segunda-feira, 19 de junho de 2017

Os pássaros (conto)

Estava consertando o uniforme, quando o filho lhe perguntou: “Mãe, você também sabe pilotar uma moto helicóptero?” Levou alguns segundos para compreender o contexto da pergunta: um desenho na televisão, em que o personagem lançava a questão à própria mãe. Pelo também concluiu rapidamente que seu espelho ficcional tinha frequentado um tipo incomum de autoescola. Não teve dúvida: “É claro. Que espécie de mãe eu seria se não soubesse?”. E continuou a costura da blusa surrada, já muito precisada de substituição, consciente de que os patrões não teriam jamais acuidade visual para perceberem aquele estrago natural das lavagens sucessivas combinadas com os anos de dedicação.
Ao longo do dia, até o momento em que haveriam de sair, viu-se observada pelo seu pequeno companheiro. “Mãe, por que é que depois que eu arrumo o meu quarto de manhã, lá pela tarde, ele tá mais ajeitado que antes?”; “Mãe, por que é que o ovo cozido não volta a ser mole, depois que esfria?”; “Mãe, se a gente varre e tira o pó da casa todo dia, de onde vem o pó novo que a gente varre e limpa no dia seguinte?”; “Mãe, a gente troca de pele?”. “Porque a arrumação é que nem a desarrumação e o desconhecimento, só vai crescendo.”; “Porque às vezes não dá para voltar atrás, nem quando se é ovo”; “Porque a poeira é curiosa, entra pelo buraco da fechadura”; “Sim, a gente troca de pele, principalmente quando se é cobra ou lagarto”.
Uma vez na escola do filho, ouviu a jovem professora cheia de palavras decoradas do dicionário falar que o menino era imaginativo e contava “cada uma”; que achava “muito lúdico”, mas que era preciso “tomar cuidado”... Interrompeu: “Esse negócio de lúdico ameaçava a vida de alguém?” O filho quebrou a perna uma vez, mas não se lembrava da palavra lúdico entre as palavras decoradas do médico. “Não ameaçava a vida; era um fenômeno cultural, uma das bases da civilização, o jogo...”. Interrompeu: “de futebol?”. “Não...”, não escutou mais nada, aliviada de o filho não ter saído até naquilo ao traste que a engravidara.  
Colocou a janta na mesa e arrumou as coisas dele para levar à própria mãe. Gostava muito de trabalhar à noite e às vezes quando lhe perguntavam se sofria, costumava agradar o curioso observando que era a sua única opção; via a sensação boa que caía como uma benção na expressão da pessoa que perguntava, quando soltava aquela verdade alheia. Como única opção era tão compreensível! Assim preservava a verdade particular. Adorava trabalhar à noite. O silêncio, só interrompido pelo barulho de uma freada tão distante que às vezes era difícil diferenciar de um alarme, dava importância a cada gesto ou coisa. A vassoura, o balde, até o pano que deslizava sobre o chão não se misturavam com nada, e aquilo era bom, inteiro. Às vezes, ousava dançar, flutuar descalça e podia mesmo rebolar até o chão, mesmo que não fizesse, temerosa da inconfidência de uma câmera de vigilância instalada pelos patrões para dentro dos seus domínios.
Quando fechou a porta de casa e segurou a mãozinha do filho para a caminhada até o ponto de ônibus, percebeu que ele hesitava. “Mãe, se você sabe pilotar uma moto helicóptero, por que é que a gente não vai até a vó voando e depois você não continua voando até o trabalho?”. Lembrou. “É simples. Porque mesmo que eu saiba pilotar e até faça isso muito bem, eu ainda não consegui juntar dinheiro para comprar uma”. “Mãe, um astronauta só pode ir à lua se algum governo emprestar uma nave...”. “Você conhece alguém que tem uma moto helicóptero?”. “Não”. “Então também não posso pedir emprestado. A gente pode ir de ônibus até uma dessas coisas acontecer primeiro: ou eu conseguir juntar o dinheiro ou alguém me emprestar”. Viu-o sorrir e se apressar. Lá vinha o ônibus. “Tá pronto? Bora usar as asas dos pés”. “Mãe, nosso pé tem asas??!!”. “Claro! Já me viu perder ônibus alguma vez?”.


Violeta Bevilaqua


Violeta Bevilaqua é bibliófila.




Ilustração de Maria Clara Guimarães Prado.
Maria Clara tem 8 anos, é estudante, faz Ginástica Rítmica e quer ser veterinária quando crescer.



segunda-feira, 5 de junho de 2017

Aliénor leitora: sobre o livro da rainha da França e da Inglaterra - conferência proferida no seminário Mulheres na História, na Literatura e nas Artes (29 de maio a 2 de junho de 2017)

