segunda-feira, 28 de novembro de 2022

De volta à nave

Dia 20 de novembro de 2022 fui contemplada com um lugar na plateia para ver o espetáculo Nave mãe, dirigido por Vanessa Corina, da companhia de teatro curitibana Pé no Palco. O espetáculo teve entradas gratuitas, bastava enviar mensagem e aguardar a confirmação para sábado ou domingo. Há muitos anos eu não entrava no espaço Pé no Palco! Eu tive a felicidade de fazer alguns cursos de teatro oferecidos pela companhia – que além do teatro profissional, tem uma vocação formativa e engajamento em projetos sociais –, destaco um deles: sobre Beltold Brecht, que me marcou. Na ocasião, o Pé no Palco recebeu a diretora Dedé Pacheco e, ao longo de uma semana, os interessados e as interessadas – eu! – mergulharam no universo das peças didáticas. Inesquecível. Além dos cursos, tive uma experiência de “público insistente”, que costumo ostentar por aí: eu assisti a umas cinco apresentações da peça O conto da ilha desconhecida, texto de José Saramago, encenada pelo grupo. Meu número não é hipérbole, eu desconfio até que é eufemismo, porque eu fui ver essa peça com todo mundo. Na época eu trabalhava na rede privada, ensino superior e ensino fundamental, e eu levei todas as minhas turmas! Também levei a família, amigos... Eu fui. Um dia, deixei de ir. É impressionante como a gente deixa de fazer as coisas que considera cintilantes e vive anos a fio esquecida do brilho delas sobre a própria vida.

Uma das primeiras experiências de reencontro foi ser reconhecida pela produtora da companhia, a Giselle Lima, depois de tantos anos e da máscara phitta! Adentrei, reconheci. O público esperou o espetáculo entre a exposição “Ela em mim” da artista Laiz Zotovici Martins, que preparou o espírito para as histórias mãe & filha, e o café, que eu não conhecia. Mas a gente não esperou muito. Logo, as atrizes e os atores vieram nos buscar e eu devia desconfiar que, nesse reencontro tão aguardado entre público e os atores e atrizes privados da intimidade pela crise sanitária, eles e elas haveriam de “inventar”. Chamaram a gente com música e com olho no olho. Eu me lembrei do exercício do enfrentamento de plateia. Não se tratou de encarar, mas de voltar a olhar, sorrir, estar perto, já dentro do espetáculo, porque afinal eles e elas já estavam maquiados, vestidos com seus figurinos, e nos envolveram como um grande elenco. Adentramos, reconheci. Uma das coisas de que eu me lembrava com mais afeto – talvez da experiência de público insistente de O conto da ilha desconhecida – era esse teatro muito afetivo, de público pequeno, próximo. Poucos. Não selecionados, mas interessados.

Da programação de A Nave mãe: “a peça se desdobra em três camadas: dos depoimentos autorais, na presença da música como texto/melodia e/nos momentos de necessários protestos”. É uma informação precisa e eu vou apenas completá-la. Os depoimentos autorais incluem o público pela identificação. Há uma magia – e eu emprego essa palavra porque ela revela a minha própria surpresa com a arte – que faz com que o mais particular da experiência do outro de repente se revele tão meu! Ouvir Vanessa Corina, além de mitigar saudades, foi me ver bem no meio do palco. “Eu sou free, sou free demais!!!”, Sempre Livre! Menudo... Eu ri de nervosa. Cada biografia dramática emanava uma possibilidade nova de se ver/de nos ver. As músicas foram texto amigo, complementar e também paralelo, que se impôs algumas vezes, um coro para despertar o público: olha, estamos no teatro, olhe para cá, desvie seu olhar da identificação, cante com a gente! Acho que foi a música que funcionou como mediação para esse processo de “desidentificação” que nos jogou em outra escala: do particular para o mais amplo, para o que irmana diferente, como compromisso cidadão. Lembranças de Brecht... O espetáculo cresce.

O teatro é o agora e a surpresa. Tem ensaio, tem repetição, tem técnica, concentração... e tem aquela magia lá. A silhueta de Fátima que se mistura a de Pedro, seus braços, que formam uma estranha criatura, de novo um só ser. As silhuetas que a iluminação foi revelando, molhadas por uma chuva portátil. De repente, o silêncio, um longo olhar. Sim, porque mesmo um espetáculo com música, com barulhão, teve silêncio, teve pausa. Pausa antes, no convite dos atores: desligue-se; pausa dentro: vamos olhar, vamos pensar.

Nave mãe é um espetáculo bonito, bem construído, pensado, múltiplo e que não abre mão da magia. Dias depois de ter adentrado essa nave, atravessada pelo dia a dia de experiências menos cintilantes, guardo em mim a experiência dessa viagem tão amorosa.

Obrigada, nautas!




domingo, 29 de maio de 2022

Alcione em Curitiba – 28 de maio de 2022

 

21:30, no Teatro Positivo: uma mulher envolvida em um brilho lilás (seguindo a letra de Gilberto Gil: quanto mais purpurina melhor) adentra o palco para levar a plateia a um estado de alegria coletiva muito raro, depois de 2 anos. Alcione cantou seus sucessos mais conhecidos acompanhada de sua banda fiel. A maior parte do tempo, cantou sentada. Explicou ao público que vai fazer uma cirurgia na lombar em julho e que tem, em seguida, uma turnê pela Europa. Por isso, era preciso ficar sentada. Primeira coisa que faz pensar: 2 anos longe dos palcos teve repercussão na vida dos artistas. Na vida de artistas que orbitam muito distante da órbita de Alcione, o jejum da plateia foi fatal. Os artistas longe do sol viveram de subsídios, dos amigos, dos parentes, de doações de fãs desconhecidos e de dar nó em pingo. Não raro passaram necessidade, não tinham como pagar as contas básicas, passaram fome. Mas a órbita de Alcione também foi afetada. Imaginamos a quantidade de profissionais que são suas luas e que dependem que ela esteja no seu lugar, no palco. Isso talvez ajude a explicar a necessidade de vir a Curitiba para 1 show e cantar sentada quase todo o tempo e mal conseguir terminá-lo. Alcione sequer apresentou a banda...

A gente não sabe se Alcione sentia dor. Se sentia, a necessidade de honrar contratos e garantir o sustento de todas as suas luas fez com que ficasse lá, no seu trono branco de rainha, ao lado de uma mesinha, onde jazia seu copo de água e onde era depositada a sua xícara de café quentinho. Se não sentia, imaginamos talvez remédios para aliviar a dor, remédios que talvez tenham consequências no seu ânimo e na mobilidade. Na voz? Duvidamos. A voz era aquela nossa conhecida... e sentada, gesticulava, ia um pouco para trás no trono branco, jogando a cabeça, em algumas canções em que a entrega amorosa é protagonista. O corpo combalido tentava extravasar no limite imposto.

