domingo, 16 de julho de 2023

Todo dia é propício para falar de bons livros: Teoria da Narrativa: uma introdução à teoria da narrativa de Gérard Genette (2022), do amigo Otto Leopoldo Winck

  

 

Separei dois livros de amigos para ler nas minhas férias sempre tão disputadas por livros. Um deles é Teoria da Narrativa: uma introdução à teoria da narrativa de Gérard Genette (2022), do amigo Otto Leopoldo Winck, editado pelo Editorial Casa (Curitiba). Otto é romancista premiado, poeta, professor universitário e ministra cursos de escrita muito celebrados na cidade; tive a honra de ter um poema seu em livro meu e ter prefaciado um livro seu, sua excelente tese sobre literatura galega[1]. Otto é um autor literário, um artista, que reflete seriamente sobre a narrativa literária. Todo mundo sabe que tem gente que se pavoneia disso e é publicada por editoras pretensamente vanguardistas. Otto deve ser invejado por esses embusteiros.   

Quando eu manifestei meu interesse por adquirir a obra, ele deve ter estranhado, afinal Gérard Genette (1930-2018) está no grupo dos teóricos que pensam a literatura apartada do mundo a que ela pertence... Mas seu estranhamento deve ter durado dois minutos, porque ele sabe que eu sou uma leitora voraz e haveria de querer saber por que ele enfrentou o desafio de apresentar essa teoria. Eu não me engano com o autor: além de apresentar de forma muito clara, Otto revisa e corrige Genette. Ousadia? Nada disso. O grande Genette não se confunde com a superpopulação de deuses e mitos reles dos nossos tempos, então, se a vida lhe tivesse permitido, haveria de ter gostado do diálogo com Otto.

Teoria da Narrativa: uma introdução à teoria da narrativa de Gérard Genette começa explicando a narratologia: como nasceu essa disciplina, entre nomes e outras disciplinas que afetaram a investigação sobre a narrativa. Trata-se de um capítulo claro e fundamental para os estudantes da área de Letras. Otto vai mostrando sintonias entre pesquisadores e especificidades do pensamento de Genette, mais afeito a “uma pragmática da narrativa” e menos a uma “lógica narrativa” (p. 19).

Otto vai perdoar eu ter colocado “rs” na margem na página 22... É que ele narra uma anedota: a “inveja” sentida por Genette de Auerbach. É a página em que me lembrei de uma sintonia com Genette – não a inveja de Auerbach... -: a paixão por Marcel Proust e o quanto a Recherche haveria de ser objeto da investigação de Genette.

Refutando dicotomias de inspiração formalista, Genette propõe o tripé da narratologia: história (conteúdo narrativo), narrativa (o enunciado) e narração (o ato produtor) (p. 23 e 24) e tira do estudo das relações entre esses elementos três conjuntos de noções sintetizadas a partir da gramática dos verbos, são elas: tempo, modo e voz (p.25). O livro de Otto tem cinco capítulos, três deles são para essas categorias.

Nesses três capítulos, o leitor vai ser testado... Sim, são anacronias, analepses, prolepses, pausas descritivas, perspectivas, focalizações... que podem desesperar. Mas não devem. Todo mundo pode ler e apreciar um texto literário, ignorando por completo o que é uma analepse interna homodiegética completiva. Pode ler o reconhecimento da cicatriz de Ulisses, sem compreender que isso é uma analepse parcial (p. 32), mas como todo campo de conhecimento - e o estudo da narrativa é um campo de conhecimento e de investigação sim! – há a prática da pesquisa que se faz por meio de teorias e abordagens (há diversas), que compreendem, por sua vez, categorias próprias que o estudioso deve procurar estudar e avaliar criticamente. Aqui está o meu real interesse pelo livro e o meu convite aos que trabalham com a narrativa (em diversas áreas), para que leiam o ensaio de Otto.

Eu não acho que a literatura brota de uma realidade suspensa do mundo em que eu habito... não existe um “cérebro extirpado” contemplando o “mundo exterior” (todo mundo reconheceu a importância de Bruno Latour para mim aqui...), a literatura integra o mundo em que os homens e mulheres vivem e escrevem! Tem outro “rs” na margem da página 79, na crítica do meu amado Paul Ricoeur... Então, eu refuto o pensamento de Genette? Claro que não. Eu acho que esses grandes pesquisadores da narrativa mergulharam profundamente na compreensão do texto, desenvolveram categorias operativas, que quem acredita que a literatura habita o mundo deveria também estudar. Então, quem estuda literatura seriamente pode se beneficiar da luz emanada por determinados conceitos pensados por esses teóricos sobre a sua leitura do texto.  

Otto Winck está muito longe de ser um leitor acrítico da teoria que ele apresenta. Ele reconhece trechos confusos e propõe revisões, como a das funções do narrador (p. 110). Ao final, entrevi a sua própria aproximação dessa teoria, na provocação de Genette escolhida para a avaliação do lugar da narratologia: “de que valeria a teoria se não servisse também para inventar a prática?”. Otto pensa e cria com a sua biblioteca.

