segunda-feira, 29 de junho de 2020

Nossas noites, de Kent Haruf: uma atrevida singeleza

Em maio deste ano, o Rascunho publicou a resenha escrita por Miguel Sanches Neto do romance Bênção do escritor estadunidense Kent Haruf (1943-2014). Fiquei intrigada: com a percepção de Sanches Neto, de estar diante de algo muito diferente dos padrões e modas hodiernas, e com o enredo do romance em si. Fui rápido ao Kindle para ver se estava disponível na loja. Achei em inglês e tive preguiça, mas logo fui compensada por outra tradução realizada por Sônia Moreira, do último romance do autor: Nossas noites. Li em três dias. Leria em um, se não fossem as outras leituras de trabalho. Trata-se de um pequeno romance.
Na resenha de Bênção, Sanches Neto escreveu: “O literário não advém daquilo que o autor faz com a linguagem, mas do que a linguagem faz com o leitor. Este é o caso de Bênção.” Depois de conviver com Addie e Louis, em Nossas noites, eu acrescentaria o poder de uma história bem contada. É verdade que os enredos não são exatamente infinitos e que um bom número de histórias que amamos os tem bem chinfrins, mas há uma encantatória sintonia entre nós – humanos – e as histórias que nos são contadas por gerações que o fato de elas nos enredarem, a despeito das firulas e modas literárias, é mais uma prova (não que precisássemos...) de que necessitamos de narrativas e de que a nossa vida parece mais rica quando mais uma passa a habitar as prateleiras da nossa biblioteca íntima. A minha está mais rica depois dessa história simples: do amor contrariado, de um casal que soma 140 anos de idade!
Um dia, Addie Moore visita Louis Waters e lhe faz uma proposta inusitada. Os dois se conheciam há muitos anos, não eram exatamente amigos, mas conhecidos, vizinhos de bairro. “O que você acharia da ideia de ir à minha casa de vez em quando para dormir comigo?”. Depois da surpresa dele, um adendo: “Não estou falando de sexo.”. Ora, do que essa senhora estaria falando? “Estou falando de ter uma companhia para atravessar a noite, para esquentar a cama. De nós nos deitarmos na cama juntos e você ficar para passar a noite. As noites são a pior parte. Você não acha?”. Ambos, viúvos, com filhos crescidos, fora de casa já há um tempo; filhos com pouca agenda para visitá-los... Teoricamente, dois velhos livres.
O diálogo continua, ambos compartilham a insônia e a necessidade de remédio para dormir. O que Addie Moore propõe a Louis Waters é intimidade. Louis interpõe um fraco pudor: “E se eu roncar?”; “Se roncar, roncou; ou vai aprender a parar”. Para mim, tudo o que se passa a partir da proposta dessa senhora e do confronto com o outro, a quem ela propõe uma partilha, é gigante. O livro não entrega, mas pude vê-la pensar no assunto, escolher uma roupa, hesitar, pentear os cabelos, andar pelo bairro, tocar a campainha... e sugerir, propor. Coragem mora ali.
No dia seguinte, ele vai ao barbeiro, prepara-se e telefona: “Eu gostaria de ir para a sua casa esta noite, se a proposta ainda estiver de pé.”. É claro que está. Ele bate a porta dos fundos, ela se admira! Ora, para quem tinha atravessado anos de convenções, a porta dos fundos era inconcebível e ele promete que, da próxima vez, virá pela porta da frente. Felizmente, para nós, haverá muitas próximas vezes!
Há descobertas: ele prefere cerveja, ela vinho; ela mostra a casa, para que ele saiba onde está; ele vê fotografias, veste o pijama... Depois da primeira noite, uma contrariedade, a vida é feita de equívocos... Ele liga para dizer que não irá, ela pensa que ele havia desistido, na verdade ele tinha ficado doente. Na retomada das noites, a permissão para deixar o pijama e a escova de dentes.
Na verdade, Louis e os leitores têm uma dúvida: por que Addie o escolheu? “Foi porque eu acho que você é um homem bom. Um homem gentil (...). E sempre pensei em você como alguém de quem eu poderia gostar e com quem poderia conversar”. Precisa de mais? A sinceridade nos arrebata; a simplicidade enleva. Não há catacreses reinventadas, sujeitos entrecortados pela angústia e violência das grandes cidades, a ginástica da focalização múltipla, narradores céticos, cínicos... Addie e Louis são pessoas de papel do bem e o narrador não quer brilhar mais que eles, quer simplesmente (e isso é muito!) deixá-los viver. Por isso, o discurso direto prevalece.
O bairro descobre, o casal se descobre: “Cresci em Lincoln, Nebraska...”; “Ela era casada (...). Seu nome era Tamara...”; “Dezessete de agosto. Um dia quente de verão, de céu azul e límpido”. Origem dela; paixão dele, por quem deixara a própria casa, para voltar, entretanto, 2 semanas depois; a morte da filha dela. A morte de Connie entroniza no romance o personagem de Gene, o filho mais novo de Addie. Amargurado pela culpa que não teve na morte da irmã e pelo desprezo do pai, Gene é o antagonista de tudo de bonito que esse romance entrega, de forma tão singela.
Na verdade, a filha de Louis, Holly, também ensaia oposição, ele é sincero com Addie: “Acho que rumores sobre nós dois chegaram aos ouvidos dela. Imagino que ela queira que eu me comporte”. A conversa com a filha é quase dura, mas Louis consegue se impor ao “constrangimento” dela. Todavia, o episódio com Holly é a antessala para o confronto com Gene.
O que torna o confronto com Gene mais delicado e sofrido é o personagem Jamie, neto de Addie. Falido e com o casamento em ruínas, Gene apela à mãe para ficar alguns dias com o neto. Ela aceita imediatamente. Louis teme o fim do arranjo entre eles, mas Addie joga com a sua experiência e pede paciência para os ajustes. A cena de despedida, do carro que se vai, com a criança que chora enquanto a avó tenta segurá-la, para que ele não fosse atrás do automóvel, é uma daquelas que a gente espera não viver em nenhum dos papeis...
A presença de Jamie, entretanto, é mais uma delicadeza para essa história. Louis e Addie redescobrem a convivência com uma criança em uma altura de suas vidas em que seu papel como educadores e criadores já havia cessado, para o bem e para o mal. A criança fica com a avó, com o avô emprestado, viaja com o casal, acampa, ganha uma cadela para amar e cuidar, enquanto seus pais tentam recompor a vida que estragaram sozinhos.
Gene haverá de tentar estragar mais a vida em torno... Suas razões são da óptica do desamor: “Se você se casar com ele, ele vai ficar com metade de tudo, não vai? Eu não vou poder fazer nada.” Esquece o filho páginas a fio até que um dia para o carro e o leva embora, para seu arremedo de concórdia conjugal. Obviamente que recuperar o filho é abrir uma janela a uma intimidade incompreensível: a de sua mãe com outro homem, que não o pai. As crianças falam... e as suas  narrativas inocentes serão relidas por ele segundo os parâmetros possíveis a um homem com limitadas capacidades de ousar, de perdoar e de amar.
E esse homem execrável – sim, eu odiei o personagem -, falhado na capacidade de mobilizar afeição – tem dificuldade de acariciar a cadelinha do filho! –, pede à mãe que renuncie e, não satisfeito, transfere-a a um lar de idosos. Eu odeio, tu odeias, ele odeia, nós... Já sei o que vão me perguntar os três leitores de minha resenha: Ué, Marcella, cadê a coragem da Addie? Para, gente, Jamie e Gene eram a única família que tinha restado a essa senhora de 70 anos... Ter convivido com o neto mobilizou sentimentos de outro tipo de esperança em um coração cheio de amor como o de Addie! Mas, calma, o amor sempre vai encontrar uma saída...
Antevejo uma última questão (a de natureza maliciosa): Marcella, tudo bem, mas a cama de Nossas Noites é visitada por um Eros maduro? Ora, é visitada desde a primeira noite! Mas se você está se referindo a desempenho sexual, terá de ter paciência com esse casal de 70 anos e aguardar sem pressa o reencontro com um jovem Eros. Eros é sempre juvenil, ainda que velhíssimo... 
Leitura para fazer bem ao coração e para convidar a olhar nossos velhos de forma diferente.    
  




