sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Raquel presente


Para Maria Cristina e Michael
Para Aline

Maria e Michael, tô chegando aí. Levo 2 sacolas de compras que vou colocar no chão da cozinha. Tô abrindo os armários e a geladeira para guardar. É cedo para o almoço, então vou recolher a roupa do cesto, colocar na máquina, dar aquele jeito no banheiro, fazer a cama de vocês, varrer em silêncio a casa toda. Onde está o pano de chão? Achei. Vou pegar as toalhas e colocar na varanda. Há sol hoje depois de quase onze anos de chuva.
Vou dar uma espiada em vocês. Vejo-os no colo um do outro. Fecho a porta devagar. Além de o Amor me inspirar respeito reverente, temo que o ritmo do bater da máquina de lavar – tão cotidiano – atrapalhe a entrega dessa manhã. Vou deixar uma frestinha, entretanto, só para o caso de vocês precisarem. Basta me chamar. Tô ali na cozinha.
Então vai ter feijão preto e gordo de paio. Hoje vamos nos permitir. Tô lavando o arroz. Vou fazer uma carne moída como a minha amiga Fabiana me ensinou. Nunca me ocorreu colocar alho-poró na carne moída!! Então vai ser do jeito dela que agrada mais lá em casa, inclusive. Trouxe alface e tomate. Abro o armário da pia e encontro a mesma engenhoca do Avon que tenho em casa, para deixar as folhas da alface bem sequinhas. Nós compramos da mesma cor, verde! Resolvo esse cardápio por dois motivos: além de ser rapidinho, faço sem muito barulho. Bem, a não ser o da pressão... Eita, trabalhar ritmado e cozinhar na pressão. Eu sempre encontro verdades muito profundas nas minhas tarefas simples... e vocês?
Vou na ponta do pé até a frestinha e aviso do almoço. Não querem tomar um banho? Roubei da gaveta da minha mãe o sabonete que, na gaveta dela e nela, fica mais cheiroso. Sim, apesar das escolhas políticas, ela ainda é a mulher mais cheirosa do mundo. Seu perfume misterioso me apazigua. Trouxe para vocês. Deixo no box.
Corro na varanda a fim de sentir as toalhas. Estão quentes. Resolvo esperar deixar de ouvir o chuveiro para pendurar as toalhas na maçaneta da porta do banheiro. Dá certo. Corro à cozinha. Imagino o calor abraçando vocês. É por causa da cebola que choro.
Não há pó nos porta-retratos. Êee, lá em casa... Achei uma toalha linda na terceira gaveta da cômoda. Desculpa mexer nas coisas, mas foi só para não ficar perguntando. Não é porque não achamos a toalha na primeira gaveta que vamos desistir, né? Que bom que ninguém desistiu. Assim, eu posso colocar a mesa para a gente. Não se preocupem, hoje eu quero almoçar com vocês.
Escancaro as cortinas. Puxo a cadeira para a Maria, pouso a mão no ombro do Michael. Cheiram ao sabonete da minha mãe quando ela usa esse sabonete. Coloco o prato de cada um, afinal, vim fazer o serviço (!), e a gente come em silêncio. Maria fica intrigada com o alho-poró. Sabia. Sorrio sem medo do caroço de feijão. Acho que vou fazer um bolo para a tarde. Pode sim. A gente é formiga aqui. Em casa também, Maria. Quem não?
Termino a louça, o bolo e vou, tá? Tenho uma porção de coisas... A roupa limpa está no varal do quintal. Cuidem só para o caso de começar a chover. Mas eu acho que hoje não. Acho que a gente vai ter direito a esse sol todo. Da janela, a gente vê passar crianças na volta da escola. Sinto aperto, mas nem Maria nem Michael sentem. Vejo seus olhos limpos. De repente, Michael levanta, vai até cozinha, traz um pedaço de pão e limpa o prato. Maria lembra de uma laranja. Cada gomo é um portão aberto sem sobressalto. Hoje, todas elas estão em casa.
***
Hoje, acordei com a notícia do desvendamento do caso da menina Raquel, sequestrada dessa vida há quase 11 anos, em novembro de 2008. Agradeço aos agentes públicos que não desistiram e me maravilho com a tecnologia que descobriu a identidade da matéria orgânica que desperdiça o precioso oxigênio do planeta. Há 11 anos, uma mulher que trabalhava com afinco para a solução do caso perdeu a sua filha ainda no ventre. Eu soube hoje. Ela contou. A matéria orgânica já encarcerada pode acumular mais esse crime. Há quase 11 anos, em novembro de 2008, minha filha nasceu. Há 11 anos.
Eu não conheço Maria e Michael. Esse texto é só uma forma de acarinhá-los à distância, de forma respeitosa e reverente. Aline, é uma forma de abraçar você também.




segunda-feira, 1 de julho de 2019

Os homens que não amavam as mulheres e que convenceram outras a não amarem também


