segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Sobre essa experiência intensa que é ler Elena Ferrante – A Tetralogia

Para minhas amigas geniais

Comecei a ler a tetralogia de Elena Ferrante (A amiga genial; História do novo sobrenome; História de quem foge e de quem fica; História da menina perdida. Trad. de Maurício Santana Dias. São Paulo: Biblioteca Azul, 2015-2017) dentro do clube do livro consagrado a Marcel Proust. Um dos membros, Raphael Lautenschlager, em um café da manhã do clube, contou-nos a história do primeiro livro e eu fiquei fascinada. Poucas semanas depois, duas amigas minhas faziam aniversário. Achei que oferecer A amiga genial era uma boa chance de garantir que, depois que a primeira das duas terminasse, eu pudesse também ler a obra e discuti-la com elas. Dei os volumes, mas não aguentei esperar e em um fim de domingo corri ao shopping atrás do livro. Ler o primeiro volume ao mesmo tempo em que lia Proust foi uma experiência maravilhosa e só confirmou (não que o fato precisasse) o quão benéfico é ler várias coisas ao mesmo tempo! Acho que, desde que me tornei uma leitora, eu leio vários textos ao mesmo tempo. Mas ler Proust e Ferrante juntos foi confrontar ritmos diferentes até o paroxismo e me fascinar com essa diferença gritante. A princípio, pensei que, enquanto em Proust às vezes nada acontece ao longo de várias páginas que nos arrebatam entretanto, em Ferrante, os acontecimentos nos envolvem em um ritmo alucinado. Mas isso era uma falsa pista e depois descobri que os acontecimentos, eles são sim abundantes no texto dela, não são exatamente a diferença, mas sim a forma da sua exteriorização. Em Proust, os mais importantes eventos são o seu impacto sobre o narrador e a sua reflexão sobre eles, sentamos à frente de Marcel (sim, o narrador também é Marcel...) para ele nos explicar e ele nos explica bem; em Ferrante, é como se adentrássemos os palácios de Menelau[1], se ele tivesse habitado algum dia a Nápoles pobre e violenta onde nasceram Lila, Lenu, Enzo, Nino, Antonio, Stephano, Alfonso... Não piscamos. A narradora Lenu tem uma câmera no ombro; seu texto é urgente, pois enquanto “caminha” as cenas se sucedem. Ela não usa perífrases (mesmo levando em conta a robustez dos volumes), sua sintaxe é direta; suas frases são curtas. Quase não há circunlóquios e como tudo é urgente, às vezes não sobra muito tempo para um real empenho de compreensão.
Mas fora do texto – de Ferrante e de Proust – aconteceu um fenômeno interessante enquanto eu lia. À medida que eu relatava nas redes sociais meus percalços de leitora/de leitura, eu descobria outras pessoas tomadas pelo texto de Ferrante. Eu usei o verbo tomar, mas poderia ter usado possuir, pois em alguns momentos fui possuída pelo texto e pressenti que mais gente se sentia assim. Eu li a tetralogia vorazmente, mas houve dois momentos em que precisei parar. Precisei parar, porque a minha personagem adorada (acho que de todo mundo: Lila) começou a sofrer coisas desmedidas que, por conta do texto e da sua possessão, me trouxeram um sofrimento muito real. A segunda parada durou oito dias. Nesse intervalo, entreguei-me a Marcel Proust e à corrente que conheço bem, há quase dois anos lendo os volumes de Em busca do tempo perdido.
 ***
A tetralogia de Elena Ferrante vai agradar aos leitores que gostam de textos em que julgam que a História e a Literatura estão imbricadas. Emprego “julgam” porque a História sempre está na Literatura, a despeito dos formalismos, e ela está na sugestão, na relação de ideias única, nas metáforas e em tudo aquilo que é tão sutil e miúdo que sobrepuja, entretanto, qualquer alusão explícita aos acontecimentos de uma determinada época. No caso da tetralogia, a relação entre História e Literatura deve ser buscada muito além das datações explícitas e da referência a fatos sucedidos (que existem para o deleite dos que valorizam isso), e deve ser encontrada na maneira como essa narrativa é construída, a partir da narradora feminina. A voz do texto é muito contemporânea. A maneira como afirma e o que afirma foram conquistas difíceis: a conquista de afirmar. Quando a narradora declara:

“Por mais que agora eu escrevesse e falasse a torto e a direito de autonomia feminina, não sabia prescindir de seu corpo [do corpo de Nino], de sua voz, de sua inteligência. Foi terrível ter de confessá-lo, mas eu continuava gostando dele, e o amava mais que a minhas próprias filhas” (História da menina perdida, pág. 91).

O que está escrito aí é que uma mulher que escrevia e palestrava sobre o feminismo não podia deixar a cama de um homem que fora amante de sua melhor amiga e que colaborou para o desespero, e quase ruína, desta. O que está escrito aí é que uma mulher podia viver sem as filhas e periodicamente até as esquecia, na cama desse homem. A tetralogia não é recomendada a quem tem estômago fraco ou a quem se apressa em julgar a literatura segundo as suas “superiores” formas de viver. O que há nesse texto de extraordinário – e estamos falando de literatura! – é a coragem de afirmar. Isso é uma conquista estética e histórica.
São quase cinquenta anos na paisagem, na vida e no corpo das personagens. Das meninas com suas bonecas favoritas, passamos às transformações da puberdade, o crescimento dos seios, a menarca, a descoberta do desejo; ao amor; aos casamentos; aos estudos; à gravidez, os filhos; aos choques matrimoniais, as separações, reconfigurações afetivas, à maturidade, ao envelhecimento. Mas Ferrante não separa o público do privado. Está tudo misturado na vida de Lila e Lenu. O poder de D. Achille e dos criminosos Solara é enfrentado por Lila desde a infância: na demanda pelas bonecas Tina e Nu e na reação contra o assédio dos irmãos Marcello e Michele. Enquanto Lenu se afastava do bairro, ampliava seu próprio mundo, as mulheres percorriam com ela um caminho de possibilidades mais largas no contexto. Ela é parte disso. Mas Lila fica, porque as oportunidades estão muito longe de serem democráticas naquela Itália dos anos 50 e 60...
Na vida adulta, o início da era da informática em que estamos, da extraordinária transformação que os computadores operaram em pequena e grande escala abarcando toda a nossa vida, também afeta o bairro! É Lila quem aprende a lidar com eles, que monta mesmo uma empresa e ganha dinheiro, sem ter jamais concluído o 5º fundamental... Ela que escreveu um livro na infância, que abismou a professora com sua inteligência(!), só não conseguiu mover-lhe a generosidade. Essa professora Oliviero... Há uns professores desagradáveis na tetralogia.
A corrupção atravessa a obra. A grande corrupção do Estado, as falcatruas, desvios de verbas que comprometem personagens que vimos crescer, como Nino, ou personagens que julgávamos ilibados, como o Prof. Airota, sogro de Lenu. A corrupção também está no bairro, nas relações e crimes dos Solara. Está na fábrica de embutidos de Bruno Soccavo, constrange as mulheres assediadas pelo patrão, pelos colegas, Lila...
Em meio a tudo isso, não esperem de Ferrante o encômio das esquerdas. Não sabemos jamais se o marceneiro comunista Alfredo Peluso realmente matou D. Achille, nem por que o teria feito; mas vemos seu filho Pasqualle assumir a luta armada, envolver-se com a esquerda letrada na pessoa de Nadia Galiani e ser por ela finalmente traído, depois que ambos são presos. Fica claro que Nadia vai se livrar, com uma lista de delações, que implica mesmo esse personagem que admirei tanto, Enzo. Mas Pasquale não sai elogiado, ele se perde no texto.
A Itália de Ferrante me pareceu tão próxima de repente...:

“Mas depois a situação se complicou. Uma corrupção de longuíssima data – comumente praticada e comumente sofrida em todos os níveis como norma não escrita, mas sempre vigente e das mais respeitadas – veio à tona graças a uma repentina inflexão da magistratura. Os meliantes de alto coturno, que a princípio pareciam poucos e ineptos que foram flagrados com as mãos nas arcas, se multiplicaram a ponto de se tornarem a verdadeira face da coisa pública.” (História da menina perdida, pá. 432).


