segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Sobre ler a morte em O Caminho de Guermantes de Marcel Proust

Há pessoas que queremos imortais; personagens também. É claro que, no caso dos personagens, sempre podemos voltar as páginas e experimentar ser Domhnall Gleeson de Questão de tempo (About Time, 2013). Mas quando o personagem amado morre bem no meio da diegese, a gente vive um luto de leitor: sabe que ele ou ela se foi, que vamos terminar o livro sem a sua presença e que sua vida ficou para trás.  Nós prosseguimos com a memória das palavras que disse, das coisas que fez, de quem amou... Um dia, voltamos à estante de casa para lê-lo como quem recorre ao álbum de família, matamos saudades. Mas no momento em que o personagem é assassinato pelo autor, nós nos perguntamos: o que fazer?
Em O caminho de Guermantes, o narrador perdeu a sua avó e nós, a nossa. Foi com essa avó que Marcel saiu de casa pela primeira vez. No segundo volume (À Sombra das raparigas em flor), foi para o balneário de Balbec sem os pais. Alguém pode me dizer que ir à praia com a avó não é bem uma independência... Mas eu vou precisar recomendar (com muito gosto!) a leitura do volume; vou precisar evocar o incrível sofrimento da criança que esperava com furor o beijo da mãe para adormecer, no primeiro volume (No Caminho de Swann); os problemas de saúde, que certamente provocaram uma proteção e vigilância maiores e a cumplicidade com a avó. Só em sua companhia o narrador protagonista pode suportar a certeza: “Pela vez primeira tive a sensação de que minha mãe podia viver sem mim, dedicada a outra coisa, com outra vida diferente” (ASRF, p.200). A avó percebe o dolorido dessa descoberta e, graças à sua sensibilidade, eu – Marcella, xará desse narrador – descobri minha própria afeição por Madame de Sévigné[1]! Em Balbec, o quarto contíguo e a possibilidade das batidinhas nas finas paredes antes de dormir garantem o sono de Marcel.
Se em À Sombra das raparigas em flor, o protagonista experimenta a liberdade, ainda que tutelado pela avó; em O Caminho de Guermantes dá passos mais ousados para a sua construção como homem. Alguns desses passos são cheios de equívocos, hesitações, cenas ridículas..., mas quem nunca? Um sinal de ruptura com a tutela se dá na viagem que Marcel faz para visitar o amigo Saint-Loup, que está em manobra. É um mundo de militares, de charutos, de bebidas, de conversas que fascinam o narrador! Em uma manhã, Saint-Loup conta a Marcel que escrevera à avó do narrador para dar notícias do neto; uma ligação telefônica é feita; a consciência da passagem do tempo o atravessa na volta: “’como envelheceu!’, eis que pela primeira vez e tão só por um instante, pois ela desapareceu logo, avistei no canapé, congestionada, pesada e vulgar, doente, cismando, a passear acima de um livro uns olhos, um olhar um pouco extraviado, a uma velha consumida que eu não conhecia” (p. 127). Começava ali a nossa despedida.
A avó do narrador não morre subitamente, nós a lemos morrer. Lemos seu abatimento, acompanhamos seu desconforto, o susto do seu ataque e o que me comoveu foi a maneira como é narrada a sua debilitação progressiva. Matar uma personagem tão importante, pela qual o narrador tem tanto apreço e sou capaz de assegurar que o autor poderia imaginar que os leitores também teriam, não é uma coisa fácil. É preciso ser genial.
Semana passada, publiquei uma coleção de fragmentos impressionantes em que sobressai uma sinceridade sem desejo de agradar (para empregar eufemismo). Nas seções do clube do livro, muitas vezes, paramos para ler uns para os outros trechos que nos encantaram. Está claro para nós que estamos diante um grande texto, extraordinário, e eu fico feliz que sejam 7 volumes! Acho até que foi/é pouco, pois um dia vou ter de lidar com a verdade de que vamos terminar. O que me consola nessa noite de novembro é que ainda temos 4 volumes pela frente!
A promoção do protagonista como homem vai de encontro com a degeneração da avó, daí vermos Marcel um pouco exasperado com o ritmo da doente. Essa realidade não se opõe ao essencial no caso: a dignidade da personagem que morre. Ela se manifesta na narração (quem narra não é o mesmo que vive os acontecimentos...; o narrador protagonista os revoca) e na extraordinária coerência na constituição dos personagens. A última cena antes da segunda parte de O Caminho de Guermantes deixa a gente sem oxigênio: “Sorriu-me [a avó] tristemente e apertou-me a mão. Compreendera que era inútil ocultar-me o que eu logo havia adivinhado: que ela acabava de ter um ataque“ (p. 280).
O protagonista a leva rapidamente ao médico, que vaticina: “Sua avó está perdida” (p. 287). Em seguida, conduz a avó à casa da família. Sou levada a completar Barthes, para tantos fragmentos de discurso amoroso(!). A mesma mãe que “soubera viver” sem o filho para que este afinal crescesse devolve àquela a quem entregou a tutela de uma primeira liberdade a combinação rara de reverência, respeito e amor:

·        “Não queria que minha mãe notasse muito a alteração da fisionomia, o desvio da boca; minha preocupação era inútil: minha mãe aproximou-se de vovó, beijou-lhe a mão como a do seu Deus, susteve-a, carregou-a até o ascensor, com precauções infinitas em que havia, a par do medo de mostrar-se inábil e de magoá-la, a humildade de quem se sente indigno de tocar aquilo que conhece de mais precioso; mas não ergueu os olhos uma única vez e não olhou para o rosto da enferma” (p. 288);
·        “- Mamãe, em breve estarás curada, é a tua filha quem o garante.
E encerrando o seu amor mais forte, toda a sua vontade de que sua mãe sarasse, em um beijo a quem os confiou e que acompanhou com o seu pensamento, com todo o seu ser, até a borda dos lábios, foi depô-lo humildemente, piedosamente, sobre a fronte adorada.” (p. 289)

Choro novamente trazendo esses trechos para cá.
Esse Marcel Proust um dia levantou de manhã (ou não levantou, afinal escreveu deitado boa parte do texto!) com a necessidade de matar a avó do seu protagonista e deu-lhe uma morte de arrasar a gente, pelo que há de tão amoroso em quase todos aqueles que cuidam da personagem, mas, sobretudo, e quero destacar (acho a hipérbole importante no caso), pelo que conseguiu dar de dignidade a quem morre. A doença pode nos tirar muito, tudo, mas esse grande romancista não permitiu que sua personagem perdesse um milímetro de sua grandeza no caminho doloroso que teve de percorrer para morrer:

“Quando minha avó sofria assim, escorria-lhe o suor pela vasta fronte amarela, grudando-lhe as mechas brancas e, quando supunha que não estávamos no quarto, soltava gritos: ‘Ah! É horrível!’, mas se avistava minha mãe, logo empregava toda a sua energia em apagar do rosto as marcas de sofrimento, ou, pelo contrário, repetia os mesmos queixumes, acompanhando-os de explicações que davam retrospectivamente outro sentido aos que minha mãe pudesse ter escutado:
- Ah! Minha filha, é horrível ficar na cama com esse belo sol, quando se desejaria tanto sair a passeio. Choro de raiva com essas prescrições de vocês.” (p. 292)