Era uma vez um homem muito poderoso que se descobre um dia traído. Cego de ódio, arquiteta um plano que o afastaria completamente da possibilidade de uma nova deslealdade: desposa mulheres e, no dia seguinte à consumação do intercurso, condena-as à morte. Em outro era uma vez, um homem inescrupuloso usa a própria mulher para cegar o seu patrão. Este, por sua vez, “envenenado” pelo criado, mata a esposa que era, afinal, inocente de toda a perfídia alegada. Muitos era uma vez depois, uma mulher esplendorosa – “ela é uma coisa extraordinária, ela é muito grande” – alucina um indivíduo medíocre que não podendo conter essa grandeza, mata a mulher, para “reduzi-la a nada”. Assim está escrito. São tantos era uma vez e tão fácil reconhecer o sultão Šahriyar de As mil e uma noites (cuja forma mais antiga e inteira é dos séculos XIII ou XIV), Iago personagem da peça Otelo, o mouro de Veneza (Shakespeare) e o Bexiguinha do romance Aparição (Vergílio Ferreira), que qualquer pessoa poderia acrescentar mais leituras, a partir das minhas sugestões, a um rico e sanguinário repertório literário, em cujo enredo está posto o assassinato de personagens femininas. É claro que isso é uma maneira de ver as coisas, afinal personagens masculinos também morrem. A literatura é bem diversificada em seus desejos de vingança.
As histórias que salpiquei tiveram grande impacto sobre mim em diferentes momentos da vida e há dias, enquanto observo acontecimentos por todo o lado, e em especial no Brasil, esses textos me vieram novamente ao coração. Šahriyar, Otelo e Bexiguinha não podem suportar a frustração de não terem sido amados como eles desejaram sê-lo. É como se, a partir do momento em que as mulheres entraram em suas vidas, em suas casas, palácios, em seus quartos... tivessem de abrir mão de toda a sua vontade para saciá-los exatamente como eles sonharam ser saciados. É óbvio que penso nas violências que atravessam a vida das mulheres que mudam de ideia, apesar de seus “sinais”...
Uma digressão rapidinha a propósito dos “sinais”: adoro ouvir rádio e dia desses ouvi de um locutor de uma rádio de sucesso que mulheres como essas “empoderadas” e que adoram dizer que “não é não” andam contrariando o que acontece “na real e na noite”, quando homens e mulheres se encontram. Segundo sua narrativa entrecortada de elipses maliciosas (creio que em razão do horário da emissão), as mulheres dão “sinais”, vão aos apartamentos dos homens e depois querem ir embora (!!!), sem consumar o que quer que esteja plantado na cabeça dos... homens! Ora essa! O machismo é uma doença de proliferação celular tão extraordinária que o locutor não questionou em nenhum momento as próprias palavras, em que jorravam litros de pus sobre o protagonismo masculino (exclusivo) nas decisões sobre o sexo. Mas havia outro homem lá, que disse uma coisa diferente: Sabe, cara, acho que não é não mesmo, vai que a garota não gosta da cara do meu [falo][1]?!
Agora, voltando aos frustrados, somos todos e todas em alguma medida insatisfeitos com a resposta real às nossas expectativas completamente irreais... A frustração não quer nem saber: é um sentimento grande, que vai tomando conta de bons hectares do nosso coração. Alguns de nós ficam na fossa (alguém ainda usa essa palavra?); outros, recorrem aos amigos e amigas e a seus ombros largos; outros precisam de ajuda profissional; outros machucam e matam.
O que tem me chamado muita atenção é um tipo de frustração bem específica, que nasce no sexo e vai tomando conta de outras áreas da vida dos pudicos ou dos ressentidos. Assim, porque alguém ousa uma escolha que só interessa aos implicados, outros que observam a escolha não suportam o gozo alheio (quase sempre, não têm fruição alguma); ou, porque alguém adentrou o quatro com outro alguém, tem de consumar o que só um continuou a querer, segundo a opinião do que insiste no ato e de quem não estava lá (!), mas quer gozar só de imaginar... O que isso tem a ver com as mulheres? Quase sempre, somos as que mudam de ideia ou estamos entre os que ousaram.
Nem sempre a cama é evidente, entretanto. Quando uma autoridade vem a público chamar um homem de “menina” porque esse homem é homossexual, o que a autoridade busca? Uma das possibilidades de resposta é o menosprezo do homem que recebeu a identificação, o que significa que “menina” passa a ser um termo pejorativo, um xingamento. Novamente (porque professora adora explicar tudo explicadinho...): o substantivo menina passa a ser um xingamento na boca de um homem, que usa a palavra como adjetivo para ferir um outro. Eu vejo Iago. Quando um homem, ou um grupo deles, se rejubila ante a morte de uma mulher poderosa, ou obtém fruição com a notícia da violência perpetrada contra mulheres que ousaram ter escolha, quem eu vejo? Eu vejo o medíocre e perigoso Bexiguinha. Quando leio a defesa da subserviência feminina entre ícones da moda diante do desejo exclusivo do outro e/ou o apagamento do nosso desejo, eu temo ver o poderoso Šahriyar.
Entre os homens reais que executam projetos semelhantes aos personagens literários e os que “não fazem nada”, mas calam, riem, trocam um gracejo ou outro no whatsapp com os amigos, aceitam a piada “inofensiva”, mostram enfado diante dos “exageros” das suas mulheres e ousam um like em postagens duvidosas protegidos pela tela, há uma distância que pode ser bem desconfortável, monstruosa... É como se o reino dos ogros tivesse se instalado definitivamente entre nós! Já escrevi sobre isso[2]: não aplaudo o “inofensivo” Shrek, aliás temo que ele convença as meninas a se tornarem ogras por amor. Ora, eu conheço mulheres casadas com ogros e que não se tornaram ogras! Obrigada, queridas, continuo a reconhecê-las!
Os homens vivem entre nós e está claro que boa parte de sua mudança ou do sutil deslocamento das ideias dos mais cabeças duras vêm muitas vezes da convivência conosco. Eita, responsabilidade! Mas não estou dizendo que devemos insistir com aquele namorado possessivo (e/ou violento...), aliás, sugiro escapar dele!! Não foi isso que Jane fez quando descobriu o segredo de Mr. Rochester em pleno altar[3]?! Gente, esse personagem insistente precisou ficar cego para reencontrar Jane nas bases em que ela estava disposta a construir o futuro: um futuro amoroso em que ele inclusive seria cuidado e amado por ela, em pena liberdade! Jane, Jane... Quem de nós não soluçou com a morte de Helen não tem coração!! Lembro: elas eram só meninas...  Meninas que apoiam meninas. Isso me emociona.
Desdêmona e Sofia foram surpreendidas e mortas; Šahrazad conhecia o destino das suas antecessoras e ousou uma alternativa. Seu risco, entretanto, era imenso! Essas mulheres tiveram famílias, amigas, criadas, irmãs... Apenas Šahrazad conseguiu mobilizar apoio de sua irmã Dinarzad a tempo de viver. Sua irmãzinha, escondida debaixo da cama... Lembra quem rouba o lenço de Desdêmona? Emília..., esposa de Iago, move-se por ele! Ela se arrependerá de ter feito o que fez, mas extemporaneamente e perderá a vida também. Dinarzad correu todos os riscos com sua irmã para salvá-la. Estavam do mesmo lado, o lado da vida e da esperança.
Sabe, os ogros podem seduzir as princesas com a sua aparente rebeldia ou não conformidade com a etiqueta da corte; podem convencê-las temporariamente de que o comprimento da saia das suas amigas é sinal da anulação do seu desejo em prol da vontade dos seus pares ogros; podem ser eleitos; não ter escrúpulos; podem dar voz às mulheres para elas dizerem, sem desconfiar, o que eles querem na verdade; podem convidá-las a seus hotéis, convencê-las de que bastou entrar no pântano para chafurdar com eles, mas... podemos lembrar da força das meninas tanto para tentar salvar as Sofias que conhecemos, quanto para virar ofensa em elogio e, assim, reinvestir as palavras do seu sentido e do seu poder.



