segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Sobre essa experiência intensa que é ler Elena Ferrante – A Tetralogia

Para minhas amigas geniais

Comecei a ler a tetralogia de Elena Ferrante (A amiga genial; História do novo sobrenome; História de quem foge e de quem fica; História da menina perdida. Trad. de Maurício Santana Dias. São Paulo: Biblioteca Azul, 2015-2017) dentro do clube do livro consagrado a Marcel Proust. Um dos membros, Raphael Lautenschlager, em um café da manhã do clube, contou-nos a história do primeiro livro e eu fiquei fascinada. Poucas semanas depois, duas amigas minhas faziam aniversário. Achei que oferecer A amiga genial era uma boa chance de garantir que, depois que a primeira das duas terminasse, eu pudesse também ler a obra e discuti-la com elas. Dei os volumes, mas não aguentei esperar e em um fim de domingo corri ao shopping atrás do livro. Ler o primeiro volume ao mesmo tempo em que lia Proust foi uma experiência maravilhosa e só confirmou (não que o fato precisasse) o quão benéfico é ler várias coisas ao mesmo tempo! Acho que, desde que me tornei uma leitora, eu leio vários textos ao mesmo tempo. Mas ler Proust e Ferrante juntos foi confrontar ritmos diferentes até o paroxismo e me fascinar com essa diferença gritante. A princípio, pensei que, enquanto em Proust às vezes nada acontece ao longo de várias páginas que nos arrebatam entretanto, em Ferrante, os acontecimentos nos envolvem em um ritmo alucinado. Mas isso era uma falsa pista e depois descobri que os acontecimentos, eles são sim abundantes no texto dela, não são exatamente a diferença, mas sim a forma da sua exteriorização. Em Proust, os mais importantes eventos são o seu impacto sobre o narrador e a sua reflexão sobre eles, sentamos à frente de Marcel (sim, o narrador também é Marcel...) para ele nos explicar e ele nos explica bem; em Ferrante, é como se adentrássemos os palácios de Menelau[1], se ele tivesse habitado algum dia a Nápoles pobre e violenta onde nasceram Lila, Lenu, Enzo, Nino, Antonio, Stephano, Alfonso... Não piscamos. A narradora Lenu tem uma câmera no ombro; seu texto é urgente, pois enquanto “caminha” as cenas se sucedem. Ela não usa perífrases (mesmo levando em conta a robustez dos volumes), sua sintaxe é direta; suas frases são curtas. Quase não há circunlóquios e como tudo é urgente, às vezes não sobra muito tempo para um real empenho de compreensão.
Mas fora do texto – de Ferrante e de Proust – aconteceu um fenômeno interessante enquanto eu lia. À medida que eu relatava nas redes sociais meus percalços de leitora/de leitura, eu descobria outras pessoas tomadas pelo texto de Ferrante. Eu usei o verbo tomar, mas poderia ter usado possuir, pois em alguns momentos fui possuída pelo texto e pressenti que mais gente se sentia assim. Eu li a tetralogia vorazmente, mas houve dois momentos em que precisei parar. Precisei parar, porque a minha personagem adorada (acho que de todo mundo: Lila) começou a sofrer coisas desmedidas que, por conta do texto e da sua possessão, me trouxeram um sofrimento muito real. A segunda parada durou oito dias. Nesse intervalo, entreguei-me a Marcel Proust e à corrente que conheço bem, há quase dois anos lendo os volumes de Em busca do tempo perdido.
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A tetralogia de Elena Ferrante vai agradar aos leitores que gostam de textos em que julgam que a História e a Literatura estão imbricadas. Emprego “julgam” porque a História sempre está na Literatura, a despeito dos formalismos, e ela está na sugestão, na relação de ideias única, nas metáforas e em tudo aquilo que é tão sutil e miúdo que sobrepuja, entretanto, qualquer alusão explícita aos acontecimentos de uma determinada época. No caso da tetralogia, a relação entre História e Literatura deve ser buscada muito além das datações explícitas e da referência a fatos sucedidos (que existem para o deleite dos que valorizam isso), e deve ser encontrada na maneira como essa narrativa é construída, a partir da narradora feminina. A voz do texto é muito contemporânea. A maneira como afirma e o que afirma foram conquistas difíceis: a conquista de afirmar. Quando a narradora declara:

“Por mais que agora eu escrevesse e falasse a torto e a direito de autonomia feminina, não sabia prescindir de seu corpo [do corpo de Nino], de sua voz, de sua inteligência. Foi terrível ter de confessá-lo, mas eu continuava gostando dele, e o amava mais que a minhas próprias filhas” (História da menina perdida, pág. 91).