Em 2014, entre maio de junho, realizei uma missão de trabalho na Universidade de Poitiers, como professora visitante. Nesse intervalo de pouco mais de 30 dias, participei das Semaines d’études médiévales, um dos eventos mais importantes e longevos de nossa área. Desde 1954, o CESCM (Centre d’études supérieures de civilisation médiévale) organiza todo ano uma sessão internacional de estudos e formação, que acolhe jovens pesquisadores de diversas partes do mundo. Além das palestras, oficinas e visitas a arquivos, o Centre promove excursões que acontecem nos fins de semana, guiadas por especialistas. No ano em que estive em Poitiers na condição de professora visitante, estivemos na abadia de Fontevraud, que acolhe os jacentes de Henrique II Plantageneta, Ricardo Coração de Leão, Isabel de Angoulême e de Leonor da Aquitânia. Por isso, esse lugar é também chamado de “a Saint-Denis dos Plantagenetas”[1]
A fundação dessa abadia está ligada ao nome do monge Robert d’Arbrissel, que antes de Francisco, já perambulava com seguidores – entre homens e mulheres – em regime de franca austeridade e desapego. Seu grupo heterogêneo se fixou na região, em torno de 1101, ou seja, cerca de pouco mais de 20 anos antes do nascimento de Leonor da Aquitânia (1122/24-1204). Fontevraud desde a sua fundação tem uma espiritualidade marcada pelos temas da Paixão e da Ressurreição. Revela sua singularidade no acolhimento de homens e mulheres. Logo depois do fundador Arbrissel, a autoridade sobre a comunidade é exercida pela abadessa Pétronille de Chemillé[2]. Sob sua autoridade, Fontevraud recebeu mulheres de alto nascimento decerto, mas também prostitutas arrependidas, doentes, leprosos, homens e mulheres[3]. À Petronille, sucede Matilde de Anjou, tia de Henrique Plantageneta.
O jacente de Fontevraud nos remete obviamente ao fim de uma biografia: a da mulher que foi rainha da França e da Inglaterra, esposa de Luís VII de França, de Henrique II da Inglaterra, mãe de Ricardo Coração de Leão e João sem terra, mas também de Marie e Alice; neta do primeiro trovador conhecido Guilherme IX Duque da Aquitânia e Conde de Poitiers.
Mas queria voltar a 2014, pois foi nesse ano também que aconteceu uma extraordinária exposição na Abadia de Fontevraud, em torno de um tema que não cessa de fascinar quem conheceu o jacente e visita a abadia: o livro de Leonor.
Pelo que se sabe, esse jacente é o primeiro a apresentar um tema que logo se veria alçado à condição de moda funerária: a efígie da mulher leitura. Mas não se pode ler o livro da rainha, pois ele é uma pedra lisa... Em janeiro de 2013, o diretor da Abadia escreveu a Jacques Roubaud, poeta, ensaísta, romancista e matemático, membro do grupo de debate e experimentação literária, Oulipo[4] (Ouvroir de Littérature Potentielle), com a seguinte provocação: “tomando as páginas brancas [do livro de Leonor] como um convite, nós gostaríamos de conceber a partir delas um projeto de criação literária para responder à questão sem resposta: o que lê Leonor da Aquitânia?”[5]
Em 2014, portanto, foi inaugurada a exposição/instalação que, se servindo de uma série de linguagens diferentes, construíram possibilidades criativas de respostas. Tomaram parte nesse projeto uma série de artistas de Oulipo e essa experiência convergiu para a realização do Livro de Leonor, que se constitui de 31 textos medievais e contemporâneos, em occitano, francês e inglês[6]. O livro está totalmente disponível na internet.
Uma das composições incluídas no Livro de Leonor é o poema “Les confidences”, de Paul Fournel (1947)[7], presidente do grupo Oulipo, poeta e romancista. Em uma entrevista concedida em 2014 ao site La Cause Littéraire, Fournel afirmou:

Eu gostaria de continuar a explorar formas existentes de escrita – fazer renascer algumas formas antigas de poemas, solidificar formas recentes que merecem posteridade (...) e depois tentar inventar formas novas de relato, maneiras novas de dizer de forma diferente, de recontar de outra maneira outra coisa, de manobrar com o que já foi dito e as maneiras como o foram. Explorar. Esse desejo de desafio eu compartilho com meus companheiros de Oulipo, que são degustadores de formas, pesquisadores e inventores dos quais a energia e a fecundidade são os motores[8].

Acho que esse segmento é essencial para o jogo que proponho aqui, de uma historiografia poética escrita por Paul Fournel no poema “Les Confidences”.

Les confidences

Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, Guillaume IX, le troubadour, lui dit : « Grandis. On chantera pour toi, Petite. »

Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, sa mère lui dit : « Tu es l’autre Aénor. »

Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, son frère, Guillaume Aigret, lui dit avant de mourir : « Tu sais le latin, la musique et la littérature, apprends à chasser à cheval. »

Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, son père Guillaume lui dit : « Je meurs pèlerin. »

Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, le roi Louis VI le Gros lui dit : « Tu épouseras mon fils. Fais semblant de l’aimer. »

Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, le roi Louis VII, son époux, lui dit : « Faites-vous aimer. »

Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, le roi Louis VII, son époux, lui dit : « Madame, couvrez-vous. »

Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, Constance d’Arles, son amie, lui dit : « Achetons-nous des robes folles et des atours. »

Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, Marcabru le Troubadour, lui dit : « Je chanterai l’amour de vous. »

Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, le roi Louis VII, son mari, lui dit : « D’accord, je vire Suger et je soumets Lezay. »

Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, le roi Louis VII, son mari, lui dit : « Tu n’y penses pas, je ne peux pas dissoudre le mariage du vieux borgne, Raoul de Vermandois, pour faire plaisir à ta soeur Pétronille ! »

Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, Pétronille d’Aquitaine, sa soeur, lui dit : « Merci soeurette je suis comblée avec mon vieux mari borgne. »

Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, le roi Louis VII, son mari, lui dit : « Tu as exagéré, le Pape a jeté l’interdit sur mon royaume. Tu viendras avec moi à la croisade. »

Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, le troubadour Jofré Rudel lui dit : « J’accepte de venir avec vous en Orient, mais j’espère fermement que j’en aurai reconnaissance. »

Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, son oncle Raymond de Poitiers, Prince d’Antioche, lui dit : « Je vous aime, chère nièce. »

Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, Suger lui dit : « Plaidez la consanguinité ! »

Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, Hélinand de Froimont lui dit : « Putain plus que Reine ! »

Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, le jeune et bouillant Geoffroi Plantagenêt lui dit : « Ma chère vieille épouse, ma conquête, vous êtes mon plus vaste territoire. »

Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, Thibaud du Bec, Archevêque de Cantorbéry, lui dit : « Faites pour le mieux, Majesté. »

Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, Richard Coeur de Lion lui dit : « Maman. »

Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, André le Chapelain lui dit : « Madame, j’ai fini de composer les règles de votre cour d’amour. Quand il vous plaira. »

Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, le chevalier Arnaut-Guilhem de Marsan, troubadour, lui dit : « Merci. »
Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, Bernart de Ventadour, le Normand, lui dit : « Chère Duchesse de Normandie. »

Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, le roi d’Ecosse, Guillaume Ier, lui dit : « Enfonçons le Roi ! »

Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, Bérangère de Navarre, lui dit : « Dois-je vraiment traverser les Alpes et l’Italie en votre compagnie pour épouser votre fils ? »

Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine Jean sans Terre lui dit : « Merci, mère, d’avoir conduit Blanche de Castille jusqu’ici. »

Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, son fils Jean lui dit : « Mère, vous êtes libre. Retournez en paix à Fontevraud. »

Se penchant à l’oreille d’Aliénor d’Aquitaine, le père abbé de Fontevraud lui dit : « Votre âme est sauve. Serrez ce livre entre vos mains. »

Paul Fournel

Ces confidences font référence à des moments clés de la vie d’Aliénor, relatent des événements de son histoire personnelle trouvés dans les sources historiques. Il faut les imaginer murmurées à l’oreille du gisant, silencieuses et intimes.[9]

As confidências

Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, Guilherme IX, o trovador, diz-lhe: “Cresce. Cantarão por ti, Pequena.”

Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, sua mãe lhe diz: “Tu és a outra Aénor”.


Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, seu irmão Guilherme Aigret, diz-lhe antes de morrer: “Sabes latim, música, literatura, aprende a caçar a cavalo.”

Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, seu pai Guilherme lhe diz: “Morro peregrino”.

Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, o rei Luís VI o gordo lhe diz: “Tu desposarás o meu filho. Finge amá-lo.”






Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, o rei Luís VII, seu marido, diz-lhe: “Fazei-vos amar”.

Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, o rei Luís, seu marido, diz-lhe: “Senhora, cobri-vos.”

Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, Constança de Arles, sua amiga, diz-lhe: “Compremos vestidos extravagantes e ornamentos.”




Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, Marcabru o trovador lhe diz: “ Eu cantarei o amor por vós.”


Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, o rei Luís VII, seu marido, diz-lhe: “Concordo, eu me livro de Suger e submeto Lezay.”




Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, o rei Luís VII, seu marido, diz-lhe: “Não penses nisso, eu não posso dissolver o casamento do velho caolho Raul de Vermandois, para satisfazer à tua irmã Petronila!”

Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, Petronila da Aquitânia, sua irmã, diz-lhe: “Obrigada, maninha, estou plenamente satisfeita com meu velho marido caolho”.

Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, o rei Luís VII, seu marido, diz-lhe: “Tu exageraste, o Papa lançou um interdito sobre o meu reino. Tu virás comigo para a cruzada”.





Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, o trovador Jofre Rudel lhe diz: “Eu aceito acompanhar-vos no Oriente, mas espero firmemente ter disso reconhecimento”.


Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, seu tio Raimundo de Poitiers, Príncipe de Antioquia, diz-lhe: “Eu vos amo, querida sobrinha”.



Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, Suger lhe diz: “Pleiteai a consanguinidade”.




Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, Helinando de Froimont lhe diz: “Puta mais que rainha”.


Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, Geoffroi Plantageneta lhe diz: “Minha querida esposa idosa, minha conquista, vós sois meu mais vasto território.”



Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, Teobaldo du Bec, arcebispo da Cantuária, diz-lhe: “Fazei o melhor, Majestade.”

Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, Ricardo Coração de Leão lhe diz: “Mamãe”.


Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, André Capelão lhe diz: Senhora, terminei de compor as regras da vossa corte do amor. Quando quiserdes.”

Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, o cavaleiro Arnaut-Guilhem de Marsan, trovador, diz-lhe: “Obrigado”.



Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, Bertrand de Ventadour, o normando, diz-lhe: “Querida duquesa da Normandia.”


Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, o rei da Escócia Guilherme I, diz-lhe: “Destruamos o rei”.

Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, Berenguela de Navarra lhe diz: “Devo realmente atravessar os Alpes e a Itália na vossa companhia para desposar vosso filho?”

Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, João sem Terra lhe diz: “Obrigado, mãe, por ter conduzido Branca de Castela até aqui”.




Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, seu filho João lhe diz: “Mãe, vós estais livre. Retornai em paz a Fontevraud.”

Inclinando-se ao pé do ouvido de Leonor da Aquitânia, o abade de Fontevraud lhe diz: “Vossa alma está salva. Tomai este livro entre vossas mãos.”

Paul Formel (traduzido por Marcella Lopes Guimarães)

Essas confidências fazem referência a momentos chave da vida de Leonor, relatam eventos de sua história pessoal encontrados nas fontes históricas. É preciso imaginá-las murmuradas junto ao jacente, silenciosas e íntimas.
Identificação dos personagens

Trata-se do duque da Aquitânia Guilherme IX, também Conde de Poitiers, avô de Leonor.



Segundo Geoffroy de Vigeois, Leonor – Aliénor – recebeu esse nome, que significava “autre Aenor – alia Aenor[i].


Guilherme Aigret morreu em tenra idade.




 Guilherme X, pai de Leonor, morre a caminho de Santiago de Compostela, em 1137, aos 38 anos[ii].

Depois da morte de Guilherme X, as irmãs Leonor e Petronila são colocadas sob proteção do rei da França, Luís VI, que casa o seu herdeiro com Leonor, em 8/8/1137, mesmo ano em que morre Guilherme X. Os domínios de Leonor eram maiores que os de seu marido.












Constança de Arles (984-1032) foi rainha da França, casada com Roberto II, o Piedoso.  Era proveniente da Provença. Seus inimigos políticos lhe imputaram inúmeros defeitos[iii].


Marcabru (1129-1150) pertence à primeira geração de trovadores. Dele nos restam 45 cantigas.[iv]


O abade de Saint-Denis Suger foi mecenas das artes e conselheiro de Luís VI e de Luís VII[v]. Guilherme de Lezay foi senhor de Talmont e foi submetido pelo rei Luís. Suger teria afirmado que ele não era confiável[vi].