HARUF, Kent. Nossas noites (Tradução de Sônia Moreira). São Paulo: Editora Schwarcz, 2017.

domingo, 14 de junho de 2020

A França desconfina amanhã, o que temos com isso?


Quando cheguei à França, encontrei meus amigos chateados com o presidente Emmanuel Macron. Um país na rua por diferentes razões. Mas o coronavírus atravessou essa rua e mandou todos e todas para casa..., até o presidente. Estou nesse país com os franceses e as francesas desde então e vi a chegada do vírus, a despreocupação, o desprezo do risco, a falta de conhecimento... Mas não vi um líder que se escusou da responsabilidade. Tardou? Talvez. Mas outros países igualmente “irmãos” europeus também tardaram e outros, “irmãos” até outro dia, riram. Dia 16 de março, Emmanuel Macron trancou o país em casa e dentro das suas fronteiras. Ele trancou a minha filha, que voltaria a seu país em abril. A Europa redescobriu as fronteiras? Ora, algum dia tinha de fato esquecido delas?... Se todos pararam? Claro que não. Continuou havendo trabalho dentro e fora de casa: nenhum lixo deixou de ser recolhido aqui da minha porta, o caixa de supermercado estava lá para eu comprar o arroz, o médico no hospital e, de dentro de casa, os professores continuaram a enviar tarefas à minha filha. Em todo país, houve gente que teve de estar fora de casa trabalhando e outros puderam desenvolver seu ofício em casa, reinventando-se, enquanto acompanhavam os filhos, cozinhavam e assistiam a reuniões intermináveis... Franceses e francesas, chateados ou não com esse presidente que elegeram, respeitaram as decisões que foram tomadas em nome de sua proteção física. Respeitaram sem subserviência, cobraram as máscaras que não chegavam, dentre outras providências. Um conselho científico foi constituído pelo governo para estabelecer um protocolo sanitário e para colaborar com as decisões do executivo. Daqui a pouco, esse conselho encerrará as atividades. Cumpriu seu dever. O desconfinamento total começa amanhã.
Os líderes constroem sua respeitabilidade. Outro dia, essa França ardeu, fez rassemblement sem autorização... O presidente engoliu e hoje reconheceu o óbvio para muitos de nós: uma democracia não pode compactuar com o racismo, nem com outros (des)valores e porcarias. Hoje, ele falou de diferença, de particularidade, de um modo de viver francês, diferente dos EUA, da China e da “desordem” por aí (citou assim mesmo)... Minha filha desviou a cabeça do tablet e me olhou. Juro que não estou fazendo jogo de cena! Ela disse: “Por que não podemos ter gente decente como presidente em todo lugar, mãe?” Minha vontade foi de chorar, abraçá-la, assumir o meu desespero... Mas, tirando coragem não sei de onde disse: “Precisamos lutar por isso, filha”.
Eu sou uma professora luso-brasileira obscura nessa França. Preciso assumir minha identidade de reunião, porque estou aqui como cidadã européia. Mas me dirijo a meus compatriotas no Brasil: nosso país está acéfalo. Cometemos um erro histórico. Nenhum presidente assumiu a gestão da crise, para que venhamos a levantar discórdia. É preciso haver qualquer coisa para a gente dizer que é contra, não? Não há nada. Ou melhor... há crimes em sequência. Há um ser abjeto distante quilômetros da honra de governar a nossa nação.
Em Curitiba, minha terra de adoção, o prefeito em quem não votei volta atrás e pede, talvez suplique: voltem para casa. Não tomem chopinho falando nos cangotes de homens e mulheres a quem desejam. Voltemos... Parem de comprar blusinha que não vão usar. Deixem o cabelo crescer, a barba. Aprendam a se depilar, a pintar as unhas vocês mesmos por enquanto. Por enquanto... Façam um sacrifício, para que possamos tourner la page. Se haverá gente trabalhando na rua? É claro que sim! Desde o início da crise, meu marido trabalha em hospital público, não teve 1 só dia de teletrabalho. Meu cunhado está dentro de uma UTI trabalhando também, enquanto minha irmã embala temerosa seu recém nascido prematuro nos braços... Eles dois não tiveram teletrabalho para que outras pessoas possam ter! Quem puder! Quanto mais obedecermos e confiarmos, mais e melhor poderemos beijar e abraçar; falar bobagem nos cangotes; tomar chopinho; comprar blusinha; aparar as pontinhas... Vocês querem? Então aguentem. O Brasil está perto da lotação da capacidade de reanimação em vários lugares. Não invadam hospitais... Não aceitem convite vindo do NADA. Voltem. Quem puder volte, para viver mais e melhor.
Toda a minha repulsa, ódio mesmo ao NADA que nunca assumiu a tarefa gloriosa que recebeu das urnas. Pelo impedimento do erro histórico cometido pelo país.
Quem puder, volte para casa. Quem não puder, obrigada, coragem e cuide-se. 
Poitiers, 14 de junho de 2020   


Aqui na minha rua está localizado um dos maiores perigos dessa França! Uma calçada que imita a vida: a gente está condenado a prosseguir sem saber quase nada do que vem logo depois... Bom amanhã para todos e todas.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

“– Ceis vivem mal, heim?”, disse o vírus.

