segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Um professor de História e Geografia foi degolado na última 6ª feira na França, essa tragédia merece muito mais que 1 minuto de silêncio

O Professor de História e Geografia, Samuel Paty, 47 anos, foi alvo de integristas muçulmanos por ter levado caricaturas à sala de aula, para um debate sobre a liberdade de expressão. O Professor Samuel Paty foi assassinado. As caricaturas em específico foram as caricaturas publicadas no jornal Charlie Hebdo e que já inflamaram outros assassinos. O Professor Paty foi ameaçado em redes sociais, foi ameaçado por famílias na escola em que trabalhava e foi vítima de um crime pensado por manipuladores, criminosos conhecidos na França, e realizado finalmente por um adolescente descartável por esses manipuladores e vazio de qualquer força moral interior. Alguém pode dizer condescendente: mais uma vítima dos manipuladores, Marcella... Eu vou responder: reconheço o velho debate entre os que depositam todas as fichas nos fatores contextuais/coletivos e aqueles que colocam todas as fichas na vontade (interior) do humano. Há muito tempo acho que esse é um dilema que esvazia o debate nas ciências humanas. Minha posição de forma muito sintética: a mão pode ser armada por uma arma comprada/ofertada por outro, as idéias que animam a empunhá-la podem ser uma mistura confusa de equívocos e necessidades que abrasam na hora do embate, mas quem atira, e no caso de Paty quem cortou a carne, foi a mão individual que, três segundos antes de realizar o crime, teve alternativa e mobilizou a sua vontade para o crime. Desculpem, creio demais na juventude para acreditá-la, por sua vez, formada por bonecos infláveis de posto. Não vou prosseguir nesse debate, pois tenho outras coisas a considerar.

As lideranças muçulmanas que pregam a paz e a fé na palavra que segundo a sua crença foi revelada por Deus ao Profeta Maomé vieram a público apontar os manipuladores contra quem essas lideranças já prestaram inúmeras queixas. Fizeram declarações fortes na imprensa. Estão na rua hoje inclusive, correndo o país e dizendo que o Islã não pode ser confundido com a malignidade dos manipuladores em falsas associações e nas redes sociais. Um deles afirmou: professores, vocês são profetas; perdão; Paty é um mártir. É fundamental que as lideranças de fato religiosas e os fieis se posicionem publicamente contra os integristas falsamente identificados com sua fé. É fundamental que se levantem (como Chalghoumi hoje). Sempre levantarei a minha voz simples, eu que estou longe de ser uma liderança, contra os católicos criminosos que cometeram crime contra a criança vítima de violência e que teve a interrupção da gestação autorizada pela lei do Estado brasileiro. Quero docemente que eles e elas encontrem assento no inferno que sonham para os outros. Espero sempre que evangélicos de fato crentes posicionem-se publicamente contra os integristas que tentam mudar a vocação do Estado brasileiro, um Estado laico.

O assassinato do Professor Samuel Paty é um crime que me atinge, que me toca e que me faz sofrer por tudo o que convergiu para a sua execução: as situações específicas da História do seu país; as situações que extrapolam a França e que constrangem os professores pelo mundo; o papel das famílias em vários Estados na sua relação com a escola; a relação do Estado laico com as igrejas e a convivência entre as identidades de reunião[1] em uma república democrática.

Por todo o lado, o magistério é uma profissão de risco. Sim, nos países ricos, a violência contra os professores não é caso isolado. Entre nós... foi até mesmo assumido como decisão institucional. Já são 5 anos do massacre do Centro Cívico, ordenado pelas forças políticas eleitas para servir ao Estado. É arriscado elevar-se contra os constrangimentos familiares, de identidades que acreditam que só elas têm o direito de existir; é arriscado oferecer às crianças e aos jovens os livros e a literatura a quem têm direito para a formação de seu repertório; é arriscado contrapor o negacionismo; é arriscado cobrar do Estado; é arriscado dizer às crianças e aos jovens – e fortalecer sua vida interior – que eles e elas têm escolha e que podem pensar por si mesmos; é arriscado formá-los e educá-los contra suas fantasias perigosas e seus próprios desejos imediatos... O Professor Samuel Paty levou fontes históricas à sala de aula para um debate sobre a liberdade de expressão, seu sacrifício revela tragicamente a escala em que um tema desse precisa ser enfrentado pelo mundo afora.

No fim de semana, cidadãos franceses “esqueceram” a Covid-19 e foram às ruas render homenagem ao Professor Paty. As autoridades políticas expressaram o seu horror contra a violência que o atingiu e estão agindo. Uma homenagem nacional lhe será prestada. Não posso falar da eficácia... A morte de um professor brasileiro mobilizaria o presidente do país da sala para o quarto ou para o banheiro. Semana passada foi dia dos professores. O governo eleito por quase 58 milhões de brasileiros despreza os professores. As evidências são inúmeras, inclusive na pasta da Educação. A violência contra nós e o sacrifício de nossa vida são linhas em jornais que as autoridades desprezam, bem como seus eleitores...   