Ferrante, é mesmo a sua Itália literária?
A violência é grande na tetralogia. O sangue. Falei que quem tem estômago fraco não deve ler. Pessoal, no primeiro volume, Fernando Cerullo, o pai de Lila, arremessa a filha pela janela!! Nenhum agente do juizado de menores vai bater à sua porta... As surras, tapas, feridas, violência sexual doem em nossos olhos. O que é noite de núpcias de Lila?... Ou mesmo de Lenu (embora muito mais branda)? Compreendo que a dedicação ao corpo das mulheres em que se destaca Nino tenha virado a cabeça dessas amigas... Compreendo, amigas. Ainda que, cá entre nós, eu tenha odiado esse personagem com toda a minha energia de leitora e mulher.
Há, portanto, uma profunda e bem realizada conexão entre o público e o privado nessa obra, graças à narração. Lenu é uma escritora de sucesso e é ela quem “escreve” a história! Sim, toda a tetralogia é um empreendimento de escrita e compreensão de um fenômeno, Lila, e da profunda e visceral amizade entre as duas. Já escrevi muito sobre como a amizade é para mim o verdadeiro amor[2], e a obra de Ferrante revela isso. Algumas das cenas mais bonitas, e há uma abundância de coisas muito feias nessa tetralogia, são as vezes em que há proximidade física entre as duas. O que é o banho que Lenu dá em Lila para o casamento desta (A amiga genial, pág. 313)? É uma cena linda! Um batismo entre mulheres. O corpo da corajosa Lila sempre precisa de cuidados na catedral[3] de Ferrante...
Há uma grande mistura entre as suas vidas. Porém, uma mistura muito singular. Às vezes em que parecia que Lila vivenciava uma situação mais favorável, Lenu não estava bem, e quando Lenu despontava, Lila se acabava na fábrica de Bruno Soccavo. O segundo volume, História do novo sobrenome, é particularmente difícil, do ponto de vista de seus acontecimentos; é um volume de grandes transformações e decepções. Ele é a prova da contra-festa (iniciada ainda no fim do primeiro), em que a temporada em Ischia representa o ponto culminante. O terceiro volume, História de quem foge e de quem fica, por outro lado, consolida essas transformações.
Quando terminei o primeiro volume, escrevi pelo twitter para a escritora portuguesa Inês Pedrosa que me sentia próxima do seu romance Fazes-me falta, em que a amizade é vivida de forma igualmente intensa[4], ainda que a composição da narrativa seja tão diferente! Mas, quando falo de amizade, falo de complexidade, de uma profusão de sentimentos que estão muito longe dos tons pasteis, falo de odiar. Estou convencida de que Lila e Lenu se odiaram muito.
Lenu escreve para combater a “desmarginação” de Lila, um conceito inventado por esta: “o contorno das coisas e pessoas era delicado, (...) se desmanchava como fio de algodão. (...) uma coisa se desmarginava e se precipitava sobre outra, era tudo uma dissolução de matérias heterogêneas, uma confusão, uma mistura.” (História da menina perdida, pág. 168). Lenu escreve para combater o desaparecimento de Lila. A escrita é a sua maior subversão contra a decisão da amiga genial, de perder os contornos, desmarginar-se. E a escrita é isso mesmo, desde quando alguém teve essa ideia. Foi sempre uma decisão tão poderosa, que sociedades já cinzelaram nomes de indivíduos para condená-los ao esquecimento. A “escrita” de Lenu constrói, revitaliza, mas ela nos devolve o paradoxo: sem abandonar o desejo, é impossível, entretanto, abarcar o que nos abisma.
A tetralogia encena ainda uma relação com outros livros. Desde Mulherzinhas de Louisa May Alcott, esse livro tão desejado pelas amigas, passando pela Fada azul de Raffaella Cerullo, a Lila, até os livros lidos e escritos por Elena Greco, a Lenu; é sobre amar os livros, bebê-los e precisar deles. É sobre a escrita de si, do outro. Aborda aquilo que pode ser mesmo o combate entre o sujeito que escreve e as palavras, expõe a luta para encontrar a melhor maneira de dizer, fadada ao fracasso; revela a insegurança, o desejo de querer ser lido, reconhecido. Para Lenu converge tudo isso e ainda o fantasma de Lila: referência, inspiração e desafio.
Eu devorei a tetralogia e a odiei por vezes. Eu achei algumas bobagens, lugares-comuns, por exemplo, no quarto volume. Cansaço? Mas não me recuperei do que Ferrante fez com Tina... e acho que nunca vou. Seguramente esse livro me fez pensar muito. Eu vi minhas amigas geniais em suas páginas, eu me vi. Ao final, ao lado da constatação que é só de amizade que fala a tetralogia, que ela se eleva soberana no texto, eu fiquei pensando na paixão.
Outro dia, no consultório da dentista, li em uma revista de uns quatro anos atrás um texto que afirmava que ninguém mais se apaixona perdidamente. Em uma das raras vezes em que Lila consente em falar por inteiro de Nino à Lenu, ela afirma que ele padecia de um grande mal: a superficialidade. Fiquei pensando no seguinte: o lugar da amizade na Literatura contemporânea (eu falei sobre Fazes-me falta de Inês Pedrosa, mas há outros livros e poderia estender ao cinema!) é uma resposta à paixão rala que mal nos têm prendido aos homens e mulheres que, entretanto, temos “amado” por aí? Ralos, eles e elas? Ralos, nós?... Naquele texto da revista, a autora dizia que nunca mais tinha sido surpreendida por um telefonema desesperado, a altas horas, de uma amiga em soluços, destroçada por uma paixão não correspondida ou por uma desilusão. É só uma hipótese, mas acho que a resposta da Literatura, sua crença na amizade como um amor, é de uma beleza e esperança que, ainda que não me faça perdoar Ferrante por causa de Tina, me comove verdadeiramente.
Por outro lado, a que corresponde essa abundância de Ninos na nossa vida? Talvez aos nossos estômagos fracos. Então, recomendo esse arsênico literário que é a Tetralogia, para estragar de vez a digestão dos estômagos veganos, do ponto de vista literário tão somente, é claro...

Essa foto linda foi tirada por uma de minhas amigas geniais!
Nós estamos na foto, meio desmarginadas, meio divertidas.
Portugal (Leiria) - 2017.





[1] Estou aqui fazendo uma relação direta com o capítulo “A cicatriz de Ulisses” de Mimesis, de Auerbach.
[2] Entre vários textos, remeto o leitor ao Diálogo sobre o tempo: entre a Filosofia e a História. Curitiba: PUCPRess, 2015.
[3] Uso a metáfora que geralmente é empregada para a obra de Proust.
[4] Escrevi a respeito em: GUIMARÃES, Marcella L. “O ‘lugar sem lugar’ da palavra em Fazes-me falta, de Inês Pedrosa”. Anais do XIX Encontro Brasileiro de Professores de Literatura Portuguesa. Curitiba, 2003.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

O blog LITERISTÓRIAS completou 2 anos em 22 de julho e hoje tem presente: uma entrevista com a medievalista Maria Cristina Pereira!

Na apresentação do currículo lattes de Maria Cristina Correia Leandro Pereira, lemos que ela se formou em História pela UFRJ, em 1990, e defendeu o mestrado em História Social pela UFRJ, em 1993. Na época em que Maria Cristina era moça quase mestra, eu entrava na mesma UFRJ, só que para fazer Letras. Depois ela continuou seus estudos fora do Brasil: DEA em História pela Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (1997) e doutorado em História - Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (2001). Eu fiquei no Brasil e acabei por encontrar seu nome na área que me adotou, a área dela!, nossa!, a História. Atualmente ela é professora de História Medieval do Departamento de História da USP e do Programa de Pós-graduação em História Social da mesma universidade. Coordena o Laboratório de Teoria e História da Imagem e da Música Medievais (LATHIMM-USP), sobre o qual ela fala logo abaixo com mais detalhes. Tem pesquisas nas áreas de História, com ênfase em História Medieval e História da Arte, atuando principalmente nos seguintes temas: imagens, arte medieval, arte barroca, arte sacra.

Ano passado, Maria Cristina lançou o livro Pensamento em imagem. Montagens topo-lógicas no claustro de Moissac (São Paulo: Intermeios, 2016. v. 1. 275p). Conheço a sua obra há um tempo e a tenho indicado a meus alunos, sobretudo os textos que estão disponíveis na internet. Mas só conheci Maria Cristina pessoalmente em 2013, no X Encontro da ABREM (Associação Brasileira de Estudos Medievais), em Brasília. Há duas fotos nossas dessa época em meu perfil do FB e nas duas estamos lado a lado. Maria Cristina ama felinos, igual à minha filha Maria Clara, deve ser coisa de marias... rsrs e coleciona fantásticas imagens de grafites que ela compartilha em seu perfil do FB. Para fechar, uma coisinha que não posso deixar passar: adoro os cabelos de Maria Cristina!