Meu aplauso para o editorial Casa e para seu editor chefe Valdemir Paiva, por sua ousadia de publicar uma obra necessária, consciente de que ela não encontra um público amplo. A Casa se junta a outras editoras ousadas na cidade de Curitiba – e temos muitas nessa cidade! - que sabem da sua responsabilidade e fazem um trabalho importante e criativo para leitores vorazes dos mais diversos interesses pelo Brasil.

Domingo de manhã


#editorialcasa 

 

 

 



[1] WINCK, Otto Leopoldo. Minha pátria é minha língua: identidade e sistema literário na Galiza. Curitiba: Appris, 2017. 

terça-feira, 30 de maio de 2023

Eneida de Heloisa Passos: épico familiar

 

5ª feira, dia 25 de maio de 2023. O PPGHIS da UFPR viveu uma atividade rara: a união de suas Linhas de Pesquisa para uma experiência em comum. Colegas, alunas e alunos, convidados e convidadas reuniram-se no anfiteatro 1100 do Edifício Pedro I da Reitoria para ver o filme Eneida da cineasta Heloisa Passos. A qualidade “rara” teve a ver tanto com o que há de mais funcional na rotina dos dias: os horários diferentes das aulas, quanto com as preocupações acadêmicas: as especificidades de cada seminário de pesquisa e até com a surpresa gerada pelo encontro entre o previsível e o imprevisível. Na 5ª feira, dia 25 de maio de 2023, colegas, alunas e alunos encontraram-se com a protagonista do filme, Eneida Passos (86 anos), para ver com ela um filme em que suas alegrias, conversas e suas dores foram projetados para nossa surpresa e emoção, em uma sala de aula.

Uma atividade assim tem suas “horas de filmagem” invisíveis aos presentes pontuais e que merecem aqui um destaque para as que vivi com a Taturana, distribuidora do documentário, com quem conversei e de quem recebi materiais generosos e muito bem elaborados sobre o filme. Ora, a existência desse conjunto revela que o filme tinha a ambição de extrapolar a experiência de seus minutos visíveis. A exibição começou antes com a leitura do material e se prolongou na conversa depois do filme, em que contamos também com as presenças gentis da produtora Débora Zanatta e da filha mais nova de Eneida Passos, Luciane Passos. Palavras aquecidas com café.

Eneida é um documentário sobre Eneida, a mãe de Heloisa Passos. A cineasta encena a microescala italiana – tão conhecida da historiografia – para “falar” com o público sobre a sua gente, tão nossa... Mãe e filha estão em cena! Eu tive a satisfação de escrever sobre o filme Construindo pontes em 2018 que para mim, tanto quanto Eneida, conta muito sobre o Brasil recente[1]. Mas em Construindo, era o pai que passava pelas telas... Ele volta em Eneida, presença sutil na tela e de grande impacto na trama invisível que é o centro do filme.

Quando o filme começa, Eneida está em Portugal, revisitando suas próprias raízes. Eneida tem 81 anos e vai ao encontro da casa de seu pai. Depois, ela realiza seu épico para religar os ramos todos de que ela é árvore. Eneida vive a separação de uma filha e essa separação reverbera em sua família como afastamento por mais de vinte anos, entre irmãs, netos, primos, tias... sombra e silêncio. Eneida e Heloisa enfrentam a mudez dos anos, sufocada por camadas de desencontro, em busca da filha mais velha da protagonista. Eneida e Heloisa insistem, enfrentam seguranças, porteiros e rabinos. Reviram o sedimento de uma terra inundada pela alga mais tóxica para o amor: o ressentimento.

No material que estudamos sobre o filme, havia três temas disparadores: o cuidado, o envelhecimento e a reconciliação. O filme tem tudo isso. Eu gostaria de acrescentar o ressentimento e o perdão. O ressentimento é a invisibilidade mais opressiva do filme e o perdão... eu volto a Paul Ricoeur, para ele dizer uma coisa muito difícil: “pedir perdão também é manter-se disposto a receber uma palavra negativa: não, não posso, não posso perdoar”[2].

O filme Eneida também é outra coisa, ele encena o que vou buscar outra vez na precisão de Paul Ricoeur: “A fidelidade ao passado não é um dado, mas um voto”[3]. O legado desse filme é um voto. Refuto a ambiguidade desse substantivo, em contexto brasileiro de persistente divisão no almoço de domingo em nome do único sentido que interessa aqui. Na 5ª feira, dia 25 de maio de 2023, foi possível uma mesa comum.

Uma das coisas mais emocionantes para mim foi ver Eneida vendo Eneida... Ela não acredita que sua filha mais velha ou seu círculo viram ou verão o filme da sua epopeia. Eu acho que fica o voto, “o brilho dessa estrela norteadora”[4]...