Aqui na França o déconfinement começa semana que vem. Em duas semanas, terei de decidir: 1. se envio a minha filha à escola, afinal a sua “série” é uma das “escolhidas” para a rentrée do dia 18, ou 2. se desobedeço... e aguardo “fora da lei” a possibilidade de retorno a nosso país. Escolha difícil. Mas esse texto só tangencia a vida escolar, ele se agarra mesmo a alguns outros aspectos dessa rentrée geral, ou seja, dessa volta ao trabalho, à escola e à vida a qual todos e todas estávamos acostumados.
Eu não pertenço ao grupo de pessoas que acha que esse vírus nos deu a “grande oportunidade de repensar o presente”, nem pertenço ao grupo daqueles que se julgam imunes ao contágio, pela sua ignorância ou pela sua (má) fé. Sim, eu li gente pretensamente religiosa proclamando sua imunidade. Sobre a “grande oportunidade”, como encarar dessa forma um agente que ameaça, abate e mata? Não incorro no mau gosto e na crueldade de achar um assassino oportuno.
O confinamento jogou na nossa cara, entretanto, que moramos em casas pequenas, ou porque não temos dinheiro para morar em casas grandes, ou porque os construtores propuseram ao longo de décadas essa solução aos que não podem pagar para que eles morem em casas de amplos jardins. O confinamento jogou na nossa cara que nos deslocamos pela cidade, entre cidades e entre países em meios de transporte que nos apertam e nos fazem doentes. Jogou na nossa cara que alguns de nós têm imensas dificuldades de cuidar e amar justamente aqueles que os primeiros prometeram amar ou que julgavam amar. Jogou na cara que nem para movimentar a economia nos grandes centros comerciais e nas lojinhas nos movemos em condições salubres!
Eu fui uma criança de apartamento que brincava em poucos metros quadrados, nos corredores do prédio e na entrada. A primeira casa, casa, em que morei tinha um pequeno jardim à frente que cultivei com amor. Meu jardim atual (ou seja, o do Brasil), tem 4 m2 e é cultivado com amor também. Agora, que voltei a um apartamento, como sinto falta de um canteiro! Eu não brinco no pátio, nem isso podemos (!), escrevo e leio muito.
Mas tenho muita dificuldade em ficar em ambientes fechados com muita gente. Não uso elevador e preciso tomar remédio para viajar em aviões e trens. Já passei mal nesses veículos, em ônibus e metrô também, e precisei de ajuda de conhecidos e desconhecidos (no Brasil e no exterior). Em algumas situações, corri riscos. Se eu já peguei transportes lotados? Já, em uma época em que eu não tinha o problema que me constrange já há muitos anos. Mas eu sou uma poeirinha cósmica... As medidas de proteção que o governo francês (e outros pelo mundo civilizado afora, obviamente estou retirando o meu país desse grupo, pelo presidente) têm proposto ao deslocamento em transportes públicos me despertam particular interesse justamente pelo meu problema!  
Foi como se ficasse claro de repente que, em horários em que um imenso contingente de pessoas é liberto dos seus postos de trabalho, apertar-se até a falta de ar nos meios de transporte não é saudável ou humano. Como foi possível que por séculos e décadas a disparidade entre quem se desloca confortável em carruagens, aviões particulares e grandes automóveis e o desumano apertar no metrô, das freadas bruscas no ônibus para “nos ajeitar”, do abuso e do desligamento do ar condicionado do avião em solo, ou a diminuição de sua potência pelos ares e para economizar... fosse aceito pela humanidade de que eu também faço parte?! Por séculos e décadas suportamos o que hoje, em crise sanitária, é inaceitável.
O vírus não ofereceu oportunidade alguma, ele pegou nossos braços e nos sacudiu até nos machucar. Eu me comovo todo dia com a insistência na divulgação do telefone para a denúncia da violência doméstica aqui. E prometemos amar e cuidar.  
Conversei com uma amiga no fim de semana. Tudo parece apontar para que não será possível retomar a vida nas mesmas bases de antes. Entretanto, ela me disse que seria preciso uma vontade e um esforço real para mudanças... Ela tem razão. Na minha vida de antes, a cada semana, em pelo menos 2 dias, eu me deslocava por quilômetros, de carro, para estar em 4 bairros diferentes inevitavelmente. Um desafio geográfico e temporal; causa de ansiedade, aborrecimento e risco. 3 desses destinos foram escolhas feitas por mim... Eu determinei que haveria de me deslocar de forma ansiosa, aborrecida e com risco a mim e à minha própria filha, na minha vida “normal”.
Não aprendi nada com o coronavírus. Eu sempre lavei embalagens na volta do mercado! Pode perguntar à minha mãe! Pode perguntar ao Luiz! O coronavírus me desperta medo. Terror de cair doente em terra estrangeira com uma criança sob minha responsabilidade. Mas toda essa situação move minhas idéias e resistências... e eu sonho com mudanças. Seria preciso uma vontade e um esforço real para mudanças... Ouço a minha amiga novamente.
O que não vamos mais suportar quando a nossa vida “normal” bater outra vez à nossa porta? O que será inaceitável? O que significa “reaprender a viver”, expressão dos discursos dos políticos que se deslocam em aviões de poucas pessoas?... Não tenho respostas, gente. Mas queria que a gente começasse a acordar novas perguntas.
Fonte:


domingo, 19 de abril de 2020

Uma defesa de Tomé, homem apegado aos fatos


Tomé não tem uma fama bacana. Individualista? Incrédulo? Antipático? Só acreditaria nos amigos se visse... Todo mundo já ouviu falar nesse drama. Quando Jesus adentra a casa dos seus, alguém já parou para pensar que os discípulos estavam trancados cheios de medo e Jesus simplesmente “apresenta-se” na sala?! Por onde entrou? O evangelho do dia de hoje – João: 20, 19-31 – lança Tomé no meio de uma história que mexe com a gente. Achei engraçado que hoje justamente a carta escolhida tenha sido uma de Pedro, o que negou, afinal... É uma gente cheia de arestas essa de que Jesus se acercou.
  Mas voltemos à casa de portas trancadas. O evangelho é claro: os discípulos estavam trancados porque estavam com medo. Quando Jesus chega (de onde?), fala “A paz esteja convosco” e nada... O texto também é claro ao dizer que Jesus mostra as mãos e o lado. Aí os amigos se enchem de alegria. Devo lembrar que, quando Madalena confundiu Jesus com o jardineiro (rsrsrs), bastou que ela o ouvisse chamar-lhe para reconhecê-lo... Mas bora retornar a casa. Jesus fala de novo: “A paz esteja convosco...” e insufla-lhes o Espírito Santo.  
Ora, por que esse conjunto de versículos catapulta Tomé? Porque Tomé NÃO estava na casa de portas fechadas! Ué, não é mais amigo dessas pessoas? Ou simplesmente não queria se trancar com medo? Sei que a reposta à primeira pergunta é NÃO, pois esses amigos contam para ele a novidade da visita de Jesus. Ora, se não fosse mais amigo deles, das duas uma: ou os discípulos receosos não lhe contariam a nova pelo perigo ou nem teriam tido a chance de fazê-lo pelo distanciamento. E a segunda questão? Dada a ousadia da frase: «Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado, não acreditarei» jogada na cara dos receosos, eu tenho dúvidas. Minha dúvida quase se apaga quando penso que, alguns dias depois, Jesus reaparece lá naquela casa “de portas fechadas” e sabe quem estava lá?! Tomé! Por onde Jesus entrou mesmo? Eu adoro essas repetições e ao mesmo tempo a falta de explicação do texto bíblico... Eu e Erich Auerbach! Metida.
Jesus conhece bem esses amigos. Depois de saudar a todos com o seu costumeiro “A paz esteja...”, ele vai diretinho para Tomé: “Põe o dedo..., vê...,  aproxima a tua mão...”. Só no fim pede: “Não sejas incrédulo...”. Jesus compreende que Tomé tem necessidade de fatos. Compreende-se também que Jesus conclua “felizes os que acreditam sem terem visto», afinal ele curte narrativas, parábola aqui, parábola acolá. Mas tanto os medrosos da primeira cena quando os medrosos e Tomé da segunda precisaram ver. 
Jesus compreende. Ninguém ouviu Jesus dizer:
- Ei, vem cá! É tu mermo. Pra começá: onde é que tu tava quando eu vim aqui outro dia me arriscando e soprei o Espírito Santo na cara de todo mundo? Por acaso, tu tava na casa de Marta passando pano na cozinha ou lavando os tupperware? (imagino que na hora da exaltação, Jesus teria esquecido as flexões verbais e concordâncias de número, como qualquer pessoa furibunda). Olha aqui, eu morri, ressuscitei três dias depois, tu sabe o que é isso? Olha esses machucados na minha mão, põe teu dedo medroso devagar porque num sarô de todo. Tu entrô na máquina do tempo e foi parar em 2020? Tava de quarentena onde e com quem? Firma esse corpo, homi, ou então vaza de vez.
Nada disso está nos evangelhos.
Tomé ouviu as parábolas, viu, sofreu junto, dispersou-se com medo e depois precisou dar um tempo. Chamado pelos amigos, teve necessidade de mais do que uma história para acreditar. Imagino que Tomé sairia do grupo de whatsapp ou colocaria uns e outros crédulos na soneca. Para mim, ele foi responsável, não descrente. Ora, por que Jesus permitiria a ele o que não havia permitido ainda a ninguém? Certamente achava que ele valia a pena, mesmo que tivesse um zelo muito particular pelos fatos. Aliás, depois dos fatos, Tomé é o mais íntimo: “Meu senhor e meu Deus”.
Esse conjunto de versículos é um primor. Visão, audição, tato... imagino que havia ali naquela casa trancada qualquer coisa para se comer e que cheirava bem. Cadeiras arrastadas, já são horas! Todos querem ficar perto do senhor. Uma nova ceia. Talvez conversassem animados pelo vinho, Jesus teria novo repertório de parábolas fresquinhas de sua experiência excepcional! Ninguém as escreveu... Depois da janta imagino que a louça tenha ficado para Tomé, por causa da má-criação. Todos riem. Ele, sério. Um homem preso aos fatos, não ao blá-blá-clá dos amigos de pouca coragem. Homem que precisa verificar os dados.
Enquanto todos cochilam na sala, Jesus caminha em direção à cozinha. Pega um pano de prato e se põe ao lado de Tomé. Seus braços se tocam na passagem dos pratos molhados.
- Mestre, cuidado para não molhar os machucados.
- Bem que cê pudia tê trazido um merthiolate lá da máquina do tempo, né? Piscou.
Tomé abana a cabeça. Esse mestre adora uma parábola. Pensou.

