segunda-feira, 24 de abril de 2017

Aforismos de meia tigela – II

No dia 5 de setembro de 2015, publiquei uma primeira coleção de aforismos de meia tigela. Confira! Este ano comecei uma nova coleção, que vai logo abaixo. Boa semana e continue a nadar! 

1. Compreender não é descer (Marcel Proust)

2. Devotos da gratidão, antes sentir que esperar.

3. Deixe a expectativa na casa dela, o dicionário.

4. O cotidiano diz mais que as fases da crise. (François Dosse lendo Freud)

5. A biografia é um romance que não ousa dizer seu nome. (Roland Barthes)

6. Se você é de papel, não saia na chuva, nem passe perto do fogo (colaboração de Renan Frighetto)

7. Quando estiver cansada, descanse (D. Rangel, em uma tarde dessas em seu consultório)

8. Continue a nadar. (Dori)

9. Meu bem, você me dá água na boca. (Rita Lee)

10. Por mais que estejam prontas as coisas, nunca se dispõe de muito tempo num dia de partida. (Marcel Proust)



segunda-feira, 17 de abril de 2017

“O seu lugar” e o “lugar à parte”: considerações sobre a disposição das coisas

Já escrevi sobre a aventura maravilhosa de ter epifanias diante do conhecido: filmes revistos, livros relidos, gente reencontrada! Não sei quantas vezes ouvi e li o capítulo 20 de João, versículos de 1 a 10, mas ontem me pareceu particularmente emocionante ouvi-lo da boca de um dominicano e de certa forma engraçado reparar na disposição dos panos que cobriam o corpo de Jesus, quando eles já não o cobriam.
O fragmento a que me refiro é muito conhecido:

"1.No primeiro dia da semana, Maria Madalena veio ao sepulcro, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido removida do sepulcro. 2. Então foi correndo até onde estava Simão Pedro e o outro discípulo a quem Jesus amava e disse-lhes: “Tiraram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o puseram!” 3. Pedro saiu com o outro discípulo e foram ao sepulcro. 4.Corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa do que Pedro e chegou primeiro. 5.Inclinando-se, viu as faixas de linho no seu lugar, mas não entrou. 6. Depois chegou Simão Pedro, entrou no sepulcro e viu as faixas de linho no seu lugar 7. e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus. O sudário não estava com as faixas de linho, mas enrolado num lugar à parte. 8. O outro discípulo que chegou primeiro entrou também, viu e creu. 9. De fato, eles ainda não se haviam dado conta da Escritura, segundo a qual era preciso que Jesus ressuscitasse dos mortos. 10. A seguir, os discípulos voltaram para casa."[1]

