segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Sobre o leitor libertado, divagações sobre o volume A prisioneira, 5º de Em busca do tempo perdido de Marcel Proust

O clube do livro começou a leitura de A Fugitiva, 6º volume de Em busca do tempo perdido de Marcel Proust. No final deste mês temos debate! Depois do 5º volume, resolvemos fazer um intervalo de valorização da compreensão da catedral proustiana, que também revelou alguns impasses e desconfortos da leitura de A prisioneira. Esse 5º volume não foi fácil. Nenhum de nós (do clube)curte relações abusivas, sequer no domínio do texto, e o volume encena esse tipo de vínculo com os mesmos requintes textuais que nos encantaram desde 2015..., o que piorou as coisas. Antes de prosseguir, preciso apontar que a sensação de desconforto proveniente da leitura do 5º volume não foi uma “fraqueza” de nossos espíritos sensíveis. Muita gente não gosta desse volume em participar. Anne Carson escreveu um breve livro, The Albertine Workout, sobre seu desconforto e esse opúsculo recebeu uma resenha muito atenta de Adalberto Costa, em que ele revela os engodos que vitimaram a própria Carson[1]. Vale muito a leitura dos dois textos.
O 6º volume, A Fugitiva, começou para mim com a sensação de que a libertação foi do leitor, ao mesmo tempo em que reconheci meu “velho” Proust, mais maduro nas relações, ou seja, mais definitivamente lançado à evidência do fracasso do protagonista. Mas será que de fato se pode pular o 5º volume[2]? Nada presta em A Prisioneira?
Para esse exercício de validação, voltei meus olhos aos grifos e comentários às margens da minha elegante (e algo decadente, do ponto de vista físico) edição de 1954, cuja imagem vai logo abaixo.
O narrador evoca o tempo em que coabitou com Albertine e a narrativa encena a complexificação disso, na apresentação de uma Albertine em camadas: de Balbec (em franca liberdade) a Paris (cativa do protagonista). O cativeiro dessa personagem é um aspecto muito curioso no volume, na medida em que Albertine vai aonde quer, enquanto o protagonista-algoz-guardião da cela, trancado em seu próprio quarto, está sempre a ponto de rebentar ante as suspeitas dos passeios da personagem feminina. Bizarre.
Superada (quase nunca...) a má vontade ou a revolta franca contra as relações abusivas que imperam no 5º volume, a questão do tempo merece toda a atenção do leitor. Esse é um volume visitado por fantasmas. A memória da avó volta em várias páginas. A mãe viva comparece como ectoplasma, entretanto, nas cartas, cheias de citações de Madame de Sevigné (p. 117)... É um volume carregado de lutos difíceis para os leitores da catedral: Bergote e Swann morrem! Como assim??? “A morte de Swann impressionara-me na ocasião profundamente. A morte de Swann! Swann não tem nesta frase o simples papel de um genitivo” (p. 168).
Meu segmento favorito do volume foi a apresentação de Morel em casa da Sra. Verdurin. Essa festa acaba mal..., mas seu “durante” é espetacular. Por quê? Porque a narrativa mergulha em uma simbiose estranha de música e palavra que fascina. Há a relação física, o amplexo do músico com seu instrumento musical; há o exercício materializado na mecha que cai no rosto de Morel, enquanto executa as notas..., coisas mal contadas por mim. A festa gira em torno da apresentação do Septeto de Vinteuil, personagem que conhecemos pelo talento musical e pelas preferências amorosas e eróticas da filha. Para não contar mal outra vez, transcrevo o texto, mas não resisto à tentação de entabular um diálogo entre colchetes:
“Mas no momento em que eu a imaginava assim a esperar-me em casa [o narrador imagina Albertine, à sua espera].... fui afagado de passagem por uma cariciosa frase familiar e doméstica do septeto [agora, a frase musical vai transportar o narrador a lugares imaginados]. É possível, de tal modo tudo se entrelaça e se superpõe em nossa vida interior – que ela tivesse sido inspirada pelo sono de sua filha – da filha, causa hoje de todas as minhas inquietações – quando esse sono envolvia em doçura, nos tranquilos serões, o trabalho do músico [aqui, eu me encontro também, na frase musical muda e na cena tão cotidiana, de alguém que escreve, estuda, trabalha..., velada pelo sono tranquilo de uma filha que repousa logo ao lado. Esse trecho me emociona], essa frase que me acalmou tanto, pelo mesmo macio fundo de silêncio que enche de paz certas rêveries de Schumann, durante as quais, mesmo quando ‘o Poeta fala’, adivinhamos que a ‘criança dorme’” (p. 214)
“A alegria de certas sonoridades” (p. 215)... A palavra persegue o som, tenta traduções impossíveis. Eu não escuto o Septeto, mas compreendo a língua dos sinais que Proust me apresenta.
Há certas ironias nesse volume como quando o narrador recebe uma carta da mãe, “esta carta de minha mãe fez-me cair na realidade” (p. 311), e não posso deixar de sorrir do fato de a realidade ser apresentada por meio da ficção do texto! Mas a ironia mais fina do volume para mim é a autorreferência ao 2º volume da Busca, refiro-me ao “lado Dostoievski de Madame de Sevigné” (citado em À sombra das raparigas em flor, p. 205) sobre o qual já escrevi[3]. Como o narrador retoma o tema? “Confesso que o que eu disse naquela ocasião era uma sandice” (p. 324). Mas ele continua a brincadeira, contradizendo a “sandice” afirmada, com diálogo entre colchetes:
 “Acontece que a Sra. de Sévigné, como Elstir, como Dostoievski [vejam a mistura entre fictícios e reais!], em vez de apresentar as coisas na ordem lógica, isto é, começando pela causa, nos mostra primeiro o efeito, a ilusão que nos impressiona. [depois de falar da “obsessão” de Dostoievski por assassinatos, o narrador prossegue na ironia] Eu não sou romancista; é possível que os criadores sejam tentados por certas formas de vida que não experimentaram pessoalmente.” (p. 325)
É espetacular! Ironia em camadas também: ridiculariza a associação que construíra, mas prova logo em seguida que ela é pertinente e se identifica como um não romancista, enquanto o romance se escreve. Onde essa análise tão sofisticada é realizada? No quarto, com Albertine nos joelhos do narrador.
Sobre as interdisciplinaridades, o historiador que lê a Busca encontra motivos sobejos de animação. Além do caso Dreyfus que atravessa a obra nas considerações do narrador e dos mais diversos personagens, é possível ver em detalhes as mudanças da sociedade parisiense na época, e mesmo o avião vemos sobrevoar a cidade luz, pelo olhar admirado do casal Marcel e Albertine, justamente no 5º volume! Esse volume também vai agradar aos amantes da boa gastronomia, leitores de À mesa com Proust (como eu[4]), pela sinestesia que propõe: “O que eu gosto nesses alimentos apregoados, é que uma coisa ouvida como uma rapsódia muda de natureza às refeições e se dirige ao paladar” (p. 107). Mas atenção, são superficialidades de enredo, menos no caso da sinestesia.
Para terminar, tem mais abuso nesse volume..., o que são as relações entre Morel, a sobrinha de Jupien e o Barão de Charlus?!? A verdade é que não sou imediatista e com esse texto confirmo mais uma vez que, se o leitor tem o direito de abandonar o livro que está a ler (tem sim!!!)a qualquer momento que desejar, uma história da leitura também deve incluir perseverança. Eu já espalhei aos quatro ventos minhas obtusas preferências de ler os finais dos livros. A ansiedade pelo fim não constitui a minha biografia (eu tenho outras...). Saber tranquiliza e garante uma entrega maior ao texto. Opinião pessoal. Eu sabia que depois d’A Prisioneira viria um’A Fugitiva e isso me animou, deu-me esperança.

A minha elegante edição de 1954!



[1] http://rascunho.com.br/tese-banal/ (acesso em 14 de outubro de 2017)
[2] Sugestão que aparece apontada no livro de Anne Carson.
[4] Procure aqui no blog minhas considerações sobre esse livro de fazer a gente comer com os olhos. 

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Pequeno tutorial para os congressistas de primeira viagem (entenda-se por congressista no caso aquele que participa de congressos acadêmicos)