Agradeço imensamente a ela o tempo que dedicou a responder às quatro perguntas que lhe enviei para essa edição de aniversário dos 2 anos de LITERISTÓRIAS! Esse caderno de notas virtual começou tão despretensioso e já entrevistou colegas importantes!!, que eu penso que Literistórias está se sentindo com o rei na barriga nesse seu aniversário... Obrigada a todos os colegas que entrevistei!

LITERISTÓRIAS: Maria Cristina, você é uma medievalista dedicada à pesquisa dos ornamentos e outras imagens nos manuscritos medievais. Que tipo de respostas o pesquisador pode obter ao voltar seus olhos e as suas questões a esse tipo de documentação?

MARIA CRISTINA: As imagens são uma fonte muito rica para os medievalistas – menos por seu caráter “arqueológico” (ou seja, de permitir a obtenção de conhecimentos concretos sobre a sociedade medieval através de representações mais realistas) e mais por seu caráter “teórico” (ao permitir conhecer mais sobre a cultura e o pensamento medieval). As imagens têm distintos usos e funções, que vão muito além da tão falada função didática, possuem modos de funcionamento complexos e a elas são atribuídos poderes de várias ordens. Um aspecto importante e que diz respeito a todos esses âmbitos é a ornamentação: as imagens, mesmo as mais figurativas, podem ornar objetos (roupas, livros, armas etc) e lugares (igrejas, claustros etc), colocando-os em destaque, embelezando-os ou mesmo trabalhando para seu bom funcionamento. A concepção medieval de ornamento é bastante afastada da atual, que o associa a algo supérfluo. Cito um exemplo, para ficar mais claro: em um manuscrito iluminado, muitas das letras iniciais podem ser ornamentadas, tanto com motivos não-figurativos, como folhagens, quanto figurativos, ou mesmo simplesmente com uma cor diferente do resto do texto. Essa ornamentação não apenas contribui para o embelezamento da obra e para torná-la um objeto de mais prestígio (digno de ser dado de presente a um grande senhor), mas também ajuda a organizar as divisões internas do livro e pode inclusive servir de suporte para comentários visuais ao texto.

LITERISTÓRIAS: Fale um pouco sobre a diversidade de trabalhos congregados no LATHIMM-USP?

MARIA CRISTINA: O Lathimm, que recentemente foi rebatizado como “Laboratório de Teoria e História das Mídias Medievais”, tem três eixos distintos de interesse: a imagem, a música e o texto escrito (e o novo nome busca justamente sublinhar as possibilidades dessas diferentes mídias). Cada um deles é coordenado por um pesquisador diferente, que pode ou não congregar outros pesquisadores. Assim, no caso do eixo da música, trata-se das pesquisas realizadas individualmente pelo Prof. Dr. Eduardo Henrik Aubert, fellow researcher da Universidade de Cambridge, na área de musicologia histórica; no eixo dos textos, seu coordenador, o Prof. Dr. Gabriel Castanho, da UFRJ, trabalha com seus orientandos de graduação e pós-graduação, que desenvolvem diferentes pesquisas sobre as práticas escritas, a retórica, os discursos e a semântica na documentação medieval; e no eixo das imagens, que coordeno, há pesquisas individuais dos membros da equipe (graduandos e pós-graduandos) sobre temas tão diversos como manuscritos medievais, iconoclastia na Península Ibérica do início dos tempos modernos, claustros românicos e mosaicos bizantinos, além da pesquisa coletiva sobre imagens nas margens dos manuscritos. Todos os anos organizamos um congresso onde são apresentadas não só as pesquisas realizadas nos três eixos mas também trabalhos de outros pesquisadores sobre as imagens medievais.

LITERISTÓRIAS: Maria Cristina, fale um pouco sobre o projeto “Escritos sobre os novos mundos: uma história da construção de valores morais em língua portuguesa”. Como ele se relaciona à sua trajetória vocacionada às imagens?

MARIA CRISTINA: Minha participação nesse projeto se insere no eixo medieval, estando relacionada à problemática da construção do passado através de escritos e imagens. Mais especificamente, busco entender o modo de funcionamento de um tipo de imagens relativamente frequentes nos manuscritos medievais do século XIII ao XV: as que se encontram nas margens. Estudo, portanto, os discursos propostos por essas imagens – que têm muitas vezes um viés moralizante, mesmo quando se trata de imagens satíricas, pois eram norteadas por um humor profundamente moralizante.

LITERISTÓRIAS: Pensando no jovem pesquisador, que desde a sua IC se encanta com as imagens medievais (como não se encantar?!), que saberes esse interessado ou interessada precisaria reunir para começar a trabalhar com essa documentação? Como você começou?

A quem quer entrar nesse campo de pesquisas riquíssimo e ainda relativamente pouco explorado no nosso país, eu daria alguns conselhos, sobretudo de ordem prática. Em primeiro lugar, o investimento no domínio de línguas estrangeiras: o francês e o inglês, necessariamente, além do alemão e do italiano ou de outra língua específica, e também do latim. Também aconselharia a buscar uma formação em paleografia, caso o interesse seja por manuscritos (porque não se pode estudar imagens descoladas dos textos). E, por fim, a construção do repertório de imagens mais amplo possível, o que só se consegue com a frequentação das imagens (por meio de bancos de imagens, por exemplo).
No meu caso, quando comecei a me interessar por imagens, depois do Mestrado, busquei um tema que tivesse relação com minhas pesquisas de IC e de Mestrado, que foram sobre o monaquismo beneditino: a arte escultórica cluniacense. O primeiro passo foi o estabelecimento do recorte, através da consulta a livros e catálogos com imagens de claustros de mosteiros cluniacenses (a inexistência da internet na época certamente dificultou muito a tarefa), até definir um objeto preciso, o claustro de Moissac. Paralelamente a isso, efetuava leituras teóricas sobre imagens medievais. Essa primeira e breve etapa de formação mais autodidata, por assim dizer, foi completada pela orientação que tive de um dos maiores especialistas na área, Jean-Claude Schmitt, e da participação no grupo de pesquisa que ele coordenava no então GAHOM (Groupe d’Anthropologie Historique de l’Occident Médiéval), na EHESS, onde pude também receber orientações de outros especialistas, como Jean-Claude Bonne, Jérôme Baschet e Michel Pastoureau.

MARIA CRISTINA: (se quiser pode superar as 200 palavras. Maria Cristina, aqui você poderia evocar algumas dificuldades e como fez/faz para vencê-las)

A maior dificuldade que enfrento é o acesso à bibliografia e aos próprios objetos de estudo. Certamente, nos últimos 10 ou 12 anos, com a expansão da internet e dos bancos digitalizados de textos e de imagens, essas dificuldades estão sendo cada vez menores. Mas ainda assim, é necessário passar temporadas na Europa para completar o acesso a esse material, o que torna a pesquisa nessa área de conhecimento muito dependente dos órgãos de financiamento.

Antes de terminar:

Quem quiser comprar o livro Pensamento em imagens... de Maria Cristina, deve visitar o site da editora Intermeios: http://redeintermeios.com/livros-intermeios/151-pensamento-em-imagens-montagens-topo-logicas-no-claustro-de-moissac-9788584990511.html

Quem quiser ler Maria Cristina, no que há disponível na rede, pode consultar seu perfil em Academia.edu: https://usp-br.academia.edu/MariaCCLPereira


    segunda-feira, 10 de julho de 2017

    As Cavalhadas do distrito de Brumal (2017), espetáculo de beleza e união da comunidade

    No dia 2 de julho último, aconteceu no distrito de Brumal, município de Santa Bárbara (MG), a 80ª edição das suas Cavalhadas. Viajei especialmente para acompanhar e documentar a festa, regida por um “maestro” que há 61 anos integra a mesnada[1], falo de Divino Lúcio.

    (foto do livro de Dilce Mendes, p. 6, realizada por Moacir Nunes)


    Conheço bem a festa por leituras e experiência própria, pois já estive na cidade de Guarapuava (PR) para acompanhar a manifestação que, no ano em que lá fui, envolveu cerca de 600 pessoas, entre atores, cavaleiros e comunidade vestida “à moda medieval”! Como medievalista, tenho grande consideração por tudo o que promove a curiosidade das pessoas para o estudo dos modos de viver desse largo período ainda hoje marcado pelo desconhecimento e pelo preconceito. Quem já não ouviu ou leu (!) a famigerada expressão “Idade das Trevas” associada à Idade Média? Pois é, o que vi em Brumal foi luz e cor, o que há de mais próximo dos vitrais de uma catedral gótica...