A incredulidade de Tomé, de Caravaggio (pintado entre 1601 e 1603)


sábado, 4 de abril de 2020

Meu longo caminho até o supermercado: uma crônica da França


Detesto ir ao mercado. Mas há muitos anos assumi que é uma coisa chata que devo fazer uma vez por semana..., ou duas..., ou três... que coisa emmerdante[1] chegar em casa e me dar conta de ter esquecido a manteiga!!  Que irônico ter desdenhado a farinha e, em pleno sábado à tarde, ter vontade de comer um bolo feito em casa, com minha filha!! Mas nem nos mais aflitivos pesadelos em que me bato entre corredores de enlatados ameaçadores, sem conseguir escapar das amarras do sódio, eu imaginaria que, acordada, pudesse caminhar para o mercado como quem vai em missão. Hoje, enquanto amarrava o cabelo em frente ao espelho, cheguei a imaginar uma maquiagem preta e verde sobre a pele do rosto. Hoje, eu fui cantando andar com fé eu vou, mas, às vezes, vou mesmo de o senhor é meu pastor.

Há uma roupa de rua pendurada na entrada de casa. Eu me visto na entrada e me dispo nela também. Imagino a preocupação de meus alunos. Mas sosseguem: moro no 4º andar de uma cidade pequena. Não tenho vizinhos de altura. Ninguém terá interesse em ser fotógrafo voyeur de uma professora obscura de 46 anos, sem qualquer intervenção cirúrgica remodeladora. Nenhuma foto comprometedora ameaçará uma defesa. Essa roupa de batalha é usada para comprar cebola, alho, arroz, cenoura, leite, carne e pão. Hoje, comprei shampoo! Há duas semanas lavo o cabelo com sabão para deixar o pouco shampoo para a filha. Mas é sabão de Marseille! Phyna.

Todo o dia em que não vou ao mercado, vejo as autoridades na TV com seus números e gráficos. Assisto à análise dos médicos. Eles estão no hospital e na TV, é uma jornada imensa! Assisto ao desfilar do rosário: o diretor geral de saúde, o ministro, os ministros, o ministro da educação, o primeiro ministro. Esta semana, Édouard Philippe foi sabatinado por mais de 3 horas. Perguntas difíceis. Vejo a movimentação do presidente, quase me lembro da semana do presidente (no SBT) da minha infância e que Sílvio Santos, que não pode frear o tempo no seu corpo, quer ao menos reviver o mau gosto no tempo. Já escrevi que os franceses têm muito que reclamar do seu presidente. Aquela dama que substituiu o paizinho na presidência de certo partido e que profere declarações tão horríveis quanto ela é de fato uma mulher bela tem subido seus ataques. Tem evocado a lentidão do Palácio do Eliseu em decretar o confinamento. Só esqueceu-se de que ela mesma não sabia bem se ia ou se ficava (essa semana, o Libération lembrou. Meninos, eu li). O fato é que Macron esta semana apercebeu-se da necessidade de repatriar a sua gente: ser francês significa alguma coisa (...) quando há inquietude, a nação está lá, ela protege. Sinceramente, fiquei pensando no genocida que 58 milhões de brasileiros colocaram na presidência do nosso país: Algumas pessoas vão morrer, o brasileiro tem de parar de achar que o Estado vai resolver. Macron não é nenhum santo, mas é um líder. Seus colegas de Eliseu devem quebrar o pau entre eles, mas para todo mundo, para a bela dama que vocifera atrocidades e para outros oponentes, eles estão juntos. Os outros que latam! No Brasil é o presidente que late, que espuma, atleta falso, de passado duvidoso e presente de aterrar! Cada um vai para um lado, às vezes se encontram em encontrão, então caem como fruta podre. Os homens (mal) fardados, superiores na hierarquia original, são apequenados, não no seu desejo secreto de golpe, mas no seu bom senso, no seu patriotismo. Os eleitores com sobras de humanidade temem, pedem união. Não tem união com o genocida que prescinde dos nossos velhos e que finge não saber que pode perder os nossos jovens[2].

Hoje, o chefe da polícia de Paris falou uma besteira de grandes proporções: estabeleceu uma relação entre quem está lutando pela vida na reanimação e o desrespeito ao confinamento... Consigo achar explicação na pressão, na obrigação de defender publicamente o confinamento, no cansaço e no contexto (estava na rua quando falou, microfone aberto). Mas foi cruel e não há justificativa. Por todo lado, pediram-lhe a cabeça. Uma coisa que os franceses curtem.

Amanhã, chegam 13 pacientes de Estrasburgo aqui em Portiers, para desafogarem um pouco o grande leste. Vêm no TGV medical. Tenho gente querida em Estrasburgo. Sei que estão bem, entretanto. Que essa cidade que me acolheu e acolheu a minha filha tenha meios de ajudar esses 13 guerreiros que vêm em alta velocidade, mas quase sem conseguir respirar...