Illustration des Mille et une nuits, par Léon Carré (1929).

Bibliothèque nationale de France.





[1] Ele empregou outra palavra. Eu uso um sinônimo mais bonitinho e meigo.
[2] Em “Sobre a gente que vive em palácios, pântanos e em uma casa azul de papel”, conferir aqui no blog: http://literistorias.blogspot.com/2016/06/em-tempos-de-lancamento-de-menina-com.html
[3] Romance Jane Eyre de Charlotte Brontë.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Normas “bizantinas” e outras improbidades históricas e linguísticas


Há alguns dias, o presidente anunciou a redução de 90% das Normas Regulamentadoras, as conhecidas NRs: “elaboradas por comissão tripartite incluindo governo, empregados e empregadores, e publicadas pelo Ministério do Trabalho e do emprego. São em número de 32” (hoje, 37)[1]. Os profissionais da Segurança do Trabalho se preocuparam, afinal vivemos uma triste distinção internacional: somos campeões em acidentes... Como entre tantas reações às originalidades deste governo inclui-se o humor, eu mesma vi um meme sobre a NR 10 – Segurança em instalações e serviços em eletricidade:

“10.1 – Cuidado para não tomar choque aí, tá ok?”

A pessoa que compartilhou esse meme comigo sorriu tristemente. Afinal, trata-se de uma norma complexa e vasta.
Na explicação sobre como essa normativa é elaborada, sobressai o esforço conjunto de 3 agentes, mas na “análise” que encerra a promessa do presidente sobressai 1 agente sensível: ”há custos absurdos [para as empresas] em função de uma normatização absolutamente bizantina, anacrônica e hostil”[2].
O uso do adjetivo “bizantina” não me passou despercebido. São 3 também as acepções do adjetivo no Dicionário eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa:

1     relativo à cidade de Bizâncio (atual Istambul, na Turquia) ou o seu natural ou habitante; bizâncio
2    relativo ao Império Romano do Oriente (tb. dito Império Bizantino, 330-1453 d.C.), às manifestações da civilização e da cultura desse império, ou quem nele nasceu ou habitou; bizâncio

n adjetivo
3    Derivação: sentido figurado. Uso: pejorativo.
que tem caráter de bizantinismo ('tendência', 'ato'); frívolo, inútil, pretensioso
Ex.: discussão b.