Raul de Vermandois era primo do rei Luís VII.






Raul de Vermandois teria perto de 50 anos e Petronila, 15, quando se deu o enlace (1142). São excomungados pelo Papa Inocêncio II.




Raul de Vermandois e Petronila são excomungados pelo Papa Inocêncio II.
A princípio, Luís VII deseja realizar uma peregrinação em razão do incêndio de Vitry que teria vitimado quase 1500 pessoas, mas com a queda de Edessa, o voto de peregrino se transforma em voto de cruzado[vii].


Jaufré Rudel é o trovador da dama distante e de fato acompanhou o rei Luís VII, na 2ª cruzada.



Em março de 1148, o rei e a rainha são recebidos por Raimundo, em Antioquia. Tem início a lenda das relações incestuosas entre sobrinha e tio.


Em carta ao bispo Étienne de Préneste, Bernardo de Claraval reconhece que o rei e a rainha são parentes em 3º grau (no contexto da excomunhão de Raul e Petronila).


Helinando de Froimont foi um poeta e cronista da corte de Felipe Augusto. Em sua obra, referiu-se à conduta “indecente” de Leonor[viii].

Geoffroi Plantageneta era irmão de Henrique Plantageneta, rei da Inglaterra, com quem afinal Leonor acabaria por se casar (1152). Na época do divórcio de Leonor, Geoffroi teria 16 anos. Ela escapa de seu assédio.


Teobaldo du Bec coroou Leonor e Henrique II.




Ricardo Coração de Leão foi o 4º filho nascido da união entre Henrique II e Leonor. Nasceu em setembro de 1157.


André Capelão é autor do Tratado do Amor Cortês; foi ligado à corte de uma das filhas de Leonor, Marie de Champagne (filha de Luís VII).


Arnaut-Guilhem de Marsan foi autor de uma guia cavalheiresco, L’ensenhamen, e acompanhou uma das filhas de Leonor, de igual nome, a Castela para casar com Afonso VIII[ix].

Bertrand de Ventadour era um trovador da região do Limousin. Segundo a sua Vida, refugiou-se junto à Leonor, apaixonou-se por ela e foi correspondido[x].


Participou da conspiração contra Henrique II Plantageneta perpetrada pelos seus filhos e por Leonor.

Berenguela de Navarra casou-se com Ricardo Coração de Leão em 1191.





Branca de Castela é neta de Leonor e haveria de se casar com Luís VIII da França, casamento que colaborou para apaziguar capetíngios e plantagenetas. Branca deu a luz ao rei Luís IX de França (São Luís).

João sem terra é o último filho de Leonor e Henrique II, nascido provavelmente em 1166.



Entre 1194 e 1207, é Matilde III da Boêmia a abadessa de Fontevraud.