Há coisas muito significativas em um trecho tão visual: madrugada, ainda bem escura; pessoas correm, umas são mais velozes que outras, mas as velozes não são necessariamente as mais corajosas; o encontro dos panos: “um no seu lugar”, duas vezes referido, e o pano que envolvia o rosto dobrado em separado, “num lugar à parte”.  Os outros evangelhos vão dizer que Madalena não estava sozinha em seu intento de ir cedo ao sepulcro, fora com amigas: Maria, mãe de Tiago, Salomé... e afirmam também que tinha a intenção de ungir Jesus, levava perfumes... Mas João não quer saber desse tipo de enredo: deixa Madalena só, a descobrir e a propalar aos discípulos.
Domingos de Gusmão tinha particular apreço por ela! Tomás de Aquino soube ler o fragmento que destaquei como ninguém, ao reconhecer o protagonismo da personagem como testemunha e anunciadora. Não é à toa que os dominicanos vão buscar nela a inspiração para sua identidade como predicadores. Esse fato conhecido por mim teve outro nível de internalização hoje, quando eu o ouvi pela voz de um dominicano. Eu nunca tinha ouvido esse trecho lido por deles? Não sei dizer, talvez..., mas só ontem o meu conhecimento encontrou a minha emoção.
Volto à cena. Quando Madalena fala a Pedro e ao discípulo que Jesus amava, ela acusa: “Tiraram o senhor...” e usa a primeira pessoa do plural: ”não sabemos”, um indício fraco de que não estava sozinha. Digo fraco, porque só me sirvo de traduções. Os outros evangelhos, porém, fortalecem a pista. O clima é de insegurança geral depois do processo, da condenação e da morte de Jesus, assim entendo a acusação, que na verdade é um pedido de ajuda. Os homens se apressam.
Pedro é velho, portanto perde na corrida. O discípulo que Jesus amava chega primeiro e vê o linho “no seu lugar”. Adoro essas coisas no texto bíblico... Que lugar???? O lugar desse linho não era no corpo de Jesus?! Sempre visualizei esse “lugar” como o chão. Imagino as tiras jogadas, fazendo um montinho, mas nunca reparei, pois cheguei ainda mais atrasada que Pedro rsrsrs, nesse “seu lugar”. Para piorar tudo, o sudário, ou seja, o tecido que cobria o rosto, fora colocado não no “seu lugar” (ufa, mais uma confusão, pois o lugar seria a cabeça...), mas “à parte” (?!).
Depois que não encontram o corpo de Jesus, o que fazem esses dois amigos de Madalena, a quem ela foi pedir ajuda? Vão para casa!!! Ela fica só e chora. Vê dois anjos, que revelam algo interessante sobre esses lugares que me despertaram interesse: um deles está disposto onde estaria repousada a cabeça de Jesus e o outro, aos pés. Logo depois, Madalena vê Jesus, mas ela não o reconhece, pensa que é um jardineiro (João sabe ser engraçado...), confronta-o, até que ele a chama: “Maria” (versículo 16). É muito bonito isso, um dado de intimidade, talvez só ele pudesse dirigir-se a ela nesses termos, da afirmação de seu primeiro nome, um reconhecimento de quem é muito próximo. Imagino que ela quer abraçá-lo, mas ele evita o contato: “Não me retenhas porque não subi ao Pai” (versículo 17).
Mas vamos lá, à disposição das coisas. Então, os anjos me informam que o linho que envolveu o corpo de Jesus estava no limite desse corpo, que assumo como sendo o “seu lugar”, entre a cabeça e os pés. Mas e o sudário? Uma das coisas que mais me encantam nesses escritores de tradição hebraica, e que encantou Eric Auerbach[2], é a sua concisão. Ela me permite imaginar muita coisa. Vejo Jesus acordar e mover as suas mãos em direção ao rosto. Tira primeiro esse tecido. Sua fraca humanidade (acabou de ressuscitar!) quer respirar e ver onde está. Remove esse tecido com surpresa, ainda hesitante. Está escuro à sua volta, portanto não pode depositar esse sudário no lugar (????), então o põe à parte, onde alcança. Mas e os linhos que envolvem seu corpo? Trata-se de um homem adulto, pleno, imagino uma quantidade razoável de tecido. Jesus se desprende e levanta..., os tecidos caem onde está, afinal, o lugar! Os olhos querem ver. Só é possível se a pedra for removida. Para um homem que acabou de ressuscitar, o que é um pedregulho?! É óbvio que não tem o menor interesse em fazer arrumações. Deixa a morte para trás.
Sei o que estão a pensar: sai vestido ou desnudo? Não sei. O que sei é que quando aparece à Madalena, não é a sua (falta de) compostura que a surpreende, mas decerto Jesus está diferente. Ela só pode reconhecê-lo pela palavra que apenas ele saberia proferir... Maria. Essa palavra é nome do reconhecimento.
 João deixa um espaço imenso à minha imaginação. Eu o cubro com a humanidade, pois só posso imaginar com o meu repertório, afastado do divino. A concisão pode ser calculada, portanto. João pinta o céu/cenário, põe seus atores a correr, a mulher a chorar... tem muito drama na cena! Diz que os homens foram para casa, só Madalena fica. João afirma que só com ela está a coragem. Põe Jesus a dizer a palavra mais íntima, quase um sussurro, que só alguém próximo está autorizado a emitir.
Toda essa história de “seu lugar” e “lugar à parte” é puro diletantismo meu, quando o mais importante é o que Madalena haveria de anunciar? O que aconteceu dentro do sepulcro é um drama sem testemunha. As tiras e o sudário, porém, na sua diferente disposição, são as únicas pistas para um mistério: a vida vencer a morte, ou simplesmente um corpo enfaixado acordar surpreso e hesitante, ávido de liberdade. Esses panos são o testemunho mais vivo do que sucedeu lá dentro.
Só posso invejar o narrador de João e a extraordinária solução narrativa de representar o movimento dramático pelo detalhe ínfimo, a diferença desses panos jogados lá no texto.

A Ressurreição de Giotto




[1] Bíblia Sagrada (51ª ed.). Petrópolis (RJ): Vozes, 2012.
[2] Em Mímesis.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