Imaginamos a sua dor e só mesmo um personagem por quem se tem tanto respeito pode bradar por esse “belo sol” em um momento assim!
Entre a narração da degeneração progressiva da avó, imiscuem-se vários acontecimentos e considerações. É com horror que lemos o misto de insensibilidade e (/ou apenas) de despreparo com que Françoise penteia os cabelos da avó; que recebemos a visita do (este sim!) insensível Duque de Guermantes que esperava que a mãe do protagonista lhe fizesse sala enquanto a doente avançava sem desvios para o fim; que lemos considerações sobre a fama dos escritores: “Por certo acontece que unicamente depois de morto é que um escritor se torna célebre. Mas era ainda em vida, e durante o seu lento caminho para a morte, que ele assistia ao das suas obras para a Fama. Um autor morto é pelo menos ilustre sem fadiga.”(p. 294). Seria esse trecho uma interferência do autor-modelo[2]? Vejo uma ambiguidade no segundo período do trecho: a avó e Marcel Proust.
Queria voltar àquela dignidade de morrer. A avó ficou cega no seu lento percurso para a Fama, mas se esforçava para dar a quem entrava em seu quarto a ilusão da plenitude do sentido da visão. Ao ouvir qualquer pequeno barulho na porta do seu quarto, olhava sorridente na direção de quem adentrava, um olhar parado. O narrador utiliza a expressão “calma bravura de um estoico” (p. 302) e não economiza em quanto essa atitude foi testada na doença... Nenhum milagre, porém, vai beneficiar a nossa avó e é com a explosão dos soluços de Françoise que lemos afinal: “Súbito, minha avó ergueu-se a meio, fez um esforço violento, como alguém que defende a própria vida” (p. 311). Por favor, deixem-me reescrever isso: “como alguém que defende a própria vida”...
Os historiadores não têm inveja dos romancistas desde que Georges Duby escreveu Guilherme Marechal[3]! Sabemos que Duby vai até depois da evidência física na narração da morte exemplar do cavaleiro. Sabemos que a historiografia muito se beneficiou da Literatura no século XX para a construção da narrativa. Não sei se Duby leu Proust, arrisco que provavelmente, mas posso estar apenas a construir novos mitos. Todos os historiadores brasileiros leram a integralidade dos romances de Machado de Assis? Eu li, mas tive o benefício de ter sido aluna de uma grande especialista[4]! Essas coisas mudam a gente. Ora, a digressão desse parágrafo que, fora do blog, talvez fosse cortado por um bom editor, expressa a associação que fiz enquanto lia o respeito do autor por sua personagem depois do fim:

Algumas horas depois que Françoise pôde pela última vez, e sem maltratá-los, pentear aqueles formosos cabelos que apenas começavam a branquear e que até então haviam parecido de menos idade que ela. Mas agora, pelo contrário, só eles é que impunham a coroa da velhice sobre o rosto outra vez moço de onde haviam desaparecido as rugas, as contrações, os empastamentos, as tensões, as relaxações que, desde tantos anos, lhe vinham acrescentando o sofrimento. Como nos longes tempos em que seus pais lhe haviam escolhido um esposo, tinha ela as feições delicadamente traçadas pela pureza e a submissão, as faces brilhantes de uma casta esperança, de um sonho de felicidade, mesmo de uma inocente alegria, que os anos tinham pouco a pouco destruído. A vida, retirando-se, acabava de carregar as desilusões da vida. Um sorriso parecia pousado nos lábios de minha avó. Sobre aquele leito fúnebre, a morte, como escultor da Idade Média, tinha-a deitado sob a aparência de menina e moça.” (p. 311)

Cabelos jovens em um rosto sofrido; brancos, no rosto morto que remoçou; expectativa e desilusão... E vejam que esse bruxo francês, foi ele mesmo o responsável por me levar à Idade Média! Entre os túmulos de uma Saint-Denis literária, o autor esculpiu um rosto de menina no esquife dessa personagem extraordinária.   
Todo mundo conhece gente que se comportou muito mal na doença ou no fim mesmo; que magoou pessoas que amava; que se sentiu ofendido por memórias arqueologicamente recuperadas dos seus aterros sanitários interiores ou transformadas pela desrazão; gente que jamais pediu perdão. Algumas dessas pessoas foram atravessadas pela perda delas mesmas, que espaço haveria para a dignidade?... Um luxo impossível. Mas se é verdade que para Proust: “a vida verdadeira, a vida descoberta e esclarecida, a única vida, portanto, plenamente vivida, é a literatura”[5], a morte dessa personagem com quem fui a Balbec pela primeira vez e li Madame de Sévigné é um luto sentido e uma confluência inventiva para as duas avós que não conheci.











