segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Sobre ter esperança

Eu comecei esse texto algumas vezes este ano, sem conseguir terminá-lo. Abandonei-o por meses e essa foi sempre a maior ameaça à minha escrita: a dessintonia, nunca a tal falta de “inspiração”. Não escrevo porque estou inspirada, nem travo porque estou sem inspiração. A verdade é que nunca consegui voltar a um texto abandonado e o fato de ter conseguido voltar a este é o primeiro dado de esperança que ofereço às pessoas amigas e generosas que me leem nas 2as pela manhã. Por que não volto aos textos abandonados? Porque sinto quebrar a sintonia no tempo: não reconheço mais aquelas palavras, aqueles personagens, aquele assunto... na pessoa em que me tornei. Acho inclusive que forçar a barra pode ser perigoso: forçar o coração a experimentar sensações ultrapassadas, sabendo que ele pode não discernir bem experiência e memória.
Resolvi voltar ao texto abandonado, porque na semana que passou segui uma sugestão de leitura publicada em TL de pessoa que respeito muito. O texto se chamava “O que fazer com a desesperança”[1] e foi escrito por Bárbara Natália Lages Lobo. Era um texto pequeno, duro, mas corajoso: “Encare a sua desesperança. Enfrente-a com seus sonhos, desejos, com a sua esperança”. Achei uma proposta muito boa e essa possibilidade me fez pensar na que eu tinha querido desenvolver quando abandonei assunto. O que eu queria escrever era diferente do que escreveu Bárbara Lobo, embora seu convite tenha todo sentido.
Vamos lá. Vou tentar repetir ao coração que é só memória.
No começo deste ano, eu vivi momentos dramáticos, que tiveram muitas consequências, dentre as quais a renúncia de um sonho. Ninguém me obrigou, eu decidi renunciar. Todavia, no exato momento em que eu encarava um sofrimento só parecido com o de anos atrás, quando um médico disse para mim que eu jamais seria mãe, duas pessoas queridas conquistavam vitórias retumbantes: uma delas, no terreno profissional e outra, na vida familiar. Lembro-me bem que no exato dia em que uma dessas pessoas comemorava a realização de um sonho acalentado por anos e recebia em sua casa um tesouro em forma do maior amor de sua vida, eu fazia a minha renúncia. É possível que tudo tenha transcorrido quase no mesmo intervalo de tempo! Eu não tive na hora a percepção da ressonância disso.
Pouco tempo depois, quando a minha decisão foi definitivamente estabelecida, eu vivi a satisfação pela vitória dessas duas pessoas. Sei, porém, que eu poderia ter enveredado por outro caminho: o da inveja. Eu poderia ter me revoltado, eu senti esse sentimento chegar bem perto... Então, recorri à minha única virtude, a única que realmente reconheço em mim: a disciplina. Uma vez ouvi de uma pessoa encantadora que eu sou a única pessoa que ela conhece que marca encontro consigo mesma e não falta. Acho que essa pessoa encantadora encontrou um jeito bonito e meio engraçado de dizer que sou disciplinada. Não vou fazer mais propaganda dessa virtude, só vou dizer que ela foi tábua de salvação.
É claro que o fato de eu gostar demais dessas pessoas que viviam momentos incríveis foi fundamental. Uma dessas pessoas batalhou muito pela conquista profissional. Ao longo de um ano foi tecendo seu projeto, fazendo as demandas, na incerteza econômica que já nos rondava. A outra conseguiu reunir pela primeira vez na vida as condições para trazer a sua filha ao seu convívio e foram anos de espera.
Quando tive clareza disso e assumi a minha renúncia – que nada teve a ver com a diminuição da tristeza, pois ela estava muito longe de arrefecer –, eu fiquei imaginando as minhas pessoas queridas: seus sorrisos, seus lágrimas de alegria, suas conquistas... essas imagens misturadas com meu amor por elas foi me enchendo de... esperança, uma surpresa! O mundo não tinha sido arrasado porque eu vivia momentos dramáticos. Elas estavam ali para me dizer que era possível a felicidade existir, depois da sua grande espera, de todo o seu esforço. Cheguei a essa verdade antes de poder escrevê-la.
Ao longo do ano, disse em vários momentos em sala de aula que a História me dá esperança. Antes da minha dor, eu tinha escrito isso no Diálogo sobre o tempo, afinal até a Guerra dos Cem anos (!) acabou um dia... Tenho pouco apego pelo que eu escrevo (de verdade), mas preciso acreditar que o que eu escrevo é expressão do mais autêntico pensamento que pôde virar palavra. Eu me vi na necessidade de confiar em mim.
Entre a experiência feliz daquelas duas pessoas que referi e o que escrevi no livro com meu amigo Jelson, havia um espaço que preenchi com a observação de outras felicidades à minha volta. Uma outra amiga me revelou que vivia um grande amor! Mas não era tudo. Quando se tem filhos, a primeira coisa que a gente aprende é pedir ajuda e a segunda é prosseguir. Se eu joguei para longe a possibilidade da inveja, não podia entronizar o egoísmo.
Não sei se o desenvolvimento desse texto trouxe algo de muito original ao tema da esperança, mas o que funcionou para mim foi enfrentar com disciplina a desesperança, ou seja, colocar diante de meus olhos de forma insistente, a felicidade alheia.
Um desvio rápido. Eu já dei muitas risadas, até parar de rir por completo, de como a desgraça dos outros ameniza a nossa... Ex.: quando alguém atrasa uma tarefa e outra pessoa também está atrasada, uma delas afirma: ai que bom que vc também não conseguiu terminar! Quantos de nós já não ouvimos algo semelhante? Quando de nós já não dissemos isso?... Há algum parentesco entre essa solidariedade na desgraça e a necessidade de uma disciplina para encontrar esperança. A felicidade dos outros deveria nos animar da mesma forma ou mais que o seu fracasso nos dá alívio...
A História é movimento, transformação no tempo. Não há estados permanentes de nada e não estou aqui nem defendendo nem refutando fluidades baumânicas, mas reconhecendo que o movimento é vida.
Eu fui muito triste em 2016, mas não fui para sempre. Fui até feliz. Realizei sonhos. Um deles, no sábado passado. Lancei Menina com brinco de folha em Curitiba, abracei amigos e vi a felicidade estampada em seus rostos. A causa era eu! Eu ouvi coisas inacreditáveis de pessoas que largaram compromissos ou que levaram seus amores para comprar um livro em que compareço pela primeira vez como autora de ficção!  Ora, não só é possível ter esperança quando alguém que amamos ou que imaginamos está feliz, é possível ser a razão da felicidade alheia. É preciso ainda mais disciplina, disciplina de gratidão.
Em 9 de janeiro de 2017, eu vou lembrar da renúncia que fiz, mas se houver um janeiro de 2017 para mim, devo lembrar que sobrevivi e que em um dia de dezembro, semanas antes, consegui finalmente terminar um texto sobre ter esperança.