Alcione encantou a gente. Escolheu as músicas a dedo. Todo mundo sabia cantar tudo. Fomos o seu gigante backing vocal. Não dava para levantar e sambar... Outro dia, a gente foi a um show de samba, muito petit comité, ao ar livre, em que era possível sambar e a gente sambou! Mas no Teatro Positivo não era possível. Todo mundo sentadinho, um atrás do outro. Mas... os braços podem dançar! E eles vingaram os pés e os quadris rebolantes. Teve um momento, antecedendo “Ébano”, em que ela perguntou se havia ébanos presentes. Ora, havia... Uma de nós pensou que, se fosse um ébano, teria levantado ali no meio do corredor e teria dançado para ela! Será que eu caí na sua rede, ainda não sei...

Alcione não apresentou nenhum lançamento, nenhuma criação pandêmica (como vemos vários artistas tentando criar numa tentativa também de sobrevivência ao isolamento). Alcione passou por vários sucessos de sua carreira, que todo mundo sabia cantar. Mexeu com nossa memória e fez todos entenderem porque estavam lá naquele show. Na entrada, o brilho cintilante de sua roupa contrastava com os Retalhos de Cetim. Na passagem pelos seus sucessos, Alcione acrescenta um comentário essencial na música O Surdo, que traz a "pancada de amor não dói". "Dói, sim", a cantora finaliza a música marcando sua posição, ao mesmo tempo em que data e documenta a produção de letras machistas na música brasileira. Adendo necessário haja vista o público que a acompanha há anos e os novos ouvintes de uma geração em que a violência contra mulher não deveria mais existir. No meio do show, o ponto de beleza exuberante e esperançosa: Juízo final! Ah... esse sol que há de brilhar mais uma vez. Os raios luminosos irradiavam na plateia enquanto misturávamos a esperança nesse (re)nascer com a memória da saudosa Clara Nunes! Quando estávamos prontas para gritar o tão significativo "Meu vício é você", o show foi encerrado. Não teve nem BIS... E, não sabemos muito bem por quê, o público não se animou a pedir. Compreensão sobre o estado da cantora, talvez, necessidade de sair rápido do teatro para não aglomerar, tanto tempo sem ir a shows que se esqueceram até de como pedir BIS... Não sabemos.

Sobre o público, uma de nós escreveu em 2016, um texto sobre o comportamento do respeitável público em um balé infantil[1]. Remetemos nossos leitores a essa memória edificante... Mas o que havia de novo? Pouco, afinal, quase todo mundo ali estava sem máscara. Quê?! Sim, um público diverso, pintado de idades diferentes, gente de 20, de 30, 40, que passou dos 70 há um tempo, dos 80... e sem máscara. Enquanto isso, os veículos de comunicação noticiam o rebote da covid-19. A gente tirou a máscara 2 vezes para fazer 2 fotinhos e foi isso. No uber da ida e no da volta, máscaras. Só a gente, pois os 2 profissionais dispensaram. A gente aprendeu a sorrir de felicidade com os olhos, enquanto há perigo. Mas foi mesmo impressionante a despreocupação.

Os atrasos, o levanta e incomoda a fila inteira 1, 2, 3 vezes para ir sei lá onde, quando o 2º sinal já tocou... No texto de 2016, uma de nós falava da ausência da etiqueta de plateia. Se você tem implicância com a palavra etiqueta, pode trocar por respeito que vai servir. Serviu para uns, umas e outros, outras, no show de Alcione. No balé de 2016, uma de nós tocou no problema do salto na escada, e fica aqui prometido um texto sobre escada... O fato é que a gente tem de ter clareza sobre os limites do nosso corpo, para se sentir mais confortável, à vontade e se divertir.

Mas, então, por que ir ao show? Alguém pode alegar o não ineditismo do repertório e a disposição de todas as músicas nas plataformas digitais como justificativa para não ir. Respeitamos. Entretanto, a ida ao show é um pedido de presença. Sim, a presença da artista, a presença da música, cujos únicos intermediários do som até o público são os microfones e a mesa de som. O som "limpo", sem paradas para empresas mandando a gente comprar alguma coisa (parênteses apenas para uma reclamação sobre as propagandas ensurdecedores que antecederam o show. Mas só antecederam!) O show é a troca de presença entre artista e expectador; é a busca pela sinestesia que só a arte consegue produzir! A sinestesia que é um dos nossos trajetos para o sensível, a sensibilização, tão necessária e um dos caminhos de esperança para o sol que há de brilhar mais uma vez. Nós cantamos alto, dançamos, ficamos emocionadas. Um show revigorante para artista, a retomada da presença pelo público mesmo com incerteza... E a companhia especial, que realça a cintilância (Gil de novo) do sensível. Alcione, volte mais vezes para Curitiba. Há duas pessoas aqui esperando os próximos shows!

 

Deusa e banda

(Respeitável público, use máscara!)

Denise Miotto Mazocco

Marcella Lopes Guimarães

Em 29 de maio de 2022



[1] “Procura-se o respeitável público” <http://literistorias.blogspot.com/2016/12/procura-se-o-respeitavel-publico.html>


Fãs à espera da Deusa
Fãs à espera da Deusa e agindo certo











domingo, 22 de maio de 2022

Cartão de felicitações pelo casamento - Lula e Janja

 

Lula e Janja,

 

parabéns pelo casamento esta semana. Lembro-me de quando Lula foi libertado e do beijo dado naquela que era então a sua namorada. “Você já beijou hoje?”, “O Lula já beijou!”, todo mundo brincava pelas redes sociais. Hoje eu vou tomar um porre, não me socorre... Desculpe o vocabulário, casal, é verso de samba.

Lula, você estava lindo. Janja, não fica com ciúmes. Adorei o seu vestido. Não vou perguntar quem fez, indiscrição..., mas você sabia que eu ganhei um vestido?! E de um dos maiores designers de moda desse país! Pessoa que admiro, com quem tenho mil afinidades delicadas. Phinah eu.

Lula, aos 76 anos, subir ao altar, depois de enfrentar os processos, de cumprir pena, cadeia, de perder a companheira de uma vida...; dar-se a chance de continuar vivo, surpreender-se com o amor florindo no peito... é coisa que desabotoa o meu! Você sabe, sou romântica incurável e nem digo que foi cisquinho que entrou no olho. Não preciso de desculpa. Janja, desposar o Lula é desposar um homem de muitas camadas, não é? Imagino que você ame todas elas e fico contente em saber que você é uma mulher madura. É experiente para lidar com toda a informação que passa pelo seu homem, atrás dele, dentro dele, à frente, em torno dele... Estou falando assim, dele, porque sei pouco de você (ainda). Mas uma coisa acho evidente: você é corajosa.