Marcella Lopes Guimarães

 

***

 

Abaixo, a livre manifestação dos alunos do seminário de Cultura e Poder presentes na sessão de 25 de maio de 2023:

 

I)

Nikita Chrysan

Eneida não é apenas um filme, é uma experiência. É um convite para refletirmos sobre nossas próprias vidas, nossas famílias e amigos, os relacionamentos que vivemos, sejam curtos ou duradouros, assim como nossos medos e esperanças sobre aquilo que o futuro ainda há de nos revelar. A jornada de Dona Eneida em busca do tão sonhado reencontro com sua filha mais velha depois de mais de vinte anos, deixa o espectador ansiando pelo final perfeito que os diversos filmes e histórias fantásticas nos condicionaram a esperar desde a infância. Mas não podemos nos esquecer de que este filme conta uma história de vida, de mulheres que viram o machismo despedaçar importantes laços familiares que o tempo por si só não foi capaz de remendar, quando homens optaram pela discórdia onde o diálogo podia ter oferecido melhores alternativas. Em certo momento do filme, Dona Eneida diz ter vivido uma vida cercada e cerceada pelo machismo, não vendo formas de algum dia se livrar completamente disso, mas aos meus olhos ela já se impõe frente a seus opressores, como mulher, mãe, avó e bisavó, pela coragem e resiliência de buscar a conciliação familiar que foi inviabilizada por homens tantos anos atrás.

Como o próprio material promocional e didático do filme traz, Eneida é uma produção sobre mulheres feita por mulheres, que por meio de diversos temas nos aproxima da vida dessas pessoas, de sua dor, de suas alegrias, memórias e esperanças. Nos lembra que o tempo não espera por ninguém e que há infinitas maneiras de navegarmos por ele, mas que o perdão, o diálogo e a coragem devem ser nossos companheiros e companheiras de caminhada. O filme me fez pensar em minha própria família, tanto nas pessoas que não estão mais fisicamente comigo quanto naquelas que irei reencontrar nas férias que se aproximam depois do término deste semestre letivo, para a qual já tenho a passagem para casa comprada. Para Dona Eneida, sua filha e cineasta Heloisa e todas as mulheres de sua família, desejo toda sorte no caminho que vocês bravamente percorrem, e para minha mãe, minha eterna melhor amiga, deixo aqui meu até logo, na certeza de que este mês que me distancia de seu abraço passará tão rápido quanto o tempo que corre e guarda as memórias de todas nós.

 

II)

Dalton Iathiskoski

 

Eneida é um filme que nos faz refletir sobre as relações familiares, e não somente isso, também perante a sociedade. Assistindo ao filme pensamos sobre as ligações e os rompimentos que vivemos em nossas vidas. O quanto vale a pena uma relação? O quanto vale um rompimento? Pensar nos eventos e suas consequências desafia-nos a olhar para nós mesmos. Pois todos, em sua memória, podem lembrar-se de casos de machismo, injustiça, rejeição e abandono, seja por ouvir ou por presenciar. É impossível passar levianamente por esse filme. Em algum momento você é transportado para alguma vivência que teve e é obrigado a refletir sobre a conduta dos outros, mas também da sua. O que somos? O que nós queremos? Quem está conosco? O que ganhamos e o que perdemos? Por fim, a busca trágica de Eneida... torna-se uma busca por nós mesmos.

 

III)

Rennan Negrão

 

Eneida me tocou de maneira especial. Sua história é a história das nossas famílias, das discussões por dinheiro que levantam paredes no meio das salas das nossas casas, das palavras não ditas e que carregam expectativas que não foram cumpridas. Apesar da ruptura com uma das filhas - e com o braço da família que dela descende -, o filme mostra de maneira muito sensível a relação de Eneida com seus netos. Os netos dão aos avós a oportunidade de renovar as relações de afeto. É um amor demonstrado de maneira diferente. Eneida, nesses momentos, é avó. As interações com os netos nos colocam diante de dois problemas que estão dentro das nossas casas. O primeiro é o envelhecimento, e o cuidado que não relega aos idosos da família o lugar de apartamento, reservado às pessoas que, como objetos, vão se tornando obsoletas com o passar do tempo. O segundo problema, que atravessa o filme todo, são as relações de gênero; a vulnerabilidade masculina é apresentada em um único momento, quando a avó está barbeando o neto Bruno. A relação com os netos é o lembrete que, apesar do seu drama, essa é a família que Eneida possui*. O filme também nos relembra da importância daqueles que ficam do lado de cá após a ruptura, daqueles que tentam uma reaproximação, que querem reatar os laços. Novamente, essa é a história das nossas famílias.

 

*Assistimos ao filme na presença de Eneida, a protagonista, e sua filha mais nova. Ao final da apresentação, ambas saíram em direção ao toilette, e eu estava atrás, no corredor. Ao ver a mãe emocionada, a filha a abraça e diz: “Mãe, olhe tudo o que você tem, a gente, seus netos…”.