Na semana passada, participei do VII Ciclo Internacional de Estudos Antigos e Medievais (CEAN) do Núcleo de Estudos Antigos e Medievais da UNESP – Assis/Franca – Brasil, que aconteceu este ano em Franca. O título do evento foi “História e Arqueologia nos laços culturais entre a Antiguidade e a Idade Média” e o subtítulo foi “Homenagem aos nossos ex-alunos e demais amigos”. O evento começou na 2ª, dia 18/9, e terminou na 6ª, dia 22/9. Eu cheguei a Franca dia 19, mas só tive condições físicas de participar dos trabalhos a partir da 4ª, dia 20, dia mesmo em que falei.
Queria apontar 2 aspectos essenciais na experiência de que vivi de 4ª a 6ª feira: a reunião de antiquistas e medievalistas e o subtítulo do evento. Em relação ao primeiro, o ciclo me permitiu aprender à beça. Eu adoro aprender e os temas foram os mais variados: desde festas e festivais, até vidas de santos ou hagiografias, modelos imperiais e anti-modelos, cultura material (o que foi aquela coluna romana no castelo cruzado???! Spolia[1]!); experimentei ampliar o que eu mesma julgava saber sobre o vinho[2]; sobre as continuidades e descontinuidades semânticas de vocábulos medievais; animou a necessidade que devemos nos impor de voltar às fontes e interromper a cadeia de citação sistemática dos erros de intérpretes de prestígio; ampliei minhas referências; refleti sobre respostas dadas pelas sociedades do passado a problemas que parecem próximos aos que vivemos... Minhas anotações foram mais robustas para a aquilo que preciso estudar mais ou que ignoro. Tive de pedir um bloquinho novo...
Em reação ao subtítulo, foi com forte emoção que me vi entre os “demais amigos” e disse, antes de proferir a minha palestra na 4ª feira que estava feliz não por receber homenagens, mas por estar bem acompanhada e foi assim que estive sempre em Franca! Revi pessoas que respeito muito, por quem tenho grande afeto, amizade, algumas que eu conhecia há um certo tempo, mas exclusivamente no ambiente virtual (tendo mesmo participado de suas bancas por skype!!!). Vi o carinho com que os ex-alunos, ex-alunas, alunos e alunas da Profa. Margarida Maria de Carvalho que me convidou para o evento a tratam. São algumas dessas pessoas professoras doutoras de instituições de prestígio, pesquisadoras jovens de muita expressão! Eu reparei e fiquei comovida com seu desvelo [Digressão rapidinha: quando eu estava no Mestrado, esperava na porta da Faculdade de Letras até ver D. Cléo chegar, dirigindo o seu automóvel Santana e lá ia eu, apostando corrida com meu amigo José Elias Néder Jr[3], até o estacionamento para pegar a mala, Os Lusíadas, as folhas, ou o que quer que ela quisesse me entregar. Às vezes, ele pegava mais livros, era muito sedutor!, e eu lhe tinha ódio mortal! Fizemos essas coisas para o querido Ronaldo Lima Lins. Também carreguei com gosto bolsas de Teresa Cristina e, em Franca, tive meu revival, quase empurrando os ex-alunos, para ter o privilégio de carregar a pasta preta da colega Margarida Maria de Carvalho rsrsrsrs. Para quem nunca admirou de verdade os seus mestres e percebeu que eram só humanos envergando com o peso desgraçado de suas pastas e mochilas, essa digressão, já meio (muito) longa ressoa à pura puxação de saco... Desolée! Sqn...]
Eu vi muito jovens pesquisadores, alunos de graduação, mestrado e doutorado; havia mesmo os nossos jovens, da UFPR! Fotografei todo mundo, esses jovens e os colegas de Antiga e Medieval em suas mesas. Coloquei-os todos em minha TL do FB, pois se escolhi permanecer nessa rede social, a despeito de minhas vontades semanais de abandoná-la, é para fazer a difusão em grande medida do que me afeta. A pesquisa me anima!
Li comentários diversos dessas fotos, que eu publicava com o título da mesa ou do simpósio. Li de colegas o desejo de ler os textos apresentados e lamento sinceramente que minha área tenha destruído os anais como resultados desses grandes encontros científicos. Eu tenho em meu escritório anais estrangeiros recentes e brasileiros (até o início dos anos 2000) onde ainda colho referências. [Outra digressão rapidinha: eu sou fã de atas de congressos (babo nas minhas atas da Société des Historiens Médiévistes de l’Enseignement Supérieur Public, sociedade de que faço parte na França) e me incomodo muito com as explicações de gente que respeito para aprovar a sua destruição em nosso meio. Eles me dizem: Mas, Marcella, publicava-se tudo sem avaliação... Ora, sempre? Não é verdade. Portanto, é só mais um caso da vitória da prática desprezível sobre uma iniciativa legal. Para que serve um conselho, meu povo? Vou lamentar muito não ler os textos dos colegas que apresentaram pesquisas de muita qualidade no VII CEAN, mas eu compreendo que ninguém vá se esforçar para fazer essas atas, pois também ninguém vai querer publicar nelas e não enobrecer o seu lattes e avaliação quadrienal dos seus Programas de Pós].
Eu não vivo em congressos. Geralmente, escolho um ou dois em um ano, para vivê-lo intensamente. Mas já cheguei a congressos em um dia e voltei no mesmo dia, quando a filha era muito pequena, ainda mamava no peito... Ela ainda é pequena e é custoso para mim enfrentar a separação, mediada pelo avião. Estou convencida, porém, que a gente deve aproveitar essas oportunidades na sua amplitude. A gente aprende muito nessas reuniões, faz contatos importantes!
Porque já fui a muitos eventos e na esperança de ajudar a quem começa a frequentá-los, encerro essa memória de uma experiência recente tão maravilhosa como foi a do VII CEAN cumprindo a proposta do título dessa atualização de Literistórias rsrsrsrsrs.

Pequeno tutorial para os congressistas de primeira viagem
1. Você saiu de casa, conseguiu dinheiro para se deslocar (quer do paitrocínio, da mãetrocínio, do seu Departamento, do Programa de Pós...), para quê? Para ir ao congresso! Não é incrível?!

2. Congressos são experiências amplas! Se nos congressos são previstas pequenas viagens, vá a todas (só se aquela verba do item 1 der, é claro...); se foram incluídas visitas guiadas a acervos e museus, não perca!

3. Congressos são experiências amplas! – parte 2. Se você está em uma cidade totalmente nova até então para você, administre seu tempo para conhecê-la um pouco! Só não se arrisque como bicho solto, nem perca o foco: você foi participar de um congresso.

4. Congressos são experiências amplas! – parte 3. Conheça as pessoas! Aproveite os coffee breaks para conversar com professores e outros alunos. Em princípio, você vai encontrar gente com quem tem muitas afinidades intelectuais! Geralmente os professores que não fogem dos coffee breaks rsrsrsrs gostam de conversar com as pessoas.

5. Não tenha vergonha de fazer perguntas. Eu sei que pode ser uma experiência desagradável, se o palestrante for um ser arrogante. Mas vejo cada vez menos gente que se expõe assim (falo dos palestrantes). Se ficar inibido, tudo bem, aproveite o final da palestra ou o coffee break para conversar.

6. Não tenha vergonha de fazer perguntas. – parte 2. Só não seja o louco da palestra, falando sem objetivo (a não ser o de se exibir) durante o mesmo tempo que o palestrante teve para expor o seu texto e impedindo que outros tenham a sua oportunidade de perguntar também.

7. Faça muitas anotações, não só dos conteúdos das palestras, como dos autores citados pelos palestrantes, seus e-mails, e-mails dos colegas que você fez no congresso e nomes das instituições que se notabilizam nas pesquisas pelas quais você tem interesse.

8. Alimente-se bem, mas seja reservado nas experimentações gastronômicas. Já conheci gente que passou o congresso inteiro trancado no banheiro do hotel e eu mesma já vivi as agruras de uma intoxicação alimentar braba na Espanha (na véspera de minha conferência!). O que disse sobre reserva, vale para outras experimentações.

9. Deixe em casa todas as indicações de sua hospedagem, de onde o congresso vai acontecer, com quem você vai, horários de voos etc. Avise na chegada e faça contato durante o evento. Isso não é dar satisfação de sua recém adquirida liberdade, isso é sério.

10.            Se você vai viajar para um país estrangeiro, faça seguro.

Aproveite o congresso, faça novos amigos e conheça lugares. Isso é viver! No VII CEAN, vivemos em grande estilo!

Escolhi essa foto linda, tirada na 4a, dia 20/9, pois ela ilustra um pouco o que é viver um congresso: estar ao lado dos amigos, alunos e conhecer pesquisadores novos (no caso, a querida Graciela Noemí Gómes de Aso)



[1] De forma muito geral, reutilização de materiais.
[2] Remeto o leitor ao Diálogo sobre a alegria: entre a Filosofia e a História, em que eu e Jelson Oliveira escrevemos sobre “Beber” e, sobretudo, sobre o vinho!
[3] Meu Deus, quantas saudades de você, Zé!

terça-feira, 5 de setembro de 2017

O desafio biográfico na pesquisa sobre a Sé de Lisboa, por Willian Funke

Como o desafio biográfico se apresenta a alguém que estuda uma edificação? Esta foi a pergunta que Willian Funke se fez. Eis a sua resposta! Fechamos com o seu ensaio o ciclo de publicações dos meus convidados, dentre os alunos dos Programas de Pós da UFPR. Obrigada, biógrafos e biografadas!

O desafio biográfico na pesquisa sobre a Sé de Lisboa

Enquanto estudantes da história investigamos vidas humanas, seja através de instituições, relações, culturas, movimentos populacionais ou qualquer outra forma de aproximação. Muitas vezes, porém, não paramos para refletir que os nossos objetos de estudo foram elementos da vida real de indivíduos e que poderiam compor suas biografias. As páginas que seguem são fruto da tentativa de pensar como a biografia pode se conectar ao estudo da Sé de Lisboa, que no mestrado busco investigar sob o aspecto artístico e institucuonal entre 1279 e 1357. As questões apresentadas não tratam exclusivamente desse período, ainda que haja um esforço para colocá-lo no centro da reflexão. Por outro lado, foi inivitável questionar a experiência que eu mesmo tenho em relação ao objeto de estudo, de modo que considerei pertinente iniciar este ensaio com o breve relato a seguir.
Desde dois mil e doze faço pesquisas sobre a Sé de Lisboa, me centrando no período medieval. Nesses anos realizei algumas leituras, fiz alguns estudos e apresentei alguns trabalhos. Em decorrência dessa atividade me inscrevi e fui aprovado para realizar um intercâmbio em Portugal, entre setembro de dois mil e treze e fevereiro de dois mil e quatorze. Poucos dias depois de chegar em Lisboa fui visitar a Sé, sem pretensões acadêmicas, apenas para vê-la, fazer algumas fotografias, experienciar o espaço. Quando cheguei notei uma movimentação diferente, pessoas em roupas de festa, a igreja decorada e eu lá, de camiseta e bermuda. Logo percebi o que estava acontecendo, um casamento. Sentei-me próximo de um senhor muito educado que me informou tratar-se da união de um rapaz irlandês com uma moça venezuelana. O noivo veio em nossa direção e, contrariando minha expectativa, conversou com o senhor e comigo, sem pedir para que me afastasse ou saísse. Nessa breve conversa comentei que estudava aquele edifício e dei algumas informações sobre o templo, como a idade e algumas das reformas realizadas, e desejei – metaforicamente – que a união dele com sua amada fosse tão longeva quanto a Sé. Ele me agradeceu. Perguntei se se importava que eu acompanhasse a cerimônia e ele muito solícito permitiu que eu ficasse. Instantes depois uma onda de cabeças se direcionou para o portal principal da igreja que havia sido aberto, permitindo a entrada da claridade da tarde de fim de verão e das damas que antecederam a noiva. A jovem era muito bonita, como o noivo, e estava radiante. O padre português foi econômico e a cerimônia não demorou muito. Os convidados seguiram em alguns ônibus para o local em que se realizaria a festa e eu voltei para o hotel em que estava hospedado, feliz e surpreso com o que tinha acabado de vivenciar.
Essa experiência, que tem um quê de anedótica, pode muito bem introduzir a questão da biografia no estudo da Sé de Lisboa. Desse treze de setembro em diante a Catedral estará marcada de forma irreversível na história de vida desse jovem casal. Caso meus votos se concretizem, provavelmente eles lembrarão desse dia como um dos mais felizes de suas vidas, voltarão à Catedral lisboeta para relembrar o dia do matrimônio, mostrarão fotos para seus amigos e parentes. Em caso contrário talvez se lembrem da Sé como o lugar em que uma fase não tão boa teve início. Mas independente disso, naquele dia eles estavam felizes, realizados. Acredito que tenham escolhido essa igreja para celebrarem seu amor por algum motivo especial: talvez tenham se conhecido em Portugal, dado o primeiro beijo as margens do Tejo sob a vigilância de Santa Maria Maior, resolvido se casar nas escadas desse templo. Seja da forma que for, a Sé de Lisboa está inscrita na biografia desse irlandês e dessa venezuelana e esse dia se tornou um dos capítulos da minha biografia enquanto pesquisador dessa igreja.
Enquanto construção a Sé é por princípio um espaço edificado para acolher as atividades humanas. O arquiteto Bruno Zevi inclusive identifica aí, no espaço propiciado para as atividades humanas, a especificidade da arquitetura frente a outras expressões artísticas.[1] Quantos outros casais não selaram nessa igreja suas uniões, quantas crianças receberam seus primeiros sacramentos, quantos pecados foram confessados e penitenciados? Assim, o primeiro desafio biográfico que pretendo evidenciar é a importância que a Sé teve na biografia de um sem fim de pessoas, servindo de cenário para atividades cotidianas ou para marcos importantes da vida. Aqui chamo a atenção, sobretudo, para aquelas pessoas das quais não temos registro, mas que de alguma forma tiveram suas vidas marcadas por esse templo.
Júlio de Castilho, literato lisboeta, em obra na qual pretende chamar a atenção para a necessidade de cuidado com o edifício, faz uma consideração bastante pertinente:

Um edifício como êste cheio de carácter artístico, cheio de pensamento político e religioso, e emboido na côr e nas ideias de séculos sucessivos, possue em alto grau a faculdade de arrebatar a nossa alma para cogitações sublimes.
Apega-se ao edifício o génio de muitas gerações seguidas. Aquelas paredes frias embeberam-se, por assim dizer, nas aspirações de muitos milhares de almas, no amor de muitos milhares de corações. Das Abóbadas, aparentemente inertes e infecundas, ressumbra um calor intelectual e moral que nos diz: “aqui passaram teus avós.”[2]

O autor pretende que, através da emoção, os seus leitores apoiem os projetos de conservação da igreja. Evidencia, porém, o vínculo de várias gerações com o templo, que assim, além de símbolo nacional seria também meio de ligação entre os contemporâneos e seus avós, bisavós e sucessivamente. Se é impossível dividir o mesmo tempo com um antepassado que viveu séculos atrás, estar no mesmo espaço que ele pode dar a sensação de haver algo que ligue as duas vidas.
Em relação à possibilidade de acesso às experiências que as pessoas tiveram na Catedral lisboeta, se para períodos mais recentes podemos contar com fotografias, filmagens e relatos orais para nos informar dos acontecimentos que tiveram lugar na igreja mãe de Lisboa, para períodos mais recuados essas fontes são muito mais escassas. É difícil hoje reconstruir o que um indivíduo específico vivenciou no século XIII, aumentando o grau de dificuldade na medida em que esta pessoa se afasta dos círculos de poder representados pela nobreza e pelo alto clero. Algo possível é tentar recuperar a ambiência, como faz Germán Ramalho em livro dedicado ao estilo Românico:

Adentrar um templo románico, no transcurso de uma importante cerimônia religiosa, devia produzir o mais poderoso impacto emocional (e, a seguir, intelectual), pois às enormes dimensões do lugar ir-se-ia acrescentar todo esse mundo de figurações esculpidas e policrômicas, que davam as boas-vindas na entrada e acompanhavam pelo interior, materializadas e presentes em vulto, além das superfícies cheias de brilhantes cores, que, em escala gigantesca, cercavam o visitante por todos os lados. E tudo isso iluminado por centenas de archotes e envolto pelos fumos e perfumes do culto. Isto é o que se depara ao pobre mortal, seja ele um monge que viva numa cela em comum com outros, seja um nobre que tenha seu alojamento numa torre de madeira ou de pedra (mas de limitadas dimensões e no convívio de criados e animais), seja um simples camponês que se abriga das inclemências do tempo numa choça. Porém eles sabiam muito claramente que era o templo de Deus e, acolhendo as palavras do salmo: "Oh, Javé! eu amo a morada da tua casa, o lugar em que se assenta a tua glória...", ainda procuravam enriquecê-lo mais, pois qualquer coisa se obscurecía ante o esplendor divino.[3]

Esse artifício utilizado por Ramalho para apresentar a grandiosidade e imponência dos templos românicos, potencializadas durante as cerimônias, permite uma especulação sobre as ferramentas da escrita a disposição do historiador. Ainda que não haja dados suficientes para escrever uma biografia “completa” de um camponês que tenha vivido nos arredores de Lisboa durante o reinado de D. Dinis, nem nos restem informações a respeito de seu batizado, matrimônio, ou sepultamento, seria válido construir uma narrativa verossímil sobre um João ou uma Maria, fazendo uso informações contextuais, recurso a fontes não narrativas e imaginação, como Saramago, através de Raimundo Silva, fez com Mogueime?[4] Seria aceitável inventar uma biografia possível para tentar compreender a vida média de um determinado estrato social medieval? A meu ver as duas perguntas podem ser respondidas afirmativamente, carecendo no entanto de uma justificação, a qual seja capaz de convencer os pares da pertinência do exercício.
Esse exercício se aproxima dos relatos de vida citados por Dosse como um movimento biográfico que busca a vida de pessoas menos presentes na historiografia tradicional. Poderia ainda ser classificado como o que ele chama de biografia modal, ou seja, quando uma biografia serve de pretexto para tratar de assuntos mais gerais, como um período ou um grupo. A biografia modal, no entanto, geralmente tem por personagem principal um rei, ministro, ou alguém cuja vida seja mais facilmente conectada com os desenvolvimentos amplos, qual uma alteração macroeconômica ou política. Em relação a esses grupos da sociedade, no nosso caso identificados como nobres, membros do alto clero, ou ricos comerciantes, surge um outro desafio: como apreender os entrecruzamentos de suas biografias com a Sé de Lisboa?
Alguns personagens acabam tendo sua trajetória marcada em maior ou menor grau pela Sé de Lisboa. Em relação aos bispos desta diocese, sua história de vida referente ao período do episcopado se confunde com a própria história da instituição, como fica evidenciado pelo nome da obra que pretende tratar da história da igreja na cidade, a Historia Ecclesiastica da Igreja de Lisboa: Vida e acçoens de seus prelados e varões eminentes em santidade, que nella florecerão, escrita por D. Rodrigo da Cunha no século XVII. É marcante o exemplo do primeiro bispo da cidade após a conquista cristã de 1147, do qual anteriormente a sua consagração sabe-se apenas o nome e que viera para Lisboa junto com as tropas cruzadas que auxiliaram no cerco. A narrativa de D. Rodrigo da Cunha se concentra em suas qualidades e boas ações enquanto bispo.
Mas como lidar com os personagens que não tinham na igreja o seu principal local de atuação? Os dois reis do período estudado no mestrado, Dinis e Afonso IV, promoveram obras no templo. Afonso IV foi até sepultado na capela principal que mandara refazer. Da mesma forma, diversos membros da alta nobreza portuguesa também fizeram da catedral sua última morada. Há, entretanto, outros sepultamentos aí realizados, de integrantes de uma elite comercial que se estabelecia e fortalecia no período, entre os quais se destaca Bartolomeu Joanes, que mandou edificar uma capela anexa à nave norte do templo, com a invocação de São Bartolomeu. Percebe-se que a Sé de Lisboa despertava o interesse desses atores, a ponto de buscarem vincular sua memória a esse lugar. Tanto Afonso IV, quanto os nobres e comerciantes, tiveram sua biografia relacionada com a Sé num dos pontos mais importantes da vida, a morte. A partir disso é possível questionar que papel a igreja teve nas suas vidas, e qual era a expectativa que o sepultamento nesse templo gerava para a família e para o falecido. O risco que vejo nessa situação é o de exagerar a importância do templo na vida e nas estratégias desses diferentes grupos. Trabalhar com essa dificuldade exige atenção e a colocação das relações entre os sujeitos e a Sé em conjuntos mais largos, que permitam estimar o papel específico da Catedral em uma rede complexa de interesses, relacionamentos, crenças.
É possível, por fim, identificar os desafios que a biografia impõe ao estudo da Sé de Lisboa entre os séculos XIII e XIV nos dois lados do trabalho historiográfico. Num deles, somos desafiados a buscar dados, informações, indícios, que esclareçam como se deu, ou poderia ter se dado, a relação entre diferentes indivíduos e a igreja. Nesse caso, é preciso ter em mente que estamos falando de, pelo menos, dois grupos diferentes de pessoas: aquelas sobre as quais temos registros mais consistentes, como os bispos, reis, nobres e ricos comerciantes, e as que nem sequer conhecemos ou sabemos o nome. Do outro lado, somos convidados a refletir sobre como integrar as experiências biográficas à narrativa construída a partir das pesquisas. São várias possibilidades, que passam pela escrita da biografia de algum dos personagens, ou inscrição de relatos biográficos ao longo do texto, pela eliminação desses elementos da versão final do trabalho, até a construção de narrativas possíveis de acordo com o conjunto documental analisado.
Considero que, independente das escolhas realizadas, o importante é ter em mente a ideia trazida por Marc Bloch de que devemos, enquanto historiadores, ser como o ogro que fareja a carne humana. É preciso ter a sensibilidade de entender que por mais que falemos de edificações, instituições, relações, nossa tarefa gira em torno das pessoas. No caso específico da Sé de Lisboa, entendo que ela foi ponto de convergência de expectativas de diferentes grupos sociais, esteve incluída em projetos de afirmação, de memória, de poder, e serviu como símbolo de ideias e ideais, mas, principalmente e englobando tudo isso, serviu de cenário, de palco para as ações humanas. Foi por meio dessas ações que a Catedral se inseriu na história de tantas almas que as pedras que a compõe não poderiam contar e assim a biografia e a história dialogam e se enriquecem, sendo uma suporte e desafio para a outra. Afinal, se importam os desenvolvimentos políticos, econômicos, sociais não individualizados, também são relevantes as emoções, os sentimentos, como o amor do casal celebrado no dia 13 de setembro de 2013 e a alegria que eu senti em presenciar esse momento tão bonito.

Willian Funke e a sua dama, também conhecida como Sé de Lisboa.