[1] Há 2 textos no blog sobre Madame de Sévigné: “Ah, sim, a senhora lê Madame de Sévigné” (parte 1) e “Ah, sim, a senhora lê Madame de Sévigné” (parte 2). Procure em “Sévigné”.
[2] Categoria de presente em: ECO, Umberto. Seis passeios pelo bosque da ficção. Tradução de Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
[3] Obra: Guilherme Marechal ou o melhor cavaleiro do mundo.  
[4] Profa. Dra. Marta de Senna, grande amiga e grande mestra.
[5] BORREL, Anne, NAUDIN, Jean-Bernard, SENDERENS, Alain. À mesa com Proust. Tradução de Ana Luiza Borges; Fernando Py; Maria Cecília d’Egmont. Rio de Janeiro: Sextante, 2013. p. 11.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O SUPER SINCERO MARCEL PROUST

Em O Caminho de Guermantes, 3º de Em busca do tempo perdido, sobretudo na segunda metade do volume, frequentamos o meio mofado que estraga os mais promissores talentos antes mesmo que floresçam. Ocupamos os cantos dos salões, em jantares povoados por conversas vazias em que até os mais interessantes escritores são citados em suas páginas menores... Mas em meio a tudo sobressai uma sinceridade que merece atenção:

·  Sobre quando as comparações arrasam o que é “excepcional”: “O espírito dos Guermantes (...) era uma reputação como as salsichas de Tours ou os biscoitos de Reims” (p. 411).

·        Sobre nada que preste: “Se naquele salão haviam ficado enterradas para sempre tantas ambições intelectuais, e tantos nobres esforços, das suas cinzas, pelo menos, havia nascido a mais rara floração do mundanismo”( p. 413).

·        Sobre ser sincero com surpresa: “Pouco interesse tinha essa frase de Bloch, mas eu a recordava como prova de que às vezes na vida, ante o choque de uma emoção excepcional, nós dizemos o que pensamos” (p. 453).

·        Sobre ser extemporâneo ou culpado mesmo: “É verdade que se fazem às vezes para os mortos coisas que não se fariam para os vivos” (p. 454).

·        Sobre arrebentar um elogio...: “- Que deliciosa criatura era ela...
- Sim, meio louca, um pouco insensata, mas era uma boa mulher, uma louca muito amável; só não compreendi jamais por que nunca havia ela comprado uma dentadura que se mantivesse firme....” (p. 456).

·        Sobre não saber do que o outro está falando e se entregar: “A princesa de Parma, que ignorava até o nome do pintor, fez violentos gestos de cabeça e sorriu com ardor, a fim de manifestar a sua admiração por esse quadro. Mas a intensidade de sua mímica não conseguiu substituir essa luz que permanece ausente de nossos olhos enquanto não sabemos de que nos querem falar” (p. 466).

·        Sobre prometer e não cumprir: “Eu tinha imaginado para o senhor coisas infinitamente sedutoras, que me guardara de revelar-lhe” (p. 498).

·        Sobre motivação: “É inaudita a fúria das pessoas de uma religião em estudar a dos outros” (p. 514).

·        Sobre os Guermantes e muitos mais... por Swann: “Primeiro porque no fundo toda essa gente é anti-semita” (p. 519).

·        Sobre não ter nada na cabeça: “Sempre é preciso que tenham uma opinião sobre tudo. Então, como não têm nenhuma, passam a primeira parte da vida a perguntar as nossas, e a segunda a no-las resservir” (p. 524).

·        Sobre ser cínico ou sem noção: “Há noites em que a gente preferia morrer! É verdade que morrer talvez seja igualmente aborrecido, pois não se sabe o que é” (p. 525).

·        Sobre o desencontro conjugal: “ – Mas onde vão meter uma tetéia [fotografia] desse tamanho?
- No meu quarto; quero tê-la diante de meus olhos.
- Ah, como queira; se fica no seu quarto, tenho a chance de não vê-la nunca” (p.531).

·        Sobre ser humano na aparência: “Colocada pela primeira vez na vida entre dois deveres tão diferentes como subir ao carro para ir jantar fora e testemunhar piedade a um homem que vai morrer, não encontrava nada no código das conveniências que lhe indicasse a jurisprudência a seguir e, não sabendo a qual dar preferência, julgou que deveria fingir que não acreditava na segunda alternativa, obedecendo assim à primeira, que demandava naquele momento menos esforço” (p. 532).