O sentido pejorativo do adjetivo está previsto no dicionário.
É possível que alguém que estudou história medieval seriamente se pergunte como esse sentido afinal entrou no nosso uso corrente. Fui buscar a resposta em Antônio Geraldo da Cunha, que documenta a palavra entre os falantes do Português no século XIX[3]. Isso é bem interessante.
Sabemos que contrariamente aos iluministas, os românticos gostavam da Idade Média, mas a compreenderam à sua moda. Aliás, o conjunto de particularidades do seu olhar sobre o medievo é uma fonte importantíssima mais sobre os próprios românticos que sobre o medievo! Além disso, a Idade Média que visaram foi quase sempre a da tradição latina. Tradições orientais (incluídas aí as helênicas) estiveram presentes, mas, segundo vários autores já desvendaram, como um “lugar de romance”[4]. Tenho particular encantamento pelos contos fantásticos de Théophile Gautier[5], em que tudo o que é misterioso, terrível, mágico... vem do Oriente! Há outros muitos exemplos para além desse meu gosto particular.
Do lugar “feiticeiro” e politicamente “traiçoeiro” (que rima significativa!), mesmo a identidade cultural de um império, radicado na admirada tradição clássica que soube vigiar e atualizar, haveria de receber a sua demão de desprezo no século dos amantes da Idade Média. Essa história é mais antiga, eu sei, por isso usei o substantivo demão: entre os “inventores” da Idade Média nasceu o desprezo aos sábios bizantinos[6], diminuídos no seu papel fundamental de promotores do Renascimento. Desde o século XV e durante o século XIX, esse desprezo é fortalecido por um desdém de acréscimo: por quem arrasou Bizâncio, os otomanos! A partir do século XIX as próprias relações entre a Turquia e a Europa (que há muito estava “liberta” da consciência do papel cultural da tradição bizantina) tiveram seu papel para a história da transformação do sentido do adjetivo.
Então, o desprezo na fala do presidente tem explicação histórica e palmilhar o rumo dessa explicação é enriquecer o sentido do vivido. No seu esforço de simplificar uma construção plural – a normativa, que deve ser, de fato, sempre revisada pelos agentes, e reduzi-la a 10% do que é hoje, o presidente se serviu do menosprezo histórico a uma tradição cultural que pode lhe ser felizmente explicada pelos “idiotas úteis” ou pelos “espertalhões” do dia 15 de maio de 2019.
Ora, poucos dias depois da “norma bizantina”, seguro pela distância física do país e poucos meses depois da vitória democrática nas urnas, o presidente feriu com ofensa parte significativa do povo brasileiro: a uns chamou de “idiotas úteis” e “massa de manobra”, a outros, “minoria espertalhona” radicada nas “universidades federais do Brasil”, em dia de manifestação democrática.
São muitas ofensas... Elas se coadunam à escolha lexical da inspiração declarada e dos seus sequazes. Idiota é tolo, mas também aquele que outrora preferia não participar da vida pública da polis[7]; ao atrelar a ofensa à expressão “massa de manobra”, o presidente propõe a participação que o uso de idiota não previa no equívoco, e isso tudo a serviço de uma pequena parte de gente de natureza desonesta.
Dia 15 de maio de 2019, levei a minha filha à Praça Santos Andrade no centro de Curitiba para que ela visse como se manifesta democraticamente pela defesa do ensino público e gratuito. Fomos até o Centro Cívico depois e lá assistimos, sobretudo, a jovens que falavam e cantavam. Ela viu que, quando os homens eleitos e suas equipes ameaçam instituições, eles e elas devem ser questionados pelo povo, e que a rua e a praça pertencem a esse povo para exprimir sua opinião e para lembrar que a atuação dos eleitos no curto espaço de tempo de seus mandatos onera gerações... A rua mostra um povo vigilante.
Michael McCormick escreveu sobre o imperador bizantino que:

Quando, ao acordar, os cidadãos de Constantinopla avistavam a espada e os escudo do imperador suspensos dos portões do Palácio imperial, sabiam que a guerra era eminente e que o basileus conduziria o exército na batalha.[8]    

Bizâncio estabeleceu um modo muito particular de se comunicar, e estudar essa e outras formas antigas de comunicação não significa colecionar curiosidades, mas compreender as trocas em sociedades políticas diversas. A púrpura era a cor imperial; o quarto dos partos “batizava” os príncipes em porfirogênitos no império em que o sentido de nobreza era meio supérfluo; os mosaicos não eram arte (como a entendemos), mas uma forma de escrita que se pretendia divina... Existe todo um quadro de particularidades que ilumina as nossas pelas diferenças gritantes! Nem melhor, como os nostálgicos gostariam; nem pior, como os apocalípticos... Diversa. No centro, queria destacar, estão formas de comunicação.
Na voz do presidente, o adjetivo bizantino ganhou o sentido de “hostil” pela associação realizada na enumeração. Novidade. Mais uma nota para a transformação das palavras segundo o desejo de detração das gerações que perderam (de propósito ou por falta de estudo) o ponto de partida! O oriente sedutor, feiticeiro, traiçoeiro, hostil... – cujo vestígio convocado na voz, mereceu, entretanto, ser condenado – pode ser revisto pela explicação histórica, menos interessada na ofensa dos agentes e mais engajada na iluminação fundamentada dos modos de viver de mulheres, homens, crianças e jovens que com sua luta, expressão e sentimentos no tempo são os agentes da História. Uma atividade de honestidade no tempo. 