[1] ZEVI, Bruno. Saber ver a arquitetura. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
[2] CASTILHO, Júlio de. Lisboa Antiga: Bairros Orientais. 2ª Edição revista e ampliada pelo autor e com anotações do Eng. Augusto Vieira da Silva. Volume V e VI. Lisboa: S. Industriais da C.M.L., 1936. p. 89.
[3] RAMALLO, German. Saber ver a arte românica. São Paulo: Martins Fontes, 1992. p. 71-72.
[4] SARAMAGO, José. História do cerco de Lisboa. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Te conto o que (não só) me contaram: ensaio biográfico sobre Glória Kirinus, por Denise Miotto Mazocco

Fechando o ciclo de publicações dos ensaios biográficos da disciplina "Narrativas biográficas e autobiográficas", Literistórias publica HOJE o texto de uma visitante ilustre, a doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Letras e contista Denise Miotto Mazocco. AMANHÃ, também tem ensaio de aluno da turma, mas não é propriamente um ensaio biográfico... É aguardar!


De modo contrário às biografias cujos autores são fãs e/ou já têm um longo interesse acadêmico ou pessoal pelo biografado e seu trabalho, nesta – que agora escrevo – posso dizer que eu, a autora, conheci antes a biografada do que sua obra, à qual recorri durante o processo de escrita. Isso de forma nenhuma, penso eu, prejudica a escrita deste ensaio biográfico, dado que, em se tratando de uma escritora, o contato imediato com seus personagens pode nos revelar trevos de sua trajetória. Tampouco, o reduzido conhecimento prévio do trabalho da biografada invalida meu curioso olhar sobre ela e minha disposição para a escrita (Permito ao leitor, neste momento, interpretar nas entrelinhas e nos entre parêntesis um traço de mea culpa e de inconformidade – dado o tempo perdido –, por ter lido apenas um livro – logo direi qual – até a data em que a conheci).
     Pois bem, conheci pessoalmente Glória Kirinus em uma aula (no dia 31/05/2017), justamente sobre biografias, em que ela, a convite da Profª Marcella Lopes Guimarães, apresentou aos alunos sua trajetória. Antes, porém, a sabia por referência – Professora de Letras da PUC-PR, lançamento do novo livro de Glória Kirinus, oficina de criação literária com Glória Kirinus –, mas, curiosamente já que desta característica me cabe o extremo oposto, parecia que eu chegava sempre atrasada – aluna depois que ela havia saído da instituição, compromisso no dia do lançamento, perda de prazo de inscrição. Na aula em questão, dessa vez, eu estava lá com meia hora de crédito.
     Glória (Prefiro me referir a ela dessa forma, pois, uma vez linguista, gosto mais da ambiguidade que sustenta o nome, do que da especulação de uma etimologia genealógica para chegar ao sobrenome!) sentou-se e começou a preparar seu power point, como chamou. Sua fisionomia me lembrou um pouco Joan Baez – talvez pelo corte de cabelo quase grisalho, pela estatura, pelo blazer –, com a diferença, é claro, entre a voz doce e suave da escritora e a voz afinadamente impositiva de uma de minhas cantoras favoritas. Desconheço se Glória Kirinus ouve Joan Baez e/ou se Joan Baez lê Glória Kirinus. Optei por não me aprofundar na questão, já que pode se tratar mais de uma saída descritiva minha para a fisionomia da biografada (passível de discordância) do que de uma questão de gosto. Enfim, para apresentar-se, Glória tirou da bolsa uma llama, um caleidoscópio, um galo e uma porção de mar acolhido em uma concha.
     Os objetos dispostos sobre a mesa logo flutuaram minha memória por uma infância expectadora de histórias cujos personagens eram instrumentos, objetos, manipulados pelos contadores. Daí minha primeira impressão: é contadora de histórias! Ela, porém, não personificou aqueles objetos, os tornou, pois, símbolos de partes de sua trajetória – palavra que, segundo Glória, a está perseguindo há tempo. A infância no Peru, a curiosidade pelas fronteiras, a possibilidade do erro, o olhar para o infinito, repectivamente, a simbologia de Glória.
     Mas para além disso a escritora nos deixa também seus mapas em pequenas autobiografias nas orelhas, nos finais e nas contracapas de seus livros.  Foi assim que, juntando as pistas, calcei a llama de Glória. Em seu primeiro livro, O sapato falador, ela conta que, em Huancayo, Peru, onde nasceu, seu primeiro sapato de lã "abrigou cantigas de ninar". Outros sapatos também marcaram sua vida: com sapatos equilibristas e cirandeiras, ela desaprendeu lições de mundo, e com sapatos ciganos passou pelo Canadá, quando aprimorou o "franglês", e chegou ao Brasil, onde, além de pisar, caminhou, e ganhou novos sapatos de lã – três filhos.[1] Em Lima, fez Turismo, talvez para aprender o próprio país, aqui fez Letras (na UFPR), para descobrir a língua portuguesa. Foi neste momento, década de 80, que escreveu O sapato falador, provocado por uma grande enchente que deixou várias pessoas desabrigadas, o que motivou um grande movimento para arrecadar doações. Os sapatos, protagonistas da história, foram doados para um menino que estava em um abrigo. Aproveitando a oportunidade única de falar com sapatos – até então só sabia das botas falantes, do Machado de Assis –, conversei com eles. Tanto o Esquerdo, quanto o Direito, que, embora diferentes, às vezes concordam em determinados pontos, destacaram a importância da Glória, bem como relembraram como foi participar da ocasião da enchente. "Foi por causa da Glória que nós viajamos de helicóptero pela primeira vez. Eu tava achando tudo muito legal. O Direito, pra variar, tava sério.", começou o Esquerdo, o mais falador. O Direito logo se defendeu da provocação do amigo: "Estava apreensivo, na verdade. Nós tínhamos que entregar o bilhete ao menino e calçá-lo. Era uma grande responsabilidade. O Esquerdo achava que também poderia fazer bagunça." "Ah, mas confesse, conseguimos nos divertir com o menino. Com contos, charadas, histórias... Quando ele vinha com aquelas questões, você emendava uma história", disse o Esquerdo dirigindo-se ao Direito. Este logo completou: "Sim, sim... No fim deu tudo certo. Mais do que esperávamos. Calçamos até outras crianças." "Tudo graças à Glória", os dois falaram juntos. Ambos sempre retomam o falatório, quando o livro ganha novas edições.
     Glória sustenta um olhar curioso sobre as línguas e sobre as fronteiras. Quando menina, no Peru, ouvia a narração de futebol no rádio, atrás de novas experiências linguísticas. Já no Brasil, encantou-se com as expressões "fazer arte", "cor de burro quando foge", "dor de cotovelo", embora quando aqui pisou pela primeira vez tenha sido recebida com o desagradável "Ame-o ou deixe-o". Nos seus textos, porém, não se serviu de formas prontas, como poeta reinventou combinações de palavras, de sons e de sentidos – tudo que a língua permite. E nas combinações linguísticas e geográficas, ela se caracteriza "palavreira de nascimento", peruana do Brasil e brasileira do Peru.[2]
     Para as fronteiras, ela tem um caleidoscópio para espiar o outro lado. Basta um movimento que o outro ganha novas cores e novas geometrias. Em Te conto o que me contaram– livro que ela elencou como um dos preferidos, dada a homenagem que faz aos contadores de história –, Glória conta que, em Lima, na ponta dos pés tentava espiar o outro para além das montanhas. Nesse desejo permanente de se sobrepor à geografia, ela constrói histórias, as quais, segundo a escritora, "ignoram montanhas e conversam livres entre si, nutrindo fantasias."[3]
     As histórias de Glória acordam bilíngues. Assim ela ressignifica a expressão fazer arte, no Brasil. Após assistir a um seminário do Ferreira Gullar, contou-lhe sua aflição por sentir-se sem identidade linguística, já que sua língua materna era o espanhol; ao que o poeta sugeriu o aproveitamento da força do espanhol em favor da escrita em português. A escritora seguiu a deixa do hibridismo e avistou a necessidade de traduzir, traduzindo a si mesma, fazendo, assim, arte, ou seja "traduzir uma parte na outra parte". Ao escrever também em espanhol, ela manifesta a harmonia da América bilíngue, dinâmica. O que a poesia de todos os povos faz há muito tempo é a possibilidade "do encontro das mares, da conversa entre as montanhas e de colóquio de nuvens", é, pois, "a criança de todas as idades querendo saber como é seu nome em outra língua."[4] Desenvolveu, então, seu estilo dobrado: "de dia e de noite; em verso e em prosa; para adultos e para crianças; no quente e no frio... E claro, em português e também em espanhol."[5] A escritora manifesta seu amor pelas duas línguas, ao, em sua literatura, deixar espaço para as duas: "Assim, o cravo não sai ferido e nem rosa despedaçada."[6] Dessa forma, Glória afirma sua escrita caleidoscópica pontuando: "Nascemos traduzíveis e prontos para fazer (p)arte do mundo inteiro."
     Glória, contudo, além de gostar de espiar os outros lados das fronteiras, também trafega por uma trajetória acadêmica, o seu outro lado. Em seu Currículo Lattes, que inclui os registros de graduação em Letras (UFPR), mestrado (PUC/RJ), doutorado (USP) e pós-doutorado (Paris V), há os títulos e artigos sobre teoria literária. Não vejo, porém, sua produção acadêmica e literária de modo separado. Os dois lados conversam. Quando, por exemplo, desenvolvia a dissertação de mestrado ("A formiga e a cigarra" e "Isto e Aquilo"), teve como provocação questões referentes à fábula A cigarra e a formiga, que era apresentada nos livros didáticos, elevando a formiga como um modelo a ser seguido. Além de constatar que poemas sobre as cigarras não existem nos livros escolares, indagou-se: "Ao final, para que servem uma cigarra, uma menininha ou um artista? O belo pode ser sério? O saber pode ter sabor? O prazer pode permitir-se apenas ser?"[7] Em paralelo e provocado pelas mesmas questões, nasce o livro Formigarra Cigamiga, em que formiga e cigarra passam por uma transformação e misturam características. Uma das capas nos leva até o centro do livro com a história da primeira, e a outra capa nos leva com a história da segunda. Ambas as personagens conversam no centro. Assim, só sabemos qual é a frente do livro por um capricho editorial da folha de rosto e do código de barras.
     Encontrei com as protagonistas, em uma tarde, e elas falaram de Glória e da amizade. A Formigarra, quem tem forma de formiga e a garra de cigarra cigana, fala sobre a transformação por que passou no livro: "Era como se eu estivesse presa naquele mundo de formiga, entende? Trabalho, casa, juntar comida... Como se eu não soubesse fazer outra coisa. Mas daí a Glória apareceu e foi como se... como seu eu tivesse nascido de novo. Ressuscitado mesmo. Morri de enfarte formigante e ressuscitei Formigarra [risos]. Devo muito à Glória, quem me apresentou de fato a Cigarra, minha amiga." A Cigamiga, que tem cara de cigarra e miga da formiga, por sua vez, conta como venceu a solidão e a pressão social: "Antes de conhecer a Glória, eu era..., assim, muito sozinha, entende? Tipo, me divertia cantando, dançando e tal. Mas, tipo, sentia falta de uma miga mesmo. E, assim, era aquela pressão total, né? Pô, não vai trabalhar? Quando que vai tomar um rumo na vida? Ninguém sobrevive só de música. Daí surgiu a Glória e tal, me apresentou um outro lado da Formiga, curti pra caramba... E agora, tipo, tô dando um gás aí... pipoqueira, engenheira... [risos]". Ambas, agora, são amigas e vivem conversando. "A Formigarra? Workaholic total! A Glória fez benzaço pra ela, sabe. Virou até fogueteira! A gente conversa pra caramba!", contou a Cigamiga quando perguntei o que uma achava da outra.  E a Formigarra acrescentou: "É muito bom conversar com ela, a Cigamiga. A gente se diverte um monte lembrando de quando eu era uma mera formiga e ela uma simples cigarra. A gente agradece que esse tempo passou", brinca. Glória dedica o livro ao seu filho do meio, por espelhar ambas as personagens em diferentes momentos.
     Além das reflexões responsáveis por cruzar os caminhos de sua escrita acadêmica e literária, o modo como classifica sua literatura também tem cheiro de um grande debate da teoria literária. É literatura infantil? Baseada em Bartolomeu Campos de Queirós, Glória chama de adulto-infanto-juvenil, para o desespero de qualquer editor e de funcionário de livraria que tem que organizar as prateleiras.
     E é também da sua ponte acadêmica que Glória traz o neologismo maradigma. Termo cunhado em seu pós-doutorado, é a licença para se olhar o infinito e se questionar os paradigmas. A escritora, desse modo, propõe uma percepção ecopoética do mundo e a transporta naquele pedaço de mar que tirou da própria bolsa.
     A Glória, que escreve, leciona, ministra a oficina Lavra-Palavra e conta histórias, também conversa com a lua. Curiosa sobre essa prosa além-Terra, entrevistei a lua (porém, tive que esperar ela ficar cheia, fato que atrasou um pouco produção desta biografia). Perguntei-lhe sobre a Glória e sobre os principais assuntos de suas prosas. Após um longo tempo de luz pensante, ela disse que Glória lhe conta segredos de amor, elas trocam simpatias para curar dores, jogam xadrez, falam sobre grilos, vagalumes, silêncios e tantos outros encantamentos... Fiquei, entretanto, com uma questão atrás da orelha que me pulou, como uma pulga, da ponta da língua: se Glória, como ela disse na aula a que assisti, escreve literatura das 5h às 7h da manhã – fuso horário do Peru, como brincou –, e para tanto deve dormir cedo, que horas ela fala com a lua? Não obtive resposta. A lua apenas me olhou com um brilho que sinalizava uma cumplicidade a qual eu não poderia ter acesso.                                                                                                                                                     
     Bem, mas claro que a escritora não fica o tempo todo em prosa com a lua. "Em Curitiba, onde moro, cuido do jardim, invento moda, faço sopa de letrinhas e lavro a palavra em diferentes espaços: escolas, universidades, eventos literários."[8] Além disso, brinca com as palavras junto com o neto. "Você gosta de amora? Vou contar pra seu pai que você namora.", ele joga.
     No seu processo de escrita, cujo início é madrugueiro, Glória destaca o prazeroso desafio da reescrita, da reedição, a maturidade para se receber nãos e a conformidade com a possibilidade do erro. Esta última está materializada na miniatura do galo que ela nos apresentou. Memorizado neste objeto, está o livro O galo que cantou por engano (Esse mesmo: o único que eu havia lido.) e o episódio que o motivou. Glória foi convidada para dar uma oficina em uma cidade do Rio Grande do Sul. Na ocasião, teve um eclipse do sol. Passado o eclipse, um galo confuso, que já havia cantado pela manhã, despertou a cidade novamente. Entrei em contato com ele, mas não quis me receber. Apenas respondeu dizendo que o equívoco ainda está em sua memória, porém a narrativa do episódio pelas mãos de Glória lhe está ajudando a lidar com isso, de modo que agora não sente mais vergonha, somente um leve constrangimento. A partir desse acontecimento, a escritora repensou a ideia do erro, tanto que, ela explica, permitir-se errar foi o que a encorajou a escrever em português.  
     Glória também gosta de reeditar seus livros. Para ela, dessa forma, os livros renascem. O contrário, o livro parado é morte súbita. Contudo, além do seu próprio olhar para o mundo, para as fronteiras e para as línguas, que ela transforma em texto literário, há o olhar do outro para a sua própria obra que a transforma em escritora e que lhe revela sua trajetória. Glória, nesse sentido, tem leitores, alunos, filhos e reticências.
     E tempo? Sem o qual não haveria trajetória, muito menos biografia. A resposta está em poesia, bilíngue. "Se tivesse tempo/escreveria num verso/só/somente/soletrando/ o tempo." Faria um desfile de formigas em uma folha em branco. Voltaria à esquina, no cruzamento dos pardais, procurando a palavra perdida que deixou voar. Acompanharia a sombra passo a passo. "Inventaria a arte de desinventar." Sairia pelo mundo a cirandar, com vestido de cigana retirado do velho baú, e viveria mil vidas na palma de cada mão. Aprenderia a tecer com as tecedeiras e a fazer tortas com as doceiras. Vagaria pela noite para sonhar. "Faria estágio no circo da cidade." "Tomaria banho de espuma no chafariz da praça." "Aprenderia a voar demoradamente". Entre essas e outras, Glória também gostaria de mais tempo para "ler e aproveitar a poesia, seja em português ou espanhol."[9]
     Este pequeno ensaio biográfico, por ora, se fez com llama, caleidoscópio, galo, concha, sapatos, cigarra e formiga, formigarra e cigamiga, e lua. Se eu tivesse mais tempo? Conversaria com todos os seus personagens, pediria que Glória me ensinasse quéchua (também sou amante das línguas), estudaria o maradigma e reescreveria este texto quantas vezes fosse necessário, de modo a contribuir para deixar a lâmpada da lua sobre esta trajetória sempre acesa.