“Eu andarei vestido e armado...”: sobre São Jorge (2016), filme de Marco Martins

Na semana em que estive em Portugal, fui com minha amiga Patrícia Garpar e com minha prima Andréia Bentes ao Shopping das Amoreiras em Lisboa, para ver São Jorge, filme dirigido por Marco Martins e estrelado por Nuno Lopes, Mariana Nunes e David Semedo. Depois da exibição, o diretor e o ator conversaram com o público até quase a madrugada, com toda a energia, apesar da maratona que têm cumprido para divulgar e debater o filme por diversas cidades europeias. Em setembro de 2016, Nuno Lopes conquistou o prêmio de melhor ator no Festival de Cinema de Veneza pela sua atuação no filme. Mereceu.
Nuno é Jorge, português, boxer, cobrador de “cobranças difíceis”[1], marido de Susana e pai de Nelson[2]. Mora com o pai, o filho e um monte de gente em um apartamento minúsculo, no bairro da Bela Vista; Mariana é Susana, brasileira, mora no bairro da Jamaica e dá um duro danado fazendo limpeza. Apertados no carro, o casal se entrega à paixão teimosa que o racismo do pai de Jorge e as crises da vida teimam (em vão) em arrefecer... Em uma das cenas mais lindas do filme, os personagens estão nos braços um do outro, dançam no bairro da Jamaica, Susana sonha com a casa que Jorge lhe prometera, suas roupas já estão arrumadas para a nova vida, é o único momento em que Mariana pode deixar Susana sorrir; Jorge está à beira do abismo, vai fugir, pode ser implicado na morte de um homem. Ela a tudo ignora; nós não, somos cúmplices, sabemos que ele não matou, mas constrangeu com violência, há testemunhas. Risco. Coração pesado na plateia.
O filme é forte. Se Jorge e Susana são personagens ficcionais, a Troika[3] não. O constrangimento econômico abate o casal; abate os personagens[4] que debatem sua situação na casa do pai de Jorge sob o olhar da câmera que, entretanto, observa sem se intrometer; abate Nelson, a criança que não vemos ir à escola, que vemos respirar mal na cama do pai, que não suporta vê-lo apanhar no ringue para ganhar dinheiro. Mas a câmera é insidiosa para Jorge, vemo-la no seu encalço; a focalizar a nuca, o perfil de Nuno, a evitar seus olhos... até o final, quando ele parte sem olhar para trás. A câmera faz questão de nos colocar frente a frente com ele. Quer o quê? Talvez que sejamos a barreira, que digamos a ele: Volta; volta pra Susana e pro Nelson; toma novamente o colar que acabou de entregar para seu filho e cinge o pescoço com o santo guerreiro, entoando o célebre “eu andarei vestido e armado com as armas de Jorge”!
Fiz duas perguntas ao diretor depois da exibição, e calei uma questão que queria propor a Nuno, para não ser a brasileira-chata-monopolizadora-do-debate... Ao ver o ator sorridente, barbado e cabeludo, tão diferente de como está no filme, fiquei com vontade de ouvi-lo falar sobre sua preparação física. Não me refiro aos treinos de boxe que certamente deve ter sido obrigado a encarar com rigor, gostaria de ouvi-lo falar sobre como foi conter-se e estar sempre pronto a explodir; sobre como foi representar quando a câmera fugiu do encontro com os seus olhos, com o seu rosto, de fato tão diverso do belo ator que quando sorri é capaz de o fazer com covinhas!
Perguntei a Marco Martins sobre o enquadramento e ele confirmou a intenção de uma câmera persecutória. Uma pessoa na plateia fê-lo abordar a iluminação, ou a falta dela. Quase não há sol no filme e, quando há, no campo de futebol, onde pai e filho jogam com outras crianças, Nelson tem de ir embora, levando por outro homem, com quem a mãe mora. Não sabemos bem a relação de Susana com esse homem que abraça Nelson e o conduz para longe do pai. Só vemos Jorge sem sol afinal.
A segunda pergunta que fiz a Marco tinha a ver obviamente com o santo que nomeia o filme. Aludi à longa relação dos portugueses com São Jorge; lembrei do grito radicado no medievo, antes das batalhas. Mas Marco não pareceu embarcar em minha sugestão e ligou o santo mais aos brasileiros que aos portugueses, apesar de tradição. Nuno fez um aparte e nos contou que, em sua leitura muito particular do amor de Jorge e Susana, acredita que ela tenha oferecido a seu personagem a medalha... Fiquei morrendo de vontade de falar uma coisa que não tive coragem lá, mas que escrevo aqui: Nuno, então foi o amor que fez o Brasil devolver a Portugal seu santo de devoção medieval? Emoção triplicada de uma devota do santo (ergui a minha medalha em público...), filha de pais portugueses e medievalista!
O filme é um documento relevante por pelo menos duas razões. Foi desenvolvido mesmo no caminho acidentado que percorreu, afetado pela crise que representa, demorou cinco anos para ficar pronto. Marco Martins afirmou que tinha a intenção de fazer um filme sobre boxe, mas conheceu os cobradores de cobranças difíceis nas academias e pensou: o filme estava ali. Sua pesquisa não foi particularmente beneficiada pela abundância de fontes, afinal nenhuma empresa dessas lhes escancarou as portas... Mas conheceu os homens que a qualquer hora do dia lembravam aos devedores com o auxílio de técnicas diversas as suas dívidas.
Quem imagina um Portugal de Torre de Belém e Mosteiro dos Jerônimos vai se surpreender com São Jorge. Vai se surpreender com a escolha dos cenários, bairros reais, em que habitam pessoas que dão um duro danado. É preciso dizer ainda que as dificuldades não habitam só esses bairros e que não constrangem apenas os imigrantes e seus filhos... Constrangem os portugueses, em uma frase direta. As empresas de cobranças difíceis são a redução de escala da própria Troika, essa é a segunda razão pela qual para mim o filme é um extraordinário documento fixado no presente. Marco Martins deu visibilidade a problemas que muita gente ignorava em Portugal, eu inclusive.
Continuo com a história do santo atravessada no meu coração. O final do filme não me deu esperança, mas Marco Martins o chamou de São Jorge!... Fiquei a considerar a hipótese de um país que precisa cantar para si mesmo dois lindos versos escritos por Chico Buarque em “Fado tropical”[5].
Eu agradeço à minha amiga Patrícia Gaspar, uma amante do cinema português, conhecedora e admiradora do trabalho de Nuno Lopes, o ter nos levado para ver o filme e participar do debate. Lembro-me que, quando ela foi cônsul de Portugal em Curitiba, realizamos um pequeno mas muito exitoso festival de cinema português na PUCPR.
Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa,
Mas meu peito se desabotoa.[6]

Certamente o meu peito se desabotoou de emoção por Jorge, Susana e Nelson! Marco Martins, você fez um filme importante!