 

IV)

Danilo Rodrigues Silva

 

O filme na sua parte final expressa aquilo que nós usualmente concebemos como o derradeiro não desejável, aquilo que não esperamos e não queremos em um filme e muito menos nas nossas vidas, talvez por estarmos acostumados com a idealização da vida no cinema, a idealização de tudo aquilo que anelamos mas não encontramos nas nossas relações familiares e sociais. Eneida, obra de excelência em transpassar para além da tela aquilo que nós enquanto grande público não toleramos que nos seja despertado, sem subterfugio de algum clímax dramático da trilha sonora subjacente ás imagens, não faz avivar na consciência necessariamente aquilo que nós queremos; faz avivar o “nós” demasiado humanos, o “nós” sem muitos outros horizontes a não ser aquele da grande dor do passado, aquela que levamos ao futuro. Não se detendo apenas na rigidez da vida, o filme também aviva o “nós” amor, o incansável esperançoso. A obra não é a descrição de uma história com uma conclusão encantada e positiva para depois de um dia de muito trabalho, corrido, que nos retire á consciência para sermos lançados ao mundo das quimeras, não é uma história feita para termos boas emoções e relaxarmos depois do cansaço, ele é expressão cinematográfica das relações humanas como elas são, demasiado humanas, não necessariamente certas ou erradas eticamente, mas indomáveis pelos sentimentos.

 

V)

Raoni Paes Peres

 

A percepção da brevidade que contém toda vida muitas vezes nos traz reflexões aguçadas sobre como nos relacionamos com os que nos são importantes; certamente a força motriz de muitas reconciliações. No entanto, nem sempre temos o poder de mudar o curso de rupturas nas relações interpessoais como gostaríamos, algo com que muito podemos aprender, como demonstrou Eneida. Ao contrário de um mero conformismo, entre intenções materializadas em ações e a dose certa de estoicismo, encontramos também um conforto – o de viver intensamente sem adiar sonhos, convivendo com objetivos que não pudemos atingir, sem transformá-los em uma condição vital. Reconciliar é muito importante, e viver, mais ainda.

 

VI)

Mariana Megel

 

     O que foi Eneida para mim? Uma enorme reconciliação. Sou tecnóloga em gastronomia, estudante de nutrição e mestranda em história, porém, essas três faces do meu eu não andavam ressoando em consonância por aqui. Com essa inquietação, busquei transbordar a narrativa do filme através da alimentação. Enviei uma mensagem e um e-mail para a Heloisa perguntando se haveria alguma comida que fosse cara para a Eneida e a família delas e, para minha felicidade, dias antes do evento do PPGHIS fui presenteada com a receita do bolinho de polvilho da mãe da Eneida. Foram três testes na cozinha da minha casa até conseguir um resultado agradável e que me falasse ainda de boca cheia “é isso”. Reproduzi a receita com a intenção de que no dia 25 de maio de 2023 todas as conversas a mesa da família Passos estivessem presentes no anfiteatro 1100 do Edifício Pedro II. No entanto, não esperava que a partir disso as minhas três faces celebrariam juntas aquele momento. Eu celebrei naquelas 4 horas o fim da minha tripartite e a minha reconciliação. Finalizo dizendo que ainda não encontrei palavras suficientes para agradecer o fenômeno que é Eneida, mas usando da simplicidade, muito obrigada, Eneida.

 

(depoimentos enviados entre 28 e 29 de maio de 2023)

 

***

 

Eneida vendo Eneida, no anfiteatro 1100

 

 

 



[1] http://literistorias.blogspot.com/2018/05/construindo-pontes-de-heloisa-passos-um.html acesso em 29 de maio de 2023.

Achei uma dissertação sobre Construindo Pontes, que não li, defendida em 2021: http://ppgcineav.unespar.edu.br/dissertacoes_defendidas_new/2021/Dissertao_ThaiseJorgeMendona_PPGCINEAV.pdf acesso em 29 de maio de 2023. 

[2] RICOEUR, Paul. A memória, a história e o esquecimento. Campinas: Ed. da Unicamp, 2007. p. 489.

[3] Idem, p. 502.

[4] Idem.

segunda-feira, 24 de abril de 2023

O tempo existe

 

20 de abril de 2023, aula inaugural do Programa de Pós-Graduação em História (PPGHIS) no anfiteatro 100 do edifício Pedro I da Reitoria. Anfi cheio: alunos das quatro Linhas de Pesquisa, alunos da graduação atraídos pelo tema e pela divulgação que fizemos nas redes e professores do Programa. Quando o convidado chegou, o anfi já estava ocupado, a equipe de gravação apostos, texto de apresentação passado. Ele entra, sorri, recebe abraços, abraça. Ele é Sérgio Odilon Nadalin.

O anfiteatro 100 é uma de suas muitas salas de aula, em 6 décadas de ocupação como aluno e professor das salas dos dois Pedros do complexo da Reitoria. Sérgio tinha sido convidado para abrir ou fechar – o que ele quisesse! – o evento dos 50 anos do PPGHIS, mas sua saúde não lhe permitiu aceitar.  On line? Ele queria presença, todos queríamos depois de dois anos de distância. Dia 20 ele voltou ao seu ambiente. Entrou, sorriu, foi abraçado e abraçou.