Esta é Denise Mazocco, idealizadora do excelente blog Prosa Domingueira: https://prosadomingueira.wordpress.com/
Há mais Denise em Literistórias, afinal ela é autora da 1a resenha de Menina com brinco de folha. Procure aqui!



[1] KIRINUS, G. O sapato falador. São Paulo: Cortez, 2008.
[2] KIRINUS, G. Formigarra Cigamiga. Curitiba: Editora Braga, 1993.
[3] KIRINUS, G. Te conto que me contaram = Te cuento que me contaron. São Paulo: Cortez, 2004.
[4] KIRINUS, G. Se tivesse tempo = Si tuviera tiempo. São Paulo: Larousse do Brasil, 2010.
[5] KIRINUS, G. Te conto que me contaram = Te cuento que me contaron. São Paulo: Cortez, 2004.
[6] KIRINUS, G. Lâmpada de lua = Lámpara de luna. São Paulo: Larousse, 2011.
[7] KIRINUS, G. Formigarra Cigamiga. Curitiba: Editora Braga, 1993.
[8] KIRINUS, G. Lâmpada de lua = Lámpara de luna. São Paulo: Larousse, 2011.
[9] KIRINUS, G. Se tivesse tempo = Si tuviera tiempo. São Paulo: Larousse do Brasil, 2010.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Uma mulher de ciência - ensaio biográfico de Victor Reis Chaves Alvim sobre a geneticista paranaense Eleidi Alice Chautard Freire Maia

Dando continuidade à série de publicações provenientes da disciplina "Narrativas biográficas e autobiográficas" ministrada no PPGHIS no 1o semestre de 2017, publicamos hoje o ensaio de Victor Reis Chaves Alvim sobre a cientista brasileira Eleidi Alice Chautard Freire Maia.
Na semana que vem, mais 2 ensaios! Boa leitura!