Eu não escrevi #jesuischarlie no passado recente, mas sinto a morte de Paty como já senti a morte de colegas que eu perdi na minha carreira, como chorei... Os colegas que perdi, eu perdi para doenças e para acidentes, eu perdi o Professor Samuel Paty para o integrismo, para a ignorância, para o mal absoluto que manipulou certamente um jovem perigoso e ignorante. Uma família perdeu um pai, um marido. Mas a família do assassino exulta, afinal foi bem sucedida em criar um assassino, a despeito do esforço dos seus professores de transformá-lo em um cidadão... Uma das coisas mais tristes que já escrevi em minha vida.

Semana passada foi dia dos professores no Brasil. Para mim, Paty é um mártir brasileiro também. Não vou escrever #jesuispaty porque gostaria que sua identidade com homem, professor e pai fosse preservada para nos constituir inteira. Eu sou Marcella e a memória de Paty que eu não conheci é parte de mim.

Foto de Betrand GUAY/AFP




[1] Há muito tempo tenho falado dessa ideia que fui buscar na obra de Amin Maalouf.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

No dia da padroeira, nesse particular 12/10/2020, minha oração singela

 

Minha mãezinha Nossa Senhora Aparecida,

 

proteja as crianças do Brasil e do mundo. Proteja a minha filha que arrastei para o epicentro de um furacão este ano. Proteja todos os meninos e meninas dos delírios de seus pais e da sanha dos adultos violentos que os cercam em ruas e nas próprias casas. Proteja as crianças da irresponsabilidade de governantes e gestores.

 

Proteja os velhos e as velhas em contexto em que a morte tem nova aliada, privando o mundo de convívios delicados e da troca de experiência entre gerações. Proteja-os da crueldade de sua vida ser considerada inflacionária dos cofres públicos e dos leitos hospitalares.

 

Proteja-nos, a nós, mulheres e homens que se recusam a abrir mão da sua humanidade, que se recusam a aceitar a ostentação do preconceito, da ignorância e do desrespeito. Blinde a nossa alma contra a indiferença diante do fogo que consome a vida na terra, que se arrasta, que corre, foge e sobrevoa atordoada... a vida que morre de indigestão pelas porcarias jogadas no mar, que vaga, que vaga sem destino por perímetros cada vez mais curtos. Proteja a árvore que dá sombra, fruto, folha, força e revelação do amor.

 

Mãe, proteja-nos das nossas falsas necessidades! Enfraqueça o nosso apetite sensual pelas compras, porque o vírus vai ser embrulhado em tudo de que não precisamos, mas vai matar certeiro os velhos e os frágeis que amamos.

 

Mãe, proteja-nos de qualquer integrismo. Mobilize um sonho ou uma visão (ora, temos longas tradições na matéria!) para que o devoto reze em casa. Quando for seguro, que a gente abrace e beije na paz do Senhor outra vez. Meu irmão, minha irmã, a paz do Senhor, a paz do Senhor...

 

Mãe, proteja o mundo dos presidentes que são indiferentes à morte dos cidadãos que lhes deram o status de que gozam. E eles gozam. Salve-nos da sua reeleição! Proteja o povo das suas mentiras doentias e incontroláveis. Mãe, não permita que a mentira convença mais! Reinstaure a autoridade da voz bem informada. Que o povo reconheça que construiu o Estado, ninguém lhe deu!, e que deve cobrar serviços, dignidade e verdade.

 

Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil doente, fortaleça os fortes e tire a venda dos confundidos. Encoraje o nosso povo, porque o Brasil é grande e tem um papel nesse mundo. Mãe, que nenhum auxílio pontual reverta em mais apoio ao canalha particular que flerta com o mal, falso crente, lascivo da morte, devoto exclusivo da própria genética, esbanjador do sangue alheio.

 

Mãezinha, pelas crianças, pelos velhos, nossos amigos e pela multidão de desconhecidos que não terei o prazer de saber o nome, inflame o nosso peito de ternura, de cuidado, apreço e respeito reverente pelo outro.

 

Estenda seu manto divino sobre nós. Amém.

O Santuário de Aparecida, em janeiro de 2019 (minha 1a vez lá!), quando 2020 era apenas (!) um sonho bom


quinta-feira, 24 de setembro de 2020

158 anos de Júlia Lopes de Almeida

 

Hoje, a literatura brasileira comemora 158 anos de nascimento da escritora Júlia Lopes de Almeida. A primeira pessoa que me deu notícia da vida e da obra da Júlia foi a amiga Profa. Cátia Toledo (UNESPAR). Isso foi no início dos anos 2000, ou seja, eu já era formada em Letras, Mestra em Literatura, já era professora e nunca tinha ouvido falar de Júlia!... Como eu me formei em uma das maiores instituições de ensino superior do Brasil, a lacuna na minha formação nos anos 90 indicia qualquer coisa sobre a forma como Júlia comparecia (comparece?) aos programas de literatura do país. Quem já ouviu falar um pouquinho dela sabe, porém, que ela escreveu à beça, que tem uma obra consagrada às crianças, que participou da formação da Academia Brasileira de Letras e que foi preterida na lista consolidada dos primeiros membros da ABL... Seu marido, o poeta português Filinto de Almeida, ficou com a cadeira e foi conhecido por isso como acadêmico consorte[1].