O tema foi sugestão dele – “Memórias: o tempo e a história”, e ele começou com a sua conhecida provocação: “o tempo não existe”. Ele não queria fazer graça, embora tenha conquistado sorrisos e risadas com seu humor elegante. Sérgio falou de suas inquietações ao longo da carreira, de suas pesquisas, de como foi mudando o entendimento desse “O tempo não existe” para o tempo existe… Ele construiu uma aula articulando proposições: o pesquisador, seus interesses, experiências pessoais, profissionais, a UFPR, a Escola de Altos Estudos na França… Sérgio falou da dificuldade de explicar a conjuntura de Braudel a seus alunos, falou dos conceitos basilares de suas pesquisas, explicou geração, ciclo vital, desenhou no quadro… vaga-lumes, pirilampos, estrelas… Deteve-se em geração. Eu haveria de insistir por minha vez, quando o questionei ao final.

Quando ele começou a falar, pediu desculpas pela voz, um pouco rouca, de fato. Talvez menos habituada aos cursos presenciais. Não demorou muito tempo, porém, para as cordas vocais lembrarem de onde estavam: no corpo do Professor Sérgio, o corpo na universidade. Ele falou sem microfone ao longo de noventa minutos para um anfiteatro cheio e sua voz foi plenamente ouvida. Posso provar, estava na penúltima fila, ao lado dos meus alunos.

Coisas delicadas aconteceram na tarde de 20 de abril. Ana Paula Vosne Martins, coordenadora do PPGHIS, sintetizou o currículo de Sérgio na apresentação e deslumbrou os alunos com a leitura de uma trajetória acadêmica exitosa. Sérgio segue sendo pesquisador do CNPq, no nível mais alto, próximo aos 80 anos de idade. Mas Ana fora sua monitora quando cursava História na UFPR, brincou que talvez ele não se lembrasse disso. Ali, sentados lado a lado o tempo se embaralhou, mas não se confundiu: a menina de antes é hoje a historiadora que coordena os trabalhos no Programa em que Sérgio atua. Ora, é sua chefe! Ela não se fez de rogada, fez a última pergunta, provocou-o.

Sérgio foi honrado com debate. Sua colega Marion Brepohl queria ouvi-lo enfrentar Braudel. Ele enfrentou. Reconheceu a importância, declarou redirecionamentos... Deu uma das melhores razões que já ouvi para estudarmos teoria: como toca piano de ouvido há anos, um dia sentiu que lhe faltava técnica para fazer o que queria.

Achei que Sérgio estava comovido e aí não sei se foi a emoção ou o tempo... que me permitiu observar uma outra delicadeza.  Em alguns momentos, Sérgio parou para pensar e continuou as frases sem pressa. Havia preparado um texto, as folhas estavam lá; nitidamente lia e refletia sobre o que tinha escrito, ali diante de nós; lia e falava olhando para nós, explicava; imagino seu cérebro conversando em diferentes níveis: consigo mesmo, imaginando se o que tinha escrito estava claro, estava apropriado e tudo isso fez com que a plateia – vou chamar assim mesmo – compreendesse que a vida desafia o ritmo em sua ambição de intervalo regular de tempo. E aqui não falo como musicista, o que não serei em qualquer tempo, mas como alguém que reverencia os blocos (des)iguais do compasso. O tempo existe e não para.

 

21/04/2023


Sérgio e seus vagalumes, ou pirilampos, ou estrelas... acontecimentos.

 

 

segunda-feira, 6 de março de 2023

Uma receita que é também um modo de lembrar (5 anos, em 5/3/2023)

 

Há 5 anos, o coração do meu pai parou de bater. O coração ambíguo dos Guimarães: forte na intenção e frágil entre socacos da fisiologia e das escolhas da vida. Meu pai acreditava que adentraria em uma outra vida e eu espero que sua crença tenha encontrado uma resposta ainda mais bonita que a sua esperança. Nesses 5 anos, a memória do seu passamento foi vivenciada por mim e por minha mãe com a tradicional marcação de missa e ponto na Igreja. Este ano isso não me passou pela cabeça. Estou brigada com a igreja em que me criei? Brigada não é palavra precisa, mas o fato é que tive uma outra idéia e, ao encerrar o dia, com uma serenidade rara, acho que acertei, sem acumular dívidas. Esse texto é sobre memória e tempo.

Ao longo da semana, encasquetei de preparar a carne assada dele e, como minha mãe está hospedada em minha casa, recuperando-se (bem) de um problema de saúde, pedi a ela que fizesse no almoço do dia 5 a sobremesa favorita dele: manjar branco. Já preparei a carne assada de meu pai muitas vezes, mas é fato que, desde que ele se foi, não tinha voltado à receita. Bem, voltar à receita talvez seja demasiado..., nunca houve receita em papel. O que sempre houve foi a observação de um modo de fazer.