Faço a minha lista. Do que vou abrir mão? É um critério engraçado para uma lista de compras, mas afinal sou uma mulher com dois braços e duas sacolas grandes. O relógio de corrida me disse que tenho 1,5 km para ir e outro 1,5 km para voltar. Então, não basta querer, é preciso abrir mão. Cabelo amarrado, roupa de rua, álcool no bolso envolvido em papel higiênico raro, atestação, lista, celular, duas sacolas na bolsa... Beijo na filha. Mãe, você fica fora 1 hora? Sim, se eu não voltar em 2, você deve avisar às pessoas que eu já te ensinei. Não tenho máscara.

Uma das coisas mais lindas de ser um caminhante é ter um rio brando perto de casa. Atravesso o Clain, vejo os patos adoráveis com quem brinquei quando ir ao mercado era só enfadonho e subo a rua cuja inclinação me prova que estou em ótima condição física. Avanço. Atravesso. Entro. O mercado é pequeno, mas a gente se espalha bem. Uns 2 metros! O chão está pintado, cada um no seu quadrado. De repente, eu me lembro de jogar amarelinha. Contenho-me. As mulheres que trabalham no caixa são peixes em aquário. Meto tudo nas bolsas. Pago. Arrumo melhor na porta. Tento equilibrar o peso.

Na volta, vejo a escola da minha filha. Um edifício lindo construído pelos jesuítas. A escola está vazia. Pessoas mascaradas sobem a rua. Lamento não ter investido na maquiagem verde e preta. Lamento não ter tentado uma máscara de pano de prato. É um curioso Carnaval esse, em que preferimos dançar bem afastados. Nem os longos braços do boneco de Olinda seriam capazes de nos juntar... Estranho Carnaval esse que acontece quase no Domingo de Ramos. Revejo o Clain. Até semana que vem.

Nudez na volta. Sou destaque de fim de desfile. Minha alegoria é o spray de água sanitária. Nunca vi embalagens mais limpinhas! A gente tem uns orgulhosos bem idiotas na vida... Banho completo também. Esse negócio de ir ao mercado em pandemia é uma trabalheira danada. Nenhuma garantia de voltar saudável, a não ser a fé no cuidado e na música do Gil.

Enquanto escrevo, tento ficar em dia com os médicos, os ministros, as sabatinas, os números, a França, a Espanha, o Brasil, o whatsapp e a filha. Ai, esqueci da Itália! Não posso esquecer. Pra que tanta pressa, meu Deus? Balanço a cabeça para mim, peixe de aquário. Aquário com ascendente em gêmeos! A curva da reanimação inflecte devagar. É sutil, mas anima. Assisto ao 15, canal que é também o número da urgência. O médico que assume o turno da TV agora pede calma, nada de rua, gente de Carnaval! O confinamento continua a ser necessário. Nada de mercado três vezes na semana! Eu me acalmo. Mas o rio faz falta, tanto quanto os livros das bibliotecas com que sonhei quando me preparei para essa aventura... Lenine pede Paciência. Aceito. Desfilo duas Sapucaís[3] para ir e mais duas para voltar atrás do arroz, segurando o grito Liberdade, liberdade.

Esqueci do alho.


Poitiers, le 3 avril 2020


Venço 3 portas até a rua. 



[1]  Emmerder..., não precisa traduzir, não é? Quero esse verbo na língua portuguesa já!
[2] Esta semana, a Bélgica chorou a morte de uma menina de 12 anos.
[3] A pista do sambódromo do Rio tem 700 metros.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Filmes românticos de Natal para os românticos incuráveis