Mas lá no início dos anos 2000, quando a Profa. Cátia mencionou o nome da Júlia em uma roda de colegas e alunos, eu guardei a informação e não fiz nada com ela. Foi preciso viver duas décadas mais para resgatar a Júlia da prateleira da memória. Como sou assinante Kindle Unlimited, com base nas minhas leituras, o Kindle costuma me sugerir coisinhas: coisas da assinatura e coisinhas pagas, para eu gastar um pouco mais. Pois a Júlia apareceu lá à minha disposição! Não uma só, mas oito livros dela! Li duas ou três linhas sobre, espanei a poeira da memória e achei irônico começar a explorar essa obra pelo romance A Intrusa (1908). Eu li o romance em quatro dias e simplesmente ADOREI! Só não fui mais rápida porque minhas leituras por prazer não podem concorrer com os prazos de minha pesquisa. Quando eu terminei A Intrusa, descobri uma bela tese sobre o romance[2], comparando o trabalho da Júlia ao de Carolina Nabuco. Li um pouco da tese e pretendo explorar a obra da Carolina Nabuco depois. O fato é que a Júlia me fez ir ao João do Rio também e depois ao livro-miscelânea A Árvore (1916), que eu acabei esta semana. Por que livro-miscelânea? Porque A Árvore é uma espécie de caderno de notas passado a limpo da Júlia. Há contos, esquetes, poemas, crônicas, tudo bem equilibrado com um conhecimento leve de botânica que me fascinou... eu, que já escrevi sobre árvores[3]!!! Amigas. Júlia escreveu esse livro com um de seus filhos, Afonso Lopes de Almeida[4]. A parceria nunca foi um problema para ela, pois tinha escrito com sua irmã o livro Contos infantis (1886). Júlia tinha 24 anos quando realizou esse projeto com a irmã. Depois, tornou-se efetivamente escritora e jornalista.

Já enchi a paciência de algumas amigas com o romance A Intrusa, mas hoje – nessa festa de aniversário da Júlia – eu queria mesmo comemorar com A Árvore. Talvez, lá no Olimpo onde a Júlia toma chá com o Machado de Assis, 1º presidente da ABL (Imagino que ele lhe pediu perdão e que ela o perdoou...) não tenha chegado a notícia do quanto esse livro bonito anda necessário...

Recorro só aos meus apontamentos. Júlia fala do amor dos poetas pelas árvores, de um loureiro que Petrarca teria plantado junto ao túmulo de Virgílio e que viveu quinhentos anos! Evoca o “Pai da floresta”, uma sequóia na Califórnia que tinha trinta e seis metros de circunferência! Menciona uma árvore-escola na aldeia de Sairob, na Ásia central, de mil anos: “durante as horas de aula, quem passa pela estrada vê no interior do tronco as crianças atentas, seguindo a lição do professor. À tarde, porém, quando terminam as aulas e o professor fecha a porta da sua sala, o velho tronco volta a apresentar seu aspecto antigo, pois as portas da classe foram feitas com a mesma casca da árvore”. Eu quase escuto a sua voz... Como deve ser maravilhoso estudar em uma escola-árvore!

Há uma defesa aguerrida da fauna brasileira, das árvores frutíferas, um convite (quase súplica) para plantio e replantio de árvores. Há a defesa do ensino da silvicultura nas escolas; o amor e a reverência pelo Jardim Botânico (Júlia era carioca). Júlia simpatiza com D. João VI por causa das árvores.

A Árvore é um livro bonito, que deve ser lido com calma, como quando a gente resolve ler poesia. A poesia não tem a ansiedade da prosa. É um livro para a gente se admirar com os muitos interesses de Júlia!

A Árvore é um livro para ler chorando por árvores e bichos queimados no país, enquanto o homem escala um púlpito para mentir ao mundo inteiro sobre o seu crime. É um livro, então, para a gente ler aos pouquinhos às crianças e aos jovens, para devolver a elas e eles a verdade de sua conexão vital com a natureza.

Júlia, no seu aniversário, eu queria te dar notícia de um Brasil que atendeu aos seus pedidos, mas não posso. Conheci um rapaz que plantava árvores incessantemente: nas encostas, na beira dos rios, na própria rua, no quintal... Ele me falou dos cultivos e da tristeza de ver seu esforço arrancado e cortado. Pois ele cansou ao final. Quando eu soube, fiquei triste até não sei mais.

O fato é que ao menos e modestamente posso raspar o palimpsesto para celebrar o seu nascimento e a sua obra, que finalmente descubro agora! Que essa chance me convença da possibilidade de outras reparações, com que Júlia também sonhava. Mal posso esperar para explorar esse bosque novo, eu que planto palavras também. Feliz aniversário, Júlia, imagino-a saboreando uma pratada de ambrosia, com 158 velinhas. É ambrosia à beça!

  




[2] SILVA, Marcelo Medeiros da. “Júlia Lopes de Almeida e Carolina Nabuco: uma escrita bem comportada?” Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPB, 2011. Disponível em: <https://repositorio.ufpb.br/jspui/bitstream/tede/6159/1/arquivototal.pdf> Acesso em 15 de setembro de 2020.

[3] GUIMARÃES, Marcella Lopes. As Árvores e os frutos. São Paulo: Chiado Books, 2018.

 https://www.chiadobooks.com/livraria/as-arvores-e-os-frutos#:~:text=%C3%89%20a%20leitura%20como%20um,olhar%20que%20a%20luz%20transparece.%E2%80%9D

Disponível também na Amazon.