Ninguém falou dos 21 anos de diferença, eu notei. Como sabemos, se o homem é mais velho, qualquer diferença se dilui no romantismo. Quer ver o romantismo calar? Se Janja tivesse 76 e você, Lula, 55, talvez te comparassem a Emmanuel Macron, que, por sinal, acabou de ganhar de novo... Auspícios. Lembra do desrespeito do energúmeno presidencial contra Brigitte? Ele, cuja diferença se diluiu na subalternidade reivindicada da primeira dama de joelho esfolado e salto agulha. Se Janja tivesse 76, talvez te comparassem. Só que Macron ia vencer de novo. Se Janja fosse Jorge, você ia ouvir os gritos do templo de Salomão até o palácio do Planalto! Casava, mesmo assim, Marcella. Mas quer ver todos os templos de Salomão incomodarem a órbita companheira da doce Lua? Se Lula fosse Carolina! Por que Carolina? Acho bonito. Janja 76, Carolina, 55. Vou melhor para você, Carolina, vou te dar 4 anos, 60 anos! Que tal? Talvez você escutasse sussurros de gente insuspeita, “convicta”, dos “coerentes”, dos vanguardistas. Bizarras sintonias com o templo de Salomão. Casava! Lula, ou melhor, Carolina, eita, agora sou eu que tô me confundindo... É melhor a gente parar com as imaginações, deixar a doce Lua em paz, e voltar às realidades, né?!

Eu estou feliz com o enlace de vocês e acho que ele veio a calhar. Veio a calhar como reserva de força e sentido. Nada melhor do que começar a virar o jogo com o amor, amor como beijo na boca e também como compreendeu Humberto Maturana: o emocionar que constitui o outro como legítimo outro em coexistência[1]. A gente tem vivido anos de ódio e eu não estou falando da divisão do país, eu estou falando de ódio institucionalizado, berrado, exaltado, motivo de orgulho, como política oficial direto do Planalto! Ódio às mulheres que não se curvam; ódio aos negros e às lutas por sua dignidade e afirmação histórica; ódio aos indígenas espoliados desde o corpo das mulheres até as terras ancestrais reivindicadas; ódio aos que rezam diferente dos tons de cinza do integrismo e aos que não rezam, aos que pensam, leem, cantam, dançam, representam, estudam, amam as Carolinas e os Jorges, os Lulas e as Janjas. Ódio aos rios, às matas e aos bichos. Bala neles e nelas, em nome de... Jesus??!!

Lula, seu casamento me emociona porque eleva o tom da conversa, de fato muito baixa, que grassa entre nós. É uma afirmação pública do amor para esfregar na cara suja de quem troca verba pública da educação por adesão de igreja, em nome de Jesus(!); de quem pisoteia na cara dos profissionais de carreira qualificados para entregar monitoramento da Amazônia para gringo rico. Desculpa, multimilionário. Bilio? Quem deixou? Por onde passou a autorização para uma tarefa dessa proporção? Conexão entre escolas? Internet do gringo? Lula, desculpa, eu tenho um aluno do Amazonas e eu levo o computador da minha filha para a sala de aula para conseguir chamá-lo. Afirmação que esfrega na cara suja de quem ofende, desrespeita as instituições, os corpos, ameaça e promete golpes. Mais?

Um dia bem recente, um dia triste à beça, o Brasil se viu em uma encruzilhada: de um lado, o caminho da homenagem a um criminoso; de outro, a necessidade de responsabilizar a fala que exaltava o crime, empregando os meios jurídicos disponíveis. Naquele dia, o Brasil virou na contramão e estamos aqui.

Lula, O Macron – 25 anos mais novo que Brigitte – ganhou de novo lá. A França tem agora uma primeira ministra, você viu? Achei auspicioso. Você beijou, você casou! Eu estou com um punhado de arroz aqui para jogar. Vestido novo. Só falta... 

Falta pouco. Falta muito. Mas você beijou! Você casou! Vocês! Lula, você estava tão bonito de azul... Janja, adorei o branco, adorei o decote. Você estava deslumbrante. E D. Angélico, heim?! Parabéns!

Bom primeiro domingo da vida nova!

Vida nova.

Força, paciência e amor.

#lulaejanja

#casamentolula

#casamentolulaejanja

 

PS. Alguém me fala ao pé do ouvido que o presidente da república do integrismo nacional veio participar da Marcha para Jesus.

Jesus não foi visto.

[1] MATURANA, Humberto, VERDEN-ZÖLLER, Gerda. Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano do patriarcado à democracia. São Paulo: Palas Athena, 2004. P. 45.


Foto de Maria Clara Guimarães Prado
(Origami da fotógrafa também)



domingo, 26 de dezembro de 2021

A rabanada vegana

 

Para Deise, Raquel e Roberta.

Para a minha mãe.

 

Nesse dezembro, eu já fiz rabanadas três vezes: duas vezes na minha casa (em um pré-Natal e no dia 24 mesmo) e em uma casa amiga (em outro pré-Natal). No dia 24, eu fiz uma parte das rabanadas com eritritol[1]. O Natal para mim começa com rabanadas. Quando criança, eu via a minha mãe fazê-las logo na manhã do dia 24. Eu via a minha mãe encher uma ou duas travessas bonitas – aquelas de casamento – com as fatias douradas e açucaradas. Quando eu me casei e me tornei senhora dos meus próprios Natais e travessas, descobri por que minha mãe fazia questão de prepará-las cedo: as rabanadas sujam louça, fogão e chão de cozinha. Então, é melhor fazer logo, para as louças não se misturarem. A gente lava tudo depois de prepará-las e pode recomeçar os trabalhos do Natal na cozinha limpa. O Natal para mim começa com o cheiro do açúcar e da canela, que envolve esse pão largo sem muita casca, mergulhado em leite, abraçado em ovo e que não tem medo de óleo quente.

Nos pré-Natais desse ano, eu servi minhas rabanadas para pessoas que nunca tinham preparado ou comido esse doce em casa. Segundo apurei, as rabanadas foram aprovadas. Eu fotografo minhas rabanadas, mando para amigos e amigas e, esse ano, uma pessoa queridíssima escreveu em uma foto minha: “as famosas rabanadas da Profa. Marcella”. Fiquei prosa.

Mas esse nunca me devolveu o pensamento sobre diferenças culturais que passam pela mesa e pela boca. Em um dos pré-Natais, eu comi peru assado. O conto do Mário de Andrade bem na minha frente! Estava divino. Foi a segunda vez na minha vida, porque a tradição da minha casa de menina e moça sempre foi o bacalhau; na minha casa de mulher adulta, o bacalhau continuou a reinar absoluto em várias receitas.

