terça-feira, 3 de julho de 2018

O arroz doce da minha tia Graça


O blog LITERISTÓRIAS está muito perto de completar 3 anos. Nesse tempo, fui constante, bissexta, militante da educação, contista e cronista. Neste 2018, desaparecida é uma boa definição... Tenho uma surpresa preparada para o aniversário, mas enquanto ele não chega, achei que contar uma história de família seria uma boa oportunidade de voltar. Uma história passada em grande parte à mesa.
Na 6ª feira passada, arranquei da minha tia a sua receita de arroz doce. Na verdade, não é justo dizer arrancar..., afinal a receita me foi oferecida logo que perguntei, com meu caderno em punho. E minha tia me foi narrando, sem lista de ingredientes e modos de fazer bem delimitados. Enquanto escrevia, eu me lembrava do Livro de cozinha da infanta Maria, que está em meus Capítulos de história: o trabalho com fontes (Curitiba: Aymará, 2012). Tudo se apresentava em sua narrativa misturado, como quem está na cozinha, em ação. Anotei do jeito dela:

1 medida de arroz afogado[1] por água na panela. O arroz tem de ficar bem mole, Mar. Depois, cobre com leite. Isso, quando estiver quase seco...

O arroz doce de minha tia Graça não é o arroz doce que ela aprendeu com a mãe dela, a minha avó Nair de Jesus Cardoso Lopes. É o arroz doce que ela inventou, a partir daquele aprendizado, na vida. Uma vida às vezes com poucos ingredientes, em que era preciso improvisar muito. Sua neta não gosta de coco, então nada de leite de coco na canjica!
O arroz doce da minha tia é muito simples e é feito com elementos que costumamos ter em casa. Na sua simplicidade, agrada gregos, troianos e a Maria Clara, meu muito objetivo interesse pela receita. Desde 6ª passada, fui assediada para preparar o prato.
Preparei a receita hoje. Enquanto cozinhava, entretanto, percebi uma coisa importante. A receita de minha tia requer uma presença. Requer inteireza. Isso me fez pensar nas leituras que tenho feito sobre o “Mindful eating”, ou seja, “comer com atenção plena”[2]. Para avaliar se o arroz está secando, é preciso olhar, experimentar e comparar (com o cozimento do arroz de minha tia, meu parâmetro). A cada passo, eu precisava ter atenção. Não podia estar naquela receita corrigindo prova... Eu queimaria tudo. Mas é preciso dizer que muitas vezes faço o meu arroz e feijão diários com o notebook na cozinha, respondendo a e-mails e marcando reuniões. Descasco o alho com que vou refogar o feijão, amasso, lavo as mãos, confundo os panos de prato e olho a tela do computador. Onde estou de verdade?
Minha mãe e minha tia são gêmeas, é por isso que Maria Clara chama a tia-avó de Vovó G (Vó Graça). Para ela, é muito simples e óbvio ter 3 avós. O rosto de minha tia me remete à minha própria mãe, mas também à sua singularidade. É ser quase igual, em tudo semelhante, mas não a mesma... Seu arroz doce é seu, sendo parecido com o de sua própria mãe e ofertado a mim, sua sobrinha quase filha. Um mundo de quases perfeitos!
Enquanto escrevo, vejo o arroz doce sobre a mesa, pronto e coroado de canela, a esfriar. Está cheiroso. O arroz doce de minha tia chega aqui em casa em tupperwares, organizado por ela para mim. Em dias de festa, chega nas travessas mais bonitas disponíveis na casa dela. Travessas de enxoval! O arroz doce da minha tia Graça tem um monte da inteireza dela, seu tempo passado e seu tempo presente. Ela. 
Enquanto escrevo, ele ainda está quente. Um bom exercício de paciência para minha filha! Será que comemos ainda hoje? O arroz doce será nosso quando ele quiser, no futuro. Mas quando amanhã esse futuro for passado eu poderei fechar esse texto com a avaliação da crítica gastronômica de 9 anos. Ela dirá se o arroz doce da Vovó G é realizável fora de seus domínios.
Teria minha tia escondido algum segredo? Não é de seu feitio, mas é do feitiço das cozinheiras... Fazer esse arroz doce em plena 2ª feira foi para mim uma chance de estar comigo mesma, sob a supervisão imaginária dela na cozinha. Será que ela aprovará? Espero que a gente consiga guardar uma parte para devolver o seu tupperware.

Em 2 de julho, às 19:40.

Epílogo:
Em 3 de julho, às 7:18. A verdade? Ficou um pouco seco. O arroz doce de minha tia é mais úmido. Acho que ele me enganou... Quando deitei o conteúdo da panela na travessa, ele estava muito úmido, mas a comida tem seus caprichos. Isso eu já aprendi há muito tempo! O pai e a filha comeram e repetiram. Acho que foi para me animar. Mentiras sinceras me interessam... Bom dia!




[1] “Afogado” no Livro de Cozinha da Infanta Maria é refogado. No sentido de minha tia, é cheio de água ou leite.
[2] Há alguns anos minha mãe me deu de presente uma assinatura (que ela renova sempre) da revista Saúde e este ano a revista deu aos assinantes o livro Mindful eating. Comer com atenção plena de Cynthia Antonacchio e Manoela Figueiredo (São Paulo: Abril, 2018). Leitura que vale a pena!

sábado, 5 de maio de 2018

“Construindo pontes”, de Heloísa Passos. Um filme-documentário-biografia-combinada de Álvaro, de sua família e do Brasil recente.


