terça-feira, 28 de setembro de 2021

Mayra Resende & Willian Busch : experiências de leitura da biografia do trovador Cercamon

 ANÁLISE SOBRE TRECHO DA BIOGRAFIA DE CERCAMUNDO

 

Me. Mayra Sousa Resende[1]

Me. Willian Perpétuo Busch[2]

 

INTRODUÇÃO

 

     Este trabalho pretende propor uma interpretação para a biografia do Cercamundo, a partir de um trecho do Cancioneiro K traduzido pela professora Dra. Marcella Lopes Guimarães e apresentado em aula. Nosso intuito é mostrar como o trecho age de acordo com o círculo hermenêutico de Paul Ricoeur e atua em prol da construção de uma narrativa hagiográfica razoavelmente subjetiva sobre um poeta do medievo.

 

1        FONTES

 

A fonte utilizada foi o manuscrito Chansonnier provençal [Chansonnier K], da segunda metade do século XIII e disponível para acesso integral em: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b60007960?rk=21459;2. Os dados biográficos referentes a Cercamundo se encontram no Folio 119r. No topo esquerdo da página, em vermelho, consta a seguinte descrição FIGURA 1.

 

 

FIGURA 1 - Folio 119r



FONTE: Os autores (2021).

 

A segunda fonte utilizada foi a compilação oferecida pela Professora Dra. Marcella Lopes Guimarães. Construída a partir dos Manuscritos I e K e tendo por base a grafia: I. BSC, p.9:

Cercamundo si fo uns joglars de Gascoingna, e trobet vers e pastoretas a la usanza antiga. E cerquet tot lo mon lai on el poc anar, e per so fez se dire Cercamundos.

A tradução oferecida por Guimarães foi a seguinte:

Cercamundo foi um jogral da Gasconha e ele compôs cantigas e pastorelas à maneira antiga. E circulou pelo mundo e por onde pode andar, por isso se fez chamar Cercamundo.

 

2        TRAÇANDO BIOGRAFIAS

 

A visão moderna do discurso historiográfico trataria Cercamundo como um objeto, uma entidade distinta de Guimarães, que ocuparia a função de mediação, conferindo neutralidade e credibilidade ao objeto, na medida em que é apagada. Nesta chave, as análises produzidas sobre Cercamundo a partir da mediação de Guimarães, ficcionalizam a historicidade do jogral por meio da neutralização da historiadora e tradutora[3].

Já uma análise contemporânea poderia enquadrar Cercamundo a partir de estratégias discursivas; seja Cercamundo em relação aos seus contemporâneos; bem como os usos feitos de sua biografia ao longo da história. Análise esta que, apesar de sensível aos modos pelo qual os historiadores estruturam as suas fontes, permanecem presas no quadro ficcional moderno.

A historicidade do jogral varia nos seus modos ficcionais, construindo e reconstruindo as discursividades. Todavia, no seu centro, mantém Guimarães neutralizada, uma vez que não lhe é conferido o mesmo estatuto ontológico. Fala-se sobre Cercamundo e sobre Guimarães, mas não há um acoplamento entre estes.

O discurso moderno transforma Cercamundo num objeto do discurso científico que, em sua gênese, arrasta consigo um problema epistêmico a respeito dos sentidos, tanto de "indivíduo" quanto de “medievo”. Já os discursos contemporâneos revelam como este objeto foi construído discursivamente. Tal padrão não é exclusivo de Cercamon.

Neste sentido, cabe pensar a análise deste trecho a partir da perspectiva de Paul Ricoeur[4]. O filósofo aponta a existência da verdade semântica e simbólica, sendo que a primeira é dada pelo conteúdo em si e a segunda ocorre a partir das interpretações contextuais e simbólicas do leitor. No que diz respeito a este trecho, uma análise semântica diria que Cercamundo é um rapaz que gosta de compor e cantar suas próprias músicas e viajar o mundo enquanto o faz. Entretanto, a verdade simbólica pode ser outra, uma vez que compor, cantar e viajar durante o Século XIII tem uma conotação distinta de fazê-lo durante o Século XXI.

Para Ricoeur[5] estes dois campos da verdade são complementares, de forma que necessariamente um texto vai falar sobre o mundo que o circunda e o que o mundo fala sobre o texto, ao mesmo tempo, é o que o cria, simbolicamente. Logo, uma interpretação contemporânea de que Cercamundo é um compositor e cantor que viaja o mundo e vive de sua música é construtiva para entender o Cercamon do século XIII, uma vez que é a imagem mental / simbólica que imprimimos na atualidade e que representa a nossa interpretação ou entendimento.

O desafio de assumir a perspectiva ricoeuriana é o de olhar para os trechos dos cancioneiros de forma inocente e permitir-se entendê-los a partir das primeiras imagens mentais e simbólicas que formamos. Ao mesmo tempo, deve-se ter a noção de que a leitura constrói o texto enquanto ele a constrói e, com isso, entrar em contato com trechos como o de Cercamundo é entrar em contato com todo um mundo particular, que diz respeito à ele e à essa história, uma vez que para Ricoeur todo texto é um mundo inteiro.

Assim é possível que surjam outras questões sobre Cercamon, como, por exemplo, porque alguém estava escrevendo sobre sua história? Quem era essa pessoa? Por que a vida de Cercamon importava? Essas perguntas ficam sem resposta e são apagadas com o tempo, sendo legadas a interpretações simbólicas de pesquisadores como Guimarães, que tentam traduzir os textos antigos e costurar essas histórias, mas com o cuidado de entendê-las como ser-em-si ao mesmo tempo em que são para o mundo.

Giorgio Agamben[6] explicitou que dois termos eram utilizados na Grécia Antiga para tratar da “vida”: ζωή e βίος. O primeiro se referia a noção de vida como compartilhada entre homens, animais e divindades, enquanto o segundo “indicated the form or way of living proper to an individual or a group”. O Λόγος de ζωή corresponde ao corpo biológico, enquanto o Λόγος da βίος trata da vivência em comunidade. A biografia de Cercamundo, quando vista pelo sujeito énonce, trata da βίος na medida que conflui o seu nome, origem, arte e experiência. Todavia, nada de sua ζωή é revelada. A ruptura entre βίος e ζωή é um Λόγος que não trata da vida, mas sim de θάνατος.

Para escapar disso, num viés inspirado por Jacques Lacan[7], alertamos que caso os pesquisadores optem pelo manuscrito como a única fonte para sua análise da biografia de Cercamundo, duas opções se abrem. A primeira é tratar Cercamundo como um sujeito énoncé e recai num viés estrutural que se fecha no conteúdo narrado pela fonte e ignora todo o resto. Já a segunda é optar por Cercamundo como um sujeito énonciation que performa e pode ser historicizado.

Buscar Cercamundo como um sujeito énonciation é retornar para a escolha da fonte e conferir uma nova significação advinda da experiência biográfica dos pesquisadores. No nosso caso optamos pela versão de Guimarães acerca de Cercamundo e uma dinâmica tomou forma. A produção da fonte já é, por si, um duplo: trata-se da biografia de Cercamundo que se produziu na encruzilhada com a βίος de Guimarães e contém uma multiplicidade de elementos, experiências, emoções e sonhos. Neste sentido, não há mais um sujeito énonciation Cercamundo, mas um acoplado de  βίος e ζωή que se encarna em multiplicidades: livros, aulas, slides, conversas, etc. Noutras palavras, o sujeito énonciation trata da fonte mas esta não é um dado bruto. Trata-se duma fonte que oferece, na superfície, uma camada biográfica acerca de Cercamundo que foi moldada e enquadrada por uma série de eventos que compõem e se cruzam com a biografia de Guimarães.

Cercamundo foi um jogral da Gasconha e ele compôs cantigas e pastorelas à maneira antiga. E circulou pelo mundo e por onde pode andar, por isso se fez chamar Cercamundo.