[1] Por “cobranças difíceis” se entende a verdadeira perseguição a devedores que tiveram suas dívidas compradas por empresas, que empregam por sua vez métodos violentos para reaver as somas. Conferir: https://jpn.up.pt/2017/03/22/nuno-lopes-conversou-sao-jorge-anunciou-novo-projeto/ (acesso em 9 de abril de 2017).
[2] David Semedo é a criança encantadora que nos emociona no filme, descoberto justamente no bairro da Bela Vista, em Setúbal.
[3] Conferir: https://www.economias.pt/troika/ (acesso em 7 de abril de 2017).
[4] Que não são atores!
[5] Em “Fado tropical”, Chico Buarque afirma: “Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal:/ Ainda vai tornar-se um imenso Portugal!”. Referia-se ao Brasil. Em minha hipótese, entretanto, caberia a Portugal descobrir a sua própria imensidão...
[6] Versos de “Fado tropical”.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Por que confiar cegamente?

Sabe quando você escuta várias vezes uma expressão e faz uso razoável dela, sem se preocupar muito a respeito das partes que se juntaram para formá-la e, um dia, por encanto, ela passa a incomodar? Há semanas eu passei a me incomodar com “confiança cega”. Isso não significa que tenha ficado mais desconfiada, significa simplesmente que passei a pensar mais a respeito do que significa de fato confiar em alguém cegamente.
A palavra confiar foi formada no medievo pelo radical fiar, que por sinal veio do latim fidāre/fiděre, segundo Antônio Geraldo da Cunha[1]. Na essência dessas palavras, está fides: fé e crença. Então parece que quando juntamos o prefixo com-, incluímos alguém na nossa crença... Legal, mas o Marc Bloch já nos ensinou que as palavras valem menos pelas etimologias que pelos usos, então voltemos ao meu incômodo. Confiar é entregar-se e crer. Por que esse absoluto passou a precisar de advérbios? Não vou saber..., mas fiquei com vontade de conhecer a reação de alguém que ouvisse um grande amigo afirmar que confia de olhos abertos nesse alguém. O que pensaria o ouvinte da novidade?
Antes, eu acho que temos necessidade dos pleonasmos. Por que dizemos: “eu vou sair lá fora”; “vou subir para cima”; “descer para baixo”... Por que publicamos nos jornais “grávida que sobreviveu ao acidente está viva” ou “proibido barulho sonoro a partir das 22:00”[2]? Temos necessidade de deixar tudo muito explicadinho. Acho que a essência da confiança cega está nessa mania de explicação.
Entregar-se ou crer não precisa ser às cegas, se a gente não é cego. Meu desacerto talvez venha daí, de uma decisão deliberada de não ver. Por que a confiança cega seria melhor que a confiança de olhos arregalados? Entregar-se vendo tudo me parece inclusive mais intenso. Crer a despeito do contrário que assoma a nossos olhos me parece ousado.
Sabe aquela brincadeira da confiança: de costas para alguém, a gente simplesmente se abandona e esse alguém nos sustenta e soergue? Quem fecha os olhos? Eu já brinquei assim e nunca fechei. Desconfianças?... Acho que quis me manter na relação como alguém que não é uma massa inerte/fardo para o outro. Talvez essa maneira minha de brincar de confiança esconda uma personalidade controladora, que quer pilotar o avião...
Prevejo que alguém vá relacionar meu incômodo semântico não à pretensa inclinação para estar no controle, mas ao contexto em quem vivemos, de desconfiança generalizada. Afirmar que se confia cegamente estaria, assim, entre uma necessidade de precisão e rara frequência... A desconfiança, mais constante infelizmente, necessitaria de reafirmação para não ressoar irônica.
 Cegamente é um advérbio que é modo e intensidade. Eu confio muito, tanto que cegamente! Mas isso não melhora as coisas... Confiar muito é realmente necessário? Confiar (simplesmente)... quanta inteireza! Fiar, abandonar-se, crer, com/em.
Antes de resolver escrever este breve texto, eu tive um debate com a filha sobre confiança, em que ela me perguntou se eu não confiava nela. Eu disse que confiava, mas... calei antes de pronunciar a oração adversativa, consciente de que ela me levaria a uma enrascada maior que o cegamente. Eu me corrigi e disse que confiava sim, de olhos abertos, porque tenho olhos de ver. Engraçado que ela não reclamou, pareceu compreender que não precisava me exigir a abdicação do sentido, para resolver nosso debate.
Não está fácil confiar... Cegamente, então?! Mas acho que se há uma maneira de resgatar a confiança é fazê-la na inteireza de nossa capacidade. Se eu posso ver, é com tudo o que já vi, vejo e verei que confio; se acho que é preciso ser cego para abandonar-me ou crer é porque relaciono essa escolha à insuficiência ou à falta. Confiança é uma decisão plena demais para fechar os olhos. É uma decisão livre. Se somos constrangidos, não confiamos. Se não achamos, não devemos.
A gente confia muito. A gente come fora e nem vê a comida ser preparada! Elogia e acha uma delícia. As pessoas que preparam esses alimentos são muitas vezes completamente desconhecidas para nós. E se elas cuspirem em nossa comida? Eu vi um filme em que o personagem fazia isso... Se já cuspiram, nós não soubemos. Confiamos em desconhecidos e conhecidos. Existe uma segurança maior nos conhecidos? Mulheres que foram assassinadas por ex-parceiros lhes abriram as portas de casa, com os filhos dentro, porque confiaram na possibilidade do diálogo... Confiança é uma coisa poderosa. Confiança é uma coisa perigosa.
Confiar é uma decisão inteira e, como tal, não cabe adendo. Entregar-se, acreditar, a despeito de tudo à nossa volta, são gestos de verdade, coragem e ousadia. Agora, quando alguém me perguntar se pode confiar em mim, eu vou dizer que pode e vou insistir para que mantenha os olhos abertos, pois eu não vou fechar os meus. Na expressão de minha própria confiança em tanta gente que me rodeia, vou repetir a disciplina. Juntos ou juntas, olhos nos olhos, brincando de abandonar o corpo nos braços do amigo, que nossa entrega possa ser mais profunda, sem abrir mão do que nos constitui, com todos os sentidos.