Queridos leitores, o blog entra em férias até o final de janeiro. Isso não significa que vou deixar de escrever, significa apenas que as atualizações serão mais erráticas. Desejo a todos um Natal alegre, de abraços apertados e beijos demorados, e um Ano Novo de renovada coragem e esperança.



Em Menina com brinco de folha, a existência da joaninha amarela é uma das primeiras descobertas do menino com a menina. Sei que há um inseto chamado Esperança, mas acho que a Joaninha amarela tem Esperança como sobrenome...

Dica: Como leitura de férias, sugiro a obra Esperanças de Paolo Rossi.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O homem mais bonito do mundo é o Papai Noel

Conheci Paul Mason como o Fashion Santa. Não, não estive no Canadá participando de uma de suas campanhas bem sucedidas de arrecadação de fundos para hospitais e fundações. Não tirei uma foto com ele (espero fazê-lo um dia!), consciente de que a única coisa que ele vai me pedir é que nosso encontro seja mais que “tirar uma foto com uma celebridade”. Há uns poucos anos, vi uma imagem de Paul, em um terno vermelho, e isso foi um júbilo para meu sentido da visão.
Paul Mason é um homem de 53 anos. É um homem lindo; modelo profissional de sucesso, com mais de 30 anos de carreira. Há três anos ele perdeu a mãe e não teve pressa de seguir adiante. Viveu seu luto e, sem se preocupar com quantos empregos haveria de perder, deixou a barba crescer. Por que perder empregos? Porque Paul já havia chegado aos 50 em uma carreira que aposenta cedo e, ao desprezar o barbeador, era óbvio que haveria de ostentar no rosto a passagem do tempo. Paul tem uma linda e longa barba branca.
Eu não sei bem como é essa relação dos homens com a sua barba. Sei que o Luiz, quando está em férias, quando nem quer se olhar no espelho, deixa a barba crescer. Por outro lado, sei que a barba tem sido cultivada por homens que se demoram em frente ao espelho.  Acho que não há uma regra, há a relação individual. Não perguntei ao Paul por que ele entregou seu rosto ao tempo, no momento da sua dor. Pelo que li em entrevistas que concedeu, muita gente estranhou a barba. Não sei bem se estranharam ou se temeram por ele; se temeram pelo seu futuro profissional.
Pois não é que a barba branca de Paul atraiu um monte de gente para perto dele?! Há dois anos, o Natal chegou e Paul percebeu que poderia usar a sua fama e o seu novo eu para ajudar as pessoas. Nasceria o Fashion Santa e Paul fez ainda mais sucesso! O Natal passou e a barba permaneceu. Paul desfilou por muitas passarelas com ela. Esteve no Brasil para alegria de muita gente. Não minha, porque Paul preferiu o Rio a Curitiba... Tudo bem, Paul, eu te perdoo.
Este ano, Paul Mason levou um susto. Um dos espaços em que por dois anos os fãs que o adoram tiravam fotos com ele e colaboravam nos projetos sociais sugeridos por ele, achou por bem “escolher” outro Fashion Santa: um modelo de uns 30 anos, acho que com barba e cabelo postiços. Não retive seu nome. Compreendo, porém, que está fazendo seu trabalho, foi contratado para isso. A indignação dos fãs do Paul foi com o “sequestro” do nome e a contratação de alguém para desempenhar o “personagem”.
Eu li entrevistas dos representantes do espaço de comércio e me abismei com a sua cobiça (sim, ainda me abismo, mesmo estando no Brasil! Talvez até Paul ache isso incrível). Eu me abismei com a declaração dos advogados que representam os interesses comerciais desse espaço, de que são donos da “marca” Fashion Santa e cheguei até a visualizar o Papai Noel preso em contratos... Fiquei a pensar nos homens que deixam suas barbas crescerem aqui em meu país e que tiram um trocado nas épocas de Natal, abafados em roupas quentes, em shoppings em que o ar condicionado ou não refresca direito ou deixa nossos olhos irritados, por falta de manutenção. Tenho fotos deles na minha geladeira, abraçados à minha filha sorridente. Uma das coisas que mais me emociona em Paul é que ele redime o esforço desses homens, chamando a atenção para o fato de serem todos homens com história e beleza estampadas no rosto.
Eu me tornei fã de Paul Mason e li algumas das entrevistas que concedeu em diversos meios, com a sua versão dos fatos. Peço aos meus leitores que o façam também e tirem livremente as suas conclusões. Meu texto não é sobre batalhas judiciais, embora eu tivesse de referi-las, pois elas chocaram os fãs este ano e imagino que fizeram Paul sofrer. Mas ele é corajoso. Este mês já esteve nos Estados Unidos para participar de mais uma campanha social, desta vez para o Human Rescue Alliance[1] e foi recebido como se deve[2]! Estava de vermelho... Pois bem!
No Brasil, o governo propôs novas regras para a previdência social e eu gostaria de deixar claro que meu texto não é propaganda da proposta. Paul conhece o nosso país e duvido que ache que sua longevidade na carreira seja comparável ao contexto em que vivemos. Na indústria em que ele ganha a vida, a sua longevidade é ousadia decerto; no dia-a-dia do brasileiro que começou a trabalhar com 14 ou 16 anos (e nem preciso recuar tanto, ora!, pois todos seremos abatidos), o tempo de nossa contribuição será o Tempo grego, devorador dos filhos, sem a possibilidade de haver uma Reia[3] salvadora... Há imensas diferenças entre o Canadá de Paul e o nosso Brasil e estou convencida de que as diferenças institucionais, políticas e econômicas favorecem a longevidade da carreira dele e do seu prazer em dedicar-se a ela. Dedicação como uma possibilidade e um direito, não como constrangimento, como sequestro da vida. Eis a diferença.
Já tão próxima ao Natal, com árvore montada, luzinhas pela casa em ano péssimo..., mas com a exigência clara da filha, meu otimismo saltitante e obstinado, esse texto expressa a minha admiração pessoal por um homem que não teve vergonha de chorar a mãe; que se entregou ao luto; que enfrentou a dor; que não temeu o tempo; que é corajoso por tudo isso e ainda por cima é lindo de viver! Um homem que não é parâmetro também e que não deve ser “usado” para propagandear o trabalho até a morte.
Nunca apertei a mão desse Papai Noel canadense, mas um dia vou passar uma temporada no Canadá e dar-lhe um estalado beijo na bochecha! Até lá é possível que minha mecha branca acima do lado esquerdo da testa esteja mais vasta. Acho que Paul vai me achar bonita... É um segredo nosso o fato de termos um amor em comum.