Esse longo poema é construído a partir de uma “contrainte à Démarreur[10]. A contrainte, ou seja, a coerção e o desafio, é a expressão que funciona como Démarreur, ou seja, como o que põe o motor em marcha, no caso o poema. A coerção e o desafio são a essência da poesia produzida entre os degustadores de formas de Oulipo. A expressão “Se penchant à l’oreille”, que traduzi como “Inclinando-se ao pé do ouvido” é o desafio que aciona a força motriz do poema, como o “Je me souviens” de Georges Perec.
O poema de Fournel deve ser murmurado, como quem conta um segredo, daí a observação que o encerra. Desfilam por ele personalidades, a maior parte que conviveu com Leonor, mas isso não é uma regra, como a presença de Constance d’Arles nos prova. O mais importante é que se trata de um poema que encena encontros, entre determinados personagens e Leonor da Aquitânia. É possível distinguir 3 grandes grupos de personagens: 1) a família, grupo mais numeroso; 2) os trovadores e 3) o círculo mais clerical. Apenas dois personagens não podem ser incluídos nesses 3 grupos: trata-se da própria Constance e do rei da Escócia Guilherme I. Um personagem pode ser incluído em dois grupos: Guilherme IX da Aquitânia, avô e trovador!
No primeiro grupo, destaca-se a presença do rei da França, Luís VII, primeiro marido de Leonor, referido em 5 estrofes. Nelas, sobressai a vontade da rainha, que inclui forçar a dissolução de um casamento, que teve como consequência a excomunhão dos envolvidos. Na biografia que dedica à Leonor, o historiador Jean Flori[11] não acha possível concluir-se com exatidão o conjunto de interesses que confluíram para o casamento de Raul de Vermandois e Petronila, nem o papel de Leonor no projeto. Assim, o poema claramente envereda para o protagonismo da jovem rainha, que na altura não tinha 20 anos quando se deu o enlace da única irmã. Uma ausência relevante no poema é a de Henrique Plantageneta. Os plantagenetas comparecem entre os filhos de Leonor com Henrique e na referência ao seu cunhado que teria armado um rapto, do qual ela escapa, logo que se divorciou do rei da França. Leonor também foi bem sucedida em fugir de outro assédio. Entre os numerosos filhos tidos da segunda união, apenas aqueles que seriam reis, depois do pai – Ricardo Coração de Leão e João sem terra – comparecem a murmurar ao pé do ouvido de sua mãe. Na voz do poderoso Ricardo a intimidade da relação mãe e filho.
Entre os ancestrais de Leonor, está seu avô, o primeiro trovador conhecido, personagem que abre o poema. Guilherme IX ainda vivia quando Leonor e Petronila nasceram. Seu murmúrio manifesta presciência do futuro. Comparecem ainda seu pai, que não teve uma trajetória literária como Guilherme IX; a mãe, esta filha por sua vez da amante do avô de Leonor e o irmão, morto na primeira infância.
Destaco a presença do sogro de Leonor, Luís VI, que recebeu como encargo a proteção dela e da irmã, depois da morte de Guilherme X. É projeto do rei o casamento entre Leonor, riquíssima herdeira e seu filho; no poema a voz do rei é rigorosa e determina exclusivamente o comportamento da mulher. Destaco também a presença do tio de Leonor, em versos ambivalentes, que tanto podem manifestar a reconfiguração do laço de parentesco, quanto fazer referência ao suposto incesto entre tio e sobrinha, capítulo que robustece a “lenda negra” protagonizada por Leonor. A ambivalência também recai na declaração de Berenguela de Navarra, ou seja, valeria a pena todo o esforço para desposar um homem que, por sua vez, é protagonista de outra “lenda” que liga seu nome à homossexualidade?
O segundo grupo de personagens é formado por trovadores. Destacam-se Marcabru, Jaufré Rudel, Bernard de Ventadour e Arnaut Guilhem de Marsan, mas também poderíamos incluir André Capelão, ainda que este não esteja no perímetro cultural em que “nasceram” os 4 outros citados. Por que esses personagens comparecem à obra? Segundo Jean Flori[12], Leonor viveu em um contexto em que nasceram e se difundiram valores sócio-culturais muito transformadores das sociedades do Ocidente Latino. Esses valores nasceram na obra de poetas e romancistas, a princípio dos trovadores do sul da França, que colaboraram para tornar menos rudes, mais corteses, as formas de viver. Aos valores militares que caracterizavam a cavalaria veio a se juntar uma nova sensibilidade mediada pelo amor à mulher, quer tenha sido essa presença uma metáfora, quer tenha sido real e histórica, escrita, entretanto, com o vocabulário das relações feudo-vassálicas. Leonor participou como metáfora e como realidade; é personagem referida em vidas do cancioneiro occitano, no tratado de André Capelão e seu movimento primeiro da Aquitânia em direção ao reino da França e depois à Inglaterra beneficiou a circulação de poetas e de seus temas[13].
O último grupo é constituído por clérigos, como Suger, Hélinand de Froimont e Thibaud du Bec. O poema não subscreve nenhuma simpatia por Leonor por parte desses homens sisudos. O menos violento é Thibaud du Bec.    
***
O Jacente e o livro
O poema de Paul Fournel é também um texto dramático, que propõe uma interação com o jacente. Essa possibilidade transforma a barreira entre a vida e a morte, a matéria inerte em sujeito de auscultação. Por outro lado, é porque Leonor escuta tantos murmúrios que ela não pode ler (?!) e nisso Fournel não muda o destino do livro, mas o da própria Leonor. A rainha da França e da Inglaterra não escuta confissões, não pode redimir ninguém, mas tem acesso a segredos, confidências inacessíveis. Quem teria coragem de, ao pé do seu ouvido, chamar-lhe de “puta mais que rainha”? A sua morte também protege os acusadores.
Para o poema de Fournel convergem conhecimento histórico fundado nos documentos e na pesquisa histórica, e a “mitologia” sobre Leonor da Aquitânia. Essa mitologia fundada em camadas e camadas de misoginia também está no poema, pois a História já compreendeu que as lendas em torno do objeto também o constituem. O que faz, portanto, Fournel em “Les confidences” é realizar a síntese de elementos da trajetória pessoal, política e cultural de Leonor da Aquitânia (mais radicada nos elementos franceses dessa trajetória). Seu poema é uma historiografia poética, escrita da história em forma de síntese poética, como realizou Fernando Pessoa na Mensagem, ao escrever sobre D. Dinis, sobre o condestável Nun’Álvares, sobre D. João I, sobre a rainha Filipa de Lencastre... Os poetas conjugam temporalidades diversas em um dístico, estrofe ou até mesmo em um único verso.
A experiência de Oulipo no ano de 2014 ressignifica o monumento, a abadia de Fontevraud, que interage com a comunidade local, como ponto turístico e de interesse de pesquisadores consagrados ao estudo do medievo. Cada poema concebido, projetado e escrito enfim no Livro de Leonor apresenta possibilidades para o enigma que não cessa de apaixonar quem visita a abadia. A poesia escreve alternativas e, com isso, propõe futuro ao livro de pedra, mudo ou pleno de um interesse renovado? Se a pesquisa histórica se orienta pelas questões propostas aos restos do passado, Paul Fournel produz um documento sobre a recepção da História e do Mito de Leonor e, com isso, enfeixa um capítulo a mais no códice de compreensão do passado e do presente. “Les confidences” agora é camada que não oculta ou submerge, mas vivifica e aquece; auscultando íntimas e chocantes confidências, Leonor pode abrir os olhos e virar a página do livro que tem entre as mãos.






[1] PRIGENT, Daniel, GAUD, Henri. Fontevraud. Éditions Abbaye de Fontevraud. 2010. p.  22.
[2] Idem. p. 2-8.
[3] CHAUOU, Amaury. Sur des pas de Aliénor d’Aquitaine. Photographies de Thierry Perrin. Rnnes: Éditions Ouest-France, 2005. p. 113.
[4] http://oulipo.net/
[5] Le Livre d’Aliénor. Oulipo, 2014. Disponível em: http://www.fontevraud.fr/lelivredalienor/ acesso em 22 de maio de 2017. p. 4. Minha tradução.
[6] Idem, p. 5.
[7] Nessa excelente entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=-rQOMO-F-q0 (acesso em 22 de maio de 2017), o autor aborda a escrita como um desafio/pressão ou disciplina a ser vencido ou vencida ludicamente, que é a essência do grupo Oulipo.
[9] Le Livre d’Aliénor. Oulipo, 2014. Disponível em: http://www.fontevraud.fr/lelivredalienor/ acesso em 22 de maio de 2017. p. 60-62.
[11] FLORI, Jean. Aliénor D’Aquitaine. La reine insoumise. Paris: Éd. Payot & Rivages, 2004.
[12] Idem, p. 337-338.
[13] Sobre o amor cortês, Jean Flori escreveu um excelente capítulo na biografia que consagrou à Leonor, p. 352 a 368.