Papai gostava de cozinhar. Seu repertório era modesto, mas suas poucas especialidades eram de fato únicas em matéria de sabor. Sua carne assada era imbatível e os bifes à milanesa, creioemdeuspai... Ele me ensinou de forma mais detida os bifes à milanesa e sua técnica de congelamento e descongelamento, que utilizo com respeito e confiança. Mas a carne assada..., era mais reparar nele.

Sua carne assada leva 4 horas para ficar pronta. Não 3 horas e meia; não 3 horas e 45 minutos; não 4 horas e 15; 4 horas e fim; e não existia panela de pressão para facilitar. Papai considerava uma concessão (absurda) à preguiça recorrer à pressão. Colocava obviamente o feijão na pressão, mas a sua carne, jamais. Essa carne era meio que o papai. Nunca vi meu pai de preguiça. Acordava cedíssimo, dormia cedíssimo, lia muito, estudava outro tanto. Quando tinha casa com jardim, arrancava matinhos invisíveis. Quando se mudou para o pequeno apartamento de Teresópolis, as paredes eram mais brancas que véu de noiva; a gente não andava por lá, flutuava sob seu olhar vigilante de poeiras impossíveis. Aposentou-se e vivia absorvido por tarefas.

Papai gostava de alcatra e gostava de incluir uma linguiça na peça, bem no meio, e isso sempre deu um gosto muito especial ao prato. A carne dele é uma carne de panela. Papai a preparava em pé, colocava água aos pouquinhos, uma coisa impressionante de paciência de Jó. Jogar um monte de água também não se punha! Coisa de preguiçoso. E ele ficava ali, de pouquinho em pouquinho. No calor, sem camisa, um 4 com as pernas levemente arqueadas. Papai tinha 1,80 m de altura, era um senhor cozinheiro com seus copinhos: o de água para refrescar a sua carne e o de coca/cerveja/vinho para molhar a garganta. Ele falava enquanto preparava. Conversava. Narrava. Conversava quando queria ouvir o público; narrava quando queria apenas ser ouvido. Na última hora da carne, ele incluía batatas. Se eram muito grandes, cortava-as apenas ao meio; se médias, iam inteiras. Virava a carne na metade do tempo do preparo, então só uma vez. Esse é o segredo da integridade de suas batatas.

Papai não gostava de salada nenhuma. Sua carne era a sua maravilha, que admitia a companhia das batatas, do arroz branco e do feijão preto. Nós, de vez em quando.

Nunca vi meu pai temperar a carne, sei que o fazia com antecedência. Mas o que colocava? Eu fiz várias tentativas ao longo dos anos com resultados mais ou menos próximos. Este ano pedi ajuda. A ajuda é presente, um futuro que meu pai não teve acesso.

Minha companheira é uma exímia cozinheira e esse ano reuniu mais ajuda para reconstruir a possibilidade de um tempero que ela nunca provou, engajada no desejo de partilhar a minha memória. Fez ligações, escreveu mensagens. Minha sogra entrou em jogo. Sugeriu. Os tempos desencontrados na vida ordinária, mas encontrados na minha vida se juntaram todos para fazer o almoço de hoje. Começamos na véspera, na salmoura, nos temperos da peça de posta vermelha que precisou ser refeita! Constrangido pelo hábito no estabelecimento, o açougueiro temperou... Pedi desculpas, mas esse prazer/tarefa tinha de ser meu, nosso. Sem preguiça.

Minha mãe também começou e terminou na véspera. O manjar precisa descansar na geladeira. Nem todos apreciam ameixa, então tivemos duas caldas. A leve intolerância à lactose de mamãe impôs outros leites. A textura mudou. Papai apreciaria? Eu repeti três vezes a sobremesa.

Às 9:00 de hoje, comecei a carne. Sem coca-coca, sem cerveja, sem vinho, com chimarrão. Quê?! Quando me dei conta, ri. O aroma da erva em contato com os aromas exalados da cebola, da sálvia, do louro, do vinho branco... mudariam o resultado? Trouxe a poesia portuguesa e um ensaio para me fazer companhia, enquanto vivi a paciência de Jó do copinho. O ensaio se intitula Lápide e versão[1]. Achei tão curiosa a minha escolha! Papai não fazia duas coisas ao mesmo tempo; eu faço inúmeras e não tenho orgulho.

4 horas. Comida de 4 horas não se faz pra qualquer um. Em um domingo hesitante ou performático, a depender do juízo de valor que meus raros leitores vão fazer da chuva e do sol ao longo de todo o dia (!), exigi da filha que ao menos trocasse o pijama para o almoço. “Não precisa roupa de sair”, mas eu não sentaria à mesa do almoço de pijamas com meu pai...

Eu servi. Mamãe primeiro. Papai servia. Não rezamos, brindamos à sua memória. Uma parte do tempo à mesa foi conversa, memória; outra, apreciação do quão perto cheguei do sabor original graças à participação de pessoas que só conhecem meu pai por fotografias, pelas ondas no meu cabelo, pela minha risada, pelo (tamanho) do meu nariz.  