No último dia 16 de abril, eu e a filha fomos ver o filme de Heloísa Passos “Construindo pontes”. Tratava-se da estreia, no Shopping Crystal em Curitiba. É difícil de caracterizar essa obra, daí a profusão de elementos que incluí no título da resenha. Eu não sabia praticamente nada do filme, quem me convidou foi uma pessoa com quem trabalhei por alguns anos e há muitos, Tina Hardy, que integra a equipe do filme. Recebi os ingressos por e-mail e achei que era uma boa chance de rever gente amiga, com a qual eu e Tina havíamos trabalhado. Rever a própria Tina, inclusive! Intuição correta. Antes da exibição do filme, Heloisa chamou a equipe, revelou-se emocionada de estrear em sua cidade, afirmou o desejo de um Brasil mais plural, onde o desaparecimento de uma mulher que lutava pelos direitos humanos: Mariele presente!, não pode passar despercebido, nem ser esquecido, chamou Álvaro. Foi ovacionada.
A princípio, achei curioso que Heloísa Passos tivesse espantado o mal estar diante do gerúndio, que passou a ser quase uma forma desagradável desde que a sintaxe inglesa meteu-se naquilo que era tão bonito em Camões, que gostava do gerúndio! Fiquei intrigada. Por que Heloísa não preferira um belo substantivo: “A construção de pontes” ou “A construção das pontes”. Eu sabia que depois da exibição, haveria debate, mas como estava acompanhada da filha, em plena 2ª feira, sabia também que a necessidade de obedecer à hora de dormir não permitiria que a gente explorasse essa e outras questões. Heloísa espantou o medo, preferindo o gerúndio. Que nem eu. Heloísa pareceu preferir o inacabado. A construção não terminou. Está em curso.
Há muitas coisas dissonantes no filme, a começar pela relação de Heloísa, que atua no filme, e Álvaro, seu pai, também “ator”. Seus desentendimentos parecem inviabilizar qualquer ponte. Para Álvaro, houve um tempo em que no Brasil havia um projeto de país, um projeto de progresso, de desbravamento, melhorias... que ele identifica com “os tempos da revolução”. É outra a semântica de Heloísa, que afirma que todo esse tempo era a ditadura e que esse projeto de país nunca foi o único projeto e que ele tinha desdobramentos, que Álvaro minimiza... Minimiza com jeito. É Heloísa que fala alto, exalta-se, não aceita. O pai se cala, pede que não se exalte, não é para tanto.
Logo no início há um momento que arrancou risadas da plateia. Pai e filha discutem e ela afirma: não é isso o meu filme, vou desligar o som e desliga. Há uns segundos de respeitosa porta fechada depois daquele duelo entre os dois. A plateia fica de fora. Quantos de nós já não batemos a porta de casa para terminar uma discussão?
Heloísa ausculta a memória da família. Filmes e fotografias antigas mostram viagens divertidas e caras do núcleo feminino. Onde estava o pai? No trabalho. Às vezes levava-as aos destinos, ficava uns dias e voltava apressado. Mapas são abertos na mesa da sala de jantar e Heloísa pede ao pai que localize as suas obras. São inúmeras. Álvaro fala das dificuldades, de onde morou provisoriamente e sem a família, fala do constrangimento dos prazos fixados pelos militares.
Muitas vezes a palavra final é de Álvaro, mas deixado só, no meio da sala, depois de um confronto. Heloisa deixa o aposento, passa; ele quase fala para si mesmo, tinha total lembrança na câmera ligada no meio da sala? É Heloisa quem narra. Eu não gostava de mim quando estava com ele. É uma das frases mais difíceis do filme; ela ribombou dentro de mim.
E não é que Heloísa e Álvaro se metem em um carro para empreender uma viagem a dois mesmo com toda essa dissonância??!! Quantas viagens a dois fiz com meu pai, morto em 5/3/2018? Muitas. A última foi para a França em 2014, quando ele foi morar “para sempre” na Europa e voltou 11 dias depois. É Heloísa quem dirige, o pai dá uns palpites (ora, como não?! É um pai!!!). São parados para uma pesquisa, o pai responde algumas vezes; parecem perdidos em alguns caminhos. Onde estaria a tal ponte que Heloísa queria tanto ver/mostrar?
Há um momento em que ela para diante de um sítio que motivou todo o filme para ela. Sua intenção? Deslanchar a epifania. Heloísa faz a tomada 3 vezes; é ela que conta. Fala as mesmas frases. Vemos que o sol vai se ponto. Nada de revelação em Álvaro. Não há qualquer impressão sensível. E se Heloísa tivesse levado umas madalenas proustianas? Não há madalenas no carro... Há, porém, um momento em que ele parece tentar agradá-la: é bonito. A plateia ri do esforço do pai, do seu equívoco. Heloísa não entrega.
Mas como todo destino das viagens é chegar, a deles também chega a termo. O termo era uma ponte, pela qual trafegam trens. É difícil chegar até lá. Fazem uma manobra na estrada. Estacionam. Os dois sobrem uma escadinha sofrida. Há um detalhe lindo dessa subida. Lindo e arriscado. Ah, como a beleza é perigosa! Heloísa é mais jovem, sobe sem esforço. Álvaro é um senhor e preocupa-lhe a lepidez da filha, cuidado, mas é ele quem resvala e é a filha que o sustém. Emoção forte em mim. O pai nos seus braços. Cuidado, pai. Não tenha medo.
Conversam. E não é que o trem vem?! Heloísa é uma menina de novo. Talvez não esperasse, ri-se, está perto demais, afasta-se. O sol já se pôs, quase não se vê mais nada; ouve-se o barulho.
“Construindo pontes” é um filme lançado em momento propício. Como a narrativa foi se fazendo (olha o gerúndio novamente!), talvez ela tenha sido atravessada mais facilmente pelos acontecimentos da nossa história recente. Há um momento em que há uma discussão de concepção de narrativa: Álvaro diz: mas você precisa planejar e depois filmar; Heloísa não quer isso, quer o oposto: que a captação das imagens motivem a sua “escrita”. Embora eu particularmente fizesse como Álvaro, mas nem eu nem ele somos cineastas..., acho que o resultado levou o expectador a uma urgência. A explicação dessa urgência me leva a uma digressão.
Temos visto e celebrado a afirmação de identidades que por anos, séculos!, foram caladas. Hoje, um mesmo indivíduo se identifica de formas múltiplas. Entretanto, de uns tempos para cá eu, muito atenta às redes sociais, porque participo delas como “personagem” e como analista do comportamento das pessoas (até das que não me interessam), tenho visto que não raro temos reduzido os nossos campos. As nossas “novas” identidades nos fizeram adentrar em grupos pequenos, quase sociedades secretas. Exemplifico: outro dia li o texto de uma aluna muito boa no FB que afirmava seu orgulho de ser uma jovem pesquisadora, historiadora, mulher e desprezava a sua identificação como brasileira... Eu sei por quê. Porque a extrema direita tem sequestrado os símbolos mais evidentes da nossa identificação e talvez a afirmação e o orgulho de ser brasileira, em meio ao golpe e a seus desdobramentos, pareçam à minha aluna um alto risco. O fato é que eu não pretendo deixar a extrema direita sequestrar nem um centímetro do que sou. Então ser uma mulher, intelectual, historiadora, escritora, mãe convivem com minha atenção constante ao Brasil. Convivem com minha luta. Convivem com meu amor.
O fato de afirmar novas identidades, dizê-las em voz alta, exibi-las orgulhosamente têm-nos feito abandonar pontes muito precisadas de reparo. Volto à Heloísa. É por isso que acho que seu filme é lançado em momento propício. Não sei se Heloísa tem a ambição de propor reparos, mas é filha de engenheiro, sabe da necessidade disso! Coisas podem ruir de vez se a gente não cuida, se a gente não se interessa, se não vai aferir com muito jeito o que é preciso fazer para evitar desmoronamento.
Tenho visto muita ameaça de desmoronamento por aí e de divisão – a divisão na família de Heloísa é a redução da escala de uma crise que se instalou fortemente entre nós nas últimas eleições, dividindo a mesa de jantar da casa da gente. Mas Heloísa não se encolhe, ela enfrenta a diferença e convida o pai para viajar com ela! Isso é tão bonito... Estão confinados no carro para o dissenso e o amor. E a maior surpresa é que a “rebelde” Heloísa é que a engenheira construtora de pontes. O filme acerta na mosca; eita precisão matemática! Heloísa tem novo diploma.