Investigar Cercamundo como um “jogral da Gasconha” demanda uma reflexão histórica acerca da emergência do jogral, das relações políticas, dos arranjos sociais e da textura cultural que compõem a Gasconha. Pois bem, tratar de multiplicidades não é uma tarefa simples. Deve-se abrir um diálogo, na medida do possível, com Guimarães, acerca da sua jornada até Cercamundo e a Gasconha, tendo em vista sua experiência, bem como seu posicionamento acerca da historiografia.

O enunciado acerca da composição de cantigas e pastorelas “à maneira antiga” sugere variações artísticas e práticas de criação que diferem de outros bardos. Uma incursão neste campo deve considerar aspectos históricos como invenções de tradições e disputas por legitimidade. Ao mesmo tempo, o pesquisador não pode perder de vista a visão de Guimarães sobre isso.

A parte final que revela o bardo como viajante talvez seja a mais importante. Devemos pensar na noção de mundo e peregrinação no medievo e tentar correlacionar, se possível, com a posição marginal e anômala de Cercamundo em relação às três classes majoritárias: nobres, sacerdotes e aldeões. Cruzaremos essa experiência com a visão de Guimarães acerca destes processos, mas também da sua andança até Cercamundo.

L. E. Kastern[8] adentrou no problema da datação dos poemas de Cercamundo. O primeiro, Lo plaing comenz iradamen, que lamentava a morte de William, conde de Poitiers e duque da Aquitania, foi escrito no momento imediato a morte deste, e portanto por volta de 9 de abril de 1137. O segundo, Car vei fenir, um tenso, também parece ter sido do mesmo ano, uma vez que fazia “uma alusão sem erro ao iminente casamento da Alienor da Aquitânia com o filho do rei da França, o futuro Luis VII”[9]. O elemento que distingue Cercamundo, na visão de Kastern, é o tratamento do amor como sensual. Para Kastern: “ele segue a nova moda, criada por William VII de Poitiers e por Ebles II de Ventadorn, chamada ‘Cantiga’ pelo cronista Geoffroi de Vigeois. Para Ebles ele dedica seu plano para a morte de William VII de Poitiers”[10].

Essa nova maneira de narrar o amor, como sensual, aparece em vários outros poemas dos cancioneiros occitanos, revelando o processo da tomada de consciência de si, que de acordo com Dosse (2009) passa a acontecer a partir do século XII, quando os textos narram uma vida “tocada pela graça”, também compreendida com Hagiografia - e que se diferencia da biografia exatamente por esta razão.

Pode-se, ainda, compreender o trecho citado como um ponto de vista de alguém que olha para Cercamundo de fora. Alguém que constrói uma narrativa de cantor viajante para ele, a quem nós não sabemos o que pensa ou o que realmente faz. O ponto de vista compõe uma das mímesis tratadas por Ricoeur, aquela que fala sobre como a forma pela qual olhamos as coisas (ou o local a partir de onde as estamos olhando) cria a consciência simbólica pela qual as interpretaremos. Dessa forma, vale dizer que outras pessoas poderiam descrever Cercamundo de outras formas, assim como outras pessoas poderiam interpretar o trecho aqui citado de outras formas e é justamente neste embate entre o que aconteceu, o que foi dito e o que foi compreendido sobre aquilo que aconteceu que se constroem as narrativas - que podem ou não ser ficcionais, apesar de sempre estarem relacionadas ao passado e estarem sujeitas a interpretações individuais que podem alterar o seu sentido. De acordo com RIcoeur, a única coisa que muda entre a história e a ficção é a intencionalidade por trás do fato que está sendo narrado. Enquanto um não pretende estar relacionado à realidade o outro pretende contá-la, mesmo que para tal caia ele próprio num círculo hermenêutico infindável.

 

3    CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Não sabemos quem foi Cercamundo, mas a partir deste pequeno trecho fomos levados a refletir sobre a sociedade medieval e como ela se relacionava com os trovadores e os viajantes, ao mesmo tempo em que refletimos como essas posições são ocupadas na sociedade atual. Também pudemos exercitar o conhecimento teórico adquirido em aula, colocando à prova as interpretações de Ricoeur sobre a hermenêutica e a narrativa, além de considerar as interpretações oferecidas por Guimarães e todos os colegas no decorrer das aulas.

Somos um reflexo de que a história se constrói em conjunto e de que as interpretações são resultado de nossos contextos simbólicos, de forma que realizar o exercício proposto foi bastante construtivo no processo do aprender que quanto mais tentamos compreender sobre o mundo, mais nos percebemos enquanto meras narrativas e mais precisamos contá-las.

 

  

REFERÊNCIAS

 

 

AGAMBEN, Giorgio. Homo Sacer: Sovereign Power and Bare Life. Trad. Daniel Heller-Roazen. Stanford: Stanford University Press, 1998.

CLÉRO, Jean-Pierre. Le vocabulaire de Lacan. Paris: Ellipses Édition Marketing S.A, 2002.

KASTNER, L. E. Marcabrun and Cercamon. The Modern Language Review, v. 26, n. 1, p. 91–96, 1931.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 4: a relação de objeto. Trad. Dulce Duque Estrada. Rio de Janeiro: Zahar, 1995.

LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos: ensaios de antropologia simétrica. Trad. Carlos Irineu Costa. Rio de Janeiro: Ed. 34, 2011.

RICOEUR, Paul. Oneself as Another. Chicago and London: The University of Chicago Press, 1992.

SIMMS, Karl. Paul Ricoeur. London and New York: Routledge, 2003.

WRIGHT, Elizabeth. Another Look at Lacan and Literary Criticism. New Literary History, v. 19, n. 3, p. 617–627, 1988.


[1] Doutoranda em Antropologia (PPGA-UFPR).

[2] Doutorando em História (PPGHIS-UFPR).

[9] Tradução nossa. No original: “an unmistakable allusion to the imminent marriage of Alienor of Aquitaine with the son of the king of France, the future Louis VII” (Kastern, p.92).

[10] Tradução nossa. No original: “He follows the new fashion set by William VII of Poitiers and by Ebles II of Ventadorn, surnamed 'Cantator' by the chronicler Geoffroi de Vigeois. To Ebles he dedicates his planh on the death of William VIII of Poitiers.” (Kastern, p.92)

Página do Cancioneiro K


quarta-feira, 18 de agosto de 2021

GORDA!

 

Hoje, quando começávamos nosso treino no parque São Lourenço, com o grupo ainda mais junto, um homem passou por nós de bicicleta irregularmente – afinal, há avisos de que não é possível ainda trafegar de bicicleta no parque – e gritou: - Gorda! Outro dia, ainda durante as olimpíadas, um senhor passou por nós e disse: - Atletas olímpicas! Já ouvimos: - Que lindas! Mas é mais comum a gente dizer para nossos companheiros desconhecidos de parque e ouvir deles e delas: - Bom dia!

Um homem levantou pela manhã, fez xixi, ou não; escovou os dentes, ou não; tomou banho, ou não; tomou café, ou não; beijou a mãe, ou ela já morreu de desgosto; vestiu uma roupa decente, ou não; chaveou a casa, ou não; pegou a bicicleta com intenção de ir e vir e resolveu vasculhar o pouco léxico que coube à sua capacidade, para adentrar o parque irregularmente e desferir o vocativo: Gorda!

Eu não faço ideia de contra quem ele desferiu o golpe, mas reivindico. Foi pra mim! É pra mim! Sou eu, orgulhosamente! Eu engordei 17 quilos na gravidez e me senti a mulher mais espetacular que pisou essa Terra, nunca mais consegui recuperar aquela alta/autoestima rsrsrs Sobraram nesse corpo que levo para correr e que está hipertenso 4 quilos. Nunca retoquei meu corpo (mesmo!), não pinto o cabelo, mas atenção: Não imponho meus princípios a ninguém. O dia em que eu quiser me livrar da barriga de coabitação com Maria Clara, desafiar a gravidade (e a idade) recompondo os peitos da adolescente que eu fui ou pintar as madeixas cacheadas e, agora, compridas como há muito tempo eu mesma não via, farei! Eu posso harmonizar os princípios que me guiam hoje, de respeito ao corpo de 47 anos que pariu, com desejos que ainda não possuo. Por que não?