***

Epílogo:
Imperadores de Bizâncio foram grandes legisladores e a revisão das normativas esteva na sua pauta, na verdade na dos maiores dentre eles.
A família imperial era bem importante em Bizâncio e a transmissão dinástica de poder aconteceu sim, mas... na narrativa desse império de pouco mais de 1000 anos há uma porção de casos de mutilação e afastamento violento da púrpura. Teve até mãe que mandou cegar filho! Drama familiar. Vou deixar uma tarefa: por que será que o apelido de Basílio II é Bulgaróctono?  Sabe, gente, essas metáforas transtemporais escondem umas coisas esquisitas à beça. Se eu fosse crédula, evitava algumas.


Ícone de Basílio II
(Taí uma pessoa morta de que tenho medo...)




[1] ARAÚJO, Giovanni Moraes de. Normas regulamentadoras comentadas. Legislação de segurança e saúde no Trabalho. Colaboradores Juarez Benito e Carlos Roberto de Sousa. 6ª Ed. revisada, ampliada, atualizada e ilustrada. Rio de Janeiro: Gerenciamento Verde Editora e Livraria Virtual, 2007. p. 32.  
Esse dado deve ser atualizado, são 37 normas e 36 em funcionamento.
[3] Dicionário Etimológico Nova Fronteira. (2ª ed. e 5ª impr). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992. p. 113.
[4] Uso expressão de Edward Said em O Orientalismo.
[5] GAUTIER, Théophile. Contes et récits fantastiques. Librairie Générale Française, 1990. Col. Le Livre de Poche. 

[6] Conferir aqui no blog o texto: “Renascimento e tradição bizantina, tradução do artigo “Les Grecs sans Byzance” de Christian Förstel”.

[7] Há alguns vídeos no youtube protagonizados pelo Mário Cortela com explicação clara e didática. Vai lá.
[8] McCORMICK, Michael. “O Imperador” in CAVALLLO, Guglielmo (Dir.). O homem bizantino. Lisboa: Presença, 1998. p. 222.
Detalhes: 1. O tradutor de McCormick empregou mesmo eminente e não iminente... e 2. Basileus é imperador. 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

O fantasma do pote – uma crônica natalina

A vida doméstica é aquela loucura: todo mundo enlouquece todo mundo pelos maiores motivos ínfimos... Aqui em casa, um dos mais recorrentes motivos desprezíveis são os potes. Tupperware, pote de vidro, pote descartável, mas reaproveitável, potes! Ninguém some com meus potes – motivo que, sei bem, azeda certas famílias. O pote da discórdia! Na minha, não tem isso, pois minha mãe é um inventário vivo de todos os potes: os da casa dela, da casa da irmã gêmea dela, da casa da minha irmã mais velha, da mais nova... Ela não permite que ninguém se engane. O pote da paz!
O problema aqui de casa é mesmo o fechamento. Como sou corredora e praticante de treino funcional, pote que eu fecho não deixa torrada mole! Tenho orgulho. Entretanto, essa prática não tem herdeiros. Vira e mexe, eu encontro meus potes de frutas secas, torrada, manteiga, queijo mal fechados. Alguns já foram ao chão, porque eu, esquecida do mau hábito que habita a casa, segurei-os pela tampa... É melhor me escusar de narrar o que acontece quando esse sinistro se abate. Um pote pronto a explodir.
A discrepância entre a visão de uma última torrada no pote sobre a qual passo carinhosamente a manteiga, depois de chegar esfomeada em casa, e a sua textura mole, sem crocância na dentada, acorda em mim desejos de detetive: Quem foi que deixou o pote aberto?????????????? Ninguém. Eu moro com 2 pessoas, mas nunca são elas. Quem foi o último? Ninguém lembra! Talvez até você, mãe... sugere entre dentes a filha ousada.
Um dia, eu me saí com uma alternativa: Sim, deve ser um fantasma. Todos riram de alívio. Mas eu – que sou pessoa tinhosa – resolvi espremer: eu só não entendo como o fantasma com bracinho de éter, nuvem ou neblina, abre o pote depois que eu fechei(!) e não consegue mais fechar.
Vai ver que a força acaba...

Aí, vocês me param:
- Marcella, essa não era uma crônica natalina?

Eu não enganei ninguém!
Além dos aniversários, com as sobras de bolo e docinhos tão aguardados, quando é que mais circulam os nossos potes? No Natal! Eles levam as rabanadas para o café da manhã de todo mundo; um pouco do arroz doce, da aletria; eles levam pedaços de panetone e salada de frutas. Pote cheio.
Há uma tradição que postula que, na devolução, o pote deve ser entregue com alguma delícia. Nem sempre o meu voltou assim. Nem sempre o pote alheio saiu aqui de casa com novo montante para oferecer a quem me emprestou... Tradições sufocadas pela pressa ou pela hipercorreção. Vai que alguém pense que vou afanar o pote?! O pote da dúvida.
Eu desejo a todos que tenhamos para nossos potes e para dividir. Que nossos potes circulem mais neste Natal sofrido: de desemprego, de cara virada de eleição mal digerida e de tragédia. E que circulem para além da nossa família! Aliás, esqueça o pote se ele não voltar. Talvez ele tenha ido buscar novas mãos de abrir e fechar.
Em todo caso, é bom defumar a casa para espantar os espíritos flácidos que não têm força para apertar as tampas.

Gente, pelo amor..., fecha o pote direito.