Epílogo:
Escrevi esse texto em aeroportos. Comecei no dia 20 de abril no Recife, quando viajava para Cabo Verde (África) e terminei dia 27, no aeroporto de Lisboa, no meio da volta para casa: a Curitiba de Heloísa e minha! O que fui fazer lá? Construir pontes! O filme me preparou, acordou a engenheira na professora. Eu me esforcei para deixar fundações sólidas lá. Será que Álvaro aprovaria minhas técnicas? Como deixei lá contatos, e-mails, promessas..., vou fazer como esse pai e essa filha: refutar belos substantivos e dizer que voltei construindo.   




segunda-feira, 30 de abril de 2018

Três DESAFIOS propostos ao PROFESSOR: Conferência proferida no Instituto Internacional da Língua Portuguesa da Cidade da Praia em Cabo Verde (África), dia 26 de abril de 2018.

Obs.: As imagens indicadas no texto foram mostradas em PowerPoints, mas não serão trazidas para cá.

Três DESAFIOS propostos ao PROFESSOR

Em 2015, depois que a jovem Malala Yousafzai conclamou os países membros da ONU na própria sede da organização a firmarem uma promessa de que cada criança tenha direito à educação livre e de qualidade, fotógrafos da agência internacional de notícias Reuters reuniram imagens de salas de aula de várias partes do mundo em uma galeria. Esse conjunto de imagens difundiu-se de forma exitosa nas redes sociais e ratificou o que já sabemos há décadas: que há uma enorme disparidade de condições oferecidas pelos países e pelas instituições de ensino para que crianças pelo mundo afora realizem seus estudos.

Escolhi algumas imagens da galeria, quase sem critério. (Imagens). O que há nesse conjunto de fotos escolhidas por mim da galeria[1]?

·        Mobiliário (mas nem sempre...)

·        Materiais

·        Salas pequenas e lotadas; amplas e lotadas; amplas e esvaziadas

·        Paredes (mas nem sempre...)

·        Murais com trabalhos, recados

·        Atitudes/proximidade

·        Meninos e meninas, um professor, professoras

(Planisfério)

O que há em todas essas imagens? Meninas, meninos, um professor e professoras.

(Imagens da Antiguidade e da Idade Média)

O que há nessas imagens? Alunos e professores.

O tempo mudou a forma do livro, do rolo para o códice; do códice para o ipad..., mas alunos e professores estão em todas as fontes que trouxe aqui.

Entretanto, em 2016, o jornal da USP publicou uma matéria intitulada: “Robô professor ensina geometria a adolescentes”[2]. Segundo a matéria:

Entrar em uma sala de aula e ser recebido por um robô humanoide que ensina geometria. Como será que adolescentes reagem a esse novo professor e a suas diferentes formas de ensinar? Esse é o foco de diversas pesquisas que estão sendo realizadas no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos.
Entre os trabalhos relacionados ao tema está um projeto de mestrado que utilizou o Robô NAO para ensinar geometria a 62 adolescentes entre 13 e 14 anos de escolas públicas e particulares de São Carlos. Por meio de um sistema de visão computacional, o robô foi programado para reconhecer figuras geométricas planas.
(...)
No final das atividades, [o pesquisador Adam Moreira] aplicou um questionário sobre figuras geométricas aos jovens e os estudantes que participaram das aulas com o NAO tiveram um desempenho melhor (84.61% de acertos) em relação aos que não tiveram contato com o robô (60% de acertos). “Os pesquisadores da área da educação estão buscando novas ferramentas de ensino com a inserção de tecnologia em sala de aula. Hoje em dia, nota-se que a simples exposição de conteúdo na lousa não atrai toda a atenção dos alunos e a robótica pode tornar a aula mais atrativa”, afirma Roseli Romero, professora do ICMC e orientadora do trabalho. (...) Ela ressalta, ainda, que a inclusão do robô em sala de aula não visa a substituir o professor, e sim propor novas alternativas de trabalho.

 

Existem muitas outras matérias e artigos que já vaticinam a ausência do professor em sala de aula. Ora, ausência física do professor em muitas salas de aula já é realidade em cursos de educação à distância! Mesmo bancas de defesa de mestrado e doutorado já são feitas sem a presença física do avaliador, que está distante, em sua casa muitas vezes, e realiza a arguição por vídeo conferência, Skype, FB ou outros meios similares. No caso da matéria do jornal da USP, a frase: “[Roseli Romero] ressalta que a inclusão do robô em sala de aula não visa a substituir o professor, e sim propor novas alternativas de trabalho” é uma das últimas e no caput se lê: Robô professor ensina geometria a adolescentes”. Por um lado, parece que a ausência física do professor em sala não inviabiliza a aula ou os exames; no segundo caso, há uma confusão entre recurso pedagógico e o desaparecimento de uma carreira. Um professor que, distante 800 km, 1500 km... de uma turma, leciona e responde a questões com auxílio da tecnologia pode garantir a um bom número de alunos uma formação de qualidade, sem que esses alunos ou municípios/estados tenham de despender recursos em passagens e hospedagem. No caso do robe NAO, ele foi desenvolvido por uma equipe formada por alunos e professores humanos, para garantir a crianças humanas outras maneiras de aprender. O professor de matemática de uma sala em que NAO está presente deve, por sua vez, aprender a explorar o máximo de possibilidades que esse recurso pode oferecer aos seus alunos.