A carne assada do meu pai é um modo de falar do meu pai no presente. Ao meu lado direito, entre aérea de sono domingueiro e faminta da carne, estava o futuro dele, meu, o tenro ramo florescente da nossa árvore. Cachos, a negra cabeleira, negros olhos... nariz surpreendente! Um caracacá veio pousar nos seus ombros para desenhar possibilidades imprevistas para mim. Comeu rápido. “Dá licença”. Toda. Um dia, o desejo dela pela memória pode me fazer companhia nessas 4 horas. Ou não.

A carne assada do meu pai é um modo de falar. Um modo do meu pai.


[1] Do meu mestre e amigo Jorge Fernandes da Silveira. O livro é sobre a poeta portuguesa Fiama Hasse Paes Brandão.

Nós três há tanto tempo... 2011! Depois dessa, nunca outra.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Estou com quase 50 anos e não preciso de socorro. Obrigada!

 Estou com quase 50 anos e não preciso de socorro.

 

Fiz 49 anos ontem e estou há meses escrevendo esse texto dentro de mim. Outro dia, entrei no tema a propósito do meu cartão de felicitações a Lula e Janja pelo casamento[1] e saí. Dei uma volta. Alguns dos sentimentos que reúno aqui são, porém, mais antigos, de quando comecei a usar óculos de leitura, por exemplo, aos 44, ou quando começaram a ficar visíveis aos outros os primeiros fios brancos, e eu comecei a ser perguntada sobre quando iria tingi-los. Olhando minhas fotos com 40 anos, cabelos mais curtinhos que agora, eu vejo os fios sutis, lado direito, então foi antes dos óculos!

Mas, sem sombra de dúvida, nos últimos dois anos, sinto um movimento maior de resistência à tranquilidade com que eu resolvi encarar o passar dos anos, sem (por enquanto) investir em cirurgias plásticas, tintura nos cabelos, botox ou outros tratamentos. Antes que você anteveja que eu caí na armadilha dos contrários, ora, se fosse para julgar minhas amigas que fizeram/fazem tudo isso, eu nem perdia o seu tempo de leitura..., leu o meu “por enquanto”? O meu problema – não é só meu, porque não sou exceção – é que a minha tranquilidade e a de outras mulheres “relaxadas” têm incomodado.

Eu sigo duas mulheres da minha geração no instagram – uma psicóloga e outra jornalista – que têm abordado bastante as diversas faces do etarismo. Porque é disso que se trata: do preconceito contra o tempo que passa pelo corpo, deixando marcas visíveis, e pela identidade civil das pessoas. Mas, perdoem, sobretudo pelo corpo e pela identidade civil das mulheres. No caso, relaxada pode não significar estar tranquila...

Como o etarismo tem se mostrado para mim? Nos últimos dois anos as pessoas – de gente muito próxima, família mesmo!, amigos, amigas, até gente que reencontrei depois de um tempo – passaram a me achar mais jovem. Oi?! Sim, elas me dizem: - Você parece mais jovem! (ou) Você rejuvenesceu! A área construída do sorriso delas no próprio rosto me dá certeza de que elas julgam que estão me fazendo um baita elogio. Estou imaginando daqui a surpresa de gente que já me disse/estava pronta para me dizer isso lendo... Está claro para todo mundo que ficar mais jovem não é possível? Pior: que a declaração não é um elogio?... Igualmente esquisito é me lembrar que, quando eu era mais jovem, parecia mais velha, “responsável” demais, olha a relação! Eu e outras mulheres – “maduras na juventude” e “moças na maturidade”, para os outros, é claro... – estamos com o tempo contato!

Mas parece que, quando se quer elogiar uma mulher, essas coisas escorrem da boca. O tempo funesto dela/nela. Não escorre assim quando o alvo são os homens. A gente até pode dizer que ele rejuvenesceu, mas não raro seus cabelos brancos, a firmeza dos traços de expressão, as rugas... tudo isso é um charme! A gente se desvia. Há alguns anos eu escrevi um texto sobre o homem mais bonito do mundo para mim[2]. Hoje, o modelo Paul Mason tem 60 anos e... você quer saber se eu continuo a achá-lo o homem mais bonito do mundo? Gente, o Papai Noel é lindo!

Quando eu comecei a “fugir” da tinta, minhas irmãs combinaram de maneira galhofeira de pintar meus cabelos na marra, ou quando eu estivesse dormindo. Elas desistiram das duas coisas: de me demover e de me obrigar. Semana passada, minha tia querida, que me ama apaixonadamente, me perguntou cheia de carinho, se no dia 6 de fevereiro eu ficaria mais jovem. Piscou o olho. Eu corrigi olhando por cima dos óculos: - Não, tia, mais velha mesmo. Sempre Phina.

Se a tranquilidade incomoda e desperta desejos galhofeiros nas irmãs, sob o olhar cúmplice das mães, isso não é (quase nada) até a relaxada decidir namorar ou casar de novo e... com alguém mais jovem! Grita! Amiga relaxada, não importa se você vai casar com um homem (ou talvez...) ou com uma mulher. Hoje, isso é o de menos (quando já foi de mais, eu sei!). Mas... você não será perdoada, de qualquer jeito.

