizar o efeito dessa cilada tradutória.
Além disso, há que lembrar que a tradução é sempre um trabalho solitário, com raras exceções, como por exemplo, a das famosas cartas trocadas entre Guimarães Rosa e seu tradutor italiano, Edoardo Bizzarri, tão celebrada pelos estudiosos de tradução e literatura.
Outro desafio concerne à imensa dificuldade para o tradutor, no Brasil, em conseguir uma retribuição à altura de seu empenho. Esta costuma ser uma queixa comum, mesmo entre os que chegam a alcançar algum reconhecimento, a começar pela própria afirmação da coautoria, o que continua a ser problemático.

VINÍCIUS NICASTRO HONESCO:

1. O que traduzir?
Traduzir é, sobretudo, uma arte nas trocas. Uma arte imprecisa, uma arte que lida com o outro. Penso, e sempre me inquieto com isso, que traduzir é uma forma de se expropriar, de se colocar em um lugar que não é o nosso, de avançar por uma franja onde qualquer passo é uma espécie de agressão e, ao mesmo tempo, de afago ao outro. Agressão pois estamos sempre traindo, afago, bem, afago porque também é um gesto de construção de uma tradição, justamente, de uma entrega. Há um tempo venho pensando – claro que inspirado por Benjamin – que a tarefa da tradução é, em certo sentido, a tarefa do pensamento. Pensar é, para dizer com Pessoa, uma experiência de fazer-se outro. Para mim, cada translação feita com a linguagem em torno dos possíveis modos de operar essa entrega (tradição-traição-tradução), cada hesitação diante dos significantes que marcam o papel, cada frase construída nesse espaço de passagem, é uma maneira inequívoca de experimentar a linguagem e, no sentido forte dessa raiz trad-, também de se colocar no vértice em que qualquer pretensão de propriedade de uma língua (de uma identidade) se esvai nesse inesgotável deleite que é a possibilidade de pensar (esta, talvez e em toda sua abrangência, nossa característica especial).

2. Qual é o maior desafio da tradução?
O desafio da tradução é sempre algo da parte do fogo, para dizer com Maurice Blanchot. Por que traduzimos? Como pensar um motivo da tradução para além da questão da utilidade de um texto a outra língua? O desafio da tradução está não apenas nas dimensões operativas da tarefa, mas está no constante apelo para a compreensão do sentido do gesto: traduzimos para sermos inundados pelo outro, mas também para sair do pretenso paraíso (e o avéstico paridaésa tem essa dimensão do jardim murado) da cognoscibilidade pelos iguais. O desafio está, portanto, em não nos esquecermos de que no gesto da tradução estamos, também, nos traindo em nossa entrega (tradição). Em outras palavras, uma tradução nunca é terminada e sempre pode ser lançada ao fogo, sempre pode expor o limite das diferenças e similitudes com a ciência da impossibilidade de expô-lo com qualquer certeza. O desafio da tradução, assim, é algo da ordem da memória: não nos esqueçamos de que o lugar medial em que estamos quando pensamos é uma fragilíssima condição que, no entanto, é talvez nossa única força.    

Epílogo
C. LATTES DE INSPIRAR!

Sâo Jerônimo, de Hendrick van Someren (1615-1685)



[1] Vinícius me deu de presente o ótimo As Categorias Italianas (2014), traduzido por ele, o que me levou a escrever o texto “Cochichos nas margens: sobre as anotações que fazemos em nossos livros”, publicado aqui no blog: http://literistorias.blogspot.com.br/2015/09/cochichos-nas-margens-sobre-as.html
[2] Maria Célia usa a mesma edição de que me servi na semana passada.
[3] Sugiro a excelente tradução de Maria Célia publicada pela Ed. da UFPR: MAGRIS, Claudio. Alfabetos. Ensaios de Literatura. Tradução de Maria Célia Martirani. Curitiba: Ed. da UFPR, 2012.
[4] CAMPOS, H. A arte no horizonte do provável e outros ensaios. 4ª ed. São Paulo: Perspectiva, 1977.