No mundo em que se questiona, propõe-se ou se antevê mudanças radicais na carreira de professor, eu também gostaria de apresentar algumas respostas, decerto provisórias, como todas as respostas, mas necessárias, segundo minha perspectiva. Para mim, são três os desafios propostos a nós professores pelo contexto em que vivemos: 1) educação para a pesquisa; 2) educação para a salvaguarda do planeta e 3) educação para a paz.

 

1)      Educação para a pesquisa

(Página de livro[3])

Há duas demandas nessas páginas: origem e função dos objetos. Ao final, pede-se que a criança registre sua fonte de pesquisa. Compreender esses objetos como recursos técnicos desenvolvidos por civilizações antigas e melhorados por outras, compreender sua aplicação para ajudar homens e mulheres a resolver problemas, a lidar com limitações em suas vidas são aprendizagens preciosas, colaboram para a consciência história, no sentido apontado por Jörn Rüsen, ou seja: “como a atividade mental da memória histórica, que tem sua representação em uma interpretação da experiência do passado encaminhada de maneira a compreender as atuais condições de vida e a desenvolver perspectivas de futuro na vida prática conforme a experiência”[4]. Ao final, é importante que a criança registre na página onde encontrou as informações solicitadas.

Sobre esse registro final, as primeiras perguntas que a criança pode fazer são por que e para quê. Se ela encontrou as respostas, para que deve revelar quem lhes segredou? O professor vai responder que registrar onde encontramos o que fomos buscar é prova de honestidade intelectual, ou seja, não devemos simplesmente nos apropriar do que foi pensado pelo outro antes de nós, respondido, escrito, sem identificar a fonte. Portanto, preencher o espaço do livro com a referência da pesquisa obedece a um princípio ético, que também é tema de ensino. Compreender a responsabilidade desse gesto reverbera em outras áreas da vida.

Registrar as respostas e as fontes não são, porém, a totalidade do que chamo de educação para pesquisa. Entre essas operações, há o essencial: pesquisar efetivamente. Como o livro didático não refere procedimentos, não indica modos de fazer..., é preciso voltar-se a quem consolida e extrapola a relação da obra com os estudantes, ou seja, o professor. Como ele, começa a educação para a pesquisa.

A educação para a pesquisa precisa levar em conta três aspectos: o conhecimento do pesquisador em formação (no caso, as crianças, os adolescentes, os jovens e os adultos), os recursos à disposição dos pesquisadores e o conhecimento das fontes, pois não basta dizer aos alunos: pesquisem quem inventou o astrolábio e para que ele serve. O verbo pesquisar não está investido de uma magia que garante a quem o conjuga a ciência de como fazer... A ação de pesquisar contém procedimentos.

Antes, uma breve e necessária digressão. No mundo do fácil acesso a inúmeras e diversas fontes de pesquisa impressas ou digitais, faz sentido preocupar-se com a elaboração de tutoriais ou com a explicação de procedimentos? A digitação de um tema no google não abre imediatamente possibilidades que muito ultrapassam as nossas mais presunçosas capacidades de leitura?! Abre possibilidades decerto, mas a infinidade não tem gerado amplitude, tem mesmo encurtado nosso campo de visão, pela comodidade. Uma criança que é convidada a fazer uma “pesquisa” sobre o astrolábio e que digita a palavra no google, vai encontrar aproximadamente 339.000 resultados. Ela precisa de um mapa.

Voltando aos aspectos, pesquisar começa muito cedo, antes da escola. Mas na escola a ação é elaborada e deve sê-lo em etapas, foi o que chamei de “conhecer o pesquisador em formação”. Uma criança muito pequena que ainda não foi alfabetizada ou que não o foi completamente pode pesquisar, ela deve começar! Como professor pode guiá-la? Reunindo questões sobre um tema e conversando com meninos e meninas sobre fontes possíveis. Se ela não domina a escrita, pode se voltar ao testemunho: pode inquirir seus pais e avós; pode recorrer a imagens e à cultura material. Se houver recursos, essa inquirição pode ser gravada e compartilhada em sala de aula; se não houver, a descoberta mais significativa pode ser registrada na forma de um desenho ou de uma série de desenhos.

Se as crianças são maiores, se dominam a escrita, é preciso construir um tutorial. Quando dominei a escrita, voltei-me às bibliotecas para realizar as minhas pesquisas. Com a internet, não esqueci a frequentação às bibliotecas físicas, eu ampliei as minhas possibilidades. As crianças de hoje muitas vezes começam pela internet e ignoram que os livros de casa (se há livros em casa...); os livros que estão na biblioteca da escola, do bairro ou do município são também fontes de pesquisa. Em minhas conversas com crianças, descobri que quando elas não ignoram o fato de que os livros são fontes de pesquisa, muitas delas imaginam que eles trazem informações ultrapassadas e que por isso o que está na internet é melhor, pela novidade. É preciso educá-las para uma apreciação mais plural do que pode ser encontrado na biblioteca. Essa educação começa com a visita à biblioteca (!); com o passeio pelos seus corredores; com uma conversa sobre as formas de catalogação das obras; com a exploração dos formatos de livros disponíveis; com esquecer-se nesses espaços; com o convite a um escritor; com aprender a buscar o que se deseja; com perder-se e se surpreender. Se hoje as bibliotecas estão muito diferentes e têm a ambição de se tonarem espaços de convivência e cultura; em certos lugares, elas são ainda o único refúgio de um patrimônio cultural e científico dos quais homens e mulheres têm direito em uma comunidade.