Esse pote foi pintado pela minha amiga Vilelma. 
A amizade transborda os potes. 

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Correr e ler sobre corrida!


Às mulheres com que corro toda semana e aos professores que me orientam e impulsionam,
o meu amor e a minha gratidão.
Com vocês, eu vou mais longe!

Prólogo:

Há alguns meses, eu me juntei a um grupo de mulheres[1] que correm juntas em parques, em ciclovias, pela rua e que recebe orientação de professores de educação física especializados em corrida. Foi uma revolução na minha vida.

Eu já tinha visto do que a corrida era capaz. Vi o que ela havia feito na vida de uma de minhas melhores amigas, a minha prima Andréia. Mas a beleza não me bastou, infelizmente a decisão ficou com a tragédia mesmo. Quando descobri que no peito do meu pai, homem gigante e apaixonado pela vida, batia um coração reduzido a 16% de sua capacidade, eu resolvi. O escritor e corredor Haruki Murakami afirmou que “A maioria dos corredores corre não porque queira viver mais, mas porque quer viver a vida ao máximo”. Vou dar-lhe metade da razão. Eu quero um coração forte.

Como é da minha natureza pesquisar sobre tudo aquilo que me dá prazer e buscar nos livros respostas, a corrida me levou à leitura de duas obras (sugestões de minha prima): Correr. O exercício, a cidade e o desafio da maratona do médico Drauzio Varella e Do que eu falo quando eu falo de corrida: um relato pessoal do romancista Haruki Murakami. Reuni apontamentos e publico hoje, no dia seguinte à minha segunda prova. Recomendo a leitura e... a corrida!

·        VARELLA, Drauzio. Correr. O exercício, a cidade e o desafio da maratona. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
·        MURAKAMI, Haruki. Do que eu falo quando eu falo de corrida: um relato pessoal. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.

***

Acho que o Dr. Drauzio Varella é o nosso Oliver Sacks (ambos médicos), pela forma como ciência e escrita se harmonizam para chegar aos não especialistas, sem sacrifício de nenhuma das duas, nem do leitor, aliás.
O que é Correr? Um livro sobre uma decisão: “provar que a decadência não começaria aos cinquenta” (p. 16 e 17). Aos 50, Dr. Drauzio, que não fumava havia 13 anos, decidiu preparar-se para correr a Maratona de Nova York. Dali em diante, são mais de 20 anos de maratonas!
Engana-se quem pensa que, porque o autor é médico, só se encontre na obra a palavra douta (embora haja). O que se lê é a narrativa de um médico narrador, que não tem vergonha de mostrar que o corredor comete erros. Mas esses erros não acendem as vinganças do sedentário, porque a narrativa dos ganhos, do prazer e das vitórias do corpo em movimento[2] é emocionante!
Sobre a experiência do médico, o livro está cheio de dicas excelentes para o corredor observar seu próprio corpo antes e depois das maratonas. O livro também segreda o investimento do autor em compreender essa prática. Realiza uma contextualização recente do fenômeno das corridas e, mais recuada, até a Grécia. Nesse momento, eu me senti muito comparsa do Dr. Drauzio, porque cheguei a seu livro também para compreender uma decisão.
O capítulo “Chigaco, 2009” me emocionou particularmente, afinal trata-se da maratona realizada entre o pai e a filha:
“Na história da humanidade, a quantos pais de 66 anos foi concedido o privilégio de correr 42 quilômetros com a filha 32 anos mais nova?” (p. 84). É, Dr. Dráuzio, eu estou na luta como mãe, mas foi como filha que eu me emocionei. O pai olha a paisagem, mas a filha cansa. Nesse momento, o pai se veste inteiro de guerreiro: “você vai conseguir”. Alguém tem de pesquisar o milagre dessa frase!
“Fomos assim, diminuindo gradativamente a velocidade, até a reta final, quando emparelhamos com uma senhora de cabelos brancos e rosto vincado que aparentava mais de oitenta anos, correndo em passos miúdos porém decididos. Nessa hora, sugeri que fôssemos mais depressa para não aparecer na foto da linha de chegada ao lado de uma corredora de tanta idade. Mais tarde ficaria difícil aguentar a gozação dos amigos sedentários” (p. 85).
Ri muito.
“Nos últimos metros, Letícia segurou minha mão esquerda. Cruzamos a linha de mãos dadas, erguidas para o alto. Completamos a prova em cinco horas exatas; eu nunca havia corrido tantas horas consecutivas. Demos mais alguns passos e nos abraçamos. Se um pai disser que não chorou numa hora dessas, é desalmado ou mentiroso” (p. 86)
Dr. Drauzio, eu chorei daqui.