    Segundo Dilce Amara Mendes:

    a festa [em Brumal] foi criada pelo tropeiro Jorge da Silva Calunga, natural de Morro Vermelho, distrito de Caeté. Em meados de 1936 mudou-se para Brumal com toda a família. Tropeiro, foi trabalhar numa fazenda onde conheceu Amaro Antônio Luiz, que exercia a mesma profissão. Após terem uma graça alcançada por Santo Amaro, os amigos decidiram realizar a cavalhada em sua homenagem, seguindo as características da festa existente na terra de origem de Jorge.[2]

    O cavaleiro Divino Lúcio a quem me referi no primeiro parágrafo é filho de Amaro Antônio Luiz. Dilce Amara Mendes é a organizadora do belíssimo livro Brumal mostra a cavalhada, obra bilíngue (português e inglês), repleta de depoimentos e de fotografias. Segundo um de meus informantes, praticamente toda a comunidade de Brumal tem em casa um exemplar da obra. Trouxe para a minha casa o exemplar desse meu informante, não surrupiado, mas ofertado.

    Creio que muita gente sabe a origem da festa. Ela remonta à Reconquista, um conceito controverso, mas operativo, que enfeixa relações vivenciadas na Península Ibérica, durante a Idade Média: expansão territorial (por sobre os territórios conquistados pelos muçulmanos depois de 711); confronto bélico; expansão do poder político cristão; substituição de modos de viver radicados nas relações feudo-vassálicas, nobreza bélica e suporte ideológico[3]. Desse conteúdo ideológico, faz parte o universo da guerra justa e da guerra santa. A Reconquista teve como seu guardião espiritual, São Tiago, cujas relíquias encontradas na Galiza no início do século IX fortaleceram a coesão das populações cristãs frente ao domínio mouro.

    Todos sabemos como essa história terminou: a conquista cristã do reino mouro de Granada marca (para mim) o fim da própria Idade Média na Península Ibérica, em 1492. A Reconquista não se confunde com a Idade Média Ibérica, mas é um de seus elementos constitutivos mais estruturais. É evidente que uma vitória tão retumbante do cristianismo, frente a uma presença que durante séculos foi culturalmente mais brilhante haveria de ser evocada e comemorada de muitas formas. Assim, nasceram as cavalhadas.

    Elas habitam o diversificado repertório cultural trazido pelos portugueses ao Brasil. Mas se no medievo a sua base de realidade pingava sangue, hoje no Brasil essa festa agrega as pessoas e promove a paz:

    ·        Com o passar dos anos, para mim, a Festa de Santo Amaro se tornou o momento de encontros. Momento de Brumal e sua gente se reencontrar. Gerações que haviam se mudado retornavam e, juntas, traziam seus filhos. (depoimento de Murilo Nazário)[4];
    ·        A Cavalhada de Brumal (...) promove e fortalece o que é o maior legado desta festa: o sentimento de pertencimento comunitário da Vila. (depoimento de Viviane Corrado de Andrade)[5]

    Cheguei a Brumal no dia 1º de julho, sábado, e pude acompanhar a preparação do terreno em que se daria a corrida.

    No dia 2, continuei a observar e a documentar a instalação de barracas, bandeirinhas e ornamentos vários. Visitei o recém inaugurado Memorial da cavalhada[6]. Esse espaço é bem organizado e oferece informações claras ao público. Na entrada, um grande mural contextualiza a Reconquista, a chegada do tema ao Brasil e a festa, a Brumal. Ao longo de um corredor, é possível contemplar a galeria de cavaleiros e notei logo que essa tropa é formada por homens de diferentes idades, que vão assumindo o lugar de seus parentes. Achei interessante esse resíduo nobiliárquico! Sabemos que no medievo a cavalaria não se confundiu sempre com a nobreza. A princípio, nem cavaleiros havia!, o que havia eram guerreiros, homens armados, milites, como surgem nos documentos. Esses homens foram se transformando e sendo transformados até um contexto em que príncipes e reis não se contentariam com seus status, queriam ser cavaleiros e assim foram feitos, sobre o chão das batalhas e em cerimônias faustosas ou mesmo simples[7].

    O Memorial acolhe o figurino dos cavaleiros e, na varanda dos fundos, podemos ver dois imensos bonecos feitos em tecido que representam o cavaleiro cristão e o cavaleiro mouro. Há também uma boa cozinha e um salão onde os cavaleiros jantariam depois da festa. Ainda não era hora do almoço, mas o trabalho estava fervendo ali.

    Segundo apurei, a casa em que funciona o Memorial foi cedida para esse fim e as pesquisas e obras que o viabilizaram foram resultado de uma parceria entre a prefeitura de Santa Bárbara e uma mineradora. No dia de minha visita, conheci o Prefeito Léris Felisberto Braga, entusiasta das cavalhadas. Conversamos um pouco, falei das razões de minha visita e ouvi alguns de seus planos. Observei depois que ele prestigiou toda a festa e perambulou no meio do povo. Em tempos de tanto descrédito político, achei inusitada a relação amistosa e aparentemente próxima entre ele e os moradores do distrito.

    Participei da missa campal, em homenagem a Santo Amaro, o “São Tiago” do presente de Brumal. Santo Amaro não é “matamoros”[8], é o amigo de São Bento, portanto jamais soube em vida o que era um mouro[9]... Em janeiro deste ano, quando visitei o Santuário do Caraça, eu havia conhecido a pequena e bela igreja barroca construída em sua homenagem. Segui a procissão, guiada pela imagem tricentenária. Tudo isso constitui a agenda das cavalhadas de Brumal.

    Havia muitos cavaleiros em Brumal para as Cavalhadas, não necessariamente participantes da “campanha”. Destaco os cavaleiros do município de Raposos (MG), chamados de “Cowboys da amizade”, entre outros e mesmo mulheres que participam de cavalhadas femininas, que gostaria muito de documentar um dia! Essas mulheres ajudaram no momento do trançado das fitas, manobra realizada pelos cavaleiros de Brumal.

    No fim da tarde, a entrada da tropa de Divino Lúcio no terreno foi anunciada com papel picado colorido e muitas palmas. Um pouco antes, os organizadores distribuíram pequenos lenços para que o público pudesse acenar para os cavaleiros.


    A mesnada foi composta por 34 cavaleiros, liderados pelo comandante. No princípio, foram realizadas as embaixadas, que são uma espécie de profissão de fé da “campanha”. Os cavaleiros treinam a fala e o microfone ajuda a gente a entender algumas frases. É importante lembrar que falam enquanto exibem a destreza a cavalo e “confrontam” o comandante, empinando a montaria. Várias coisas juntas...

    (...) completei idade e fui convidado pelo meu pai a fazer parte da cavalhada como cavaleiro. Comecei acompanhando, correndo, até que chegou o dia de ser embaixador. Foi com orgulho que treinei e decorei a embaixada. Para mim tudo isso é muito especial porque é tradição de família. (depoimento de Luciano Bernardo Luiz, filho de Divino Lúcio e neto de Amaro Luiz) [10]

    (Foto do livro de Dilce Mendes, p. 72, realizada por Marcos Leg)

    Depois começaram as evoluções do grupo. Como foi a primeira vez que vi o espetáculo, não posso afirmar que a “coreografia” tenha mudado ao longo dos anos[11]. Taí uma pergunta para fazer em uma próxima visita a Brumal. No excelente livro organizado por Dilce Mendes também não encontrei pista disso, a não ser algumas imagens em que cavaleiros empunhavam espadas. Assim, sobre o que vi, posso dizer que na edição de 2017 das cavalhadas de Brumal não vi jogos (como por exemplo, lançamento de arco em argolas), mas evoluções, como a trança das fitas e outros movimentos realizados por cavaleiros cristãos e mouros de forma colaborativa. Mesmo quando o locutor anunciava que o movimento significava um combate, os cavaleiros não emulavam a luta, mas executavam um “ballet” em que se misturavam cristãos e mouros. Essa foi para mim a mais significativa renovação da memória e da História! As cavalhadas em Brumal celebram para o público – da comunidade ou para os turistas – que é possível cavalgar junto, na diferença. Não sei ao certo se as pessoas que prestigiam o evento e que aplaudem a destreza dos cavaleiros têm consciência disso. Mas se esse “ballet” tiver despertado o interesse de visitar o belo memorial e ler um pouco mais a respeito da Reconquista, as cavalhadas, realizadas em nosso país, em diversas localidades do Brasil, terão cumprido um papel importante de promoção do conhecimento de uma realidade específica, radicada no medievo, e de como tradições podem ser renovadas e transformadas!

    Ora, mesmo quando há disputa entre cavaleiros, refiro-me às praticas em outras cavalhadas, ao final, o que se promove é a paz; é a possibilidade de congraçamento. Em Brumal, depois da festa, cavaleiros mouros e cristãos sentam-se à mesma mesa e como afirmou Isidoro de Sevilha (séculos VI e VII) em sua Regra: “não pode haver uma mesa comum para os que não partilham do modo de vida”[12]. No período das Cavalhadas, a comunidade de Brumal se reconhece nessa mesa comum.