Bibliotecas sempre foram um lugar de atividade pública. Em Alexandria, supomos que estudiosos iam e vinham, reuniam-se para discutir os mais variados assuntos, certamente havia recitais e conferências, quem sabe até um lugar para consultas práticas do dia a dia. Em Viagem ao centro da Terra, de Júlio Verne, quando os exploradores observam que há poucos livros nas estantes de uma biblioteca pública de Reykjavik, o bibliotecário diz:

“Ah, senhor Lidenbrock! Estes livros percorrem constantemente o país. Em nossa pobre ilha de gelo há um grande entusiasmo pelos estudos! Não há pescador ou agricultor que não saiba ler, e todos leem. Acreditamos que os livros, em vez de ficarem embolorando em uma estante, longe dos olhares dos curiosos, foram escritos e impressos para que todo mundo os leia. Por isso os de vossa biblioteca passam de mão em mão, são lidos uma e cem vezes, e demoram com frequência um ou dois anos para retornar às suas respectivas estantes”. Este é um verdadeiro “espaço de convivência”. [5]

Educar para a pesquisa é também valorizar as bibliotecas. Um professor deve ser um frequentador desses espaços e deve saber o que há nelas sobre a sua área. Mas o ideal é que transcenda a sua área...

No caso da internet, levando em conta crianças que dominam a escrita e são capazes de ler de forma autônoma, é preciso fornecer-lhes indicações de sites fiáveis, para que aprendam a ler e a selecionar as informações relevantes nesses sítios. Se a escola tiver condições, o professor pode fazer um ensaio em sala de aula. As crianças podem selecionar frases, construir fichamentos (com a indicação sempre de onde as informações saíram) e o professor pode com esses dados construir com toda a classe um texto coletivo em que cada criança reconheça a sua busca. Assim, ela será capaz de perceber, de um lado, o que constitui o rol de elementos encontrados na rede e, de outro, como eles podem virar outra coisa: a formulação de uma resposta autoral das suas perguntas.

A educação para a pesquisa é um dos maiores empreendimentos da escola e da universidade. No ambiente universitário, não é possível imaginar que os alunos chegaram prontos... Se assim o estivessem, para que a universidade? E ela é fundamental para os alunos e para a sociedade. Neste caso, o professor também deve construir um mapa. Eu compartilho elementos do tutorial que elaborei este ano para meus alunos recém ingressos no curso de História, Memória e Imagem da UFPR, disciplina de História Medieval. Elementos extraídos do tutorial:

ü  O que são atas de congressos e seu potencial para a pesquisa;

ü  Como sites e blogs podem ser úteis; que cuidados devem ser tomados na navegação por esses ambientes;

ü  Lista de revistas, consagradas ao medievo especificamente;

ü  O que é o qualis periódicos da Capes;

ü  Qual a importância das bases dos Programas de Pós-Graduação, que contêm dissertações e teses defendidas.

A maior parte dos estudantes que eu tenho diante de mim nunca participou de um congresso sobre História Medieval; nunca leu uma das revistas listadas no tutorial; desconhecia o qualis; ignorava que teses e dissertações estão disponíveis na rede... É tarefa do professor que deseja dar continuidade ao empreendimento da pesquisa fornecer subsídios para a formação dos seus alunos. Explicar o potencial de cada elemento sintetizado acima.

Antes de passar para o próximo desafio, é preciso lembrar que bibliotecas e a rede por mais amplos que sejam não são os ambientes exclusivos das pesquisas. Os testemunhos, as histórias contadas pelas pessoas, as rodas de conversa, o universo surpreendente da cultura material em casa e nos museus são fontes de pesquisa! O mais importante é avaliar o potencial de cada fonte para responder às questões que orientam a pesquisa. O professor deve ser agente dessa avaliação.

 

2) Educação para a salvaguarda do planeta

Não tenho dúvida de que os mais diversos livros de ciências trabalham (com maior ou menor qualidade) para a conscientização dos alunos a respeito dos problemas ambientais criados por gerações de habitantes do planeta. Há vasta bibliografia que deve ser pesquisada e que deve ser tema de debate em sala de aula. A educação para a pesquisa é aliada da educação para a salvaguarda do planeta. Mas nesse segmento do meu texto, gostaria de abordar questões talvez “pequenas”, mas que são tão importantes quanto as mais eruditas rodas de conversa sobre o meio ambiente.

Não há texto didático, por mais completo que seja, capaz de combater sozinho os danos causados pela inexistência de um programa de gerenciamento de resíduos sólidos em uma escola. Se a escola não discute coletivamente o que fazer com seu lixo, ou seja, se não reúne quem a anima – alunos, professores e funcionários – em um projeto exequível, realista e ambicioso ao mesmo tempo, vamos dizer às crianças que os extraordinários textos que elas leem em seus livros lindamente editados são letra morta no dia-a-dia. Vamos dizer que a ciência está apartada da vida. Seremos mais uma geração a falhar.

Os planos de gerenciamento de resíduos sólidos são uma exigência institucional em muitos países, estados e municípios. Caso determinadas empresas não construam esse plano, podem ser punidas. Mas a realidade é muito diversa nesse campo e eu não falo de uma exigência que, se não cumprida, pode implicar uma multa. Minha experiência tem me mostrado que quando se reúnem as pessoas que vão participar de um projeto para que elas compartilhem suas dúvidas e propostas, e para que elas compreendam a importância de uma iniciativa, temos mais chance de fazer o projeto dar certo. Falar sobre lixo não é elegante, mas é estratégico.

Não é preciso um grande investimento para construir um programa dessa natureza em uma escola. As crianças geram uma imensa quantidade de resíduos e os profissionais que limpam e reúnem esse material precisam compreender muito bem o que fazer com ele e precisam ser empoderados em seu papel de agentes do processo. Se a escola não se preocupa com a formação desses funcionários, se consente que eles estejam alijados do que constitui a identidade de uma instituição educacional, ela precisa rever seus princípios... A escola tem a ciência para animar ações transformadoras.

Alguém pode redarguir: mais uma tarefa para os assoberbados professores? Na verdade, construir um programa dessa natureza na escola não pode ser encarado como mais uma “coisa”, um trabalho a mais; deve ser compreendido como oportunidade de aprendizado coletivo. A salvaguarda do planeta tem muitos personagens, papeis, atribuições, responsabilidades e, como a educação para a pesquisa, é trabalho contínuo. As crianças devem se envolver gradativamente, no mesma proporção de seu crescimento e maturidade.