Haruki Murakami é um escritor. No final do seu Do que eu falo quando eu falo de corrida: um relato pessoal – todo mundo sabe que eu dou spoiler!!!! – ele propõe um baita epitáfio para si mesmo: “pelo menos ele nunca caminhou” (p. 145). Até agora, eu também não!
Murakami não tem uma relação sempre harmoniosa com a corrida. Sofre nas maratonas. Sente o corpo fraco, quase desfalecer: “Nada no mundo real é tão belo quanto as ilusões de uma pessoa prestes a perder a consciência.” (pág. 61). Bom narrador, a alma do leitor dói junto. Murakami deixou de correr em uma época. Voltou.
No prefácio da obra, “Sofrer é opcional”, encontramos essa declaração: “este é um livro sobre correr, não um tratado sobre como ser uma pessoa saudável” (p. 7), ou seja, mesmo que o livro do Dr. Dráuzio não seja também um tratado, o médico comparece lá. Aqui, obviamente não. O livro de Murakami é uma coleção de “pensamentos sobre o que correr significou para [ele] como pessoa” (p. 7). Ora, trata-se de um romancista, então é a relação com a escrita que comparece o tempo todo: “Paro todo dia bem no momento em que sinto que posso escrever mais. Feito isso, o dia de trabalho seguinte transcorre surpreendentemente” (pág. 12). Os amigos sabem que eu faço a mesma coisa...
Mesmo que Murakami afirme: “ocasionalmente, muito difícil, sério, tenho uma ideia para usar em um romance. Mas na verdade quando corro não penso em quase nada que seja digno de mencionar” (pág. 21), as relações são por demais indisfarçáveis. Com 33 anos, o autor tornou-se um corredor e um romancista! Começou a correr em 1982, e, em agosto de 2007, marco do encerramento da obra, já contava 23 anos de corrida.
A trajetória de Murakami como ficcionista me interessou muito. Eu ainda sou uma escritora que “rouba” tempo para escrever. Murakami teve um bar, viveu do negócio. Um dia, resolveu escrever. Conheceu reconhecimento por essa obra nascida na clandestinidade do tempo surrupiado. Mas não bastou... Comunicou à mulher que queria mais. A família julgou-o louco. Deu-se uma chance e acertou em cheio. Mas ele não faz a apologia generalizada da sua audácia. Cada atrevimento é do tamanho que a gente se permite e a consequência, única e imprevista, desde origem...    
A primeira corrida de rua de Murakami foi em 1983. Como eu, completou no début 5 km. A primeira maratona foi percorrida em 2005. Eu marquei a minha para daqui a 6 anos. Nos meus 50. Se eu conseguir, estarei adiantada em relação ao Dr. Drauzio e a ele!
Tomei nota das qualidades para um romancista: talento, concentração e perseverança (p. 68 e 69). As duas últimas se parecem com treinamento muscular, segundo Murakami (p. 70). Isso me lembra uma coisa que sempre falo a meus alunos, que escrever bem é como fazer abdominais:
“Escrever romances, para mim, é basicamente um tipo de trabalho braçal. Escrever, em si mesmo, é um trabalho mental, mas terminar um livro está mais próximo do trabalho braçal” (p. 70).
Murakami me deu uma esperança danada, afinal “A maior parte do que sei sobre escrever, aprendi correndo todos os dias” (p. 72). Ora, estou em busca de tantas coisas que passam por esse coração forte a que aspiro: narrativas, personagens, parágrafos inteiros teimosos de terminar, saúde e prazer.
Do que eu falo quando eu falo de corrida: um relato pessoal demorou 10 anos para ficar pronto. Maratona verbal. A obra é dedicada a todos os corredores que ele encontrou, “sem todos vocês, eu nunca teria continuado a correr” (p. 150).

***

Epílogo:
Há um poder imenso quando a gente corre. Há um poder imenso quando a gente corre com alguém que nos esforça, que acredita na nossa capacidade, que não tem medo do abraço e que não se importa com o suor. É lindo o concerto da nossa respiração ofegante. Mas paradoxalmente, correr é meditar. Ao meu lado, vão iogues, sufis!, eu sou dervixe também. Eu vou mais longe em variadas distâncias. Fora, já corri 8 km; dentro, perdi a conta...




[1] Trata-se do grupo The running moms: https://pt-br.facebook.com/pages/category/Coach/The-Running-Moms-1427712367475449/
[2] Remeto o meu leitor à resenha que publiquei no blog da autobiografia de Oliver Sacks, intitulada Sempre em movimento. Role a barra!


Em 25/11/2018, depois de minha 2a prova. Já em casa, cheirosa e feliz!