PS: Queridos leitores, semana que vem, não haverá atualização no blog. Estarei em Portugal para participar de 2 eventos. Na volta, eu conto como foi!





[1] Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa.
[2] Exemplos tirados da internet…

segunda-feira, 13 de março de 2017

O golpe contra a História!

O texto abaixo, assinado pela Profa. Dra. Cíntia Régia Rodrigues, foi publicado no jornal Expressão Universitária da FURB neste mês de março. Agradeço à autora, minha querida amiga, que permitiu que eu republicasse o seu texto aqui.

***

Debruço-me a escrever sobre a Reforma do Ensino Médio no Brasil a partir da perspectiva do componente curricular História, em meio ainda a perplexidade que a Medida Provisória n. 746/2016 aprovada no Congresso Nacional, no Senado Federal e já velozmente sancionada pelo governo federal neste último mês de fevereiro causou, principalmente aos historiadores, estudantes de história e a sociedade em geral.
Em meio às graves fissuras que a democracia brasileira vem sofrendo nos últimos tempos, e a série de medidas que foram elaboradas e colocadas em prática pelo atual governo, em especial, a Emenda Constitucional 55 que prevê um teto de gastos para os investimentos públicos, a educação brasileira é atingida frontalmente. É notório assumirmos que existe uma série de demandas que precisam ser analisadas e trazidas à baila, principalmente no que tange aos novos rumos que a Reforma do Ensino Médio está a causar na educação brasileira, desde problemas infraestruturais, de capital docente e, principalmente, na formação dos estudantes, dentre outros.
O objetivo desse breve ensaio é refletir de uma forma mais ampla, num contexto global, sobre o significado da concretização da Medida provisória, e, elaborar algumas ponderações ressaltando a importância e o papel do componente curricular História no Ensino Médio no Brasil. Segundo a filósofa, professora da Universidade de Chicago, Martha Nussbaum “Obcecados pelo PNB, os países – e seus sistemas de educação – estão descartando, de forma imprudente, competências indispensáveis para manter viva a democracia[1], em seu estudo “Sem fins lucrativos: por que a democracia precisa das humanidades”, a autora realiza uma pesquisa sobre as políticas públicas e educacionais nos Estados Unidos e analisa dados sobre a Índia, Alemanha, Suécia e Inglaterra.  Dentre as várias questões analisadas pela autora, uma que nos é cara neste momento, é a importante análise que ela traz sobre qual seria uma das competências primordiais para salvaguardar a democracia - o estudo da História! A obra lança um alerta acerca da importância da disciplina de História para a formação de “cidadãos do mundo”: “pessoas que percebem que seu país faz parte de um mundo complexo e interligado e que mantém relações econômicas, políticas e culturais com outros povos e nações”[2].
Neste contexto, a Reforma do Ensino Médio, aprovada, de forma unilateral, sem uma ampla consulta aos profissionais ligados à área da educação, e ainda levantando inúmeras dúvidas quanto ao seu conteúdo e possível prática, o que sabemos até o momento é que o texto aprovado prevê o aumento gradativo da carga horária, das atuais 800 horas anuais, para 1.400 horas, sendo que o conteúdo do Ensino médio será dividido em duas partes: as disciplinas obrigatórias que serão apenas Matemática, Língua Portuguesa e Língua Inglesa, nos 60 por cento do currículo, este determinado pela BNCC[3](Base Nacional Comum Curricular), e os demais 40 por cento “com ênfase nas áreas de linguagens, matemática, ciências da natureza, ciências humanas e formação técnica e profissional”[4]. Lê-se, portanto, que o componente curricular História se fará presente na área de Ciências Humanas, mas de que forma? Até o momento ainda não temos respostas.
Conforme era previsto na LDB[5] (Lei de diretrizes e bases) está em curso a elaboração na BNCC, que na sua primeira versão contou com uma participação pela internet de cidadãos e de docentes e foi construída junto ao MEC por profissionais que foram recomendados e convidados pelo Ministério da Educação. Já, a segunda versão da BNCC foi uma reformulação da primeira, sendo que não avançou em vários aspectos que foram questionados, principalmente no que se refere à área de História[6]. Agora estamos no aguardo da versão definitiva da BNCC, lembrando que os 60 por cento do currículo a partir da Reforma do Ensino Médio será determinado pela BNCC, e o componente curricular História está presente em tal documento tanto no que diz respeito ao ensino fundamental quanto médio. Pode-se ler que a História será obrigatória pela Base. Será que estamos diante de uma contradição? Sim!
Em meio as várias incertezas que pairam, passamos a destacar as certezas que temos sobre a relevância e as contribuições do componente curricular História na formação escolar e na construção da cidadania no país. A História enquanto disciplina escolar faz parte do currículo do ensino no Brasil desde o século XIX[7], sua trajetória está entrelaçada as abordagens historiográficas e na prática do ensino de História nos diferentes contextos políticos e sociais da história brasileira. Ocorreram tranformações na disciplina ao longo do tempo, segundo Bittencourt[8], isso acontece quando sua finalidade passa por alterações, que, por sua vez, variam de acordo com as demandas e vicissitudes da sociedade. Na história do Brasil, no período da Ditadura Militar a disciplina de história foi retirada do currículo escolar, sendo instituída a disciplina de Estudos Sociais[9].
Pode-se dizer que a história, quando ensinada, também auxilia os indivíduos a pensar historicamente e, que estes se reconhecem como sujeitos ativos na construção da história. Significa ser ator e analista da vida que o rodeia, conhecendo suas alternativas e desafios de ação na história. O ensino de história tem um papel central na formação da consciência histórica nos homens. Por fim, a Reforma do Ensino Médio tira a obrigatoriedade do componente curricular História limitando as possibilidades de os cidadãos em formação terem uma visão crítica do passado e do presente estimulados pelas construções do conhecimento histórico. Marc Ferro[10], muito atento, salienta, que a história tecida por uma dada sociedade acerca dela mesma e de seus pares tem sólida relação com a história ensinada na sala de aula.