Um programa de gerenciamento de resíduos sólidos em uma escola pode começar mesmo ao final de um recreio, no estudo do descarte. Quando as crianças são muito pequenas, geralmente lancham em sala de aula, o lixo gerado pode ser estudado em pequena escala. No caso de crianças maiores ou adolescentes, é possível propor a ampliação da escala também de forma paulatina; é possível criar grupos por ambientes na escola; ações políticas, como o convite a autoridades para um debate; a adoção de uma praça próxima à escola; o estudo da qualidade da água em um rio próximo... Estou convencida de que um bom programa dessa natureza ultrapassa a escola e vai para casa e estou convencida de que o engajamento nesse programa promove a saudável reflexão sobre outro aspecto essencial para a educação para a salvaguarda do planeta: o consumo. O estudo do descarte certamente vai revelar desperdício, escolhas equivocadas na alimentação das crianças e desdém pelo ambiente...

Ao longo de minha experiência como professora de crianças e adolescentes[6], participei de iniciativas exitosas de reflexão sobre o consumo; dentre elas, destaco uma das mais lúdicas: a feira da troca[7]. Sou uma entusiasta das feiras da troca e das tardes do desapego. Já frequentei e já organizei esses eventos.

(página do meu livro[8])

Uma feira da troca é um momento em que adultos e crianças se reúnem com objetos que não lhes são mais úteis para trocá-los por outros. Um conjunto de xícaras por um livro; gibis por uma almofada; um CD por óculos de sol e por aí vai. Não há dinheiro em uma feira da troca; sequer para lanchar, pois eu posso trocar pedaços do bolo que preparei para o evento por sucos, ou por um sanduíche. Quase todo mundo sai feliz de uma feira da troca, com seus novos presentes! As feiras da troca são inciativas facilmente realizáveis fora da escola: em condomínios, em bairros e nas famílias.

No ambiente escolar, é possível refinar a experiência com uma preparação para o evento. Os professores podem promover diferentes ações de preparação, tais como: debates sobre necessidade, vontade, desejo; a elaboração de listas prévias afixadas nos murais; simulados a partir de seus próprios objetos; reflexão sobre equivalência, valor etc. Novamente os professores são chamados a construir a experiência e a investi-la de oportunidade interdisciplinar de aprendizado. As feiras da troca devem ser calendarizadas, a comunidade escolar deve se preparar para vivenciá-la.

Todavia, refletir sobre o consumo não cabe inteiro na feira da troca. Essa iniciativa é um capítulo, que pode ser muito bem sucedido, mas é um evento. Mesmo a preparação não dá conta de reunir tudo o que podemos pensar e fazer a respeito no ambiente escolar. O consumo está por toda a parte: desde a lista de materiais que a escola pede aos pais, até o que as crianças pedem e julgam essencial: como canetas, mochilas, lápis de cor... Um exemplo: por que a cada ano é preciso pedir uma caixa de 12 lápis de cor a todas as crianças? Algumas cores favoritas efetivamente acabam ao final de um ano..., mas sobram outras, a maior parte! Então, ao invés de pedir, a escola deveria consignar na sua lista de exigências a reposição de materiais e estimular o reaproveitamento. Folhas que sobram em cadernos em um ano devem virar outros cadernos no ano seguinte.

A internet tem favorecido, à revelia da escola, trocas e reaproveitamentos organizados pelos pais. À revelia da escola, decerto, pois muitas vezes escolas particulares se beneficiam financeiramente das taxas de materiais... Há diversos grupos de desapegos de livros e uniformes escolares no FB. O maior estímulo para isso no Brasil tem sido as crises que vivemos e o desemprego. Essa motivação não pode ser escamoteada e é legítima. Mas podemos trazer mais significados para a iniciativa. A escola não precisa fingir que não vê, só porque a iniciativa não a beneficia financeiramente. As instituições de ensino podem repensar a sua gestão e seu próprio consumo para promover aquilo que propalam, ou que propalam no ambiente protegido dos livros didáticos que adotam... Tenho visto que a escola pode ser um espaço eivado de contradições, mas podemos mudar isso promovendo esse ambiente de aprendizagem em ambiente colaborativo. Experiências nesse sentido já são realidade, porém podem ser mais plurais que simplesmente chamar os pais a fazer reparos ou a pintar os muros da escola[9]...

No centro desse 2º desafio está a palavra “salvaguarda”, que contém duas ações óbvias: salvar e guardar. Outras palavras poderiam ter sido trazidas a esse desafio, mas creio que as que se unem para a criação desta unicidade levam consigo ações contundentes que começam em nós. Não é possível esperar pelas autoridades, é necessário movê-las; não é possível imaginar que as crianças só possam ter uma compreensão “acadêmica” dos problemas ambientais, ou seja, uma preocupação que se limita à leitura de textos e a debates dentro de sala de aula; é preciso dar sentido prático aos conteúdos dos livros e das pesquisas realizadas; é preciso construir coletivamente formas de potenciar a comunidade escolar. Os professores são os fomentadores naturais desse processo, como pesquisadores e propositores.

 

3) Educação para a paz

Gostaria de começar esse segmento enfrentando a possibilidade de ironia.

(fotografias do massacre de 29 de abril de 2015, promovido pelo governo do Paraná contra professores e estudantes e da professora Márcia Friggi, agredida por um aluno de 15 anos, depois de tê-lo expulsado de sala por comportamento inadequado, em Santa Catarina)

É possível falar de paz? É possível falar em capacidade de educar para a paz, nesse cenário?

Não é só possível como urgente.

Escrevi esse texto impactada pela execução da vereadora carioca Marielle Franco no dia 14 de março de 2018, emboscada junto ao seu motorista Anderson Pedro Gomes, também vítima da execução, no centro da cidade Rio de Janeiro, quando retornavam ambos de um evento. Logo depois da divulgação do crime, uma autoridade do poder judiciário e um membro da câmara federal do Brasil espalharam por suas redes sociais informações falsas sobre a vereadora. Essas informações foram compartilhadas por seguidores e deram origem a uma onda de comentários violentos, em meio aos quais se “celebrava” a execução de uma socióloga que foi eleita com expressiva votação para o cargo de vereadora e em cuja pauta estava a defesa do direito das mulheres em específico e dos direitos humanos em geral. São muitos os aspectos a serem destacados nesse caso, mas escolho dois: o fenômeno do “fake news” e a violência que se dissemina nas redes.