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

O gosto da manga


Eu nunca gostei de manga. Antes que alguém levante a voz, sim, eu provei e não gostei. Esse fato era tão inaceitável para uma amiga minha que ela dizia que era minha falha de caráter. Mas, ainda que eu não gostasse da fruta, havia qualquer coisa que me fazia olhar para ela nos mercados. Variados tipos, tamanhos, cores; opulenta, tímida, absoluta em meio às outras... Enfim, mesmo não apreciando o gosto e os fiapos, ela não me era indiferente no campo da visão. Eu como com os olhos.
Depois da perda de papai, em março, quando voltei para casa, duas amigas - Marta Morais da Costa e Priscila Grahl – fizeram absoluta questão de tomar café comigo para conversar sobre tudo. Veja, recebi muito amor da minha família, suporte essencial dos meus primos Andréia e Marcelo no Rio, ajuda de minha mãe; no retorno, o apoio técnico da prima Tatiana, no inventário, o afeto de amigas e amigos em situações as mais variadas; recebi mensagens de colegas queridas e queridos, de alunas e alunos, e até de pessoas de quem estou muito longe de ser próxima. Mensagens comoventes. Uma surpresa delicada. Então, esse texto não é uma cobrança. É um causo ou uma revelação.
Minha amiga Priscila me perguntou qual seria o melhor momento para conversarmos e eu, atolada do trabalho indiferente ao meu luto, cansada, propus um café da manhã à insistência dela. A filha na escola... Teríamos mais tempo para conversar. Mas e o filhinho dela?! Ela me disse que não me preocupasse. Marcamos.
Quando cheguei à sua casa, fui recebia com um abração. Minha amiga é uma mulher alta, então eu (nanica) fui aninhada em seus longos braços e fiquei ali. Não falamos nada. Depois, ela me guiou pela porta adentro. Logo que pisei na sala, percebi a mesa. Era um café da manhã para umas seis pessoas, mas só estávamos nós! - Cadê o Luquinhas? - Está na minha mãe. Ela havia se livrado do filho para me dar atenção total. Agradeci e sentei. Ela, não. Foi buscar café, água quente, suco, leite... Acho que teria até champagne para me contentar. Sentou.- Quero café.
Falei. Ela fez um comentário aqui e ali, mas não queria falar. Eu não sei se meus quatro leitores avaliam bem o quanto a oferta de tempo e de escuta são evidências de um amor incondicional no mundo em que vivemos. Contei as agruras, as histórias surpreendentes que entremearam a minha perda, como a da encomenda de D. Josefina, sobre a qual já escrevi[1], o espargimento das cinzas pela serra – eu, minha mãe, meus primos, meus padrinhos, a natureza, para a qual reconduzi meu pai... Ela atenta. – Um pedaço de bolo?
Bolo feito por ela, de maçã. Comi dois pedaços. Foi quando vi a manga. Não era a manga inteira. Ela estava cortadinha em pedaços, disposta em um prato claro de porcelana, bem no meio da mesa. Eu nunca tinha informado à Priscila a minha falta de apreço pela fruta. A manga resplandecia de amarelo. – Vou pegar um pedaço. Minha amiga, naturalmente, passou uma água no prato para tirar as migalhas e me devolveu. Peguei um pedaço e esqueci completamente do que eu estava falando. – Posso pegar mais?Claro!
Eu acho que depois falamos de nós. Ela me contou o que tem feito, seus estudos, seus planos, falou do Lucas, resplandeceu! Reparei no mapa com muitos pontos marcados, de suas viagens. Que ideia bacana! Falou de férias, de praia, de pilates. Eu, um pouco mais também.
Acho que deixei uns três pedacinhos de manga no prato de porcelana, para não parecer morta de fome. Afinal depois de café, chá, pão, dois pedaços de bolo e uns cinco da manga, resolvi pensar que um dia haveria de almoçar. Contei para ela timidamente que não gostava muito de manga, menti..., mas que aquela estava divina, falei a verdade.
Caí nos braços dela outra vez, na despedida. Passei uma mensagem ao Luiz – Eu gosto de manga. Imaginei a cara dele no trabalho e fui rindo até a minha casa. Naquele mesmo dia, comprei uma singela manga, depositei-a no cesto de frutas, confortavelmente. Afastei as bananas fofoqueiras, as maças vermelhudas, as perinhas meigas... Ela ficou lá, uma noiva à espera do dia seguinte.
As mangas chegam faceiras à minha casa agora que são bem-vindas. Mergulhei em seus tipos: espada, carlotinha (minha boca sempre fica franzida quando falo com voz infantil manga carlotinha, a filha ri), tommy, rosa... Descobri que não gosto das fibrosas. A manga que Priscila me serviu não tinha fiapos, era lisinha, tinha uma consistência de gelatina mais substanciosa, escorregadia e brincalhona. Descobri ainda – na minha constante inclinação por compreender mais profundamente tudo aquilo de que eu gosto de verdade – que a manga é cheia de elementos que promovem a saúde na gente! Ela faz bem ao coração, é antioxidante, fortalece o sistema imunológico[2]... e é uma delícia!
Já escrevi um conto em que o protagonista devora uma maga e se lambuza. Ainda não estou preparada. Eu a descasco com carinho e a corto em pedaços parecidos com os que Priscila me serviu. É assim, em um pratinho de vidro ou de porcelana clara que eu como. Imito o cuidado da minha amiga comigo.
Eu acho que aquela minha outra amiga, que dizia que minha falha de caráter era não gostar de manga, tinha razão. Mas eu precisava aprender, abandonar uma impressão e seguir adiante, e não há maneira mais eficaz para ser bem sucedido nisso que ter um bom professor e, sim, alguma disposição para o que ele quer ensinar... Ela preparou a manga, mas eu precisava ter coragem.
Assim como eu imito o jeito de preparar a manga que aprendi com Priscila, eu penso nela, no seu carinho e na nossa conversa, não em seus temas exatamente, mas na escuta, nas trocas; na compreensão e no tempo que ela me ofereceu, maior que o tempo em que fiquei lá. Imagino-a indo dormir tarde para fazer o bolo, indo à feira antes com o filho pequeno, para comprar frutas... Nosso café foi imensurável.
Quando a gente perde alguém, é preciso equilibrar experiência e memória; a gente não vai ter novidades para guardar, vai ter lembranças e as sensações que elas provocam ao serem revocadas. Eu tenho um gosto novo para recomeçar.

Uma fruta absoluta!