Eu encomendo pão de rabanada em uma padaria específica. No pré-Natal vivido na casa amiga, eu improvisei rabanadas com o pão mais parecido (com o de minhas encomendas) que encontrei. Mas já comi rabanada em Portugal feita com pão de forma. Achei bom, mas gostei mais das minhas.

Existem pequenas variações no preparo das rabanadas, isso significa que elas são um bom exemplo de tradições moventes. Algum defensor empedernido e equivocado das “tradições” pode franzir a boca amarga para a colher de leite condensado misturada no leite, para o pão, para o eritritol..., mas é preciso lembrar que não raro quem se arvora em guardião defende um momento específico a que teve acesso de uma tradição. Se conseguir andar um pouco mais para trás na pesquisa pode cair do cavalo segurando a bandeira do imobilismo. Tradições se mantêm porque se adaptam, porque se transformam. Minha experiência tem me mostrado que quem se veste de defensor de tradições, não conhece a dinâmica própria dessa reunião aerada de modos de viver, saberes e técnicas.

Uma amiga minha carioca, ao saber que eu já ia para o preparo da terceira pratada de rabanadas me disse que tinha descoberto uma receita vegana! Minha primeira reação foi bancar o emogi dos olhos arregalados. Depois, encontrada de chofre com a poeira de jumentice dos defensores do imobilismo que sobrou em mim, pensei: deve ser uma coisa tão diferente que só mesmo a importância do batismo para uma busca tão afetiva! As rabanadas reúnem histórias e, quer a gente varie o pão ou o açúcar, elas têm identidade pelo conjunto material e imaterial.

No dia 8 de julho, eu publiquei um texto aqui no blog que intitulei “O gosto das coisas em uma 5ª feira”. Nesse texto eu mencionei os mantecados da D. Francisca, esposa do meu amigo, o saudoso Prof. Jayme Bueno. Pois no dia 24 à tarde minha querida Raquel Bueno, filha do Prof. Jayme, veio aqui em casa para me dar uma caixa de mantecados. Quando me deu, disse acanhada que esperava que estivessem bons, mas duvidava. Senti aquele aperto tão conhecido no peito: a saudade da filha que teve de se despedir de um pai recentemente e de uma mãe mestra dos mantecados... Entrei com a pequena caixa e coloquei ao lado das rabanadas. Fiz café e sentei. Abri a caixa. Cada mantecado estava envolvido no papel vegetal recortado com esmero. Abri aquela delicadeza e lembrei. Lembrei do casal e das visitas na casa que nem é mais minha! Lembrei. Estavam perfeitos, Raquel.

Em 2020, na França eu me apropriei de algumas tradições. Este ano encomendei uma para sentar à mesa com as rabanadas: a Bûche de Noël. Alguém pode perguntar por quê? Eu tenho a resposta na ponta da língua: memória. Na verdade, para mim, é "só" disso que se trata. Ficar quatro horas em pé fazendo uma carne assada que ficaria pronta em meia hora – se eu cometesse a heresia de colocar a panela de pressão na história – é lembrar do meu pai ali, com o pé apoiado na altura do joelho da outra perna, que nem um quatro de 1,80 m, dizendo que aquela carne não era para preguiçosos...

Eu adoro rabanadas e posso fazê-las a hora em que eu quiser, mas não faço. Eu faço duas vezes no ano e no mesmo mês. Eu como e espero. Espero em respeito reverente ao calendário. Ninguém cobra essa reverência, esse respeito... Quando faço, ela acende em mim a memória de anos, de gerações até.

Também respeito a rabanada vegana da minha amiga. Suas escolhas e sua saúde exigem coerência, mas a memória... mesmo que eu ache o gosto diferente, esse batismo me emociona porque imagino que, na casa carioca dela, o dia 24 também começava com açúcar e canela, travessa e panos... e essa memória é tão forte que batizou o clone vegano. O peru de Natal, os mantecados, a Bûche... tradições que se sentam juntas para alimentar o corpo, os afetos e fomentar mais curiosidades. Gosto.

Daqui a pouquinho, eu vou preparar um doce que coloca um sorriso na boca de quem escuta o nome pela primeira vez: aletria. Fazer aletria é esvaziar a caixa de ovos[2] em pura evocação da minha infância. Não deu tempo de fazer para o Natal, mas quando eu cheguei a Cutitiba, alguém me contou que se continua a comemorar o Natal no dia 26! Boa tradição essa que me dá mais tempo...  

Ainda tenho uma pratada de rabanadas para fazer nessa casa antes que o ano acabe. Manhã de açúcar, canela, saudade que antevê a espera por um novo dezembro.

Os mantecados da Raquel, da Dona Francisca e de todas as andaluzas da linhagem da Raquel! Ao fundo, dá para ver o prato de rabanadas com eritritol.

As rabanadas com a convidada francesa Bûche de Noël

Elas...








[1] Um adoçante natural, com o gosto muito próximo ao açúcar refinado.

[2] A minha receita leva 8 gemas...

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Gaucelm Faidit e Guilherma Monja: exercício analítico

 

Gaucelm Faidit e Guilherma Monja: exercício analítico[1]

 

Adriana Tulio Baggio

Adriana Tulio Baggio é publicitária e letróloga, com mestrado em letras e doutorado em comunicação e semiótica. Atua como pesquisadora nas áreas de comunicação, semiótica, estudos de gênero, literatura e italianística. Divide a atividade acadêmica com a produção, tradução, edição e preparação de textos. Desenvolve, no momento, investigação sobre o De mulieribus claris, de Giovanni Boccaccio, em estágio pós-doutoral no Programa de Pós-Graduação em História da UFPR, sob minha supervisão.

 

 1.  O trovador e a jogralesa, biografados e comentados

 

Para esta atividade de avaliação parcial da disciplina, escolhi como objeto temático o casal de trovadores Gaucelm Faidit e Guilherma Monja. Fiquei muito interessada sobre esses personagens quando foram mencionados na aula de 26 de maio, no contexto da apresentação do cancioneiro provençal K e de alguns de seus folios. No registro dessa apresentação (o documento da quinta aula), temos a transcrição de apenas uma pequena parte da sua vida. Sendo assim, a primeira providência foi tentar encontrar o conteúdo integral no cancioneiro K[2].