Vamos para a família: ninguém vai te cumprimentar, todo mundo vai “ficar preocupado/a”. Afinal, do lado de lá: você é a sedutora; do lado de cá: você é a incauta. Vamos para os amigos: 1) felicidade aturdida, não sabem se estão alegres ou confusos; 2) revolta calada ou esbravejante; 3) carinho e compreensão (raros, todavia poderosos!). Vamos para os conhecidos: - que é que tá acontecendo?! As pessoas da rua: - É sua mãe? (ninguém pergunta para um homem se ele é o pai da mulher..., mas uma mulher mais velha sempre será a mãe dos outros, ou a tia!). As pessoas vão usar muitos formatos para a própria confusão: as mais delicadas vão abordar todas as diferenças do repertório particular e vão evitar a palavra idade; as indelicadas vão te fustigar com os próprios traumas. Porque se é uma coisa que, mais cedo ou mais tarde, a gente descobre no divã é que não é com a gente. Só que, é claro, é a gente que recebe todo esse conteúdo edificante! Uma das bordoadas a que tive acesso em minhas pesquisas sobre o tema trazia uma (única) frase sobre o alvo, interrompida pelo fluxo de consciência à Virginia Woolf! Você provoca: e isso fez sofrer alguém? Pára com crítica literária, amiga, é a vida. Fez sofrer muito.

Sempre pode piorar. E se você quiser ter um filho? Olha para a Claudia Raia! Vai redarguir que ela escondeu o tratamento, e eu também achei desnecessário. Acho que perdemos a chance de falar sobre outro drama que fustiga nosso coração e nossos corpos (e bolsos!): os tratamentos para engravidar. Todo mundo tem uma opinião (péssima) para dar. No caso de Cláudia, sobre o que mais se falou? Que ela tem 55 anos e vai ter um bebê. Não pode... O corpo das mulheres.

O corpo das mulheres é um terreno de disputas. Parece frase que alguém escreveu antes de mim. Talvez. Talvez eu tenha aberto uma gaveta, ou percorrido os escaninhos da memória e a tenha lido lá, entre um volume e outro de Paul Ricoeur. O fato é que, quer minha amiga tenha decidido investir na cirurgia plástica depois de um parto difícil, quer porque acha importante por uma razão toda sua, quer eu esteja calma com os “bigodes de chinês” – que expressão é essa, meu Deus?!?! –, quer você tenha se apaixonado e esteja sendo correspondida, respingando alegria por todos os lados e queimando a cara dos outros, quer acalente o sonho de gerar um filho (ou mais um!), todo mundo vai achar que tem de dar uma opinião e eu, que tenho ouvido opiniões travestidas de elogios, ouvido/lido os fluxos de consciência, as ameaças aos cabelos... vou achar que continuamos a fustigar muito nossas irmãs.

O conteúdo “edificante” é partilhado por homens aturdidos também. Estão tão acostumados aos sacrifícios das mulheres que não compreendem o próprio tesão pelas relaxadas, elas precisam ser contidas! Seus pelos no corpo, o cheiro natural de quem vive, o sorriso sem batom, o cabelo sem escova, que voa (!), inaceitáveis. Mas nossas irmãs partilham conteúdos e, não raro, com mais requinte. De crueldade, claro. Sabe o “é sua mãe?”. As mulheres miram essa jugular.

Tenho me perguntado/me preocupado/me consagrado de maneira incessante a um plano imenso: como educar a minha filha para não fustigar, para não aceitar ser fustigada, para não aceitar que fustiguem suas amigas e para cicatrizar depressa, se por acaso – como eu muitas vezes... – estiver distraída? Tenho conversado com mulheres. Eu ouço as mulheres e somos muitas interessadas em parar de machucar as outras. Somos muitas interessadas em não permitir que outros machuquem.

Precisamos retirar o etarismo travestido de elogio do meio da sala. Se quer elogiar, seja mais ousado/ousada ou mais inteligente. Repare. Se não quer e estiver morrendo de vontade de ser desagradável, corra atrás do próprio rabo. Busque ajuda.

No meu grupo de corrida, uma das mulheres mais fortes é a mais velha. Não tenho o seu pique. Sou sincera. Mas sempre que posso tento treinar com ela. Eu reverencio meus mestres e a cada ano saúdo o tempo que compartilho com eles e elas. Presente. Presente é o oxigênio que entra pelos mesmos corpos de todas as idades, em todas as partes do mundo. O tempo é uma companhia. Não há bicicleta sem marca no joelho, não há sopro de velas em bolo de aniversário (ou levitando no bolo, novidades da crise sanitária...) sem careta, boca franzida, não há ódio sem aperto no olho, gargalhada sem festa na cara, marca... eu digo e ela (não) acredita: ela é bonita demais.  




[2] Texto publicado aqui no blog em 12 de dezembro de 2016. Disponível em: <http://literistorias.blogspot.com/search/label/Paul%20Mason

6/2/2023, foi bom demais!