[4] Os filhos de Júlia e a filha dedicaram-se às artes também.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Sobre a conferência de imprensa sucedida hoje em Marselha: interessa a todo mundo

 

Hoje a França viveu uma interessante experiência no que se refere à comunicação política em tempos de pandemia. Ao mesmo tempo em que o Primeiro ministro Jean Castex tentava explicar de forma clara, simples e uniforme a situação do país que tem agora 21 departamentos em vermelho (sim, em circulação ativa do vírus, mesmo sem os turistas estrangeiros desejados pelo turismo e rechaçados pela expectativa de trazerem a “peste”), Marselha organizava uma conferência com a sua maior estrela, o médico Didier Raoult. A conferência também juntou rivais políticas no mesmo “palco” para firmar um pacto municipal: Michèle Rubirola (prefeita de Marselha e médica de formação) e Martine Vassal (presidente do conselho departamental de Bouches-du-Rhône, onde se situa Marselha).    

A epidemia evolui na França outra vez nas vésperas da rentrée escolar. Amanhã, Paris estará toda mascarada. Nos últimos dias, Marselha esteve na mira da imprensa e reagiu. Hoje, um passo político importante: de ressonância local e nacional. Há muito a apontar nesses quase 20 minutos da conferência de imprensa. Vou me ater a 3 aspectos. O primeiro: a escolha política de Didier Raoult de começar a sua participação, observando que está habituado a ser dirigido por mulheres. Tinha a seu lado duas... e enunciou nomes e cargos do seu entourage. Alguém (um homem?) pode sugerir um jogo de cena. Pode ser, mas se foi, o jogo provém do reconhecimento público de que seria importante jogá-lo. Quando alguém desmerece um documento por ele compreender um número razoável de fórmulas, eu sempre chamo a atenção para o tanto que podemos aprender lendo a coleção do que uma sociedade considerou tão óbvio.

Didier Raoult agradeceu ter sido convidado para falar sobre o que une, ou seja, sobre o que é do interesse comum. É médico, é uma autoridade científica, defensor da HCQ e da AZM... e a estrela de Marselha. Apresentou números, fez comparações, colocou “as coisas em perspectiva”, segundo suas próprias palavras, e realçou uma diferença: os meios que temos hoje são superiores para confrontar as epidemias. Mais uma vez, ouvimo-lo falar da importância da testagem massiva. Didier Raoult comparou os números de Marselha com os do país: 1. números de mortos nas casas de repouso (em Marselha, menos mortes); 2. se em Marselha se hospitaliza mais, há menos gente em reanimação que em Paris, pois, segundo o médico, em Marselha o tratamento se faz mais cedo. Para Didier Raoult não se pode predizer nada diante de uma doença nova, é preciso “armar-se” para responder progressivamente, com calma e otimismo, “o pessimismo mata o doente”. Falou em esperança.

Michèle Rubirola falou logo depois e pegou a deixa: é preciso não se deixar levar pelo medo. Toda a sua fala foi a expressão do local. Meu segundo aspecto. Exemplificou o “agir com os próprios meios”. Falou em atos muitos concretos, como distribuição de água, máscaras, acolhimento a pessoas sem casa, possibilidade de banho, distribuição de sabonete, pasta de dente, absorvente... até o fim do ano. Sim, na França. Falou aos jovens: “protejam seus pais e seus avôs e avós”; “protejam os que são frágeis, que estão em risco”; assumam responsabilidade. Ao lado da rival política, não jogou para debaixo do tapete essa rivalidade, aproveitou para enviar uma chicotada direto para Paris: lamentou que o governo não seja capaz de trabalhar como elas - Michèle e Martine – são capazes e que decida de Paris o que é melhor para todo os país, sem dar aos que devem executar suas decisões os meios para tal.    

Eu ri um pouco quando Martine Vassal reivindicou (e exaltou) sua identidade do sul. Eu concordo com ela porque estudo os trovadores occitanos. Paro aí nessa exaltação.

O setor de restaurantes está possesso com a ordem de fechar os estabelecimentos às 23:00... Há mil questões econômicas e não desprezemos isso, com a pretensa pureza de nossa abnegação..., é do emprego e do sustento de homens, mulheres, velhos e crianças que falo. 

Até agora não expliquei por que essa conferência realizada em Marselha no mesmo instante em que Jean Castex tentava a clareza de seu predecessor... interessa a mais gente e interessa a nós, brasileiros. Terceiro aspecto. Ela mostrou 2 regimes de enfrentamento contra a Covid-19: nacional e regional. O governo da França não se escusou de colocar em prática medidas muito difíceis no começo do ano, mas depois achou por bem largar um pouco a mão e abrir espaço para os departamentos e prefeituras agirem conforme o comportamento do vírus em escala mais regionalizada. Isso teve umas conseqüências meio engraçadas: imposição de máscara em uma rua e permissão de retirá-la na esquina... Um mesmo bairro, vários gestos.

No Brasil, não houve/não há política nacional contra a Covid-19. O presidente eleito é um caso entre a psiquiatria e a polícia. Sua incapacidade cognitiva combinada à psicopatia condenou o país ao enfrentamento local do vírus. Há um dado óbvio nisso: assim como os EUA, o Brasil é uma imensidão. É difícil conceber uma política nacional. Mas, ora, ninguém obrigou os políticos que estão aí partout a se candidatarem! Ao lado da delícia de morar em palácios, ter a porta do carro aberta por outra pessoa, não segurar um guarda-chuva, ver-se cercado de mimos e emas, existe a necessidade de trabalhar naqueles poucos anos a serviço do país. E não é que esse trabalho ainda teria ajuda?! Afogados de horror, entretanto, o Brasil tem as grandes autoridades científicas que poderiam colaborar para esse enfrentamento. Autoridades subaproveitadas pela incapacidade ou desinformação técnica que nos governa.