Certas semelhanças entre a língua occitana e o português permitem-nos compreender trechos das vidas e cansós — mas isso quando lemos os textos grafados em letras de imprensa. Decifrar tais textos na grafia dos amanuenses que compuseram os belíssimos cancioneiros é outra história, pois exige, antes, que se reconheça nos traços grafados as letras do nosso alfabeto. Desafiador também é compreender o "sumário" do cancioneiro e encontrar o conteúdo desejado em meio a um indicador de localização que não é o de páginas contínuas numeradas em algarismos romanos, com o qual estamos acostumadas.

Antes de buscar ajuda para enfrentar essas dificuldades, decidi "tatear" o cancioneiro K em busca do nome que me interessava — Gaucelm Faidit — contando mais com o recurso de reconhecer figuratividades — o desenho das letras e das palavras — do que com o acionamento da leitura. Encontrei esse nome em algumas páginas iniciais do sumário e também sua vida e cansós, que, para minha sorte, estavam entre as primeiras do livro (é o quinto conjunto de poemas, logo após os de Bernard de Ventadour). Dei um zoom no pequeno parágrafo escrito em vermelho — a distinção cromática da vida no cancioneiro — e tentei identificar letras; "copiei" sequências de letras e consegui reconhecer poucas palavras, algumas por já tê-las visto/ouvido durante as aulas: "si fo", filz, borgos, joglar, maniar, beure, misura, muillez, soldadera, enseignada, grossa, grassa.

Não era o bastante para fazer uma análise da biografia e chegava então o momento de "pedir ajuda". Fui ao Les troubadours: une histoire poétique, de Michel Zink (2017), e busquei por Gaucelm. O trovador aparece em três seções do livro; na primeira delas, que apresenta a materialidade dos cancioneiros, é como exemplo a respeito do porquê de os poemas virem antecedidos pela biografia de seu autor, e da possibilidade desses relatos serem "dignos de fé". Essa fidelidade seria eventual e parcial, diz Zink; a respeito da origem social e geográfica do trovador, as vidas raramente se enganam. "E, de tempos em tempos, um detalhe inesperado revela-se verídico" (ZINK, 2017, p. 40)[3]. Isso acontece com Gaucelm, cuja vida informa, como já vimos, ter sido casado com "uma mulher de má vida, originária de Alés", nas palavras de Zink (2017, p. 40). E, de fato, observa o autor, há um documento que menciona esse matrimônio e o local de origem da noiva.

Essa primeira menção sobre Gaucelm ilustraria um caso exemplar e excepcional de "verdade histórica" na biografia de um trovador (aspecto que Zink deixará de lado, pois o mais interessante das biografias estaria não no pouco de verdade, e sim no muito de imaginação que contêm). A verdade se refere ao casamento com uma mulher que integra a biografia não apenas como esposa do poeta, mas como sua associada no trabalho que realizavam. Ainda assim, o nome dessa mulher, que aparece na vida, não é mencionado por Zink no exemplo ilustrativo. Mas ele menciona, porém, que ela teria se tornado ainda mais gorda do que o obeso marido ("qui devint encore plus grosse que lui”), que gostava da comida e da bebida (ZINK, 2017, p. 40).

Destaco o "ainda mais"/encore plus porque, mesmo sem compreender muita coisa da biografia registrada no cancioneiro K, notei uma diferença entre o texto do cancioneiro e a paráfrase de Zink. No cancioneiro, a grafia da passagem referente ao aspecto de Guilherma Monja é relativamente clara. Copiei assim: "Eli vene sí grossa esi grassa com era el". Este "sí" evoca o advérbio "sì" do italiano, que é tanto o "sim" de uma resposta quanto o "assim" e o "tão", na condição de derivado de "così". Disso resulta que Guilherma "tornou-se tão grande e tão gorda como era ele", o marido, e não "ainda mais" do que ele.

O que explicaria para a mudança de grau comparativo na leitura de Zink? Uma possível resposta está na fonte: enquanto a minha é o cancioneiro K, a do medievalista é o cancioneiro A[4]; portanto, poderia haver uma pequena diferença de lição. Mantive a hipótese em suspenso até conseguir mais subsídios para verificá-la.

Voltando ao livro de Zink, continuei a busca por menções a Gaucelm. O poeta aparece novamente no capítulo dedicado ao amor adolescente ("L’amour adolescent"), seção que ensaia a possibilidade de uma teoria do desejo a partir das razos que comentam os poemas dos trovadores. Se o poeta apaixonado é propenso à humilhação por sua maior suscetibilidade ao desejo — em comparação ao autocontrole da mulher —, Gaucelm encarnaria "talvez mais do que outros" essa propensão (ZINK, 2017, p. 470). Não apenas as razos de seus poemas são relatos de humilhação amorosa como até mesmo sua biografia, diz Zink. E, nesse ponto, o autor apresenta duas versões da vida de Gaucelm: uma em occitano, proveniente do cancioneiro A, e outra em francês, (suponho que) traduzida por ele. Consigo, com isso, acesso ao conteúdo da biografia, a mim praticamente indecifrável na grafia do cancioneiro. Ei-las (quadro 1):

 

QUADRO 1 — VIDA DE GAUCELM FAIDIT EM OCCITANO E EM FRANCÊS

Vida de Gaucelm Faidit em occitano (cancioneiro A)

Vida de Gaucelm Faidit em francês (tradução de Michel Zink)

Gauselms Faiditz si fo dun borc que a nom Userca, que es el vesquat de Lemozi, e fo filz dun borges. E cantava peiz d’ome del mon; e fetz molt bos sos e bos motz. E fetz se joglars per ocaison qu’el perdet a joc de datz tot son aver. Hom fo que ac gran larguesa; e fo molt glotz de manjar e de beure; per so venc gros oltra mesura. Molt fo longa saiso desastrucs de dos e donor a prendre, que plus de vint ans anet a pe per lo mon, quel ni sas cansos no eran grazidas ni volgudas. E si tolc moiller una soldadera quel menet lonc temps ab si per cortz, et avia nom Guilelma Monja. Fort fo bella e fort enseingnada, e si venc si grossa e si grassa com era el. Et ella si fo dun ric borc que a nom Alest, de la marqua de Proenssa, de la seingnoria d’En Bernart d’Andussa.

E missers lo marques Bonifacis de Monferrat mes lo en aver et en rauba et en tan gran pretz lui e sas cansos.

Gaucelm Faidit était dun bourg qui a nom Uzerche et se trouve dans l’évêché de Limousin; il était fils dun bourgeois. Il chantait plus mal quaucun homme au monde, mais il fit beaucoup de bonnes mélodies et de bonnes paroles. Il se fit jongleur, parce quil avait perdu tout son avoir au jeu de dés. C’était un homme très généreux, et il était très glouton pour manger et boire; aussi devint-il gros outre mesure. Il fut très longtemps fort malchanceux, ne recevant ni présents ni honneurs; si bien quil alla plus de vingt ans à pied à travers le monde, car ni lui-même ni ses chansons n’étaient bien accueillis ni appréciés. Il épousa une femme de mauvaise vie, qu’il emmena longtemps avec lui à travers les cours; elle avait nom Guillelma Monja. Elle était très belle et fort instruite, et devint aussi grosse et grasse quil l’était. Elle était dun riche bourg qui a nom Alès, de la marche de Provence et de la seigneurie de Bernard d’Anduze.