O fenômeno da geração de notícias falsas se relaciona ao primeiro desafio que trouxe aqui: a educação para a pesquisa. Se meus exemplos no segmento foram acadêmicos, a ambição do desafio é mais ampla, ou seja, instrumentalizar crianças, adolescentes, jovens e adultos a perseguirem respostas às suas questões através de fontes fiáveis.

No post do deputado, há uma sucessão de mentiras que logo depois foram facilmente refutadas[10]. De forma quase absurda, a refutação caminhou paralelamente à continuidade do compartilhamento da mentira. Ao ser confrontado pela imprensa, entretanto, o político afirmou que não verificou as informações divulgadas por ele, mas que não se arrependeu de tê-las difundido...

Ora, o que aconteceu com as milhares de pessoas que compartilharam o post do deputado, alavancado, por sua vez, pela rede de um movimento de extrema direita no  Brasil e de grandes ambições dentro da escola[11]? Esses milhares de pessoas – mães, pais, profissionais liberais, pessoas de todos os níveis de escolaridade – abriram mão de realizar uma simples averiguação, ou seja, tomaram as afirmações de um deputado, de uma desembargadora e o que um movimento agressivo, na esteira desses dois primeiros, repisou, como verdades absolutas. Uma criança que não foi iniciada na educação para a pesquisa e que copia em seu livro o primeiro dos 339.000 resultados sobre o que é um astrolábio, só porque é o primeiro e porque está publicado na rede (!), pode se tornar (nunca necessariamente, devo ressalvar) um desses adultos compartilhadores de “fake news”, orgulhosos de sua ignorância, como o deputado, promotores e comentadores da violência em ambiente virtual contra pessoas reais.

Professores são vítimas de violência, como vimos nas imagens e haveria muitas outras infelizmente a serem trazidas aqui. Somos agredidos nas redes sociais por nossas convicções políticas, por nossas propostas pedagógicas, pela nossa necessidade de planos de carreira, pela duração de nossas férias, pelos locais que escolhemos para gozá-las (!)...; vitimados também pela disseminação de mentiras. Do outro lado, protegidos pelas telas, muitas vezes, estão nossos alunos, suas famílias, ou pessoas que desconhecemos. O cerco desanima, desespera e é causa de adoecimento e de afastamento de sala de aula. Ninguém disse para nós ao longo dos nossos cursos que seria tão difícil; ninguém nos preveniu de que, porque amamos ler; realizar cálculos, pensar sobre o universo, questionar sobre como viveram homens e mulheres antes de nós, refletir sobre nossa saúde, doenças, sobre o planeta..., nossas paixões e desejos de saber nos arrastariam a enfrentamentos tais!... Mas corajosamente vou enfrentar a ironia, afirmando o contrário do que nos choca.

Parte dessa violência pode ser combatida por nós, com os instrumentos que temos: nossas paixões e vontades de saber. Os desafios que proponho nesse texto perpassam todas as áreas em que nossas curiosidades foram historicamente compartimentadas: línguas, matemática, geografia, história, ciências... É com a nossa formação, que deve ser continuamente elaborada (desafio de acréscimo, não acessório), que podemos trabalhar pela educação para a paz. A pesquisa pode revelar que não é de hoje que confrontamos os desafios da natureza, a difamação e o consumo: “quem obedece à natureza e não às vãs opiniões a si próprio se basta em todos os casos. Com efeito, para o que é suficiente por natureza, toda a aquisição é riqueza, mas, por comparação com o infinito dos desejos, até a maior riqueza é pobreza” (Epicuro, séc. IV e III a.C.). Isso significa que temos sido os mesmos? De jeito nenhum. Se continuamos a temer a morte, aqueles que desconhecemos, a violência[12]... ao longo de séculos, nossas maneiras de reagir têm sido diversas e estudá-las anima a descoberta de novas soluções.

Estudá-las... Não se contentar com afirmações que ninguém verificou, destituir mentiras com a verdade e interromper a reprodução de hábitos que ferem o planeta, ou seja, a nós mesmos, são essenciais para a paz. Nós, professores, devemos instrumentalizar nossos alunos para esse enfrentamento. E eles correspondem ao apelo pela paz, mesmo e inclusive, lutando pelo que acreditam! No Brasil, estudantes secundaristas ocuparam suas escolas em 2016, cuidaram delas, para em paz manifestarem sua oposição às reformas do Ensino Médio; nos Estados Unidos, estudantes secundaristas marcharam em paz neste ano de 2018, contra a facilidade de adquirir armas de fogo.

 

Conclusão ou outros desafios?

Ninguém disse para nós ao longo dos nossos cursos que seria tão difícil... Talvez porque em diversos lugares do mundo e notadamente no Brasil não tenhamos conseguido combater uma surdez deliberada ante o concerto de nossas reflexões sobre as consequências de escolhas equivocadas das políticas educacionais, orquestradas pelos Estados que se transformaram em testas de ferro de interesses transnacionais, interessados, por sua vez, no enfraquecimento dos próprios Estados, por mais paradoxal que isso seja (!)...

Em seu livro Sem fins lucrativos. Por que a democracia precisa das humanidades[13], Martha Nussbaum afirmou que ainda não enfrentamos a crise mundial da educação, mas creio (e essa é minha única discordância da autora) que temo-la enfrentado. O problema é o fazemos contra ouvidos moucos. A autora aborda “mudanças radicais” no que tem sido proposto às crianças e jovens na escola e eu subscrevo:

Que mudanças são essas? Tanto no ensino fundamental e médio como no ensino superior, as humanidades e as artes estão sendo eliminadas em quase todos os países do mundo. Consideradas pelos administradores públicos como enfeites inúteis, num momento em que as nações precisam eliminar todos os elementos inúteis para se manterem competitivas no mercado global, elas estão perdendo rapidamente seu lugar nos currículos e, além, disso nas mentes e nos corações dos pais e dos filhos[14].