[i] FLORI, Jean. Aliénor D’Aquitaine. La reine insoumise. Paris: Éditions Payot & Rivages, 2004. p. 32.
[ii] Idem, p. 41.
[iv] POÉSIE DES TROUBADOURS. Anthologie présentée et établie par Henri Gougaud. Texte français de René Nelli et René Lavaud, revu et corrigé par Henri Gougaud. Éditions Points, 2009. p. 43.
[v] LOYN, H.R. Dicionário da Idade Média. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997. p. 339.
[vii] FLORI, Jean. Aliénor D’Aquitaine..., p. 60 e 64.
[viii] Idem, p. 305.
[ix] Idem, p. 344.
[x] POÉSIE DES TROUBADOURS..., p. 109.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

A intimidade de Marcel Proust por Céleste Albaret

Monsieur Proust foi recebido com uma profusão de sentimentos (contraditórios) quando foi lançado em 1973[1]. Em minhas mãos tenho exatamente essa edição, embora saiba que a obra foi reeditada em 2014. Hesitei bastante na compreensão desse texto complexo: trata-se de um testemunho dado a Georges Belmont por Céleste Albaret. É a reunião feita por ele de cerca de 70 horas (5 meses) de entrevistas realizadas com a mulher que trabalhou para o escritor Marcel Proust ao longo dos  últimos 8 anos da vida dele; que viveu ao pé do autor; para ele; sacrificando a sua juventude, sua vida particular, sua vida conjugal, na consciência absoluta de que serviu (o verbo é esse mesmo) a um gênio.
Georges Belmont sabe da importância e da complexidade da obra que realizou. Escreve uma introdução, em que contextualiza o testemunho de Céleste. Ela tem já 82 anos e, depois de cerca de 50 em silêncio, resolveu falar. Belmont teme essa voz tardia, afirma que submeteu as declarações de Céleste a repetições e também pôde aferir essa impressão tão certa quanto difícil de explicar: a franqueza. Mas por que afinal Céleste rompeu o silêncio? Não é uma coisa estranha pensar que, algumas pessoas quando alcançam certa idade julgam-se capazes de falar tudo... Nesse tudo, incluem as mágoas e impropérios que a decrepitude desculpa (será?)... O livro Monsieur Proust. Souvenirs recueillis par Georges Belmont é feito de respostas.
Alguém pode redarguir: mas as obras não são sempre respostas, nosso desafio é saber fazer as perguntas?! Essa réplica é certa. Mas, quando afirmo que o livro é uma coleção de respostas, quero dizer que Céleste responde a outra coleção de equívocos que a fama de Proust, sua obra, sua larga epistolografia, sua reclusão e o próprio silêncio de Céleste... só fizeram crescer, após a morte do autor. Meu exemplar de Monsieur Proust está repleto da palavra “resposta” nas margens. Já no final da narrativa, essa síntese:
“Mas hoje, antes de deixar o mundo na minha hora, a ideia de que possa subsistir uma dúvida ou uma mentira sobre tudo o que eu vi e que é a verdade tornou-se me tão intolerável que eu quis que fosse dito, de uma vez por todas, que as páginas que se seguem são a minha memória exata e que eu reexaminei suficientemente, controlei e verifiquei os fatos de minhas lembranças para ter a certeza da minha fidelidade absoluta à realidade do que foi. É um testamento o que eu escrevo aqui, não um testemunho.” (pág. 412).
O livro é dividido em 30 capítulos, tem excelentes documentos fotográficos e, ao final, consigna transcrições de alguns poucos (mas relevantes) telegramas enviados pelo autor a pessoas do círculo de Céleste Albaret, conjunto em que fica evidente a atenção de Proust para com as pessoas a quem se dirigia e a sua tocante gentileza. O livro é linear, foi organizado dessa forma por Georges Belmont, ainda que aqui e ali haja antecipações ou retomadas de algumas ideias. Belmont resolveu realizar uma narrativa em primeira pessoa, é Céleste quem fala. Aqui está a essência da hesitação que referia acima: não seria esta uma biografia dupla? Biografia e autobiografia misturadas? Depois de muito refletir, cheguei a uma compreensão que compartilho, não sem antes ressaltar que a obra está inscrita na coleção “Vécu”. Trata-se, portanto, da memória do vivido; a memória de alguém sobre outro alguém com quem a voz que narra e revoca conviveu. Biografia escrita em primeira pessoa. Não seria mais fácil compreender o texto realizado por Belmont como uma autobiografia em que Marcel Proust é o personagem mais brilhante? Não..., porque toda a vida de Céleste só aparece no texto para fazer viver Marcel Proust e às vezes literalmente, levando-se em conta a narração de seus cuidados para com o autor de Em busca do tempo perdido.
Céleste “nasce” no texto praticamente casada com Odilon Albaret. É Odilon que coloca a esposa em contato com o autor. Importa destacar que, assim como Céleste foi devotada a Proust ao longo de 8 anos, seu marido o foi desde antes, pois servira como chauffer ao autor, na sua época mais mundana. O começo do texto está cheio da conversa de cozinha, entre os empregados de Proust e, talvez tenha sido esse disse-me-disse um dos elementos da má vontade com que a obra foi recebida em alguns meios. Parece que os primeiros leitores da memória de Céleste tiveram dificuldade em compreender seu deus em uma casa em que os criados tinham ciúmes uns dos outros e disputavam a primazia do serviço ao autor... Ora, eu fiquei a pensar nas pessoas que disputavam para serem recebidas por Proust! Vejo uma grande diferença entre os grupos: os palacetes e contas bancárias.
Céleste começa a trabalhar para Marcel Proust logo depois de seu casamento. Ela tem 22 anos, veio do campo, está só em Paris e se entristece. É Proust quem analisa esse abatimento em uma conversa com seu chauffer (sim, o autor da Recherche era atento a tudo e a todos) e sugere a Odilon ocupá-la em seus correios. A princípio, não há compromisso, é um passatempo. Mas o tempo de fato corre e Odilon é rapidamente mobilizado para a guerra. Trata-se da Primeira Guerra Mundial. A experiência da guerra muda a vida de todos no livro e, sobretudo, a do autor, de quem ela fala. Quando o valet Nicolas Cottin deixa o serviço da casa, Céleste assume tudo. Ela já aprendera a estrita rotina do autor, desde o preparo do café (super detalhado na obra, o que a princípio parece um exagero de texto) até o arejamento do quarto, passando pela troca da roupa, pela espera do chamado para levar o café e os horários, de quem levantava depois do meio dia e costumada tomar o café da manhã às 16:00!
O preparo do café e outros mil detalhes na verdade são muito importantes na obra. Eles conferem grande credibilidade à narrativa de Céleste, porque ela deixa muito claro o que de fato viu. Essas miudezas que desagradaram a alguns são a riqueza da obra! A experiência de Céleste compreende o que ninguém a não ser ela poderia contar sobre Proust. Não são, portanto, pormenores desimportantes, mas a vida “real”, com seu café, croissant e leite... Durante esses 8 anos, e apenas interrompido por algumas encomendas, foi tudo o que constituiu a dieta do autor. Céleste não conjectura sobre o que e se ele comia fora, ela se limita (e insiste nisso) em recontar o que viu.
A minha leitura de uma rotina tão rigorosa como a de Marcel Proust me fez pensar em uma coreografia muito bem ensaiada. Não acho que Céleste ou Belmont desaprovariam a metáfora, porque ela me foi sugerida pela observação da própria Céleste dos gestos do autor: delicados e precisos. A linguagem do corpo tão bem observada pela governanta, a imitação de alguns no início das madrugadas depois de animados saraus, os dedos a enquadrar bochecha e queixo, em uma das imagens mais conhecidas..., tudo isso constituía um verdadeiro ballet! Mas para que a primeira bailarina dançasse, um corpo de baile se matava para garantir seu sucesso... Ora, o capítulo 18 se chama justamente “Tyrannique et méfiant” e nos faz pensar que por muito menos que o que está lá, uma décima parte talvez, umas vinte Célestes teriam abandonado aquela casa do Boulevard Haussmann.