Et Messire le marquis Boniface de Montferrat le fournit en avoir et en vêtements, et le mit en très grand prix, lui-même et ses chansons.

 

FONTE: Zink (2017, p. 471-472); grifos meus.

 

Diante da discrepância notada logo antes — entre a descrição de Guilherma feita por Zink e o que diz o texto do cancioneiro — e da hipótese de que a interpretação fosse fruto de diferença de lição entre os cancioneiros, a primeira coisa que meus olhos buscaram foi o trecho com a descrição, destacado nas citações no quadro 1. A hipótese não se verifica: no cancioneiro A a comparação é "si… com", ou seja, "tão… como", assim como no K; no francês, a mesma coisa: "aussi… que". A explicação para a distorção na paráfrase de Zink seria outra.

Logo após a citação da biografia de Gaucelm, o medievalista analisa a apresentação dessa vida, que aparenta ser a de um desclassificado, abandonado pela fortuna, mas que recebe compensações: cantava mal, mas fez belas melodias; era gordo, mas era generoso; casou-se com uma mulher de má vida e gorda, mas que era bela e cultivada (ZINK, 2017, p. 474). Um pouco antes desse elenco de compensações, ao citar esses traços de Gaucelm, aparece novamente uma comparação entre a gordura de Guilherma e a do poeta: "marié une femme de mauvaise vie devenue encore plus grosse que lui" (ZINK, 2017, p. 473). Pela segunda vez, a paráfrase de Zink distorce o texto da vida que acabava de ser citado e traduzido por ele mesmo, atribuindo à esposa uma obesidade ainda maior do que a do marido. Mas, agora, essa interpretação acompanha outra: a do juízo da soldadeira como mulher de "má-vida", juízo esse manifestado na tradução.

A mudança do grau comparativo e a tradução de um termo que indica atividade para outro da ordem do caráter (aspecto que discutimos em sala de aula) reforçam os traços negativos da mulher constituída ela mesma em traço negativo do poeta. A vida de Gaucelm registrada no cancioneiro A, fonte de Zink, não traz nenhuma dessas asserções a respeito de Guilhelma: a gordura é um traço da sua pessoa assim como o é no marido, e a má vida é um juízo a respeito da atividade de jogralesa, indicada pelo termo soldadeira (ver, por exemplo, CUNHA, 2015). Ainda que a informação sobre esse juízo não possa ser desconsiderada na recepção contemporânea do poema, talvez fosse menos arbitrário manifestá-lo em nota, e fazer a tradução mais próxima do efeito de sentido solicitado pelo texto da vida em occitano.

Isso seria ainda mais recomendável ao se considerar que, segundo a vida, Gaucelm cantava mal; nesse contexto, a atuação de Guilherma como jogralesa é ainda mais pertinente. O próprio ordenamento do percurso de vida do trovador, conforme o enredo da biografia, sugere a importância dessa mulher para a prosperidade do casal. Gaucelm era maltratado pela sorte, não recebia honras nem presentes, passou vinte anos peregrinando porque ninguém gostava de suas composições e de sua performance. Em seguida, vem a informação sobre o casamento com Guilherma, a origem dela e suas características; e, depois disso, a acolhida pelo marquês Boniface de Montferrat. Parece que as coisas melhoraram bastante depois desse casamento…

É mais fácil compreender a insistência na relação entre jogralesas e prostituição (também um trabalho legítimo, mas que sabemos não ter esse conceito dentre os que estabelecem a associação arbitrariamente) quando o texto é do século XIX. Em seu estudo sobre a lírica trovadoresca, o romanista alemão Friedrich Christian Diez diz que, apesar de agradável e espirituosa, a esposa de Gaucelm tinha má reputação, o que dava motivo para piadas maldosas sobre o trovador. Mirando objetivos mais altos, ele teria voltado os olhos a Marie de Ventadour (DIEZ, 1845, p. 369).

A condessa Marie de Ventadour é objeto do amor cortês de Gaucelm; Zink, por exemplo, analisa a relação entre uma cansó em que esse amor é cantado e a sua razo, mostrando como, neste caso, o contexto da primeira se aplica à situação descrita pela segunda (ZINK, 2017, p. 479). Mas será que o papel poético e cortês ocupado pela condessa se confunde com aquele de Guilherma? Diez convoca o cortejar do trovador para inferir uma separação entre Gaucelm e Guilherma que não é citada na vida que serve de fonte a essa biografia, e interpreta o exercício e o caráter de Guilherma como causas dessa suposta separação.

Em um verbete enciclopédico a respeito de Gaucelm, agora já do século XX, Guilherma não deixa de ser apresentada como licenciosa, mas o autor da nota, Nicola Zingarelli (1932, grifos meus), reconhece a parceria do casal: "depois de peregrinar por 20 anos, amante do beber e do comer, com Guglielma Monja, mulher venal, encontrou finalmente junto ao marquês Bonifazio di Monferrato quem o mantivesse em bom estado e deu vazão às suas composições". Zingarelli também precisa a tipificação do relacionamento entre o trovador e a condessa: "Celebrando, no mais das vezes, Maria di Ventadorn, esposa de Eble V, dá bem a entender não ser essa uma relação amorosa, e sim gratidão pelas damas de alta virtude, protetoras dos bons poetas".

Para encerrar esta parte, um breve olhar sobre as iluminuras (figura 1) que representam o casal nos dois cancioneiros já citados, A e K, e também no I[5], estudado por Roberta Macêdo Gama Bentes (2019) em sua dissertação, e sobre o qual falarei adiante.

 

FIGURA 1 — ILUMINURAS REPRESENTANDO GAUCELM FAIDIT E GUILHERMA MONJA NOS                             CANCIONEIROS "A", "I" E "K", RESPECTIVAMENTE



FONTE: respectivamente, Cancioneiro A, f. 70r; Cancioneiro I, Q3 xxxiii; Cancioneiro K, f. 22r. Impressão de tela.