Uma Mulher de Ciência
Descendente de portugueses e suecos por parte de mãe e de franceses por parte de pai, Eleidi Alice Chautard nasceu em novembro de 1942. Um pouco mais de um ano depois, aconteceu algo que marcou sua vida: sua mãe morreu. Por conta disso, seu pai se mudou para a casa dos avós de Eleidi, onde também moravam alguns tios solteiros. Então duas de suas tias a criaram e Eleidi, quando criança, chegava a chamar uma dessas tias de “mama”. Contudo, essa tia a quem chamava de “mama” morreu quando Eleidi tinha 9 anos de idade. Depois disso Eleidi e seu pai foram morar com outra tia, já casada, que também ajudou a criá-la. No geral, Eleidi foi uma criança que recebeu cuidados múltiplos de diferentes pessoas das famílias à qual pertence. Nesse período da vida, Eleidi morou na Rua Doutor Faivre, próxima à Reitoria da Universidade Federal do Paraná. Ela continuou morando no local até seus 31 anos de idade, quando então se casou.
Dos 4 aos 18 anos estudou no Instituto de Educação, instituição que ela recorda com carinho, onde se formou no magistério como professora de primeiro grau. Quando criança no Instituto de Educação, Eleidi terminava de fazer um exercício e então sua professora do primeiro ano do primário, Maria Galvão, a deixava ir até um canto com caixotes cheios de livros que podia ler – o que parece ter impactado positivamente Eleidi Chautard, pois ela comenta a respeito disso num tom carinhoso. No Instituto de Educação, Eleidi também teve aulas com a poetisa Helena Kolodi, que foi importante em sua formação no magistério, além de tê-la fornecido momentos de deleite através das poesias que escrevia. Ademais, foi com Kolodi que Eleidi teve o primeiro contato com as leis de Mendel – fato que Eleidi menciona de um modo que parece ser um “momento de origem” ou de prenúncio do seu interesse e de sua carreira na genética.
Contudo sua primeira atuação profissional não se deu no campo da genética. Quando ela concluiu seus estudos no Instituto de Educação, foi chamada pra ser professora de alfabetização e foi professora de primeiro grau por cinco anos, atividade que lhe foi prazerosa.
No que diz respeito à sua formação que vai além da educação formal, mais precisamente em sua formação religiosa, era católica e fez a primeira comunhão na Catedral Metropolitana de Curitiba, já que ela morava no Centro. Ao longo da infância foi bem ligada à religião católica, mas quando se tornou adolescente, passou a ter conflitos internos ao cotejar aquilo que aprendia na igreja e aquilo que ela entendia a respeito do cristianismo e do que considerava básico numa religião. Então, quando ela completou 18 anos, desligou-se da religião (o que, segundo a própria, foi porque ela dava importância à religião) e considerou que não era necessário estudar textos a respeito da religião. Rejeitou a identidade de católica e passou muito anos sendo agnóstica. Contudo, a pesquisadora hoje afirma que seu comportamento enquanto agnóstica era “ambíguo”, uma vez que ela aceitava ser madrinha quando a convidavam, mesmo já não sendo católica.
É interessante como Eleidi trata “catolicismo” e “religião” quase como sinônimos. Certamente isso tem relação com a sociedade predominantemente católica do Brasil e também possui relação com sua própria experiência religiosa na infância e na adolescência. A contradição entre aceitar ser madrinha e seu agnosticismo pós-católico também é algo interessante na mentalidade de Eleidi Chautard: para ela, o catolicismo também permeava as práticas sociais e de organização familiar, o que abarcava o construto social do apadrinhamento, até porque a ideia de apadrinhamento está de fato relacionada à ideia da promoção de pais espirituais para a pessoa apadrinhada. Como Eleidi considerava-se agnóstica, não poderia logicamente aceitar ser madrinha, mas o fazia, por motivos sociais.
Foi então que, numa cerimônia de crisma de uma neta, quando Eleidi tinha cerca de 50 anos de idade, sua posição teológica mudou. Eleidi disse para sua neta que não iria comungar, porque efetivamente não convém que uma agnóstica comungue. Contudo, Eleidi acabou indo receber a comunhão e nesse momento sentiu uma forte emoção. Decidiu retornar à fé católica – e nisso ela faz lembrar seu marido, que após 42 anos de agnosticismo também retornou à fé católica no final da década de 1980. A mudança foi tamanha que Eleidi passou a frequentar o Instituto Ciência e Fé, criado em 1995 e seu depoimento encontra-se no site do grupo:
“Durante muito tempo, Ciência e Fé, esses dois pilares do conhecimento humano foram considerados antagônicos. Na realidade, possuem fundamentos e características próprias muito diferentes, mas isto não impede que possam compartilhar seus conhecimentos. Sou muito grata ao Instituto pelo que me propiciou nesses 21 anos de existência, reunindo pessoas interessadas nas temáticas debatidas, de todas as religiões e até agnósticos, como fui por mais de 30 anos. Aprendo muito ao participar das atividades, sinto-me também satisfeita e honrada por ser membro do Conselho Consultivo, podendo dar minha pequena contribuição à Diretoria no desenvolvimento dos trabalhos”[1].
Nesses anos iniciais no Instituto Ciência e Fé, Eleidi passou a estudar acerca da religião, em suas palavras. O que fica confuso no tocante a esse assunto é exatamente o que Eleidi chama de religião, uma vez que o instituto é ecumênico. Seria “religião” um sinônimo de “catolicismo” ou de “cristianismo” numa acepção mais alargada? A maneira como Eleidi fala sobre os grupos internos da instituição leva a crer que a noção de “religião” parece ser a de sinônimo de “catolicismo”, uma vez que ela menciona várias freiras e monjas católicas em grupos dos quais fez e faz parte. Algo que chama atenção na fala de Eleidi é a utilização da razão humana nos estudos a respeito do cristianismo nos encontros liderados por Madre Belém e que eram realizados todas as quintas-feiras pela manhã. A ideia faz lembrar o catolicismo dos grandes padres da Igreja Católica durante a Idade Média, sobretudo os escolásticos, que submetiam a fé à prova racional, para justamente reforçar a fé e confirmá-la como verdadeira. Não por coincidência, o grupo de estudos leu alguns teólogos medievais, como afirma a geneticista. Segundo Eleidi, Madre Belém viveu com muita lucidez até os 102 anos de idade. Depois disso não fica claro se o grupo de estudos continua a existir ou não, sobretudo quando levado em consideração o falecimento de uma integrante em 2016.
No que diz respeito à relação entre suas posições religiosas e sua carreira científica, Eleidi afirma que por conta do grupo de estudos sobre religião, ela nunca teve nenhuma contradição entre a ciência, que analisa os fatos de maneira muito crítica e firme, e a religião. Ela afirma ainda que, apesar de se considerar católica atualmente, não segue muitos dos dogmas da Igreja, pois não concorda com eles. Com efeito, essa é uma posição muito frequente entre milhões de católicos pelo mundo. Eleidi diz que o que lhe interessa nas religiões é aquilo que elas têm a oferecer de bom, que remetem à compaixão, ao perdão e à espiritualidade – termo que, segundo ela, “tem a ver com a intimidade com Deus”. Hoje Eleidi escolhe ir a missas de padres que se baseiam “nos princípios mais importantes da religiosidade”. Ora, a ideia de uma fiel que escolhe aquilo que quer ouvir da religião (ou, no caso, das religiões) é um fenômeno típico do fim do século XX e do atual início do século XXI. Não mais constritos ao todo de uma fé, os fieis decidem o que lhes convém e o que não consideram fazer sentido ou que é de menor importância. Tal parece ser o caso de Eleidi (inclusive, pela lógica, mencionar princípios mais importantes da religiosidade implica em assumir princípios menos importantes – seria muito interessante descobrir quais princípios a geneticista considera menos importantes, ou ainda saber se ela cria esta distinção em seu pensamento). Por fim, no tocante aos assuntos religiosos, Eleidi parece sentir um conforto emocional grande por conta da fé, o que também é bastante comum em pessoas religiosas e em pessoas reconvertidas; ela foca na sensação do agora ser mais feliz. Seja como for, Eleidi afirma que hoje ela continua com a mesma capacidade crítica que possuía quando era agnóstica.
Retornando à questão de sua atuação profissional, cabe dizer que Eleidi ficou poucos anos no magistério fundamental; cerca de quatro anos. Contudo, mais tarde a experiência no magistério acabou por se provar útil porque aplicou conhecimentos adquiridos durante essa formação inicial nas disciplinas que lecionou no Ensino Superior, na UFPR. Eleidi pediu demissão do cargo de professora elementar, então, para seguir carreira acadêmica.
Eleidi prestou vestibular pra História Natural em 1962 – um curso que misturava biologia e geologia – o curso foi desmembrado e deu origem aos cursos de Biologia e ao de Geologia, que a UFPR ainda mantém. Eleidi passou no vestibular e começou a estudar, com maior interesse por biologia, área na qual seguiria carreira. No primeiro ano da graduação ela estudou muito probabilidade. Ela foi bem, mas muitos iam mal, “um horror”, em suas palavras. Isso mudou sua vida mental; antes ela era determinista e achava que tudo tinha uma causa geracional só. Depois ela passou a ver que as coisas são questão de probabilidade e que podem ter mais de uma causa. Eleidi afirma que isso foi uma mudança filosófica. Ela passou a ver também o valor do acaso no mundo, porque às vezes há alta probabilidade de determinado resultado se confirmar, mas o que acontece é justamente o que tinha menor probabilidade de acontecer. Ela menciona, inclusive, que o acaso é um dos fatores da evolução das espécies.
No curso de História Natural, Genética era dada em dois anos; no 3º e 4º anos. No curso de História Natural, os alunos do 3º ano tinham que apresentar trabalhos para os alunos do 4º ano, para os alunos do 3º ano e para professores de ambos os anos. O professor de genética no 4º ano era Newton Freire-Maia (fundador do departamento de genética – na época, apenas laboratório de genética, pois o departamento seria criado posteriormente).
Na apresentação do trabalho de Eleidi, num seminário, ela foi convidada para trabalhar no departamento de Genética (pois na época os alunos podiam trabalhar na universidade) junto com outras duas amigas dela. Foram escolhidas porque apresentavam dedicação à ciência. Isso lhe abriu as portas da universidade, porque Eleidi era muito tímida e não teria coragem de pedir para trabalhar no departamento de genética.
Elas participaram, então, de um projeto de pesquisa idealizado e coordenado pelo professor Newton Freire-Maia. Ela considera que a teoria por trás do projeto era complicada para ela na época. Considerando-se ignorante, ela se empenhou em estudar bastante para suprir as lacunas. Por isso passou longas horas na biblioteca do Laboratório de Genética. Na época, o Laboratório ficava no prédio Dom Pedro I, da Reitoria, no oitavo andar, ao lado do atual Departamento de História. Contudo, os estudos e pesquisas não podiam se estender por muito tempo. Quando o relógio marcava cerca de 18:00, todos tinham de sair e ir embora. Isso acontecia porque havia um zelador da UFPR, que assumira comportamento de inspetor, sobre quem ela reclama, que aparecia em todos os andares e dizia que estava na hora de saírem, mesmo quando eles precisavam trabalhar muito por conta de algum congresso. Ela diz também que por causa da ditadura determinados cartazes não se conservavam nas paredes, porque eram retirados pela manhã. Apesar desse cerceamento à liberdade de expressão, o laboratório funcionava como um oásis de “liberdade” dentro da universidade. Com efeito, o próprio Laboratório de Genética garantia liberdades e uma espécie de democracia interna para professores e alunos; os alunos, inclusive, tinha voz ativa nas decisões tomadas nesse ambiente científico.