Quando Céleste passou ao serviço de Proust, o “temps du camélia à la boutonnière” terminara... Mesmo assim, ela teve acesso à memória que o autor conservou do período. Nessa rememoração da rememoração, um aspecto se revela em conformidade com a franqueza que comoveu Georges Belmont. Céleste não tem o menor problema de revelar nomes e opiniões que alguns poderiam/puderam considerar chocantes sobre pessoas “admiráveis”, mesmo dos amigos mais próximos e devotados do autor. Trata-se em grande parte de ciúmes, invejas e incompreensão...
Ligado à identificação de pessoas muito reais, que visitam manuais de Literatura, Pintura, Música, bem como têm seu nome na capa de várias publicações de prestígio (o que ela nos entrega de André Gide não é pouca coisa[2]...), vemos os “modelos” do autor: uma coleção de pessoas que emprestaram traços a seus personagens mais conhecidos e fascinantes. Devorei as páginas escritas sobre o conde Robert de Montesquiou, modelo do fantástico Barão de Charlus!!!! A princípio, não sabemos quem é mais estranho: se o modelo ou o personagem. Proust chega a prevenir Céleste para o caso de Montesquiou mandar entregar qualquer caixa de chocolates... O autor não esconde o receio de que estivessem envenenados (pág. 315). Depois de ser informado da morte do conde, Proust revela a Céleste que havia momentos em que achava que Montesquiou ainda vivia: “ele é perfeitamente capaz de se fazer passar por morto e de tomar um outro nome, por curiosidade de seu ‘pós’” (p. 315). O final do capítulo é muito bonito. Céleste afirma que, depois de algum tempo, ela achava que o conde Montesquiou deixou de existir no espírito de Proust: “A verdadeira realidade, era Charlus” (p. 315). O personagem lhes sobreviveu a todos.
Ainda que a sinceridade de Céleste possa ter sido algo indigesta para uns e outros, o desconforto veio primeiro da leitura da obra enquanto o autor ainda vivia! Isso é muito interessante. Alguns “modelos” se insurgiram contra Proust! O conde Robert de Montesquiou foi um deles... Isso exigia que Marcel Proust empregasse muitos recursos retóricos para defender a sua obra aos olhos de pessoas que se reconheciam nela. A verdade é que mesmo tendo modelos bem nítidos e saindo à noite para fazer prospecções, o autor reuniu traços de diversas pessoas. O fato de algumas delas se reconhecerem talvez advenha da convivência que experimentaram com Proust ou... do fato de termos sim a certeza de que ele escreveu para nós.
Muito já se escreveu sobre a homossexualidade de Marcel Proust. O fato é que Céleste nada afirma sobre isso e não devemos pensar que se tratou de “proteção” ao autor em um contexto em que as paixões de um homem como Montesquiou ou como o personagem Charlus eram tabu. Céleste nada pode revelar porque só tem duas fontes: o que viu e o que Proust lhe relatou. Segundo ela mesma declara, o autor era de um pudor imenso. No fim da vida, extremamente debilitado, para se levantar da cama, onde estava todo vestido, pediu à Céleste que se virasse e, quase inconsciente, deve ter sofrido mais por ter percebido sua coberta ser levantada para uma injeção que pela injeção em si (mesmo levando em conta que ele tinha horror a picadas). Ainda que ela tenha afirmado que ele lhe confiava tudo, havia limites decerto.
Há dois capítulos sobre os amores de Marcel Proust. No capítulo 15, as mulheres que ele admirou, cujo charme lhe marcou (elemento muito valorizado por ele!), pelas quais se interessou ou se apaixonou. Entre os documentos fotográficos, encontramos algumas delas: a atriz Louisa de Mornand, o amor adolescente Marie de Benardaky... Lemos a sua desistência de casar-se. No início do capítulo 16, “’d’autres’ amours” (pág. 227), Céleste afirma que embora achasse que Proust tivesse capacidade para amar, não acredita que jamais tenha realmente se apaixonado. Ela cita diversos nomes de homens, para desfazer equívocos de encontros no Boulevard Haussmann. Novamente ressalto que ela só pode se reportar ao que viu ou dele ouviu. Nos seus limites, não se escusa de mencionar, por exemplo, um nome que segundo ela mesma fez correr tinta: Alfred Agostinelli, que serviu Proust como chauffer. Mas Agostinelli haveria de morrer em 1914, quando Céleste havia recém entrado a serviço do autor! Outro nome citado foi o do “modelo” de Jupien: Le Cuziat, que era proprietário de um bordel. Nada sobre Reynaldo Hahn nesse enquadramento... Embora esse amigo fiel apareça muito ao longo da obra e tenha mesmo velado o corpo de Proust junto a Céleste e ao irmão do autor. Apenas os três na companhia de 2 religiosas (pág. 432). Hahn tem mais desenvolvimento no capítulo das amizades (capítulo 19), junto a Mme Strauss, Robert de Billy, os irmãos Bibesco e Frédéric de Madrazo.
Na memória de Céleste, Marcel Proust fez todas as concessões (im)possíveis para a sua obra e só as fez por ela. Ao colocar um fim no livro, mesmo que ainda houvesse muito a corrigir (entre os documentos fotográficos, vemos como os originais voltavam de suas correções...), seu corpo entrou em colapso. As concessões ignoravam os cuidados para preservar a frágil saúde. Mas há uma cena interessante em que se misturam pesquisa e frequentação ao bordel de Cuziat, poderíamos compreendê-la no quadro das concessões? Na volta, Marcel Proust relata uma cena masoquista à Céleste. O diálogo seguinte à narração é extraordinário:
- Senhor, isso não é possível, não pode existir!
- Mas existe, eu não inventei.
- Mas, Senhor, como pôde olhar para isso?
- Justamente, Céleste, porque eu não posso inventá-lo. (pág. 240)
Trata-se de um pequeno capítulo das relações entre ficção e realidade...
Apenas uma visão muito parcial da catedral[3] proustiana, ou mesmo a ignorância completa do texto, travestida de escolha por textos mais “engajados”, explicariam a falta de reconhecimento do extraordinário desvelamento literário de um mundo prestes a sucumbir. Proust foi um leitor voraz e, durante a construção de sua catedral, lia variados jornais e se interessava pela política, pela bolsa de valores, pelas artes, pela literatura e pela crítica. Tinha suas preferências políticas e manifesta na sua obra um evento que lhe tocou particularmente: o caso Dreyfus[4]. Céleste não busca explicar a crença de Proust na inocência de Alfred Dreyfus a partir da sua ascendência materna (a mãe de Proust era judia), mas pelo seu amor à verdade e à justiça.
Céleste nos conta algumas coisas muito difíceis, como a queima dos cadernos pretos de notas; a verdade (com provas materiais rsrsrs) de que André Gide, o “falso monge” (pág. 353), sequer teria lido o célebre manuscrito recusado; a mudança do Boulevard Haussmann, não sem desfazer os equívocos dessa mudança de endereço, para a rua Hamelin, onde o autor haveria de morrer, e a sua agonia. Proust recursou todos os tratamentos médicos que estavam à sua disposição, e estavam à sua disposição o que de melhor havia em seu contexto! É nesse momento que nem Céleste lhe pôde obedecer..., mesmo tendo se remoído de remorsos. Mas quem não lutaria mesmo contra quem ama para salvar-lhe a vida?
Marcel Proust morreu no dia 18 de novembro de 1922. Era um sábado. Logo, um cortejo de amigos viria até a rua Hamelin para despedir-se dele. Ele só seria enterrado na quarta feita, dia 22 de novembro. Depois disso, a vida de Céleste passa depressa no texto e em poucas páginas a vemos ter uma filha, sua única filha; vemos Odilon morrer; ela vender lembranças de Proust em razão da doença de Odile; vemo-la no Museu Ravel. Sua última lembrança na narrativa é ainda Marcel Proust, em uma pequena joia que ele lhe deixara.