Zink (2017, p. 39) informa que essas ilustrações não têm tanta preocupação em se assemelhar fisicamente ao trovador, e sim em representá-lo em uma atitude ou maneira característica de seu estatuto ou de sua história. De fato, nas três iluminuras nenhum dos dois é gordo, traço ressaltado na biografia. Também comum às três é o fato de o casal estar "separado" pela capitular decorativa, inicial do primeiro verso do primeiro poema (letra S em A, letra T em I e em K), com a personagem feminina posicionada mais atrás. No entanto, em I e em K as figuras permanecem em planos próximos, quase lado a lado, enquanto em A a figura feminina é parcialmente sobreposta pela masculina. Outra regularidade é quanto ao gestual da figura masculina, com uma das mão elevada, em postura de oratória (RAMOS, 2015, p. 185).

Já a figura feminina varia; em A ela parece ter uma das mãos elevadas, quase cobrindo o rosto, e a outra abaixada, um pouco afastada do corpo, mas com a palma aberta para frente. Em I, essa figura também apresenta uma das mãos elevada, em postura de oratória, e cabeça um pouco tendida à frente, sugerindo fortemente uma cena de interlocução, de interação. Já em K, essa figura está ereta, estática, mas com as mãos na cintura, em postura que evoca autoridade, domínio, desafio, avaliação.

Gaucelm Faidit não fez parte do corpus de iluminuras de trovadores analisadas detalhadamente por Bentes em sua já citada dissertação. No entanto, a pesquisadora contempla nosso poeta em uma tabela de representações imagéticas que classifica as iluminuras de todos os trovadores dos cancioneiros I e K, atribuindo a Gaucelm, nas duas ocorrências, a descrição "jogral cantando para uma dama" (BENTES, 2019, p. 98). Considerando a postura do casal em I, no qual a figura feminina também eleva a mão para a performance oratória, será que não trata de um jogral cantando com uma jogralesa, em vez de para uma dama? Não seria Guilherma essa personagem feminina?

 

2. A vida e as composições de Gaucelm Faidit no contexto dos cancioneiros

 

Para levar a cabo o exercício analítico apresentado acima, foi necessário consultar e entender um pouco melhor a materialidade dos cancioneiros. As edições consultadas foram aquelas que emergiram das citações: I e K, mencionadas em sala de aula e apresentadas na dissertação de Roberta Bentes (2019), e A, fonte da biografia de Gaucelm Faidit no livro de Zink (2017). A própria consulta aos documentos e a busca pela produção de Gaucelm em cada um deles requereu um esforço e uma, digamos, cartografia. Em benefício futuro, próprio ou de quem porventura possa vir a consultar este trabalho, descrevo então a presença da vida e das composições de Gaucelm nos três cancioneiros considerados.

Como mencionei no início, uma das dificuldades enfrentadas na abordagem ao cancioneiro foi a compreensão do índice. Para superá-la, contei com a ajuda da dissertação de Roberta Bentes (2019), especialmente quando a pesquisadora explica, em relação ao cancioneiro K, o fato de a numeração das cansós em algarismos romanos interromper-se no 39 e recomeçar do um (xxxviiij e i), indicando a mudança de caderno. Com isso, passa a fazer sentido o número que antecede o nome de Gaucelm Faidit no sumário das cansós — xxvii (37)

A vida de Gaucelm e suas cansós vêm em quinto lugar neste cancioneiro. São 24 poemas, que começam pelo número xxvii do terceiro caderno (Q III) e vão até o xi do quarto caderno (Q IIII). Na parte das tensós, Gaucelm comparece com seis citações: a tensó i do Q XVII e as tensós iii, viii, xxi, xliii e xlvii do Q XVIII. Já as serventês são apenas duas: a xxxviiij do Q XXII e a xiii do Q XXIII.

A estrutura do cancioneiro I é bastante parecida com a do cancioneiro K, mas a numeração das cansós, por caderno, vai até o 37 (xxxvii). Quanto à presença de Gaucelm nesse cancioneiro, parece haver uma cansó a menos (a xxxii Q III do cancioneiro K); a primeira cansó é a xxxiii do terceiro caderno e a última, a xviii do quarto caderno. O poeta é, como no K, o quinto da lista.

O cancioneiro A, por sua vez, é bastante distinto. Existem os índices de cansós, tensós e serventês, mas as entradas não são numeradas — apenas a mudança de caderno é indicada. São 39 cansós de Gaucelm, um tanto a mais do que as 24 do cancioneiro K e as 23 do cancioneiro I. Por outro lado, há duas tensós a menos do que as destes cancioneiros e nenhuma serventês.

O quadro a seguir sistematiza essa comparação, tomando por referência o cancioneiro K, o primeiro a ser consultado. As cansós, tensós e serventês são listadas na primeira coluna, e a sua localização nos três cancioneiros é indicada nas colunas seguintes. Para o K e o I, a localização é o número da produção e o caderno em que se encontra (grafado, agora, em algarismos arábicos); para o A, a localização é o número que indica a ordem em que a produção aparece no grupo do qual faz parte, e o caderno em que se encontra. Por exemplo: a cansó identificada como "Tant ai sofert longamen grand afan", a primeira dos cancioneiros K e I, e que vem logo após a vida de Gaucelm nesses cancioneiros, aparece em 19º lugar entre as cansós do cancioneiro A, e no caderno seis (19 Q6). As cansós que são apenas do A vêm listadas após a última cansó do K, e o número que as identifica é, também, o da ordem em que aparecem no cancioneiro.

 

QUADRO 2 — DISTRIBUIÇÃO DE CANSÓS, TENSÓS E SERVENTÊS DE GAUCELM FAIDIT NOS                            CANCIONEIROS "K", "I" E "A"

 