Abandone as redes sociais e estique-se no sofá por 90 minutinhos. Um certo canal de TV por assinatura anunciou “24 dias cheios de Natal”, ou seja, 24 horas de filmes românticos de Natal em 24 dias. Um prato cheio para os cinéfilos românticos. Presente! Como eu passei metade do mês fazendo de tudo um pouco, raramente consegui ver os filmes todos de uma vez. Mas o canal não prometeu 24 horas de filmes inéditos, então eu me beneficiei das inumeráveis repetições e posso anunciar com certo orgulho que, em 16 dias loucos de tarefas, consegui ver 12 filmes românticos de Natal!!!!!
Um cinéfilo romântico é só um romântico incurável que ama filmes do gênero: alguém que quer avisar o casal quando o equívoco se apresenta; que torce por eles; que não perdoa quem atravessa a cena do primeiro beijo; que suspira internamente quando o ambiente é hostil, ou seja, quando há outras pessoas na sala... Junte tudo isso ao Natal e parece que os problemas, as crises, as decepções são lavados pela neve ininterrupta na tela: neve que eu ou você de fato nunca sentimos no rosto.
O mês de dezembro na nossa Curitiba tem nos dado dias frios: convidativos para um casaquinho e uma coberta. O verão degenerado predispõe o corpo para sentar diante da TV. A filha aprendeu a fazer cookies e eu senti vontade até de preparar chocolate quente! A filha (ainda) detesta os filmes românticos de Natal, pode ser que nunca aprecie ou pode ser só a timidez da pré-adolescência. Na minha, eu escondia bem, mas aos 45 já saí do armário faz tempo!
O melhor de assumir a cafonice é saber que a gente também não abre mão de achar sumamente tosco o rapaz estar pensando na vida ou na morte da bezerra, no meio da rua, debaixo de uma nevasca, com o presentinho que ganhou da moça, e encontrar o patrão para quem ele mentiu metade do filme e que lhe dá, entretanto, uma promoção! Trata-se de “Aplicativo para o Natal”, um tinder para solteiros e solteiras que precisam de companhia em eventos, sem que isso implique romance ou sexo. Ah, antes que você se assanhe, devo esclarecer que não há sexo em filmes românticos de Natal. Temos direito a apenas um beijo no final, no máximo 2: beijinho ou beijinhos muito corretos.
Tem singeleza exagerada nos filmes românticos de Natal, mas isso não refreia o cinéfilo romântico. Na verdade, a gente acha até bonitinho..., é como ter um pinguim bebê na geladeira. Esse texto não julga as (inúmeras) arestas do gênero. Na verdade, enquanto via esses filmes curtinhos (em média 90 min.) e feitos para TV, comecei a pensar nas várias coisas que eles me diziam e achei que isso merecia duas ou três considerações. Se ao final do texto, você não julgar que elas bastam ao menos para um bate papo antes da ceia, pode ao menos não julgar repulsivo alguém que se senta uns 15 minutos (ou mais...) para assistir com o coração na mão a confissão de Candace para a cidade toda, de ter duas mãos esquerdas, enquanto sua mãe é uma espécie de Martha Stewart!!!
 Em 11 dos 12 filmes que vi, encontrei mulheres assoberbadas: comissárias de bordo (Conexão de Natal), escritoras (Uma viagem de Natal), arquitetas (Flores de Natal), empresárias (Um Natal de Cinderela, Aplicativo para o Natal, À Procura de um Papai Noel), atrizes de sucesso (Natal fora de casa), produtoras de TV (Estrada para o Natal), atendentes (12 dias de presentes) e decoradoras (De repente noiva). Decoradoras me lembram Doris Day em “Confidências à meia noite”, filme que eu adorava ver nos finais dos anos com o meu pai. Essas mulheres são boas filhas, superaram em muito as expectativas de suas famílias e, ainda que algumas vezes tenham dúvidas sobre isso, o pai, ou a mãe ou um amigo muito próximo vai esclarecer que elas são demais! Obrigada, roteiristas amáveis.
Essas mulheres – na maior parte dos filmes são elas as protagonistas – não estão procurando um namorado. Elas estão cheias de planos não românticos, elas conhecem o mundo, têm fotos de vários lugares em que já estiveram, mas o amor atravessa a sua vida e ele faz com que elas achem o caminho de volta. Ulisses de saias! Também acham um jeito de acolher o amor na sua vida ocupada. Homens e mulheres se encontram. Eles se veem, reparam nas singularidades um do outro, eles se apaixonam.
Em 11 dos 12 dos filmes, há crianças. Elas têm entre 7 e 10 anos. São meninas e meninos, sobrinhos e sobrinhas, filhas e filhos de viúvos, uma viúva e um divorciado. As crianças são fundamentais, elas mobilizam o “espírito de Natal”. Elas creem em Papai Noel, fazem questão da decoração, espalham a sua pureza pelos quatro cantos onde se agitam adultos engajados nas festividades. Não raro as crianças colaboram para o namoro dos pais: “Conexão de Natal”, “Natal fora de casa”, “12 dias de presentes” e “Uma viagem de Natal”. Em “Um Romance de Natal”, trata-se do romance do tio da criança.
As famílias são todas de mamãe, papai, vovô, vovó, filhos e filhas. Não há duas mães ou dois pais sob o mesmo teto. O rapaz de “Aplicativo para o Natal” é bonitão, mas, se eu fosse a moça, voltava ao aplicativo numa boa e deixaria ele se descobrir. Match.
Os viúvos, a viúva e o único divorciado não namoram há muito tempo. Estão concentrados no trabalho e na criação dos filhos. Na sua agenda, não cabe nem uma quarta-feira com os amigos; na sua memória, não há noitadas ou bebedeiras. São pais sérios e decentes. É a noiva chata de “12 dias de presentes” que sai de casa e deixa o caminho livre para o fofo protagonista! Sim, há mulheres e homens chatos, mas há gente bacana à beça. Maioria. E todos lindos! Oh, glória!        
Em todos os filmes, há amigos. Amigos verdadeiros! Eles podem ser os irmãos e as irmãs, mas há também vizinhos, amigos de infância, do trabalho... Não há canalhas. Obrigada, obrigada! Eles são o ombro amigo, a palavra que falta, a consciência vigilante e o estímulo necessário. O casal precisa deles, do seu empurrão!
Os enfeites enchem nossos olhos e até causam confusão: “Um Natal muito, muito louco”. Há metros de anéis de papel vermelho e verde feitos em casa! Esses filmes devastaram florestas inteiras em busca da árvore ideal. Quem diria que pudessem ameaçar o meio ambiente?! Há muita gemada. Em “À procura de um papai Noel”, a receita! Há sempre muita comida, muito biscoito de gengibre. Se a revista de Liz Livingstone existisse, eu era capaz de fazer assinatura! E a neve? Muita: bonecos de neve, jogos na neve, bolas de neve atiradas carinhosamente, risos de neve.
Os suéteres são ridículos e fofinhos, com aquelas renas, estrelas, trenós... Ninguém pode querer enlaçar de maneira mais ousada uma rena desses, mesmo que envolva um belo talhe ou mesmo quando há um empurrão do roteiro: a protagonista cai nos braços do rapaz, no momento em que ela está colocando um enfeite no mais alto da árvore! Se a memória não me falha, duas protagonistas caíram nos braços dos amados. Mas não tem clima, gente. Rena, trenó, Papai Noel de narizinho vermelho... O vermelho é a cor das mulheres e do Noel! Em “Aplicativo para o Natal”, quando a atriz está vestida de vermelho na cena, ninguém mais está. Mas é vermelho Natal, não paixão, mesmo que sejam bem parecidos...
  Engraçado, esses filmes tão pudicos são muito recentes. Estamos falando de filmes de 2016, 2017 e 2018, sobretudo. Em dois deles, as coadjuvantes esperam seus maridos militares que estão em manobra e chegam para o Natal. Em “Flores de Natal”, o casal espera um novo bebê, ele ainda não sabe... Como assim? Rsrsrs Em “Um Romance de Natal”, é o vídeo da filha pedindo ajuda para organizar uma festa de volta para o pai militar que espoleta os acontecimentos. Suspeito gostos republicanos.   
Há uma coisa que me interessa muito: a oportunidade encontrada pelas mulheres para amar. A comissária de “Conexão de Natal” viu o mundo. Suas fotos encantam a filha do seu amado, um jornalista preso à cidade de Chicago. Ela é uma mulher feliz, realizada e capaz também de estar à vontade entre os membros daquela família que a acolhe no feriado. Compartilha com o pai da menina um enigma: gostaria de saber como os pais de conheceram na cidade de Chicago em que ela mesma nasceu, mas foi embora pequena. Ele é jornalista e está disposto (e interessado...) em ajudar. No Natal, entretanto, ela tem de voar. Lá pelas tantas, escolhe dar meia volta. Atenção: não largar tudo, mas se dar a oportunidade de ficar algumas vezes. O beijo, finalmente! Caso parecido com “Natal fora de casa”, espécie de Um Lugar Chamado Notting Hill. A atriz não larga tudo, ela se dá uma chance e, um ano depois, a gente sabe que ela continua a fazer sucesso e está ainda ao lado do namorado não ator, todos felizes. De todos, ele é o meu favorito. Hummmm...
De uma forma singela, esses filmes cheios de biscoitos, famílias de mamãe e papai, bonecos de neve, árvores cortadas, dizem a nós mulheres – sem dúvida, somos os seus alvos – que dá para ganhar o globo de ouro e ficar com dono do charmoso lodge; que podemos tocar a empresa de eventos do nosso tio e casar com o “príncipe”. Mas esses filmes dizem mais: que no mundo narcisista das selfies, as pessoas podem olhar umas para as outras sem pressa, elas podem se conhecer com calma, podem confiar na possibilidade de uma nova chance, ouvindo os amigos, olhando as crianças e, sem afobação, podem esperar uma nova chance para beijar. Dá-lhe, Pepeu!
Até 24/12, sobraram alguns dias para os filmes românticos de Natal. Os românticos incuráveis nem precisam de convite! Mas os descolados e conceituais também estão autorizados a fazer uma paradinha secreta para rir das pouco lapidadas situações, para sofrer com o equívoco ridículo que nos separa de quem amamos, para se dar a chance de pensar sobre o amor como possibilidade que acolhe e não exclui. Os filmes de Natal estão cheios de tradições inventadas para dar sentido a essa vida cheia de problemas... “Sua honestidade é revigorante” afirmou uma personagem que eu acho que só apareceu em uma cena de filme que ainda não consegui terminar. É uma coisa bonita de dizer, né? Me dá vontade de sonhar com um mundo de figurantes assim!

Feliz Natal, gente romântica, cinéfila e leitora!