Sabemos que o presidente foi erguido por um projeto de poder torpe e que está ainda presidente porque conta com o engajamento de gente perversa, de gente desinformada, de gente criminosa, de gente burra, de gente bizarra, de gente ressentida, de gente integrista e de gente sem apreço ao que é público e que despreza o interesse comum. Ora, 58 milhões! Mas... condenados e condenadas, todos os brasileiros e brasileiras, à acefalia nacional, prefeitos, prefeitas, governadores têm todavia arcado com o ônus. Alguns com mais eficácia que outros. Acho singular observar que o nosso imenso e insignificante (como sofro na escrita dessa palavra...) Brasil queimou uma etapa e caiu de chofre (ou de cara no chão) no enfrentamento mais localizado, que outros batem cabeça para dar conta.

Alguns países estão impondo quarentenas aos cidadãos franceses e o governo reagiu com a “reciprocidade”. Eu ri, porque o critério foi a vingança, não o risco de contágio. Por todo lado, a política tem naufragado feio diante do agente inconsciente (o vírus). Mas que ninguém tenha dúvida: os políticos têm todos os meios de entabular diálogos que podem dirimir o sofrimento do cidadão comum. Como? No compartilhamento de experiência. Porém, ninguém tem escapado à arrogância.

Em Marselha hoje duas mulheres rivais chamaram a imprensa para falar no mesmo momento em que os homens falavam em Paris. Falaram de absorvente, puxaram a orelha da juventude, falaram de política, trouxeram um médico, foram solidárias a quem trabalha em uma cidade que gosta da noite... Duas mulheres rivais fizeram um pacto pela vida. Você que me lê pode achar que estou dando muito cartaz a essa pequena iniciativa, mas eu também acho que o pessimismo mata o doente e estamos todos doentes.

O link da conferência de imprensa: https://www.youtube.com/watch?v=FXBpx7TRz80


Michèle, Raoult e Martine, em 27/08/2020.