Componente

Localização no Cancioneiro K

Localização no Cancioneiro I

Localização no Cancioneiro A

cansós

indicador

ordem

Tant ai sofert longamen grand afan

xxvii Q3

xxxiii Q3

19 Q6

S'om pogues partir son voler

xxviii Q3

xxxiiij Q3

1 Q6

Al semblan del rei Thyes

xxviiij Q3

xxxv Q3

28 Q6

Lo gens cors honratz

xxx Q3

xxxvi Q3

2 Q6

Chant e deport, joi, dompnei e solatz

xxxi Q3

xxxvii Q3

29 Q6

L'onratz, jauzens sers

xxxii Q3

- - -

36 Q7

Mout a poignat Amors en mi delir

xxxiii Q3

i Q4

30 Q6

No m'alegra chans ni critz

xxxiiij Q3

ii Q4

8 Q6

Coras qe.m des benananssa

xxxv Q3

iii Q4

9 Q6

Lo rossignolet salvatge

xxxvi Q3

iiij Q4

10 Q6

De solatz e de chan

xxxvii Q3

v Q4

22 Q6

Mon cor e mi e mas bonas chanssos

xxxviii Q3

vi Q4

6 Q6

Pel joi del temps qu'es floritz

xxxviiij Q3

vii Q4

7 Q6

Ara nos sia guitz

i Q4

viii Q4

- - -

Ab cossirier plaing

ii Q4

viiij Q4

5 Q6

Ben for' oimai

iii Q4

x Q4

- - -

Tuich cil que amon Valor

iiij Q4

xi Q4

20 Q6

Si anc nuills hom, per aver fin coratge

v Q4

xii Q4

13 Q6

Si tot m'ai tarzat mon chan

vi Q4

xiii Q4

3 Q6

Gen fora, contra l'afan

vii Q4

xiiij Q4

12 Q6

Ja mais, nuill temps, no.m pot ren far Amors

viii Q4

xv Q4

4 Q6

Ara cove

viiij Q4

xvi Q4

- - -

Tot mi cuidei de chanssos far sofrir

x Q4

xvii Q4

16 Q6

Tant sui ferms e fis vas Amor

xi Q4

xviii Q4

18 Q6

Erais couen qem conort en chantan

- - -

- - -

11 Q6

Mout a Amors sobrepoder

- - -

- - -

14 Q6

Razon e mandamen

- - -

- - -

15 Q6

Mout m'enojet ogan lo coindetz mes

- - -

- - -

17 Q6

Jauzens en gran benananssa

- - -

- - -

21 Q6

Tot so qe.is pert pels truans amadors

- - -

- - -

23 Q6

De faire chansso

- - -

- - -

24 Q6

Oimais nos sia guitz

- - -

- - -

25 Q6

Anc no.m parti de solatz ni de chan

- - -

- - -

26 Q6

Oimais taing que fassa parer

- - -

- - -

27 Q6

Fortz chausa es que tot lomaier dan

- - -

- - -

31 Q6

Ges no.m tuoill ni.m recre

- - -

- - -

32 Q6

Be.m platz e m'es gen

- - -

- - -

33 Q7

Chascus hom deu conoisser et entendre

- - -

- - -

34 Q7

Si tot noncas res es grazitz

- - -

- - -

35 Q7

Delieis cui am decor edesaber

- - -

- - -

37 Q7

Maintas sazos es hom plus voluntos

- - -

- - -

38 Q7

Maintas sazos es hom plus voluntos

- - -

- - -

39 Q7

tensós

indicador

ordem

 Gaucelm, tres jocs enamoratz

i Q17

i Q19

1 Q15

Gauselms Faiditz, de dos amics corals

iii Q18

iii Q19

- - -

Perdigon, vostre sen digatz

viii Q18

vii Q19

2 Q15

Gaucelm Faidit, eu vos deman

xxi Q18

xxi Q19

3 Q15

N'Uc de la Bachallaria

xliii Q18

xliii Q19

4 Q15

Gaucelm Faidit, eu vos deman

xlvii Q18

xlvii Q19

- - -

serventês

indicador

ordem

Ab nou cor et ab novel so

xxxviiij Q22

xxxvi Q23

- - -

Fortz chausa es que tot lo major dan

xiii Q23

li Q23

- - -

 

FONTE: os cancioneiros. Para a grafia das entradas das produções, tomei por base o elenco da obra completa de Gaucelm Faidit conforme divulgada no site The Democratic Republic of Poetry (FAIDIT, [201?]), e a lista dos componentes do cancioneiro A disponível no site do laboratório Lirica Medievale Romanza, da Universidade Sapienza di Roma (COMPONIMENTI, [201?]).

 

 

Referências

 

BENTES, Roberta Macêdo Gama. Texto e imagem nos cancioneiros occitanos. Mss. BnF, Fr. 854 e 12.473. Orientadora: Marcella Lopes Guimarães. 2019. 118 f. Dissertação (Mestrado em História) — Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2019. Disponível em: https://hdl.handle.net/1884/63383. Acesso em: 1 jul. 2021.

 

COMPONIMENTI del canzoniere provenzale A. Lirica Medievale Romanza. Roma: Università Sapienza di Roma, [201?]. Disponível em: http://151.100.161.88/?q=laboratorio/componimenti-del-canzoniere-provenzale-a. Acesso em: 1 jul. 2021.

 

CUNHA, Viviane. A soldadeira na língua dos jograis e dos trovadores. Revista do CESP, Belo Horizonte, v. 35, n. 54, p. 117-132, 2015. Disponível em: http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/cesp/article/download/10101/9013. Acesso em: 1 jul. 2021.

 

DIEZ, Frédéric. La poésie des troubadours. Tradução e notas Ferdinand de Roisin. Paris: Jules Labbite Libraire; Lille: Librairie Ancienne et Moderne de Vanackere Typographe, 1845. Disponível em: https://books.google.fr/books?id=LpcGAAAAQAAJ&hl=pt-BR&pg=PR3#v=onepage&q&f=false. Acesso em: 1 jul. 2021.

 

FAIDIT, Gaucelm. Complete works. The Democratic Republic of Poetry, [201?]. Disponível em: http://www.trobar.org/troubadours/gaucelm_faidit/. Acesso em: 1 jul. 2021.

 

RAMOS, Maria Ana. "Retratos" de trovadores: a tradição galego-portuguesa. Politeia: história e sociedade, Vitória da Conquista, v. 15, n. 1, p. 183-209, 2015. Disponível em: https://periodicos2.uesb.br/index.php/politeia/article/view/3700. Acesso em: 1 jul. 2021.

 

ZINGARELLI, Nicola. Faidit, Gaucelm. In: Enciclopedia Italiana, 1932. Disponível em: https://www.treccani.it/enciclopedia/gaucelm-faidit_%28Enciclopedia-Italiana%29/. Acesso em: 1 jul. 2021.

 

ZINK, Michel. Les Troubadours. Une histoire poétique. Édition revue. Paris: Éd. Perrin, 2017. E-book.



[1] Ensaio apresentado como avaliação parcial para a disciplina História e cultura do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná, ministrada pela profa. dra. Marcella Lopes Guimarães. Curitiba, 1 de julho de 2021.

[2] Chansonnier provençal [Chansonnier K] — Ms. BnF.fr.12473. Padoue-Venise: [125?]. Disponível em: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b60007960. Acesso em: 1 jul. 2021.

[3] As páginas indicadas na fonte das citações correspondem àquelas da edição e-book; as traduções das citações, quando ocorrem, são minhas.

[4] Cancioneiro A — Ms. Vat.lat.5232. Disponível em: https://digi.vatlib.it/view/MSS_Vat.lat.5232. Acesso em: 1 jul. 2021.

[5] Recueil des poésies des troubadours, contenant leurs vies [Chansonnier I] — Ms. BnF.Fr.854. [12--]. Disponível em: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b9059105w. Acesso em: 1 jul. 2021.