Sobre Cíntia Régia Rodrigues:
Cíntia Régia Rodrigues é coordenadora do curso de História da FURB, fundadora do LADIH (Laboratório de Didática da História) e é especialista em política indigenista e populações indígenas. Para conferir um pouco mais de suas pesquisas, recomendo a visita a seu lattes:

Adoro essa foto de Cíntia! Aqui, fica evidente sua paixão por ensinar, sua concentração e beleza! Porque ela é tudo isso: 1,80m de uma baita pesquisadora!

[1] NUSSBAUM, Martha C. Sem fins lucrativos: por que a democracia precisa das humanidades. São Paulo: Martins Fontes, 2015. P. 4.
[2] Ibidem, p.91
[3] http://basenacionalcomum.mec.gov.br/#/site/inicio (acesso em 20 de fevereiro de 2016).
[5] http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9394.htm (acesso em 20 de fevereiro de 2016).
[6] Ver o interessante relato da professora Dra. Marcella Guimarães em Sobre a mesa redonda no MEC, em 13 de julho de 2016 no blog: https://literistorias.blogspot.com/search?q=bncc (acesso 10 de fevereiro de 2017). Ainda sugiro a leitura de vários documentos elaborados pelas seções regionais da ANPUH, que desenvolveram importantes debates sobre a BNCC e o ensino de História, destaco a Anpuh/RJ e a Anpuh/RS, dentre outras.
[7] Sugiro a leitura de FONSECA, Thais Nívia de Lima. História & Ensino de História. Belo Horizonte: Autentica, 2011.
[8] BITTENCOURT, C. M. F. (Org.). O saber histórico na sala de aula.  São Paulo: Contexto, 2005.
[9] Ver ABUD, K. M. (Org.); SCHMIDT, M. A. (Org.) . 50 Anos da Ditadura Militar: Capítulos sobre o Ensino de História no Brasil. Curitiba: W & A Editores , 2014.
[10] FERRO, Marc. A manipulação da história no ensino e nos meios de comunicação. São Paulo: IBRSA, 1983.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Memória e demolição