O homem passou tão rápido que não vi, poderia ter machucado alguém com sua bicicleta irregular. Desejei-lhe mal. Desejei que se arrebentasse, que se ralasse todo...  Agora, fria de banho e de ódio, todo o meu desejo de mal se encerra nesse texto. Quando eu colocar o ponto final, ele terá sumido – o homem ou o ódio, você escolhe o referente – e sobrará o que vou fazer com o seu grito daqui adiante: a opulência e a abundância... da força que leva um grupo de mulheres de idades diferentes, histórias, corpos a treinarem juntas; a partilharem vontades, planos para o dia, para o ano, as dificuldades com lesões, com as crianças, com os maridos, com os chefes...

Antes de chegar ao parque, eu tive a grata surpresa de acompanhar uns minutos a participação do meu colega Clóvis Gruner no programa de Maria Rafart e ele falava, nesse minutos, sobre o Talibã. Referia um texto que ele leu em que se noticiava como os professores de Cabul já começaram a se despedir de suas alunas... Eu me imaginei me despedindo dele, de minhas aulas, de minhas alunas, nós todas saindo, servidoras, nossa vice-reitora... Ele, que é ateu confesso, reclamou um princípio que infelizmente gente religiosa não segue, foi mais ou menos assim: nenhuma religião prega entre seus princípios a indignidade. Eu não sei se o homem que nos golpeou é de amém, se grita em templo até Jesus perder a audição, se batuca, se incensa.

O Afeganistão não é aqui, que ninguém ofenda (ainda mais) as afegãs, mas os duros golpes contra o corpo das mulheres doem por todo lugar em que teimamos ser.

47 anos de malcriação, né, mãe?


quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Um MAPA para se deter

 

Tirei só um braço da manga e abri três botões da camisa. – Não, abre tudo. – Tá bom? – Tá ótimo. Ela cortou um pedaço razoável do rolo branco e enlaçou na minha cintura. – Tá apertado? – Não. – Agora eu vou envolver o seu braço com isso aqui. – Mas e se eu suar? – Não tem problema, eu vou deixar firme. Pode suar. Riu. Pronto, eu tinha 22 horas pela frente na companhia do MAPA da pressão[1]: uma espécie de celular velhíssimo que nem para ligações serve. Que dirá fotos?! – Quando apitar, você deve parar tudo o que estiver fazendo e aguardar a braçadeira inflar e desinflar. – Mas eu vim dirigindo... – Tira a mão do volante, coloca sobre a coxa, segura só com uma e, se puder, para. – A cada quanto essa braçadeira vai inflar? – Ela vai inflar de 15 em 15 minutos. À noite, de meia em meia hora. – Alguma sugestão para o banho? – Nenhuma, porque não pode tomar.

Saí esquecida das diversas durações de 15 minutos. Fui comprar pão. No caixa, a braçadeira. A pessoa que estava me atendendo levou um susto. – Quer uma cadeira? – Não..., disse baixinho, - É que eu estou com o mapa da pressão... – Ahhhh... Paguei e saí. Carro. No caminho, a braçadeira. Opa, dá para parar. Olho à minha volta. Acalmo. Será que dá para ver quanto tá a pressão? Não enxergo. Sol. Óculos de leitura na bolsa. Bora chegar à minha casa antes de nova inflada!

– É mais fácil parar em casa, disse confiante para mim mesma. – Ainda mais porque estou de férias!, sorri. Almoço, filha, vassoura, orientando atrasado que vai infartar, pressão?, minhas leituras de férias essenciais!

Achei umas paradas bem engraçadas: contemplar na paz do Senhor o bife que ameaça queimar da frigideira, ouvir malcriação de filha sem revidar com palestra, interromper um abraço com o sorriso das margens plácidas, curvar-se à lei da gravidade quando o lençol de elástico estava quase dobrado, parar a frase na confiança beneditina de que a memória vai ajudar a retomar, congelar a escovação de dentes espumando de falsa raiva, substituir a gargalhada pelo sorriso sereno.

A cada 15 minutos eu fui obrigada a parar. Detestei. Detestei porque, a cada vez, era uma parada nervosa. Eu parei só de fachada. Eu não decidi. O celular de outras eras decidiu por mim. Eu tive de me dobrar às suas exigências para fazer dar certo cada medição.

Quando o meu grupo de corrida treinava velocidade nas quadras de areia do parque, eu tinha dificuldades em parar perto da divisória de arame entre as quadras. Não raro me jogava no arame, rindo a valer.

Eu escrevi uma coleção de livros que incluiu um conceito de parada muito interessante. A ideia não foi minha, foi da minha parceira de escrita, pessoa sensível e sagaz. E eu achei espetacular! Desde então, tenho me perguntado qual é o lugar da pausa, da parada, do instante de contemplação serena na minha vida... Eu que adoro correr, em vários sentidos. Eu que adoro me jogar no arame, esquecida do perigo que é a gente se jogar em matéria com tanto potencial de corte, de ferir.

O mapa da pressão é aparelho decerto, mas a sigla sugere uma cartografia nova para as vidas de todos os que têm de pendurá-lo à cintura como eu tive de fazer. A maior parte das vezes em que ele me constrangeu a parar, eu busquei combater a minha contrariedade com um sorriso – calmo ou derrotado. Às vezes, as pausas das braçadeiras infladas tiveram para mim uma duração maior que os 15 minutos de intervalo...

Quando a braçadeira infla, ela faz pressão no nosso braço e, como o mapa é automático, ele faz uma pressão ignorante do sofrimento de quem o recebe. Muitas vezes, eu tive pena do meu braço e isso me ensinou tanto quanto os números que meu cardiologista desfraldou diante de mim. Pressão que dói, avermelha, que obriga a parar.


Hoje, um dos exercícios do meu treino era parar e mudar o sentido. Achei curioso.

Não é busto, cintura ou quadril, mas são medidas reais...




[1] MAPA é uma sigla para o aparelho de Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial

quinta-feira, 8 de julho de 2021

O gosto das coisas em uma 5ª feira

 

Eu já escrevi aqui no blog que uma amiga despertou em mim o gosto da manga. Foi em 2018, depois que papai se foi e ela me recebeu na casa dela para partilhar a mesa e me abraçar no luto. Diante da mesa farta, preparada por ela com tanto carinho, o amarelo de uma manga – fruta de que nunca gostei! – tão bem cortada me chamou, e hoje a manga é uma das minhas frutas favoritas.

Eu sou uma comilona. Não é que eu coma muito, embora às vezes..., é que gosto da boa mesa, sou formiga, gosto do papo da mesa, da cozinha – quando ela é compartilhada e há música então! Ê Senhora! Batatinha roxa/Coração magoado... – gosto de cozinhar, gosto de ficar lá e até de lavar a louça! Mas eu também gosto muito de provar. Quando eu viajo, uma coisa é certa: vou atrás do gosto das coisas. Eu considero a mesa do lugar tão valiosa quanto o museu que aguça a minha fome de saber, e eu não sou exceção obviamente. Muita gente que conheço coloca essas coisas em pé de igualdade. Comilões se atraem... Eu acrescento ainda a esse gosto o correr pelas ruas do lugar em que me hospedo, bem cedinho. Experiências sensoriais.

Minha gatinha, a Sugar, tem mania de comer flor. Como eu tenho recebido flores ultimamente, ela está meio voraz. A gente tem medo, não sabe bem em que flores ela pode saciar a curiosidade gastronômica. Então é um tal de os vasos se movimentarem pela casa, para enganá-la, que é a maior confusão! Água pelo chão...