Filmes citados e vistos:
1. 12 dias de presentes (12 Days of Giving , 2017)
2. À procura de um papai Noel (Finding Santa, 2017)
3. Aplicativo para o Natal (Mingle All the Way, 2018)
4. Conexão de Natal (Christmas Connection, 2017)
5. De repente noiva (A December Bride, 2016)
6. Estrada para o Natal (Road to Christmas, 2018)
7. Flores de Natal (Poinsettias for Chritmas,2018)
8. Natal fora de casa (Christmas in Homestead, 2016)
9. Um Natal de Cinderela (A Cinderella Christmas, 2016)
10.    Um Natal muito, muito louco (Christmas with the Kranks, 2004) – o mais fora da curva, mais para comédia que romântico de Natal
11.    Um Romance de Natal (Entertaining Christmas, 2018)
12.    Uma viagem de Natal (Christmas Getaway, 2017)

Não é filme de Natal, mas Confidências à meia noite (Pillow Talk, 1969), com Doris Day e Rock Hudson, é simplesmente imbatível! You are my inspiration, Eileen, Marie...  Y¯, para todos os Natais da nossa vida.


Uma pausa

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

O blog completou 4 anos em 2019 e o presente cheira a Natal: Literistórias entrevistou uma historiadora cheia de talentos - Profa. Miliandre Garcia de Souza. Confira!

Conheci Miliandre em uma banca de qualificação de Doutorado do PPGHIS/UFPR. Tratava-se da banca de José Gustavo Bononi, orientando da colega de DEHIS e PPGHIS Rosane Kaminski[1]. Eu me sentia um pouco o peixe fora d’água, afinal como uma medievalista poderia se sentir em banca sobre o Teatro Oficina, entre 68 e 72?! Só mesmo o imenso carinho de José Gustavo pela velha professora e a confiança inabalável da colega Rosane para explicar isso... Essas bancas fazem a gente estudar muito, ter uma atenção de filatelista e rezar para não falar (muita) bobagem. Miliandre me chamou logo a atenção por um dado que não tinha a ver com a banca. Entrou na sala linda, leve, sorridente e fresca de batom vermelho. Já tive conversas significativas com minha amiga Fabiana sobre essa história de batom vermelho! Eu tento raramente porque sou covarde e, quando vejo uma mulher ficar tão à vontade assim, tendo a gostar dela no ato. Pois não foi diferente. Ainda por cima, falou pelos cotovelos coisas de ajudar muito o José Gustavo. Tendo a gostar muito de quem vai para as bancas de qualificação com mangas arregaçadas para colaborar. Pois não foi diferente também.
E não é que o batom voltou na defesa pública?! José Gustavo foi aprovado e a velha professora espera que esteja feliz, realizando trabalhos que lhe deem muita satisfação intelectual. Um dia, no FB, descobri que aquele batom vermelho bordava e escrevia textos com pensamentos tão próximos dos meus que até admirava! Descobri ainda pessoas em comum, pessoas de quem gosto demais, ainda que nem sempre consiga ver e conversar mais amiúde. Mas confesso que a descoberta do tecer, as imagens dos bordados depois de terminados, os motivos, as cores, a parede da casa que nunca visitei (olha como sou abusada!) iluminaram um mantra que repito por aí: a necessidade de uma vida mais plena, cheia de realizações diversas e descomprometidas com o desempenho que nos constrange nesse mundo em que, se concordarmos com Byung-Chul Han[2], estamos doentes de excesso de positividade. Não é que eu ache que Miliandre está imune a isso, acho mesmo que não. Penso só que, desde o batom, estou diante de uma mulher forte e que exerce a vida plena, com seus bordados, filhos, livros, máquina de costura, alunos, marido, casa e estojo de maquiagem.
Miliandre estuda umas proximidades difíceis da história do Brasil com um disco na vitrola, revirando as coxias, olhando comprido para os figurinos, cores, textos e descobrindo que, em meio a tantas diferenças, grupos, artistas, homens e mulheres não abriram mão de dialogar “em dimensões estéticas e políticas”, no período da Ditadura Militar no Brasil.
Vem livro novo por aí, ela fala dele na entrevista! Ao lado de seu mestre Carlos Fico, reuniu um timão para lidar com um tema importante desde sempre. Miliandre refuta a exclusividade do presente que vivemos. Enquanto o livro não vem, eu a vejo recortando motivos, desenhando em bastidores e lendo uma historinha singela que escrevi. Quem sabe um dia, seus pontos não encontram os pingos dos i(s) dessa narrativa de uma avó emprestada?
Quanto ao batom, desconfio que ela tem vários tons de vermelho!

LITERISTÓRIAS: Miliandre, você é uma historiadora bordadeira! Como é isso? Quando e como o bordado entrou na sua vida?
MILIANDRE: Querida Marcella, é uma grande honra comemorar com você e seus leitores o quarto aniversário de Literistórias.
Bem, o bordado entrou na minha vida há muito tempo, não só o bordado como outras manualidades. Como em muitas famílias, essa atividade foi estimulada desde muito cedo, ainda menina. Minha mãe e minha tia, costureiras, me apresentaram o universo da costura, outra tia me iniciou nos pontos básicos do bordado e mais uma tia me ensinou a tricotar. Nessa época, no entanto, eu era uma menina muito “elétrica” como diziam, hoje talvez me diagnosticassem com “hiperatividade” (risos). Magricela e mais alta que a média das meninas, eu era sempre escalada para as atividades esportivas e gostava muito, fiz ginástica olímpica, rítmica e voleibol com expectativas de profissionalização.
Nada disso nem meus interesses escolares durante o ensino fundamental apontavam para o interesse pela história ou pela literatura, que nasceram por influência direta de professores do ensino médio e do cursinho e por intermédio de um primo que já era estudante de sociologia e fã da Elba Ramalho.
Atarefada, mais correto dizer atordoada com as leituras da graduação, depois com as pesquisas na pós-graduação, protelei durante muito tempo pegar numa agulha ou usar a máquina de costura para fazer qualquer reparo ou pregar um simples botão.
Um detalhe que eu acho importante mencionar: essa máquina de costura que tenho foi o presente mais lindo que minha mãe poderia me dar. Era a sua primeira máquina de costura, da marca Singer, adquirida em 1972, antes do meu nascimento. Para minha surpresa, minha mãe presenteou-me com a nota fiscal, às quais, máquina e nota, eu guardo com muito carinho, registro físico de uma história que atravessou o tempo e gerações e que vestiu muita gente: pai, irmão, prima, primo, tia, tio, vó, vô.
Por algum motivo que não sei precisar, guardei a memória daquele ponto que minha tia havia me ensinado na infância numa visita familiar. Enquanto eu procurava pelo ponto e não encontrava, fiz muitas outras coisas: tricô, tapeçaria, arraiolo, mosaico, sabonete, vela.
Em algum momento, descobri que as atividades manuais eram essenciais para o meu desenvolvimento, minha existência no mundo, como pessoa, como profissional, pois ao praticá-las eu organizava a vida, o trabalho, também me organizava internamente, me dava, me permitia dar o tempo necessário (e nem sempre possível) à introspecção, ocupando com isso mãos e pensamentos simultaneamente.
Um dia, a trabalho, fizemos uma viagem a Portugal. Nas proximidades do Porto, resolvemos visitar a cidade de Amarante. Lá, até que enfim, encontrei o tal ponto, com nome e endereço: se chamava rococó e morava em Amarante. Encontrei outros pontos colegas seus, todos da família do “bordado livre”. De Amarante, trouxemos algumas peças bordadas, de lembrança e na esperança de aprender a técnica e por meio dela reencontrar a menina que eu era, mas que havia crescido e já tinha uma menina também, Alice, e carregava, sem saber, um menino no ventre, Francisco. Coincidentemente, naquele breve passeio, sem saber que estava grávida, visitei o santuário de São Gonçalo do Amarante, o santo mais importante da região, a quem mulheres e homens recorrem para pedir coisas relacionadas à fertilidade e à sexualidade.
Também nessa época, conheci Carol, mãe do Nicolas, na escola da Alice. Carolina Sobreira, xilogravurista, ilustradora, gravadora. “Um balaio de coisas”, como ela gosta de dizer. Nesses encontros entre arte e história, ela cursava artes visuais na UEL e eu fazia parte do departamento de história também da mesma instituição, descobrimos amigos em comum, ficamos amigas. Carol decidiu ter um segundo filho, mas nem tudo ocorreu como planejado. Vicente infelizmente faleceu com poucas semanas de vida. Enquanto passava horas na UTI neonatal, Carolina aprendeu a bordar e bordando encontra-se até hoje. Com ela, fiz uma oficina de bordado e aprendi os pontos básicos. A partir disso comprei livros, vi muitos vídeos, treinei vários pontos e também cá estou desde então, bordando histórias, paixões e afetos, em viagens, salas de espera, reuniões, “nas horas à toa”, quando eu “ando a cismar”, como escreveu aquele “compositor confuso” que me rodeia...