    Um dos segmentos mais significativos do livro de Dilce Mendes é a recolha dos depoimentos das crianças, entre os quais eu destaco o de Gleison: “Sou um cavaleiro mirim e, quando eu crescer, vou ser um cavaleiro de verdade e representar os mouros e cristãos na Cavalhada de Santo Amaro”[13]. Na declaração do menino, leio a vitalidade das cavalhadas e uma promessa a ser fortemente levada em consideração no mundo em que vivemos... Gleison não se importa em ser mouro ou cristão, quer ser cavaleiro! Acho que ele compreendeu tudo.


    Epílogo:
    Em janeiro de 2017, estive no Santuário do Caraça com minha família. Era um sonho antigo meu! Lá conheci o Padre Lauro e Sílvio Quirino Pereira, funcionário do santuário. Graças a Sílvio, conheci a igrejinha de Santo Amaro, segui a procissão do santo em janeiro e fiquei sabendo da realização das cavalhadas em julho. Sílvio me acolheu em Brumal; hospedou-me; levou-me a todo canto; apresentou-me a pessoas, ao prefeito de Santa Bárbara e à sua família: a esposa Joana, as suas meninas Fran e Sabrina, seus netos Arthur e Calebe, suas irmãs Geralda, Márcia e Margarida, seu irmão Pedro e a esposa, Mariza, que preparou nosso café da manhã. Esse texto não existiria sem o seu acolhimento amigo que me fez me sentir parte da família, como uma prima que mora em outra cidade e que vem rever os seus sempre que pode. Obrigada, Sílvio. Agradeço também à minha mãe, que largou suas coisas, seu gato (felino mesmo rsrsrs), para me acompanhar e segurar a minha mão no avião.

    Pergunta: quando mesmo serão realizadas as próximas cavalhadas, comunidade de Brumal?

    Confira o álbum em: https://www.facebook.com/marcella.lopesguimaraes/media_set?set=a.936714086468480.1073741906.100003896911130&type=3&pnref=story 


    [1] Tropa.
    [2] MENDES, Dilce Amara Margarida (org.). Brumal mostra a cavalhada. Santa Bárbara (MG): Associação Comunitária de Brumal, 2013. p. 4.
    [3] Sobre o tema da Reconquista, sugiro o excelente texto de García Fitz: GARCÍA FITZ, Francisco. “La Reconquista: un estado de la cuestión”. Revista Clio & Crimen 6, p. 142-215, 2009. Disponível em: https://www.durango-udala.net/portalDurango/RecursosWeb/DOCUMENTOS/1/1_1945_3.pdf ; acesso em 6/07/2017.
    [4] MENDES, Dilce Amara Margarida (org.). Brumal mostra a cavalhada. Santa Bárbara (MG): Associação Comunitária de Brumal, 2013. p. 16.
    [5] Idem, p. 25.
    [6] O Memorial foi inaugurado em 23 de junho de 2017.
    [7] Sugiro o pequeno livro de Jean FLORI: A cavalaria. A origem dos nobres guerreiros da Idade Média. São Paulo Madras, 2005.
    [8] São Tiago foi chamado assim no medievo, quando atuou como “patrono” da Reconquista.
    [9] Maomé teve revelado o conteúdo do Alcorão entre 610 até a sua morte em 632, portanto depois da existência histórica de Amaro (ou Mauro) e Bento.
    [10] MENDES, Dilce Amara Margarida (org.). Brumal mostra a cavalhada. Santa Bárbara (MG): Associação Comunitária de Brumal, 2013. p. 18.
    [11] No mural que cobre o 1º aposento do Memorial, há os esquemas das evoluções.
    [12] Retirei o trecho do excelente livro do meu amigo Renan FRIGHETTO: A comunidade vence o indivíduo: a regra monástica de Isidoro de Sevilha (século VII). Curitiba: Prismas, 2016. p. 191. Lembro-me que quando li os originais da obra, “obriguei” meu amigo a colocar esse trecho como epígrafe. Pois não é que ele me atendeu?! É a epígrafe de sua conclusão.
    [13] MENDES, Dilce Amara Margarida (org.). Brumal mostra a cavalhada. Santa Bárbara (MG): Associação Comunitária de Brumal, 2013. p. 24.

    segunda-feira, 19 de junho de 2017

    Os pássaros (conto)

    Estava consertando o uniforme, quando o filho lhe perguntou: “Mãe, você também sabe pilotar uma moto helicóptero?” Levou alguns segundos para compreender o contexto da pergunta: um desenho na televisão, em que o personagem lançava a questão à própria mãe. Pelo também concluiu rapidamente que seu espelho ficcional tinha frequentado um tipo incomum de autoescola. Não teve dúvida: “É claro. Que espécie de mãe eu seria se não soubesse?”. E continuou a costura da blusa surrada, já muito precisada de substituição, consciente de que os patrões não teriam jamais acuidade visual para perceberem aquele estrago natural das lavagens sucessivas combinadas com os anos de dedicação.
    Ao longo do dia, até o momento em que haveriam de sair, viu-se observada pelo seu pequeno companheiro. “Mãe, por que é que depois que eu arrumo o meu quarto de manhã, lá pela tarde, ele tá mais ajeitado que antes?”; “Mãe, por que é que o ovo cozido não volta a ser mole, depois que esfria?”; “Mãe, se a gente varre e tira o pó da casa todo dia, de onde vem o pó novo que a gente varre e limpa no dia seguinte?”; “Mãe, a gente troca de pele?”. “Porque a arrumação é que nem a desarrumação e o desconhecimento, só vai crescendo.”; “Porque às vezes não dá para voltar atrás, nem quando se é ovo”; “Porque a poeira é curiosa, entra pelo buraco da fechadura”; “Sim, a gente troca de pele, principalmente quando se é cobra ou lagarto”.
    Uma vez na escola do filho, ouviu a jovem professora cheia de palavras decoradas do dicionário falar que o menino era imaginativo e contava “cada uma”; que achava “muito lúdico”, mas que era preciso “tomar cuidado”... Interrompeu: “Esse negócio de lúdico ameaçava a vida de alguém?” O filho quebrou a perna uma vez, mas não se lembrava da palavra lúdico entre as palavras decoradas do médico. “Não ameaçava a vida; era um fenômeno cultural, uma das bases da civilização, o jogo...”. Interrompeu: “de futebol?”. “Não...”, não escutou mais nada, aliviada de o filho não ter saído até naquilo ao traste que a engravidara.  
    Colocou a janta na mesa e arrumou as coisas dele para levar à própria mãe. Gostava muito de trabalhar à noite e às vezes quando lhe perguntavam se sofria, costumava agradar o curioso observando que era a sua única opção; via a sensação boa que caía como uma benção na expressão da pessoa que perguntava, quando soltava aquela verdade alheia. Como única opção era tão compreensível! Assim preservava a verdade particular. Adorava trabalhar à noite. O silêncio, só interrompido pelo barulho de uma freada tão distante que às vezes era difícil diferenciar de um alarme, dava importância a cada gesto ou coisa. A vassoura, o balde, até o pano que deslizava sobre o chão não se misturavam com nada, e aquilo era bom, inteiro. Às vezes, ousava dançar, flutuar descalça e podia mesmo rebolar até o chão, mesmo que não fizesse, temerosa da inconfidência de uma câmera de vigilância instalada pelos patrões para dentro dos seus domínios.
    Quando fechou a porta de casa e segurou a mãozinha do filho para a caminhada até o ponto de ônibus, percebeu que ele hesitava. “Mãe, se você sabe pilotar uma moto helicóptero, por que é que a gente não vai até a vó voando e depois você não continua voando até o trabalho?”. Lembrou. “É simples. Porque mesmo que eu saiba pilotar e até faça isso muito bem, eu ainda não consegui juntar dinheiro para comprar uma”. “Mãe, um astronauta só pode ir à lua se algum governo emprestar uma nave...”. “Você conhece alguém que tem uma moto helicóptero?”. “Não”. “Então também não posso pedir emprestado. A gente pode ir de ônibus até uma dessas coisas acontecer primeiro: ou eu conseguir juntar o dinheiro ou alguém me emprestar”. Viu-o sorrir e se apressar. Lá vinha o ônibus. “Tá pronto? Bora usar as asas dos pés”. “Mãe, nosso pé tem asas??!!”. “Claro! Já me viu perder ônibus alguma vez?”.


    Violeta Bevilaqua


    Violeta Bevilaqua é bibliófila.