Nessa história do gosto das coisas há uma outra experiência que me fascina e sobre a qual eu nunca escrevi: o gosto compartilhado. Essa experiência tem um quê de tara, reconheço. Não raro eu gosto de provar um sabor que sei que é o favorito de quem eu amo. Essa perversão nem sempre tem consequências boas para as minhas papilas gustativas..., afinal mesmo que a gente ame alguém, que tenha grande sintonia com esse alguém, o prato favorito pode ser a exceção. A questão é que, quando o gosto favorito do outro encontra o meu, há um transporte íntimo que me dá uma alegria genuína. Invade e transborda.

Minha filha gosta de chocolate. Eu, nem tanto... Mas sou capaz de me aproximar do gosto dela e envolver tudo isso em um sorriso eterno quando eu compro sorrateira um dos seus favoritos e como um pedacinho...

Hoje, eu vou conversar na TV Kotter com Daniel Osiecki sobre um amigo que temos em comum e que partiu há algumas semanas, o Prof. Jayme Ferreira Bueno. Eu me lembro que, em algumas visitas que ele e D. Francisca me fizeram no Natal, eles me levavam umas bolachinhas que D. Francisca fazia. Bolachinhas muito alvas, que ela envolvia em um papel também muito alvo. Às vezes a embalagem era caseira, com fita guardada, como as que eu tenho aqui também. Eu posso ver! Sentir. Honestamente, nesse dia, em que as memórias dele e dela estão tão vívidas, a memória do gosto dessas bolachinhas é pura saudade, como as de um certo empadão goiano em casa amiga.

Saudades.

Hoje, de manhã, eu saí rapidinho para comprar duas coisas que esqueci de incluir na minha lista de compras do mês, feitas ontem naquele espírito bélico com que temos ido ao mercado. Na volta, entrei em uma padaria que vende um pão de nozes de que gosto muito, mas que tem a preferência de uma pessoa que amo e que está muito longe. Trouxe o pão para casa com o cuidado com que a gente leva aquele filhote de cachorro ou gato com quem sonham os filhos. Depois da higienização dos itens necessários e do banho – acho que a gente nunca foi tão limpo! – eu fui devagar ao pão. Ele é enfeitado de nozes, mas também tem nozes na barriga. Cortei e vi que o que eu tinha escolhido estava particularmente grávido. Junto às nozes, os damascos e as ameixas de que não gosta tanto a pessoa em quem eu pensava. Eu ri disso... Até o não gosto é uma experiência de saudade! A massa mais escura, adivinho farinhas diversas... Como e imediatamente vivo aqueles minutos proustianos que me fascinam desde o tempo que eu não sabia que o escritor os tinha elevado ao sublime.

As bolachas de D. Francisca, o empadão e as nozes em pão grávido de sabor. Tara. Experiência sensível. Saudade.

 

Bom dia para quem gosta de comer, tem memória e sente falta de reunir um povo à mesa!


O pão da saudade


sexta-feira, 5 de março de 2021

Encaixotar, transportar, arrumar: eu vou (me) mudar!

 

Eu já me mudei muito. Na infância e na adolescência, colecionei endereços, principalmente de apartamentos. Só me lembro de uma única casa, no distante bairro de Jardim América, moramos lá por pouco tempo. Digo distante só porque minha escola e o emprego da minha mãe ficavam a quilômetros de distância e era muita Av. Brasil todo dia..., acho que por isso ficamos pouco tempo nessa casa. Quando casei, descobri o sobrado, a primeira casa própria da minha vida, comprada por nós com aquela luta dos primeiros anos da vida adulta.

A casa em que (ainda) moro é a casa em que por mais tempo morei na vida. Foi para cá que a minha filha – agora com 12 anos – veio morar quando nasceu. Essa casa, então, é a casa dela; a casa em que instalamos as redes de proteção para a sua segurança; os portões na cozinha, no segundo andar e no terceiro para ela não cair da escada ou se queimar. Nessa casa, ela deu os primeiros passos no dia 25 de dezembro de 2009; foi em frente à casa que a ensinamos a andar de bicicleta; na garagem experimentou os patins; na cozinha fizemos nosso primeiro bolo em 2011 (está anotado no meu caderno de receitas!) e continuamos a fazer outros; na cozinha também ela se aventura em cookies e brownies.

Mexemos um pouco nessa casa: fizemos uma cozinha nova, refizemos o banheiro da suíte, nós a pintamos algumas vezes. O quarto da filha foi o mais mexido. Um pouco antes da sua chegada, o quarto foi preparado com aquele amor dos “convidados” esperados há tantos anos, tinha painéis pintados, um berço branco, cortinas brancas com bandôs verde e rosa, a evocar a escola de samba do coração da família do pai. Tinha uma poltrona de amamentação, em que amamentei, embalei e dormi, velando o sono da dona da casa.

Em frente a essa casa, há um pequeno jardim, o maior jardim de minha vida! Sua área deve ser de 4 m2..., não faltou um zero não; é um jardim 2m X 2m mesmo. Mas nele há um pereira de que sentirei imensas saudades! Ela foi comprada na Lapa (PR) em umas férias e inspirou depois o meu conto “A Pereira”, que integra o livro As Árvores e os frutos. Há um manacá plantado por minha mãe que está sempre florido; há uma pequena estátua de menina que morava no jardim de meu pai, lá em Friburgo (RJ), região serrana do Rio, e que ele trouxe de carro para me fazer companhia. Há outras plantas bonitas e é nesse jardim que meu passarinho poeta Riobaldo está enterrado. Sim, eu tive um passarinho de gaiola que cantava para mim todo dia, que vinha no meu dedo, me dava bicadinhas e que me ditou uma porção de trovas que guardei nesse velho computador companheiro.

Mas uma casa não é só umas paredes com teto em que a gente cumpre o isolamento social. É também um modo de viver. Do meu quarto, se eu me deito de lado (apoiando o ombro direito no colchão), quando abro meus olhos, a primeira coisa que vejo é a minha filha. Talvez tenha sido por isso que tivemos confiança, desde o primeiro dia, de mantê-la em seu próprio quarto. Claro que fizemos cama compartilhada! Mas principalmente quando um de nós estava em viagem.

Para mim, sempre foi uma paz abrir meus olhos e olhar direto, quer para o berço, quer para a caminha de menina pequena, quer para a cama mezanino da adolescente de agora e vê-la! Eu a vi em pé no berço, “dançando” daquele jeito maravilhoso dos bebês que experimentam as pernas. Eu a vi ensaiando sair dele sozinha e pude “salvá-la”. Ufa! Da caminha de menina, eu a vi inúmeras vezes levantar-se, pegar o travesseiro e vir até a nossa cama, jogar o travesseiro em mim e escalar, para dar bom dia!

Nessa casa, para tomar café, é preciso descer. Quando alguém fica chateado, pode realmente mudar de ambiente. O escritório fica ao lado do meu quarto e uma varanda une os dois ambientes. Eu me espalho pela varanda com minhas leituras e é muito fácil me ver de robe de manhã cedo, pendurando as toalhas ao sol no varal de pé. Nessa casa, não dá para cuidar do arroz na cozinha e escrever no escritório. A distância entre os ambientes pode distrair. Então, essa casa não gosta muito de gente multitarefas...

Eu vou me mudar para um apartamento bem menor. A decisão foi tomada em 2019 e os motivos só cresceram desde então. Não há varanda. Talvez essa seja a grande falha de caráter do apartamento novo. Mas da janela da sala, eu vejo um banco muito convidativo às minhas leituras, só vou precisar me disciplinar para não ir até lá de pijamas desencontrados e robe. Das janelas, eu posso ver o prédio onde vive a minha irmã mais nova com seu menino, meu sobrinho tão amado! Estarei bem pertinho de outras pessoas de minha família também. Há muito mais comércio em torno e acho até que, ao longo de vários dias, sou capaz de esquecer que tenho carro. A filha está animadíssima, minha grande surpresa!