Levei mais tempo para escolher uma foto de Paul Mason que para escrever esse texto... creioemdeuspai! Como falei muito do tempo estampado no seu rosto, optei por essa e não pelas clássicas com terninho vermelho ou quadriculado.



[3] A Terra, que conseguiu salvar alguns de seus filhos tidos com o Tempo, Cronos. Um dos quais seria justamente Júpiter.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Procura-se o respeitável público

O texto desta segunda ia ser outro, mas, ontem, fui ver no Teatro Guaíra A Bela e a Fera, o ballet, com a família.
Eu ADORO o romance de Madame de Villeneuve[1] e acho sinceramente que é ainda uma das melhores animações já feitas pelos estúdios Disney (de 1991)! Todos devem se lembrar de que a animação foi indicada ao Oscar de melhor filme, o que até aquele momento não era comum. Eu também sou apaixonada pelo filme de Jean Cocteau (1946), com Jean Marais, como a Fera! Acho interessante o filme de Christophe Gans, com a linda Léa Seydoux e com Vincent Cassel... É difícil adjetivá-lo. Devo apontar, porém e quase em um sussurro envergonhado rsrsrsrs que, se eu fosse solteira, cortejaria Vincent Cassel, que mora no meu Rio de Janeiro... Segredo.
Há qualquer coisa sobre ir a um ballet, ir a uma ópera ou apreciar um concerto que começa pelo menos um dia antes na minha vida. Eu, que estou muito longe de honrar a minha amizade com Ronaldo Fraga, pela pouca (nenhuma?) preocupação com o vestir..., escolho minha roupa um dia antes para ir a um ballet! Ontem, pendurei um vestido, separei a meia calça. Perguntei à filha se não queria escolher a roupa também. A justificativa foi a de que o espetáculo seria de manhã, então para evitar atrasos era bom deixar tudo preparado. Ela aceitou.
Minha primeira ópera foi O Navio Fantasma de Wagner, dirigido por Gerald Thomas e realizado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Eu tinha 13 anos. Meu pai comprou ingressos para mim e para a minha mãe. Não dava para comprar para três, até porque ganhei roupa nova! Fomos nós duas e eu fiquei extasiada. Fui muitas outras vezes ver óperas, concertos, ballets em espetáculos gratuitos ou a preços populares. Sempre considerei essas experiências como coisas muito especiais, que mereciam que eu me preparasse de corpo e alma para elas.
O primeiro ballet da Clarinha foi A Branca de Neve e foi no Guaíra. Ela era tão pequena... Comportou-se muito bem até a metade, depois cogitamos ir embora..., mas não foi realmente preciso. Ano passado, ela foi a um concerto muito didático, também no Guaíra (Clarinha é menina do Paraná, meu povo!) concebido para crianças, em que o maestro parava muitas vezes e explicava. Teve até “Nessum Dorma”. Ela ficou surpresa.
Ontem, havia uma grande motivação. Uma das amigas da escola se apresentaria! A menina é uma das pétalas da rosa mágica da Bela e a Fera de Disney, ops! O espetáculo seguiu a animação na maior parte do seu desenvolvimento. Não achei mau, afinal o filme constitui uma reserva de sentido para a maior parte das crianças que foram assistir. Que eu saiba, o romance de Madame de Villeneuve não tem ainda tradução (posso estar enganada) em português. Se tiver sido traduzido, é bom lembrar que não se trata de Literatura Infantil (sequer juvenil...). Essa não é uma história para crianças, ainda que tivesse sido possível adaptá-la.
Sabemos que a rotina de ensaios e a competição entre bailarinos é muito estressante. Talvez esse adjetivo seja um eufemismo. Mas eles realizam um milagre. São perfeitos. Quando erram, parece quase uma concessão à humanidade. Esqueçam modelos, atores e atrizes de sucesso! O corpo dos bailarinos é uma escultura: eles são a obra prima, mas foram também os seus próprios escultores. Criador e criatura de si mesmos. Bailarinos em cena são um exemplo extraordinário de colaboração para a constituição de um sentido, de uma narrativa, em que tudo o que é diferente é essencial para o conjunto. Três bailarinas empinam; vem a solista; passa um bailarino em diagonal; envolve a sua parceira em um abraço; entram dez, doze, de uma vez e tudo aquilo nos transporta. Estamos enlevados. É preciso confiar muito em alguém para entregar seu corpo, que é lançado no ar e recuperado na descida, como faz a bailarina que sorri. Ela não hesita; sabe que ele vai estar lá. Notem bem: ela sabe que ele vai estar lá! É preciso amar com paixão (e não importa que seja só naquele momento) para o beijo final.
O espetáculo a que assistimos tinha muito conjunto. Era gente à beça em cena. Sabíamos quem eram os protagonistas, mas a encenação dividiu o prazer do movimento em muitos pedaços, entre muitos famintos. Gostei. Os figurinos estavam lindos e achei muito delicada a maneira como cada vestido de Bela envolvia a personagem que se transformava também: de menina de azul, à jovem corajosa e salvadora do pai; de mulher que decotada senta à mesa com uma Fera que a corteja, mas a quem ela dirá não, pois era preciso que ele lembrasse o que é ser homem novamente para que estivesse à altura de recebê-la como mulher; até o resgate do personagem, não à toa, ela em dourado (não em amarelo Disney)...
O cenário estava bonito também. Havia qualquer coisa entre o filme de Christophe Gans (Vincent Cassel me assombrando) e referências mais batidas de contos de fadas. Por que não?
Sabe o que lamentei? Não haver músicos...
Mas... o que o público tem a ver com isso? Meu título é como o endereço equivocado do destinatário em uma carta condenada a não chegar?
O espetáculo foi concebido para crianças. Elas eram numerosas na plateia e deram um show! Um show de atenção. Acho que, em quase duas horas, ouvi dois gritinhos e devem ter sido de prazer ou de susto: a Fera!!! No início, quando as luzes foram enfraquecendo, as pessoas que esperavam para entrar se apressaram. Ouvimos recados pelo sistema de som: é proibido fotografar, desliguem os celulares... Mas quando as luzes estavam apagadas e começou a narração – já era o ballet, vi adentrarem contingentes numerosos de pessoas. A cortina do palco se abriu. Pessoas continuavam a entrar, iluminando seus caminhos com celulares que cegavam quem já estava em seus lugares. Carregavam crianças inocentes no colo. Pediam licença. Não conseguiam achar os números das cadeiras. Pessoas sem crianças entraram. Um casal de adultos (acho que devo precisar) sentou no meio da 3ª fila da plateia. Imaginem o tamanho da sua inconveniência.   
Já estávamos na 3ª cena, “Amanhece na aldeia”, quando entrou uma família grande. Um homem de boné abria a coluna, com seu inocente nos braços. Atrás vinham mulheres com saltos ameaçadores. Foram sentar lá na frente. O celular; o dá licença; o desculpa... a bailarina linda, perfeita, escultural, era a rosa afinal!, empinava a uns três metros.
Sabe quando falei de roupa e vestido? Isso é coisa minha e é bobagem, ou só uma coisa menor. É como saber o garfo adequado para comer peixe (qual é mesmo?). Outro dia, ouvi Leandro Karnal falar de etiqueta no rádio como uma pequena ética e a dar exatamente o exemplo dos talheres, como exemplo menor. Concordo.  
Eu acho que não adianta nada levar as crianças a verem A Bela e a Fera se a gente não acredita na importância da vitória da Fera, ou seja, na recuperação da humanidade. Não adianta levar a concerto, se vamos sacar o maldito celular para fotografar, quando minutos antes o autofalante disse com delicadeza que é proibido, dando como explicação (precisa?) o fato de que atrapalha o artista. O artista que ensaiou, que machucou o pé, o dedo, que se apertou no figurino, que fez dieta, que teve de sorrir e beijar quem odeia em cada ensaio para nos convencer daquele amor. E há as crianças, elas veem... o que fazemos.
Eu tive vergonha daquelas numerosas pessoas com suas crianças nos braços. Não acredito em sua boa intenção de levar em ballet, no seu conceito de atividade cultural, no seu sapato caro, no seu vestido ou no seu boné. Talvez acredite no boné, afinal sempre protege do sol que brilha dentro do teatro.
Por mim, impedia a entrada dos atrasados no teatro. Sou cruel? Não sei reconhecer que imprevistos acontecem? Acontecem e é importante dizermos às crianças que, por causa do imprevisto e de nosso atraso, vamos perder o espetáculo. Não tenho pena da frustração? Acho a frustração muito constitutiva e não temo a lágrima. Eu choro.
Acho que a filha mal piscou, como todas as crianças que vi. Ela só é extraordinária para mim. Houve um momento, entretanto, em que interrompeu o silêncio, puxou meu braço e disse baixinho que tinha certeza de ter achado a amiga entre as pétalas da rosa!!! Sorriu feliz, extasiada de reconhecimento. Fez sol no teatro, mas eu não precisei de boné.