Se alguém me perguntar qual dessas sinceridades obtusas é a minha favorita, eu devo confessar que espero que, em Sodoma e Gomorra, o Barão de Charlus cumpra as suas promessas...rsrsrs Mas O Caminho de Guermantes é muito mais que essa coleção chocante de franquezas. É o volume que narra uma perda muito sentida pelos leitores. Fica para a semana que vem. 


segunda-feira, 7 de novembro de 2016

O Bar do Feio

Perto da casa de minha mãe, havia um bar, chamado Bar do Feio. Pouco depois que ela se mudou, um dia em que fui levá-la à sua casa, já tarde da noite, ela me disse: - Vira aqui à direita. Lá na frente, no Bar do Feio, você dobra à esquerda. - Bar do feio? Ri. – É. Riu.
Pertenço a uma família de excelentes motoristas, desbravadores de novos caminhos para onde quer que se deseje ir. Até os parentes que não dirigem são Ótimos motoristas, sempre com uma sugestão na ponta da língua. Minha mãe já abandonou o caminho do Bar do Feio, mas eu continuei muito apegada a ele. Mesmo quando eu já não precisava mais prestar atenção na referência, eu o saudava antes da dobrada. Dia desses, perdi o Bar e culpei a minha distração. Outro dia, mais aplicada, descobri que o Bar não existe mais e que o imóvel fora pintado com um amarelinho imperdoável.
Nunca entrei no Bar do Feio. Mesmo em minhas andanças pelo bairro – eu e minha mãe moramos a umas dez quadras de distância, no mesmo bairro – sempre encontrei o Bar fechado. Nenhum problema, afinal essas minhas andanças costumam acontecer pela manhã e, pelo que já percebi em saudações diversas, o Bar do Feio tinha outro relógio. Nunca soube o que era vendido ali. Sorte minha que tenho razoável imaginação para preencher suas estantes com coloridas bebidas de múltiplas preferências (minhas e de outras pessoas, em etapas diferentes da vida...); povoar o seu interior com mesas de quatro cadeiras; colocar um balcão espelhado ao fundo meio escuro, em que sobressaíam os clássicos: lindos ovos cor de rosa, azuis, verdes..., coxinhas gordas, quibes tão robustos quanto suas irmãs de exposição. Imagino que alguém secaria os copos em aparente distração, mas atentíssimo à contabilidade das doses. Vejo o quadro de preços com letras móveis, para facilitar a atualização. Não, não imagino sonhos, afinal há o carro que passa à tarde, anuncia-os e tira o meu sossego quando estou concentrada no escritório de casa. Acho que no Bar do Feio não eram vendidos sonhos, só imagino.
Desde aquela primeira vez em que fui levar a minha mãe e o Bar virou ponto de referência, eu me encantei com o misto de singeleza e sinceridade daquela esquina. Ninguém pichou a acusação. O nome do bar fora pintado diretamente acima da sua entrada, sem a necessidade de placas, em letras pretas. Alguém fez um plano, mediu, subiu em uma escada e pintou. Refleti algum tempo sobre o Feio: o dono? O seu pai? O seu melhor amigo? O seu sócio? O seu amor? Uma brincadeira? Estava bem escrito o nome do bar.
O Bar do Feio fechou. Acho que todo mundo pode imaginar o quanto a minha própria imaginação construiu explicações para o encerramento das atividades. 2016 vai ficar na minha biografia como um ano em que enxuguei lágrimas abundantes (minhas e dos outros) de sonhos abandonados e não posso deixar de pensar que entre imaginar o Feio resolvido a ser o Admirável ou o Gato no consultório de um cirurgião plástico e imaginar que ele faliu, eu tendo a achar que o Feio pode ser hoje o Devedor ou o Triste.
Há singeleza no amarelinho da nova fachada. Mas a nova cor cobrindo a sinceridade não instituiu para mim uma realidade muito significativa... Sou capaz de abandonar até aquela rua e me deixar levar por novos roteiros familiares. Agora me ocorre uma esperança: o Feio teria encontrado um ponto mais atraente? Calculará nesse momento o tamanho das letras em relação à nova fachada? Espero que diminua a distância entre o substantivo e a preposição com artigo e vire poeta de vez. Está aí um novo esforço para essa semana: encontrar o Feio e comemorar (com uma dose ou duas) a sua obstinação.