O maior desafio que o novo apartamento enfrenta é o acolhimento de meus livros. Como o apartamento tem a sua própria memória, ou seja, a memória que não apaguei, da família que lá morava, eu assumi que não iria desmanchar essa reserva de sentido, traria a minha vida para fazer parte. Então, o quarto que seria obviamente o meu escritório e que é um closet vai ficar assim mesmo, mas vou colocar o velho computador companheiro na pequena mesa. Meu quarto vai receber um estante de “primeiros socorros”, ou seja, livros imediatos. A decisão foi espalhar os livros pela casa. Então, como diz a filha, vou realizar o sonho de morar na minha biblioteca. Minha mãe advertiu: Filha, quando cozinhar, abra bem as janelas para a poesia medieval não ficar com cheiro de tempero de feijão.

Ter os livros pela casa toda – sala, corredor, closet e quarto – vai ser divertido: vai me fazer conceber novos encontros para eles! Mudá-los de posição pode acender sentidos inusitados para mim; perdê-los, achá-los outra vez... Da entrada do apartamento até meu quarto, posso ir colhendo volumes como flores. Posso deixá-los sobre a pequena mesa do closet enquanto tomo banho e, assim, perfumá-los de lavanda para fazê-los esquecer dos temperos.

Eu vou sentir falta de minha casa. Fui muito feliz aqui. Fui infeliz também, mas ora..., como sempre digo, não sou refrigerante para viver borbulhando. Ou, se é pra viver assim, que seja champagne! Tive uma vida plena na sua proteção. Essa casa compreende um modo de viver com seus ambientes, o pequeno jardim, a área de fundos para estender meus lençóis ao sol, a churrasqueira nunca usada para esse fim, mas sim como depósito, a varanda das toalhas e robes, a cozinha com a janela só para lavanderia. Falha de caráter dessa casa... O apartamento novo tem grandes janelas na cozinha para a rua. Disse para mim que é sua pequena vingança. Brigas entre casas, não vou me meter.

As pessoas me perguntam se sinto um frio na barriga só de pensar em encaixotar os livros que me olham assustados... Algumas amigas e amigos já se ofereceram para ajudar. Acho que vou precisar, sou pessoa sem orgulho e sei pedir ajuda! Não sinto frio na barriga por isso, sinto canseira antecipada. Meu frio tem a ver com aquela dúvida sobre se encontrarei o abrigo terno das chateações, frustrações...; se encontrarei a inspiração e a paz para escrever, se poderei ser feliz... Olhem só o que tenho na cabeça?!  

Da minha cama nova, não conseguirei mais ver a cama mezanino da minha filha. Ela terá direito à sua própria intimidade pela primeira vez. Quando eu encostar o ombro direito no colchão, eu verei a mim mesma. Sim, há um espelho que não mandei tirar. No meu apartamento há mais espelhos (para iludir o tamanho) que na casa. Vai ser engraçado ver primeiro a mim mesma logo cedo.

 

Vou mudar.

Quando a filha levantar, ela vai ver...


quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

2020 em leituras

 

Quem ama os livros sabe que eles são grandes companheiros. No ano em que a terra parou por causa da Convi-19, quem ainda tinha dúvidas sobre essa amizade talvez tenha tido um reencontro para sempre. Como muita gente que conheço, eu li muito: li para a pesquisa que desenvolvi e para a qual obtive uma licença, uma bolsa de estudos e a oportunidade de pesquisar em bibliotecas extraordinárias da Universidade de Poitiers, na França[1], e li para conservar a minha saúde mental, para viver as vidas alternativas de que preciso. Descobri muitas coisas bonitas nas escolhas que fiz este ano, lendo livros em papel e livros no meu kindle[2], nos livros que ganhei de presente e nas sugestões de leitura que acolhi prontamente de amigos e amigas. De repente, no fim de um ano tão duro, achei que poderia partilhar essa beleza que me salvou um tanto.

Então, abaixo eu reúno exclusivamente os livros que li sem relação com a minha pesquisa ou com meu trabalho como pesquisadora universitária. São livros lidos por prazer. Alguns ajudaram a minha pesquisa de modo surpreendente para mim (!) e até outros projetos, mas quero deixar claro que eu não os procurei para esses fins mais utilitários. Então, assim como excluí os estudos acadêmicos, eu excluí desse texto o meu eu acadêmico rsrsrs... Trata-se de uma lista animada por descobertas, impressões, paixões, abandono, enfado, desafio e relações que eu fui construindo de forma meio selvagem, livre. Uma mulher com seu amante, o livro[3] (Clarice, Clarice...). Espero que os títulos e a tagarelice convidem os amigos, alunos, ex-alunos, família, visitantes ocasionais do blog a lerem e a investirem nessa amizade que faz a gente viver uma vida mais rica, sem ter necessariamente recebido um aumento de salário.

 

Então, senta que lá vem história!

 

O Sobretudo de Proust: história de uma obsessão literária da jornalista da RAI Lorenza Foschini foi o primeiro livro que li em 2020. Li no meu Kindle recém comprado então. Fiquei fascinada! Todo mundo sabe que eu amo o Marcel Proust, então eu amo seu bigode fino, suas luvas, seu pincenê, seu olhar triste e seu casaco, ora!! Mas esse livro é um trabalho de investigação. Li como um romance policial. Ele documenta a dispersão dos objetos do autor depois de sua morte, fala do ressentimento de familiares, da paixão de um homem (Jacques Guérin) por encontrar e reunir esses objetos e o casaco está no Museu Carnavalet! Planejei ir ao encontro de tudo isso, mas a crise sanitária me tirou a chance.

Logo que comprei o kindle, fiz a assinatura unlimited e fui explorando novidades como criança em loja de brinquedo onde é possível brincar! Depois do casaco do meu amado Marcel, li A menina da neve da americana Eowin Ivey, autora da minha geração. Nunca tinha ouvido falar. Fui atraída pela sinopse. Que livro marcante! Um casal perde um filho e foge do olhar de comiseração da família. Muda-se para os quintos, quase sem vizinhos. De repente, encontra uma criança na floresta (!), mas essa criança é uma criança livre, não pode viver com um papai e uma mamãe numa casa aquecida, não vai à escola, não corresponde ao sonho do filho perdido..., ela é só ela mesma. Fiquei um bom pedaço do livro achando que era uma criança imaginária, mas não era! Chorei horrores, é claro, com minha filha ao pé de mim. A criança cresce, torna-se uma moça, uma mulher, casa... ai, meu coração.

Depois de me emocionar com a narrativa de Eowin Ivey (que foi inclusive finalista do Pulitzer), voltei para um amor conhecido em texto ainda não lido: Anne Brontë e A moradora de Wildfell Hall. Um romance rocambolesco! Fiquei exausta de tanto ir pra lá e para cá. Talvez Anne Brontë não tenha tido tempo de revisá-lo… Narrativa dentro de narrativa, narradores… Mas se trata de um romance de paciência e eu sou alucinada por isso! Quem ama Persuasão de Jane Austen levanta a mão! Enquanto lia o romance, eu conheci o trabalho da socióloga Eva  Illouz e não pude deixar de notar (e de me entristecer) com o quanto a gente tem sido barato no “mercado”, entretanto, aquecido, das relações amorosas. Eu não falo de diamantes, colar de pérolas e carrão, você entendeu, o mercado do amor nos reduziu demais, ficamos desinteressantes, e ler romances de paciência me lembra que na literatura a gente já teve mais valor: que valia a pena lutar por nós!

Em A moradora de Wildfell Hall, há um homem que ama uma mulher que se enganou um dia e foi duramente maltratada pelo traste com quem casou. Ela foge desse traste (Graças!), mas não se sente livre, para tocar a vida amorosa, compreende? O homem que a ama de verdade espera, espera, espera, está louco de amor, é meio biruta rsrsrs e, quando ela fica livre, ele hesita: será que ela ainda se lembra...? Ai, meu coração! É claro que ela lembra!!!!!