Quando Eleidi já estava no Laboratório de Genética, ela começou a frequentar congressos de genética e a fazer parte da Sociedade Brasileira de Genética. Nos anos 1960 havia poucos geneticistas no Brasil e por isso as reuniões da SBG eram feitas junto com as da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – uma sociedade que reunia diferentes tipos de ciência). Nas reuniões eles trocavam informações com pesquisadores de outras cidades, que também estudavam genética humana (de populações) –, diferentemente do que ocorre atualmente, pois agora temos um cenário de grande desenvolvimento da Genética no Brasil e um grande número de geneticistas, o que permite que as reuniões da SBG sejam independentes.
Em 1965, Eleidi terminou o curso e antes de se tornar professora da UFPR, ela e amigos dela deram aulas voluntariamente na faculdade! Isso é impactante hoje em dia, porque uma aluna não pode ministrar aulas como ela fazia, por mais que o próprio professor Freire-Maia confiasse em sua capacidade. Só então em 1967 ela se tornou professora auxiliar de ensino e esforçou-se para lecionar boas aulas de Genética e Evolução. Ela afirma que embora fosse professora auxiliar de ensino, suas obrigações eram as mesmas de um professor catedrático. Mas não é muito claro se essa cobrança era objetiva ou se era uma coisa mais subjetiva, algo mais ligado à própria exigência que ela impunha si mesma. Um pouco depois, inspirados pelo Instituto de Bioquímica que existia no prédio histórico da UFPR (na Praça Santos Andrade), muitos professores de diferentes áreas da ciência começaram a procurar criar cursos de pós-graduação tais como o que existia em Bioquímica, num movimento de empenho nacional para a criação de diferentes cursos de pós-graduação no país. Então Eleidi participou de uma comissão para a criação de um curso de mestrado em Genética. O curso teve início em agosto de 1969 e atraiu pessoas que haviam passado tanto pela UFPR quanto pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná.
Ela fez parte da primeira turma de mestrado em Genética e considerou que o curso foi muito bom, pois pôde se aprofundar bastante em seus conhecimentos. Entretanto, ela não chegou a obter o título de mestre, porque ao fim de um ano ela foi agraciada com uma bolsa do Conselho Britânico e, como já falava e lia bem inglês porque havia estudado o idioma na Cultura Inglesa, viajou para a Inglaterra a fim de desenvolver uma pesquisa. Dessa forma, seus estudos de mestrado foram semelhantes a um tipo de especialização.
Antes de ir para a Inglaterra, Eleidi trabalhou numa pesquisa no Departamento de Genética que analisava os efeitos genéticos de casamentos consanguíneos no que dizia respeito a filhos de primos de primeiro grau. Essa pesquisa era transdisciplinar; as crianças eram estudadas do ponto de vista clínico, antropométrico, mortalidade infantil na irmandade. As crianças também eram acompanhadas por pediatras, por psicólogos e por antropólogos da Universidade Federal do Paraná. Os dados foram analisados em programas de computadores por uma equipe da UFPR em conjunto com professores da Universidade de Brasília. Esse projeto demorou muitos anos para terminar, e concomitantemente, Eleidi passou a fazer parte de outro projeto de pesquisa, também orientado pelo professor Freire-Maia, desenvolvido também por Bento Arce Gomez (que viria a ser professor no Departamento de Genética futuramente), cujo objeto de estudo eram famílias que haviam tido filhos com palato fendido e ou lábio leporino (malformações que atrapalham no desenvolvimento da fala, na alimentação e que podem facilitar infecções nas mucosas). O estudo procurou mesurar o risco de recorrência dessas anomalias congênitas em famílias nas quais já existiam filhos com tais condições, o chamado risco empírico. Ao longo dessa pesquisa ela e outros professores da UFPR atendiam também casais que os procuravam para aconselhamento genético, isto é, que queriam entender melhor os riscos que corriam ao procurarem ter mais filhos após o nascimento de uma criança com alguma anomalia.
Já na Inglaterra, Eleidi Chautard fez parte de um tipo de pesquisa completamente diferente, orientada pelo professor John Hilton Edwards (1928-2007), na Universidade de Birmingham. John Edwards era um pediatra e geneticista importante já naquela época, pois em 1960 havia descrito uma anomalia causada pela trissomia do cromossomo 18, que recebeu o nome de síndrome de Edwards, uma síndrome que causa problemas cardíacos e retardo mental e que geralmente leva a abortos ou à morte dos bebês em cerca de um ano.
O trabalho que Eleidi executou junto com John Edwards e outros pesquisadores fundamentava-se em amostras de sangue e dados sociológicos e clínicos de cerca de 700 famílias brasileiras, que foram pesquisadas quanto à ligação de determinados genes. Na época John Edwards, junto com uma analista e programadora, havia desenvolvido uma programação de computador para fazer os estudos de ligação genética. Ademais, Edwards tinha esse material sobre famílias brasileiras, mais especificamente um material recolhido pelo geneticista americano Newton Morton na Hospedaria de Imigrantes em São Paulo majoritariamente de famílias nordestinas que iam morar na cidade. Dessas famílias foram coletadas amostras de sangue e realizados vários testes laboratoriais. O trabalho de Eleidi, então, foi estudar 22 genes entre as amostras recolhidas por Morton e enviadas para a Universidade de Birmingham a fim de descobrir se algum par desses genes estava localizado próximo no mesmo cromossomo.
Durante o tempo em que esteve na Inglaterra, Eleidi Chautard fez parte da Genetical Society (a Sociedade Britânica de Genética), assistiu a várias palestras (de genética e de outras áreas da ciência), apresentou resultados parciais de sua pesquisa no Congresso Internacional de Genética Humana em Paris no ano de 1971 e participou de uma reunião da Genetical Society em Londres, onde apresentou os resultados de sua pesquisa quando a concluiu. Em seu tempo livre, Eleidi esteve em museus de ciência, museus históricos e museus de artes.
Na ocasião em que apresentou dados preliminares em Paris, Eleidi conta que se sentiu especialmente irritada com um professor inglês que estava lá e que, após sua apresentação, resolveu traçar comentários sobre seu charme, e não sobre o trabalho apresentado. O ano era 1971 e Eleidi era uma das poucas mulheres de ciência entre tantos homens de ciência. Além de mulher, também era brasileira, portanto de um país sem tradição científica na área da Genética na época, de um país comparativamente atrasado nos estudos em relação à França ou à Inglaterra e demais países centrais na produção acadêmica da área, o que aumentava a raridade – e a importância – de seu próprio status naquele congresso. Eleidi diz ter agradecido as palavras do pesquisador inglês por polidez, mas ficou irritada, e afirma que se o caso tivesse ocorrido hoje, ela teria brigado com ele. Provavelmente isso está relacionado com a disseminação do feminismo na sociedade ocidental desde aquela época; atualmente ocorrem situações constrangedoras de professores falando sobre a aparência de alunas ou de outras pesquisadoras, mas diferente do que acontecia em 1971, hoje em dia esse tipo de comportamento é cada vez mais considerado como inadequado e inaceitável. Eleidi, que já sentia raiva da situação na década de 1970, hoje teria espaço social para poder brigar com o professor, caso aquela situação tivesse ocorrido nos tempos atuais. Lamentavelmente, a situação se repetiu com uma pesquisadora australiana, que estudava uma população de cangurus, cuja apresentação de trabalho foi excelente. Os homens ingleses presentes, contanto, não a parabenizaram pela boa pesquisa efetuada; traçaram apenas comentários sobre suas botas e suas roupas, que eram bonitas e isso também incomodou Eleidi. Por outro lado, afirma a pesquisadora, no Brasil ela nunca notou problemas de machismo entre os geneticistas. Aqui todos eram amigos, as pessoas colaboravam entre si.
Outra situação que reforçava a dominação masculina na área da Genética ocorreu também alguns anos depois do referido congresso em Paris. Numa outra ocasião, uma cientista americana ficou surpresa ao encontrar Eleidi Chautard, porque ela achava que Chautard era um homem. Isso aconteceu porque nos artigos que Eleidi publicava, seu primeiro nome era indicado apenas com a inicial, da forma como faziam os homens. Eleidi considerava absurdo que só as mulheres tivessem de colocar o primeiro nome por extenso. Assim, a pesquisadora americana supôs que Chautard também fosse um homem.
Depois da estadia de dois anos na Europa, Eleidi voltou para Curitiba no final de 1972. Uma coisa que chamou sua atenção nas viagens na Europa, e, sobretudo, na viagem de ida do Brasil até a Inglaterra e na de volta, foi o tempo que levava a viagem de avião. A aeronave precisava parar na África para que pudesse ser abastecida e, depois, foi feita conexão na Suíça antes de chegar à Inglaterra. No tocante a como a viagem era feita, a pesquisadora salienta que as pessoas se vestiam muito bem; os homens estavam de paletó e as mulheres portavam vestidos de veludo e calçavam salto-alto. Viajar de avião no início da década de 1970 era algo para poucos, mais restrito do que é hoje. Entrar num avião era chique! Segundo a professora, o próprio menu dos aviões em que viajou nessa época era chique. Provavelmente foi grande o impacto que Eleidi teve ao entrar no avião para ir para a Inglaterra, porque ela nunca havia viajado de avião antes. Na viagem de volta ao Brasil as pessoas também estavam muito bem vestidas.
Uma vez em Curitiba, Eleidi continuou como professora auxiliar de ensino da Universidade Federal do Paraná. Ela era diferente de muitas de suas amigas: as outras moças até estudavam, mas eram destinadas ao lar, à vida doméstica. Eleidi tinha interesse e foco na academia, na ciência e teve uma trajetória diferente de suas colegas. No ano seguinte, em 1973, a pesquisadora começou suas próprias pesquisas sobre ligação genética. Paralelamente, ela escreveu sua tese de doutorado – que realizava na Universidade Federal do Rio Grande do Sul – e publicou o trabalho que realizou na Inglaterra.
O ano de 1974 foi muito importante na vida de Eleidi Chautard. Em 1974, Eleidi Chautard casou-se, na data de 9 de março, com seu professor da graduação e que foi seu orientador nas pesquisas em genética humana, Newton Freire-Maia[2], que enviuvara. A partir de então ela adotou o sobrenome do marido e passou a se chamar Eleidi Alice Chautard Freire Maia. Já em 11 de novembro, dia de seu aniversário, Eleidi realizou sua defesa da tese de doutorado, orientada pelo professor Francisco Salzano pelo programa de pós-graduação em Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.  Dando prosseguimento às suas pesquisas na Universidade Federal do Paraná, naquele ano Eleidi recebeu a doação de uma geladeira velha para usar em seu laboratório e comprou alguns equipamentos básicos.