segunda-feira, 29 de junho de 2020

Nossas noites, de Kent Haruf: uma atrevida singeleza

Em maio deste ano, o Rascunho publicou a resenha escrita por Miguel Sanches Neto do romance Bênção do escritor estadunidense Kent Haruf (1943-2014). Fiquei intrigada: com a percepção de Sanches Neto, de estar diante de algo muito diferente dos padrões e modas hodiernas, e com o enredo do romance em si. Fui rápido ao Kindle para ver se estava disponível na loja. Achei em inglês e tive preguiça, mas logo fui compensada por outra tradução realizada por Sônia Moreira, do último romance do autor: Nossas noites. Li em três dias. Leria em um, se não fossem as outras leituras de trabalho. Trata-se de um pequeno romance.
Na resenha de Bênção, Sanches Neto escreveu: “O literário não advém daquilo que o autor faz com a linguagem, mas do que a linguagem faz com o leitor. Este é o caso de Bênção.” Depois de conviver com Addie e Louis, em Nossas noites, eu acrescentaria o poder de uma história bem contada. É verdade que os enredos não são exatamente infinitos e que um bom número de histórias que amamos os tem bem chinfrins, mas há uma encantatória sintonia entre nós – humanos – e as histórias que nos são contadas por gerações que o fato de elas nos enredarem, a despeito das firulas e modas literárias, é mais uma prova (não que precisássemos...) de que necessitamos de narrativas e de que a nossa vida parece mais rica quando mais uma passa a habitar as prateleiras da nossa biblioteca íntima. A minha está mais rica depois dessa história simples: do amor contrariado, de um casal que soma 140 anos de idade!
Um dia, Addie Moore visita Louis Waters e lhe faz uma proposta inusitada. Os dois se conheciam há muitos anos, não eram exatamente amigos, mas conhecidos, vizinhos de bairro. “O que você acharia da ideia de ir à minha casa de vez em quando para dormir comigo?”. Depois da surpresa dele, um adendo: “Não estou falando de sexo.”. Ora, do que essa senhora estaria falando? “Estou falando de ter uma companhia para atravessar a noite, para esquentar a cama. De nós nos deitarmos na cama juntos e você ficar para passar a noite. As noites são a pior parte. Você não acha?”. Ambos, viúvos, com filhos crescidos, fora de casa já há um tempo; filhos com pouca agenda para visitá-los... Teoricamente, dois velhos livres.
O diálogo continua, ambos compartilham a insônia e a necessidade de remédio para dormir. O que Addie Moore propõe a Louis Waters é intimidade. Louis interpõe um fraco pudor: “E se eu roncar?”; “Se roncar, roncou; ou vai aprender a parar”. Para mim, tudo o que se passa a partir da proposta dessa senhora e do confronto com o outro, a quem ela propõe uma partilha, é gigante. O livro não entrega, mas pude vê-la pensar no assunto, escolher uma roupa, hesitar, pentear os cabelos, andar pelo bairro, tocar a campainha... e sugerir, propor. Coragem mora ali.
No dia seguinte, ele vai ao barbeiro, prepara-se e telefona: “Eu gostaria de ir para a sua casa esta noite, se a proposta ainda estiver de pé.”. É claro que está. Ele bate a porta dos fundos, ela se admira! Ora, para quem tinha atravessado anos de convenções, a porta dos fundos era inconcebível e ele promete que, da próxima vez, virá pela porta da frente. Felizmente, para nós, haverá muitas próximas vezes!
Há descobertas: ele prefere cerveja, ela vinho; ela mostra a casa, para que ele saiba onde está; ele vê fotografias, veste o pijama... Depois da primeira noite, uma contrariedade, a vida é feita de equívocos... Ele liga para dizer que não irá, ela pensa que ele havia desistido, na verdade ele tinha ficado doente. Na retomada das noites, a permissão para deixar o pijama e a escova de dentes.
Na verdade, Louis e os leitores têm uma dúvida: por que Addie o escolheu? “Foi porque eu acho que você é um homem bom. Um homem gentil (...). E sempre pensei em você como alguém de quem eu poderia gostar e com quem poderia conversar”. Precisa de mais? A sinceridade nos arrebata; a simplicidade enleva. Não há catacreses reinventadas, sujeitos entrecortados pela angústia e violência das grandes cidades, a ginástica da focalização múltipla, narradores céticos, cínicos... Addie e Louis são pessoas de papel do bem e o narrador não quer brilhar mais que eles, quer simplesmente (e isso é muito!) deixá-los viver. Por isso, o discurso direto prevalece.
O bairro descobre, o casal se descobre: “Cresci em Lincoln, Nebraska...”; “Ela era casada (...). Seu nome era Tamara...”; “Dezessete de agosto. Um dia quente de verão, de céu azul e límpido”. Origem dela; paixão dele, por quem deixara a própria casa, para voltar, entretanto, 2 semanas depois; a morte da filha dela. A morte de Connie entroniza no romance o personagem de Gene, o filho mais novo de Addie. Amargurado pela culpa que não teve na morte da irmã e pelo desprezo do pai, Gene é o antagonista de tudo de bonito que esse romance entrega, de forma tão singela.
Na verdade, a filha de Louis, Holly, também ensaia oposição, ele é sincero com Addie: “Acho que rumores sobre nós dois chegaram aos ouvidos dela. Imagino que ela queira que eu me comporte”. A conversa com a filha é quase dura, mas Louis consegue se impor ao “constrangimento” dela. Todavia, o episódio com Holly é a antessala para o confronto com Gene.
O que torna o confronto com Gene mais delicado e sofrido é o personagem Jamie, neto de Addie. Falido e com o casamento em ruínas, Gene apela à mãe para ficar alguns dias com o neto. Ela aceita imediatamente. Louis teme o fim do arranjo entre eles, mas Addie joga com a sua experiência e pede paciência para os ajustes. A cena de despedida, do carro que se vai, com a criança que chora enquanto a avó tenta segurá-la, para que ele não fosse atrás do automóvel, é uma daquelas que a gente espera não viver em nenhum dos papeis...
A presença de Jamie, entretanto, é mais uma delicadeza para essa história. Louis e Addie redescobrem a convivência com uma criança em uma altura de suas vidas em que seu papel como educadores e criadores já havia cessado, para o bem e para o mal. A criança fica com a avó, com o avô emprestado, viaja com o casal, acampa, ganha uma cadela para amar e cuidar, enquanto seus pais tentam recompor a vida que estragaram sozinhos.
Gene haverá de tentar estragar mais a vida em torno... Suas razões são da óptica do desamor: “Se você se casar com ele, ele vai ficar com metade de tudo, não vai? Eu não vou poder fazer nada.” Esquece o filho páginas a fio até que um dia para o carro e o leva embora, para seu arremedo de concórdia conjugal. Obviamente que recuperar o filho é abrir uma janela a uma intimidade incompreensível: a de sua mãe com outro homem, que não o pai. As crianças falam... e as suas  narrativas inocentes serão relidas por ele segundo os parâmetros possíveis a um homem com limitadas capacidades de ousar, de perdoar e de amar.
E esse homem execrável – sim, eu odiei o personagem -, falhado na capacidade de mobilizar afeição – tem dificuldade de acariciar a cadelinha do filho! –, pede à mãe que renuncie e, não satisfeito, transfere-a a um lar de idosos. Eu odeio, tu odeias, ele odeia, nós... Já sei o que vão me perguntar os três leitores de minha resenha: Ué, Marcella, cadê a coragem da Addie? Para, gente, Jamie e Gene eram a única família que tinha restado a essa senhora de 70 anos... Ter convivido com o neto mobilizou sentimentos de outro tipo de esperança em um coração cheio de amor como o de Addie! Mas, calma, o amor sempre vai encontrar uma saída...
Antevejo uma última questão (a de natureza maliciosa): Marcella, tudo bem, mas a cama de Nossas Noites é visitada por um Eros maduro? Ora, é visitada desde a primeira noite! Mas se você está se referindo a desempenho sexual, terá de ter paciência com esse casal de 70 anos e aguardar sem pressa o reencontro com um jovem Eros. Eros é sempre juvenil, ainda que velhíssimo... 
Leitura para fazer bem ao coração e para convidar a olhar nossos velhos de forma diferente.    
  