Conversando com meu amigo Prof. Martin Aurell em Poitiers, ele me emprestou o seu exemplar de Le portefeuille toulousain, de Michel Zink. Já escrevi sobre a carreira do Prof. Zink e sobre sua aposentadoria no Collège de France[4]; ele é um autor importante para minha pesquisa. Mas eu não sabia que tinha se aventurado na literatura! Um romance leve, gostoso de ler, tem uma ironia fina. Foi meu primeiro romance em papel do ano. De uma tacada, devorei a Primavera de cão de Patrick Modiano, no Kindle; Le roi disait que j’étais le diable, de Clara Dupont-Monod e Aliénor d’Aquitaine, do amigo Prof. Martin Aurell. Papel e papel. Modiano foi um pouco decepcionante... Falei e saí correndo, pois ele ganhou prêmios importantes. O romance de Clara foi uma descoberta em que mais uma vez o amigo Prof. Martin Aurell tem culpa, uma boa culpa. Ela é ótima! Comprei 2 exemplares para dar de presente para dois amigos. Sei o que você vai dizer: mas, Marcella, trata-se de sua adorée..., então seu coração vai pré-disposto. É verdade e eu adorei o livro também!!! Depois, ganhei o livro do Prof. Martin Aurell, com dedicatória fofa. Até sonhei com a minha rainha! Então, eu tinha um romance e uma pequena biografia escrita por um grande historiador. O mundo já estava pegando fogo e eu descobri uma nesga de céu azul.

Ao longo de todo o primeiro semestre, estive envolvida com um projeto que não tinha relação com a pesquisa. Eu fazia coisas concomitantes. Inspirada por esse projeto, quis ler livros que eu tinha deixado pelo caminho e reencontrei um velho amigo. Eu tinha deixado H. G. Wells pelo caminho da vida. Ano passado, lendo com meus alunos um texto de Marc Bloch que o mencionava, me prometi mudar isso e consegui. Encarei A máquina do tempo e O homem invisível. Acho que li os dois em três dias. Simplesmente amei! São livros geniais! Depois eu descobri uma bela tese de doutorado defendida no PPGHIS da UFPR, sobre Wells[5]. Li trechos e pude enriquecer a minha leitura. Logo depois, reencontrei o velho amigo Joaquim Manuel de Macedo e a sua Moreninha. Vivi em Poitiers sonhando visitar Paquetá! Aviso: é para românticos incuráveis. Segura na minha mão e vem. Os três no kindle.

Até então, fora uma suave decepção com Modiano, sempre falando baixinho..., eu tinha gostado de tudo, com destaque para A menina da neve da americana Eowin Ivey! Um dia, li a resenha escrita por Miguel Sanches Neto do livro Benção do americano Kent Haruf. Fiquei interessadíssima. Passei a mão no kindle e... cadê??? Benção só em papel. Mas como, com um oceano no meio?! Encontrei disponível do autor o romance Nossas noites. Esta foi a primeira grande, grande mesmo, descoberta do ano! Fiquei tão encantada que escrevi um texto sobre o romance e publiquei aqui no blog em junho. Dá uma olhada. Não vou me repetir, mas é de uma doçura que eu nem sei se a gente está preparando nesse mundo tão baratinho para o amor... Saber que Haruf morreu em 2014 me corta o coração. Um dia vou ler tudo dele e me sentar meio bêbada no meio fio para chorar não ter mais.

Há um tempo, eu ouvia falar de Carlos Ruiz Zafón. Acho que minha grande amiga e irmã da vida Renata Nascimento leu a obra completa dele e tinha me dado de presente há uns dois anos A sombra do vento. Zafón faleceu este ano, em junho, então a tristeza de seus fãs me despertou: eu tinha de honrar o presente. Fiquei com dois exemplares: no kindle e em papel. Amei! Livro sobre amar os livros!!!! Mistério, Barcelona, personagens para a gente amar, odiar, ter muito medo... Não contente em ler, impus Zafón a uma de minhas irmãs, que está adorando. Mas há outra coisa nesse livro, sobre a qual já falo.

O convite de uma pessoa querida para escrever a orelha de um livro que ela organizou me revelou a obra de uma historiadora que eu não visito na minha pesquisa. Trata-se de Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke. Fiquei muito impressionada com sua carreira e resolvi me dar ao luxo de mergulhar no seu robusto e premiado Gilberto Freyre: um vitoriano dos trópicos. Foi fácil, tem no kindle! Como não estava na minha assinatura, eu comprei com dois toquinhos. Li essa biografia intelectual do Freyre como li os romances anteriores, sem grandes pretensões, mas com pré-admiração pela autora. Que livro maravilhoso! Finíssimo, bem escrito, erudito, sem ser chato ou arrogante, aliás, delicioso! E atenção: delicado... Uma coisa meio rara. Surpresa para mim: ele me ajudou na pesquisa; ele me ajudou a pensar o meu texto.

Outro presente que eu resolvi honrar foi o Par les routes de Sylvain Prudhomme. Foi presente de minha amiga Patrícia Gaspar quando me visitou em Poitiers, antes do pandemônio ou da pandemia (ou antes que pressentíssemos...), o que você preferir. Ele ficou me olhando uns meses. Trata-se da história de dois homens e uma mulher. Os homens são grandes amigos e essa amizade se espraia para a mulher, esposa de um deles. O personagem que motiva o título (tenho dificuldades de compreendê-lo como protagonista) é um homem que deixa a sua casa, a mulher e o filho periodicamente para fazer viagens de carona, pela França. Assim, do nada. Vai sozinho. Não vai em busca de drogas, aventuras sexuais, ainda que... vai porque gosta de estar na estrada. Com o passar do tempo, suas ausências prolongadas fazem com que sua esposa, o amigo e o seu filho pequeno descubram na companhia uns dos outros um milhão de sintonias, o amor compartilhado. Um dia, esse homem que gosta de se evadir some. Agora o clique: eu tenho lido há algum tempo histórias em que os personagens somem, eles se despersonalizam!... E isso desde pelo menos a tetralogia de Elena Ferrante. O que aconteceu com Lila? Em Zafón, a gente também encontra o tema e há outros romances mais abaixo que me fizeram pensar sobre personagens que somem. Não se trata de personagens sequestrados ou mortos, ok? São personagens que decidem sumir, escapar da vida que viveram.

É de Par les routes a epígrafe que escolhi para o livro que compreende parte substancial da pesquisa acadêmica que realizei este ano. Então, sem querer, esse livro me ajudou! Devo dizer, entretanto, que não gostei de uma coisinha mínima (talvez não tão mínima...) nesse romance e a razão vai ficar mais clara daqui a pouco, quando eu abordar a maior decepção do ano.

A Amazon é meio engraçadinha. Além de me oferecer meus próprios livros, de vez em quando planta ofertas, além da assinatura... Na empolgação, comprei Carta a um refém de Antoine de Saint-Exupéry. Amei! Livro sobre amizade. Fofo demais.

A maior decepção do ano foi o romance A noiva jovem de Alessandro Baricco. A sinopse do kindle me enganou. Lembra que eu disse no início que esse texto é um conjunto de impressões não acadêmicas, pessoais etc etc etc? Então, se você tem tese sobre Baricco, pule o parágrafo para não se chatear comigo. Uma jovem, quando chega à idade acertada, vai para a casa do noivo a fim de casar-se com ele. Ele não está. Ela espera. Na casa, acontecem mil coisas. Rapidinho: livros são proibidos nessa casa. Eita... Mas ela consegue clandestinamente um Dom Quixote, opa, estou gostando... É seduzida pela futura sogra, uma mulher muito bonita e misteriosa. A menina esquece o Quixote, putz, era uma falsa pista (!), a sogra se enfada e aí ela vai esperar o noivo em um prostíbulo, único lugar em que Baricco acha que ela é capaz de trabalhar! Talvez esse livro pequeno deixe alguém excitado... Mas sinceramente a cena em que a noiva senta no colo de certo personagem que não queria aquele peso é enfadonha. Você me pergunta: nada presta? O noivo é um personagem de despersonalização também. Ele fica o livro inteiro sumido, sua presença são os presentes obtusos que ele envia. Mas seria ele mesmo? Só que Baricco frustra até nisso, pois o noivo aparece afinal e vai buscar a noiva, coitada, no “escritório”... A coisinha pequena de que não gostei em Par les routes tem relação com esse meu desgosto com Baricco. Em ambos os livros, A noiva jovem e Par les routes, as mulheres estão tão disponíveis que me irritaram. Esses autores homens e suas fantasias...