Com efeito, a professora passou por uma situação de precariedade em suas pesquisas; o sangue coletado para as pesquisas sequer podia ficar em seu laboratório; ele ficava nas geladeiras do banco de sangue do Hospital de Clínicas da UFPR. Apesar dessas dificuldades, Eleidi conseguiu criar o laboratório de polimorfismos e ligação e logo pôde dar início ao primeiro projeto de análise de ligação genética, cujo foco era sobre a ligação de alguns genes com o gene responsável pela Poroceratose de Mibelli[3] em famílias residentes no litoral de Santa Catarina. A professora logo começou a orientar alunos de mestrado, dos quais dois deles, Ricardo Lehtonen Rodrigues de Souza e Lupe Furtado Alle, tornaram-se professores no Departamento de Genética, trabalharam ao lado de Eleidi Freire-Maia no laboratório de polimorfismos e ligação, que dirigem há alguns anos, mesmo antes de Eleidi deixar de trabalhar em 2013. O professor Ricardo Lehtonen de Souza tornou-se coordenador do Programa de Pós-Graduação em Genética entre 2011 e 2015, quando então a professora Lupe Furtado Alle passou a ser a nova coordenadora.
Quanto ao casamento com o professor Newton Freire-Maia, Eleidi afirma várias vezes que foi um casamento feliz. Os dois tinham muitos interesses em comum, gostavam dos mesmos assuntos, discutiam sobre genética, liam sobre ciências no geral e gostavam de artes (sobretudo de pintura). Eleidi diz ter um enorme interesse por viagens (afirma já ter estado em mais de 40 países), por história e por questões culturais, porque essas coisas levam a um enriquecimento pessoal. Newton a ensinou a apreciar jazz, e ambos gostavam de música popular brasileira. Além disso, Newton, que lia bastante, também passava muito de suas leituras para Eleidi. Parece haver uma ideia de afetividade misturada com intelectualidade. A vida a dois foi alegre.  Newton tinha quatro filhos quando se casou com ela. Todos eram jovens. Um deles morreu muito cedo, Newton Freire-Maia Filho. Entretanto, hoje Eleidi tem alguns netos e cinco bisnetos, filhos e netos dos filhos de Newton Freire-Maia. Eleidi e Newton Freire-Maia não tiveram filhos, mas sempre ela afirma ter boas relações com todos os filhos de Newton. Por fim – é preciso dizer – chama atenção a diferença de 24 anos de idade entre Eleidi e Newton, mas isso não impediu o casamento de ser feliz.
Quando Eleidi fala sobre a família de Newton, que tinha seis irmãos, e sobre sua própria família, ela apresenta uma noção bastante dilatada daquilo que entende por família. Seu conceito de família, possivelmente influenciado por sua vivência desde a mais tenra infância, é muito mais ligado às relações sociais, aos laços de amizade e de afeto que são criados entre os seres humanos, do que pautado primordialmente pelos laços de sangue.
Depois do período estudando as famílias catarinenses, mencionado anteriormente, Eleidi continuou encontrando algumas dificuldades de ordem financeira para manter algumas pesquisas, então se focou naquilo que era realizável com aquilo de que dispunha e seguiu algumas sugestões de outros estudos de ligação genética, a fim de saber se as sugestões se confirmavam, se reproduziam nas análises matemáticas, de modo a confirmar os casos de ligação como verdadeiros ou rejeitar as sugestões. Entre esses trabalhos, seis artigos foram publicados em revistas estrangeiras. Estes trabalhos se referiam ao mapeamento do genoma humano, portanto eram importantes para o desenvolvimento do conhecimento humano como um todo.
Nos anos seguintes, já na década de 1980, Eleidi se empenhou, junto com orientados, como Sérgio Luiz Primo Parmo e Maria Angelina Canever de Lourenço, naquilo que chama de genética antropológica. Como Sérgio Parmo trabalhou com um par de genes para saber se estavam ligados e um desses era o gene da enzima butirilcolinesterase, em 1981, então, Eleidi, Sérgio e Maria Angelina decidiram que tinham um grande material para estudar a referida enzima, que era pouco estudada no Brasil. Eles se dedicaram a partir de então a analisar as variações genéticas da butirilcolinesterase e a variabilidade dessa enzima em diferentes etnias, uma vez que etnias diferentes não apresentavam algumas variações ao passo que outras etnias apresentam variações genéticas em frequências mais altas. Desse modo, os pesquisadores coletaram dados de populações negroides, caucasoides e, com a ajuda do professor Francisco Salzano, de indígenas brasileiros, para terem ampla gama para possibilitar uma descrição da variabilidade genética da butilcolinesterase em diferentes grupos étnicos. Com efeito, conseguiram até mesmo fazer estimativas de grau de mistura racial.
Um dos aspectos da butilcolinesterase é que algumas pessoas portadoras de algumas variações da enzima podem responder mal a um relaxante muscular chamado suxametônio, usado em pacientes em casos de anestesia geral. As variações na enzima também podem levar indivíduos a terem maior ou menor resistência ao contato com agrotóxicos. Por conta disso Eleidi iniciou pesquisas com populações rurais que estavam em contato com as substâncias para conhecer seus efeitos. Outros estudos também foram feitos acerca de associação com síndrome metabólica , índice de massa corporal, obesidade e outros quadros clínicos. Essas pesquisas acerca da butilcolinesterase acabaram sendo a linha de pesquisa principal seguida por Eleidi ao longo de sua carreira, embora não a única.
Além do trabalho com a butilcolinesterase, a professora Eleidi Freire Maia também deu prosseguimento aos estudos em malformações congênitas. Ela trabalhou também com displasias ectodérmicas, talvez por influência de Newton Freire-Maia, que também se dedicou por muitos anos ao estudo das referidas displasias ectodérmicas.
Eleidi também teve destaque importante na história da Universidade Federal do Paraná por ter sido parte da comissão que regulamentou a criação da iniciação científica na instituição. Participou ainda de outra comissão da universidade para a regulamentação de pesquisas em termos éticos para pesquisas envolvendo seres humanos, o que foi importante para o Hospital de Clínicas e para cursos do setor de Ciências Biológicas.
Fora da UFPR, Eleidi participou da diretoria da Sociedade Brasileira de Genética e também da diretoria da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Ela também fez parte do comitê assessor do Programa de Pesquisa em Biotecnologia e Recursos Genéticos do CNPq (COBRG), exercendo a verificação dos projetos que são enviados ao CNPq, para decidir a respeito da concessão de bolsas de pesquisa. Durante sua carreira a pesquisadora esteve em vários congressos, na França, Itália, China e Austrália.
Porém nem sempre a trajetória profissional da geneticista foi fácil ou feliz. Eleidi era muito exigente consigo mesma em termos de trabalho. Ela achava isso bom, mas isso também era uma condição que a deixava ainda mais aflita por conta das condições ruins para se fazer pesquisas no Brasil. Um exemplo das dificuldades em âmbito nacional para o desenvolvimento de uma pesquisa, sobretudo de pesquisas mais longas, era e é o contingenciamento de verbas do CNPq, muito complicado, burocrático e incerto. Além disso, ela também não gostava da distância da produção científica e do estado da arte na Genética que existia entre o Brasil e os EUA e a Europa. Havia também dificuldades de acesso a materiais recentes na literatura científica nos anos anteriores ao advento da internet: o Departamento de Genética assinava “Current Contents”, que apresentava os índices de artigos publicados em  revistas científicas para que os professores e alunos escolhessem os que pareciam mais interessantes e, em seguida, enviassem pedido de separata ao autor principal. Uma separata podia demorar três meses para chegar! Isso aumentava também o abismo entre a produção acadêmica de ponta nacional e a dos países ricos. Às vezes não havia sequer o básico, como acontecia no começo do programa de pós-graduação em Genética; quando o curso já havia sido transferido para o Centro Politécnico, Eleidi e alunos faziam testes com amostras de sangue e saíam correndo de carro até o Instituto de Bioquímica para verificar se havia acontecido alguma reação ou se havia tido alguma inibição na composição etc. Finalmente, Eleidi diz ter feito parte de uma geração de cientistas que praticavam o que ela chama de “genética romântica” opondo-se ao estado atual das coisas, caracterizado por um problema que foi formado nas últimas décadas no país, sobre o qual ela reclama, que é o de competitividade acadêmica desenfreada e nociva. Em suas palavras, hoje “as coisas estão terríveis” por conta dessa competição acadêmica, e ela se pergunta o que se perdeu no meio do caminho. A dúvida que permanece a esse respeito reside na confirmação dessa informação: as pessoas realmente colaboravam tanto assim nas décadas de 1960 e 1970, ou isso é um saudosismo, uma idealização do passado gerada pela subjetividade de Eleidi?
Apesar das dificuldades pelas quais Eleidi passou em sua trajetória acadêmica, e que infelizmente são bem conhecidas entre os cientistas brasileiros, sua carreira foi profícua. É notável que sua produção acadêmica não tenha sofrido queda depois da morte de seu marido, Newton Freire-Maia, ocorrida em 2003. Pelo contrário, a frequência de publicação de artigos científicos manteve-se igual à da década de 1990 e início dos anos 2000, e continuou dessa forma até o momento em que Eleidi se aposentou em 2013.
     Para concluir, Eleidi parece humilde com relação às suas realizações científicas e a seu domínio de idiomas – a despeito de ter se apresentado em mais de um congresso internacional de Genética e a despeito de ser poliglota –, como pode ser percebido pelo modo como fala sobre sua trajetória e pela modéstia que apresenta em seu currículo Lattes acerca do grau de domínio que tem dos idiomas que compreende. Seria isso outro sinal da alta exigência que ela espera de si própria? Talvez; tudo o que se pode fazer é conjecturar, não afirmar categoricamente acerca de suas motivações psicológicas. Outra suspeita acerca de seu interesse por Genética e por relações familiares reside no fato de Eleidi ter dito que ela tinha “um desejo inconsciente de ter irmãos” e que ela gostava de observar outras famílias. Talvez por isso ela tenha trilhado uma carreira que tratava direta ou indiretamente de famílias e suas relações e/ou também por esse motivo ela tenha convivido e conviva tão bem com os familiares de Newton Freire-Maia, que na prática ela significou como familiares, ainda que sem laços de sangue. Entretanto, também nesse caso tudo o que pode ser feito é, mais uma vez, conjecturar, pois o âmago psicológico mais profundo não pode ser perscrutado e estabelecer relações diretas de causa e efeito é algo temeroso.
     Se o presente trabalho acaba com dúvidas, cabe deixar mais uma questão em aberto, do mesmo modo que a vida se nos apresenta como questões em aberto por meio das escolhas que tomamos: quais serão os próximos caminhos que Eleidi Chautard Freire Maia irá trilhar?

Além do relato de vida feito por Eleidi Freire Maia em sala de aula, também foram consultadas as seguintes páginas:


A biografada em 31 de maio de 2017, quando compartilhou com os alunos da turma a narrativa de sua trajetória.

O biógrafo de Eleidi, Victor Alvim, em álbum do FB (fotografia de fevereiro de 2017).



[1] < http://www.cienciaefe.org.br/ > (Acessado em 24 de julho de 2017).
[2] Segundo Eleidi, ela sentia-se ansiosa na presença de Newton. Ela chega a usar a palavra “medo” para descrever o que sentia quando estava na sua presença, no período em que foi estudante. Entretanto, tinha grande respeito por ele e gostava de sua personalidade, que descreve como sendo maravilhosa.
[3] Poroceratose de Mibelli é uma condição clínica, caracterizada pela queratinização de regiões da pele. As placas hiperqueratósicas possuem formas mais ou menos arredondadas, e têm a aparência de manchas ou de protuberâncias. Acredita-se que seja uma condição gerada por um fator hereditário autossômico dominante.