A foto não é do Guaíra, é do Scala de Milão, onde o público também dá "espetáculo" rsrsrsrs.




[1] La Belle et la Bête, que li em 2010, na França.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Vamos tomar café da manhã juntos?


segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Sobre ler a morte em O Caminho de Guermantes de Marcel Proust

Há pessoas que queremos imortais; personagens também. É claro que, no caso dos personagens, sempre podemos voltar as páginas e experimentar ser Domhnall Gleeson de Questão de tempo (About Time, 2013). Mas quando o personagem amado morre bem no meio da diegese, a gente vive um luto de leitor: sabe que ele ou ela se foi, que vamos terminar o livro sem a sua presença e que sua vida ficou para trás.  Nós prosseguimos com a memória das palavras que disse, das coisas que fez, de quem amou... Um dia, voltamos à estante de casa para lê-lo como quem recorre ao álbum de família, matamos saudades. Mas no momento em que o personagem é assassinato pelo autor, nós nos perguntamos: o que fazer?
Em O caminho de Guermantes, o narrador perdeu a sua avó e nós, a nossa. Foi com essa avó que Marcel saiu de casa pela primeira vez. No segundo volume (À Sombra das raparigas em flor), foi para o balneário de Balbec sem os pais. Alguém pode me dizer que ir à praia com a avó não é bem uma independência... Mas eu vou precisar recomendar (com muito gosto!) a leitura do volume; vou precisar evocar o incrível sofrimento da criança que esperava com furor o beijo da mãe para adormecer, no primeiro volume (No Caminho de Swann); os problemas de saúde, que certamente provocaram uma proteção e vigilância maiores e a cumplicidade com a avó. Só em sua companhia o narrador protagonista pode suportar a certeza: “Pela vez primeira tive a sensação de que minha mãe podia viver sem mim, dedicada a outra coisa, com outra vida diferente” (ASRF, p.200). A avó percebe o dolorido dessa descoberta e, graças à sua sensibilidade, eu – Marcella, xará desse narrador – descobri minha própria afeição por Madame de Sévigné[1]! Em Balbec, o quarto contíguo e a possibilidade das batidinhas nas finas paredes antes de dormir garantem o sono de Marcel.
Se em À Sombra das raparigas em flor, o protagonista experimenta a liberdade, ainda que tutelado pela avó; em O Caminho de Guermantes dá passos mais ousados para a sua construção como homem. Alguns desses passos são cheios de equívocos, hesitações, cenas ridículas..., mas quem nunca? Um sinal de ruptura com a tutela se dá na viagem que Marcel faz para visitar o amigo Saint-Loup, que está em manobra. É um mundo de militares, de charutos, de bebidas, de conversas que fascinam o narrador! Em uma manhã, Saint-Loup conta a Marcel que escrevera à avó do narrador para dar notícias do neto; uma ligação telefônica é feita; a consciência da passagem do tempo o atravessa na volta: “’como envelheceu!’, eis que pela primeira vez e tão só por um instante, pois ela desapareceu logo, avistei no canapé, congestionada, pesada e vulgar, doente, cismando, a passear acima de um livro uns olhos, um olhar um pouco extraviado, a uma velha consumida que eu não conhecia” (p. 127). Começava ali a nossa despedida.
A avó do narrador não morre subitamente, nós a lemos morrer. Lemos seu abatimento, acompanhamos seu desconforto, o susto do seu ataque e o que me comoveu foi a maneira como é narrada a sua debilitação progressiva. Matar uma personagem tão importante, pela qual o narrador tem tanto apreço e sou capaz de assegurar que o autor poderia imaginar que os leitores também teriam, não é uma coisa fácil. É preciso ser genial.
Semana passada, publiquei uma coleção de fragmentos impressionantes em que sobressai uma sinceridade sem desejo de agradar (para empregar eufemismo). Nas seções do clube do livro, muitas vezes, paramos para ler uns para os outros trechos que nos encantaram. Está claro para nós que estamos diante um grande texto, extraordinário, e eu fico feliz que sejam 7 volumes! Acho até que foi/é pouco, pois um dia vou ter de lidar com a verdade de que vamos terminar. O que me consola nessa noite de novembro é que ainda temos 4 volumes pela frente!
A promoção do protagonista como homem vai de encontro com a degeneração da avó, daí vermos Marcel um pouco exasperado com o ritmo da doente. Essa realidade não se opõe ao essencial no caso: a dignidade da personagem que morre. Ela se manifesta na narração (quem narra não é o mesmo que vive os acontecimentos...; o narrador protagonista os revoca) e na extraordinária coerência na constituição dos personagens. A última cena antes da segunda parte de O Caminho de Guermantes deixa a gente sem oxigênio: “Sorriu-me [a avó] tristemente e apertou-me a mão. Compreendera que era inútil ocultar-me o que eu logo havia adivinhado: que ela acabava de ter um ataque“ (p. 280).
O protagonista a leva rapidamente ao médico, que vaticina: “Sua avó está perdida” (p. 287). Em seguida, conduz a avó à casa da família. Sou levada a completar Barthes, para tantos fragmentos de discurso amoroso(!). A mesma mãe que “soubera viver” sem o filho para que este afinal crescesse devolve àquela a quem entregou a tutela de uma primeira liberdade a combinação rara de reverência, respeito e amor:

·        “Não queria que minha mãe notasse muito a alteração da fisionomia, o desvio da boca; minha preocupação era inútil: minha mãe aproximou-se de vovó, beijou-lhe a mão como a do seu Deus, susteve-a, carregou-a até o ascensor, com precauções infinitas em que havia, a par do medo de mostrar-se inábil e de magoá-la, a humildade de quem se sente indigno de tocar aquilo que conhece de mais precioso; mas não ergueu os olhos uma única vez e não olhou para o rosto da enferma” (p. 288);
·        “- Mamãe, em breve estarás curada, é a tua filha quem o garante.
E encerrando o seu amor mais forte, toda a sua vontade de que sua mãe sarasse, em um beijo a quem os confiou e que acompanhou com o seu pensamento, com todo o seu ser, até a borda dos lábios, foi depô-lo humildemente, piedosamente, sobre a fronte adorada.” (p. 289)

Choro novamente trazendo esses trechos para cá.
Esse Marcel Proust um dia levantou de manhã (ou não levantou, afinal escreveu deitado boa parte do texto!) com a necessidade de matar a avó do seu protagonista e deu-lhe uma morte de arrasar a gente, pelo que há de tão amoroso em quase todos aqueles que cuidam da personagem, mas, sobretudo, e quero destacar (acho a hipérbole importante no caso), pelo que conseguiu dar de dignidade a quem morre. A doença pode nos tirar muito, tudo, mas esse grande romancista não permitiu que sua personagem perdesse um milímetro de sua grandeza no caminho doloroso que teve de percorrer para morrer:

“Quando minha avó sofria assim, escorria-lhe o suor pela vasta fronte amarela, grudando-lhe as mechas brancas e, quando supunha que não estávamos no quarto, soltava gritos: ‘Ah! É horrível!’, mas se avistava minha mãe, logo empregava toda a sua energia em apagar do rosto as marcas de sofrimento, ou, pelo contrário, repetia os mesmos queixumes, acompanhando-os de explicações que davam retrospectivamente outro sentido aos que minha mãe pudesse ter escutado:
- Ah! Minha filha, é horrível ficar na cama com esse belo sol, quando se desejaria tanto sair a passeio. Choro de raiva com essas prescrições de vocês.” (p. 292)

Imaginamos a sua dor e só mesmo um personagem por quem se tem tanto respeito pode bradar por esse “belo sol” em um momento assim!
Entre a narração da degeneração progressiva da avó, imiscuem-se vários acontecimentos e considerações. É com horror que lemos o misto de insensibilidade e (/ou apenas) de despreparo com que Françoise penteia os cabelos da avó; que recebemos a visita do (este sim!) insensível Duque de Guermantes que esperava que a mãe do protagonista lhe fizesse sala enquanto a doente avançava sem desvios para o fim; que lemos considerações sobre a fama dos escritores: “Por certo acontece que unicamente depois de morto é que um escritor se torna célebre. Mas era ainda em vida, e durante o seu lento caminho para a morte, que ele assistia ao das suas obras para a Fama. Um autor morto é pelo menos ilustre sem fadiga.”(p. 294). Seria esse trecho uma interferência do autor-modelo[2]? Vejo uma ambiguidade no segundo período do trecho: a avó e Marcel Proust.
Queria voltar àquela dignidade de morrer. A avó ficou cega no seu lento percurso para a Fama, mas se esforçava para dar a quem entrava em seu quarto a ilusão da plenitude do sentido da visão. Ao ouvir qualquer pequeno barulho na porta do seu quarto, olhava sorridente na direção de quem adentrava, um olhar parado. O narrador utiliza a expressão “calma bravura de um estoico” (p. 302) e não economiza em quanto essa atitude foi testada na doença... Nenhum milagre, porém, vai beneficiar a nossa avó e é com a explosão dos soluços de Françoise que lemos afinal: “Súbito, minha avó ergueu-se a meio, fez um esforço violento, como alguém que defende a própria vida” (p. 311). Por favor, deixem-me reescrever isso: “como alguém que defende a própria vida”...
Os historiadores não têm inveja dos romancistas desde que Georges Duby escreveu Guilherme Marechal[3]! Sabemos que Duby vai até depois da evidência física na narração da morte exemplar do cavaleiro. Sabemos que a historiografia muito se beneficiou da Literatura no século XX para a construção da narrativa. Não sei se Duby leu Proust, arrisco que provavelmente, mas posso estar apenas a construir novos mitos. Todos os historiadores brasileiros leram a integralidade dos romances de Machado de Assis? Eu li, mas tive o benefício de ter sido aluna de uma grande especialista[4]! Essas coisas mudam a gente. Ora, a digressão desse parágrafo que, fora do blog, talvez fosse cortado por um bom editor, expressa a associação que fiz enquanto lia o respeito do autor por sua personagem depois do fim:

Algumas horas depois que Françoise pôde pela última vez, e sem maltratá-los, pentear aqueles formosos cabelos que apenas começavam a branquear e que até então haviam parecido de menos idade que ela. Mas agora, pelo contrário, só eles é que impunham a coroa da velhice sobre o rosto outra vez moço de onde haviam desaparecido as rugas, as contrações, os empastamentos, as tensões, as relaxações que, desde tantos anos, lhe vinham acrescentando o sofrimento. Como nos longes tempos em que seus pais lhe haviam escolhido um esposo, tinha ela as feições delicadamente traçadas pela pureza e a submissão, as faces brilhantes de uma casta esperança, de um sonho de felicidade, mesmo de uma inocente alegria, que os anos tinham pouco a pouco destruído. A vida, retirando-se, acabava de carregar as desilusões da vida. Um sorriso parecia pousado nos lábios de minha avó. Sobre aquele leito fúnebre, a morte, como escultor da Idade Média, tinha-a deitado sob a aparência de menina e moça.” (p. 311)

Cabelos jovens em um rosto sofrido; brancos, no rosto morto que remoçou; expectativa e desilusão... E vejam que esse bruxo francês, foi ele mesmo o responsável por me levar à Idade Média! Entre os túmulos de uma Saint-Denis literária, o autor esculpiu um rosto de menina no esquife dessa personagem extraordinária.   
Todo mundo conhece gente que se comportou muito mal na doença ou no fim mesmo; que magoou pessoas que amava; que se sentiu ofendido por memórias arqueologicamente recuperadas dos seus aterros sanitários interiores ou transformadas pela desrazão; gente que jamais pediu perdão. Algumas dessas pessoas foram atravessadas pela perda delas mesmas, que espaço haveria para a dignidade?... Um luxo impossível. Mas se é verdade que para Proust: “a vida verdadeira, a vida descoberta e esclarecida, a única vida, portanto, plenamente vivida, é a literatura”[5], a morte dessa personagem com quem fui a Balbec pela primeira vez e li Madame de Sévigné é um luto sentido e uma confluência inventiva para as duas avós que não conheci.











[1] Há 2 textos no blog sobre Madame de Sévigné: “Ah, sim, a senhora lê Madame de Sévigné” (parte 1) e “Ah, sim, a senhora lê Madame de Sévigné” (parte 2). Procure em “Sévigné”.
[2] Categoria de presente em: ECO, Umberto. Seis passeios pelo bosque da ficção. Tradução de Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
[3] Obra: Guilherme Marechal ou o melhor cavaleiro do mundo.  
[4] Profa. Dra. Marta de Senna, grande amiga e grande mestra.
[5] BORREL, Anne, NAUDIN, Jean-Bernard, SENDERENS, Alain. À mesa com Proust. Tradução de Ana Luiza Borges; Fernando Py; Maria Cecília d’Egmont. Rio de Janeiro: Sextante, 2013. p. 11.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O SUPER SINCERO MARCEL PROUST

Em O Caminho de Guermantes, 3º de Em busca do tempo perdido, sobretudo na segunda metade do volume, frequentamos o meio mofado que estraga os mais promissores talentos antes mesmo que floresçam. Ocupamos os cantos dos salões, em jantares povoados por conversas vazias em que até os mais interessantes escritores são citados em suas páginas menores... Mas em meio a tudo sobressai uma sinceridade que merece atenção:

·  Sobre quando as comparações arrasam o que é “excepcional”: “O espírito dos Guermantes (...) era uma reputação como as salsichas de Tours ou os biscoitos de Reims” (p. 411).

·        Sobre nada que preste: “Se naquele salão haviam ficado enterradas para sempre tantas ambições intelectuais, e tantos nobres esforços, das suas cinzas, pelo menos, havia nascido a mais rara floração do mundanismo”( p. 413).

·        Sobre ser sincero com surpresa: “Pouco interesse tinha essa frase de Bloch, mas eu a recordava como prova de que às vezes na vida, ante o choque de uma emoção excepcional, nós dizemos o que pensamos” (p. 453).

·        Sobre ser extemporâneo ou culpado mesmo: “É verdade que se fazem às vezes para os mortos coisas que não se fariam para os vivos” (p. 454).

·        Sobre arrebentar um elogio...: “- Que deliciosa criatura era ela...
- Sim, meio louca, um pouco insensata, mas era uma boa mulher, uma louca muito amável; só não compreendi jamais por que nunca havia ela comprado uma dentadura que se mantivesse firme....” (p. 456).

·        Sobre não saber do que o outro está falando e se entregar: “A princesa de Parma, que ignorava até o nome do pintor, fez violentos gestos de cabeça e sorriu com ardor, a fim de manifestar a sua admiração por esse quadro. Mas a intensidade de sua mímica não conseguiu substituir essa luz que permanece ausente de nossos olhos enquanto não sabemos de que nos querem falar” (p. 466).

·        Sobre prometer e não cumprir: “Eu tinha imaginado para o senhor coisas infinitamente sedutoras, que me guardara de revelar-lhe” (p. 498).

·        Sobre motivação: “É inaudita a fúria das pessoas de uma religião em estudar a dos outros” (p. 514).

·        Sobre os Guermantes e muitos mais... por Swann: “Primeiro porque no fundo toda essa gente é anti-semita” (p. 519).

·        Sobre não ter nada na cabeça: “Sempre é preciso que tenham uma opinião sobre tudo. Então, como não têm nenhuma, passam a primeira parte da vida a perguntar as nossas, e a segunda a no-las resservir” (p. 524).

·        Sobre ser cínico ou sem noção: “Há noites em que a gente preferia morrer! É verdade que morrer talvez seja igualmente aborrecido, pois não se sabe o que é” (p. 525).

·        Sobre o desencontro conjugal: “ – Mas onde vão meter uma tetéia [fotografia] desse tamanho?
- No meu quarto; quero tê-la diante de meus olhos.
- Ah, como queira; se fica no seu quarto, tenho a chance de não vê-la nunca” (p.531).

·        Sobre ser humano na aparência: “Colocada pela primeira vez na vida entre dois deveres tão diferentes como subir ao carro para ir jantar fora e testemunhar piedade a um homem que vai morrer, não encontrava nada no código das conveniências que lhe indicasse a jurisprudência a seguir e, não sabendo a qual dar preferência, julgou que deveria fingir que não acreditava na segunda alternativa, obedecendo assim à primeira, que demandava naquele momento menos esforço” (p. 532).