Referência: ALBARET, Céleste. Monsieur Proust. Souvenirs recueillis par Georges Belmont. Paris: Éditions Robert Laffond, 1973.

Epílogo:
Quando terminei de ler a obra, dia 15 de maio de 2017, tinha o rosto lavado em lágrimas. Precisei ser consolada. 95 anos depois de Marcel Proust ter morrido, eu chorava a sua morte! Desde setembro de 2015, ele tem sido uma companhia constante: o intervalo de minha vida, cheia de linhas preenchidas em agendas cujo tamanho das páginas fica maior a cada ano... É difícil achar tempo para um intervalo tão exigente: 7 volumes! Até para ser lido, ele é o tirano que Céleste e seus grandes amigos deixaram que reinasse em suas vidas. Em nossas vidas.

Amigos, as traduções realizadas no texto são de minha inteira responsabilidade.




[2] “Entre os que gravitaram em torno de [M. Proust] (...) é preciso que eu me detenha sobre André Gide, a princípio porque, ainda uma vez, ele foi o único e grande responsável pela recusa do manuscrito de Swann na [editora] Gallimard, e [porque] depois da morte de M. Proust, nasceu um equívoco sobre uma pretendida intimidade e relacionamento entre eles – equívoco que foi expressamente criado e alimentado por André Gide” (pág. 355)
[3] Céleste emprega essa mesma metáfora no seu relato.
[4] Sobre esse tema, mas não só, recomendo a tese de doutorado do Prof. Alex Neundorf (PUCPR), disponível em: http://www.humanas.ufpr.br/portal/historiapos/files/2013/05/Alex.pdf (acesso em 15 de maio de 2017).