O que está escrito aí é que uma mulher que escrevia e palestrava sobre o feminismo não podia deixar a cama de um homem que fora amante de sua melhor amiga e que colaborou para o desespero, e quase ruína, desta. O que está escrito aí é que uma mulher podia viver sem as filhas e periodicamente até as esquecia, na cama desse homem. A tetralogia não é recomendada a quem tem estômago fraco ou a quem se apressa em julgar a literatura segundo as suas “superiores” formas de viver. O que há nesse texto de extraordinário – e estamos falando de literatura! – é a coragem de afirmar. Isso é uma conquista estética e histórica.
São quase cinquenta anos na paisagem, na vida e no corpo das personagens. Das meninas com suas bonecas favoritas, passamos às transformações da puberdade, o crescimento dos seios, a menarca, a descoberta do desejo; ao amor; aos casamentos; aos estudos; à gravidez, os filhos; aos choques matrimoniais, as separações, reconfigurações afetivas, à maturidade, ao envelhecimento. Mas Ferrante não separa o público do privado. Está tudo misturado na vida de Lila e Lenu. O poder de D. Achille e dos criminosos Solara é enfrentado por Lila desde a infância: na demanda pelas bonecas Tina e Nu e na reação contra o assédio dos irmãos Marcello e Michele. Enquanto Lenu se afastava do bairro, ampliava seu próprio mundo, as mulheres percorriam com ela um caminho de possibilidades mais largas no contexto. Ela é parte disso. Mas Lila fica, porque as oportunidades estão muito longe de serem democráticas naquela Itália dos anos 50 e 60...
Na vida adulta, o início da era da informática em que estamos, da extraordinária transformação que os computadores operaram em pequena e grande escala abarcando toda a nossa vida, também afeta o bairro! É Lila quem aprende a lidar com eles, que monta mesmo uma empresa e ganha dinheiro, sem ter jamais concluído o 5º fundamental... Ela que escreveu um livro na infância, que abismou a professora com sua inteligência(!), só não conseguiu mover-lhe a generosidade. Essa professora Oliviero... Há uns professores desagradáveis na tetralogia.
A corrupção atravessa a obra. A grande corrupção do Estado, as falcatruas, desvios de verbas que comprometem personagens que vimos crescer, como Nino, ou personagens que julgávamos ilibados, como o Prof. Airota, sogro de Lenu. A corrupção também está no bairro, nas relações e crimes dos Solara. Está na fábrica de embutidos de Bruno Soccavo, constrange as mulheres assediadas pelo patrão, pelos colegas, Lila...
Em meio a tudo isso, não esperem de Ferrante o encômio das esquerdas. Não sabemos jamais se o marceneiro comunista Alfredo Peluso realmente matou D. Achille, nem por que o teria feito; mas vemos seu filho Pasqualle assumir a luta armada, envolver-se com a esquerda letrada na pessoa de Nadia Galiani e ser por ela finalmente traído, depois que ambos são presos. Fica claro que Nadia vai se livrar, com uma lista de delações, que implica mesmo esse personagem que admirei tanto, Enzo. Mas Pasquale não sai elogiado, ele se perde no texto.
A Itália de Ferrante me pareceu tão próxima de repente...:

“Mas depois a situação se complicou. Uma corrupção de longuíssima data – comumente praticada e comumente sofrida em todos os níveis como norma não escrita, mas sempre vigente e das mais respeitadas – veio à tona graças a uma repentina inflexão da magistratura. Os meliantes de alto coturno, que a princípio pareciam poucos e ineptos que foram flagrados com as mãos nas arcas, se multiplicaram a ponto de se tornarem a verdadeira face da coisa pública.” (História da menina perdida, pá. 432).