HARUF, Kent. Nossas noites (Tradução de Sônia Moreira). São Paulo: Editora Schwarcz, 2017.

domingo, 14 de junho de 2020

A França desconfina amanhã, o que temos com isso?


Quando cheguei à França, encontrei meus amigos chateados com o presidente Emmanuel Macron. Um país na rua por diferentes razões. Mas o coronavírus atravessou essa rua e mandou todos e todas para casa..., até o presidente. Estou nesse país com os franceses e as francesas desde então e vi a chegada do vírus, a despreocupação, o desprezo do risco, a falta de conhecimento... Mas não vi um líder que se escusou da responsabilidade. Tardou? Talvez. Mas outros países igualmente “irmãos” europeus também tardaram e outros, “irmãos” até outro dia, riram. Dia 16 de março, Emmanuel Macron trancou o país em casa e dentro das suas fronteiras. Ele trancou a minha filha, que voltaria a seu país em abril. A Europa redescobriu as fronteiras? Ora, algum dia tinha de fato esquecido delas?... Se todos pararam? Claro que não. Continuou havendo trabalho dentro e fora de casa: nenhum lixo deixou de ser recolhido aqui da minha porta, o caixa de supermercado estava lá para eu comprar o arroz, o médico no hospital e, de dentro de casa, os professores continuaram a enviar tarefas à minha filha. Em todo país, houve gente que teve de estar fora de casa trabalhando e outros puderam desenvolver seu ofício em casa, reinventando-se, enquanto acompanhavam os filhos, cozinhavam e assistiam a reuniões intermináveis... Franceses e francesas, chateados ou não com esse presidente que elegeram, respeitaram as decisões que foram tomadas em nome de sua proteção física. Respeitaram sem subserviência, cobraram as máscaras que não chegavam, dentre outras providências. Um conselho científico foi constituído pelo governo para estabelecer um protocolo sanitário e para colaborar com as decisões do executivo. Daqui a pouco, esse conselho encerrará as atividades. Cumpriu seu dever. O desconfinamento total começa amanhã.
Os líderes constroem sua respeitabilidade. Outro dia, essa França ardeu, fez rassemblement sem autorização... O presidente engoliu e hoje reconheceu o óbvio para muitos de nós: uma democracia não pode compactuar com o racismo, nem com outros (des)valores e porcarias. Hoje, ele falou de diferença, de particularidade, de um modo de viver francês, diferente dos EUA, da China e da “desordem” por aí (citou assim mesmo)... Minha filha desviou a cabeça do tablet e me olhou. Juro que não estou fazendo jogo de cena! Ela disse: “Por que não podemos ter gente decente como presidente em todo lugar, mãe?” Minha vontade foi de chorar, abraçá-la, assumir o meu desespero... Mas, tirando coragem não sei de onde disse: “Precisamos lutar por isso, filha”.
Eu sou uma professora luso-brasileira obscura nessa França. Preciso assumir minha identidade de reunião, porque estou aqui como cidadã européia. Mas me dirijo a meus compatriotas no Brasil: nosso país está acéfalo. Cometemos um erro histórico. Nenhum presidente assumiu a gestão da crise, para que venhamos a levantar discórdia. É preciso haver qualquer coisa para a gente dizer que é contra, não? Não há nada. Ou melhor... há crimes em sequência. Há um ser abjeto distante quilômetros da honra de governar a nossa nação.
Em Curitiba, minha terra de adoção, o prefeito em quem não votei volta atrás e pede, talvez suplique: voltem para casa. Não tomem chopinho falando nos cangotes de homens e mulheres a quem desejam. Voltemos... Parem de comprar blusinha que não vão usar. Deixem o cabelo crescer, a barba. Aprendam a se depilar, a pintar as unhas vocês mesmos por enquanto. Por enquanto... Façam um sacrifício, para que possamos tourner la page. Se haverá gente trabalhando na rua? É claro que sim! Desde o início da crise, meu marido trabalha em hospital público, não teve 1 só dia de teletrabalho. Meu cunhado está dentro de uma UTI trabalhando também, enquanto minha irmã embala temerosa seu recém nascido prematuro nos braços... Eles dois não tiveram teletrabalho para que outras pessoas possam ter! Quem puder! Quanto mais obedecermos e confiarmos, mais e melhor poderemos beijar e abraçar; falar bobagem nos cangotes; tomar chopinho; comprar blusinha; aparar as pontinhas... Vocês querem? Então aguentem. O Brasil está perto da lotação da capacidade de reanimação em vários lugares. Não invadam hospitais... Não aceitem convite vindo do NADA. Voltem. Quem puder volte, para viver mais e melhor.
Toda a minha repulsa, ódio mesmo ao NADA que nunca assumiu a tarefa gloriosa que recebeu das urnas. Pelo impedimento do erro histórico cometido pelo país.
Quem puder, volte para casa. Quem não puder, obrigada, coragem e cuide-se. 
Poitiers, 14 de junho de 2020   


Aqui na minha rua está localizado um dos maiores perigos dessa França! Uma calçada que imita a vida: a gente está condenado a prosseguir sem saber quase nada do que vem logo depois... Bom amanhã para todos e todas.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

“– Ceis vivem mal, heim?”, disse o vírus.