Essa história começou há alguns anos, desde que mudei de trajeto para conduzir a filha à escola. Nenhuma inclinação por novidades me motivou a alterar o trajeto que seguíamos; foi a proibição de conversão em uma das ruas que me fez pensar em alternativas. A alternativa que afinal considerei mais adequada incluía passar diariamente em frente à casa de uma grande amiga, o que seria ótimo, pois, mesmo que eu nunca a visse naquele horário em frente à própria casa, olhar para sua fachada era uma forma de dizer olá. Logo depois de passar por essa casa querida, eu teria de dobrar à esquerda, seguir mais alguns metros, até dobrar novamente, desta vez à direita, contornar uma rotunda e voilà: tchau, filha, boa aula!
Entre a dobrada à esquerda depois da minha amiga e a dobrada à direita, antes da rotunda, descobri uma casa azul. Uma casa toda de madeira, na esquina, pintada de um azulão, entre o meia noite e o safira..., ou seja, um azul corajoso para se ostentar pelo meio da rua. Foi amor à primeira vista.
Todo dia, encontrava novos encantos na casa: quintal com varais repletos de roupas dançantes, o que me fazia pensar na quantidade de gente que devia morar na casa, mas que eu nunca via naquela profusão; mandalas coloridas nas janelas, que me faziam imaginar que a casa era vaidosa por usar aqueles brincos bonitos; árvores, arbustos e flores em adorável liberdade, sem a coerção dos jardineiros contratados; uns tufos de gramíneas no telhado, que davam um aspecto de cabelos curtinhos e cheios de estilo... Uma casa que convidou o tempo de forma muito clara para habitá-la, o que incluía a necessidade de reparos..., mas tão bonita na sua maturidade que me parecida orgulhosa da sua decadência! Eu gostava mais dela por isso, por ser meio decadente e feliz, vestida de azul.
Todo dia, dávamos olá para a casa azul, eu e a filha. Com o passar do tempo, só eu passei a saudá-la, sob o silêncio de uma filha meio envergonhada da brincadeira; uma filha em pré-adolescimento. Mas eu sou determinada, passei até a diminuir a velocidade do carro, ooooláááááááááá, caaaasaa azuuuuuulll! E foi tanto o meu amor pela casa que inventei uma história sobre ela – a história de amigos que se encontram no portão depois de muitos anos... Não, nunca publiquei essa história.
Um dia, a amiga querida a quem eu ainda digo olá quando passo em frente à sua casa me contou que a minha casa azul estava à venda. Enviou mesmo o anúncio para mim. Não demorei a perceber que, embora precisada de cremes anti-idade de última geração ou até de enfrentar uma intervenção mais radical, a casa azul era muita areia para o meu carro popular. Encarei os fatos: a casa estava no meio de um quintal muito grande para aquele bairro, bom para construir...; estava situada em uma esquina pra lá de bem localizada... Era atraente para quem não teria o menor interesse pela sua beleza de tufos no telhado.
Mantive uma esperança de condenado: talvez a casa tivesse outros apaixonados, alguém mais abonado haveria de desposá-la para uma vida de mútuo respeito!!! Minha esperança durou alguns dias, menos do que pensei, levando-se em conta o preço anunciado... Logo, as mandalas sumiram e as janelas se fecharam.
Não descobri sozinha o destino da casa. Em um dia em que não fui levar a filha por qualquer impedimento, recebi a notícia de que pessoas se agitavam no terreno para desmanchá-la. Aquilo me fez tão triste que pedi ao mensageiro que naquele dia fatídico também buscasse a filha. Mas não consegui fugir ao enfrentamento da realidade. Um dia, eu me deparei com a casa sem teto.
Parei o carro. A filha se assustou. Mãe?... Só uma foto; só uma lembrança. Tirei duas fotos. Nos outros dias, acompanhei a demolição. Parei o carro novamente. A casa azul reduzida a uma imensa pilha de tábuas. Falei aqui em casa que queria uma das janelas de recordação, se viessem com os brincos ainda ia gostar mais! Onde você colocaria essa janela, mãe? Eu a colocaria deitada no lugar do corrimão que arranquei, só para poder acariciá-la...
Uma janela que vira corrimão é mesmo coisa da sua imaginação!...
Vi quando o caminhão começou a carregar as tábuas. Nos outros dias, a terra foi aplainada; sumiram até as flores e arbustos livres que faziam companhia aos varais. Um dia, porém, reparei que em um canto, havia uma coisa amarela no terreno sem graça. Mas a pressa me abrigou a seguir em frente. Mãe, estamos atrasadas? Só em cima da hora.
Fiquei intrigada com aquela coisa amarela, ao longo do fim de semana, e na segunda descobri que se tratava de um sofá. Um sofá amarelo-gema-caipira havia sido esquecido ali. Esquecido ou deixado de propósito? Um dos antigos moradores da casa teria deixado o sofá para algum amigo, que, naquele dia, ou no dia seguinte, passaria para pegar o presente? O fato é que se fosse o caso a pessoa demorava e, pela primeira vez, tive vontade de ter um carro maior e me converter ao crime...
 A vontade passou. Fotografei o terreno com o sofá, imaginando se descansariam ali espíritos de antigos moradores depois de um alegre sabá! Ri até da inovação do diabinho anfitrião, que escolheu um sofá amarelo para repousar os foliões dos festejos. Que animação!
Eu já me mudei muitas vezes. A casa em que morei há mais tempo é a casa em moro hoje, uma casa de que gosto muito. Esta casa é a casa da filha, entretanto, que nasceu aqui... Toda vez que pensamos deixá-la, a filha protesta e a gente se cala, em respeito. Ainda que esteja tão bem onde estou, não conheço o sentimento da filha. Meu sentimento pela casa azul defunta também não me parece semelhante ao sentimento da filha. A filha habita essa casa com suas travessuras, malcriações, sonhos e memórias; eu habitei por anos a casa azul com minha imaginação.
Ao longo desta semana, vou esperar que o sofá tenha sobrevivido à chuva do fim de semana e que seja logo resgatado pelo amigo que imaginei acima. Não estive entre os herdeiros nem da janela, nem desse sofá... Só tenho memória inventada e três fotografias: duas da minha casa azul sem o teto, o que me faz cantar a “casa muito engraçada”, e uma do sofá amarelo, que compartilho afinal aqui.

Se vou mudar de trajeto, para não confrontar meu luto com o espírito de seguir adiante, concretizado por uma nova edificação? Vou continuar meu caminho, levando a casa comigo, afinal quem é que me garante que aqui, onde estou, na casa da filha, não se organiza uma rave de espíritos inquietos das antigas edificações sufocadas, quando a gente tira férias e vai viajar, ou quando vai dormir?

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

O clube do livro de Marechal Cândido Rondon (PR) leu "Eu sou Malala" e conta para nós como foi!