LITERISTÓRIAS: Miliandre, sua pesquisa atual relaciona música e teatro[3]. O que só a arte responde ao historiador?
MILIANDRE: Marcella, penso que só a arte é capaz de acessar certos lugares que nenhum outro meio de comunicação, área do conhecimento consegue. A arte cria universos que nos auxiliam a enfrentar estados nem sempre tangíveis, realidades nem sempre favoráveis, sejam elas históricas, sociais, econômicas ou até mesmo existenciais. A arte conecta seres humanos e os conecta naquilo que se tem de mais humano. A arte emociona, desestabiliza, desconcerta, faz pensar, também faz rir, mexe com sentimentos, preconceitos e certezas. O diálogo entre arte e história é um daqueles encontros mais que perfeito, posto que se complementam no que tem de diferente, não de igual. Nosso papel, como historiador que trabalha com arte, teatro, música, cinema, literatura talvez seja o de tornar tangível ou próximo disto aquilo que nem sempre tem tradução, não plena. É um desafio permanente, cujo resultado (suponho) é e sempre será incompleto, porém muito necessário.

LITERISTÓRIAS: Miliandre, quem você lê com paixão?
MILIANDRE: Leio com paixão até mesmo as leituras mais técnicas. Sempre penso, ao menos espero tirar dali algo que me motive de alguma maneira, que estimule a minha curiosidade para além do texto, que me faça buscar em outros lugares coisas que possam vir a se juntar àquela leitura. Mas sonho mesmo ter, criar tempo para me dedicar às leituras que sinto que estou em débito, àquelas leituras que, como disse um amigo sobre o disco de João Gilberto & Stan Getz, “formam caráter”, aquela lista de clássicos que o Calvino nos indica fazer, ler por prazer e quem sabe conseguir inspirar essa paixão em outras pessoas (estudantes ou não) como você faz tão bem. Como disse Ana Maria Machado, “a leitura é um hábito que se cria pelo exemplo” e nisto você é mais que exemplar.

LITERISTÓRIAS: Miliandre, queria que você explicasse a importância do lançamento da coletânea CENSURA NO BRASIL REPUBLICANO organizada por você e por Carlos Fico no Brasil de hoje.
MILIANDRE: A censura é uma prática autoritária que não está restrita a um lugar nem a um tempo histórico, ela atravessa temporalidades e espaços geográficos. É ressignificada de várias maneiras, mas sempre que governos, autoridades, políticos a julgam necessária para conter, controlar, coibir, inibir algum tipo de ação ou comportamento, individuais e coletivos.
No Brasil, a censura esteve presente desde os momentos fundadores, isso se considerarmos que também a Inquisição exerceu algum tipo de censura. Foi institucionalizada e amplamente utilizada pelo governo imperial e atravessou praticamente todo o período republicano até 1988. Esteve presente em regimes ditatoriais como o Estado Novo e a ditadura militar, mas também em períodos considerados democráticos ou de transição democrática. O fato de ter sido extinta da última Constituição brasileira não significa que estejamos plenamente livres desse recurso, dessa ferramenta, desse mecanismo que mais limita que constrói, quem mais cerceia que cria condições de desenvolvimento, muito menos quando imposta à literatura, ao teatro, ao cinema, à música, às artes em geral e às manifestações do pensamento.
Ao contrário, desde que ela foi extinta da Constituição em 1988 não deixamos de vivenciar situações bastante embaraçosas envolvendo algum tipo de controle, eventualmente classificado como censura. Principalmente no contexto atual no qual o Estado já não mais se responsabiliza por ela, mas o governo impõe formas escamoteadas ou declaradas de censura, como também estimula entidades de representação e até mesmo indivíduos a exercê-la indiretamente, a perseguir artistas, intelectuais, jornalistas, humoristas e professores e inviabilizar a produção artístico-cultural no Brasil seja pelo boicote, seja pela ofensiva direta, incitando o público, as pessoas de modo geral, a interferir direta e muitas vezes violentamente num evento, numa apresentação, numa exposição. Isso é tão ou mais grave que criar um órgão com censores credenciados, concursados para realizá-la como aconteceu em outros momentos da história recente brasileira.
Saber que ela existiu e entender como foi praticada, sob quais argumentos, com que propósitos, por quem, em que governos e regimes, que setores da sociedade a apoiaram ou mesmo requisitaram maior rigor, penso ser um passo em tantos outros a serem dados nesse “longo caminho” de construção da cidadania no Brasil.
Se “é preciso estar atento e forte” e o “caminho se faz ao caminhar”, como já disseram dois gigantes, essa coletânea Censura no Brasil republicano, a ser publicada em dois volumes pela editora Sagga em 2020, é nossa contribuição à sociedade. Buscamos com ela ultrapassar o caráter opinativo que tem permeado o debate público no Brasil e analisá-la a partir de experiências concretas no Brasil e no mundo. Como não haveria de ser diferente, buscamos estar ao lado da “cultura, contra a censura” e estabelecer um pacto social amplo e consciente de rejeição da censura como mecanismo de controle e cerceamento de ideias. A tarefa não é fácil, não tem sido, mas assumimos esse compromisso como profissionais e cidadãos.

***
Quando LITERISTÓRIAS completou 2 anos, eu ofereci aos leitores uma entrevista com a amiga Maria Cristina Pereira  (USP), um sucesso de visualizações e orientações para jovens historiadores da arte. Quando Literistórias completou 3, quem brilhou foi a amiga Mônica Figueiredo (UFRJ), grande especialista da obra de Eça de Queirós no Brasil e autora de um discurso de formatura que viralizou nas redes sociais (turma Marielle Franco, de 2018). Se quiser matar as saudades, procure abaixo em “entrevistas”. 


Miliandre Garcia, seu filho Francisco e os bordados, na casa da historiadora.



[2] Sociedade do Cansaço (Petrópolis (RJ): Vozes, 2017).
[3] Pesquisa atual: “Entre o palco e a canção: afinidades eletivas entre a Música Popular Brasileira (MPB) e o teatro engajado na década de 1970”.