Minha redenção veio com a segunda maior descoberta do ano: Júlia Lopes de Almeida. Fuçando o kindle, dei-me conta de que tinha à minha disposição vários livros dessa autora brasileira. Mas quem era ela?! Contei parte da minha surpresa em outro texto que publiquei em setembro aqui no blog. Li A Intrusa e fiquei aturdida, fascinada. Um romance que me fez lembrar da Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro, romance perturbador e que eu adoro. Em A Intrusa, um homem viúvo precisa de uma governanta, sabe que isso pode gerar fofoca..., então, para manter-se fiel a uma promessa feita à mulher morta, nem quer olhar a contratada. Trata-se de Alice Galba. Alice é uma sombra no livro, mas vai se personalizando..., o contrário do fenômeno que mencionei antes!!! Argemiro não a vê, mas sente seu perfume, acha um livro seu aberto na sala, deslumbra-se com as flores em um móvel, com o jardim, escuta o farfalhar de sua saia (farfalhar é lindo, não?), encanta-se com tudo em que ela toca na casa, encanta-se com o efeito dela sobre a sua filha! Um dia o véu que cobria o rosto de Alice revela... eu paro. Todo mundo tem de descobrir a Júlia!

Saudosa dos meus clubes do livro, li dois livros em sequência sobre clubes do livro! Ambos viraram filmes e são livros deliciosos. Boas opções para darmos de presente para uma pessoa que não sabemos se é leitora: A sociedade literária e a torta de casca de batata de Mary Ann Shaffer e Annie Barrows e O clube de leitura de Jane Austen de Karen Joy Fowler. Eu gostei mais do primeiro. Ambos, no kindle.

Minha amiga Denise Mazocco tinha lançado seu segundo livro, Peças e pensarias, em julho. Eu que tinha gostado e prefaciado o seu Primeiro voo, logo que pude comprei Peças para ler. Livro bonito, bem escrito, sobre amizade, sobre brincar com as palavras (Denise é uma linguista e para mim convida as pessoas a verem perspectivas menos óbvias na sua formação), sobre fantasia de Carnaval, sobre famílias que se transformam e aí uma delicadeza para abordar um assunto difícil na infância (só na infância?)... Ótima dica de presente para os leitores autônomos. O livro é prefaciado pela professora e pesquisadora Teresa Cristina Wachomicz, pessoa querida da Denise e minha também.

Por falar em Literatura infanto-juvenil, li O homem que não parava de crescer de Marina Colassanti com a Clarinha, a contragosto dela... Quando era pequena, líamos muito para ela. Depois que ficou autônoma, demitiu a gente. Agora, os livros estão meio de lado, eles concorrem com seus desenhos (em papel ou digitais), com suas animações, com suas conversas com as amigas, de quem ela está há tanto tempo longe... Eu continuo tagarelando sobre os livros, quase derrubo-os sobre seu colo (de propósito). Clarinha tem azar: sou mãe experiente, não desisto fácil! O livro de Marina é delicado e fala sobre pais e filhos, fala sobre amadurecimento.

E não é que a minha Júlia Lopes de Almeida escreveu um livro com um de seus filhos?! Ah, Júlia, senta aqui ao meu lado... Trata-se de A Árvore. O texto do blog que referi acima é sobre esse lindo livro! Kindle, kindle... Depois desse, li ainda da Júlia Ânsia eterna, livro de contos que me lembraram demais o Maupassant! Veja o desacerto: conheci o Guy de Maupassant antes da Júlia! Na Ânsia de Júlia, descobri contos fantásticos, contos de terror, histórias mirabolantes, cruéis e tive até medinho... Sinceridade. A Júlia me levou ao livro A alma encantadora das ruas de João do Rio. Eu fui aluna de Luiz Edmundo Bouças Coutinho na UFRJ e acho que ele ficaria feliz em saber dessa minha redescoberta.

Mas, sabe, em uma etapa cabeluda da minha pesquisa, necessitada demais, fui buscar apoio nos braços de Marcel Proust. Na verdade, não foi “do nada”... Ele apareceu em uma curiosa nota de pé de página de um autor que foi se tornando importante para minha compreensão dos trovadores: Charles Baladier. Encarei a miscelânea Contre Saint-Beuve de Proust. O livro foi parar no meu livro sobre trovadores medievais! Há lá uma nota imensa em que eu discuto uma coisa que foi o amado Marcel que me suscitou (e ao Baladier também). Match!

Um dia, minha professora de francês propôs que os trabalhos do clube do livro de francês voltassem. Lemos o badaladíssimo Boujour tristesse de Françoise Sagan. Achei interessante não pelos motivos que eu li por aí, mas por um aspecto da narradora protagonista que já vi em outros livros e na vida: ela me fala sobre o perigo das pessoas superficiais... Eu me lembrei na hora de Elena Ferrante e do personagem Nino Sarratore, um dos personagens que mais odiei nos últimos anos. Escrevi sobre isso aqui no blog, em 2017. Com minha professora, li também o breve e lindo Monsieur Ibrahim et les fleurs du Coran de Eric-Emmanuel Schmitt. Livro de encontros.

Os três próximos livros foram sugestões de uma amiga para um projeto novo, mas eu não li constrangida por isso. Li porque eu quis. Na ordem de leitura: Meus desacontecimentos de Eliane Brum, Ideias para adiar o fim do mundo de Ailton Krenak e O olho da rua de Eliane Brum. Adorei saber mais sobre Elaine Brum e esses dois livros me emocionaram muito: o primeiro uma autobiografia da relação dela com a escrita e o segundo uma reunião de suas reportagens favoritas seguida da autocrítica favorecida pelo tempo. Corajoso. Eu ri e chorei, lendo. O livro de Ailton Krenak me mostrou que eu ainda preciso saber mais sobre ele, estudar. Um convite. Ano que vem, pretendo ler mais esse autor.

O romance L’absence de Jean-Denis Bredin caiu na minha cabeça no escritório desarrumado pela minha ausência. Achei que ele me pedia então. Uma descoberta. Novamente eu me vi com a despersonalização..., com o apagamento do eu como escolha. O livro é dos anos 80, então não dá (ou dá?) para dizer que é uma coisa de agora: Ferrante, Zafón, Baricco, Sylvain Prudhomme... Eu preciso pensar mais. O enigma literário que vou levar para 2021.

Há um tempinho ganhei de uma das muitas pessoas queridas da minha vida O filho de mil homens de Valter Hugo Mãe. Eu conhecia Mãe de textos breves, aqui e ali, e por dois livros que comprei para a Clarinha e para mim: A História do homem calado e As mais belas coisas do mundo. Livros encantadores! Em O filho de mil homens, Isaura e Antonino me fizeram sofrer demais, porém infinitamente menos do que os dois penaram no romance..., mas o Crisóstomo é um desses personagens que nascem de uma esperança imprevista, que escapou do peito do escritor e que o escritor permitiu que vingasse! O livro é dedicado às crianças... Ele me “ensinou” que se a gente se sente inteiro ainda pode ser o dobro! Eu flutuei. No final, ele também me fez pensar em História, em tempo longo e em reconexão com uma história maior que nossa vida pequenina... Temas candentes para mim e que estão em vários textos que escrevi e publiquei. Tenho uma amiga que vai amar esse parágrafo sobre seu deus particular...