Ferrante, é mesmo a sua Itália literária?
A violência é grande na tetralogia. O sangue. Falei que quem tem estômago fraco não deve ler. Pessoal, no primeiro volume, Fernando Cerullo, o pai de Lila, arremessa a filha pela janela!! Nenhum agente do juizado de menores vai bater à sua porta... As surras, tapas, feridas, violência sexual doem em nossos olhos. O que é noite de núpcias de Lila?... Ou mesmo de Lenu (embora muito mais branda)? Compreendo que a dedicação ao corpo das mulheres em que se destaca Nino tenha virado a cabeça dessas amigas... Compreendo, amigas. Ainda que, cá entre nós, eu tenha odiado esse personagem com toda a minha energia de leitora e mulher.
Há, portanto, uma profunda e bem realizada conexão entre o público e o privado nessa obra, graças à narração. Lenu é uma escritora de sucesso e é ela quem “escreve” a história! Sim, toda a tetralogia é um empreendimento de escrita e compreensão de um fenômeno, Lila, e da profunda e visceral amizade entre as duas. Já escrevi muito sobre como a amizade é para mim o verdadeiro amor[2], e a obra de Ferrante revela isso. Algumas das cenas mais bonitas, e há uma abundância de coisas muito feias nessa tetralogia, são as vezes em que há proximidade física entre as duas. O que é o banho que Lenu dá em Lila para o casamento desta (A amiga genial, pág. 313)? É uma cena linda! Um batismo entre mulheres. O corpo da corajosa Lila sempre precisa de cuidados na catedral[3] de Ferrante...
Há uma grande mistura entre as suas vidas. Porém, uma mistura muito singular. Às vezes em que parecia que Lila vivenciava uma situação mais favorável, Lenu não estava bem, e quando Lenu despontava, Lila se acabava na fábrica de Bruno Soccavo. O segundo volume, História do novo sobrenome, é particularmente difícil, do ponto de vista de seus acontecimentos; é um volume de grandes transformações e decepções. Ele é a prova da contra-festa (iniciada ainda no fim do primeiro), em que a temporada em Ischia representa o ponto culminante. O terceiro volume, História de quem foge e de quem fica, por outro lado, consolida essas transformações.
Quando terminei o primeiro volume, escrevi pelo twitter para a escritora portuguesa Inês Pedrosa que me sentia próxima do seu romance Fazes-me falta, em que a amizade é vivida de forma igualmente intensa[4], ainda que a composição da narrativa seja tão diferente! Mas, quando falo de amizade, falo de complexidade, de uma profusão de sentimentos que estão muito longe dos tons pasteis, falo de odiar. Estou convencida de que Lila e Lenu se odiaram muito.
Lenu escreve para combater a “desmarginação” de Lila, um conceito inventado por esta: “o contorno das coisas e pessoas era delicado, (...) se desmanchava como fio de algodão. (...) uma coisa se desmarginava e se precipitava sobre outra, era tudo uma dissolução de matérias heterogêneas, uma confusão, uma mistura.” (História da menina perdida, pág. 168). Lenu escreve para combater o desaparecimento de Lila. A escrita é a sua maior subversão contra a decisão da amiga genial, de perder os contornos, desmarginar-se. E a escrita é isso mesmo, desde quando alguém teve essa ideia. Foi sempre uma decisão tão poderosa, que sociedades já cinzelaram nomes de indivíduos para condená-los ao esquecimento. A “escrita” de Lenu constrói, revitaliza, mas ela nos devolve o paradoxo: sem abandonar o desejo, é impossível, entretanto, abarcar o que nos abisma.
A tetralogia encena ainda uma relação com outros livros. Desde Mulherzinhas de Louisa May Alcott, esse livro tão desejado pelas amigas, passando pela Fada azul de Raffaella Cerullo, a Lila, até os livros lidos e escritos por Elena Greco, a Lenu; é sobre amar os livros, bebê-los e precisar deles. É sobre a escrita de si, do outro. Aborda aquilo que pode ser mesmo o combate entre o sujeito que escreve e as palavras, expõe a luta para encontrar a melhor maneira de dizer, fadada ao fracasso; revela a insegurança, o desejo de querer ser lido, reconhecido. Para Lenu converge tudo isso e ainda o fantasma de Lila: referência, inspiração e desafio.
Eu devorei a tetralogia e a odiei por vezes. Eu achei algumas bobagens, lugares-comuns, por exemplo, no quarto volume. Cansaço? Mas não me recuperei do que Ferrante fez com Tina... e acho que nunca vou. Seguramente esse livro me fez pensar muito. Eu vi minhas amigas geniais em suas páginas, eu me vi. Ao final, ao lado da constatação que é só de amizade que fala a tetralogia, que ela se eleva soberana no texto, eu fiquei pensando na paixão.
Outro dia, no consultório da dentista, li em uma revista de uns quatro anos atrás um texto que afirmava que ninguém mais se apaixona perdidamente. Em uma das raras vezes em que Lila consente em falar por inteiro de Nino à Lenu, ela afirma que ele padecia de um grande mal: a superficialidade. Fiquei pensando no seguinte: o lugar da amizade na Literatura contemporânea (eu falei sobre Fazes-me falta de Inês Pedrosa, mas há outros livros e poderia estender ao cinema!) é uma resposta à paixão rala que mal nos têm prendido aos homens e mulheres que, entretanto, temos “amado” por aí? Ralos, eles e elas? Ralos, nós?... Naquele texto da revista, a autora dizia que nunca mais tinha sido surpreendida por um telefonema desesperado, a altas horas, de uma amiga em soluços, destroçada por uma paixão não correspondida ou por uma desilusão. É só uma hipótese, mas acho que a resposta da Literatura, sua crença na amizade como um amor, é de uma beleza e esperança que, ainda que não me faça perdoar Ferrante por causa de Tina, me comove verdadeiramente.
Por outro lado, a que corresponde essa abundância de Ninos na nossa vida? Talvez aos nossos estômagos fracos. Então, recomendo esse arsênico literário que é a Tetralogia, para estragar de vez a digestão dos estômagos veganos, do ponto de vista literário tão somente, é claro...

Essa foto linda foi tirada por uma de minhas amigas geniais!
Nós estamos na foto, meio desmarginadas, meio divertidas.
Portugal (Leiria) - 2017.





[1] Estou aqui fazendo uma relação direta com o capítulo “A cicatriz de Ulisses” de Mimesis, de Auerbach.
[2] Entre vários textos, remeto o leitor ao Diálogo sobre o tempo: entre a Filosofia e a História. Curitiba: PUCPRess, 2015.
[3] Uso a metáfora que geralmente é empregada para a obra de Proust.
[4] Escrevi a respeito em: GUIMARÃES, Marcella L. “O ‘lugar sem lugar’ da palavra em Fazes-me falta, de Inês Pedrosa”. Anais do XIX Encontro Brasileiro de Professores de Literatura Portuguesa. Curitiba, 2003.