Se alguém me perguntar qual dessas sinceridades obtusas é a minha favorita, eu devo confessar que espero que, em Sodoma e Gomorra, o Barão de Charlus cumpra as suas promessas...rsrsrs Mas O Caminho de Guermantes é muito mais que essa coleção chocante de franquezas. É o volume que narra uma perda muito sentida pelos leitores. Fica para a semana que vem. 


segunda-feira, 7 de novembro de 2016

O Bar do Feio

Perto da casa de minha mãe, havia um bar, chamado Bar do Feio. Pouco depois que ela se mudou, um dia em que fui levá-la à sua casa, já tarde da noite, ela me disse: - Vira aqui à direita. Lá na frente, no Bar do Feio, você dobra à esquerda. - Bar do feio? Ri. – É. Riu.
Pertenço a uma família de excelentes motoristas, desbravadores de novos caminhos para onde quer que se deseje ir. Até os parentes que não dirigem são Ótimos motoristas, sempre com uma sugestão na ponta da língua. Minha mãe já abandonou o caminho do Bar do Feio, mas eu continuei muito apegada a ele. Mesmo quando eu já não precisava mais prestar atenção na referência, eu o saudava antes da dobrada. Dia desses, perdi o Bar e culpei a minha distração. Outro dia, mais aplicada, descobri que o Bar não existe mais e que o imóvel fora pintado com um amarelinho imperdoável.
Nunca entrei no Bar do Feio. Mesmo em minhas andanças pelo bairro – eu e minha mãe moramos a umas dez quadras de distância, no mesmo bairro – sempre encontrei o Bar fechado. Nenhum problema, afinal essas minhas andanças costumam acontecer pela manhã e, pelo que já percebi em saudações diversas, o Bar do Feio tinha outro relógio. Nunca soube o que era vendido ali. Sorte minha que tenho razoável imaginação para preencher suas estantes com coloridas bebidas de múltiplas preferências (minhas e de outras pessoas, em etapas diferentes da vida...); povoar o seu interior com mesas de quatro cadeiras; colocar um balcão espelhado ao fundo meio escuro, em que sobressaíam os clássicos: lindos ovos cor de rosa, azuis, verdes..., coxinhas gordas, quibes tão robustos quanto suas irmãs de exposição. Imagino que alguém secaria os copos em aparente distração, mas atentíssimo à contabilidade das doses. Vejo o quadro de preços com letras móveis, para facilitar a atualização. Não, não imagino sonhos, afinal há o carro que passa à tarde, anuncia-os e tira o meu sossego quando estou concentrada no escritório de casa. Acho que no Bar do Feio não eram vendidos sonhos, só imagino.
Desde aquela primeira vez em que fui levar a minha mãe e o Bar virou ponto de referência, eu me encantei com o misto de singeleza e sinceridade daquela esquina. Ninguém pichou a acusação. O nome do bar fora pintado diretamente acima da sua entrada, sem a necessidade de placas, em letras pretas. Alguém fez um plano, mediu, subiu em uma escada e pintou. Refleti algum tempo sobre o Feio: o dono? O seu pai? O seu melhor amigo? O seu sócio? O seu amor? Uma brincadeira? Estava bem escrito o nome do bar.
O Bar do Feio fechou. Acho que todo mundo pode imaginar o quanto a minha própria imaginação construiu explicações para o encerramento das atividades. 2016 vai ficar na minha biografia como um ano em que enxuguei lágrimas abundantes (minhas e dos outros) de sonhos abandonados e não posso deixar de pensar que entre imaginar o Feio resolvido a ser o Admirável ou o Gato no consultório de um cirurgião plástico e imaginar que ele faliu, eu tendo a achar que o Feio pode ser hoje o Devedor ou o Triste.
Há singeleza no amarelinho da nova fachada. Mas a nova cor cobrindo a sinceridade não instituiu para mim uma realidade muito significativa... Sou capaz de abandonar até aquela rua e me deixar levar por novos roteiros familiares. Agora me ocorre uma esperança: o Feio teria encontrado um ponto mais atraente? Calculará nesse momento o tamanho das letras em relação à nova fachada? Espero que diminua a distância entre o substantivo e a preposição com artigo e vire poeta de vez. Está aí um novo esforço para essa semana: encontrar o Feio e comemorar (com uma dose ou duas) a sua obstinação.





segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Hum... Nasce uma estrela!

Nesse outubro que finda hoje, nos dias 18, no Rio de Janeiro, e 25, em Curitiba, o Diretor da Hum Publicações FRANCISCO SOUSA nos deu a conhecer a sua coleção Mediações. Trata-se de sete livros entre 50 e 80 páginas em que a leitura é a estrela principal. Assinam as sete obras especialistas nessa astronomia: Eliana Yunes (Professor leitor: uma aprendizagem e seus prazeres); Alessandro Rocha (Formação de mediadores de leitura: o sentido entre o texto e seu leitor); Maria Clara Cavalcanti (Formação do leitor: uma questão de jardinagem); Gilda Maria Richa de Carvalho e Thatty Castello Branco (Leitura no trabalho: destravando línguas, olhares, pensamentos); Rosana Kohl Bines (Que histórias contar para os filhos); Rubén Pérez-Buendía (Roteiros de leitura na escola: da biblioteca escolar à sala de aula) e Marta Morais da Costa (Hoje se lê o espetáculo? Lê, sim, senhor!). Dia 25 de outubro, estive no charmoso Marbô Bakery para abraçar bem apertado o meu querido Francisco, ex-aluno e página de um dos meus livros[1], e minha amiga, Profa. Marta Morais da Costa, que há muitos anos atrás me deu um emprego que larguei depois. Deixei o emprego, mas ela... Comprei minha coleção, ganhei autógrafo e comprei um volume em separado para dar de presente à Professora da Clarinha. De quebra, abracei meus queridos Jeferson Freitas, Juliana Sanson, Júlio Röcker, Jurema Ortiz, em ordem alfabética para não despertar ciúmes – minha biografia é cheia de Js! – e Luiz Lucena.
Passei a semana envolvida com muitas leituras, mas não resisti ao convite de dois volumes em especial: o de Rosana Bines, pelo título atraente, e o da amiga Profa. Marta, pelas razões do coração.
Que histórias contar para os filhos? se abre com um aparente paradoxo: “não importa tanto o livro que se tem em mãos” (p. 10), mas quer falar mesmo das histórias que enfeitiçam pelo seu potencial sonoro. A experiência da autora no Instituto Benjamin Constant é evocada desde a dedicatória, parece ter sido a sua inspiração. O livro está organizado em faixas (como em um disco) e para uma historiadora que reflete sempre a respeito da apresentação da pesquisa histórica, achei genial a sintonia! Sobre o aparente paradoxo, ele é desmontado na alusão à cena de leitura e quem lê para as crianças em casa sabe o quanto a cena é importante: o aconchego, o tom da voz, o ritmo, o encadeamento entre uma história e outra... Eu confesso, porém, que quando li esse “não importa tanto”, lembrei de imediato (e com graça) de quando a Clarinha era bem pequena e eu às vezes lia os textos historiográficos e filosóficos de minha necessidade para ela, como quem conta Fada Cisco quase nada[2]... Estou imaginando o “horror” dos que me leem agora: eu, a mãe absurda, a impor à minha pobre criança os densos conteúdos da falsafa, das cruzadas, da peste negra, na hora de ninar!!!!! A verdade é que eu tenho sempre muito a ler e tenho sempre muito de estar com ela, portanto: “Com nossos filhos por perto, como não fazer deles o alvo de nossos afagos e afetos?” (p. 30). Mas um dia, ela começou a entender que, em algumas noites em que eu parecia ainda mais atarefada, o enredo lido não tinha nada a ver com as aventuras de Babel e Pepe[3], aí eu tirei o Averróis de seu quarto.
Rosana Kohl Bines compartilha com os leitores a seleção que mora em sua bolsa amarela[4], fundada do potencial sonoro das histórias e isso faz com que a obra seja muito generosa para professores que acreditam nesse potencial e gostariam de ampliar o próprio repertório. Algumas dessas histórias eu conhecia e outras eu experimentei com a Maria Clara na semana que passou, nós duas pela primeira vez. Hum..., uma delícia!
Há um momento muito especial do texto em que a autora afirma: “E nunca é demais lembrar que quem lê em voz alta é também ouvinte das histórias que conta e habitante das paisagens sonoras que delas emanam” (p. 61). O que Rosana quer dizer com isso? Que o prazer visado (o desejo de afetar as crianças) se engrandece no inesperado contentamento de ouvir a própria voz contadora. O movimento de dar e receber é sempre a essência da felicidade no amor.
Em Hoje se lê o espetáculo? Lê, sim, senhor!, Marta Morais da Costa não dá bola para a dificuldade (que, entretanto, reconhece existir)de se propor a leitura do texto dramático aos leitores aprendizes, isto porque no exercício do magistério constatou que, superada a falta de familiaridade inicial, a sensação de vitória – “Ah, agora entendi!” (p. 10) compensava todo o resto. Mas qual é o sentido dessa vitória? A conquista de um prêmio pontual?
A tarefa da leitura decodificadora do texto dramático é, portanto, mais atribulada e de maior exigência das capacidades do leitor: para que a interpretação possa se formar com qualidade, ele deverá construir e acionar imagens mentais complexas. Ele precisa criar um espetáculo mental, uma representação teatral ao mesmo tempo em que procede, como na leitura dos demais gêneros textuais, às ações de previsão, de relação, de confrontação, de ajuste, de confirmação ou de alteração de seu horizonte de expectativas (p. 22). 