Este ano uma pessoa amiga lançou seu primeiro romance por uma editora que me é cara: Adriana Martins lançou Berenice da capadócia: jornada do não herói. Amanhecer, pela editora Máquina de Escrever. Trata-se de um romance histórico e de aventuras, ambientado no século IV de nossa Era. Esse é só o primeiro volume da saga. Eu gostei de como as camadas de tempo se entrelaçam no texto: a pesquisa da autora, seu esforço de ambientação (finíssimo em Adriana, que é historiadora. O livro tem ricas notas) e o tempo que se insinua pela estratégia – no autor modelo. Trata-se de um romance sobre uma moça simples que começa a vida e a narrativa como pastora na Capadócia.  A personalidade de Berenice é em grande parte moldada pelo contador de histórias Matathias, a quem ela salva e que se torna seu melhor amigo. As suas aventuras/agruras são de fato emocionantes. As violências sofridas no palácio da “perfumista” Lewellyn, a amizade com a doce Licínia, o “crime”, a vida junto aos Charmosos Maltrapilhos e depois encontrar o amor junto a Ezana... A vida de Berenice não é fácil e acho que os leitores interessados lerão um capítulo da história das mulheres no tempo, por meio de um romance bem escrito e informado. Já estou à espera dos próximos volumes, Adriana!

Li um romance inédito de uma amiga. Não posso avançar, ela ainda não publicou. Agradeço a confiança da partilha. Espero que ela possa publicá-lo em 21. Sei que é trabalho de anos, em que juntou experiências estéticas e coração.

A Bênção de Kent Harut chegou no Natal. É o último livro desse ano de leituras e peço perdão ao leitor cansado para... um pouco mais. Ainda que tenhamos trocado presentes e celebrado um nascimento à mesa em casa, estávamos machucados pela morte de um amigo bem no dia 24 (role a barra e leia aqui no blog). A leitura foi dura... Bênção é a narrativa do último mês de vida de um homem: Pai Lewis, dono de uma loja de ferragens no condado de Holt (Nebrasca), casado e pai de Lorraine e Frank. Simples, Harut vai devagar. Pai Lewis não via o filho há anos. Filho gay; filha sobrevivente de uma filha morta aos 16 anos. Pai Lewis sobreviveu também: ao antigo funcionário ladrão e depois suicida, casado com uma mulher que ofereceu a Lewis compensação do furto com um sobretudo aberto. Hã?! É isso mesmo. Vizinho de uma senhora que perdeu a filha jovem demais (também) e herdou uma neta criança demais... Amigo de duas mulheres valentes, sozinhas (Willa e Alene)... Vai devagar, Haruf. Ele sabe do ofício. Eu já tinha visto isso em Nossas Noites. Como ele nos arrebata? Vou dizer. Ele descobriu uma saída, ao retirar toda a vaidade do narrador. É como se ele deixasse os personagens na nossa frente e dissesse: conheçam-se, descubram-se, eu já volto. Mas ele está ali, atrás da cortina.

Bênção me emocionou. Talvez não tenha sido o melhor momento... Mas 3 cenas me tiraram da sarjeta literária. 3 banhos! O primeiro, tão bonito quanto o banho que Lenu deu em Lila antes do casamento de Lila (Amiga genial, de Elena Ferrante). Lorraine, Willa, Alene e a pequena Alice fazem piquenique, tomam sol e sentem calor. Há um reservatório logo ali, que bom para refrescar! É Lorraine quem se desnuda primeiro: seu corpo aos 50 anos é bonito, natural. Depois, cada uma, desde a pequena Alice até Willa. Corpos disciplinados, de repente em liberdade. Elas riem surpresas da descoberta da sua nudez. Etapas da vida de uma mulher. Quando Willa mergulha, a água desmancha seu coque de velha em um longo e farto cabelo branco! Choro. Há uma profunda comunhão ali. Não, não há nada erótico. Esquece o Baricco! Lorraine segura a mão pequena de Alice. A água está fria, a menina sente – “Meu Jesus!”. Lorraine diz: “Você tem de gritar”. Eu quero também. A pequena responde: “Filho da puta!”. Todas elas riem. Chorei outra vez. São poucas falas, o que significa que o narrador está ali o tempo todo, mas Kent é tão respeitoso que a gente nem sente o seu voyeurismo. Os outros banhos são os da despedida de Pai Lewis. O primeiro, seu corpo ainda vivo, entregue aos cuidados da mulher amada; o segundo, a filha e a mãe preparam o corpo morto do personagem. Miguel Sanches Neto também ressaltou o banho das mulheres na sua resenha.

Na manhã em que terminei Bênção, eu recebi a notícia da morte de uma outra pessoa: o marido de uma das mulheres mais importantes de minha vida. Eu pedi Bênção como presente de Natal e você pode ler essa frase de outro jeito, tirando o itálico. A leitura ficou entre perdas reais e eu não sei bem se as páginas me fizeram sofrer mais ou se Kent Harut me deu aquilo que Paul Ricoeur anteviu em Soi-même comme un autre sem “resolver” a questão, com aquela delicadeza que era a sua marca intelectual: “Quanto à morte, as narrativas que a literatura faz dela acaso não têm a virtude de embotar o aguilhão da angústia em face do nada desconhecido, dando-lhe imaginariamente o contorno desta ou daquela morte, exemplar por uma razão ou outra?”[6].

Eu abandonei uma dica de leitura de amigo: San-Antonio renvoie la balle... Isso me corta o coração. Li 1/3 da obra e não gostei. É direito do leitor abandonar, eu sei, mas é direito abandonar a dica de um amigo?! Ano que vem, eu tento pagar a dívida do coração.

São 35 livros lidos exclusivamente pelo meu prazer, sem relação com meu projeto de pesquisa. Não é uma lista descomunal. Não dá 3 por mês. Em dois meses, março e agosto, eu quase não li “outras coisas”, ocupadíssima com a pesquisa, com o acesso às bibliotecas, com as reviravoltas do mundo, com meus temores, minha saúde, minha filha – menina demais. Mas 35 livros acompanharam os meus estudos acadêmicos, a tradução que encampei, minha escrita ensaística e a escrita de uma nova história. São livros parceiros de outros, meus parceiros. Livros fuga, livros salvação... Para o próximo ano: meu enigma literário, dois livros começados em 2020 nos dois clubes do livro de que faço parte e para os quais voltei – o Romance da pedra do reino de Ariano Suassuna e La vie devant soi de Romanin Gary – e um terceiro, começado mesmo ontem, sugestão da minha querida Sofia Silva: Torto arado de Itamar Vieira Júnior. Mas esse, vou bem devagar, pois quero esperar uma pessoa. É gostoso isso: romances começados e companheiros para desbravar 2021; juntos: eu, eles e as pessoas queridas com quem os leio ou de quem me lembro em cada página, com quem converso. Livros e gentes. Acho que 2021 pode começar assim logo mais.



Feliz ano novo!





[1] A lista desses livros em particular estará na bibliografia do livro que pretendo lançar no próximo ano

[2] Há alguns anos meu ex-orientando Victor Alvim me falou do Kindle: Profe, você precisa de um! Eu, preguiçosa e burra para as tecnologias, deixei para lá. Ano passado, meu orientando Renato Toledo e minha amiga e ex-aluna Daniele Shorne me convenceram afirmando que minha burrice contumaz não me impediria de dar conta do kindle, além disso eu não podia incluir livros na minha única mala permitida para tantos meses de França... Renato me falou da assinatura e ele tinha razão. Fiz e ela se pagou desde sempre.

[3] Aludo aqui ao conto de Clarice Lispector: “Felicidade clandestina”.

[4] Em 2016: < http://literistorias.blogspot.com/search/label/Michel%20Zink>

[6] RICOEUR, Paul. O si-mesmo como outro (1ª ed.). São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2014. P. 173. Levei essa mesma questão para meu livro sobre os trovadores...