    Ilustração de Maria Clara Guimarães Prado.
    Maria Clara tem 8 anos, é estudante, faz Ginástica Rítmica e quer ser veterinária quando crescer.



    segunda-feira, 5 de junho de 2017

    Aliénor leitora: sobre o livro da rainha da França e da Inglaterra - conferência proferida no seminário Mulheres na História, na Literatura e nas Artes (29 de maio a 2 de junho de 2017)

    Em 2014, entre maio de junho, realizei uma missão de trabalho na Universidade de Poitiers, como professora visitante. Nesse intervalo de pouco mais de 30 dias, participei das Semaines d’études médiévales, um dos eventos mais importantes e longevos de nossa área. Desde 1954, o CESCM (Centre d’études supérieures de civilisation médiévale) organiza todo ano uma sessão internacional de estudos e formação, que acolhe jovens pesquisadores de diversas partes do mundo. Além das palestras, oficinas e visitas a arquivos, o Centre promove excursões que acontecem nos fins de semana, guiadas por especialistas. No ano em que estive em Poitiers na condição de professora visitante, estivemos na abadia de Fontevraud, que acolhe os jacentes de Henrique II Plantageneta, Ricardo Coração de Leão, Isabel de Angoulême e de Leonor da Aquitânia. Por isso, esse lugar é também chamado de “a Saint-Denis dos Plantagenetas”[1]
    A fundação dessa abadia está ligada ao nome do monge Robert d’Arbrissel, que antes de Francisco, já perambulava com seguidores – entre homens e mulheres – em regime de franca austeridade e desapego. Seu grupo heterogêneo se fixou na região, em torno de 1101, ou seja, cerca de pouco mais de 20 anos antes do nascimento de Leonor da Aquitânia (1122/24-1204). Fontevraud desde a sua fundação tem uma espiritualidade marcada pelos temas da Paixão e da Ressurreição. Revela sua singularidade no acolhimento de homens e mulheres. Logo depois do fundador Arbrissel, a autoridade sobre a comunidade é exercida pela abadessa Pétronille de Chemillé[2]. Sob sua autoridade, Fontevraud recebeu mulheres de alto nascimento decerto, mas também prostitutas arrependidas, doentes, leprosos, homens e mulheres[3]. À Petronille, sucede Matilde de Anjou, tia de Henrique Plantageneta.
    O jacente de Fontevraud nos remete obviamente ao fim de uma biografia: a da mulher que foi rainha da França e da Inglaterra, esposa de Luís VII de França, de Henrique II da Inglaterra, mãe de Ricardo Coração de Leão e João sem terra, mas também de Marie e Alice; neta do primeiro trovador conhecido Guilherme IX Duque da Aquitânia e Conde de Poitiers.
    Mas queria voltar a 2014, pois foi nesse ano também que aconteceu uma extraordinária exposição na Abadia de Fontevraud, em torno de um tema que não cessa de fascinar quem conheceu o jacente e visita a abadia: o livro de Leonor.
    Pelo que se sabe, esse jacente é o primeiro a apresentar um tema que logo se veria alçado à condição de moda funerária: a efígie da mulher leitura. Mas não se pode ler o livro da rainha, pois ele é uma pedra lisa... Em janeiro de 2013, o diretor da Abadia escreveu a Jacques Roubaud, poeta, ensaísta, romancista e matemático, membro do grupo de debate e experimentação literária, Oulipo[4] (Ouvroir de Littérature Potentielle), com a seguinte provocação: “tomando as páginas brancas [do livro de Leonor] como um convite, nós gostaríamos de conceber a partir delas um projeto de criação literária para responder à questão sem resposta: o que lê Leonor da Aquitânia?”[5]
    Em 2014, portanto, foi inaugurada a exposição/instalação que, se servindo de uma série de linguagens diferentes, construíram possibilidades criativas de respostas. Tomaram parte nesse projeto uma série de artistas de Oulipo e essa experiência convergiu para a realização do Livro de Leonor, que se constitui de 31 textos medievais e contemporâneos, em occitano, francês e inglês[6]. O livro está totalmente disponível na internet.
    Uma das composições incluídas no Livro de Leonor é o poema “Les confidences”, de Paul Fournel (1947)[7], presidente do grupo Oulipo, poeta e romancista. Em uma entrevista concedida em 2014 ao site La Cause Littéraire, Fournel afirmou:

    Eu gostaria de continuar a explorar formas existentes de escrita – fazer renascer algumas formas antigas de poemas, solidificar formas recentes que merecem posteridade (...) e depois tentar inventar formas novas de relato, maneiras novas de dizer de forma diferente, de recontar de outra maneira outra coisa, de manobrar com o que já foi dito e as maneiras como o foram. Explorar. Esse desejo de desafio eu compartilho com meus companheiros de Oulipo, que são degustadores de formas, pesquisadores e inventores dos quais a energia e a fecundidade são os motores[8].

    Acho que esse segmento é essencial para o jogo que proponho aqui, de uma historiografia poética escrita por Paul Fournel no poema “Les Confidences”.

    Les confidences

    Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, Guillaume IX, le troubadour, lui dit : « Grandis. On chantera pour toi, Petite. »

    Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, sa mère lui dit : « Tu es l’autre Aénor. »

    Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, son frère, Guillaume Aigret, lui dit avant de mourir : « Tu sais le latin, la musique et la littérature, apprends à chasser à cheval. »

    Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, son père Guillaume lui dit : « Je meurs pèlerin. »

    Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, le roi Louis VI le Gros lui dit : « Tu épouseras mon fils. Fais semblant de l’aimer. »

    Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, le roi Louis VII, son époux, lui dit : « Faites-vous aimer. »

    Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, le roi Louis VII, son époux, lui dit : « Madame, couvrez-vous. »

    Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, Constance d’Arles, son amie, lui dit : « Achetons-nous des robes folles et des atours. »

    Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, Marcabru le Troubadour, lui dit : « Je chanterai l’amour de vous. »

    Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, le roi Louis VII, son mari, lui dit : « D’accord, je vire Suger et je soumets Lezay. »

    Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, le roi Louis VII, son mari, lui dit : « Tu n’y penses pas, je ne peux pas dissoudre le mariage du vieux borgne, Raoul de Vermandois, pour faire plaisir à ta soeur Pétronille ! »

    Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, Pétronille d’Aquitaine, sa soeur, lui dit : « Merci soeurette je suis comblée avec mon vieux mari borgne. »

    Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, le roi Louis VII, son mari, lui dit : « Tu as exagéré, le Pape a jeté l’interdit sur mon royaume. Tu viendras avec moi à la croisade. »

    Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, le troubadour Jofré Rudel lui dit : « J’accepte de venir avec vous en Orient, mais j’espère fermement que j’en aurai reconnaissance. »

    Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, son oncle Raymond de Poitiers, Prince d’Antioche, lui dit : « Je vous aime, chère nièce. »

    Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, Suger lui dit : « Plaidez la consanguinité ! »

    Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, Hélinand de Froimont lui dit : « Putain plus que Reine ! »

    Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, le jeune et bouillant Geoffroi Plantagenêt lui dit : « Ma chère vieille épouse, ma conquête, vous êtes mon plus vaste territoire. »

    Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, Thibaud du Bec, Archevêque de Cantorbéry, lui dit : « Faites pour le mieux, Majesté. »

    Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, Richard Coeur de Lion lui dit : « Maman. »

    Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, André le Chapelain lui dit : « Madame, j’ai fini de composer les règles de votre cour d’amour. Quand il vous plaira. »

    Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, le chevalier Arnaut-Guilhem de Marsan, troubadour, lui dit : « Merci. »
    Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, Bernart de Ventadour, le Normand, lui dit : « Chère Duchesse de Normandie. »

    Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, le roi d’Ecosse, Guillaume Ier, lui dit : « Enfonçons le Roi ! »

    Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, Bérangère de Navarre, lui dit : « Dois-je vraiment traverser les Alpes et l’Italie en votre compagnie pour épouser votre fils ? »

    Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine Jean sans Terre lui dit : « Merci, mère, d’avoir conduit Blanche de Castille jusqu’ici. »

    Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, son fils Jean lui dit : « Mère, vous êtes libre. Retournez en paix à Fontevraud. »

    Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, le père abbé de Fontevraud lui dit : « Votre âme est sauve. Serrez ce livre entre vos mains. »

    Paul Fournel

    Ces confidences font référence à des moments clés de la vie d’Aliénor, relatent des événements de son histoire personnelle trouvés dans les sources historiques. Il faut les imaginer murmurées à l’oreille du gisant, silencieuses et intimes.[9]

    As confidências

    Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, Guilherme IX, o trovador, diz-lhe: “Cresce. Cantarão por ti, Pequena.”

    Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, sua mãe lhe diz: “Tu és a outra Aénor”.


    Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, seu irmão Guilherme Aigret, diz-lhe antes de morrer: “Sabes latim, música, literatura, aprende a caçar a cavalo.”

    Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, seu pai Guilherme lhe diz: “Morro peregrino”.

    Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, o rei Luís VI o gordo lhe diz: “Tu desposarás o meu filho. Finge amá-lo.”






    Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, o rei Luís VII, seu marido, diz-lhe: “Fazei-vos amar”.

    Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, o rei Luís, seu marido, diz-lhe: “Senhora, cobri-vos.”

    Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, Constança de Arles, sua amiga, diz-lhe: “Compremos vestidos extravagantes e ornamentos.”




    Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, Marcabru o trovador lhe diz: “ Eu cantarei o amor por vós.”


    Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, o rei Luís VII, seu marido, diz-lhe: “Concordo, eu me livro de Suger e submeto Lezay.”




    Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, o rei Luís VII, seu marido, diz-lhe: “Não penses nisso, eu não posso dissolver o casamento do velho caolho Raul de Vermandois, para satisfazer à tua irmã Petronila!”

    Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, Petronila da Aquitânia, sua irmã, diz-lhe: “Obrigada, maninha, estou plenamente satisfeita com meu velho marido caolho”.

    Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, o rei Luís VII, seu marido, diz-lhe: “Tu exageraste, o Papa lançou um interdito sobre o meu reino. Tu virás comigo para a cruzada”.





    Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, o trovador Jofre Rudel lhe diz: “Eu aceito acompanhar-vos no Oriente, mas espero firmemente ter disso reconhecimento”.


    Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, seu tio Raimundo de Poitiers, Príncipe de Antioquia, diz-lhe: “Eu vos amo, querida sobrinha”.



    Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, Suger lhe diz: “Pleiteai a consanguinidade”.




    Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, Helinando de Froimont lhe diz: “Puta mais que rainha”.


    Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, Geoffroi Plantageneta lhe diz: “Minha querida esposa idosa, minha conquista, vós sois meu mais vasto território.”



    Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, Teobaldo du Bec, arcebispo da Cantuária, diz-lhe: “Fazei o melhor, Majestade.”

    Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, Ricardo Coração de Leão lhe diz: “Mamãe”.


    Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, André Capelão lhe diz: Senhora, terminei de compor as regras da vossa corte do amor. Quando quiserdes.”

    Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, o cavaleiro Arnaut-Guilhem de Marsan, trovador, diz-lhe: “Obrigado”.



    Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, Bertrand de Ventadour, o normando, diz-lhe: “Querida duquesa da Normandia.”


    Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, o rei da Escócia Guilherme I, diz-lhe: “Destruamos o rei”.

    Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, Berenguela de Navarra lhe diz: “Devo realmente atravessar os Alpes e a Itália na vossa companhia para desposar vosso filho?”

    Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, João sem Terra lhe diz: “Obrigado, mãe, por ter conduzido Branca de Castela até aqui”.




    Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, seu filho João lhe diz: “Mãe, vós estais livre. Retornai em paz a Fontevraud.”

    Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, o abade de Fontevraud lhe diz: “Vossa alma está salva. Tomai este livro entre vossas mãos.”

    Paul Formel (traduzido por Marcella Lopes Guimarães)

    Essas confidências fazem referência a momentos chave da vida de Leonor, relatam eventos de sua história pessoal encontrados nas fontes históricas. É preciso imaginá-las murmuradas junto ao jacente, silenciosas e íntimas.
    Identificação dos personagens

    Trata-se do duque da Aquitânia Guilherme IX, também Conde de Poitiers, avô de Leonor.



    Segundo Geoffroy de Vigeois, Leonor – Aliénor – recebeu esse nome, que significava “autre Aenor – alia Aenor[i].


    Guilherme Aigret morreu em tenra idade.




     Guilherme X, pai de Leonor, morre a caminho de Santiago de Compostela, em 1137, aos 38 anos[ii].

    Depois da morte de Guilherme X, as irmãs Leonor e Petronila são colocadas sob proteção do rei da França, Luís VI, que casa o seu herdeiro com Leonor, em 8/8/1137, mesmo ano em que morre Guilherme X. Os domínios de Leonor eram maiores que os de seu marido.












    Constança de Arles (984-1032) foi rainha da França, casada com Roberto II, o Piedoso.  Era proveniente da Provença. Seus inimigos políticos lhe imputaram inúmeros defeitos[iii].


    Marcabru (1129-1150) pertence à primeira geração de trovadores. Dele nos restam 45 cantigas.[iv]


    O abade de Saint-Denis Suger foi mecenas das artes e conselheiro de Luís VI e de Luís VII[v]. Guilherme de Lezay foi senhor de Talmont e foi submetido pelo rei Luís. Suger teria afirmado que ele não era confiável[vi].

    Raul de Vermandois era primo do rei Luís VII.






    Raul de Vermandois teria perto de 50 anos e Petronila, 15, quando se deu o enlace (1142). São excomungados pelo Papa Inocêncio II.




    Raul de Vermandois e Petronila são excomungados pelo Papa Inocêncio II.
    A princípio, Luís VII deseja realizar uma peregrinação em razão do incêndio de Vitry que teria vitimado quase 1500 pessoas, mas com a queda de Edessa, o voto de peregrino se transforma em voto de cruzado[vii].


    Jaufré Rudel é o trovador da dama distante e de fato acompanhou o rei Luís VII, na 2ª cruzada.



    Em março de 1148, o rei e a rainha são recebidos por Raimundo, em Antioquia. Tem início a lenda das relações incestuosas entre sobrinha e tio.


    Em carta ao bispo Étienne de Préneste, Bernardo de Claraval reconhece que o rei e a rainha são parentes em 3º grau (no contexto da excomunhão de Raul e Petronila).


    Helinando de Froimont foi um poeta e cronista da corte de Felipe Augusto. Em sua obra, referiu-se à conduta “indecente” de Leonor[viii].

    Geoffroi Plantageneta era irmão de Henrique Plantageneta, rei da Inglaterra, com quem afinal Leonor acabaria por se casar (1152). Na época do divórcio de Leonor, Geoffroi teria 16 anos. Ela escapa de seu assédio.


    Teobaldo du Bec coroou Leonor e Henrique II.




    Ricardo Coração de Leão foi o 4º filho nascido da união entre Henrique II e Leonor. Nasceu em setembro de 1157.


    André Capelão é autor do Tratado do Amor Cortês; foi ligado à corte de uma das filhas de Leonor, Marie de Champagne (filha de Luís VII).


    Arnaut-Guilhem de Marsan foi autor de uma guia cavalheiresco, L’ensenhamen, e acompanhou uma das filhas de Leonor, de igual nome, a Castela para casar com Afonso VIII[ix].

    Bertrand de Ventadour era um trovador da região do Limousin. Segundo a sua Vida, refugiou-se junto à Leonor, apaixonou-se por ela e foi correspondido[x].


    Participou da conspiração contra Henrique II Plantageneta perpetrada pelos seus filhos e por Leonor.

    Berenguela de Navarra casou-se com Ricardo Coração de Leão em 1191.





    Branca de Castela é neta de Leonor e haveria de se casar com Luís VIII da França, casamento que colaborou para apaziguar capetíngios e plantagenetas. Branca deu a luz ao rei Luís IX de França (São Luís).

    João sem terra é o último filho de Leonor e Henrique II, nascido provavelmente em 1166.



    Entre 1194 e 1207, é Matilde III da Boêmia a abadessa de Fontevraud.