Uma das grandes razões de LITERISTÓRIAS existir é compartilhar impressões sobre livros. Outra, sobre filmes! Mas nesse ano e meio de existência, tenho sido premiada com a colaboração espontânea (ou não... rsrsrs) de amigos, sobre diversos temas: sobre suas pesquisas, suas atividades profissionais e sua arte. Em 1º de agosto de 2016, publiquei um texto de Elaine Cristina Senko sobre o clube do livro de que ela faz parte na cidade de Marechal Cândido Rondon (PR). Ora, o tema CLUBE DO LIVRO já rendeu muito aqui também, afinal ainda estamos a ler Em busca do tempo perdido de Marcel Proust!
Desta vez, Elaine e uma amiga querida, Natânia Silva Ferreira, relatam brevemente suas impressões de leitura da autobiografia da jovem Malala Yousafzai e do filme sobre a sua vida. Mais uma reflexão sobre o gênero biográfico, em comemoração às mais de 100.000 visualizações em LITERISTÓRIAS!

Obrigada, queridas!

     Estudando por onze anos o tema do islamismo seja através da pesquisa ou através da atividade docente, poucas vezes ouvimos o relato de uma criança sobre a vida atual nos países do Oriente. Através de um momento trágico para uma criança, como foi para Malala, caracterizamos duas reflexões, uma que foi o ápice de um movimento destruidor contra os princípios pacifistas do islamismo e outra do despertar de um movimento pela educação feminina ultrapassando até as balizas de idade. Enfim, através do livro de 2013 Eu sou Malala e do filme de 2015 “Malala” podemos ter fontes autobiográficas sobre o tema.
     A luta pela educação é permanente no caso de Malala e nos faz acreditar como através dela podemos ser agentes sociais transformadores. Um dos aspectos que chamam a atenção no caso dessa jovem paquistanesa – para além da sua bravura – é a lembrança de que o islamismo é pacifista e de que os terroristas distorcem violentamente os princípios dessa fé. Apesar da tragédia que se abateu sobre Malala, ela continuou (e continua) forte e com ideais humanitários ainda mais claros.
     Destaca-se tanto na obra escrita quanto no filme a pertinência da formação intelectual do pai de Malala e seu anseio por melhorar a sociedade com a educação. A fundação de uma escola crítica inspira desde cedo Malala. Alimentada por saberes, cria uma esfera de combate contra a ignorância e a maldade imposta pelo talibã; combate ao confinamento das ideias propostas pelo grupo terrorista que resulta não só em submissão, mas em contra-ataque crítico. Percebemos também a defesa da cultura que não apenas está restrita ao protecionismo do Ocidente ou pela ameaça de não retorno, mas que nos comove pela função identitária. Acreditar no mundo de Malala é também acreditar na função social da educação, bem exemplificada na frase dita por ela: “Uma criança, um professor, um livro, uma caneta...”!
     Nessa afirmação de Malala encontramos respostas que realmente são capazes de gerar reflexões profundas no mundo: uma adolescente, Malala, com 15 anos de idade, lutou com bravura pelo direito à educação feminina; seu pai, um professor, ao criar uma escola mista, agiu de forma a tentar melhorar a qualidade de vida de outras crianças e de seus próprios filhos; um livro e uma caneta foram instrumentos usados por Malala para que o mundo soubesse de sua história inspiradora.
     O filme e o livro dão relevância para a questão da família, com lembranças do matrimônio dos pais de Malala. Chamam atenção as falas de seu pai no que diz respeito à mãe de Malala, quando ele comenta que os dois se completam: quando se conheceram, a mãe de Malala tinha 14 anos de idade e, enquanto o pai possuía uma formação cultural acadêmica, a mãe possuía beleza... A forma como o pai de Malala se expressou pode soar, para nós do Ocidente, numa diminuição da mulher, que possuía apenas beleza. Vale ressaltar, porém, que avançar nos estudos ou alcançar determinada formação não eram possibilidades muito exequíveis para as mulheres naquele contexto do islamismo paquistanês. Apesar disso, mesmo fazendo parte daquele cenário, os familiares de Malala não a privaram da educação e da liberdade. Liberdade que a menina ressalta nas obras, ao mencionar que, numa família de sua nação, seria comum que ela, além de não seguir nos estudos, já estivesse talvez casada e com filhos, mesmo na idade de 15 para 16 anos.
     A formação de seu pai permitiu que ele soubesse da importância da educação para o desenvolvimento dos filhos. A força e incentivo positivo da mãe de Malala também foram fatores importantes – pois dentro da cultura islamita daquele contexto específico, o papel da mãe de Malala poderia ter sido o de desestimular a filha em todos os assuntos voltados para a emancipação feminina no que diz respeito à educação.
Depois do atentado contra Malala, a família se mudou para a Inglaterra e ela está estudando, construindo uma história diferente de muitas das mulheres de seu país de nascimento construirão.

Elaine Cristina Senko e Natânia Silva Ferreira.

Sobre Elaine, peço aos leitores que evoquem o texto “Um clube do livro em Marechal Cândido Rondon – relato de experiência”. Já sobre Natânia, ela é doutoranda em História Econômica pela Unicamp, mestra em História Econômica pela USP e graduada em Ciências Econômicas pela UNIFAL-MG. Para conhecer suas pesquisas, recomendo:
http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4496326H2
Sobre Malala, evoco o discurso na ONU: https://www.youtube.com/watch?v=PLKpqajRruQ


Eis o clube do livro de Marechal Cândido Rondon. Alguma dúvida de que ler une as pessoas? Natânia é a primeira jovem à esquerda, sentada à mesa, e Elaine, a jovem de pé, mais alta.