Aqui na França o déconfinement começa semana que vem. Em duas semanas, terei de decidir: 1. se envio a minha filha à escola, afinal a sua “série” é uma das “escolhidas” para a rentrée do dia 18, ou 2. se desobedeço... e aguardo “fora da lei” a possibilidade de retorno a nosso país. Escolha difícil. Mas esse texto só tangencia a vida escolar, ele se agarra mesmo a alguns outros aspectos dessa rentrée geral, ou seja, dessa volta ao trabalho, à escola e à vida a qual todos e todas estávamos acostumados.
Eu não pertenço ao grupo de pessoas que acha que esse vírus nos deu a “grande oportunidade de repensar o presente”, nem pertenço ao grupo daqueles que se julgam imunes ao contágio, pela sua ignorância ou pela sua (má) fé. Sim, eu li gente pretensamente religiosa proclamando sua imunidade. Sobre a “grande oportunidade”, como encarar dessa forma um agente que ameaça, abate e mata? Não incorro no mau gosto e na crueldade de achar um assassino oportuno.
O confinamento jogou na nossa cara, entretanto, que moramos em casas pequenas, ou porque não temos dinheiro para morar em casas grandes, ou porque os construtores propuseram ao longo de décadas essa solução aos que não podem pagar para que eles morem em casas de amplos jardins. O confinamento jogou na nossa cara que nos deslocamos pela cidade, entre cidades e entre países em meios de transporte que nos apertam e nos fazem doentes. Jogou na nossa cara que alguns de nós têm imensas dificuldades de cuidar e amar justamente aqueles que os primeiros prometeram amar ou que julgavam amar. Jogou na cara que nem para movimentar a economia nos grandes centros comerciais e nas lojinhas nos movemos em condições salubres!
Eu fui uma criança de apartamento que brincava em poucos metros quadrados, nos corredores do prédio e na entrada. A primeira casa, casa, em que morei tinha um pequeno jardim à frente que cultivei com amor. Meu jardim atual (ou seja, o do Brasil), tem 4 m2 e é cultivado com amor também. Agora, que voltei a um apartamento, como sinto falta de um canteiro! Eu não brinco no pátio, nem isso podemos (!), escrevo e leio muito.
Mas tenho muita dificuldade em ficar em ambientes fechados com muita gente. Não uso elevador e preciso tomar remédio para viajar em aviões e trens. Já passei mal nesses veículos, em ônibus e metrô também, e precisei de ajuda de conhecidos e desconhecidos (no Brasil e no exterior). Em algumas situações, corri riscos. Se eu já peguei transportes lotados? Já, em uma época em que eu não tinha o problema que me constrange já há muitos anos. Mas eu sou uma poeirinha cósmica... As medidas de proteção que o governo francês (e outros pelo mundo civilizado afora, obviamente estou retirando o meu país desse grupo, pelo presidente) têm proposto ao deslocamento em transportes públicos me despertam particular interesse justamente pelo meu problema!  
Foi como se ficasse claro de repente que, em horários em que um imenso contingente de pessoas é liberto dos seus postos de trabalho, apertar-se até a falta de ar nos meios de transporte não é saudável ou humano. Como foi possível que por séculos e décadas a disparidade entre quem se desloca confortável em carruagens, aviões particulares e grandes automóveis e o desumano apertar no metrô, das freadas bruscas no ônibus para “nos ajeitar”, do abuso e do desligamento do ar condicionado do avião em solo, ou a diminuição de sua potência pelos ares e para economizar... fosse aceito pela humanidade de que eu também faço parte?! Por séculos e décadas suportamos o que hoje, em crise sanitária, é inaceitável.
O vírus não ofereceu oportunidade alguma, ele pegou nossos braços e nos sacudiu até nos machucar. Eu me comovo todo dia com a insistência na divulgação do telefone para a denúncia da violência doméstica aqui. E prometemos amar e cuidar.  
Conversei com uma amiga no fim de semana. Tudo parece apontar para que não será possível retomar a vida nas mesmas bases de antes. Entretanto, ela me disse que seria preciso uma vontade e um esforço real para mudanças... Ela tem razão. Na minha vida de antes, a cada semana, em pelo menos 2 dias, eu me deslocava por quilômetros, de carro, para estar em 4 bairros diferentes inevitavelmente. Um desafio geográfico e temporal; causa de ansiedade, aborrecimento e risco. 3 desses destinos foram escolhas feitas por mim... Eu determinei que haveria de me deslocar de forma ansiosa, aborrecida e com risco a mim e à minha própria filha, na minha vida “normal”.
Não aprendi nada com o coronavírus. Eu sempre lavei embalagens na volta do mercado! Pode perguntar à minha mãe! Pode perguntar ao Luiz! O coronavírus me desperta medo. Terror de cair doente em terra estrangeira com uma criança sob minha responsabilidade. Mas toda essa situação move minhas idéias e resistências... e eu sonho com mudanças. Seria preciso uma vontade e um esforço real para mudanças... Ouço a minha amiga novamente.
O que não vamos mais suportar quando a nossa vida “normal” bater outra vez à nossa porta? O que será inaceitável? O que significa “reaprender a viver”, expressão dos discursos dos políticos que se deslocam em aviões de poucas pessoas?... Não tenho respostas, gente. Mas queria que a gente começasse a acordar novas perguntas.
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