A leitura do texto dramático, portanto, colabora de forma muito particular para o amadurecimento do leitor e um ótimo exemplo vem quatro páginas depois do trecho acima citado, quando a autora pede aos seus leitores que “embarquem” na proposta de colocar-se na posição de testemunha de uma cena de amor, de um acidente ou de uma aula: “cada um dos participantes tem sua fala, sua dose de emoção, seu ponto de vista” (p. 26). Há um saber muito importante, profundo e necessário que mora entre a consciência dos múltiplos pontos de vista e tudo o que o texto dramático proporciona: a possibilidade de experimentar ver a vida de vários ângulos diferentes ou de colocar-se “simplesmente” no lugar dos outros, como preferirem!
Os planos simultâneos que o texto dramático descortina, ou seja, “ao mesmo tempo[5] alguns personagens jogam cartas, outros duelam e outros, ainda, namoram” (p. 32), fortalecem de forma lúdica a empatia. Enquanto eu lia esse trecho, evocava outra Martha(minha vida é cheia delas!), a Nussbaum, de Sem fins lucrativos[6]:
As escolas são apenas uma das influências sobre a mente e o coração em formação da criança. Grande parte da tarefa de superar o narcisismo e desenvolver a preocupação com os outros tem de ser feita dentro da família; além disso, os relacionamentos no interior da cultura de iguais também desempenham um papel influente. (NUSSBAUM, p. 45).

Precisamos ler mais textos dramáticos em casa. Envolver as crianças nessa multiplicidade de planos simultâneos para a fruição decerto e sobretudo, mas também para ver mais e melhor os outros. Cada um pode ser um personagem, depois trocamos e experimentamos ser outros, em casa com os nossos!
Marta Morais da Costa afirma que no texto dramático, “o personagem é garantia da unidade do relato” (p. 56). Isso significa que para não se perder, é preciso seguir as pegadas dessa pessoa que mora no texto e anima o palco, ter atenção a todos os seus gestos! E sem que eu tivesse temido “forçar a barra”, ela mesma resolveu a minha timidez:
o que sabemos sobre as pessoas? Para conhecê-las é preciso, aos poucos e a partir de atos, conversas e relatos de outras pessoas, construir uma ideia sobre esse ser humano. Mesmo assim, continuará a haver lacunas, falhas e imperfeição no retrato que faremos de alguém (p. 58)

Há muita sintonia entre a obra de Rosana Kohl Bines e Marta Morais da Costa. Nussbaum parece pensar como nós: “As histórias aprendidas na infância tornam-se elementos poderosos do mundo que habitamos como adultos” (NUSSBAUM, p. 36). Levando-se em conta as histórias propriamente ditas, a surpresa da própria voz, a importância das cenas e a vivência da multiplicidade de personagens, essas primeiras meditações que escolhi ler pelo título e pelo coração me fizeram pensar no estranho fenômeno de ter confundido o título da coleção Mediações com Meditações... 

Para quem quiser conhecer a coleção:
·        http://colecaomediacoes.com.br/
·        https://www.facebook.com/hum.publicacoes/


Epílogo: quem leu esse texto na 2a, dia 31/10, percebeu que eu confundi os títulos e que chamei o tempo todo a coleção pelo gênero de "caderno de notas" de Marco Aurélio... Estranhos fenômenos de leitura!



[1] O rosto bonito e franco de Francisco é a página 17 do volume 4 (1º semestre) do Livro das coisas para guardar: Histórias para conhecer, da solução educacional Tempo, assinado por mim e publicado pela Ed. Positivo, em 2013.
[2] De Sylvia Orthof, ilustrado por Eva Furnari.
[3] De Um Gato marinheiro de Roseana Murray, ilustrado por Elisabeth Teixeira.
[4] Referência ao clássico de Lígia Bojunga.
[5] O destaque é do texto de Marta.
[6] Em 5 de outubro de 2016, publiquei aqui no blog um texto sobre a MP do Ensino Médio: http://literistorias.blogspot.com.br/2016/10/tenho-uma-ou-duas-palavras-dizer-sobre.html em que me referi sobejamente à obra de Martha Nussbaum. É um livro que vale muito a pena ler!