    Esse longo poema é construído a partir de uma “contrainte à Démarreur[10]. A contrainte, ou seja, a coerção e o desafio, é a expressão que funciona como Démarreur, ou seja, como o que põe o motor em marcha, no caso o poema. A coerção e o desafio são a essência da poesia produzida entre os degustadores de formas de Oulipo. A expressão “Se penchant à l’oreille”, que traduzi como “Inclinando-se ao pé do ouvido” é o desafio que aciona a força motriz do poema, como o “Je me souviens” de Georges Perec.
    O poema de Fournel deve ser murmurado, como quem conta um segredo, daí a observação que o encerra. Desfilam por ele personalidades, a maior parte que conviveu com Leonor, mas isso não é uma regra, como a presença de Constance d’Arles nos prova. O mais importante é que se trata de um poema que encena encontros, entre determinados personagens e Leonor da Aquitânia. É possível distinguir 3 grandes grupos de personagens: 1) a família, grupo mais numeroso; 2) os trovadores e 3) o círculo mais clerical. Apenas dois personagens não podem ser incluídos nesses 3 grupos: trata-se da própria Constance e do rei da Escócia Guilherme I. Um personagem pode ser incluído em dois grupos: Guilherme IX da Aquitânia, avô e trovador!
    No primeiro grupo, destaca-se a presença do rei da França, Luís VII, primeiro marido de Leonor, referido em 5 estrofes. Nelas, sobressai a vontade da rainha, que inclui forçar a dissolução de um casamento, que teve como consequência a excomunhão dos envolvidos. Na biografia que dedica à Leonor, o historiador Jean Flori[11] não acha possível concluir-se com exatidão o conjunto de interesses que confluíram para o casamento de Raul de Vermandois e Petronila, nem o papel de Leonor no projeto. Assim, o poema claramente envereda para o protagonismo da jovem rainha, que na altura não tinha 20 anos quando se deu o enlace da única irmã. Uma ausência relevante no poema é a de Henrique Plantageneta. Os plantagenetas comparecem entre os filhos de Leonor com Henrique e na referência ao seu cunhado que teria armado um rapto, do qual ela escapa, logo que se divorciou do rei da França. Leonor também foi bem sucedida em fugir de outro assédio. Entre os numerosos filhos tidos da segunda união, apenas aqueles que seriam reis, depois do pai – Ricardo Coração de Leão e João sem terra – comparecem a murmurar ao pé do ouvido de sua mãe. Na voz do poderoso Ricardo a intimidade da relação mãe e filho.
    Entre os ancestrais de Leonor, está seu avô, o primeiro trovador conhecido, personagem que abre o poema. Guilherme IX ainda vivia quando Leonor e Petronila nasceram. Seu murmúrio manifesta presciência do futuro. Comparecem ainda seu pai, que não teve uma trajetória literária como Guilherme IX; a mãe, esta filha por sua vez da amante do avô de Leonor e o irmão, morto na primeira infância.
    Destaco a presença do sogro de Leonor, Luís VI, que recebeu como encargo a proteção dela e da irmã, depois da morte de Guilherme X. É projeto do rei o casamento entre Leonor, riquíssima herdeira e seu filho; no poema a voz do rei é rigorosa e determina exclusivamente o comportamento da mulher. Destaco também a presença do tio de Leonor, em versos ambivalentes, que tanto podem manifestar a reconfiguração do laço de parentesco, quanto fazer referência ao suposto incesto entre tio e sobrinha, capítulo que robustece a “lenda negra” protagonizada por Leonor. A ambivalência também recai na declaração de Berenguela de Navarra, ou seja, valeria a pena todo o esforço para desposar um homem que, por sua vez, é protagonista de outra “lenda” que liga seu nome à homossexualidade?
    O segundo grupo de personagens é formado por trovadores. Destacam-se Marcabru, Jaufré Rudel, Bernard de Ventadour e Arnaut Guilhem de Marsan, mas também poderíamos incluir André Capelão, ainda que este não esteja no perímetro cultural em que “nasceram” os 4 outros citados. Por que esses personagens comparecem à obra? Segundo Jean Flori[12], Leonor viveu em um contexto em que nasceram e se difundiram valores sócio-culturais muito transformadores das sociedades do Ocidente Latino. Esses valores nasceram na obra de poetas e romancistas, a princípio dos trovadores do sul da França, que colaboraram para tornar menos rudes, mais corteses, as formas de viver. Aos valores militares que caracterizavam a cavalaria veio a se juntar uma nova sensibilidade mediada pelo amor à mulher, quer tenha sido essa presença uma metáfora, quer tenha sido real e histórica, escrita, entretanto, com o vocabulário das relações feudo-vassálicas. Leonor participou como metáfora e como realidade; é personagem referida em vidas do cancioneiro occitano, no tratado de André Capelão e seu movimento primeiro da Aquitânia em direção ao reino da França e depois à Inglaterra beneficiou a circulação de poetas e de seus temas[13].
    O último grupo é constituído por clérigos, como Suger, Hélinand de Froimont e Thibaud du Bec. O poema não subscreve nenhuma simpatia por Leonor por parte desses homens sisudos. O menos violento é Thibaud du Bec.    
    ***
    O Jacente e o livro
    O poema de Paul Fournel é também um texto dramático, que propõe uma interação com o jacente. Essa possibilidade transforma a barreira entre a vida e a morte, a matéria inerte em sujeito de auscultação. Por outro lado, é porque Leonor escuta tantos murmúrios que ela não pode ler (?!) e nisso Fournel não muda o destino do livro, mas o da própria Leonor. A rainha da França e da Inglaterra não escuta confissões, não pode redimir ninguém, mas tem acesso a segredos, confidências inacessíveis. Quem teria coragem de, ao pé do seu ouvido, chamar-lhe de “puta mais que rainha”? A sua morte também protege os acusadores.
    Para o poema de Fournel convergem conhecimento histórico fundado nos documentos e na pesquisa histórica, e a “mitologia” sobre Leonor da Aquitânia. Essa mitologia fundada em camadas e camadas de misoginia também está no poema, pois a História já compreendeu que as lendas em torno do objeto também o constituem. O que faz, portanto, Fournel em “Les confidences” é realizar a síntese de elementos da trajetória pessoal, política e cultural de Leonor da Aquitânia (mais radicada nos elementos franceses dessa trajetória). Seu poema é uma historiografia poética, escrita da história em forma de síntese poética, como realizou Fernando Pessoa na Mensagem, ao escrever sobre D. Dinis, sobre o condestável Nun’Álvares, sobre D. João I, sobre a rainha Filipa de Lencastre... Os poetas conjugam temporalidades diversas em um dístico, estrofe ou até mesmo em um único verso.
    A experiência de Oulipo no ano de 2014 ressignifica o monumento, a abadia de Fontevraud, que interage com a comunidade local, como ponto turístico e de interesse de pesquisadores consagrados ao estudo do medievo. Cada poema concebido, projetado e escrito enfim no Livro de Leonor apresenta possibilidades para o enigma que não cessa de apaixonar quem visita a abadia. A poesia escreve alternativas e, com isso, propõe futuro ao livro de pedra, mudo ou pleno de um interesse renovado? Se a pesquisa histórica se orienta pelas questões propostas aos restos do passado, Paul Fournel produz um documento sobre a recepção da História e do Mito de Leonor e, com isso, enfeixa um capítulo a mais no códice de compreensão do passado e do presente. “Les confidences” agora é camada que não oculta ou submerge, mas vivifica e aquece; auscultando íntimas e chocantes confidências, Leonor pode abrir os olhos e virar a página do livro que tem entre as mãos.






    [1] PRIGENT, Daniel, GAUD, Henri. Fontevraud. Éditions Abbaye de Fontevraud. 2010. p.  22.
    [2] Idem. p. 2-8.
    [3] CHAUOU, Amaury. Sur des pas de Aliénor d’Aquitaine. Photographies de Thierry Perrin. Rnnes: Éditions Ouest-France, 2005. p. 113.
    [4] http://oulipo.net/
    [5] Le Livre d’Aliénor. Oulipo, 2014. Disponível em: http://www.fontevraud.fr/lelivredalienor/ acesso em 22 de maio de 2017. p. 4. Minha tradução.
    [6] Idem, p. 5.
    [7] Nessa excelente entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=-rQOMO-F-q0 (acesso em 22 de maio de 2017), o autor aborda a escrita como um desafio/pressão ou disciplina a ser vencido ou vencida ludicamente, que é a essência do grupo Oulipo.
    [9] Le Livre d’Aliénor. Oulipo, 2014. Disponível em: http://www.fontevraud.fr/lelivredalienor/ acesso em 22 de maio de 2017. p. 60-62.
    [11] FLORI, Jean. Aliénor D’Aquitaine. La reine insoumise. Paris: Éd. Payot & Rivages, 2004.
    [12] Idem, p. 337-338.
    [13] Sobre o amor cortês, Jean Flori escreveu um excelente capítulo na biografia que consagrou à Leonor, p. 352 a 368.




    [i] FLORI, Jean. Aliénor D’Aquitaine. La reine insoumise. Paris: Éditions Payot & Rivages, 2004. p. 32.
    [ii] Idem, p. 41.
    [iv] POÉSIE DES TROUBADOURS. Anthologie présentée et établie par Henri Gougaud. Texte français de René Nelli et René Lavaud, revu et corrigé par Henri Gougaud. Éditions Points, 2009. p. 43.
    [v] LOYN, H.R. Dicionário da Idade Média. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997. p. 339.
    [vii] FLORI, Jean. Aliénor D’Aquitaine..., p. 60 e 64.
    [viii] Idem, p. 305.
    [ix] Idem, p. 344.
    [x] POÉSIE DES TROUBADOURS..., p. 109.