 

A denúncia feita pela autora aponta para escolhas que têm desfavorecido um conhecimento formador de seres humanos para o raciocínio crítico e para a imaginação criativa. Falo das humanidades e das artes. Os desafios que propus ao longo dessas páginas têm por objetivo promover o desenvolvimento humano para o respeito pelo patrimônio cultural, ambiental e para a salvaguarda da vida. Na educação para a pesquisa, falamos que o testemunho é fonte: o conjunto de histórias que as gerações contam umas para as outras fortalecem os laços em uma comunidade; ler essas histórias também promove os vínculos. Buscar a verdade e reconhecer o esforço de pesquisa do outro, na sua identificação, promovem o desenvolvimento cientifico e a ética. Proteger o meio, questionar o consumo e apreciar as diversas formas com que homens e mulheres se relacionaram com o ambiente mobilizam a consciência histórica e potencializam a capacidade de crianças e jovens de criarem propostas e soluções. Na educação para a paz não consigo ver maior tributo à importância das artes! Até que nos provem ao contrário, só temos esta vida para viver, entretanto, a Literatura nos oferece a oportunidade de sermos muitos outros, de vivermos em países desconhecidos, em épocas inacessíveis, oferece-nos a oportunidade de experimentarmos emoções e sentimentos vários: amor, ciúme, amizade, empatia... e de enxergar o direito dos outros a tudo isso.

A supressão de um repertório de conhecimento e experiência é lida por Martha Nussbaum como resposta às pressões da competitividade do mercado. Mas não estamos diante de uma engrenagem que se move sozinha. Quem insufla e engendra as políticas de empobrecimento da formação das crianças e jovens em nome da dieta lucrativa é gente – homens e mulheres que “esqueceram” a sua própria formação... Talvez esse seja um dos aspectos mais duros a serem evocados no fenômeno que Martha Nussbaum refere: o fato de os poderosos deliberadamente “esquecidos” de si decidirem o apequenamento do futuro.

As “mudanças radicais” estão situadas no tempo presente, a 1ª edição do livro de Martha é de 2010, ou seja, estamos falando de um fenômeno que certamente já dera passos importantes em um passado recente, a supressão do ensino das línguas clássicas é exemplo das “novas” escolhas realizadas nesse passado tão acessível. Agora, entretanto, o conjunto de propostas é apresentado de forma muito clara, sem qualquer acanhamento ou mesmo embaraço diante da oposição sistemática que os educadores têm feito. No Brasil, a reforma do Ensino Médico e a publicação da Base Nacional Comum Curricular são dois exemplos de mudanças impostas a alunos e professores, que por sua vez têm denunciado as perdas que vão se abater sobre as gerações futuras e os interesses de fundações particulares famintas de recursos públicos.

Como homens e mulheres que tiveram em sua formação um repertório de comparecimento das humanidades e das artes passaram a considerar esse conjunto como dispêndio? A primeira resposta pode apontar para o fracasso dos seus mestres... Mas ninguém pode ser eternamente responsabilizado pelas decisões das crianças sob sua responsabilidade que já se tornaram adultas há muito tempo... É muita arrogância a nossa – dos professores – considerar que tudo pode ser controlado por nós. Nós devemos nos esforçar para educar crianças e jovens para serem adultos responsáveis: averiguadores de informações, salvadores e guardiões dos recursos naturais e incansáveis defensores da paz. Porém, homens e mulheres crescidos e que já estiveram diante de nós nas salas de aula da vida podem fazer (já o fizeram!) escolhas diferentes das que nos esforçamos por lhes apresentar. É por isso que nossa tarefa se renova a cada geração, como obstinação e como atenção às mudanças.

Podemos reagir à decepção pelo que não conseguimos realizar com desânimo, abandono, com delírio, esperança ou revolução. Podemos também imaginar que os adultos esquecidos do que nós lhes ensinamos podem ser lembrados pelos filhos, ou seja, pelas crianças que temos agora, sob nossa responsabilidade. Podemos reagir, impondo a nós mesmos novos desafios, o que tentei fazer ao longo dessas páginas. Eu também sou adulta esquecida de muita coisa importante..., mas gosto de achar que meus alunos me educam para a responsabilidade que me cabe e que cabe a tantos de nós, na NOSSA formação humana. 

Obrigada.

 

Escrito em Curitiba, entre março e abril de 2018.

Lido em Praia, em 26 de abril de 2018

 




[3] RIBEIRO, Diavan Adelino. História do 5º ano do ensino fundamental: livro do estudante. Curitiba: Editora Bom Jesus, 2014. p. 41 e 42.
[4] RÜSEN, Jörn. Jörn Rüsen e o ensino de História. Organizadores: Maria Auxiliadora Schmidt, Isabel Barca, Estevão de Rezende Martins. Curitiba: Ed. UFPR, 2010. p. 112.

[5] Entrevista com Alberto Manguel: http://www.candido.bpp.pr.gov.br/modules/noticias/article.php?storyid=172 acesso em 16 de março de 2018.
[6] Na escola Palmares, hoje Projeto 21: http://www.escolaprojeto21.com.br/ (acesso em 18 de março de 2018).
[7] Foi com Yara Amaral, fundadora da escola Projeto 21, que aprendi como uma feira da troca é uma experiência formidável!
[8] GUIMARÃES, Marcella Lopes. O Livro das coisas para guardar. Desejos de criança. Curitiba: Ed. Positivo, 2013. p. 48.
[9] Uma das iniciativas plurais foi realizada pelo Colégio Bom Pastor em Curitiba: http://www.gazetadopovo.com.br/curitiba/alunos-e-familiares-se-unem-para-revitalizar-e-evitar-fechamento-de-escola-em-curitiba-ekxju32ec39tskv61mfjmivpk (acesso em 18 de março de 2018). A escola sofreu com o desvio de verbas e quase teve suas portas fechadas.
[11] Refiro-me ao MBL.
[12] Como o historiador Georges Duby reconheceu em Ano 1000 ano 2000 na pista de nossos medos.
[13] NUSSBAUM, Martha. Sem fins lucrativos. Porque a democracia precisa das humanidades. São Paulo: Martins Fontes, 2015.
[14] Idem, p. 4.